A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


[Comentários - 39]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

Quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ela se sentou na escada da saída do colégio, a bolsa repousada entre seus pés. Simone prendeu o cigarro entre os dentes e o acendeu. Havia visto Mar fazer aquilo centenas e centenas de vezes, era costumeiro. Porém, parecia estranho. Não parecia combinar com quem ela era. Entretanto, o que assustava era simples: parecia combinar perfeitamente com quem ela estava se tornando.

- Eu achei que cigarros não eram sua praia - Mar falou e parou em frente a amiga - Agora é a sua praia?

- Coisas que aliviam a minha dor são a minha praia agora.

- Cigarro não realmente alivia a dor de ninguém - ela ergueu as sobrancelhas enquanto via Simone soltar a fumaça esbranquiçada.

- Não é como se você fosse um exemplo positivo sobre fumar. Ou sobre viver.

- No momento, você também não é e nem por isso eu decidi te atacar.

- Claro, porque você é uma santa - Mar fechou os olhos e respirou fundo. Ela só não estapeava Simone porque sabia que a garota não estava exatamente em seu melhor estado

- Eu não disse que sou uma santa - ela enfiou as mãos nos bolsos - Eu só disse que cigarros deveriam continuar não sendo a sua praia.

- Não é algo importante.

- Para mim é importante - Mar se abaixou na sua frente e segurou seu pulso, puxou para si. Simone a observou, não puxou o braço de volta quando Mar empurrou a manga para cima e viu que haviam cortes recentes - Você disse que ia parar...

- Eu estou tentando parar, Mar - suspirou -É difícil.

- Eu sei que é difícil, quem disse que a vida é fácil?

Simone abaixou a cabeça, ela não sabia o que estava com a própria vida. Deixou Mar tirar o cigarro da sua mão, mas a garota não tirou o maço dela e nem o isqueiro (talvez porque pensasse que Simone provavelmente jogaria aquilo fora). Mar se levantou, apagou o cigarro e o jogou dentro do lixo.

- Você tem que ir pra casa.

Mar lhe ofereceu a mão, Simone segurou e pegou a bolsa. Ana ainda não havia saído, então Mar precisaria esperar sua namorada. Desceram a ladeira lentamente e sentaram no ponto de ônibus, não havia nenhum sinal do veículo. Simone deitou a cabeça no seu ombro, Mar a abraçou e começou a acariciar lentamente seu braço.

Simone fechou os olhos e suspirou, deixar Mar a abraçar daquele jeito era um dos poucos momentos em que ela se sentia bem.

 

Segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Patrícia era definitivamente uma das piores mães que alguém poderia imaginar.

Ela chegou em casa um pouco mais cedo que o normal, por isso Simone não estava com a camisa de mangas compridas. Estava com uma camisa de mangas curtas e passava lentamente o antisséptico pelos cortes no antebraço. Ela estava distraída e ouviu os sapatos quando já era tarde demais. Ela pulou para fora da cama e tentou fechar a porta, mas a mulher já estava perto o suficiente para vê-la.

Claro que sua reação aos cortes foi péssima. Uma mãe que se importa provavelmente ficaria preocupada, chocada ao ver a própria filha se machucando tanto. Então tentaria conversar, saber e entender o porquê. E tentaria ajudar, ofereceria amor e carinho para tentar curar a filha.

Porém, como foi dito, Patrícia era uma das piores mães que alguém poderia ter.

O ódio nos seus olhos deixou claro o que ela faria antes mesmo que esse pensamento passasse na sua mente. Ela entrou no quarto, Simone deu passos para trás tentando fugir da mulher. Porém, era quase uma armadilha.

- Você deveria aprender a prestar, seu pai fez um trabalho de merda com você, sua vadiazinha.

Patrícia era bem mais forte do que parecia. O soco dela atingiu o queixo de Simone com força, isso fez a garota morder a própria língua e sentir o gosto de sangue na boca. A mulher segurou seu braço, as unhas longas fazendo os cortes avermelhados sangrarem com a brutalidade. Ela puxou a garota e acertou um tapa no seu rosto, os dedos batendo com força na sua orelha. A força do tapa fez Simone se sentir tonta e ouvindo um som desconfortável e agudo em seu ouvido.

O gosto metálico do sangue em sua boca não era tão ruim assim. A dor dos tapas não eram tão ruins assim. Por mais masoquista que isso poderia soa, Simone quase sentia prazer por estar apanhando.

Parece um pouco menos doentio sentir dor quando é causado por outra pessoa. Quando outra pessoa fazia ela sangrar, era como se assim ela realmente merecesse. Na verdade, ela tinha que admitir que achava que merecia. Merecia por não ter sido uma filha boa o suficiente para Lucas, por ter sido uma péssima namorada para Amanda e por ser uma péssima amiga para Mar (afinal, ela era a melhor amiga da garota e mesmo assim ela havia transado com Ana. Por mais que Mar já tivesse lhe perdoado, ela ainda se sentia culpada).

Sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Simone cruzou os braços e olhou para o teto durante a aula, sua cabeça estava latejando. Era um pouco difícil respirar, essa coisa de fumar não era a melhor coisa do mundo para a sua saúde e ela sabia que estava com dificuldade de respirar por causa disso. Simone só estava pensando em sair da sala e ir beber.

Beber pra caralho.

Ela contava os minutos para a aula acabar. Quando a aula finalmente acabou, ela enfiou o caderno e a caneta na mochila e desceu rapidamente as escadas. Não foi realmente uma surpresa quando viu Mar e Ana em um daqueles momentos de casal-chiclete. Era o tipo de coisa que deixava Simone se sentindo um pouco melhor.

A amizade de Mar e Simone podia não estar exatamente no melhor estado, já que Simone não estava sendo a pessoa mais fácil do mundo de se lidar. E também porque Mar parecia estranha, quase culpada, como se estivesse guardando um segredo ruim, sujo. Simone achava que talvez não fosse a melhor ideia do mundo perguntar o que tanto incomodava sua amiga.

Simone segurou a alça da mochila com mais força e se aproximou do grupo que beberia. Ela quase podia sentir o olhar de Mar sobre ela, mas ignorou isso. Sabia que a garota estava vigiando ela, mas tinha a impressão que não era exatamente para que ela não bebesse demais e acabasse transando com alguma garota qualquer, mas talvez estivesse a vigiando para defender caso alguém decidisse a machucar.

Alguém, ou mais especificamente, Henrique e algum ‘amigo' dele. Afinal, Mar tinha 100% de certeza que era muito mais fácil machucar uma garota bêbada do que uma garota sóbria. E claro que Mar impediria isso, a última coisa que Simone precisava era que Henrique abusasse dela. Era a última coisa que qualquer garota precisava.

Simone aceitou o copo descartável e parou de contar no terceiro copo. O álcool nublava sua mente, ela gostava da sensação, não conseguia pensar direito. Por não conseguir,  ela não soube exatamente em que momento ela conseguir arranjar uma garota para ficar.

Ela achava que era um pouco estranho fazer aquilo, ela não havia beijado muitas pessoas na sua vida. Não que não tenha sido estranho quando foi para cama com Ana, porém, ela conhecia a garota. Já haviam conversado algumas vezes e ela era o assunto favorito de Mar (assim como Mar já havia falado bastante sobre Simone para a namorada). Mesmo que fosse estranho, ali estava ela, com o rosto enfiado no pescoço de uma garota.

Elas haviam se afastado do resto do grupo, perto da curva e entre uma van e a parede. Simone passou as mãos pelas costas da garota, sua mente não funcionava direito com aquela nuvem de vodka barata. Ela não sabia bem porque se sentia tão desconfortável. Talvez por ser uma garota que ela mal conhecia, talvez por estarem em um lugar público ou simplesmente porque ela estava extremamente bêbada.

- Isso não vai dar problemas?

- Não.

- Tem certeza?

- Quer que eu te foda ou não?

- Quero, claro que eu quero.

- Então cala a porra da boca.

Simone não precisava saber seu nome, mas ela sabia: Eduarda.

Eduarda não estava realmente acostumada a ficar com pessoas sem compromisso, muito menos quando essa pessoa fosse uma garota. Porém, ela estava gostando da sensação. Ela gemeu baixinho quando Simone empurrou a coxa entre as suas pernas, segurou os ombros dela, as mãos agarrando o tecido pesado do moletom. Simone escorregou uma mão pela lateral do seu corpo até sua perna e a ergueu, fazendo que Eduard a segurasse perto. Depois escorregou ambas as mãos até o cinto e o abriu, desabotoou e abaixou o zíper, então enfiou a mão por dentro do jeans.

Simone sabia muito bem que o que estava fazendo não era o jeito mais inteligente de tentar seguir em frente, mas ela não sabia se realmente queria seguir em frente.

 

Terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma garrafa de vodka barata estava escondida entre as roupas no armário, Simone não realmente gostava de beber. Seu caderno estava jogado no chão, algumas palavras escritas com sua letra tremida e vacilante.

Eu só... eu só sinto raiva o tempo todo. Mesmo quando eu escrevo o máximo sobre todo o meu ódio, quando eu explodo e jogo coisas nas paredes. Eu continuo acumulando essa raiva como pontos de um jogo doentio. E essa dor física é viciante, é como se eu precisasse disso para respirar. Eu sinto raiva e dor o tempo todo. São como demônios se acumulando, crescendo, se alimentando de tudo dentro de mim. Eu não me lembro da última vez em que eu fui capaz de passar um dia sem chorar.

É como ser assassinada lentamente pela minha própria mente.

Ela deixou o caderno de lado, pegou sua carteira e pegou sua pequena lâmina. Fina, flexível, leve, ela gostava da sensação daquilo entre os seus dedos. Parecia algo feito para estar entre os seus dedos. Deveria estar no colégio assistindo alguma aula monótona, porém, algo havia deixado Patrícia realmente irritada na noite anterior e quem virou seu saco de porrada? Se você chutou Simone, você acertou.

Por causa dessa violência na noite anterior, Simone acabou acordando mais tarde e com uma dor terrível. A luz que entrava pelas frestas da janela deixou ela ver o sangue travesseiro, imaginou que provavelmente tinha tossido durante a boca. Sua boca estava seca e o gosto metálico era enjoativo.

Simone girou a lâmina entre os dedos, fechou o punho direito. O que escreveu na noite anterior enquanto sentia a dor de ter sido espancada se entranhando na sua mente não foi um bilhete de despedida, e nem era realmente seu objetivo sangrar até a morte. Porém, ela não acharia realmente ruim caso um incidente acontecesse.

Ela segurou a lâmina entre o indicador e o polegar e passou a ponta do anelar e do dedo médio pelos cortes em seu braço. Linhas horizontais finas e não muito retas, algumas coçavam enquanto criavam uma casquinha. Segurou a lâmina com mais firmeza e abriu um corte um pouco mais longo que os outros, um pouco mais fundo e mais doloroso que os outros. Simone grunhiu, colocou a lâmina na beira da mesa de cabeceira. Ela levantou e abriu o armário, pegou sua garrafa. Ela já havia bebido mais ou menos um terço da vodka.

Abriu a garrafa e sentou no chão ao lado da cama e começou a beber. Ela não gostava de verdade do sabor, mas bebia para se sentir ‘entorpecida'. Para não pensar em sua vida miserável, em como era um desastre naquele momento. Com a mente nebulosa, ela não pensava no que perdeu. Não pensava no seu pai, muito menos pensava em Amanda.

Ela não queria pensar em Amanda.

Queria enterrar seus sentimentos pela psicóloga, enterrar todas as memórias com ela. Doía pensar em como foram felizes, em como foi perfeito. E mesmo que Amanda já tivesse ligado algumas vezes e tentado falar com ela, Simone simplesmente a ignorava.

Bebeu outro e outro gole, cortando a pele enquanto ficava mais e mais bêbada. Quanto mais nublada sua mente ficava, mais longos os seus cortes ficavam. O sangue escorria pelos seus braços lentamente. Em algum momento, ela deu o último gole e empurrou a garrafa para longe. Seu estômago doía, seu corpo aparentemente estava rejeitando todo aquele álcool. Ela fechou a mão com força, sem realmente pensar no que estava fazendo.

Apertou a lâmina contra a pele e puxou para cima. Com força e vontade insana de se ferir. O corte torto e vertical, provavelmente fundo demais, desde o pulso até a dobra do braço. Deixou a lâmina cair no chão, segurou seu braço e se curvou para frente.

 

Fechou os olhos e "apreciou" a dor...

Nome: rhina (Assinado) · Data: 08/04/2017 10:11 · Para: 10. O Demônio Detrás Olhos Verdes

 

Para auto destruição Simone está fazendo tudo com perfeição. ....ela consegue seu intuito. ....ou ainda há salvação. .....

rhina



Resposta do autor:

Ela é muito boa em destruir quem ela costumava ser e quem ela é sem construir quem ela vai se r



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.