A ilha do falcÃo por Vandinha


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A ILHA DO FALCÃO -- CAPÍTULO 4  

 

 

 

O QUINTO DETETIVE 

 

Andreia deu uma rápida olhada para a sala de terapia intensiva onde Fábio estava. Pegou uma revista para se entreter, porém não conseguiu concentrar-se, pensando o tempo todo em Marcela. 

 

As palavras dela haviam penetrado na alma de Andreia. O pai se tornara rico por esforço próprio, começando do nada e construíra um hotel magnífico. No entanto, agora, vendo a sua ruína, era evidente que além da crise, faltou-lhe também instinto e prudência. 

 

Andreia não sentia nenhum tipo de ressentimento por ele, muito pelo contrário, o pai lhe proporcionou recursos e incentivos para que ela abrisse o próprio caminho aos 18 anos. 

 

Sentia-se um tanto decepcionada consigo mesma por não ter estado mais presente e envolvida com os negócios do pai. Talvez o final da história fosse a mesma, porém ele teria com quem dividir a sua aflição. 

 

Andreia foi às lágrimas. O pai havia caído em um poço profundo, imerso em escuridão e medo. Sofreu calado. Foi tanto sofrimento que o corpo não suportou. 

 

Marcela estava sendo tão cruel. A ruiva engoliu em seco. A irmã mais nova sempre manteve uma distância emocional da família. Lembrou Andreia, cheia de mágoa. Nunca demonstrou nenhum interesse pelo pai e por ela, por que se preocuparia com eles agora? 

 

 

 

 

 

Natasha pegou o pão sobre a mesa, tirou um pedaço e jogou para Mindinho. O cachorro cheiro e saiu. 

 

-- Cachorro chato, viu a cara que ele fez? 

 

-- Pão seco, ninguém merece -- Sibele se recostou na cadeira e também pegou um pedaço de pão. 

 

-- Tá certo, da próxima vez vou dar o cardápio para ele mesmo escolher o que quer comer no desjejum -- Natasha olhou para a médica e encontrou o olhar perdido dela -- Você está chateada? 

 

-- Problemas, problemas e mais problemas -- disse, esforçando-se para dar um tom ameno à voz. 

 

-- O que foi? Posso saber o motivo? -- disse Natasha.  

 

-- Minha namorada que mora no Rio me ligou chorando. 

 

-- Hum, isso é mal. Odeio mulheres que choram, elas parecem indefesas -- Natasha apoiou os cotovelos sobre a mesa para olhá-la -- Elas choram para amolecerem o nosso coração e conseguirem tudo o que querem. Abre o olho. 

 

-- Gostaria de ir até lá ver o que realmente está acontecendo. 

 

-- E por que não vai? -- perguntou Natasha, cruzando os braços sobre a mesa -- Fica lá por uma semana. 

 

-- Ausentei-me por dois dias e a biba do Léozinho só faltou me colocar no tronco -- reclamou Sibele -- Imagina uma semana? 

 

-- Você poderia pelo menos ter deixado alguém no seu lugar. Deveria ter chamado um médico de Floripa para lhe substituir. 

 

-- Hum, verdade -- Sibele pensou por alguns segundos e perguntou: -- Caso consiga alguém para ficar no meu lugar, por alguns dias, posso viajar para o Rio? 

 

-- Claro que pode, Sibele. Quem manda aqui sou eu. É só deixar um médico bem informado sobre as suas atribuições aqui no hotel, que ficará tudo bem. 

 

A médica sorriu agradecida. 

 

-- Não sei como agradecê-la, Natasha. 

 

-- Poderosíssima, o detetive Vanderlei, chegou -- Léozinho informou da porta. 

 

A empresária tomou um gole de café e se levantou. 

 

-- Por favor, Léo. Leve-o até o escritório.  

 

-- Claro, Natashatís... -- o rapaz percebendo a cara brava da patroa, tossiu para disfarçar -- Natasha. 

 

-- Com esse detetive vai ser diferente. Vou dizer a ele que: ou ele acha a minha irmã, ou... 

 

-- Ou? -- Sibele ergueu uma sobrancelha e olhou fixamente para seus olhos verdes. 

 

-- Ou eu mando o Hannibal jogar ele para os tubarões. 

 

-- Já é o quinto detetive que você contrata. Será que a sua irmã não está... 

 

Natasha levantou a mão impedindo-a de continuar. 

 

-- Nem complete a frase -- disse irritada.  

 

Sibele apenas balançou a cabeça. Evitaria contrariar Natasha, apesar de seu impetuoso temperamento, a empresária proporcionava aos seus funcionários: novidades, sofisticação, muito sol, várias folgas, um salário magnífico, oportunidade de trabalhar em um hotel maravilhoso. O que mais poderia desejar? 

 

 

 

Quando Natasha entrou no escritório, o detetive se levantou de imediato e foi ao encontro dela. 

 

-- Bom dia, senhorita Falcão -- o detetive cumprimentou Natasha com efusão. Era um homem corpulento, alto. Seus olhos eram frios e inexpressivos -- Sou o detetive Vanderlei, ao seu dispor. 

 

-- Essa é Sibele, ela é médica e trabalha aqui no hotel. 

 

O detetive a cumprimentou com um gesto de cabeça. 

 

-- Vamos sentar, a conversa será longa -- Natasha sentou-se confortavelmente em sua cadeira com os antebraços e as mãos sobre a mesa. 

 

-- O seu secretário adiantou-me algumas coisas, mas vou precisar saber da história completa. Tudo o que conseguir lembrar, pequenos detalhes que possam lhe parecer insignificante, muitas vezes são de suma importância para mim. 

 

-- Eu só falei sobre o acidente, ilustríssima -- Léozinho deu meia volta e foi sentar-se em uma poltrona próxima a janela. 

 

-- Você gostaria de uma bebida? -- perguntou Sibele para Vanderlei. 

 

-- Alguma coisa refrescante viria a calhar. Nessa ilha, a água, o vento, o sol, parecem ser diferentes dos outros lugares. Pensei que fosse derreter. 

 

-- Demora-se um pouco a acostumar-se com o clima quente, eu por exemplo, até hoje ainda sofro um bocado -- a médica sorriu, imaginando o detetive de terno e gravata sob o sol escaldante da ilha -- Os hotéis e as pousadas são climatizados. Sua estadia não será tão terrível, assim. Não se preocupe. 

 

Sibele serviu um copo de suco para Vanderlei e outro para Natasha, depois sentou-se ao lado de Léozinho na poltrona. 

 

-- Lembro-me de pouca coisa, tinha apenas sete anos quando tudo aconteceu, mas, vou contar o pouco que lembro e o que fiquei sabendo através de meus avós e de minha babá. 

 

Natasha deu um gole da sua bebida gelada e colocou o copo sobre a mesa. 

 

-- Eu os perdi muito cedo, tinha apenas sete anos -- ela estremeceu diante da lembrança -- Papai dizia que me pareço muito com minha mãe. 

 

-- Então ela devia ser belíssima -- Léozinho comentou, dando uma piscadinha para ela. 

 

-- Cara, como você é puxa-saco. Chega a dar embrulhos -- disse Sibele, impaciente. 

 

Léozinho revirou os olhos. 

 

-- Sua invejosa! 

 

Natasha balançou a cabeça e continuou: 

 

-- Minha mãe era uma bela catarinense, manézinha da ilha, chamada, Ângela. Meu pai era louco por ela. Foi amor à primeira vista, amor verdadeiro. 

 

-- Ela foi uma boa mãe para você? -- Vanderlei a fitou com as sobrancelhas erguidas. 

 

-- Boa? -- Natasha tinha o coração apertado e recostou a cabeça no encosto da cadeira -- Mamãe foi perfeita. Tinha momentos ruins, tinha seus defeitos, como todos nós, mas para mim ela foi tudo. Foi carinho, foi mestra, foi exemplo. Mesmo quando ela engravidou e trouxe ao mundo aquela ruivinha chata que tomou o meu lugar de bebê da casa, ela foi fabulosa. 

 

Vanderlei, Léozinho e Sibele, foram contagiados por sua emoção e sorriram juntos a ela. 

 

-- Sua mãe deve ter sido uma pessoa muito bondosa e divertida -- observou Vanderlei, após um breve silêncio -- Como ficou a relação de vocês depois que a ruivinha nasceu? -- Ele a observava com olhos analíticos, esperando por uma resposta. 

 

-- Ela foi extremamente compreensiva com relação ao momento ciúme pelo qual estava passando -- disse com uma voz suave unida a um sorriso aberto, tão raro em seu rosto bonito -- Confesso que por muitas vezes merecia ser punida severamente. 

 

-- Por quê? -- as sobrancelhas dele se juntaram, franzindo o rosto. 

 

-- Adorava arrastar a minha irmãzinha ruiva pelos cabelos como se ela fosse uma boneca de pano, tentava afogá-la na banheira, trancava a pobrezinha no armário, coisinhas básicas e natural de irmãos. 

 

Risos. 

 

-- Tadinha! -- o advogado fez uma expressão divertida -- Sei que deve ser difícil para você falar no assunto, mas preciso saber o que houve no dia do acidente. 

 

-- Não se preocupe. Isso aconteceu há muito tempo. Aquela menina assustada cresceu e transformou-se em uma mulher valente -- ela voltou a colocar o braço sobre a mesa e a entrelaçar os dedos -- Essa etapa infeliz da minha vida ainda não terminou. Me fortaleço cada dia na esperança de encontrar a minha irmã. 

 

Sibele saiu de onde estava e foi sentar-se em uma cadeira ao seu lado. Não cansava de ouvir aquela triste história. 

 

-- Eu nunca gostei de sair da ilha -- sua voz baixa, profunda e com um forte sotaque Micaelense (idioma falado em São Miguel que é a maior das ilhas do arquipélago dos Açores e a maior de todas as ilhas integrantes do território de Portugal) -- Meus ancestrais são imigrantes Açorianos. Eu nasci e me criei aqui, na Ilha do Falcão, junto a muitas pessoas dos Açores. 

 

-- Por que não estava no carro no dia do acidente? 

 

-- Dificilmente saía da ilha. Até hoje, o máximo que vou é até Florianópolis -- Natasha fechou os olhos e recordou as palavras do pai: 

 

"Vamos, minha filha. Você nunca sai dessa ilha. Sabia que existe um mundo maravilhoso fora desse pedaço de terra perdido no mar?" 

 

-- Eu sabia que existia e, isso me causava medo. O centro dos negócios do meu pai, na época, era em Florianópolis. Quem trouxe tudo para a Ilha do Falcão, fui eu. Por isso, meu pai partia todos os dias para o Continente. 

 

-- Foi em uma dessas viagens que aconteceu o acidente? -- perguntou, Vanderlei. 

 

-- Não foi a trabalho. Era o início do ciclo de Festas do Divino Espirito Santo, também chamado de "folias do Divino" ou "cantorias do Divino" é uma tradição cristã católica, com mais de oito séculos, introduzida na cultura local pelos açorianos, em celebração a sua devoção ao Espírito Santo. Florianópolis e vários outros municípios do litoral realizam essa festividade. 

 

-- Seus pais estavam indo participar das festividades? 

 

-- Logo cedo saíram daqui no iate do papai com destino a ilha de Santa Catarina. Chegando lá pegaram um carro e partiram em direção ao Continente pela ponte Colombo Sales -- Natasha esforçava-se para que a sua voz soasse calma -- O acidente aconteceu na Rodovia Governador Gustavo Richard, logo na saída da ponte. 

 

Natasha deu um gole maior na bebida. Sua garganta estava totalmente seca e arranhando. 

 

-- Segundo as informações que tenho, um bêbado surgiu na curva dirigindo na contramão e bateu de frente com o carro em que eles se encontravam. Meu pai, minha mãe e o motorista, morreram na hora. 

 

Natasha olhou para as próprias mãos, entrelaçadas sobre a mesa. 

 

-- E... sua irmãzinha? -- Vanderlei perguntou irrequieto. 

 

-- Quando o socorro chegou não encontraram a Carol. A polícia ouviu o depoimento de várias testemunhas que chegaram ao local logo após o acidente, mas ninguém viu a menina. 

 

-- Essa história sempre me intrigou -- Sibele sacudiu o copo antes de levá-lo aos lábios. 

 

-- Como essa menina sumiu do local do acidente? Mesmo que fosse o corpinho sem vida, ela devia ter sido encontrada. No entanto, o paradeiro dela é um mistério para todos -- completou, Léozinho. 

 

Vanderlei suspirou fundo. Tinha consciência que encontrar Carolina Falcão era uma missão quase impossível. Sentiu-se tentado a não aceitar o caso, mas a frase que Natasha disse a seguir o levaria até o inferno para procurá-la, caso fosse preciso. 

 

-- Dois milhões é o preço que pagarei para encontrá-la -- então, com um suspiro cansado, ela se pôs lentamente de pé -- Vou buscar uma foto de infância, dela. Quero que leve a um especialista para que ele faça uma projeção de como estaria Caroline hoje, com vinte e quatro anos. 

 

-- Vou com você, fabulosa -- Léozinho a seguiu. 

 

Os olhos do homem brilharam provocado pela ganância do valor mencionado. 

 

-- Hum -- resmungou o detetive, sem desviar o olhar de Natasha que caminha em direção a porta. 

 

-- Quantia irrecusável. Não é mesmo? -- Sibele comentou, olhando para ele -- E poderá ser maior ainda. Natasha costuma ser bem generosa com quem cumpre o seu trabalho com êxito. 

 

-- Por quê, depois de tantos anos ela resolveu ir atrás da irmã? 

 

-- Ela está procurando há anos, você é o quinto detetive. Os outros não tiveram sucesso. A mulher parece ter evaporado. 

 

-- Ela é bem insistente. 

 

-- Natasha só deixará de procurar a irmã, quando tiver certeza de que ela está morta. 

 

-- Ela deve ser muito rica. Não é mesmo? 

 

-- Natasha é herdeira de todo um império. Duas ilhas maravilhosas, com hotéis e pousadas de luxo, as duas situadas aqui no litoral de Santa Catarina. Tem tudo o que qualquer um deseja: Dinheiro, beleza, talento, o respeito das pessoas e ótima reputação no mercado. Ela é uma mulher, independente e muito... muito carismática. 

 

-- As pessoas nunca estão completas. Mesmo com toda a sorte do mundo, sempre há algo faltando -- o detetive balançou a cabeça redirecionando seu olhar para a porta. 

 

-- Natasha, sente-se incompleta, pois falta um pedaço de seu coração. Ela nunca se conformará com o desaparecimento da irmã. 

 

-- Não mesmo! -- falou a empresária entrando com a foto na mão -- Demoramos escolhendo uma que fosse mais nítida. Acabei optando por essa. 

 

-- A irmãzinha da Natíssima era tão enferrujadinha tadinha! -- disse Léozinho passando a mão pela cútis acetinada -- Foi difícil de escolher uma apresentável. 

 

Natasha fez uma cara séria de desaprovação. 

 

O detetive esticou o braço e pegou a foto, analisou e aprovou. 

 

-- Vou começar o meu trabalho agora mesmo, senhorita Natasha. 

 

Natasha desviou o olhar para o advogado que estava sentado do outro lado da mesa -- Quero que você intensifique a busca. Percorra os quatro cantos desse país. Não me interessa de que forma você fará isso, a única coisa que me interessa, é que traga ela de volta. E Vanderlei... Custe o que custar! 

 

 

Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 06/01/2018 20:16 · Para: Capitulo 4 O QUINTO DETETIVE

Que interessante e triste a estoriavda Natasha. Eu nao entendi na hora que o detetive falou em madrasta da Natasha. Nao é mãe biológica a q estava com o pai e a irmã na hora do acidente? Bom fds. Bjs



Resposta do autor:

Olá Patty.

Obrigada pelo toque. Realmente fiz confusão com a mãe da Andreia. A mãe da Natasha não é madrasta, é mãe biológica, mesmo. Valeu.

Beijão.



Nome: Flavia Rocha (Assinado) · Data: 06/01/2018 18:59 · Para: Capitulo 4 O QUINTO DETETIVE

que será que aconteceu nesse acidente, será que ela não estava com eles nesse carro? 

ja tô ansiosa pra saber disso rs 



Resposta do autor:

Olá Flavia. Tudo bem?

Obrigada pelo comentário. Continue comigo.

Beijão, minha querida!



Nome: Mille (Assinado) · Data: 06/01/2018 17:45 · Para: Capitulo 4 O QUINTO DETETIVE

Ola Vandinha

A ideia de colocar a Andreia como a irmã vai ser pela língua solta da Sibele e a Marcela vai joga-la nesta armadilha por ser ruiva.

Bjus e até o próximo capítulo



Resposta do autor:

Oi Mille.

Aristóteles já dizia: "O mal torna os homens unidos".

Boa frase para Marcela e Sibele.

Beijos.



Nome: NovaAqui (Assinado) · Data: 06/01/2018 14:55 · Para: Capitulo 4 O QUINTO DETETIVE

Sumiu ou alguém pegou a menina. Acho que a criança deve ter sido jogada para fora do carro no acidente e aí saiu andando. Alguém levou a bichinha ruiva. 

Sibele sabe bem das coisas da Natasha e vai passar tudo para a namorada. 

O bicho vai pegar

Abraços fraternos procês aí!



Resposta do autor:

Oi NovaAqui.

O encontro entre Sibele e Marcela pode ser o inicio de uma grande trama. Vamos aguardar.

Abraços.



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