A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

Como sempre, estava quente, o verão havia acabado de começar. Amanda colocou um novo band-aid nos dedos machucados. Ela havia decidido ajudar Julia a cortar cebola e claro que ela conseguiu quase arrancar um pedaço do dedo. Ou dos dedos, o indicador e o polegar ainda estavam doendo das múltiplas tentativas de ser útil na cozinha. Ela se perguntava se as facas tinham algum sentimento e sentiam prazer em passar pela sua carne.

Então ali estava ela, andando ao redor da cozinha, indo e voltando da sala tentando conseguir um momento em que Julia estivesse completamente distraída com a fritura. Se a garota se distraísse o suficiente, Amanda poderia pegar pelo menos duas daquelas rabanadas praticamente perfeitas (seriam mais perfeitas se estivessem sendo comidas por ela naquele exato momento). Quando Julia se distraiu na hora de trocar o óleo, Amanda tentou pegar o doce.

— Pare de tentar roubar as rabanadas! — Julia falou, dando um tapa na mão da mulher.

— Eu estou com fome — ela grunhiu.

— Tem presunto na geladeira e pão na mesa.

— Mas é pão integral!

— E?

— Eu não gosto de pão integral — ela cruzou os braços, os olhos fixos nas rabanadas em vez de olhar para a irmã.

— Então você vai ter que esperar até a ceia para comer!

— Julia...

— Não — Simone riu baixinho, estava sentada na mesa observando as duas interagindo — Simone, você não pode ajudar aqui?

— Eu também estou com fome — ela levantou — Deixa a gente comer uma dessas rabanadas lindas aí...

— Não, saiam da minha cozinha, suas esfomeadas!

Simone segurou o pulso da psicóloga e puxou ela para fora da cozinha, indo em direção à sala, Ela fez Amanda sentar no sofá de dois lugares e se sentou ao seu lado, as pernas sobre as suas coxas. Os braços cruzados e a cabeça deitada nas costas do sofá. Amanda ouviu o telefone vibrar na mesa de centro, Simone puxou as pernas para si apenas por tempo o suficiente para a psicóloga pegar o telefone e ver o nome de Clara na notificação.

Eu preciso esperar até 00:00 para te dar Feliz Natal? Amanda sorriu com a mensagem e respondeu rapidamente acho que não. A resposta chegou em menos de um minuto então Feliz Natal. As coisas estão indo bem?

Sim, e por aí?

A programação da TV não é muito boa e vinho com miojo não é muito gostoso.

Loba solitária?

Sim. Se resolveu com a sua irmã? E com a sua garota?

Acho que sim, parece tudo bem no momento.

Vai ficar tudo bem.

Todos dizem isso.

Claro que todos falam. É só a injeção de um pouquinho de esperança. Quem não precisa de doses disso?

Um pouquinho disso faz bem.

Claro que faz. Mudando de assunto, não e você que está fazendo a ceia, certo?

Não. Mas por que eu não posso fazer?

Porque você não sabe cozinhar.

É, eu não sei. A Julia sabe e ela está sendo má comigo.

Por que?

Ela está fritando rabanada e não me deixa comer nenhuma.

PEGA E SAI CORRENDO. Simples assim.

Eu moro em apartamento, não tem muito lugar para correr.

Só precisa correr o suficiente para comer, eu sei que você come rápido. Sua esfomeada.

Você não sabe o quanto isso aqui é cheiroso, acho que dá para sentir no prédio inteiro.

Assim eu fico com vontade de comer também.

Yaaaay.

Meu Deus, para de ser fofa. Eu vou abrir outra garrafa de vinho e procurar algo para assistir.

Boa sorte com isso.

Simone ergueu as sobrancelhas quando Amanda guardou o telefone, ela sentiu o animal raivoso em seu peito rugir com a velha sensação de ciúmes. Afinal, ela tinha que admitir que não estava muito feliz em ver Amanda sorrindo assim. Não era um daqueles sorrisos abertos, brilhantes, era só um curvar dos lábios. Porém, era o ‘conjunto da obra’. O leve tom de rosa nas suas bochechas e o brilho nos olhos.

— Amigo? — Simone perguntou, um pouco do ciúme escorreu para sua voz.

— Mais ou menos.

— Mais ou menos?

— É uma colega de apartamento de Rio Branco.

— Você teve uma colega de apartamento por lá?

— Sim — Amanda não estava olhando para ela, estava ocupada procurando algo na programação da TV, a mão livre em sua coxa — Algum problema?

— Não.

— Você está com ciúmes.

— Não.

— Sim, você está. Você sabe que eu amo você.

— Você diz “eu amo você” como se estivesse tentando convencer alguém.

— Eu estou tentando convencer você — Amanda abaixou o controle e olhou para ela — Porque parece que você não acredita de verdade nisso.

— Porque eu sei que você amava quem eu era.

— E eu amo quem você é agora — Amanda tirou a mão de sua coxa, se inclinou um pouco e acariciou o seu rosto — Tente acreditar em mim, por favor.

Domingo, 25 de dezembro de 2016

Já era quase quatro da manhã quando Simone se arrastou para fora da cama, com cuidado para não chutar Amanda sem querer. Apesar de terem se aproximado lentamente outra vez, nenhuma das duas parecia realmente confortável em se apertar numa cama de solteiro, então Simone acabava dormindo na cama e a psicóloga dormia no colchonete.

Ela andou até a cozinha e, com cuidado para não fazer nenhum barulho, ela abriu uma das gavetas e pegou uma das facas. Não uma serrada, uma pequena, que ela quasetinha certeza que era de legumes. Mas o nome da faca não importava nem um pouco, o que importava era o quanto essa faca era afiada. Ela testou na ponta do dedo indicador, sentiu a dor já familiar e uma gota de sangue escorreu pelo seu dedo.

Ela colocou o dedo na boca, pressionando com a língua para parar de sangrar. Seus olhos estavam com a velha expressão quase doentia, como a de um drogado na expectativa de saciar seu vício. Ela se assustou quando ouviu um pigarreio vindo da entrada da cozinha, se virou escondendo a faca atrás das costas.

— O que você está fazendo aqui?

— Eu moro aqui — Amanda respondeu, ela esticou o braço e acendeu a luz — E você?

— Eu só... vim beber água.

— Não, você não veio.

— Sim, eu vim.

— Não. Você nunca levanta de madrugada para beber água.

— Está calor.

— Por isso você deixa uma garrafa do lado da cama.

— Já está quente...

— É uma garrafa térmica — Amanda deu um passo para frente e empurrou a gaveta — Exatamente porque estamos no verão.

— Eu...

— Você não sabe mentir — Amanda parou bem em frente a ela.

— Eu odeio quando você faz isso.

— Quando fico muito perto?

— Não... quando você é mais esperta que eu.

— Eu não sou mais esperta do que você — ela alcançou o pulso da garota e puxou para frente — Eu só conheço você melhor do que você imagina.

— Mesmo depois de ter mudado tanto assim?

— Certas coisas sobre você nunca vão mudar. Você sabe que eu não vou deixar você se machucar assim — Amanda tirou a faca da sua mão, a deixou dentro da pia e abraçou a garota — Você não disse que me deixaria ajudar? — Simone assentiu — Então me deixe ajudar... vamos fazer assim: cada dia em que você não se machucar. Não só não se cortar, cada dia em que você não tentar se machucar de propósito, vamos marcar no calendário.

— Acha que isso dá certo?

— Sim. É como bebida, você evita todos os dias. Por uma semana, por um mês, por anos. E sempre que você desejar fazer de novo, você pode se lembrar de todo o tempo que você ficou sem precisar disso — Simone assentiu outra vez — Então, agora vamos voltar para o quarto.

Amanda escorregou as mãos pelos seus braços e puxou ela para o quarto. Em vez de voltar a deitar no chão e deixar a garota na cama, a psicóloga se enfiou na cama. Deitada de barriga para cima e ela não precisou falar nada, nem mesmo realmente olhar para a garota, para que Simone subisse na cama e se enfiasse no seu colo. A cabeça deitada no seu peito, os olhos fechando e ouvindo a batida rítmica do seu coração, uma mão na sua cintura e a outra no seu ombro. Amanda envolveu seus ombros com um braço e começou a acariciar o seu cabelo, os dedos passando lenta e carinhosamente pelo cabelo loiro.

Simone fechou os olhos, sentindo o peito da psicóloga subir e descer debaixo dela. No ritmo conhecido, confortável e familiar. Um pequeno pedaço da sua vida antiga. O mesmo cheiro, a mesma sensação de segurança. Como se ela estivesse dentro de um casulo, com paredes resistentes que não deixariam ninguém machucá-la.

As mesmas paredes que não ela machucar a si mesma.

Terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Amanda estava andando de um lado para o outro, preocupada porque ela havia acordado e Simone não estava lá. Desde a madrugada de Natal, para um certo alívio na sua vida, Simone parecia um pouco mais confortável com os abraços e coisas assim.

Já era quase onze da manhã quando a porta foi aberta, mas Simone não entrou, ela só enfiou a cabeça para dentro.

— Ei.

— Onde você estava? — Amanda parou perto da porta, as mãos nos quadris.

— Eu estava resolvendo uma coisa...

— Que coisa?

— O seu, hm, presente de Natal.

— Presente de Natal? Mas...

— Não é uma coisa cara.

— Eu não te dei nada de Natal.

— Você está por aqui, isso já é um bom presente — Amanda corou levemente — Eu espero que a Julia não se irrite.

— Me irritar com o que? — Julia se aproximou — O que você está escondendo?

— Bem...

Ela empurrou a porta com o pé. Nos seus braços, com o rabo balançando e começando a se contorcer para pular para o chão, havia um cachorro. Um filhote de labrador marrom e extremamente adorável, havia uma pequena coleira ao redor do seu pescoço e ela estava com uma sacola no pulso da mão que estava usando para literalmente segurar a bunda do cachorro.

— Meu Deus!

Julia e Amanda falaram ao mesmo tempo. Claro que Julia falou com o tom entre surpresa e repreensão. E Amanda parecia mais “ai meu Deus, um filhooote” ela esticou as mãos, os dedos se movendo “me dá de uma vez”. Simone riu e deixou Amanda pegar o filhote. A psicóloga abraçou ele, soltando um som baixo de felicidade. Ela sentou no chão e deixou o cachorro no chão, o filhote correu ao seu redor antes de pular no seu colo.

— Você pode mudar o nome se quiser — Simone falou enquanto Amanda estava ocupada enfiando o rosto no pelo marrom.

— E qual o nome você colocou? — Julia perguntou. Simone corou antes de responder.

— Almondega.

— Almondega? O nome dela é Almondega?

— É um nome fofo — Amanda defendeu.

— É o nome de um bolinho de carne!

— É um bolinho de carne e pelos — Simone apontou — E nome de comida. Todo mundo gosta de comida. Principalmente a sua irmã.

— Eu gostei — Amanda falou, o filhote tocou seu nariz com o focinho — Aaaawn.

— É um Labrador. Ela talvez seja um pouco grande para apartamento...

— E não tinha uma raça menor?

— Adultos, não se adaptariam à um apartamento.

— Meu Deus — Julia suspirou — Eu não sei qual das duas parece mais um filhote!

— Não seja tão rabugenta — Amanda levantou — Pegue.

— Não, obrigada — ela cruzou os braços.

— O poder da fofura ordena: pega!

— Não.

— Julia...

— Eu não gosto de cachorro, não podia ser um gato?

— Eu não posso chamar um gato de ‘almondega’!

— Então você escolheu um cachorro só para chamar assim? É sério, Simone?

— Talvez...

— Quando você decidiu adotar um cachorro?

— Quando eu acordei.

— Simone....

— É um cachorro adorável — Amanda assentiu rapidamente — Dois cachorrinhos adoráveis.

Julia revirou os olhos e voltou para a cozinha, Simone trancou a porta, deixou a sacola com a ração do cachorro na bancada e se jogou em um sofá. Em uma segunda sacola, tinha uma meia dúzia de brinquedos de cachorro.

— Eu comprei algumas coisas — Simone ergueu a sacola, Amanda pegou rapidamente e jogou o conteúdo no sofá — Depois eu compro mais alguma coisa.

— Onde você arranjou dinheiro para isso?

— Meu pai deixava dinheiro escondido em todos os lugares possíveis dentro de casa, então eu ainda tenho alguma coisa.

— Hm, certo. Isso é ótimo.

 

Simone assentiu, Amanda pegou uma das bolas coloridas, pronta para jogar do outro lado da sala para começar a brincar com Almondega. Adotar um filhotinho provavelmente foi uma das melhores ideias que Simone já teve, pelo menos nos últimos meses.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 14/07/2017 14:46 · Para: 18. Estilhaços

 

Sério Simone. ..um filhote.....

um apartamento. ...três mulheres cheias de conflitos 

será que vai funcionar. ....

Vamos esperar....

adorei a cena da.rabanada.....amo rabanada 

rhina



Resposta do autor:

Dizem que filhotes ajudam bastante, uh?

É um certo alívio de tensão colocar um mini-ser tão adorável no meio delas

Rabanada é a melhor comida de natal



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