Enternecer por femarques


CAPÍTULO 8:

BEATRICE

 

      Minha irmã falou a semana toda sobre Giuliana e como ela era incrível. Mal deu tempo de a moça sair de casa no sábado e comecei a ouvir sobre ela. Amber estava empolgada com minha nova amizade e gostava de falar sobre como eu agora dava risada e me divertia com outras coisas.

            Estava fechando a livraria para correr para casa e dar o último livro de uma série que Amber gostava muito e que havia acabado de chegar. O bom de trabalhar aqui eram os descontos que eu conseguia nos livros. Sabia que ela passaria o feriado lendo.

            Era quarta-feira e teríamos um feriado no próximo dia de aniversário da cidade, o que era ótimo.

            Estou abrindo o portão de casa quando meu celular começa a tocar. Atendo-o sem ver quem é, mas logo reconheço o sotaque e a voz alta.

            “Oi, Bea.”

            Estou vendo Giuliana faz um mês e reconhecer sua voz era fácil. Com o tempo me acostumei a ela e meu medo de que ela quisesse saber sobre o meu passado diminuiu conforme eu contava coisas pequenas a ela e não era bombardeada com perguntas. Amber estava certa e eu estava me divertindo bastante.

            “Oi.”

            “O que você está fazendo?”

            “Acabei de chegar em casa, sai agora do trabalho.”

            Abro a porta de casa, empurrando-a com o ombro.

            “Eu e meus amigos vamos sair para jantar hoje, você quer vir?”

            Fecho a porta e me encosto nela, abraçando a sacola com o livro contra meu peito. Também faz muito tempo que não saio com mais de uma pessoa, sair só com Giuliana era o suficiente para mim. E agora ela queria que eu saísse com outras pessoas que podem fazer coisas perto de mim que me façam perder o controle, e eles não tem culpa dos meus pensamentos malucos.

            Talvez não seja uma boa ideia eu me envolver em coisa que me assusta, mesmo que pareçam malucas demais. Não tinha acontecido ainda nesse encontro e eu já estava com medo. Foi por isso que sempre evitei amizade. Eu vivia bem a minha vida lutando contra esses pensamentos insistentes e mantendo minha rotina longe daquilo que me deixasse a beira de torná-los realidade. E ter uma amizade com alguém que não sabe disso, pode me obrigar a passar por situações difíceis. E se eu me divertir tanto a ponto de esquecer de me controlar?

            “Beatrice?”

            Escuto a voz de Giuliana me chamando, me tirando de meu devaneio.

            “Desculpa, fiquei um pouco ocupada.”

            “Então, vamos? É para agradecer o jantar de sábado passado. Vamos no restaurante do meu amigo de comida japonesa, é por minha conta.”

            “Tudo bem, eu encontro você lá.”

            “Eu posso passar e te pegar, é caminho da minha casa até lá.”

            Concordo com ela e desligamos a chamada. Eu sabia como me sentia por dentro, da ansiedade e medo que me consumiam, mas Amber ficaria feliz em me ver saindo.

            Deixo a sacola em cima da cama de minha irmã e vou para o banheiro. Em nosso apartamento tínhamos apenas um pequeno banheiro que ficava entre os quartos.

            Opto por vestir a mesma roupa de quando fui ao teatro com Amber, colocando o vestido preto, os sapatos de salto altos e meu casaco por cima. Deixo meu cabelo secar sozinho e como sempre, ele fica todo encaracolado e armado. Jogo-o para o lado e me olho no espelho. Não tenho maquiagem e não gosto de usar as de Amber. Me encaro e passo os dedos sobre minhas sobrancelhas, arrumando-as. Giuliana estava sempre com as dela perfeitamente alinhadas.

            Alguém abre a porta e sei que é minha irmã chegando da escola. Vou até ela, que quando me vê, me encara surpresa.

            “Vai sair durante a semana?”

            “Giuliana me ligou para sairmos para comer alguma coisa. Quer vir junto?”

            “Não, estou cansada.”

            “Comprei algo para você, está em cima da cama.”

            Ela sai correndo para o quarto e fico na sala arrumando minha bolsa. Coloco minhas balas e dinheiro. Sou surpreendida com Amber me abraçando por trás, jogando meu corpo para frente.

            “Você é a melhor irmã do mundo!”

            “Chegou hoje na livraria o último livro. Sabia que você queria.”

            “Obrigada, Be.”

            Me viro para ela e a encaro. Eu tinha a sua idade quando tudo começou a mudar. Não quero nunca dar a ela um terço do que tive que passar. Sei que ela era ainda mais nova e viveu tudo aquilo comigo, mas não lidou com tudo da mesma forma. Não posso transformar sua vida no que transformaram a minha, a nossa.

            “Você vai ficar bem?”

            Amber abre um sorriso terno.

            “Claro, vá se divertir. Fico feliz com você assim.”

            “Eu não quero deixar de cuidar de você.”

            “Bea, você cuida de mim e faz tudo o que pode para me manter bem. Não vai acontecer nada e vou ficar bem.”

            A abraço forte, até que ela me empurra para soltá-la. “Seu celular está tocando.”

            Começo a rir e corro até o sofá para pegar. É uma mensagem de Giuliana dizendo que está me esperando. Me despeço de Amber e digo que trago algo para ela comer do restaurante.

            Desço as escadas correndo e entro no carro de minha amiga, que não sei se um dia me acostumaria a andar em algo tão sofisticado. Dessa vez está tocando algo mais atual, e ela canta e bate os dedos compridos no volante.

            “Oi, garota.” Ela me olha e sorri, arrumada e sorridente como sempre. Acho que não tem um dia em que ela esteja emburrada ou brava.

            “Oi, Giu.”

            “Espero que não se importe de ouvir músicas mais atuais.”

            Começo a rir e dou de ombros. “Não, eu gosto de Nina Simone, mas gosto disso também.”

            Ela me olha e ri comigo. Dirige falando comigo sobre os livros que chegaram e, infelizmente, digo a ela que não recebemos novas biografias.

            Estaciona seu carro em frente ao Bianco’s e quando entramos, somos levadas por um homem de terno até uma mesa que estava reservada. Não havia ninguém ali ainda.

            Não demorou mais de dez minutos e o amigo de Giuliana, o mesmo que conheci há um mês, aparece e se senta a mesa. Ele cumprimenta Giuliana com um abraço e faz o mesmo comigo, me apertando.

            Quando me solto, olho para ela com os olhos arregalados e ela ri. Se aproxima de mim e sussurra em meu ouvido:

            “Ele também é italiano.”

            Ele ainda lembra meu nome e diz que espera que eu goste de sua comida. Dou um sorriso tímido a ele e garanto que irei gostar. Os dois começam a conversar cheios de gestos com as mãos e consigo reparar nele. Naquela noite estava tão nervosa que não pude reparar em seu sotaque, ainda mais carregado que o de Giuliana.

            Matteo era alto, como Giu, os cabelos eram castanho claro e curtos, os olhos castanho escuro. A barba por fazer fazia-o parecer mais velho. Ele era magro, mas alguns músculos eram visíveis. Era um homem bonito e charmoso.

            “Você sempre morou por aqui?” Ele pergunta para mim.

            “Ah, sim. Sempre, desde pequena. E você? Seu sotaque é igual ao da Giu.”

            Eles riem e concordam.

            “Eu sou amigo dela de infância, mas me mudei para cá há oito anos apenas.”

            Somos interrompidos por uma mulher alta e negra de cabelos encaracolados e curtos. Era linda. Fico olhando-a, prestando a atenção nela. Ela cumprimenta a todos e me dá a mão ao invés de um beijo como deu em Giuliana e Matteo. Sorrio para ela, agradecendo a forma de me tratar. Estava realmente acostumada com coisas mais distantes.

            Ela se apresenta como Andrea e vejo que seu sotaque é como o meu, logo entendo ela ter me estendido a mão.

            Eles me perguntam sobre meu trabalho e quando começo a contar, Giuliana diz que foi na livraria que nos conhecemos.

            O garçom vem trazer outro suco para mim e me encara, me dando um sorriso de canto quando se afasta.

            “Tem alguém te paquerando.” Andrea diz.

            Arregalo os olhos e olho para os lados, procurando por alguém. Há quanto tempo não namoro ou paquero alguém? Há muitos anos, muitos.

            “O garçom! Não viu como ele te olhou?” Ela complementa, me apontando o moço que parecia jovem demais parado em um canto do restaurante, ainda olhando para a minha mesa.

            “Você acha?” Pergunto espantada. Relacionamento era outra das coisas que cortei para não me desviar da minha missão de evitar o futuro que me aguarda.

            “Se quiser não sair com ele, pode sair comigo.” Matteo diz, com um sorriso enorme no rosto, e pisca para mim.

            Giuliana que está sentada ao meu lado engasga com o refrigerante que está tomando. Ela está tendo um acesso de tosse enquanto seu amigo está morrendo de rir.

            Sinto o rubor queimar em minhas bochechas e me encolho na cadeira.

            “Ele é bonitinho, Beatrice.” Andrea diz enquanto olha para o garçom.

            “Eu não costumo namorar.” Respondo baixinho.

            “Não precisa namorar, gata.” Matteo responde, dando de ombros em seguida.

            Dou risada da expressão divertida que ele faz e nego maneando a cabeça. “Não tenho tempo para isso, e não quero me envolver com ninguém.”

            “Mas ele é um gato, você podia perder meia hora do seu dia com ele, Giuliana é ocupada e faz isso direto.”

            Olho para a amiga de Giu, que está sorrindo, e penso no que ela quis dizer com isso.

            “Como assim?”

            Matteo estende a mão, impedindo que Andrea continue falando. “Deixa que eu explico. As mulheres se atiram nela e algumas são classificadas para perder meia hora com a Giu.”

            Arregalo os olhos e olho para Giuliana, que está com os braços cruzados e o cenho franzido. Decido não falar nada, mas fico pensando no que acabo de descobrir. Giuliana sai com mulheres, mas nunca deu em cima de mim.

            Ao mesmo tempo que penso isso, me repreendo pelo tipo de pensamento. Me pergunto por que ela nunca se insinuou para mim, não que isso me incomode, mas ela deve realmente querer apenas minha amizade.

            Olho ao redor, tentando encontrar alguma mulher que esteja olhando para Giuliana, mas não consigo notar alguma. Penso se ela é do tipo que leva essas mulheres para a casa e não as liga no outro dia. Ela é uma pessoa tão divertida e legal, não deveria fazer isso.

            “Mas o assunto não é nossa amiga, certo?” Matteo continua. “Você não quer que eu te apresente ao meu garçom?”

            “Isso me distrairia. Não posso.”

            “Mas, Beatrice, veja bem...”

            “Ela não quer, Matteo. Você é surdo? Ela não tem tempo, não quer isso e fim.” Giuliana responde, notavelmente irritada e quando termina, bufa, soltando a respiração pesada.

            Olho para ela, assustada, e como todos, permaneço quieta.

            Nós comemos, conversando sobre qualquer coisa, menos sobre paquerar alguém, visto que Giuliana ficou a maior parte do tempo emburrada. Antes de irmos embora, peço algo para Amber.

            Insisto em pagar pelo menos a parte de Amber e Giuliana não tenta me impedir. Nos despedimos de Matteo e Andrea, e digo a eles que me diverti muito. Deixo a parte de que fiquei assustada com a possível chance de ter que explicar a eles que um namoro poderia me desestabilizar só para mim, não precisavam saber.

            Minha amiga me leva de volta para meu apartamento em silêncio e não coloca nada para tocar no rádio do carro. Ela para em frente ao meu portão e me dá um beijo na bochecha.

            “Até mais.”

            “Está tudo bem, Giu?”

            “Sim, e com você? Não ficou chateada com a insistência deles?”

            Dou de ombros e abro um sorriso tímido. “Não, tudo bem. Eles não sabem meu motivo de não querer me envolver, só estavam brincando.”

            “E qual o motivo? Ele não era bonitinho?” Ela pergunta, séria.

            “Não, não é isso. É problema meu, eu não quero me envolver com ninguém.”

            “Tudo bem.”

            Respiro fundo e fico olhando-a, mas ela não diz nada. Insiste em dizer que está tudo bem e até me sorri, mas não é o mesmo sorriso que ilumina seu rosto.

            “Eu te ligo amanhã.” Beija minha bochecha de novo e fica em silêncio.

            Me despeço dela e desço do carro, entrando em casa sem olhar para trás. Apesar do comportamento estranho dela, a noite foi divertida. Seus amigos são engraçados e não aconteceu nada de tão terrível. Tudo bem que quase tive que dizer a eles que minha cabeça me faria entrar em pânico com o possível risco de ficar com alguém, o que me tiraria de minha rotina e assim, me faria perder o controle, perder a proteção com Amber e deixar meu passado vir à realidade. Só de pensar nisso sinto minha respiração pesar.

            Subo as escadas devagar, enquanto abro uma bala atrás da outra que carregava na bolsa e que me controlei ao máximo para não chupar na frente deles. Seria constrangedor demais. Elas me acalmavam e me mostravam que eu poderia gostar delas e não daquilo que era para eu gostar. Estava indo bem.

            Tinha amigos e ainda estava indo bem.

 

            Repeti isso a mim mesma até entrar em casa e correr para o quarto de Amber, ver se ela estava lendo o livro. Fiquei fora bastante tempo e agora queria me distrair com minha pessoa preferida.

Notas finais:

Oi meninas,

Espero que tenham gostado do cap antecipado.

 

Beijos,



Comentários


Nome: Rita (Assinado) · Data: 25/09/2016 05:22 · Para: Capítulo 8

Eu acho que ela deve ter algum problema com drogas no passado ou assim não sei to muito curiosa mas ela tá indo bem eu to gostando imenso.



Resposta do autor:

Oi, Rita. Tudo bem?

Beatrice tem algum medo relacionado a algo do passado. Bom o seu chute sobre drogas, vamos esperar...

Obrigada por acompanhar!

Beijo!



Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 24/09/2016 21:25 · Para: Capítulo 8

amei o cap antecipado e confesso que estou morrendo de curiosidade, e a Giu, sera que esta sentindo alguma coisa pela Bea,,,,, ciume?

 



Resposta do autor:

Oi! Que bom que gostou do capítulo, fico feliz!

Giuliana ficou incomodada, não foi? Vamos esperar para ver.

Beijo!



Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 24/09/2016 18:04 · Para: Capítulo 8
Muito intrigante a personalidade de Bea. Medo. Mas tá conseguindo ir frente, viver um pouco e a giu ficou com ciúmes? Parece. Bjs

Resposta do autor:

Oi, Patty. Tudo bem?

Realmente, Beatrice tem conseguido sair de sua rotina estressante e se divertir mais. Sobre o que Giuliana sentiu, quem sabe, não é?

Beijo!



Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.