A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Segunda-feira, 07 de novembro de 2016

 

Mar revirou os olhos e levantou da cama, ela se espreguiçou lentamente, sentindo suas juntas estalarem. Suas costas queimaram e ela gemeu baixo quando os seus músculos ficaram tensos por alguns segundos. Ela vestiu a blusa, se enfiou no banheiro, lavou o rosto e arrumou o cabelo apressadamente.

Julia estava no sofá e não ergueu os olhos do telefone quando Mar passou por ela e nem quando quando Mar hesitou por alguns segundos na porta. Ela queria falar o quanto estava confusa e que Julia não deveria odiá-la. Sabia que a garota tinha um certo problema com rancor, provavelmente era o maior defeito dela.

Por mais que fosse parecida com Amanda, provavelmente aquela era a maior diferença. Amanda dava uma nova chance outra e outra vez até que estivesse quebrada demais para continuar. Ela tentou de novo e de novo com Simone até não conseguir mais, tentou de novo e de novo com Julia até não aguentar a raiva dela.

E  o que você  sabe sobre família? Você  odeia a sua família, não é? Você não pode falar merda nenhuma sobre isso.

Mar sabia perfeitamente que isso ficaria voltando a sua mente outra e outra vez. Sendo sincera, ela não conseguia considerar os pais e os irmãos como sua família de verdade. O mais próximo de família que ela poderia considerar era Simone, Ana e Amanda.

- Por quanto tempo você vai continuar me odiando?

- Pelo mesmo tempo em que o que você fez continuar machucando toda vez em que eu pensar sobre isso.

- Achei que se apaixonar pelo Henrique e depois pelo Pedro faria você me esquecer.

- Não é assim que funciona, mas não acho que você tenha alguma experiência com sentimentos. Ou provavelmente você não tem sentimentos.

- Certo, sem sentimentos. Pare de me atacar como se a culpa de tudo que está dando errado na sua vida fosse minha culpa - Mar se aproximou de Julia - Por que você continua me odiando tanto?

- Porque eu só pedi uma chance - Julia levantou, os braços cruzados e corando de raiva - Eu só te pedi uma coisa e você foi incapaz de me dar, você preferiu desistir.

- Você não acha que se eu tivesse te dado a chance eu teria te machucado ainda mais?

- Você só saberia disso se tivesse tentado, mas você não quis.

- Você ainda não entendeu o quanto eu poderia te machucar.

- Eu só queria que você tentasse, só tentasse.

- E então o que? Você tem alguma noção do quanto eu posso te machucar? Machucar de verdade?

- Não é como se você não tivesse me machucado antes.

- Teoricamente, tudo o que eu fiz foi basicamente terminar com você e nós nem namorávamos.

- E isso é nada?

- Isso é nada comparado com o que posso fazer. Você não aguentaria.

- Agora sou fraca?

- Fraca não, só não forte o suficiente para me aguentar. Não idiota o suficiente para continuar tentando.

- A Ana...

- Não, isso é sobre eu e você, você quer enfiar ela no meio? Vamos lá! Você sabe o quanto eu machuquei ela? Eu trai ela, eu menti pra ela, eu bati nela, eu praticamente torturei ela. E de novo, eu machuquei ela transando com você e eu sei que vou contar pra ela. Então não estou dizendo que você é fraca, só estou dizendo que você não precisa disso.

- Você não sabe o que eu preciso ou não.

- Certo, você ainda não pegou o espírito da coisa. Você tentaria com o Henrique de novo?

- Claro que não.

- Então por que você está reclamando que eu não te dei uma chance?

- Não é como se fosse a mesma coisa.

- Ele é um monstro, eu sou um monstro, não vejo uma grande diferença.

- Mar...

- Você pode continuar me odiando pelo resto da sua vida, mas admita que por mais que ter desistido tenha te machucado, a coisa poderia ser muito pior.

- Você nem mesmo me disse o que realmente aconteceu.

- Talvez porque seja eu não gosto de falar sobre coisas que me machucam, ser expulsa de casa não é algo muito agradável. Não é como se eu tivesse sido apenas expulsa de casa. Você não é a única que passou por coisas difíceis, me odeie, mas tente enxergar que talvez, apenas talvez, isso tenha sido o melhor para você.

 

Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

 

Mar suspirou e cruzou os braços, suas pernas estavam esticadas e em cima da mesa. Ela não queria contar, ela não queria falar sobre isso, mas simplesmente não conseguia parar de pensar sobre o que havia feito semanas antes, sobre os seus problemas com sentimentos. Ela inegavelmente amava Ana, mas também estava se apaixonando por Julia outra vez É possível amar uma pessoa e se apaixonar por outra?

Ana estava terminando de lavar a louça, desde quando ela finalmente apresentou a garota para o pai, o relacionamento delas era quase como o de um velho casal casado. Mesmo que a garota já tivesse notado que havia algo incomodando Mar profundamente.

- Ana.

- O que?

- Nós... nós precisamos conversar.

- Conversar sobre o que? - Ana secou as mãos em um pano de prato enquanto se aproximava de Mar - O que houve?

- É sobre uma coisa que eu fiz. Eu... eu meio que... - engoliu seco, ser tão sincera assim era a coisa mais difícil que Mar estava fazendo. Escrever uma carta contando o que havia acontecido quando ela foi expulsa de casa, admitir o quanto os sentimentos estavam guiando ela, mas admitir aquele erro específico era pior. Se perguntou se foi difícil assim para Ana e Simone admitirem o que haviam feito.

- Você meio que?

- Não, nada, esquece...

- Não, agora você me fala. O que você fez? O que tem te incomodado tanto nos últimos tempos?

- Eu... me desculpe, eu...

- Fale de uma vez, você está me assustando.

- Isso não é exatamente fácil...

- Fale de uma vez.

- Estou tentando.

- Vamos...

- Eu transei com a Julia há umas duas semanas, me desculpe - Mar falou rápido.

- Não peça desculpas.

- Perdão?!

- Não!

- Ana...

- Cala a boca.

- Eu posso explicar.

- Não, você não pode. Se você tem uma segunda opção, Mar, é talvez porque a primeira não é mais o suficiente.

- O que? Não, não...

- Se você ama alguém e então se apaixona por outra pessoa... é porque esse alguém não está suprimindo as suas necessidades. Eu estou te dando tudo de mim e ainda assim não é o suficiente para te deixar satisfeita.

- Não, Pequena - Mar segurou seus quadris para não deixar Ana sair - Eu não estou apaixonada só porque eu transei com ela... Claro que você tem todo o direito de me odiar por ter te traído...

- Vamos, vocês têm uma história juntas.

- Nós duas temos uma história!

- Nós temos um desastre... - Ana segurou seus pulsos e tirou as mãos de Mar de si. Ela falou baixo, sua voz parecia quebrar, falhava dolorosamente - Uma vez você me perguntou o quanto você tinha que me machucar para me fazer ir embora, isso é o quanto você precisa me machucar.

Ela soltou os pulsos da garota, deu um passo para trás, pegou a mochila e a pendurou no ombro. Mar viu Ana virar e andar até a porta, cada passo dela parecia uma facada no seu coração. Era como se quebrasse cada pequeno pedaço dela. Mar a viu parar por um segundo, segurando a maçaneta com força. Ela estava hesitando... Mar torceu para que a garota virasse, voltasse para seus braços, a perdoasse, por mais que isso fosse egoísta. Porém, Ana fungou, abriu a porta, saiu e a fechou atrás de si.

Mar havia a machucado o suficiente para fazê-la ir embora.

 

Terça-feira, 29 de novembro de 2016

 

Mar estava deitada no sofá, ela havia acabado com qualquer bebida por perto e naquele momento não estava bêbada porque não tinha ânimo para se levantar e ir comprar mais bebida e cigarro. Ela ouviu a campainha, levantou e se arrastou até a porta.

- Desde quando você sabe onde eu moro? - Sua voz tinha um tom sarcástico quando falou com Julia.

- Simone me falou.

- Quando? Na época em que você não odiava ela?

- Cala a boca - Julia revirou os olhos - Eu preciso de um favor...

- Que favor?

- Eu quero, hm, conferir a Simone. Você pode vir comigo?

- Agora você se importa com ela?

- Vem ou não?

Mar assentiu. Rapidamente, vestiu uma roupa menos desleixada, se enfiando em um jeans e uma camisa de mangas compridas. Seguiu Julia, Simone não morava muito longe. Mar andou de um lado para o outro pelo muro, passando as pontas dos dedos pelas pedras. Ela parou na frente do portão de garagem. Ela agarrou o portão um pouco acima da própria cabeça, flexionou um pouco as pernas e pegou impulso para pular. O portão era uma chapa fechada até mais ou menos a altura da cintura, então ela precisou de um pequeno impulso para enfiar os pés na base da grade.

- O que você está fazendo?

- Estou tentando invadir uma casa.

Conseguiu subir até se agarrar no topo do muro, se impulsionou para cima até se equilibrar no muro. Julia engoliu seco, não era muito legal ver Mar se equilibrando para andar no muro, era uma queda de cerca de quatro metros, a garota poderia se machucar feio. Ela se sentou e escorregou para parar em cima da ‘casa do gás' e pulou para o chão.

Andou até a varanda, a porta tinha uma pequena janela, então empurrou, enfiou a mão para dentro e conseguiu tirar a chave da fechadura. Foi até o portão e destrancou para deixar ela entrar. A casa não era tão grande assim, Julia foi em frente.

- Oh merda... - Julia murmurou, Mar virou para ela, ela havia enfiado o rosto para dentro do banheiro.

- O que?

Se aproximou. Por cima do ombro da garota, ela sentiu uma agonia crescendo dentro dela ao ver Simone. A garota estava no chão, suas costas contra a lateral da cama. A garrafa de bebida vazia estava ao seu lado, como se estivesse em sua mão e então caiu quando ela desmaiou. A lâmina ensanguentada caída no chão no meio de uma poça de sangue assustadoramente grande.

Correu em direção à garota desacordada. Seus pés escorregaram no líquido escarlate. Ela segurou o rosto de Simone, estava mais frio que o comum.  Seu peito se movia lentamente, ao menos ela ainda respirava. Julia quase podia sentir o desespero de Mar, viu que suas mãos tremiam enquanto ela tentava pensar no que deveria fazer.

- Não, não, não, não, não - Mar murmurou, o desespero em sua voz era realmente dolorosa, Julia engoliu seco - Você não vai fazer isso comigo, sua filha da puta.

Julia parou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, estava tentando se manter o mais calma possível. A garota abriu o armário e procurou por uma toalha, encontrou uma pequena toalha de rosto. Ela se ajoelhou ao lado das garotas, segurou a barra da camisa de Mar e puxou para cima, agarrou o cinto e começou a soltar.

- Mas que porra você está fazendo?

- Um torniquete. Eu preciso tentar não deixar ela morrer sangrando aqui mesmo. Você consegue carregar ela? - Mar assentiu - Acho que a melhor opção é levar ela para um hospital.

Julia envolveu o braço ferido com a toalha e usou o cinto para improvisar o torniquete, apertou com força e sentiu o sangramento diminuir consideravelmente. Mar passou os braços por baixo de Simone, ela era muito mais leve do que a garota esperava. Mar a carregou para fora, os passos largos e apressados. Ela entrou no carro, sem realmente se importar com o sangue sujando o estofado, sinceramente, Julia também não se importava.

O hospital não era realmente longe, ainda por cima a maior parte do era uma rua de mão única em direção ao lugar. Isso provavelmente era o que aumentava a chance de chegarem a tempo.

- Você não pode me abandonar - Julia ouviu Mar murmurar, o desespero na voz dela era realmente doloroso - Eu te avisei que não podia te perder, não avisei, você não pode fazer isso. Você não pode simplesmente morrer porque é conveniente.

- Falar com ela não faz muito sentido...

- Eu sei, Julia - Mar apertou mais a garota - Você já teve alguém morrendo nos seus braços?

- Você sabe que não.

- Então me deixe falar... é como se isso ajudasse. Só dirija o mais rápido que puder.

Julia assentiu. O torniquete não funcionava realmente bem, Mar podia sentir o sangue quente escorrendo. Também podia sentir como a respiração se tornava mais lenta, quase sentia a vida escapar entre os dedos como areia.

 

- Eu não vou perder você...

Nome: rhina (Assinado) · Data: 21/04/2017 15:13 · Para: 11. O Sofrimento do Falcão

 

Oi

Bom dia

como está Charlie? ??

Capítulo. ....doloroso. ....coerente......muito bem escrito

rhina



Resposta do autor:

Oi

Eu gosto de escrever coisas dolorosas

Obrigada 



Nome: Kihl (Assinado) · Data: 17/04/2017 11:35 · Para: 11. O Sofrimento do Falcão

Estou ansiosa esperando pelo proximo capítulo...

Coração a mil querendo saber o que irá acontecer espero que tudo termine bem...



Resposta do autor:

Logo sai :) 

Vai demorar, mas o objetivo é dar um final feliz 



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