A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Sábado, 07 de janeiro 2017


 Era mais ou menos três da manhã quando Simone acordou. Estava sozinha na cama, encolhida debaixo de um lençol exatamente do mesmo jeito que Amanda havia colocado ela horas antes. O brilho da tela do telefone quase a cegou, como era de se esperar. Ela não o desbloqueou e nem reconfigurou a luminosidade do aparelho, jogou ele de volta na mesa de cabeceira e saiu da cama. O chão estava gelado, contra seu corpo quente a fez despertar como sempre acontecia. Simone se espreguiçou um pouco, os cortes na barriga arderam, assim como a pele sob a cola forte do esparadrapo do curativo que Amanda fez do melhor jeito possível (quem era boa em curativos era Julia). 


Simone se arrastou para fora do quarto, estava com sede e queria saber onde Amanda estava. Ela se distraiu do seu objetivo de beber água quando encontrou a cena na sala. 


O abajur estava aceso, Amanda estava deitada no sofá em um posição que claramente mostrava que ela estava sentada e havia escorregado, o livro caído no chão era uma prova disso. Almôndega estava deitada no peito dela e a psicóloga estava com um braço segurando a cachorra e outro estava para fora do sofá, o celular caído perto da sua mão era mais uma prova que ela havia dormido ali sem ter a intenção de dormir. Simone sorriu com a visão adorável. Porém, por mais fofo que fosse, Amanda provavelmente ficaria com uma dor nas costas quase insuportável se ficasse a noite inteira assim. Simone, com todo cuidado possível, tentou pegar o filhote sem acordar Amanda.


— Sai, não — foram as únicas coisas que Simone distinguiu de uma fala sonolenta. Amanda levantou o outro braço e abraçou mais a cachorra. 


— Você precisa ir para cama.


— Hm.


— Amanda? 


— O que é?


— Vamos pra cama. 


— Mas eu tô confortável aqui. 


— Você não vai dizer isso de manhã. Ela pode ir pra cama também. 


Amanda gemeu, mas acabou levantando com a cachorra nos braços e deixou Simone empurrar ela para o quarto. Se jogou na cama, Almondega mudou de posição até estar confortável novamente, Simone sorriu. Ela havia feito algo do tipo algumas vezes, mudar de posição até que estivesse confortável no colo de Amanda. 


— Não vai deitar? — Amanda perguntou sem abrir os olhos, mas sua voz parecia menos sonolenta.


— Eu já vou — Simone sentou na cama. Amanda empurrou a cachorra no seu peito um pouco para o lado. 


— Tem espaço pra você também. 


Simone sorriu e deitou, a cabeça apoiada no ombro da psicóloga e um braço por cima dela na altura do estômago. Ela podia sentir o calor da cachorra perto, as pontas dos pelos (que estavam bagunçados com toda a movimentação, Almondega só podia estar com muito sono para não acordar) roçando no seu braço enquanto o filhote subia e descia no ritmo da respiração de Amanda.


Amanda puxou ela um pouco mais para perto, ela deixou uma mão escorregar para debaixo da camisa e começou a acariciar lentamente. As pontas do dedo subindo e descendo pela curva da cintura e chegando ao cós dos shorts. Quando ela deixava os dedos subirem mais um pouco


— Se sentindo melhor?


— Uhum.


— Mesmo? 


— Uhum.


Amanda podia sentir as costelas da garota quando seus dedos subiam um pouco mais. Sentir mais do que o comum, contar algumas em vez de sentir uma ou duas. Ela não gostava nem um pouco do quanto a garota estava magra. A sensação era desagradável.


Ela esperou Simone dormir para se deixar relaxar.


Terça-feira, 10 de janeiro de 2017


Simone acordou sozinha na cama. Suspirou, ela não gostava de acordar sozinha. Com todo mau humor matutino de uma pessoa que não era muito fã de acordar cedo e que sabia que estava numa situação meio delicada, ela saiu da cama com um nível de ânimo muito abaixo de zero. Ela parou perto do jeans e enfiou a mão no bolso que ela sabia que tinha colocado a caixinha. E não estava lá. Então olhou em todos os bolsos, talvez ela tivesse se enganado… e não estava lá. Fazia uma semana, Amanda demorou uma semana para encontrar (e Simone se perguntou se ela poderia ter cortado mais um pouco durante aqueles dias). Suspirou, assim como a gaveta com todas as facas (desde as comuns até a maiores e que Amanda não conseguia usar sem se machucar) estava trancada com um cadeado (e uma chave estava com Amanda e a outra com Julia), até os garfos não eram acessíveis, claro que Amanda encontrou e se livrou. 


Simone havia checado, claro. A escrivaninha bagunçado de Amanda e a organizada de Julia só tinham canetas e lapiseiras, lápis se tornaram inúteis porque as duas se livraram dos apontadores. A lâmina do processador estava junto com as facas. Talvez Amanda tenha lidado com automutilação o suficiente para evitar tanta coisa que era irritante. 


Todos aqueles produtos de limpeza venenosos? Em nenhum lugar acessível. A rede nas janelas foram reforçadas, as garrafas de bebidas esvaziadas, as garrafas de água feitas de vidro também não estavam em algum lugar acessível. As únicas coisas no armário do banheiro eram a pasta de dente e as escovas. Nem mesmo o fio dental estava lá.


Simone suspirou, ela sabia que Amanda não estava errada, era só sua mente que não gostava da sensação de prisão.


A garota trocou a camisa sem mangas por uma de mangas compridas antes de sair do quarto. Ela lavou o rosto, a água gelada despertando ela mais um pouco. Ela não olhou seu reflexo no espelho, ela não precisava disso para saber que parecia exausta.


— When the tears come streaming down your face. When you lose something you can't replace. — Ela ouviu a voz de Amanda antes de chegar na cozinha, a mulher não estava cantando alto o suficiente para incomodar, só o suficiente para ser mais do que um sussurro — When you love someone but it goes to waste. Could it be worse?


Amanda estava colocando algumas fatias de queijo em cima do presunto que já estava no pão francês, o que fez Simone ter certeza que Amanda não estava fazendo aquilo para si. No fogão, uma leiteira estava esquentando.


— Lights will guide you home. And ignite your bones. And I will try to fix you


Amanda bebeu um gole da caneca perto de si (que Simone tinha quase certeza de que era leite com Nescau) e fechou o sanduíche. Colocou ele cuidadosamente ao lado do outro e fechou a sanduicheira, ligou ela torrar o pão e derreter o queijo. 


— High up above or down below. When you're too in love to let it go. If you never try you'll never know. Just what you're worth


Julia sabia fazer direto numa frigideira (e ela tinha um belo método para fazer a coisa ficar fina envolvendo uma escumadeira reta, um amassador de batatas de madeira e a velha e boa força do muque). Mas bem, Amanda comia melhor do que cozinhava então vamos deixar ela usar uma sanduicheira elétrica para evitar acidentes envolvendo fumaça e machucados. 


— Lights will guide you home. And ignite your bones. And I will try to fix you… — Amanda acabou virando e viu que Simone a observava, sorriu para ela. Não o sorriso brilhante de antes, mas também não era um sorriso forçado, e tirou os fones de ouvido — Eu te acordei? 


— Não. Pode continuar cantando, se quiser — a psicóloga corou — Achei que não sabia cozinhar.


— É só café e pão quente, eu não vou incendiar o prédio por causa disso.


— Eu não duvido da sua capacidade de se machucar na cozinha.


— Isso é ofensivo — apontou para ela, os dedos sujos de margarina — Retire o que disse, menina. — Não, doutora. Misto quente? 


— Uhum. Eu queria fazer hambúrguer, mas… 


— Mas você vai ganhar queimaduras de terceiro grau se fizer isso.


— Não, mas não tinha pão de hambúrguer na padaria então comprei queijo e presunto. Talvez eu faça pro lanche.


— Não acha meio perigoso essa coisa de você fritar? 


— Olhe aqui, eu sei fazer um hambúrguer.


— Não duvido, o que me preocupa é o risco de efeitos colaterais. 


— Eu só não estou acostumada a cozinhar, por acaso você e a Julia tem alguma espécie de complô contra a minha habilidade de cozinhar. 


— Sua inabilidade de cozinha, você quer dizer.


Amanda grunhiu e lavou as mãos. Simone sentou na parte limpa do balcão, ao lado de onde Amanda estava fazendo os sanduíches. Observou a psicóloga colocar com todo cuidado a água no filtro com pó de café. Quando a luz verde da sanduicheira acendeu, Amanda abriu e usou uma escumadeira reta para tirar os dois sanduíches perfeitamente dourados e com um cheiro maravilhoso e colocar eles num prato. Então ela tirou os pedaços de queijo que grudaram na chapa antes de colocar mais dois sanduíches. Ela fez a caneca de café para a garota e quando os sanduíches dela ficaram prontos, ela sentou no balcão. Simone olhou para ela. Por mais que dissessem que os seus olhos fossem bonitos, ela tinha certeza que os de Amanda eram mais. Simone se inclinou para beijar ela. Amanda se afastou e antes que Simone pudesse se sentir rejeitada, ela falou:


— Eu realmente odeio queijo mussarela, então beijos só depois que você escovar esses seus dentinhos aí.


A garota riu e mordeu outro pedaço do misto quente, ela podia esperar um pouco mais. Ela observou Amanda morder o pão, a fumaça saindo do presunto e a psicóloga não pareceu se importar muito. Ela soltou um pouco de ar, meio bufando, fazendo fumaça sair da sua boca.


— Como você consegue fazer isso? 


— Hm? — Amanda grunhiu com mais pão e presunto enfiados na boca. 


— Comer isso, está saindo fumaça.


Amanda engoliu: — Não está tão quente assim. E eu estou com fome.


— Você nasceu para comer, não foi?


Amanda encolheu os ombros, ela realmente gostava de comer. Quem não gosta?


Elas terminaram de comer e Amanda desceu do balcão. A psicóloga lavou a louça e guardou a faca na gaveta e fechou com o cadeado. 


— Até a faca de pão, Amanda? 


— Precaução — Simone revirou os olhos.


— Não precisa de tudo isso.


— Sim, precisa — Amanda secou as mãos e se aproximou dela — Eu não quero… — suspirou — Não quero que você se machuque.


— Eu estou bem.


— Aham, sei.


— Eu estou — cruzou os braços — Eu estou bem, Amanda.


— Me engana que eu gosto.


— Você não acredita em mim.


— Não quando você diz que está bem quando claramente não está.


— E não confia em mim. 


— Eu não confio no que você pode fazer consigo mesma.


— Eu sei me cuidar.


Amanda abaixou a cabeça e apoiou as mãos na bancada, uma de cada lado da garota sentada na sua frente. A psicóloga estava com uma blusa sem mangas que um dia foi do tamanho certo e ela usou vezes o suficiente para o tecido não se manter do mesmo tamanho e uma das alças escorregava pelo seu ombro. Simone podia ver os ombros tensos, os braços também enquanto ela se segurava com toda força na bancada.


— Eu só… eu estou tentando te proteger — Amanda falou sem erguer a cabeça — E me proteger.


— Se proteger do que? 


— Da dor de te perder.


Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


Era quase onze da noite, Simone estava cochilando na poltrona com o livro (um belo calhamaço) apoiado no colo, junto com o telefone, os fones de ouvido e era um daqueles poucos momentos em que ela parecia só uma garota de dezessete anos e não alguém tão quebrado.


Amanda e Julia estavam no sofá. Julia estava meio prestando atenção no filme e meio prestando atenção em Amanda. A psicóloga estava com uma perna presa debaixo da outra e na mão havia um pote cheio de feijão e arroz requentados que ela estava comendo com uma colher enquanto assistia ao filme. Julia agarrou o controle e tirou o som, o que fez Amanda grunhir e olhar pra ela. A psicóloga engoliu o que estava na boca antes de protestar:


— Eu estava assistindo!


— Precisamos conversar.


— Agora? 


— Sim. Leva a Simone pra cama — Julia levantou e tirou o pote das mãos da psicóloga — É uma coisa séria e você não vai fugir de mim.


Amanda abriu e fechou a boca algumas vezes como um peixe fora d’água antes de levantar. Ela tirou o livro do como de Simone e levantou a garota. Ainda era desconfortável como ela era mais leve que antes, do que quando começaram a namorar, mas ela estava ganhando algum peso. Afinal, ninguém consegue morar com Amanda e não comer no mínimo quatro vezes por dia (mas Amanda comia mais, claro).


Quando Amanda voltou para o sofá, as duas estavam sentadas de lado no sofá agora, uma em frente a outra. 


— O que aconteceu?


— Eu falei com a Mar — em meio a postura de Amanda mudou de apreensiva para defensiva.


— Pensei que odiasse ela.


— Eu precisava saber o que aconteceu. Eu esperei e esperei e você não tocou no assunto.


— Porque não precisamos conversar sobre isso.


— Sim. A Simone merece saber.


— Eu não vou contar. E nem você.


— É a melhor amiga dela. Ou era.


— Eu sei. Olha, eu conversei com a Mar, okay? Sobre o que ela fez e porque ela fez. Eu não vou defender, mas… ela só foi longe demais.


— Longe demais? Ela defendeu a garota e depois ela estuprou a garota. Não faz sentido nenhum.


— Amanda… 


— Não faz sentido!


— Eu sei. Mas me escuta, por favor — Amanda bufou — O que está acontecendo é exatamente o que ela queria. Ela fez algo ruim o suficiente para a Ana desistir dela, para você desistir dela.


— O que ela fez foi cruel.


— Eu sei — Julia se aproximou e colocou uma mão no ombro de Amanda — Ninguém odeia ela mais do que ela própria.


— E o que eu deveria fazer? Dar uma chance? Eu não posso — ela se encolheu — Não agora. 


— Eu sei… eu também não faço ideia do que deveríamos fazer. Que tal você continua tentando cuidar da Ana e eu me viro com a Mar?


— E se ela… 


— Ela não vai me machucar.


— Disso você não sabe.


— Sim, eu sei. Sabe como? — Amanda negou com a cabeça — Porque ela está ocupada sendo autodestrutiva. Eu fui lá, Amanda… É assustador o que alguém pode fazer consigo mesma. 


Amanda sabia que era assustador. Ela mandou mais de um paciente para um psiquiatra porque estavam além do que só a terapia podia fazer para resolver (e ela sabia que precisava trazer o assunto à tona e marcar uma consulta para Simone). Julia passou os braços ao redor do seu pescoço e Amanda se enterrou no abraço, as mãos agarrando as costas da camisa e se controlando para não segurar Julia com força demais. 


Depois de alguns minutos de silêncio, Julia teve coragem para tentar abordar o segundo tópico que era realmente importante de ser discutido o mãos breve possível.


— Amanda?


— Hm? 


— Não era só isso que eu queria falar.


— O que foi agora? 


— É sobre a Simone.


— O que sobre a Simone? 


— O que você sente por ela — Amanda se afastou em um segundo.


— Eu sabe que eu a amo.


— Uhum, eu sei. Eu só não sei se vocês já perceberam que não é exatamente do mesmo jeito.


— As coisas mudaram.


— Exato, o jeito como você olha pra ela também — Amanda franziu o cenho — Eu conheço você. E eu vi vocês. Eu vi você se atrair por ela, depois amar ela como se a sua vida dependesse disso. E agora… você olha para ela como você olhava pro Arthur — Julia puxou o ar com força antes de continuar — O tipo de amor que só está machucando você.


— Eu a amo muito mais do que eu amei ele.


— E esse é o problema, porque se ele conseguiu quebrar você daquele jeito, ela vai fazer muito pior. E não é exatamente sobre amar mais ou amar menos. É sobre você continuar dando ela alguma esperança.


— E ela não merece esperança?


— Não em tudo. Você continua dando esperança de que vocês podem ficar juntas, que isso vai dar certo. 


— Julia…


— Vamos — segurou as mãos da psicóloga — O que você acha que vai acontecer? Que alguma hora tudo vai ficar bem e vocês vão ser como eram?


— Eu não sei, eu não faço ideia.


— Eu sinto muito, Amanda, mas você não pode curar ela. Você não pode salvar ela. Se você der mais do que você está dando, o que vai restar? — Amanda abaixou a cabeça, Julia havia olhado para ela daquele jeito quando estava tentando convencer o quanto Arthur só fazia mal — Quem vai salvar você?

Nome: rhina (Assinado) · Data: 04/08/2017 00:18 · Para: 22. Quem Salva o Herói?

 

Oi

Boa noite 

estou triste. ...pela Mar.....

pela Amanda e Simone. ...tudo leva a crê que elas não ficaram 

juntas.....as coisas se quebraram. ...rumos inesperados surgiram 

novas situações 

o lindo amor que as unia.....ruiu.

rhina



Resposta do autor:

Oi

'Noite

É, tudo está basicamente no fundo do poço para todas elas



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