A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Iago Mendes estava irritado, muito irritado. Puto com os seus pais. Ele estava com uma expressão emburrada, os olhos negros. Ele estava batendo com o pé no chão em um ritmo rápido e irritando, seus dedos batucavam o braço da cadeira enquanto ele falava de mau humor:

— E, além de toda essa merda, meus pais me colocaram de castigo: duas semanas sem internet. Minha vida está uma merda — o garoto bufou, frustrado, cruzou os braços com uma expressão emburrada.

— Então use esse tempo para estudar — Amanda falou calmamente, seu relógio apitou, marcando o fim da sessão.

— Vou pensar nisso — ele resmungou.

— Ótimo. Te vejo semana que vem.

Ele não respondeu, assentiu, mau humorado, e saiu do consultório. Amanda fechou os olhos, sua cabeça estava pulsando como se alguém estivesse batendo com um martelo a parte interna de seu crânio. Ela massageou lentamente as têmporas, tentando diminuir um pouco a pressão. Lentamente, ela pegou uma caneta e anotou algumas coisas sobre aquela sessão, sua letra saiu desleixada e levemente tremida. Simone cerrou os dentes e jogou a caneta e o bloco de notas na sua mesa.

Ela olhou para o relógio, nove para o meio dia. Tinha marcado para almoçar com Julia. Quando deu meio dia, ela saiu do consultório e desceu pelas escadas. Assim que ela chegou na calçada, viu seu carro parar no meio-fio. Julia apertou a buzina brevemente e Amanda entrou no carro. Mesmo que conseguisse dirigir apenas se sentindo nervosa, Amanda havia decidido que realmente deixaria o carro com Julia.

Apesar do restaurante ser perto da clínica, Julia precisava ir de carro porque a faculdade era relativamente longe. Amanda observou Julia dirigir, concentrada no trânsito. Era um trajeto rápido, então em dez minutos, elas já estavam na fila do self-service.

Ao contrário do que sempre fazia, Amanda colocou pouca comida no prato, só o suficiente para continuar de pé. Ela adorava a comida daquele lugar e normalmente enchia o prato, comia tanto que ficava se sentindo inchada. Tão cheia que poderia explodir se levasse um soco no estômago. Porém, ela não estava com vontade de comer.

Depois de fazerem seus pratos, pegarem suas bebidas e pagarem a conta, elas sentaram em uma mesa perto da janela. Tinham uma visão legal dos carros passando na avenida do lado de fora. Julia abriu a soda dela, tinha algumas coisas para contar para a irmã.

Depois de falar durante cinco minutos, Julia percebeu que Amanda não estava prestando atenção nela. A psicóloga estava mexendo no arroz com o garfo distraída. Os olhos castanhos opacos e vazios, ela tinha uma expressão triste.

— Você não está prestando atenção em mim — Julia bufou — Por causa dela, não é?

— Eu já entendi que você está com raiva dela, não precisa reafirmar isso toda hora e todos os dias.

— Eu só perguntei...

— Com esse tom de raiva, eu conheço você. É o mesmo tom com que você fala de Arthur.

Amanda deixou o garfo no prato praticamente intocado, ela havia perdido a fome. Perder a fome era algo que andava acontecendo demais, mas ela era racional o suficiente para se obrigar a comer e a manter a comida no estômago. Ela não pretendia chegar ao fundo do poço outra vez, então se forçaria a ter a mesma velha rotina. A viver exatamente como vivia antes de Simone entrar na sua vida.

Só havia um problema com isso: agora ela sabia como era viver com aquela garota na sua vida e isso era viciante.

Amanda bufou, terminou de beber seu refrigerante, murmurou uma despedida para Julia e saiu do restaurante. Como era perto do consultório, ela caminhou lentamente em direção ao prédio. Ela travou por um segundo quando viu uma figura encostada no poste em frente ao prédio. Claudia, com os braços cruzados e claramente esperando por ela. De longe, já era possível ver que ela estava bem mais magra e pálida do que parecia da última vez que Amanda a viu. Amanda respirou fundo, se aproximou dela e perguntou:

— O que você quer?

— Precisamos conversar — o tom de voz dela não era ameaçador ou frio. Na verdade, era suave, delicado, parecido com o tom de voz com que Carmem falava. Isso pegou a mulher de surpresa, o que fez a sua guarda praticamente desmoronar — Eu não vim para brigar, eu não vim para atacar.

— Okay... então, vamos entrar. Não é exatamente confortável conversar no meio da rua.

Claudia assentiu e seguiu a sobrinha. Amanda fez um sinal para que a mulher esperasse perto da porta e se aproximou do balcão. Ela falou para Diego:

— Ela vai entrar comigo.

— E quem ela é? — Ele perguntou enquanto se curvava para a direita, olhando para a mulher.

— Minha tia.

— E você tem uma família além da Julia?

— Mais ou menos — Amanda resmungou.

— Mais ou menos? Você nunca...

— Cala a boca e me dá o formulário.

Diego revirou os olhos, Amanda às vezes podia ser bem rude. Na verdade, ele mesmo sabia que era um tanto irritante. Ele pegou um formulário e entregou para ela junto a uma caneta. Era preciso preencher aquele formulário toda vez que alguém que não fosse um paciente quisesse entrar no consultório de um dos psicólogos. Amanda preencheu o formulário rapidamente, rubricou e entregou para Diego. Ele conferiu rapidamente e disse que Claudia poderia entrar.

A mulher seguiu Amanda. Ela nunca havia entrado no prédio, então quando entrou no consultório, ela observou ao redor. Viu como era pequeno e confortável ao mesmo tempo. A psicólogo apontou para a cadeira, Claudia se sentou e Amanda foi para seu lugar.

— Então, o que te trouxe aqui?

— Eu vim pedir desculpas.

— Desculpas — Amanda ergueu lentamente as sobrancelhas — Desculpas depois de o que? Vinte anos me odiando?

— Eu estava errada... muito errada. E eu já tinha percebido isso, mas... mas eu sou orgulhosa demais.

— E o que te fez mudar de ideia? O que te fez vencer o seu orgulho e vir aqui me pedir desculpas? — Claudia abaixou a cabeça, a psicóloga sabia que havia algo de muito errado — Você está doente ou alguma coisa assim, não está? — Claudia assentiu lentamente, Amanda suspirou, era típico: humanos eram frágeis, se arrependiam de tudo quando estavam doentes — E é grave.

— Sim.

— Você está morrendo.

— Basicamente.

— O que você tem?

— Insuficiência renal crônica — Amanda ergueu as sobrancelhas, ela já ouviu falar daquilo algumas vezes.

— E isso é bem grave.

— Sim...

— Por isso você veio me pedir desculpas: você se arrependeu porque está morrendo.

— Sim. Eu sei que não é o certo e...

— E isso é mais comum do que você imagina, não se preocupe.

— Me perdoa ou não?

— É realmente importante.

— É, é importante.

— Você pode me dar um tempo para pensar?

— Claro — Claudia levantou para sair — Então você, hm... pode me ligar?

— Sim.

Amanda a observou da sala, tinha a incômoda impressão de que Claudia não queria apenas pedir desculpas. Parecia que ela queria pedir ajuda, mas estava envergonhada ou era muito orgulhosa para simplesmente pedir. Amanda fechou os olhos, ainda tinha algumas sessões antes de poder ir para casa e se enfiar em sua cama confortável.

Sua vida estava desmoronando outra vez.

Julia estava irritada com ela, a garota parecia sempre estar disposta a confirmar o quanto estava com raiva de Simone e isso deixava Amanda se sentindo mal. Julia agiu de um jeito parecido, mas havia algo de diferente. Algo simples: Amanda amava Simone e aquilo estava machucando ela de um jeito cruel.

A psicóloga queria voltar no tempo e consertar as coisas. Ela teria conversado mais com Simone depois da volta de Patrícia. E, melhor ainda, teria arranjado um jeito de impedir que Lucas morresse. O jeito não importava, ela faria aquilo.

***

Julia estava cortando um pedaço de carne quando Amanda chegou, a psicóloga resmungou um “oi” e abriu a geladeira em busca de uma água gelada, ela pegou uma garrafa, um copo e se sentou na mesa. Julia via o quanto a mulher estava cansada, a garota se sentiu culpada por ter passado a última semana deixando claro até demais o quanto ela estava puta com Simone. Ela largou a faca e lavou as mãos, secou as mãos e se aproximou da irmã. Amanda a olhou desconfiava, praticamente esperando que Julia falasse alguma coisa desagradável.

Porém, a garota apenas passou os braços ao redor dos ombros dela. Amanda fechou os olhos e respondeu ao abraço passando os braços ao redor da sua cintura, fechou os olhos enquanto sentia o calor da garota.

— Me desculpe — Julia murmurou.

— Você não precisa pedir desculpas.

— Claro que preciso — Julia se afastou um pouco e se agachou na frente da irmã — Vou parar de agir como uma babaca — Amanda sorriu levemente, se curvou e apoiou a testa no ombro da garota — Eu te amo.

— Eu também te amo.

Depois de alguns minutos abraçadas, Julia se afastou para terminar de fazer o jantar. Ela perguntou para Amanda como foi o seu dia. Amanda falou sobre as sessões, sobre seus adolescentes irritantes que achavam que sua vida acabaria apenas porque estavam com um 4G péssimo.

Depois, a mulher falou sobre Claudia.

— É meio hipócrita, não é?

— É algo comum, Julia, a ideia de ver a morte tão perto muda os seus pontos de vista. Quase morrer ou saber que você não tem muito tempo... Mesmo que todos saibam que podem morrer algum tempo, ter isso tão confirmado na sua vida faz você pensar em cada coisa que você já fez

Julia virou para olha-la. Sua irmã estava diferente, ela era mutável até demais. Ela mudou quando se apaixonou por Simone, quando aconteceu aquilo no baile de primavera e então Simone a convenceu a mudar. Ela mudou quando sofreu o acidente e Julia achava que era essa mudança que Amanda estava falando enquanto falava sobre morte. Ela havia chegado perto da morte.

— E você vai perdoar ela?

— Eu não sei — Amanda batucou os dedos na mesa — Acho que sim.

— Mesmo depois de tudo que ela fez? — Julia virou para ela — Depois do quanto ela te machucou?

— Ela é da família.

— Não, ela não é.

— Julia...

— Você realmente quer perdoar ela? Olha de quantas coisas ela já te chamou, ela nunca sequer te tratou de um jeito certo. Ela sempre te tratou como se você fosse um monstro. Como você pode ter coragem de perdoar ela?

— Eu acho que todas as pessoas merecem uma chance.

— Mas ela é uma vadia!

— E se arrependeu! Ela simplesmente se arrependeu.

— Porque ela está morrendo.

— E por isso ela merece uma chance!

— Não Amanda.

— Eu não estou pedindo para você perdoar ela.

— Mas você quer fazer isso.

— Claro que eu quero, Julia, ela é da família.

— Não é. E ela não é como a nossa mãe, ela não é nem um pouquinho como a nossa mãe. E pedir a porra do seu perdão não vai fazer ela ser alguém melhor.

— Eu sei disso, Julia — Amanda massageou a própria nuca, estava latejando e ela sabia que isso era ruim — Para com isso.

— É você quem enlouqueceu, é você que agora chama ela de família.

— Eu não enlouqueci, okay? — Ela levantou, os olhos mostrando o quanto estava magoada — Eu não devia ter te contado sobre isso.

Ela saiu da cozinha e foi em direção ao banheiro, sua cabeça latejava. Era uma dor de cabeça que nunca diminuía, que nunca melhorar. Às vezes era tanta dor que ela não conseguia pensar direito. Ela molhou o rosto com a água gelada, tentando se sentir melhor. Aquele era um bom momento para ter Simone perto.

A velha Simone.

A garota que a abraçaria, que deixaria Amanda deitar a cabeça no seu peito e chorar com toda a pressão que sentir por causa de Claudia. A garota que acariciaria as suas costas lentamente, delicadamente, com o amor suave que ela sentia. A garota que faria Amanda se sentir melhor, que a acalmaria e a ajudaria a decidir se perdoaria ou não. Depois, a psicóloga a levaria para casa e diriam: Mockingjay.

Porém, aquela garota estava perdida. Ou, pior, estava morta. E o que havia restado em seu lugar apenas machucava e deixava Amanda ainda pior.

A psicóloga trancou a porta do banheiro e tirou as roupas para tomar seu banho, a água gelada que a acordaria e a faria conseguir pensar melhor. Claudia não era sua mãe, não se parecia nem um pouquinho com ela. Porém, por mais filha da puta que aquela mulher fosse, ela continuava sendo parte da família. Era o mesmo sangue, era o mesmo nome, a mesma genética.

 

E se Claudia estava arrependida, Amanda precisava dar a chance.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 31/03/2017 21:10 · Para: 02. Mockingjay

 

A vida segue.....fatos fogem aos nossos controles 

será que realmente temos controle sobre nossa vida.....a ponto de modificar uma situação. ....

as coisas ruins que aconteceu com Simone foi o gatilho para ela se tornar o que é. ....ou sempre esteve dentro dela.....escondido.....Agora ela tem duas opções. ....

qual é a Simone verdadeira. ....a de antes.....a de agora.....ou  tudo junto forjara uma única e definitiva Simone 

rhina



Resposta do autor:

A minha teoria: você é o que a vida te torna. O que a vida te molda e as mudanças são irreversíveis. 



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