A vida no mundo perdido [em hiatus] por charliefgrosskopf


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Quarta-feira, 02 de novembro de 2016

 Sectumsempre significa, basicamente, "cortar sempre'. Só uma pequena informação: Simone não reclamaria se ela pudesse lançar esse feitiço em si mesma. Ela estava no banheiro, a mão dentro da pia enquanto os cortes acima do cotovelo sangravam lentamente, mesmo que ela soubesse que o sangramento pararia mais rápido se ela erguesse o braço. Ela fechou a mão com força, viu as veias saltarem em seu antebraço magro. Eram seis e meia da manhã, ela precisava se apressar para não se atrasar.

O problema de se cortar não é o seu corpo, nem mesmo as cicatrizes que ficarão nele, é o fato de você estar tão fodido emocionalmente que você quer fazer isso na sua pele. O problema é sentir culpa e vergonha, como um ciclo sem fim de sofrimento. Afinal automutilação é algo complicado. Um pouco de experiência, ou de simples empatia, pode te dizer que quem chega a esse ponto é alguém que realmente precisa muito de ajuda. Ninguém pode dizer o que fazer, mas há coisas que pioram. Não para pedir atenção, não é por modinha, é mais sério que isso, mais fatal que isso. Literalmente é algo que pode matar alguém.

Nem todos que se cortam querem se matar e vice-versa, mas não é a regra. Ou pode ser um acidente, um dia cortar fundo demais e sangrar até o fim. E ela, quem está nessa situação, é a primeira pessoa que precisa admitir que tem algum problema sério e que precisa de ajuda, essa é provavelmente a parte mais difícil. O primeiro corte é difícil, ter um segredo desses e lidar com ele também, mas é ainda mais difícil e doloroso admitir que há algo de errado com você e que só vai piorar se você continuar usando a dor física como uma válvula de escape para o que machuca a sua alma.

Muitas vezes acaba se transformando em uma espécie de vício e nem todos os cortes realmente são para aliviar alguma dor, são só por uma vontade quase doentia de se ferir e sangrar. É uma queda constante, sem parar e cada vez mais rápida. E Simone estava nessa queda livre direto até o fundo do poço, ou o fundo de uma cova.

Quando achou que já havia sangrado o suficiente, Simone cobriu os cortes com uma toalha de rosto e ergueu os braços. Esperou por quase três minutos até ao sangramento diminuir. Então limpou a sujeira, improvisou um curativo, envolveu o braço com uma bandagem de um jeito um tanto desajeitado. Ela colocou a camisa do colégio, vestiu o casaco, pendurou a mochila nas costas e correu. Chegou um tanto atrasada, mas ela não se importou muito.

O colégio era barulhento demais, na hora do intervalo Simone saiu de sua cadeira e se escondeu entre a parede e a mesa do professor, sentada no chão abraçando as pernas. Ela colocou os fones de ouvido para tentar abafar seus pensamentos sobre dor. Mesmo com a música no máximo, ela ouvia aquela voz baixinha murmurando que ela deveria sair de lá, fugir, correr e morrer. Ela sabia o que faria quando chegasse em casa: entraria no banho, a nova lâmina na mão e sangraria mais um pouco. Cada linha era um grito sem voz, um pedido de socorro que ela não tinha coragem de realmente pedir. As lágrimas e o sangue se misturariam à agua e escorreriam pelo ralo para desaparecer, mas isso não levaria a agonia embora.

Seria assim dia após dia.

Vivendo ou morrendo, aquilo não importava, ela sentia como se estivesse somente existindo. Ela quase enxergava o fim, quase sentia o cheiro áspero da morte. Pensava e repensava sobre o passado, mesmo que fosse nova, ela se sentia culpada pelos erros, deslizes e escolhas. Tudo o que fez e o que deixou de fazer. Se arrependia também de tudo que ainda poderia fazer. E quando doía demais, ela nem mesmo se lembrava do que a levou à essa saída. Era só choro e sangue com uma mente vazia e entorpecida.

A manhã passou assim, como um borrão cinzento sem sentido. Simone se arrastou para fora da sala, escadas abaixo e desceu a ladeira. Ela se sentou no banco. Mar se aproximou, de mãos dadas com a namorada e com a mochila dela nas costas (o clichê do namoro: alguém sempre carrega a mochila do outro).

- Você não parece nem um pouco bem - Mar disse - Quando foi a última vez que você comeu?

- Ontem.

- Não minta para mim.

Simone revirou os olhos e depois desviou o olhar. Mar virou para a namorada.

- Eu vou levar ela pra casa, okay? - Mar murmurou e beijou Ana - E mais tarde eu vou sair com o Marcos, ele disse que sabe alguns lugares onde eu posso arranjar um bico.

- Okay - ela pegou a mochila de volta - Te vejo amanhã de manhã.

- Te amo.

- Eu também.

Mar sorriu e seguiu a garota com os olhos até que ela entrasse no ônibus, girou sobre os calcanhares e olhou para Simone. Ela havia faltado o colégio para resolver um pequeno problema no banco por causa da conta na qual ela costumava receber o salário da casa de festas. Diferente de como ela costumava andar, estava com o tênis escuro, um jeans claro com rasgos e uma camisa social de manga - era xadrez vermelha com faixas brancas e pretas.

- Usar camisa xadrez é um clichê enorme, sabia? - Simone resmungou e cruzou os braços.

- Eu sou um clichê - ela encolheu os ombros - E saiba que eu comprei essa camisa na sessão feminina da loja.

- Então você conhece a parte feminina das lojas de roupa?

- Claro que conheço - ela mexeu na manga da camisa - Não posso fazer nada se a maioria das estampas são broxantes e as mangas são finas, não sou um cara tentando provar a masculinidade mostrando os músculos com uma camisa apertada. Essa aqui tem um tamanho bom.

- A culpa é sua se você é gigante.

- Não sou gigante, só que eu sempre pratiquei algum esporte e acabei desenvolvendo um pouco mais do que a maioria das garotas. E essa coisa de estrutura é genético.

- Porque seu pai é enorme.

- Uhum. Enfim, vamos, vou te levar pra casa.

- Não precisa...

- Calada, vamos.

Mar puxou ela para que ela se levantasse, pegou sua bolsa e pendurou no ombro. Seguiu ela para dentro do ônibus e sentou ao seu lado. O trajeto era curto, então em poucos minutos elas já estavam no ponto certo. Desceram e caminharam até a casa. Mar percebeu o quanto parecia vazio e gelado, como se ninguém realmente morasse lá. Os retratos não estavam a vista, qualquer tipo de enfeite também não estava visível. A mesa na segunda sala estava vazia e empoeirada.

O quarto de Simone também não estava em melhor estado, livros e papéis jogados pelo chão, a cama bagunçada, roupas jogadas pelo quarto. A escrivaninha cheia de poeira, o lugar tinha um cheiro estranho, há semanas ninguém abria a janela. Simone se jogou na cama e deitou com o rosto em um travesseiro. Mar olhou melhor ao redor, acabou chutando sem querer a lata de lixo cheia, o que jogou papel amassado, latinhas de refrigerante e pedaços de papel higiênico ensanguentado.

Puta merda. Ela pensou, cerrou os dentes. Mar se aproximou da mesa de cabeceira e abriu a gaveta. Simone percebeu o movimento e se sentou.

- Ei, você não pode ficar mexendo nas minhas coisas!

Mar a ignorou ela e continuou mexendo dentro da gaveta. Simone suspirou, ela sabia que não era exatamente ume boa ideia mexer na gaveta daquele jeito. Quando ela enfiou a mão esquerda mais fundo na gaveta, sua mão passou por uma das lâminas que Simone havia deixado lá. Ela tirou a mão rapidamente quando sentiu a dor na palma da mão.

- Ouch - ela segurou a mão com força e olhou para Simone - Por que diabos você tem a porra de uma lâmina na sua gaveta?

- Por nada - Simone se aproximou dela - Deixa eu ver isso aí.

- Não te ensinaram que você não pode tocar no sangue de outras pessoas?

- Sim, mas não me importo muito.

Mar revirou os olhos e deixou Simone segurar seu pulso e avaliar o machucado. Não era um corte fundo, mas ardia bastante. Simone a puxou em direção ao banheiro, colocou a mão dela na pia e ligou a água. Com cuidado, Simone limpou o machucado. Ela secou e usou um pedaço de papel higiênico para apertar e fazer o sangramento parar. Ela terminou de limpar, passou um pouco de antisséptico e fez o curativo. Como ela sabia que o curativo soltaria se ela só colocasse a gaze com o esparadrapo. Então ela colocou um pedaço de gaze, o esparadrapo e envolveu a mão dela com um pedaço de bandagem, prendeu com um pedaço de curativo.

Mar seguiu Simone de volta para o quarto, elas sentaram na cama. Mar tirou

- Você pode me explicar isso?

Simone suspirou, ela não queria aquilo. Queria que continuasse sendo o seu segredo, algo que só ela sabia. Não queria deixar Mar ver, mas sabia que não podia fugir da garota. Então ela levantou e ficou de frente para a garota. Ela tirou o casaco e depois a camisa de colégio, mostrando o que ela estava fazendo consigo mesma.

- Você sabe que precisa de ajuda, não sabe? Não de uma amiga ou coisa assim, ajuda profissional. Ou isso pode matar você.

- Eu não quero ir para uma nova terapia.

- E eu não quero perder você - Simone fungou levemente, ela não queria chorar - Vem aqui - Mar passou os braços ao redor dos ombros dela, com cuidado porque ali também estava machucado. Simone passou os braços ao redor da cintura dela e respirou fundo, o cheiro de Mar entrou em sua mente como algo reconfortante e amoroso - Eu estou aqui por você, está bem?

Simone suspirou e assentiu.

- Aqui - Mar pegou um caderno e uma caneta - Escreva alguma coisa, qualquer coisa.

- Eu já tentei, não funciona.

- Tenta de novo, Simone, continue tentando até a exaustão.

- Não vai dar certo.

- Tenta, porra.

- Escrever funciona pra você?

- Às vezes, quando não funciona eu bebo.

- Então nunca funciona.

- Podia ser pior. Cala essa boca e tenta.

- E se ficar ruim.

- Eu acho que é melhor ter dez versos ruins no seu caderno do que dez cortes sangrando em algum lugar do seu corpo.

Simone suspirou, aceitou o caderno e a caneta. Se arrastou até a cabeceira da cama, puxou as pernas para cima e apoiou o caderno nas coxas. Ela bateu com a caneta no caderno, sem saber exatamente o que escrever. Mar sentou na sua frente e colocou as mãos nos seus joelhos, Simone olhou para ela com a ponta da caneta entre os dentes.

- E sobre o que eu preciso escrever?

- Sobre o que você está sentindo.

- Mas eu não sei exatamente o que estou sentindo e nem por quem. É meio confuso.

- Então escreva sobre a sua confusão.

Simone assentiu. O que sentia era confuso. Ela se cortava para diminuir a dor emocional que sentia, a dor da perda. No momento, era um alívio. Era quase delicioso. Depois vinha a culpa, a sensação de fracassar. O quanto isso decepcionaria Lucas? O quanto isso magoaria Amanda? Apesar de Mar não ter se zangado ou coisa assim, como se compreendesse o que aquilo era, Simone achava que não seria assim com outras pessoas. Por isso ela decidiu tentar outra vez, afinal, a maior parte dos poemas mais bonitos são os melancólicos.

Se você pensar bem sobre isso, a tristeza não é bonita, nem um pouco. A dor não é bonita. Sofrer é ruim. Isso nos mata um pouquinho a cada minuto. Porém, isso pode fazer as pessoas escreverem coisas bonitas. Não é necessariamente poético, o amor costuma ser poético, mas algumas pessoas aprendem a fazer poesia quando sofrem. A melancolia cria poetas, cria inspiração para palavras bonitas. Não é romântico sofrer, mas talvez seja bonito escrever sobre isso. Uma caneta, um pedaço de papel e algumas palavras. Alguns desenham na pele, tirando tinta vermelha de si, mas isso também não é bonito. Transformar toda a dor em poesia não é realmente belo ou algo para fazer parecer que é bonito sofrer, é apenas um jeito de conviver com a morte lenta causada pela tristeza.

Mar levantou e saiu para comprar alguma coisa no mercadinho, uma pizza e uma lasanha congeladas e um refrigerante de um litro. Quando voltou para a casa de Simone, ela guardou a pizza no congelador e colocou a lasanha no micro-ondas, eram onze minutos rodando dentro do aparelho. Ela voltou para o quarto.

- Escrever alguma coisa? - Simone assentiu e ofereceu o caderno, Mar o pegou e sentou na cama.

Cicatrizes no corpo

Nos braços

Nas pernas

Na barriga

Em todo o corpo

Marcas de feridas

Feitas por mim

Sangrar e morrer

Lentamente

Devagar demais

Morrer e viver

Não há diferença

É tudo vazio

Frio e doloroso

Os cortes

As lágrimas

A dor

As coisas não mudam

A dor não diminui

E o tempo não cura

- Uma merda, não? - Simone perguntou.

- Não, acho que está bom. Não é pra ser perfeito, Simone, é pra ser verdadeiro. É verdadeiro?

- É...

- Então está ótimo - Mar levantou e colocou o caderno na mesa-de-cabeceira - Vem, você precisa comer. Depois vamos limpar esse lugar porque está uma merda.

Nome: rhina (Assinado) · Data: 01/04/2017 20:30 · Para: 05. Sectumsempra

 

Oi

Boa tarde

show de escrita......complexo.....sensível. ....fluido. ...

amei.....cara quanta verdade.....usaste as melhores palavras para abordar o assunto. ....ficou magnifico 

rhina



Resposta do autor:

Oi

Eu tentei o melhor, como sempre 

Eu tento falar desse tipo de assunto do jeito mais fluido e simples possível 



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