A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


[Comentários - 39]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

Sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cerveja não era exatamente a bebida favorita de Amanda, mas ela não podia beber nada forte por causa do seu trabalho. Havia marcado um lanche com Claudia e estava bebendo uma cerveja gelada enquanto ela esperava.

- Eu não sabia que vendiam bebida ao meio dia - Claudia disse enquanto sentava no banco ao lado de Amanda - E muito menos que você podia beber.

- Eu já passei dos dezoito há muito tempo.

- Você entendeu.                                                                        

- Eu posso beber sem ter uma crise - ela encolheu os ombros - E isso aqui nem é tão forte.

- Você não parece nem um pouco bem.

- Eu sei. Não é nada demais.

- Tem algo a ver com a sua namorada?

- Ex-namorada. Ela terminou comigo. Mas não exatamente, eu não estou bebendo só por causa dela - ela colocou o copo de volta na mesa - Enfim, você está muito mal?

- Não muito, só estou um pouco cansada. Mas não vamos falar sobre mim.

- E vamos falar sobre o que? Eu sou realmente boa em ouvir.

- Eu também. Então fala um pouquinho.

- Mas... Está bem, é que me ofereceram uma promoção.

- E isso é bom, não é?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos?

- Sim, não sei... me ofereceram um cargo legal em um projeto novo.

- E o que é esse novo projeto?

- Terapia para algumas crianças e pré-adolescentes.

- Isso é interessante.

- Talvez, mais benefícios e um aumento de cerca de 30% do meu salário.

- Parece maravilhoso, por que você não parece muito feliz com isso?

- Porque digamos que esse projeto não é aqui no Rio, então...

- Você vai ter que se mudar?

- Sim, para alguma cidade minúscula e quente no norte ou nordeste, eu não sei. Eu nem sei se vou aceitar.

- Parece coisa boa.

- Eu sei, só não sei se vou aceitar.

- Por que não?

- Eu não gosto muito de mudanças.

- Eu também não.

- É... posso fazer uma pergunta?

- Faça.

- Por que você me odeia?

- Eu não odeio você - Claudia encolheu os ombros - Eu fui uma babaca. Sua mãe sempre foi a melhor em tudo, acho que eu tinha inveja dela. E você é muito parecida com ela. E o TEI... e em vez de querer ajudar, eu só tentei te desprezar. Eu nunca te odiei, eu só estava agindo como se você fosse algum tipo de culpada de tudo. Me perdoa?

- É família, não é, é claro que eu perdoo.

Segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O paciente das duas já havia saído quando Arthur apareceu na porta do consultório, Amanda revirou os olhos, porém o deixou entrar. Ele estava vestido de um jeito mais social do que o costume. A calça social azul marinho, a camisa social branca com uma gravata vinho. A barba a fazer e o cabelo curto sem nenhum único fio de cabelo fora do lugar do penteado que ele mantinha.

- Ainda não vai me dar uma chance?

- Você é o meu passado, Arthur. Eu não te esqueci e nem perdoei, então não vou te dar outra chance.

- Por favor, Amanda - a psicóloga ergueu as sobrancelhas - Vamos...

- Você ficou meses sem me encher o saco, por que voltou agora?

- Porque eu não posso simplesmente desistir da mulher da minha vida, posso?

- Eu não sou a mulher da sua vida - ela revirou os olhos - E você não é o homem da minha vida, não é difícil entender. Além disso, no momento eu não estou disponível para ninguém, nenhum homem e nenhuma mulher. Só me deixe em paz.

Arthur cerrou os dentes quando Amanda se aproximou da porta e fez um gesto mostrando que ele deveria sair. Ele se aproximou dela e, em vez de sair, chutou a porta para que ela se fechasse. Ele agarrou os braços dela e a empurrou contra a porta.

- Você é minha.

- Me solta, está machucando.

- É isso que você quer, não é? - Ele prendeu os braços dela acima de sua cabeça - Que eu prove que eu sou homem o suficiente pra você.

- Eu quero que me solte, você está bêbado, Arthur.

- Não vou te soltar até você se entregar...

Ela o interrompeu acertando uma joelhada entre suas pernas, ele a soltou e se curvou com as mãos onde foi atingido. Amanda abriu a porta do consultório e o empurrou para fora, fechou e se trancou ali dentro. Sua respiração acelerada, as costas e os braços doendo. Ela se encostou na porta e escorregou no chão, seria um bom momento para ganhar um abraço de Simone.

Mas ela não tinha mais Simone, praticamente não tinha Julia e sua vida estava desmoronando.

Terça-feira, 25 de outubro de 2016

Amanda ergueu as sobrancelhas quando viu Mar, ela estava encostada no poste, os braços cruzados, fones de ouvido e balançando lentamente a cabeça com os olhos fechados. A psicóloga se aproximou, puxou o fone do ouvida da garota e perguntou:

- Esperando alguém?

- Esperando você - tirou o outro fone. Ela sorriu levemente.

- E como você sabe onde eu trabalho?

- Eu quase namorei a sua irmã, ela me falou tudo sobre você. Tanto que acho que eu te conheço melhor do que você mesma - ela desencostou do poste e enfiou as mãos nos bolsos do casaco - Posso te acompanhar?

- Claro - Amanda enfiou uma mão no bolso do jeans enquanto a outra mão segurava a alça da bolsa cheia de papéis, as duas começaram a andar em direção a estação do metrô - Você já se resolveu com a Ana?

- Sim, sim. Eu sei que eu errei feio naquele dia, que eu realmente exagerei. Não sei como ela conseguiu vir atrás de mim.

- Provavelmente porque ela realmente gosta de você - Amanda encolheu os ombros - Apesar de ela não estar exatamente certa em te perdoar enquanto ela estiver viva

- Talvez seja aquele ditado: se for pra ser será.

- Uma pessoa de vinte e oito anos com cara de vinte falando um ditado é estranho, sempre imaginei ditados como coisas de pessoas idosas.

- Mas a maioria dos ditados são verdadeiros, acredito que esse seja um deles.

- Talvez... você acha que eu e a Ana, sabe, é pra ser?

- Eu não sei, talvez. Você só vai saber se você tentar.

- Acha que vai dar mais certo do que com Julia?

- Bem, ela está te aguentando.

- Eu era pior.

- A Julia não aguentou e você não bateu nela.

- A Julia não transou com a minha melhor amiga - resmungou e enfiou o ticket pela fenda na roleta.

- Você está justificando? ­- Amanda também enfiou o ticket - Existe alguma justificativa boa para bater naquela garota daquele jeito?

Marisa abaixou a cabeça e começou a descer as escadas em direção a plataforma. Depois das sete, o metrô não ficava tão cheio, até mesmo era possível conseguir se sentar sem grudar desconfortavelmente em outra pessoa. Com esse fato agradável, Mar e Amanda se sentaram lado a lado. O vagão estava gelado a ponto do nariz arder, era o tipo de coisa que Mar gostava. Ela enfiou as mãos nos bolsos e encolheu os ombros. Ela estava incomodada, era algo que Amanda podia sentir.

- Sabe... às vezes parece que a violência é a minha natureza. Eu cresci sentindo tanta raiva, dor e medo todo o tempo e por causa disso eu sou um caos completo.

- As pessoas são caóticas.

- Você não parece ser muito caótica.

- Se eu parecesse, eu não faria meu trabalho direito.

- Faz parte do trabalho esconder?

- Acho que faz parte da vida - Amanda suspirou - Minha vida está um caos.

- O quanto caótico?

- Muito. Simone terminou comigo, Artur voltou a encher a minha paciência, Julia me odeia e a Claudia simplesmente voltou. Querem que eu trabalhe em um projeto novo.

- Projeto novo?

- É, psicólogos para um projeto social para crianças e pré-adolescentes carentes.

- E esse projeto é bom ou ruim?

- É um projeto interessante, mas não é aqui no Rio. Então não sei bem se eu deveria aceitar.

- Um pouco de mudança na sua vida, não é algo bom?

- Acho que sim - Amanda esfregou o rosto, quando ela levantou as mãos, as mangas da camisa escorregaram e deixaram a mostra as marcas de dedos.

- E o que aconteceu com você?

- Hm - ela abaixou os braços, Mar apontou para as marcas - Ah, não foi nada.

- Marcas de dedo assim não são "não foi nada". Quem fez isso com você?

- Marisa...

- Amanda.

- Foi o Arthur... mas não é nada.

- Ele machucou você.

- Ele não me machucou.

- Não foi uma pergunta.

- Eu sei que não, mas foi só um incidente.

- Incidente?

- Sim, não vai acontecer de novo. Ele só perdeu o controle por alguns segundos, me agarrou e eu o empurrei. Nada demais.

- E o que ele ia fazer se você não tivesse força o suficiente para empurrar ele? E o que garante que ele não vai fazer isso de novo?

- Não precisa se preocupar tanto comigo.

- Então olha pra mim e diz que realmente acredita que o Arthur não vai te machucar, que não existe a mínima probabilidade de ele te agarrar, chance zero dele estuprar você.

- Marisa...

- Vamos, diz pra mim - Amanda tentou encarar ela e dizer que sim, que acreditava que aquilo não aconteceria. Mas ela não tinha certeza, não tinha certeza de nada.

- Está bem, eu não sei.

- Então você deveria arranjar um jeito de se afastar dele. Se ele não for para esse projeto, você pode ir.

- Não precisa se preocupar.

- Claro que preciso - Mar suspirou e abaixou a cabeça, ela murmurou tão baixo que Amanda só ouviu porque estava perto - E eu sei o quanto isso dói.

- Oh... e quem...? - Mar respirou fundo, ela não gostava de falar sobre aquilo. Quase ninguém sabia, mas ela achava que se contasse um pouco mais para Amanda, talvez a convencesse de se afastar de Arthur.

-Eu não quero dar detalhes... foi realmente nojento, Amanda. E muito menos quero que você me olhe com pena. É só que se você tem alguma oportunidade de ficar longe de Arthur, é melhor fazer isso do que arriscar.

- Eu... eu sinto muito.

- Não sinta - Mar beijou a testa de Amanda quando o metro parou - É a minha estação. Confia em mim: melhor fugir antes que seja tarde demais.

Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

- Acho que bebi mais do que deveria - Marisa resmungou, ela estava tentando ficar equilibrada para andar em direção ao seu ônibus - Puta merda.

- Eu te levo pra casa, amor - Julia disse e colocou a mochila nas costas ­- Quer que eu carregue a sua bolsa?

- Não precisa, só preciso que me empurre para o ônibus certo.

Julia riu baixo, segurou o braço de Marisa e a guiou até o ponto de ônibus, a empurrou para que ela sentasse. Falou com o despachante, pedindo autorização para que elas entrassem pela porta traseira e depois ela passaria os cartões. Ele olhou rapidamente para a garota bêbada no bando e disse que elas poderiam entrar. Marisa morava longe, então Julia a puxou até o final dos ônibus, a fez sentar no bando ao lado da janela.

- Vem aqui - Marisa murmurou e abraçou a garota ­- Por que você está sentada do meu lado?

- E onde era pra eu sentar?

- No meu colo.

- Estamos no ônibus.

- E? - Marisa não respondeu, ela enfiou um braço por baixo dos joelhou de Julia e puxou, fazendo ela ficar sentada de lado no banco com as pernas sobre as suas coxas - Melhor agora, miniatura de gente.

- Sua babaca - Julia riu e passou os braços ao redor do pescoço dela - Você não pode fazer isso.

- Posso sim - sorriu - Eu ainda nem fiz o que realmente quero fazer.

- E o que você realmente quer fazer?

- Você sabe...

Marisa a beijou, claro que Julia sabia.

***

Julia ajudou Marisa a descer do ônibus, ela esperava que o motorista não tivesse sequer desconfiado do que havia acontecido nos bancos da parte de trás do carro dele. Ela gostava e como Marisa agia na maior parte do tempo, fofa e tarada ao mesmo tempo, elas acabavam combinando por causa disso. As duas gostavam de um momento "amorzinho" e de um momento quente ao mesmo tempo.

Elas subiram com o elevador. Julia apertou a campainha e um homem grande, o cabelo loiro acizentado curto em um corte meio militar, os olhos verdes mais escuros que os de Marisa, atendeu. Ele pareceu não gostar nem um pouco da cena. Ele foi ríspido ao mandar Julia ir embora, ela praticamente correu para longe dele sem fazer a mínima ideia do que aquilo significaria para o relacionamento que ela mantinha com Marisa.

O homem puxou ela para dentro, a mãe e a irmã apareceram e uma discussão calorosa começou. Marisa cuspiu tudo, o quanto detestava ir para a igreja, fingir ser a mulher perfeita, falou sobre o cigarro e a bebida. Falou sobre Julia. E é claro que ela não deveria ter mencionado aquele detalhe, já estava ferrada o suficiente sem que sua família soubesse.

Podemos te consertar. Seu irmão, que havia chegado depois que a discussão começara, falou. Nem sua mãe e nem sua irmã moveram um músculo quando os dois homens a arrastaram para o quarto vazio e pequeno, eles não tinham uma empregada e aquele quarto não tinha nenhum uso. Ninguém podia ajuda-la e nem salvá-la enquanto eles a "consertavam". Os chutes e os socos não a machucavam tanto quanto o fato deles, que deveriam ser a família dela e cuidarem dela, a violentarem daquele modo.

A noite inteira, horas entre socos e estupros, qualquer coisa boa dentro dela estava se desfazendo. E, de manhã, depois que eles saíram do quarto, tomaram seus banhos e saíram de casa, a mãe pegou uma mochila com algumas peças de roupa para ela. Então entrou no quarto, a agarrou pelo braço e arrastou para fora. Escadas abaixo, o caminho todo, quase setecentos metros em uma rua de pedras arrastando uma garota que mal conseguia andar, sangrando e ferida, até jogar ela para fora como se fosse um animal, um cão sarnento.

E ela faria Julia se afastar, machucaria o suficiente para isso, não queria pena de ninguém.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 01/04/2017 00:38 · Para: 04. Se For Pra Ser

 

No credito. .....Caracas meu..... Mar foi violentada pelo pai e o irmão. ....e rejeitada pela mãe no pior momento de sua vida.....não alcanço imaginar o estrago que isso fez na vida da Mar ou de qualquer pessoa. ...

ameiii  o capítulo 

rhina



Resposta do autor:

Pois é, ela passou por um inferno (mesmo que isso não justifique os erros que ela comete) 

 



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.