Ones musicais por Raquel Amorim


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Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5hnSlCygsTs

 


“Exagerado sim 
Sou mais você que eu

Sobrevivo de olhares
E alguns abraços que me deu

E o que vai ser de mim?
E meu assunto que não muda
Minha cabeça não ajuda, loucura, tortura

E que se dane a minha postura
Se eu mudei você não viu 
Eu só queria ter você por perto
Mas você sumiu

É tipo um vício que não tem mais cura
E agora de quem é a culpa?
A culpa é sua por ter esse sorriso
Ou a culpa é minha por me apaixonar por ele
Só isso

Não finja que eu não estou falando com você
Eu tô parado no meio da rua
Eu tô entrando no meio dos carros
Sem você a vida não continua

Não finja que eu não estou falando com você
Ninguém entende o que estou passando
Quem é você que eu não conheço mais
Me apaixonei pelo que eu inventei de você”


 

 

“Na frustração que eu tento imaginar seu rosto, na possibilidade de você ser real, eu sorrio com o nada. Fico pensando em quando estiver em seus braços, imaginando o quanto eu posso ser sua, sim, eu sou sua, desde o dia que recebi sua primeira carta, desde o dia em que pude me ver te amando, ‘Escritora Amadora’, eu sou sua desde o momento em que você elogiou o meu sorriso, sim, você sabe quem eu sou, mas eu não sei quem você é, será você uma pessoa má, ou serei eu uma pessoa ingênua? Não posso chegar a uma conclusão agora, espero ansiosa pelo dia de amanhã, encontrarei você, quem sabe de fato, você é tudo que eu sempre imaginei, quem sabe de fato, simplesmente nos amemos de verdade, como vem sendo nesse último ano, porque eu sei que essa ilusão pode acabar amanhã, mas eu acredito em cada palavra sua, e se você já me viu e ainda assim continua mandando essas cartas (agora e-mails) então eu posso acreditar que gostou do que viu, por isso eu confio, não pode ser mentira, você tem que ser real”.

            Termino a última escrita dessa jornada torturante. Podem me chamar de louca, mas sim, eu me comunico com uma desconhecida, na verdade, eu me apaixonei por uma desconhecida. Nos conhecemos em um site de relacionamento há um ano, conversamos e passamos a trocar cartas, depois passou para e-mails e cá estou eu, ansiando para encontrá-la pela primeira vez. O dia seguinte será decisivo, ou ela é real, ou é uma completa farsa, disfarçada de poetisa romântica, porque se ela for uma mentira, ela é uma ótima mentira, suas palavras, seus elogios, eu a imagino da melhor forma possível, ela se descreveu: Loira, alta, com tatuagens, trabalha em uma loja de produtos esportivos e segundo ela, mora mais próxima do que eu posso imaginar. Eu prefiro acreditar na minha fantasia do que pensar que ela é uma farsa, isso seria injusto comigo. Ana, apenas Ana, ela não deu o sobrenome, claro que não, seria burrice, eu iria encontrá-la em qualquer rede social, mas eu fui idiota, ou não em dá o meu, Aparecida Barreto, mas conhecida como Cida, ou Cidinha, Ana me chama de “Sua Cidinha”. Aquilo sempre faz meu coração acelerar, já nos falamos por telefone, já fiz alguns testes para saber se ela é real, do tipo, manda uma foto agora do seu pé, ou perguntar a roupa que ela está vestida e pedir uma foto, ela nunca hesitou em fazer, ela é real, preciso que ela seja real.

- Eu sou uma puta pessoa carente.

            Sorrio comigo mesma, essa era a verdade, sem amigos, a família mora longe, trabalho como secretária em um escritório de advocacia e faço direito, minha vida é essa, eu sei, uma completa solidão, por isso preciso que ela seja real, ela tem que ser real. Envio o último e-mail daquela jornada, porque a partir de amanhã tudo mudará, ela não ficará só na minha imaginação, ela será real, minha Ana será real. Desligo o notebook e deito na cama, o dia seguinte será decisivo. E ele chegou, entro naquele restaurante nervosa, não sei se cheguei cedo, não sei se ela já me espera, mas as instruções eram simples, vá ao restaurante e busque a reserva em seu nome, e bom, aqui estou eu, sentada nessa mesa, bebendo de uma taça de vinho, que já havia sido escolhida por ela. Eu espero que eu, com vinte e três anos não seja mais uma idiota enganada por algum estuprador ou velho que gosta de garotas mais novas, porque meu coração clama para que ela seja real. Então sinto um toque em meu ombro, quando viro o rosto, lá está ela, tem que ser ela, loira, alta com tatuagens, e seu sorriso, porra, você acaba de fazer eu me apaixonar mais só com o seu sorriso, Ana, não faça isso, não me faça te amar desse jeito.

- Oi.

            E sua voz, sim, eu vou me apaixonar por cada detalhe seu, porque agora você é real.

- Oi, Ana?!

- Sim, posso? – Você diz apontando para a cadeira em minha frente.

            Eu apenas concordo, porque, puta merda, você é melhor do que eu imaginei, você é real, eu apenas quero você perto agora.

- Você é tão bonita perto quanto é de longe.

- Isso é tão injusto. Você já me conhecia, e eu estava no escuro.

- Não está mais. Já escolheu o que jantar?

            E lá estava o sorriso. É exagerado sim eu me aproximar tanto por seu sorriso, tão injusto você ser tão linda e real, você é mais do que eu imaginei. Eu apenas concordo com a cabeça, mal podia falar.

- Então vamos jantar, nossa noite está só começando.

            E você sorriu mais uma vez, e de fato a noite só começou, você me amou naquela noite, Ana, você provou que era real, e nos próximos três meses você fez isso. Minha vida mudou desde que você provou que era real, você é tudo que eu sempre imaginei, tudo que eu sempre sonhei, tudo que eu sempre quis, mas agora mudou, você não é mais a mesma, eu não sei o que aconteceu, mas o tempo fez você mudar, a cada dia os beijos de bom dia sumiram, as frases bonitas foram esquecidas, a poetisa romântica desapareceu, é como se quisesse acabar com a minha ilusão.

- Ana, o que está acontecendo?

            Você só me encava com esses malditos olhos claros, eles diziam muita coisa, inclusive que tinha alguma coisa errada.

- Eu preciso ir embora.

            Claro que você precisa ir embora, Ana, você costumava me amar e ficar, você costumava estar na manhã seguinte, agora você chega, me toma com suas mãos, com sua boca, eu estou sobrevivendo com lembranças, Ana, lembranças do que você era, mas ainda assim você se recusa a me aceitar, se recusa a ser sincera comigo, só me fale o que está acontecendo.

- Diga-me, fale o que está acontecendo!

            E ainda assim você me olha, mas não é mais o mesmo olhar, ele está diferente, eu não te reconheço, eu não sei quem é essa mulher na minha frente, você não é a minha Ana, a minha garota romântica por quem me apaixonei a distância por um ano, quem é você de verdade, Ana?

- Eu preciso ir embora.

            Ainda me encara com esse olhar medroso. Eu sei, a culpa é minha, não é? Eu sou essa boba apaixonada, que se apaixonou por esse maravilhoso sorriso, ou será que a culpa é sua? Porque é impossível não se apaixonar por ele, então de quem é a culpa, Ana, ou somos ambas culpadas?

- Essa é a sua decisão? É assim que vai ser?

            Você chega perto de mim e beija meus lábios, o pior, Ana, é que eu senti, eu senti seus sentimentos, mas você sumiu, quando abri meus olhos você tinha sumido. Eu vi a porta sendo fechada, eu corri, corri atrás de você, os carros passaram por mim buzinando, mas você montou em sua moto e foi embora. Eu fiquei lá, parada, você foi embora mesmo eu estando gritando por você, mesmo eu estando clamando para que ficasse. Eu sou mesmo uma idiota apaixonada, não é? Deve estar sorrindo de mim agora. Você não era real no fim das contas, apenas uma ilusão, uma boa ilusão que eu nunca saberei se foi real, porque agora eu não sei se sem você a vida continua, ninguém poderia entender o que estou sentindo, ninguém! Eu volto para a minha casa, a casa onde nos amamos tantas vezes naqueles três meses. No fim, Ana, você foi apenas uma ilusão, eu me apaixonei pelo que eu inventei de você, apenas uma boa e feliz imaginação. Você não era real, e ainda não sei de quem foi a culpa, pois foi impossível não me apaixonar por seu sorriso, porém ele é seu, naturalmente seu, então a culpa é minha por me apaixonar? Ou sua por tê-lo? Eu me perguntei isso durante todos os cinco meses seguintes sem você. Será que você foi real? Eu resolvi viver, não tinha a opção de tê-la, então resolvi acreditar que não foi real, foi apenas um sonho bom, uma perfeita ilusão criada por minha mente solitária, eu estava conseguindo, Ana, eu realmente estava conseguindo, mas naquele dia, em que eu resolvi acreditar que eu poderia conseguir sem você, eis que alguém bate na minha porta e lá estava você, com aquele maldito sorriso, aquele maldito sorriso que eu era, sou e sempre serei apaixonada.

- Apenas sinta.

 

            E você não me deu tempo de dizer não, você entrou e me beijou, beijou como fazia antes, beijou como se me amasse, mas eu sei que não é real, Ana, você é uma ótima mentirosa, mas o que eu poderia fazer? Eu me entreguei a você naquela noite mais uma vez, sempre seria assim porque eu me apaixonei por esse fodido sorriso, meu maldito sorriso maravilhoso e perfeito. Eu amo você, Ana, amo você acima de tudo, mas na manhã seguinte você não estava lá, estaria a minha mente pregando peças? Estaria eu tentando manter você em minha vida? Mas meu corpo marcado dizia outra coisa, você era real, sempre foi e sempre será. Eu me olho no espelho, aquela era eu, uma mulher de vinte e três anos que amava uma ilusão de uma mulher perfeita, mas eu sabia que você não era real, sabia que na verdade eu inventei você, então o que eu poderia fazer? Apenas deixei, porque eu era uma fodida solitária que precisava de amor, então eu sorrio comigo mesma no espelho, porque, Ana, você era real fisicamente, mas não era verdadeira comigo porque a Ana que eu me apaixonei e eu inventei  não existe, agora eu sei a verdade, você me ama, Ana, mas sabe que eu não amo o seu eu verdadeiro, então você voltou para mim, mas o que você não sabe é que eu posso amar o seu eu verdadeiro, você pode nos dá essa chance, eu vou conseguir. O seu maldito sorriso era o meu ponto fraco, então eu me conformei, porque eu amo uma Ana que não existe, mas eu sei que você vai fazer ela ser real para poder me amar de volta, pelo menos nos momentos em que você aparece em minha casa de surpresa e me toma para si, porque eu sou sua, só me resta isso, essa é a minha maldita ilusão, assim passou a ser a minha vida, amar você, o seu eu irreal, o seu eu que eu inventei, só espero que um dia você me dê a chance de amar você por completo, porque eu posso fazer isso, você me deve isso, porque a culpa é nossa, eu tenho culpa por me apaixonar por você e você tem culpa por ter esse sorriso, esse maldito e maravilhoso sorriso que faz meu mundo ser melhor. Se deixe ser amada por mim, querida, eu amo a minha ilusão, mas eu sei que vou amar o seu real, então só deixe eu te amar, sei que voltou por isso, sei que vem todas as noites tomar meu corpo, porque quer a minha alma também, mas você a tem, Ana, junto com o meu coração, só se permita sentir Eu espero você todas as noites e você aparece para me amar, eu vou tirar seu medo, eu prometo que vou conseguir fazer você acreditar que vou te amar, o seu verdadeiro eu, então eu espero, espero o dia em que você vai me deixar entrar de verdade, porque você me deve isso, a culpa é sua por ter esse maldito sorriso e também é minha por me apaixonar por ele, no fim, nós duas somos culpadas. 

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