A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie


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Notas da história:

* trigger warnings: depressão, auto-mutilação, menções à suicídio, alcoolismo, violência, sexo explicito

* venha falar comigo no Twitter: srtacharlie27

* primeiro parte da duologia: http://www.projetolettera.com.br/viewstory.php?sid=431

 

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2016

Simone Kupstas sentou no chão, suas costas encostadas na parede. Era sexta-feira outra vez, logo alguém apareceria com bebida. Ela fechou os olhos, não deixando ninguém ver o par de olhos verde-claros com pontinhos dourados, a música tocando alto em seus ouvidos. Seu cabelo loiro preso, brilhando no sol. De casaco, cobrindo a pele pálida. Ela abraçou as pernas, sua bolsa pendurada no ombro e apoiada nela. Ela não queria chorar, mesmo que tivesse uma vontade gigante de fazer aquilo.

Sua vida estava um desastre.

Ela foi criada pelo pai, já que sua mãe havia abandonado ela quando a garota era um bebê de poucos meses. E havia voltado alguns meses, se mostrava uma mulher bem filha da puta. Parecia não se importar com o seu bem-estar, a casa só não caia aos pedaços porque Simone ainda tentava manter as coisas do jeito certo. Porém, faziam semanas que seus armários estavam vazios e que sua geladeira só tinha água. Ela não comia direito, não porque foi acostumada a ter sempre comida pronta, mas sim porque ela simplesmente não tinha vontade, não sentia fome. Podia ficar dois ou três dias sem comer, basicamente vivendo a base de água. Patrícia claramente também detestava a sexualidade da garota, tinha puro asco do relacionamento que Simone tinha.

O antigo relacionamento da garota.

No ano anterior, em uma tarde de maio, Simone havia entrado em mais um consultório para mais uma tentativa frustrada de terapia, e encontrado o seu sonho de consumo. Amanda Borges, uma psicóloga de vinte e sete anos. Um pouco mais alta que a garota, os olhos escuros e expressivos, os cabelos escuros e macios. O sorriso sincero e a voz doce. Simone havia se apaixonado em alguns segundos, a primeira vista. Foi incontrolável. Em poucas sessões, elas se aproximaram e tornaram amigas. A evolução foi natural, não foi uma grande mudança, a amizade se tornou um romance facilmente. Simone se lembrava perfeitamente do primeiro beijo, da confusão após isso e a decisão de deixar rolar para ver o que aconteceria.

O namoro ‘oficial’ havia durado quase um ano, tiveram momentos difíceis, complicados. Momentos com Henrique, o ex-melhor amigo de Simone, com Claudia, a tia mais velha de Amanda. Momentos complicados com Amanda e seu TEI, o transtorno que fazia Amanda acreditar que era um monstro. E, depois que Patrícia voltou do nada e Lucas foi morto por um bandido qualquer. E, há uma semana, Simone havia tomado uma decisão: terminar o namoro.

No dia seguinte, ela beber e bebeu, ficando completamente e acabou transando com Ana, a garota que a sua melhor amiga amava.

Elas acabaram contando para Mar, já que ambas sentiam que estavam sentindo que haviam cometido uma traição. Simone sabia que, mesmo que tivesse terminado com Amanda, ela se sentia traindo a mulher. E, pior, se sentia traindo Mar. Há meses sabia dos sentimentos da ruiva pela garota. E Ana também sentia que estava traindo Mar. Era uma situação tensa. E Mar acabou perdendo completamente o controle naquele sábado e acabou batendo em Ana. Simone não sabia dos detalhes, só sabia que, por pura sorte, Amanda apareceu por lá e praticamente salvou a garota.

A culpa pesava tanto que os ombros dela estavam caídos. Os arranhões nas costas já haviam melhorado bastante, mas foram lembretes constantes do erro naqueles dias em que ardiam, assim como não ver Mar durante todos aqueles dias. Porém, aquele era mais um erro depois de vários. Dizem que errar é humano, mas ela achava que errar tantas vezes era uma estupidez que talvez apenas adolescentes sejam capazes de fazer. Erro após erros, merda após merda e toda a sua vida desabou como um castelo de cartas. Todo o amor escorreu entre seus dedos e o que restou se transformou em raiva e culpa. Cada minuto que passava, a dor corroía um pouco mais de quem ela um dia já foi.

Quem é você? O que você é? O que você quer?

É uma pergunta que ela tentava responder, porém, talvez a resposta não esteja nela.

Simone sentiu o cheiro de cigarro encher o seu nariz no mesmo momento em que sentiu alguém se sentar do lado dela, a pessoa que se sentou ao lado dela arrancou um dos seus fones de ouvido. Simone ergueu a cabeça, virou e a olhou. Mar estava do lado dela, parecia mais cansada e pálida do que da última vez em que a viu, como se estivesse doente. Isso deixou Simone preocupada, a raiva que ela sentia pela injustiça do que Mar havia feito com Ana sumiu no meio da preocupação.

— Precisamos conversar — Mar falou baixo, a voz levemente grave soou delicada.

— Você está com raiva de mim?

— Não, eu... eu estou decepcionada. Não estou zangada ou chateada com você, só decepcionada.

— Você esperava mais de mim.

— Você me fez esperar mais de você.

— Eu errei com todo mundo, não é? Errei contigo, com a Amanda, com a Julia e até com o meu pai. Por mais que eu tente... eu só consigo estragar as coisas.

— Ei, olha para mim — Mar segurou o rosto dela — Sabe com quem você está errando? Não comigo, com Amanda, Julia e nem com o seu pai. O seu maior erro é com você mesma. Se você mesma de um ano atrás olhasse para você hoje, teria orgulho?

— Não.

— Então esse é o problema. Você está sendo alguém de quem você não se orgulha e é isso que faz a culpa te machucar. Confia em mim, eu entendo.

— Por que eu tenha a impressão de que seu discurso é “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”?

— Porque é exatamente assim — Mar acariciou o rosto dela com os polegares. Os olhos verdes brilharam com um carinho suave havia uma certa dor por trás do carinho, muito diferente da raiva abrasiva que ela viu da última vez — Eu fiz as escolhas erradas e eu vou tentar de novo.

— Com a Ana.

— Sim, com ela. Mas, antes de poder tentar de novo, eu precisei ir até o fundo do poço. Você não sabe de metade do que eu passe, não queira saber. E você não precisa ir até o fundo também antes de levantar. Você não precisa se destruir antes de tentar levantar.

Simone assentiu, enfiou o rosto na curva do pescoço de Mar. Quente e confortável. Sentiu a garota envolver seus ombros, as mãos dela acariciarem suas costas delicadamente. A conversa depois que Simone contou o que havia feito foi um tanto dolorosa. Não que Mar tivesse dito algo ruim, mas sim pelo quanto o erro de Simone e Ana machucaram Mar.

— Eu vou matar vocês — Mar falou olhando para Simone, seus olhos brilhando de dor, parecia que fora torturada até a alma — Matar as duas.

— Eu sei que não é uma coisa que eu deveria ter feito. Me desculpe...

— Acha que desculpas é o suficiente? Depois de tudo que eu fiz por você?

— Olha...

— Você deveria ser a última pessoa desse mundo que faria algo assim comigo! Quantas vezes eu falei o quanto eu gosto dessa garota? Quantas vezes eu conversei com você sobre isso?

— Mar...

— Não me olha como se você tivesse o direito de fazer algo.

— Você sabe que a gente poderia não ter contado, não sabe?

— Não é como se eu não fosse descobrir.

— Mas demoraria, não?

— Então você pensou em não me contar?

— Não, Mar, eu não cogitei isso. Nenhuma das duas. Só... não fique tão irritada.

— Não quer que eu fique irritada? Você transou com ela e não quer que eu fique irritada? — O rosto e o pescoço dela estavam ficando cada vez mais vermelhos — Eu estou puta da vida e chateada. O que você sentiria se eu transasse com a Amanda?

— Mar...

— Vamos, você não ficaria puta comigo? Nem magoada?

— Eu não estou mais namorando ela, eu já disse.

— E isso faz diferença? Então não namorar é carta branca para você transar com a garota que eu amo — depois de uma breve frase, Mar continuou — Eu confiava em você. Eu realmente confiava em você, Simone. Eu deixei você entrar na minha vida, eu deixei você ser alguém importante na minha vida. E você faz isso? Eu só não quebro a sua cara porque eu prometi que não te machucaria, mas você bem que merece. As duas merecem.

Aquela havia sido a última vez que Simone viu Mar até aquele momento. Ela não queria machucar a garota, era a sua melhor amiga. Porém, cada aspecto da sua vida estava desmoronando. Mar murmurou em seu ouvido:

— Você fez Amanda ir embora. Por favor, não faça isso comigo. Me deixe ficar.

Simone assentiu, elas se afastaram e Mar beijou sua testa. Como a garota conseguia agir tão protetoramente?

Depois de alguns minutos, uma garota e um garoto apareceram com as sacolas conhecidas, pesadas e cheias de bebida. Simone levantou, Mar levantou com ela, e foi em direção ao casal.

— Não, hoje não — Mar segurou a mão de Simone e a puxou em direção ao ponto de ônibus — Você vai para casa, estamos no final do ano. Você não tem uma pilha de livros para ler? — Simone riu baixo.

— Okay... e você não vai beber?

— Hoje não.

Simone assentiu. Mar esperou o ônibus com ela e a observou entrar. Simone se sentou no último banco do ônibus, encostada na janela. Ela fechou os olhos e se controlou. Quando chegou em casa, ela imediatamente se enfiou no quarto e se jogou na cama. Ela enfiou a cara no travesseiro e se viu chorando desesperadamente. Sentia falta de seu pai, dos braços fortes e da segurança que ele passava. Sentia falta do amor dele. Faria qualquer coisa par ter seu pai de volta, porém, os mortos nunca voltavam.

Ela sentia falta de Amanda, do relacionamento delas. Porém, não o relacionamento dos últimos meses, mas sim o relacionamento antes de Patrícia. Antes do acidente de carro. Sentia falta de se enfiar no peito da psicóloga e sentir o cheiro de alfazema. Os beijos suaves, os abraços familiares. Também sentia falta do sexo. Não exatamente do prazer, o ato em si e dos orgasmos. Ela sentia falta do quanto elas se conectavam quando faziam amor. O quanto era íntimo se abraçarem nuas, podiam se tornar uma só por alguns instantes.

Lucas era a sua família e ela o perdeu. Amanda era sua casa e ela a perdeu. Julia era sua amiga e agora ela a odiava. Apenas Mar restou, afinal, apenas Mar parecia entender perfeitamente o que estava acontecendo.

Ela continuaria tentando, ela continuaria lutando contra o que ela se tornou. Isso porque ela continuava precisando de Amanda, porém, ela não poderia ficar com a mulher enquanto fosse daquele jeito, enquanto machucasse a mulher. Ela só queria não demorar demais, ela só queria que não se consertasse quando já fosse tarde demais. Queria conseguir tê-la de volta antes que Amanda a superasse, antes que tentasse com outra pessoa.

Ela não queria ser como Arthur. Simone pertencia à Amanda, seu coração e sua alma eram da mulher, mas a sua mente não estava funcionando do jeito certo. E, enquanto sua mente estivesse daquele jeito, pensando nos melhores modos de se autodestruir, Simone sabia que precisava se manter longe. Precisava ficar sozinha. Ela não queria machucar ainda mais aquela mulher. Por isso, ela estava sozinha.

Simone viu o medo em Mar, o medo de que ela se afundasse tanto assim. Simone também tinha esse medo, ela não queria cair tanto. Afinal, quem poderia fazê-la se erguer era Amanda, e era perigoso arriscar tanto assim. Simone poderia ficar bêbada todos os dias para tentar esquecer, poderia transar com qualquer garota para se aventurar, podia até mesmo aceitar um dos cigarros mentolados de Mar.

Porém, no fundo, Simone sequer queria levantar da cama. Ela não queria acordar todos os dias, levantar, se arrumar, ir para escola. Ela não queria seguir a rotina; Ela queria ficar na sua cama, com fones de ouvido, abraçada com um travesseiro e esperar até definhar.

 

Mas ela precisava continuar.

Nome: Mel24 (Assinado) · Data: 02/05/2017 12:37 · Para: 01. Arranhões

Hey... Primeira vez que comento aqui! Também e a primeira vez que eu realmente me encanto por uma história, ao ponto de perder alguns pontos na prova da faculdade... Não estudei ne kkkkk. Não consigo parar de ler!!! Continue logo por favor!!! ^^



Resposta do autor:

Hey ^^ seja bem vinda. Bem, isso deve ser difícil de se conseguir kkkkk enfim, não é uma boa ideia perder pontos não kkkkk 



Nome: Manu_Kabral (Assinado) · Data: 12/04/2017 19:43 · Para: 01. Arranhões

Gostei demais. Vc é top. Escreve muito bem



Resposta do autor:

Thanks ^^ tento o melhor que posso



Nome: Vanessa (Assinado) · Data: 02/04/2017 17:00 · Para: 01. Arranhões

Começando agora.

Tenho serteza que vc vai arrasar na 2 temporada.



Resposta do autor:

Eu continuo tentando o melhor, então torço para que esteja bom 



Nome: rhina (Assinado) · Data: 31/03/2017 20:52 · Para: 01. Arranhões

 

Oi

Boa noite 

Já começou fodastico......

Maravilha....

rhina



Resposta do autor:

Oi

Obrigada :) 



Nome: KateF (Assinado) · Data: 13/02/2017 08:35 · Para: 01. Arranhões

Olá! Li a primeira fic toda e amei cada um dos 70 capítulos. Você escreve muito bem e tem uma sensibilidade incrível. Sinto falta de Amanda e Simone junta como no início. Espero que Simone possa encontrar o caminho de volta pra Amanda <3

Parábes pela história! E continue, por favor. 



Resposta do autor:

Oi :) bem, isso é bem significativo (sei que muitos capítulos são de um nível abaixo do normal). Eu tento o melhor que posso <3 Uma horas elas vão ficar juntas, prometo ^^

Eu tenho alguns capítulos prontos, então algo novo vai sair toda sexta (pelo menos até eu postar o que eu tenho)



Nome: DNyx (Assinado) · Data: 11/02/2017 16:23 · Para: 01. Arranhões

 Muito bom, estou acompanhando outras histórias também, e são muito boas, fogem do habitual da maioria, e sempre tem um tema polêmico, pesado e um ótimo diálogo e ponto de vista. Comecei com Stean (que acho uma das melhores) e não parei mais.. Você escreve muito bem!.. Parabéns :) 



Resposta do autor:

Obrigada <3 isso é ótimo. Eu tento ser um pouco diferente (afinal, por que escrever mais do mesmo?) e tenho uma quedinha por polêmica, eu tento o melhor para escrever algo legal. Oh, isso é bom (e eu tenho um amor enorme por essa história). *-*



Nome: A_Paiva (Assinado) · Data: 11/02/2017 13:34 · Para: 01. Arranhões

Foda.. Continue u.u



Resposta do autor:

Vlw ^^ eu já tenho alguns capítulos prontos :)



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