A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Amanda gemeu e enfiou o dedo na boca, como era o instinto. O gosto de sangue não era nem um pouco agradável, ela percebeu que não daria muito certo, então agarrou um pano de prato para parar o sangramento. Cuspiu na pia, limpou rapidamente a boca e agarrou o dedo com força. Ela sabia que não era muito habilidosa, mas ela não esperava quase arrancar metade do dedo fora (não literalmente, mas foi um tanto feio) enquanto ela só estava tentando cortar cebola para fazer algo para o seu almoço.

Ela deveria ter comprado pizza, mais seguro. Muito mais seguro. Amanda não sabia se ela naturalmente não tinha habilidade para cozinhar ou se ela somente não aprendeu a cozinhar. Ela grunhiu xingamentos enquanto apertava o maldito dedo cortado, ela se perguntava por que diabos eu não tenho coordenação motora nem para cortar uma cebola?

Ela ouviu o som da porta sendo destrancada e virou em direção ao som, viu Julia enfiar a cabeça para dentro, hesitando se deveria ou não entrar. Se estava tudo bem para ela aparecer ou não, se ela deveria ir embora e esquecer. Porém, o pensamento de qualquer problema entre elas praticamente desapareceu quando a garota viu que Amanda estava segurando a mão com um pano sujo de sangue. Foi quase como um instinto: Julia se aproximou e pegou outro pano.

— Você deveria se manter afastada de facas afiadas — Julia falou enquanto envolvia a mão da mulher com o outro pano — Você sabe que é perigoso.

— Eu sei — Amanda não estava olhando para os movimentos em suas mãos, nem mesmo estava se importando com a dor que se espalhava pela sua mão. Ela estava olhando para como Julia parecia preocupada, cansada — Como você está?

— Estou melhor que você, pelo que parece.

— É mesmo, Julia? — A garota franziu o cenho, ergueu a cabeça e olhou para a irmã. Ela se sentia praticamente um lixo por tratar a mulher daquele jeito durante todo aquele tempo.

— Eu não sei. Eu sou uma idiota, não sou?

— Um pouco — Amanda abaixou um pouco a cabeça e beijou a testa da garota ­— Mas está tudo bem.

— Está? Nós estamos bem?

— Claro que estamos bem — Amanda passou um braço ao redor e a abraçou delicadamente.

Julia engoliu seco e afundou o rosto no seu pescoço. Passou o braço livre ao redor da sua cintura e respirou fundo. O cheiro era bom, o calor era bom, a sensação era boa. Depois ela tiraria os panos e limparia o sangue, faria um pequeno curativo e cozinharia um almoço porque ela conseguia usar uma faca sem se machucar. Depois elas acabariam indo para o sofá, assistir algum filme, só passar um tempo juntos. Elas conversariam, resolveriam os problemas, eram família e todas as famílias tem problemas.

Mas não nesse momento. Agora, Julia só queria aproveitar a sensação. Só queria sentir o calor da psicóloga, sentir o cheiro familiar de alfazema, ouvir a voz dela murmurando que estava tudo bem enquanto Julia deixava o choro vir. Amanda acariciou suas costas carinhosamente, sua mão subindo e descendo pela linha da coluna, os dedos traçando o mesmo caminho.

Amanda continuava sendo o seu lar e Julia não queria ir embora.

Sábado, 17 de dezembro de 2016

Tudo estava pronto: a pipoca, pacotes de biscoito e refrigerante espalhados pela mesa-de-centro. O primeiro episódio de uma série pronta para ser assistida no Netflix, Julia enfiada em uma camisa de Amanda (ela já fazia isso antes, mas ela usava a gravidez como uma justificativa para ficar ainda mais confortável) e Amanda em um pijama que ela não usava desde que tinha 20 anos (Amanda era naturalmente fofa, mas ela em um pijama com pequenos ursos desenhados, ela parecia ter 10 anos outra vez.

Julia já estava afundada no sofá somente esperando Amanda se jogar ao seu lado quando o telefone tocou.  Claro que ela não esperava uma ligação a essa hora da noite, franziu o cenho quando pegou o celular e uma voz relativamente conhecida falou com ela. Era a voz da diretora de onde Julia estudava, Amanda tinha uma boa memória para sons, então mesmo que ela tenha falado poucas vezes com a mulher.

Ela engoliu seco quando ouviu a notícia. Julia também pareceu preocupada quando ela falou, mas a garota só a abraçou e beijou sua bochecha dizendo “vai ficar tudo bem”. E como Amanda não sabia controlar seu instinto protetor, ali estava ela, sábado de manhã entrando em um quarto de hospital.

Mar não parecia nem um pouco bem. O olho direito ainda estava praticamente fechado pelo inchaço. Havia um corte no lábio e um na sobrancelha, um hematoma na altura da maçã do rosto e outro no queixo. Também tinha marca de dedos no pescoço e nos braços. Amanda podia imaginar que havia mais hematomas e machucados onde estava coberto pela roupa de hospital.

— Eu pareço pior do que eu me sinto — Mar falou enquanto Amanda a olhava atentamente.

— Não acredito muito nessa afirmação — Amanda segurou sua mão. Era definitivamente o tipo de coisa que a psicóloga fazia quando queria confortar alguém - fosse outra pessoa ou ela mesma — Eu não sabia que eu era o seu número de emergência — Mar corou levemente.

— Era o Marcos, mas nos últimos meses ele passa muito tempo longe então eu, hm, eu coloquei o seu quando você voltou. Eu posso mudar se isso te in-

— Não, não precisa mudar.

— Obrigada — Mar a olhou por alguns momentos — Amanda?

— Sim.

— Quando você vai parar de proteger todo mundo ao seu redor? Quando você vai deixar alguém te proteger?

— Eu não sei... quando eu realmente precisar?

— E quando você vai precisar? Quando você estiver machucada demais para continuar?

— Eu não sei, Marisa — Amanda passou o polegar carinhosamente — Eu nem sei direito que porra está acontecendo na minha vida!

— E a sua profissão é quase dizer as pessoas o que elas devem fazer, que irônico — Amanda riu baixo, Mar também riu baixo, mas logo parou — Não me faça rir muito. Eu apanhei pra porra.

— Estou vendo. Vai me contar tudo o que aconteceu?

Mar assentiu, Amanda puxou a cadeira de plástico desconfortável e sentou, colocou a mão em seu braço, pronta para ouvir o que aconteceu enquanto continuava a usar o polegar para acariciar delicadamente a garota.


Segunda-feira, 03 de junho de 2013

Tudo aconteceu incrivelmente rápido. De Julia ser legal e tentar confortar ela até, um pouco mais de uma semana depois, Julia perguntar "você nunca beijou uma garota, não é?". Elas não tinham um nome, só estavam juntas, simples assim. Por isso estavam ali, não teve aula e nenhuma das duas queria ir para casa. Então Julia arrastou Mar ladeira acima para se esconderem atrás da escola. Como era quase inverno e o vento que batia era frio, Julia usou a temperatura como desculpa para se enfiar entre as pernas de Mar e se encolher contra ela.

Essa era uma ótima vantagem de ser pequena em comparação a maioria das pessoas que ela conhecia. Quando era mais nova, ela se enfiava no colo de Amanda enquanto a garota estava marcando algo, ou no colo da mãe enquanto a mulher estava lendo algum contrato. Quando perdeu a mãe, quando Amanda estava na faculdade, Julia fazia isso quase todas as noites. Ela jantava, tomava seu banho e se enfiava nas roupas para dormir. Então quando Amanda estava passando a limpo anotações da aula sentada na mesa da cozinha, Julia passava por baixo da mesa e 'escalava' a irmã. Os braços na sua cintura e o rosto enfiado no seu peito. Amanda ria baixinho, segurava ela com um braço e continuava a estudar, afinal, era natural. Mas havia parado de acontecer quando ela se formou e começou a namorar Arthur.

Não haviam realmente se afastado, não tanto assim, Julia preferia ficar mais longe. Doía menos. E ainda era recente demais para ela conseguir voltar a fazer aquilo. Então ela começou a se aproximar assim de Mar, de se encaixar no seu colo quando tinha oportunidade. Às vezes Mar se escondia na biblioteca, entre as estantes, sentada no chão e lendo algum livro. Umas duas ou três vezes, Julia se ajoelhou na frente dela e conseguiu se enfiar no seu colo. Era quase como um gatinho. Ela puxava as pernas para cima e se encolhia como uma bola. Como Mar não estava acostumada a ter contato físico que não envolvesse dor, ela demorou alguns minutos para relaxar o suficiente para voltar a ler. Mas ficava mais fácil a cada vez que acontecia.

Por isso, ela não se surpreendeu quando uma pessoa se enfiou no seu colo. Julia fechou os olhos quando Mar enfiou a mão por baixo do seu casaco e começou a acariciar as suas costas, só a blusa separando sua pele do calor da mão dela. Julia abriu os olhos e olhou para a mão livre da garota, que parecia tentar esconder ela com a manga do moletom. Julia segurou seu pulso, percebeu quando Mar ficou tensa e tentou fazer seu braço ser imóvel. Não deu tão certo, Julia conseguiu puxar para perto e também puxar a manga do moletom.

— O que aconteceu? — Julia perguntou olhando para a mão machucada, marcas vermelhas que pareciam bem dolorida atravessavam a palma, algumas chegavam ao seu pulso e aos dedos.

— Eu não tive o melhor dos desempenhos no culto ontem.

— Isso acontece muito?

— Eu ir mal pregando o que não acredito?

— Você apanhar.

— Depende.

— Do que?

— São só, hm, tapas na mão.

— Tapas com o que? Nem fudendo que isso é só marca de outra mão — Mar grunhiu e puxou, enfiou ela no bolso do moletom — Mar...

— Não precisa se preocupar.

— Por favor.

— Mar — Julia se agachou na sua frente, ofereceu a mão — Me deixe ver.

Pediu gentilmente, a voz baixa e olhando para Mar com mais carinho do que a garota achava possível. Hesitando, ela ofereceu a mão machucada. Julia puxou a manga do moletom para cima, até quase o cotovelo e engoliu seco. Além das marcas vermelhas, havia um hematoma feio. Roxo escuro, a pele ao redor vermelha e parecia inchado.

— Mar...

— Não é nada demais.

— Claro que é.

Mar puxou o braço, mas Julia segurou seu pulso. A garota entrou em modo de defesa, ela sentiu a pele queimar quando Julia apertou o que estava machucado. Ela era muito mais forte do que Julia, não só pelo tamanho, mas também porque ela tinha uma forma física mais forte. Puxou de novo quando não conseguiu se soltar. Ela não calculou a força quando usou a mão livre para empurrar Julia pelo ombro. A garota perdeu o equilíbrio, foi violento o suficiente para fazer ela cair. Grunhiu quando sentiu as mãos batendo no chão com força. Mar se levantou rápido, puxou

— Me desculpe.

— Não precisa se desculpar — Julia se levantou e limpou as mãos, a maior parte do peso foi para seu lado esquerdo, então ela viu um pouco de sangue na palma.

— Você está sangrando.

— Não é nada mais — Julia pegou a garrafa de água para limpar a mão — Eu não deveria ter pressionado.

— E eu não deveria ter empurrado. Me desculpe.

— Eu não sou tão frágil assim.

— Sim, você é. Sabe, tão pequena e...

— Eu não sou pequena!

— Sim, você é.

— Eu sou relativamente pequena.

— Pequena mesmo assim.

— Eu não sou tão frágil assim, Mar — Julia murmurou e beijou sua têmpora — Você não precisa ter medo de me quebrar.

Mar apertou ela com mais força. Doía um pouco, mas Julia gostava desses abraços. Acariciou suas costas. Ela não era tão frágil quanto Mar parecia achar que ela era, física e emocionalmente. Pelo menos, ela achava que não era realmente tão frágil assim. Julia começou a acariciar suas costas lentamente.

Elas não tinham um ‘rótulo’, mas Julia pretendia estar lá pelo máximo de tempo que ela podia e esperava que Mar não fizesse ela ir embora.

Sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Mar deixou a garota empurrar ela até que sentisse a parte de trás encostando na beira da cama, caiu sentada no colchão macio. Era quase meio dia e elas estavam sozinhas no apartamento que Julia morava. A garota subiu na cama, um joelho de cada lado das coxas de Mar, as mãos em seus ombros e a beijou com vontade. Mar colocou as mãos, com um pouco de hesitação, nos seus quadris.

— Julia...?

— Hm?

— Nós viemos para você me ajudar com o cabelo, não?

— Sim... você quer que eu pare?

— Não, eu não quero que você pare.

Ela respondeu em um tom baixo e nervoso, como se soubesse o que queria, mas estivesse com um certo medo. Julia sempre tinha mais segurança do que ela em tudo o que faziam, por mais que a maior parte das vezes fosse algo novo para ela também, era como se ela sempre soubesse o que fazer. Foi Julia quem beijou primeiro, quem teve coragem de começar a andar de mãos dadas ou braços cruzados pelo colégio. Era sempre Julia que começava algum carinho, quem tentava aprofundar as conversas.

Então era quase óbvio que fosse Julia quem tentasse ir em frente no relacionamento.

Os olhos de Mar pareciam mais escuros, o verde-musgo era só uma linha ao redor das pupilas dilatadas e Julia estava perto o suficiente para ver o próprio reflexo na escuridão. Ela viu o quanto a garota estava corada, a pele estava quente sob as suas mãos e a respiração dela estava acelerada.

Julia desceu as mãos pelos seus braços, sentindo os músculos firmes, ela tinha que admitir que ela gostava de como os pais da garota fizeram ela praticar esportes para controlar o quanto ela era agitada quando era menor. Julia colocou as mãos na sua cintura, passou elas pela barriga e desceu até a barra da camisa.

Posso? Ela murmurou, ela sabia o quanto Mar não era completamente aberta a toque, parecia certo perguntar se podia continuar em cada novo toque que ela pretendia tentar ali, saber os limites e parar quando Mar não estivesse mais confortável. Então quando Mar assentiu, ela enfiou as mãos por baixo da camisa, seus dedos tocando a pele quente, sentindo o corpo firme.

Julia beijou seu queixo, seguiu a linha do maxilar até a orelha. Seus dedos subiram lentamente até pararem logo abaixo do elástico do sutiã, ela passou as pontas dos dedos por ali e escorregou até as suas costas. Ouviu Mar gemer baixo quando ela desceu os dedos pelas suas costas até o cós da calça, então ela arqueou levemente as costas quando Julia passou os dedos pela linha da coluna.

Ela queria ouvir Mar gemer de novo e de novo.

Posso? Perguntou baixo quando segurou a barra da camisa, pronta para puxar para cima. Mar murmurou ‘sim’. Julia jogou a camisa para longe sem muita cerimonia, ela estava mais interessada na garota na sua frente do que onde as roupas iam parar. Julia passou os dedos pela barriga dela outra vez, dessa vez vendo o que estava tocando e isso fez seu corpo esquentar. Ela passou os dedos pelas clavículas, pelos ombros, pelos braços outra vez.

Mar abriu a boca para protestar quando Julia saiu do seu colo. Você não vai deitar na minha cama usando esses tênis sujos. Ela se ajoelhou e tirou os sapatos e as meias da garota. Mar assentiu e viu ela tirar os próprios tênis e meias. Mar se arrastou para trás para deitar, mas continuou sentada no meio da cama e viu Julia subir na cama e ‘engatinhar’ ela, deixou a garota empurrar ela pelos ombros até se deitar. Ela enfiou os dedos por baixo do elástico do sutiã branco que a garota estava usando, só o suficiente para que as pontas dos seus dedos tocarem a pele macia tudo bem?

Mar assentiu, os olhos fechados, seu coração batendo cada vez mais rápido. Julia tirou os dedos de debaixo do elástico para tocar por cima do pano. Com cuidado, delicadeza, ela sabia o quanto podia ser sensível e ela não queria correr o risco de machucar. Beijou a garota e ouviu ela gemer um pouco mais alto, sentiu as coxas apertarem seus quadris.

Julia perguntou se podia continuar, se estava tudo bem, em cada detalhe. Quando escorregou as mãos para suas costas e tirou o sutiã, quando beijou seu torso, dando uma boa atenção para os seios, até o cós do jeans. Quando abriu e tirou o cinto, não hesitou em tirar a própria camisa quando Mar tentou puxar, quando desabotoou a calça e a tirou. Perguntou quando beijou e tocou suas coxas com carinho, quando hesitou esperando por permissão para tirar a boxer cinza. Quando a tocou delicadamente com os dedos, depois com a boca, perguntou se estava tudo okay quando empurrou um dedo e depois outro. Murmurou vamos enquanto tentava fazer Mar chegar ao ápice e se sentiu orgulhosa até demais quando chegou ao seu objetivo.

 

E ela perguntou se estava tudo bem quando Mar a abraçou e pareceu se segurar para não chorar, mas estava, era simplesmente porque ninguém nunca se importou tanto com ela e Mar não podia segurar isso por muito mais tempo.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 13/07/2017 23:33 · Para: 15. O Reflexo na Escuridão

 

Caracas autora. ...por isso eu digo. ...você é brilhante 

você escreve com a alma. ...você sente ....vivência no ato de 

escrever cada palavra as sensações que quer por nelas. ...

pois ao ler eu as sinto em mim....não são palavras vazias....

ocas. ...não mesmo....eu vivo junto com suas meninas 

cada situação que você as coloca. 

Olha que mágica. ...Real. ...profunda história vc criaste

para Marisa e Júlia. ...

não autora não tem nada de errado com sua escrita 

ela é o que é. ....incrível. ...viva 

rhina



Resposta do autor:

Obrigada, eu só tento sempre o meu melhor (e repito isso quase todas as vezes em que eu respondo alguém, sou idiota assim mesmo). É difícil escrever algumas coisas, mas pelo menos funcionam, certo? 

Eu agradeço pelo elogio.



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