A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Simone estava sentada em sua cadeira giratória, preguiçosamente rodando, os olhos fechados e prestando atenção nas batidas da música. Nos últimos dias, quem estava ocupando sua mente era Amanda, deixando Lucas um tanto de lado. Porém, era quase uma disputa saber de quem ela sentia mais falta.

Apesar de saber que poderia dar um jeito e ter Amanda de volta, ela sentia uma dor maior quando pensava que era culpa dela. Culpa do que havia se tornado, ela própria havia expulsado Amanda da sua vida. Era mais ou menos a mesma culpa que ela sentiria se ela tivesse atirado em Lucas.

Ela olhou para sua mesa bagunçada, cheia de papéis e canetas. A maioria estava rabiscada com palavras aleatórias. Pegou um post-it, cinco versos sem rima escritos com sua letra desleixada.

Loucura consome minha mente

Um dia após o outro

Cansada de tudo isso

Apenas querendo dormir

Sem nunca acordar

— Sou uma idiota.

Ela resmungou, amassou o papel e jogou ele em direção a lata de lixo. Ela não era poetisa, apenas alguém viciada em ler. E que estava tentando desabafar sua dor de outros jeitos. Fosse em uma poesia cuja a primeira letra da primeira palavra de cada verso formava o nome de quem ela sentia falta. Ela suspirou e encontrou outro post-it, seis versos.

Antes de tudo acabar

Me ame outra vez

Até a minha exaustão

Não precisa parar

Dia após dia

Até o final dos tempos

Simone sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.

Ela precisava esquecer ou ela morreria, tudo aquilo estava a assombrando há dias e a fazendo se sentir um lixo podre. Simone já estava naquele ponto onde chorar não é mais o suficiente para que toda a dor seja colocada para fora. Então Simone lembro que poesias de cinco ou seis versos, música no último volume, doses de vodka e sexo com outras garotas não eram os únicos modos de aliviar uma dor emocional insuportável. Ela não queria se render, mas ela também não queria realmente morrer. Por isso, ela erraria mais uma vez apenas com a esperança de alguma hora realmente acertar.

Ela pegou um apontador e o rodeou entre os dedos, lembrando-se de uma história:

Estavam na sexta série, ela e Henrique sentavam um ao lado do outro. Estavam em julho, havia um garoto que sentava no fundo e não falava com ninguém. Sempre de casaco, touca e parecia eternamente triste. Naquele dia, ele se meteu em uma briga porque estavam jogando bolinhas de papel nele durante toda a aula. Ele contra cinco outros garotos e acabaram tirando o casaco, o expondo na frente de cerca de 40 alunos. Braços magros, pálidos, frágeis cheios de linhas vermelhas e cicatrizes, com curativos e band-aids. Ele fugiu da sala e nunca mais apareceu, mudou de colégio depois da humilhação. Chamaram ele de todos os nomes ofensivos: viado, bicha, baitola, fracote, maricas, fresco, louco e coisas assim.

Aquela imagem ficou na mente de Simone durante meses até que ela ouviu o termo “auto-mutilação”. Pesquisou o termo e encontrou imagens terríveis e depoimentos tão tristes que a fizeram chorar. Tantos modos diferentes, qualquer modo de se ferir era considerado auto-mutilação. Os braços daquele garoto sofreram muito com aquele problema e ela não sabia o que poderia ser tão ruim a ponto de fazer alguém ferir a própria pele.

Pelo menos, não sabia até aquele momento.

É um tanto óbvio do porquê disto estar sendo contado agora. É um tanto óbvio o que ela estava pensando enquanto olhava o apontador em sua mão. Ela o ergueu até a altura dos olhos, a luz brilhava na pequena lâmina do objeto. Ela franziu o cenho enquanto via o pequenino parafuso, os vincos nele para se tirar da estrutura de plástico eram pequenas, talvez a ponta de uma faca conseguisse ajudar.

Simone estava sozinha em casa, Patrícia só chegaria depois das oito. Então, ela saiu do quarto e foi para a cozinha. Procurou por uma faca de ponta que poderia se encaixar no pequeno parafuso. Então ela apoiou o apontador na mesa, se curvou e calmamente encaixou a ponta da faca, girou lentamente até soltar. Virou o apontador na mão, o pequeno parafuso e a lâmina caíram em sua mão. Ela foi até o quarto olhando aquilo na sua mão.

Sentou de volta na sua cadeira, jogou o pedaço de plástico e o parafuso na mesa, encarou a pequena lâmina entre o indicador e o polegar. Pequena e extremamente leve, fácil de se perder e Simone precisaria encontrar um lugar para esconder aquilo. Passou a ponta do indicador da outra mão pela lâmina, sentiu a dor fraca e viu algumas gotas de sangue. Ela colocou o dedo na boca e sugou o sangue, pressionando com a língua para parar de sangrar.

Ela colocou aquilo na mesa, cuidadosamente para não perder. Se fosse fazer algo ruim, que fizesse aquilo do jeito mais correto possível. Foi ao banheiro, abriu o armário debaixo da pia e pegou um rolo de papel higiênico. Na caixinha de primeiros socorros, haviam algumas coisas que poderiam ser úteis. Ela abriu, pegou a caixinha de chumaços de algodão e a garrafinha de álcool. Voltou para o quarto, deixou seus materiais na mesa e trancou a porta.

Seria como um ritual.

Ela tirou a camisa e abriu a porta do armário, havia um espelho que permitia ela ver uma boa parte do próprio corpo. Não comer direito tinha seu efeito, ela viu que estava mais magra. Suas costelas estavam perfeitamente visíveis, mais do que antes, o osso do quadril parecia mais proeminente. Os ossos nos ombros também, eles se destacavam contra a pele.

Simone molhou um chumaço de algodão e limpou um pedaço de pele, lado direito, abaixo das costelas. Com outro chumaço de algodão embebido no álcool, ela limpou a lâmina. Ela se olhou no espelho, sem camisa e uma lâmina na mão. Viu seu reflexo triste, abatido, quase como o de alguém morto.

Então ela o fez. O primeiro, apenas o primeiro. Encostou a lâmina na pele, empurrou e cortou. Ardeu, ela cerrou os dentes com força e grunhiu. O estava a garota que ela era? Aquilo era o seu salto para realmente se auto destruir. Fez outro e outro, linhas imperfeitas na sua pele, o sangue escorreu. Vermelho, rubro, escarlate, destacado contra a pele doentiamente pálida.

Continuou, um após o outro. Dois, quatro, oito, dezesseis. Ela parou, suas mãos tremendo e sem fôlego. A lâmina ensanguentada caiu de sua mão, gotas de sangue sujaram o chão entre seus pés. Ela se olhou no espelho, o sangue escorria dos cortes e chegavam na calça de pijama que ela vestia, era uma sujeira danada. Ela ignorou uma regra fundamental: nunca faça o seu primeiro corte.

Respirou fundo. Ela pegou o papel higiênico e enrolou a mão, do melhor jeito que podia, ela cobriu os cortes com o papel e pressionou. Suas pernas estavam trêmulas, então ela se empurrou até a cama. Caiu deitada de costas, ambas as mãos pressionando a barriga que sangrava. Colocou mais e mais papel higiênico. Ardia, era algo quente e úmido sob as suas mãos. Ela não morreria com aquilo, mas ela se sentia cansada, incrivelmente exausta. Ela fechou os olhos e se deixou mergulhar em um sonho, em uma lembrança boa com Amanda.

Sábado, 9 de Janeiro de 2016

 Simone empurrou Amanda até que as costas dela batessem na parede do quarto. Pedro e Julia estavam na sala assistindo um filme, mas Simone não estava interessada naquele filme. Então, não havia assistido nem vinte minutos quando decidiu pedir para Amanda ajuda-la a arrumar a bagunça que sua mala estava, porém, a maior parte das suas roupas estavam penduradas para secar. Então ela trancou a porta e beijou a psicóloga com toda a vontade.

— Já transamos na praia — Amanda murmurou enquanto Simone marcava o seu pescoço.

— Eu sei — ela respondeu, suas mãos na cintura da psicóloga desceram lentamente até estarem na sua bunda e apertou a carne com força.

Simone desceu mais as mãos e acabou por fazer Amanda subir no colo dela, as coxas ao redor do seu quadril enquanto a garota a segurava. Depois de alguns minutos se beijando naquela posição mesmo, Simone girou com a mulher pendurada nela e foi para a cama. Em poucos segundos, as roupas de Amanda estavam longe de seu corpo. Simone a puxou até que suas pernas ficassem para fora da cama e logo enfiou o rosto em um dos seus lugares favoritos.

Era uma coisa divertida e interessante: algumas vezes, Simone passava longos minutos nas preliminares, nos dias em que elas podiam passar horas fazendo sexo. E outras vezes, quando o tesão estava grande, Simone praticamente mal a beijava antes de enfiar o rosto e abocanha-la.

Não que Amanda tivesse um preferência, no final, ela chegava de qualquer maneira no ápice.

Mas uma coisa sempre acontecia: o abraço morno e carinhoso.

Depois de atingir sua meta favorita (fazer Amanda gozar), Simone subiu os beijos pela barriga psicóloga e a abraçou. Amanda passou os braços ao redor dos ombros dela e enfiou o rosto no seu pescoço.

— Eu amo você — Simone disse quando ela se afastou um pouco, acariciou o rosto da mulher com os polegares — Eu amo tanto você...

— Eu também te amo — a beijou delicadamente — Agora você pode devolver a minha roupa?

Simone riu e pegou a camisa e a calcinha dela, ajudou ela a se vestir. Amanda deitou e Simone se enfiou no seu peito, os braços ao redor da cintura dela e o ouvido colado no peito onde podia ouvir perfeitamente as batidas do seu coração. Era outro som que Simone amava.

Quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Simone cruzou os braços, com cuidado para não fazer seus cortes doerem. Os fones enterrados nos ouvidos e a batida enchia a sua mente. Ela fechou os olhos e apoiou a cabeça no vidro atrás dela. Ela não havia prestado atenção na aula do dia, estava apenas pensando no que havia feito no dia anterior. No quanto aquilo ardia por baixo da blusa.

Ela sentiu uma mão no seu ombro, abriu os olhos e viu Mar.

— Oi — tirou os fones de ouvido e viu a garota sentar do seu lado.

— Oi — respondeu e tirou o maço de cigarros — Você não parece muito bem.

— Não dormi direito — encolheu os ombros e observou ela tirar um cigarro do maço — “Vocês fumam para apreciar, eu fumo para morrer”, essa frase combina contigo?

— Combinava, acho que a minha namorada não gostaria que eu morresse.

— Eu também não gostaria. E quem diria que você deixaria de ser uma cafajeste, não é mesmo?

— Acho que é mais impressionante alguém me fazer mudar do que eu mudar — ela cobriu a ponta do cigarro para evitar o vento e o acendeu.

— As duas coisas me parecem impressionantes — Mar riu baixo — Você nunca fica sem um cigarro na boca?

— Só quando ela está ocupada. Mas não importa, eu reparei que você não estava prestando muita atenção na aula de hoje.

— Estava pensando que eu deveria estar dormindo em vez de estar na aula.

— Eu sei que as aulas são chatas, mas fazer o que? Você precisa assistir elas se quiser alguma coisa da vida.

— Eu sei disso — ela viu o motorista se aproximar do ônibus e sentiu um pequeno alívio, ela não queria realmente conversar com Mar porque morria de medo da garota notar que havia algo de errado com ela — Te vejo amanhã.

Mar levantou atrás dela, segurou seu braço para que ela não subisse imediatamente no ônibus. Ela beijou sua bochecha e murmurou no seu ouvido:

— Só não faça nada de ruim contra si mesma.

E deixou Simone entrar no ônibus.

A garota sentiu uma culpa dolorosa se espalhar pelo seu corpo, quase como se Mar pudesse ler os seus pensamentos, saber o que ela estava escondendo. Ela fechou os olhos, procurou outra música para ouvir enquanto o seu ônibus sacudia para fora do terminal. Ela estava enjoada, apesar de só ter tomado uns dois copos de água.

Quando desceu no seu ponto, Simone praticamente correu até a casa. Ela largou a mochila no corredor e se enfiou no banheiro, ela se apoiou na pia e respirou fundo. Abriu a torneira e jogou água gelado no rosto. Ela se olhou no espelho, parecia ainda mais cansada do que no dia anterior. Tirou a camisa do uniforme e a blusa de mangas compridas e olhou para as feridas, estavam vermelhas, coçavam e ardiam.

Ela tirou o resto das roupas e se enfiou debaixo do chuveiro, a água gelada bateu em seu corpo e tirou todo o suor que estava nele. Ela deixou que as lágrimas escorressem junto com a água, ela não queria precisar daquilo.

 

Abaixou a cabeça, respirou fundo e apenas se sentiu desabar cada vez mais.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 31/03/2017 21:30 · Para: 03. O Primeiro

 

Eh.....autodestruição. .....

Simone. .....terá volta. .....

rhina



Resposta do autor:

Talvez sim

Talvez não 

Provavelmente 



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