Enternecer por femarques


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CAPÍTULO 4:

GIULIANA

 

O pub lotou na sexta-feira e no sábado como nunca antes, e me alegrava ver que eu estava no caminho certo. Já passavam das onze e meia da noite quando Micah abriu a porta do meu escritório depois de duas batidas na mesma, deixando o som alto da música que tocava adentrar minha sala.

            “Seu irmão ligou, quer saber como andam as coisas.”

            Pressiono o maxilar ao ouvir o que ele diz e afasto a cadeira de rodinhas com um impulso. Me levanto e começo a pegar minhas coisas, colocando-as na pasta.

            “E você não disse a ele? Tão interessado de longe, assim é fácil. Não vejo a hora de comprar a parte dele e não tê-lo mais como sócio.”

            Micah revirou os olhos e veio até mim, apoiando suas mãos sobre a mesa entre nós.

            “Ele só queria saber como iam as coisas.”

            “E se você disse a ele não tem necessidade de me contar. Agora vou para casa.”

            Apoio a alça da pasta no ombro e saio da sala, deixando a porta aberta para que ele logo saísse também. Só pensava em dormir até tarde no domingo e esquecer da existência de meu irmão.

            Já dentro do carro a caminho de casa, meu celular toca e eu o atendo pelo painel do carro.

            “Oi, Andie.”

            “Onde você está? Matteo está aqui em casa, tomando vinho e falando que você estava com uma garota linda ontem.”

            Começo a rir e viro com o carro na próxima rua, mudando meu destino.

            “Acabei de sair do trabalho, estou indo.”

            Desligo a chamada e dirijo até a casa de Andrea enquanto lembrava da minha aventura na noite anterior. Passei o dia todo sem pensar na garota estranha e super preocupada que eu pude conhecer, mas recordando agora, de fato foi uma aventura.

            Abro um sorriso largo e solto uma risada baixa ao lembrar dela, com a expressão tão assustada e nos braços do segurança. Não sei o que a deixou tão preocupada com a irmã, mas com certeza me diverti percorrendo a avenida com ela, entrando nos bares e gritando por “Amber!”.

            Logo estou na frente da casa de minha amiga e não demora nada para que ela abra a porta segurando uma taça de vinho. Andrea me abraça, passando o braço em torno de meu pescoço enquanto caminhamos até a sala.

            Matteo está deitado no tapete, apoiando sua taça na barriga e move apenas a cabeça para me ver entrar na sala, abrindo um sorriso largo.

            “Cadê sua amiga dos cabelos cacheados?”

            Andrea passa a mão por seus próprios cabelos enquanto dá risada. Andie tinha os cabelos na altura dos ombros, armados e cacheados. A pele negra e os olhos castanho claro.

            “Sabia que você um dia preferiria cabelos assim.”

            Me jogo no sofá depois de me servir de vinho e tiro os sapatos para melhor me ajeitar.

            “Do que vocês estão falando?”

            “Giu, desde quando você ajuda garotas perdidas?” Matteo pergunta, já dando risada.

            “A menina, que se não estou enganada se chama Beatrice, estava estranhamente encarando a entrada do Senses. Não queria entrar porquê não podia, e precisava achar a irmã. Se você não tivesse a paquerado, teria visto que a menina estava transtornada, eu apenas a ajudei.”

            “E não vai sair com ela?” Andrea pergunta, sentando-se no mesmo sofá que eu, levantando minhas pernas e colocando-as em seu colo.

            “Não, vocês sabem que eu não saio com ninguém.”

            “Mas sai com a neta da sua empregada.”

            “É diferente, Matteo. Eu sei que a garota não quer nada comigo, e eu não preciso ir atrás dela. Eu não procuro pessoas, não marco encontros, eu simplesmente não faço isso para que elas não esperem algo de mim. Vocês sabem disso.”

            Andrea suspira e acaricia minhas pernas. “Pelo menos se certifique que a menina ficou bem.”

            Levo a mão direita até minha testa e faço sinal de continência para ela, caindo na risada em seguida.

           

            A segunda-feira amanhece chuvosa e fria. Para minha sorte, meu dia está cheio. Tenho uma sessão de fotos para uma campanha nova de lançamento de calças jeans e uma reunião com Micah para decidirmos a troca dos móveis do Senses, sem falar na visita à casa de minha mãe, que não leva menos do que três horas.

            Tomo meu café da manhã a caminho do estúdio fotográfico e não vejo a hora passar enquanto trabalhava. Hora ou outra Andrea martelava em minha cabeça, como uma voz mandona, me lembrando de checar se a garota estava bem ou tinha morrido de um colapso nervoso. Perto da hora do almoço sou liberada e decido ir até a livraria, perguntar se ela está bem e dar o fora de lá.

            A chuva insiste em cair e o trânsito fica caótico, tudo para dar certo em um grande dia perfeito. Estaciono o carro em frente à livraria, notavelmente irritada. Coloco o sobretudo preto sobre a cabeça e desço do carro correndo até a porta do lugar, tentando ficar o menos molhada possível.

            Enquanto visto meu protetor de cabeça corretamente agora e passo as mãos por minhas roupas, enxugando-as dos pingos gelados, procuro pela garota por todos os lados e não a encontro. Subo as escadas às pressas para terminar logo com isso e ando por todas as prateleiras enormes, até que finalmente a vejo.

            Os cabelos estão presos em um rabo de cabelo e ela veste uma blusa de manga comprida preta com a camiseta de seu uniforme por cima, que é larga demais para seu corpo. Ela está abaixada perto de uma estante, organizando alguns livros que pegava de uma caixa grande perto de si.

            Me aproximo dela devagar e parece que ela nota meus pés quando paro ao seu lado. Beatrice me olha e parece surpresa ao lembrar de mim. Seus lábios se entreabrem, mostrando os dentes da frente.

            “Você quer outro livro?” Ela me pergunta sem esboçar qualquer emoção.

            “Você está ocupada?”

            Ela se levanta no chão e pega a caixa com dificuldade, sai andando a minha frente enquanto me responde.

            “Estou guardando os livros que chegaram. Você quer algum?” Ela para no meio do corredor e se vira para me encarar. As pontas de seus dedos estão esbranquiçadas por forçarem-se contra a caixa, mas ela parece não se importar com mais nada além de querer saber se eu preciso de um livro.

            “Para de me perguntar isso!” Maneio a cabeça de um lado ao outro e respiro fundo, tentando concluir meu objetivo. “Eu só queria conversar com você.”

            Ela olha para dentro da caixa e me olha de volta. Parece confusa e fica me encarando sem qualquer traço de expressão que me dê alguma pista.

            “Saio para almoçar em vinte minutos.”

            “Tem um café na esquina, te espero lá, tudo bem?”

            Ela concorda com a cabeça, me dá um sorriso forçado, elevando os cantos de sua boca como uma criança sorri para uma foto e novamente sai andando.

            Reviro os olhos e bufo. Deixo o carro e aproveito o cessar da chuva para andar até o café. O lugar pequeno está pouco movimentado e não tenho problemas em escolher uma mesa. Me sento ao lado da janela de vidro e posso olhar a rua enquanto espero por minha companhia.

            Agradeço a duas garçonetes e as dispenso, explicando que estou esperando por alguém, enquanto olho entediada as decorações em gesso nas paredes tão brancas. O lugar era agradável e sofisticado.

            Vejo Beatrice passar ao meu lado pelo vidro da janela e a espero entrar. Ela tem enrolado em seu pescoço um cachecol preto feito de uma lã muito desgastada, e por cima de seu uniforme e da fina blusa de mangas compridas ela veste um moletom igualmente desgastado. Aceno para ela, que vem ao meu encontro.

            Não trocamos nenhuma palavra a não ser com a garçonete que logo vem anotar nosso pedido. Eu peço por um hambúrguer e ela por uma torta. Peço por refrigerante e ela por um chá. Típica inglesa. Já deveria ter percebido pelo humor.

            “Então, Beatrice.” Começo depois de pigarrear. “Queria saber como você está depois daquela noite.”

            Ela faz um pequeno bico com os lábios, pressionando o superior no inferior e dá de ombros. “Estou bem, obrigada.”

            Levo as mãos ao rosto e as esfrego ali, enquanto inspiro e expiro lentamente. “Olha, eu não consigo conversar com você, você está sempre mal humorada.”

            Beatrice arregala os olhos e timidamente coloca uma mecha de cabelo que escapou de seu tão bem feito rabo de cavalo e a coloca atrás da orelha.

            “Eu só não sou de fazer amigos, não tenho muita habilidade social.”

            Fico parada olhando para ela enquanto somos servidas de nossas bebidas. A observo tomar a xícara com as duas mãos, envolvendo-a delicadamente, como se fosse quebrar com seu toque, levá-la aos lábios, assoprar e tomar, finalmente, um gole. Agora com certeza não entendia como ela podia não ser boa socialmente. Conseguia notar em suas poucas expressões um cansaço enorme, como se fosse pesado ser quem ela é, mas a garota era linda, o sotaque carregado inglês a deixava interessante e ela parecia conhecer os livros. Como uma garota assim pode ser tão complicada?

            “Sobre o que você queria conversar?” Ela me interrompe e eu preciso piscar algumas vezes para voltar a realidade.

            “Queria saber como você está depois daquela noite, sabe, você pareceu muito preocupada.”

            Ela relaxa os ombros e respira aliviada. Mais uma vez fico sem entender, o que ela esperava que eu perguntasse?

            “Eu fiquei preocupada por minha irmã não me avisar onde estava.”

            “Você sempre se preocupa assim?”

            “Não, ela sempre me avisa. Ela sabe que preciso saber que ela está bem e segura.”

            Franzo o cenho e observo a convicção em sua voz ao dizer que precisa saber da segurança da irmã. Como se fosse uma questão de vida ou morte.

            “Você estava realmente preocupada, ela só estava se divertindo.”

            “Eu sei, mas nem sempre as coisas são simples como parecem.”

            Concordo apenas com a cabeça e me detenho a minha coca-cola.

            “Você não é daqui.” Ela diz, tomando outro gole de seu chá.

            Dou um sorriso largo e novamente concordo com a cabeça.

            “Eu moro aqui faz dezoito anos, mas sou italiana. Meu pai é italiano e minha mãe inglesa. Mas eu não consegui me desfazer do sotaque.”

            “E nem do jeito.”

            Começo a rir do que ela diz e de seu rosto estar sério. Acho graça do comentário e de como ela fala isso sério, sem intenção de se divertir.

            “Não, eu ainda sou bastante diferente dos ingleses. De você, por exemplo.”

            “Você fala muito alto.”

            Continuo rindo e só consigo concordar com ela. “Falo, por isso que não trabalho em uma livraria.”

            E finalmente, ela sorri. Mas sorri de verdade e não como a criança da fotografia forçada. Ela abre um sorriso largo e consigo até ouvir um riso baixo saindo de sua garganta.

            “Eu gosto de lá. Os livros não fazem perguntas, não falam. E pagam um salário, o que é melhor ainda.”

            “E não é que os ingleses conseguem fazer piadas?”

            Agora estou sorrindo enquanto ela sorri de volta, e me sinto muito bem em fazê-la sorrir. O peso que parece carregar se desfez, pelo menos por enquanto. Talvez Beatrice seja divertida, mesmo que seja estranha.

            Nós duas almoçamos enquanto ela falou sem parar de como ela organiza os livros e de quanto tempo levou para decorar o lugar de cada um. Livros são fascinantes, então escuto com atenção a importância que ela dá a eles.

            Ela recusa meu dinheiro e paga pelo o que pediu, insistindo muito. Caminho com ela em silêncio até a porta da livraria e paramos quando ela toca a maçaneta e se vira para mim.

            “Obrigada pelo almoço, eu me diverti. E obrigada pela carona aquela noite.”

            “Claro, sem problemas. Nos vemos por aí?”

            Ela sorri de canto, já voltando a sua habitual expressão desanimada e concorda com a cabeça.

            “Nos vemos por aí.”

 

            Beatrice entra na livraria e eu fico parada na calçada pensando em qual seria o seu problema, ou porquê ela parece tão triste, até que a chuva volta a cair e eu corro para dentro do carro. O almoço foi divertido, mas eu precisava voltar para a realidade e trabalhar.

Notas finais:

E aí, meninas? Aqui é a beta da Fê. Vocês estão gostando da história? Deixem os comentários de vocês, com críticas, sugestões, ou só um recadinho para ela mesmo. É semre bom saber o que vocês estão achando dessa aventura. 



Comentários


Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 17/09/2016 07:05 · Para: Capítulo 4
Tô gostando sim. Beatrice e instigante. Giu é espontânea e tá intrigada com o jeito da Bea. Bjs pra vcs e um ótimo fds.

Resposta do autor:

Oi, Patty!

Tudo bem? Espero que essas duas personagens continuem te agradando!

Obrigada por acompanhar! Um ótimo final de semana a você também.

Beijo!



Nome: lohs (Assinado) · Data: 16/09/2016 18:34 · Para: Capítulo 4

Não tenho como deixar de comentar. 

Eu leio, leio e não canso disso. O mistério continua o mesmo. rsrs

Espero que Giu consiga quebrar essa barreira de Beatrice. E os amigos de Giu, einh? Que gracinha. 

Esperando por sábado.

Beijos,



Resposta do autor:

Não tenho como deixar de esperar seu comentário.

Vai deixar todo o seu amor em uma personagem só, de novo?! 

Te encontro no sábado. Beijo.



Resposta do autor:

Não tenho como deixar de esperar seu comentário.

Vai deixar todo o seu amor em uma personagem só, de novo?! 

Te encontro no sábado. Beijo.



Nome: annagh (Assinado) · Data: 16/09/2016 18:29 · Para: Capítulo 4

Muito bom!!!

Giuliana ja conseguiu cativar Beatrice.

Até...



Resposta do autor:

Oi, Ana. Tudo bem?

Giuliana consegue cativar a todos, não é? 

Beijo!



Nome: Teresa (Assinado) · Data: 16/09/2016 05:07 · Para: Capítulo 4

Oi :) estou intrigada com a moça, já vou acompanhar tá interessante :)



Resposta do autor:

Oi, tudo bem?

Espero que continue intrigada, rsrs. Obrigada por acompanhar!

Beijo!



Nome: Endless (Assinado) · Data: 15/09/2016 22:23 · Para: Capítulo 4

Olá, Fê Marques. Leio sempre tudo e todas. Mas sempre me abstenho de comentar. Deixo aqui meu incentivo, se é que ele vale, porque suas histórias são, principalmente, muito dentro do ser humano e suas maneiras de lidar com a vida.

Ainda não tenho uma opinião formada sobre o romance, mas já aguardo novas notícias.

Um abraço e boa sorte.

 



Resposta do autor:

Oi, tudo bem?!

Seu incentivo vale muito! Muito obrigada por ele. E fiquei imensamente feliz com sua opinião sobre minhas histórias.

Espero que continue acompanhando.

Beijos.



Nome: rafamachado (Assinado) · Data: 15/09/2016 22:00 · Para: Capítulo 4

Quando li o primeiro capítulo logo a história já me intrigou. Adorei!

Tentei deixa acumular alguns capítulos para ler mas n consegui ): 

Agora fico na angústia esperando pelos próximos capítulos.

 

Continue, autora. Beijos.



Resposta do autor:

Oi, Rafa! Tudo bem?

Que bom que não conseguiu esperar, e o próximo capítulo sai no sábado, passa rápido.

Obrigada por estar acompanhando!

Beijo.



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