A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Sábado, 17 de dezembro de 2016

Ana alternou o peso entre as duas pernas, nervosa com a espera para entrar no quarto, para visitar Mar. Não só porque ela não era uma grande fã de hospitais, mas também porque ela não gostava da ideia de ver Mar machucada. Ainda mais porque ela sentia uma certa culpa.

Se ela fechasse os olhos, ela podia ver perfeitamente os socos e os chutes que deram em Mar. Ela não se importava com os hematomas, com como machucava lembrar o que Henrique teria feito se Mar não tivesse aparecido. Ela se incomodava mais com o quanto Mar estava machucada.

Quando finalmente pegou o adesivo com seu nome, suas mãos estavam tremendo levemente quando ela o prendeu na blusa. Era um dia quente, realmente quente, porém ela estava suando frio pelo nervosismo. Ela seguiu a linha no chão, assim como a mulher falou para ela fazer.

— O que você fez foi muito estúpido — ela falou assim que entrou no quarto.

— Eu costumo fazer coisas estúpidas, pequena.

— Mar...

— Isso não vai fazer você me perdoar por ter te machucado.

— Oh, Mar — Ana falou baixo, se aproximou da cama e segurou seu pulso — Por que você fez isso?

— Porque eu não podia deixar eles machucarem você.

— E pra isso você precisava se machucar assim?

— O que queria que eu fizesse? Deixasse eles machucarem você?

— E eles não machucariam você — Mar fechou os olhos e respirou fundo.

— Eu posso ser uma pessoa ruim, eu posso ter te machucado outra e outra vez, mas eu não consegui deixar acontecer...

Ana não conseguia

Mar não conseguia resistir a expressão de cachorrinho abandonado que Ana fazia quando queria algo, então ela acabou se arrastando um pouco para o lado, dando espaço à ela.

— Nós duas simplesmente não deveríamos ter nos conhecido. Eu amo você, você me ama, mas vamos nos destruir se continuarmos tentando — Mar Não podemos fingir que somos desconhecidas e simplesmente não falarmos uma com a outra. Não podemos ser amigas porque nenhuma das duas consegue ficar muito tempo sem querer agarrar a outra. Não podemos namorar porque uma hora eu vou acabar traindo você de novo. Então, o que vamos fazer? O que eu preciso fazer? Por tudo o que for mais sagrado, o que eu posso fazer para te salvar de mim?

— Eu não sei, eu não faço ideia. Eu só sei que eu amo você.

— Eu também amo você, Pequena.

Ana fechou os olhos e se encolheu mais contra a garota, sentindo ela a abraçar. Ela lembrava que um dia ela chegou à conclusão de que havia algo de poético no vício em cigarros de Mar, algo estranhamente belo em ser viciada no que a matava devagar a cada tragada. Mas ali, ela chegou à conclusão que ela também era viciada em algo que a matava lentamente. Que ela sentia um certo prazer masoquista em amar a garota.

Mar a machucou o suficiente para fazer ela ir embora, fez uma merda atrás da outra. Ela sabia que nunca faria Mar mudar tanto, fazer a garota amá-la sem destruí-la, sem errar uma vez depois da outra. Ana se apaixonou por aquilo, por essa versão não muito boa, com mais defeitos do que qualidade.

Ana se apaixonou pela cafajeste problemática, ela era o clichê de um livro new adult. Incluindo a parte onde o relacionamento delas tinha alguns elementos abusivos. Incluindo a parte onde Mar era incrivelmente sexy, tarada e boa de cama.

Ela sentia uma dor tão grande que era incapaz de chorar.

Ela sabia perfeitamente que tentar continuar, que tentar novamente a machucaria muito mais do que simplesmente deixar ir, mas era como se Mar a puxasse de volta (mesmo não sendo de propósito). Tentar continuar faria ela ser uma masoquista infernal, se machucar e quebrar ainda mais o que já estava destruído dentro dela.

Mas Ana sabia que ela voltaria. Era assustador como ficar longe ou perto machucava. Era aterrorizante como a pessoa que pode te destruir, é a mesma que pode te curar.

Era injusto que não importava quantas vezes Mar errasse, que a machucasse, Ana continuava querendo voltar. Desejando estar em seus braços. E mesmo que Mar quebrasse o seu coração em dezenas de pedaços, ela sempre encontraria uma justificativa para perdoar Mar. Ana sabia que não deveria fazer aquilo, deixar que a dor de Mar fosse mais importante do que a sua própria.

Era mais uma obsessão do que amor, era mais um vício do que almas gêmeas.

Segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amanda sentou na cadeira perto da cama de Simone, a garota estava lendo um livro. Quase quinhentas páginas de informação que ela só estava armazenando porque não tinha outra coisa para fazer. Mas era divertido, fascinante e era um bom sinal. Simone estava devorando ele como sempre fez. Porém, quando Amanda sentou ali perto, ela fechou ele, marcando a página.

— Precisamos conversar um pouco.

—Não é o que costumamos fazer?  — A garota perguntou.

— Sim, mas nós não conversamos muito nos últimos dias. Eu quero ajudar você.

— Eu sei que você quer me ajudar.

— E você vai deixar eu te ajudar?

— Você está no seu modo-psicóloga ­— Simone resmungou.

— Eu sei — Amanda murmurou — Eu não posso controlar.

— Claro que não — Simone virou a palma para cima e a psicóloga entrelaçou seus dedos — Disseram que eu devo sair amanhã.

— Isso é ótimo, você vai finalmente ir para casa.

— Sim...

— Você não parece muito animada com a ideia de sair daqui.

— Eu não estou animada em voltar para casa.

— Simone...

— Eu não quero falar sobre isso.

— Está bem, então não vamos falar sobre isso — Simone sorriu e se arrastou para o lado — O que você está fazendo?

— Arranjando espaço para você.

— Mas...

— Vem aqui, por favor.

Amanda respirou fundo, Simone estava olhando ela com aquele olhar de um cachorrinho abandonado que era impossível de se resistir, com cuidado, ela subiu na cama e deixou Simone abraçar ela, com a cabeça deitada no seu ombro.

­— É estranho não querer sair daqui? — Simone perguntou baixinho.

— Você não quer sair? — Amanda ergueu a cabeça.

— Eu não quero ir para casa.

— Por causa da sua mãe?

— Sim — pareceu mais um grunhido do que uma fala.

­— Ela te machucou, não é?

— Ela me odeia —Simone começou a passar os dedos pelo cabelo macio, ela havia sentido falta de fazer isso — Você não entende, não é?

— Ela é sua mãe, ela não deveria te odiar — Amanda enfiou o rosto no seu pescoço — Ela deveria cuidar de você.

— Eu sei — ela fechou os olhos enquanto sentia os dedos da psicóloga passando pela sua clavícula — Mas se ela precisou me abandonar, então ela não é capaz de cuidar ou de se importar comigo.

— Eu sinto muito.

— Eu sei — Simone beijou sua cabeça e segurou ela com mais força.

— Me desculpe.

Simone fechou os olhos e se sentiu relaxar lentamente, o calor firme que vinha do corpo fazia ela se sentir melhor. Ela sabia que tinha que voltar para ‘casa’, um lugar que não era casa sem Lucas. Talvez sua vida não fosse vida sem Amanda por perto. Meses depois, ela se perguntava como conseguiu terminar. Como conseguiu virar as costas para a psicóloga e foi embora.

­— Me desculpe — Amanda repetiu.

— Pelo que?

— Por ter ido embora — ela fungou, Simone sentiu as lágrimas quentes molhando a camisola — Por ter abandonado você.

— Eu fui embora antes — Simone murmurou com a voz abafada — Eu abandonei você muito antes. Antes mesmo de terminar e ir embora. Eu não sou boa lidando com problemas.

— Era coisa demais. Ainda é coisa demais. Eu deveria ter ido atrás de você.

— Eu vou embora e você que tem que ir atrás?

— A adulta aqui não sou eu?

— Às vezes parece que você tem idade mental de 12 anos.

— Isso é ofensivo — Amanda grunhiu como uma criança e Simone riu — O que eu quero dizer:

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

— Amanda, não é uma boa ideia você fazer isso — Julia falou, os braços cruzados e emburrada como uma criança de cinco anos de idade enquanto Amanda se equilibrava em cima do banco — Você não tem equilíbrio para isso.

— Você está me distraindo — ela grunhiu enquanto tentava prender o fio das luzinhas de natal com um pedaço de fita — Assim eu vou cair.

— Meu Deus, Amanda — Julia apertou a ponte do nariz quando Amanda se esticou um pouco para a esquerda — Desce e depois sobre de novo, não se estica, você não é elástica!

— Hm.

— Quer dizer, não nesse sentido. Eu não sei em outro — Julia riu baixinho quando viu sua irmã corar — Sério, desce.

— Eu consi- — Amanda se distraiu por um segundo e caiu do banco de bunda no chão —Okay, eu não consigo.

— Sua idiota — ela se ajoelhou ao lado da mulher — Tudo bem?

— Uhum — sentou e se espreguiçou — Não se preocupe.

— Claro que eu me preocupo, agora levanta.

— Você é muito delicada — Amanda grunhiu quando Julia deu um tapinha no seu ombro — Por isso eu amo você.

— Você é obrigada a me amar.

— Essa não é a resposta — puxou ela, fazendo Julia cair no seu colo — Me dê a resposta certa.

— Me solta, sua idiota — Julia tentou se soltar, mas Amanda a segurava com força cuidadosa. A psicóloga apoiou o queixo no seu ombro — Amanda!

— Me dê a resposta certa — mordeu a sua bochecha.

— Eu também amo você! Eu também amo você! Tira as suas presas de mim! — Amanda riu e soltou ela, viu a marca leve dos dentes e beijou sua bochecha — Você é uma criança.

— Eu sei, por isso você me ama.

— Claro, claro.

***

— Um biscoito por um pensamento? — Julia falou e parou perto do sofá com um pacote de Negresco e um copo de leite, Amanda olhou para ela e sentou, esperou a irmã sentar no sofá então deitou novamente — Você parece concentrada — ela deixou a caneca de leite na mesinha ao lado e começou a fazer cafuné em Amanda.

— Eu estava pensando sobre coisas que eu percebi e... Ei! Você disse um biscoito por um pensamento, cadê o meu biscoito?

— Certo, certo, mea culpa — Julia abriu o pacote.

— Eu vi que você trouxe leite...

— Você é realmente uma criança — Julia revirou os olhos, mas estava sorrindo um pouco quando enfiou um dos biscoitos na caneca e ofereceu para Amanda, que literalmente abocanhou o doce — Não me morde! — Amanda riu. Julia esperou ela terminar de comer e então engolir para perguntar — O que você percebeu?

— Percebi que talvez houvesse algum motivo para eu, hm, me sentir diferente.

— Diferente sobre?

— Sexo.

— Elabore um pouco mais ou eu vou ficar completamente perdida na nossa conversa.

— Okay. Sabe, eu sempre achei que eu nunca senti toda essa coisa, esse interesse, porque eu estava ocupada demais com o TEI. Depois ocupada tentando cuidar de você e depois eu estava concentrada demais com os problemas do Arthur para me interessar em outra coisa. Talvez... talvez não seja coisas para resolver, talvez seja algo sobre mim, não ter essa vontade de tocar e de ser tocada como a maioria.

— Mas você sentiu com a Simone.

— Sim. Se eu realmente pensar, eu senti curiosidade antes, com uma ou outra garota. Só que eu sentia uma coisa antes.

— Você tinha que se apaixonar antes?

— É. E é meio difícil se aproximar o suficiente para se apaixonar quando se tenta afastar todo mundo. E tem outra coisa, eu achei que tinha me apaixonado pelo Arthur, que amava ele, mas eu nunca senti essa coisa por ele. Eu nunca quis que ele me tocasse mais do que o nível de beijos quase inocentes, entende?

— Um pouco. Tudo sobre você é um pouco complicado para as outras pessoas.

— Eu sei.

— Então, o que aconteceu para você perceber isso?

— Hm...

— Amaaaaanda.

— Bem, eu meio que, hm, meapaixoneipelaClara.

— Pelo amor de Deus, fale devagar.

— Eu me apaixonei pela Clara.

— Espere, o que? — Ela arregalou os olhos — Estou chocada.

— É... — a psicóloga cobriu o rosto, o pescoço rosado deixando Julia saber que ela estava corada sem precisar ver o seu rosto.

— E a Simone?

— Eu amo a Simone.

— Agora eu estou confusa, você a ama do mesmo jeito? Aquele amor romântico e tudo mais — Amanda assentiu — E está apaixonada pela Clara de qualquer maneira? — Ela assentiu de novo — Oookay.

— É estranho, não é?

— Eu não sei, talvez signifique que você realmente tenha um coração puro demais para esse mundo.

— Eu não gosto dessa coisa de ser pura demais para esse mundo, isso machuca.

— Oh — Julia deixou o biscoito perto do leite, ela ainda estava fazendo cafuné na mulher, colocou a mão na sua barriga, na altura do estômago, e começou a mover o polegar lentamente — Eu queria te colocar em um potinho e te guardar no armário, longe de tudo que poderia te machucar.

— E teria comida no potinho?

— Muita comida.

***

Se você pensar bem, Amanda e Mar não estavam em uma situação muito diferente. Amanda já admitiu, em parte, ela já entendeu certos sentimentos. Afinal, ela sabia lidar um pouco melhor com os próprios sentimentos. Mas as duas estavam com o mesmo ‘problema’: amar uma pessoa e estar apaixonada por outra.

Mar amava Ana, claro que amava. Ela não sabia demonstrar, ela machucou a garota uma vez depois da outra. Traindo, agredindo, sendo fria e tentando negar qualquer sentimento. E claro que ela havia machucado Julia, apesar de ser diferente, talvez Mar tivesse uma tendência enorme de machucar as pessoas com quem ela se importa.

Uma hora, talvez, ela fosse machucar Amanda também. E como, para ela, Amanda era uma das pessoas mais puras e adoráveis do mundo. Claro que nunca se perdoaria se machucasse Amanda.

Elas eram parecidas e diferentes ao mesmo tempo, o que era um pouco assustador. No fundo, as duas tinham sentimentos demais para distribuir. Podiam demonstrar de jeitos diferentes, lidar de jeitos completamente diferentes. Amar alguém, se apaixonar por alguém, tudo ao mesmo tempo.

 

Não seria mais fácil se todos pudessem ter tudo o que precisam?

Nome: rhina (Assinado) · Data: 14/07/2017 13:32 · Para: 16. O Que Você Não Pode Ter

 

Amanda e Marisa

Simone....Clara

Júlia. ....Ana

sempre perfeito

não importa de quem vc fale.....semmmmpre é  maravilhoso 

Rhina



Resposta do autor:

Obrigada :)



Nome: rhina (Assinado) · Data: 14/07/2017 13:28 · Para: 16. O Que Você Não Pode Ter

 

Autora.

amar uma pessoa e estar apaixonada por outra 

é possível? ???    Acho que sim.

compreendo a dimensão. ....compreendo a Mar e a Amanda 

mas nunca senti....nunca estive em uma situação igual

logo não sei a diferença da força destes mesmos sentimentos. 

Entendo. ...e com certeza eles criam dúvidas. ....confusão dentro 

da gente.....e lidar com eles não deve ser fácil nem menos

doloroso. 

E se for para priorizar qual vence????  Não sei se a palavra vence

é a correta. Mas amar a Ana e está apaixonada pela Júlia. ...eu  

Queria a Mar com a Júlia. ...então o que esperar....paixão geralmente é passageiro.

O mesmo da Amanda ....sendo que neste caso ela ama a Simone.

mas percebo que  a Clara despertou algo novo....diferente. ..nela...

 

Rhina



Resposta do autor:

Oi

Bem, eu particularmente acredito que sim em alguns casos, só é raro (e acredito porque eu passei por algo parecido, e como amor e paixão são um tanto quanto diferentes, faz sentido). 

A maior parte dos sentimentos causam certa confusão. 



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