Enternecer por femarques


[Comentários - 382]   Impressora Imprimir Capitulo ou História - Lista de Capítulos

- Tamanho do Texto +

CAPÍTULO 3:

BEATRICE

A semana passou se arrastando e eu só conseguia pensar em como me sentia grata em passar a chave na fechadura da porta da livraria e ir para casa. Como em todas as sextas-feiras, só pensava em descansar durante todo o final de semana.

            Caminhei a passos largos até minha casa, contando um por um: vinte passos da livraria até meu pequeno e humilde apartamento. Estou subindo as escadas quando escuto Connor me chamando.

            “Oi, senhor Connor.”

            “Pode me chamar de Felix, menina.”

            Dou a ele um sorriso de lábios cerrados e, quando finalmente a alcanço, começo a abrir a porta.

            “Se precisar do meu carro para buscar sua irmã, sabe que te empresto.”

            Com a porta já entreaberta, franzo o cenho e deixo meus lábios se entreabrirem. Olho para o fusca branco e enferrujado parado no pequeno corredor e olho para ele, sem entender.

            “Eu não a vi chegar da escola hoje, deve ter saído.”

            E como se isso não fosse grande coisa, ele entra em seu apartamento e me deixa ali. Amber não deixaria de vir para a casa depois da aula. Ela sabe as regras e sabe que preciso saber se ela está bem e segura.

            Entro em casa e bato a porta atrás de mim na pressa de procurá-la por todos os cômodos e o final decepcionante é que Connor tinha razão. Ela não veio para a casa depois do colégio.

            Sento no sofá já com as mãos suadas e ligo para ela, que por sorte atende logo no segundo toque.

            “Aonde você está?”

            “Eu ia te ligar agora...”

            “Mas não ligou, Amber. Você sabe que eu fico preocupada.”

            “Eu saí com uns amigos depois da aula, viemos comer algo.”

            “Você vai demorar?”

            “Não sei se daqui vamos para outro lugar, mas eu te ligo. Não estou tão longe, Bea. Estou na Prince of Wales, tudo bem?”

            “Divirta-se, então.”

            Amber desligou o telefone e eu não sei por quanto tempo fiquei sentada no sofá imaginando as milhares de possibilidades que poderiam acontecer com ela, sem perceber como minha respiração começava a ficar desregulada e minhas mãos cada vez mais suadas.

            Me levanto e vou até o criado-mudo em meu quarto, onde só de ver o pacote marrom de balas já me acalma. Isso é o que me mantém sã e evita que eu perca o controle sobre mim.

            Pego as três balas necessárias para o momento e chupo uma por uma devagar, sentada na beirada da cama, encarando a parede cinza com alguns pedaços com tinta descascadas.

            Abro os olhos em um sobressalto. O quarto está escuro, percebo que acabei adormecendo e perdi a hora. Procuro minha irmã pela casa, mas nenhum sinal dela ainda.

            Pego o celular de cima do sofá e me desespero ao ver que passam das dez e meia da noite, disco para Amber e corro até o quarto para colocar o máximo de balas que conseguir no bolso da calça.

            A chamada não se completa. O celular de Amber não chama. Sem que eu possa controlar, minha cabeça se enche com as lembranças de quando éramos mais novas, misturadas as fantasias do que pode estar acontecendo.

            Ando a pé por quase dez minutos até que consigo fazer um táxi parar. Peço ao motorista que me leve para a avenida onde espero encontrar minha irmã e no caminho não sei quantas vezes coloco a mão no bolso para pegar minhas balas e levá-las a boca.

            O táxi para na avenida bastante movimentada e tem vários estabelecimentos. Vários lugares que eu jamais entraria. O senhor me olha de seu lugar no banco do motorista, esperando que eu o pague.

            “Aqui. E fique com o troco, por... pela sujeira.”

            Abro a porta e saio, dando uma última olhada nos papeis de bala que deixei espalhados por seu assento.

            Ando por ali tentando olhar dentro dos lugares, mas não consigo encontrá-la. Paro em frente a um pub de muros preto e fico ali parada. Não consigo entrar. O segurança na porta me encara emburrado, mas não diz uma palavra. Não consigo pensar em me colocar em risco dessa forma, entrando em um lugar como esse.

            Sinto que meu corpo começa a se balançar para frente e para trás, como se eu desse passos para trás e para frente até que alguém esbarra em mim e meus pés dão longos passos para frente até parar em cima do segurança enorme que me segura.

            Olho para trás e vejo uma mulher alta, de cabelos curtos e bem pretos, arrumados perfeitamente. Seu rosto é iluminado e está levemente maquiado. Seus olhos azuis brilham como se ela não tivesse nenhuma preocupação.

            A mulher que falava no celular tira-o da orelha e guarda o aparelho no bolso da calça jeans apertada.

            “Essa senhora está parada aqui na porta há quase vinte minutos.”

            Olho para o segurança sem entender o porquê de ele dar satisfações àquela mulher. Me desfaço dos braços dele e volto para minha posição inicial. A mulher sorri para mim e inclina um pouco a cabeça para o lado.

            “Te conheço de algum lugar...”

            “Não te conheço”. Respondo, sem interesse em conversar com ela. Ainda preciso saber onde está minha irmã.

            “Tudo bem, moça. Está com algum problema para entrar aí?”

            “Aí? Eu? Eu não entro em lugares assim.”

            Vejo-a franzir o cenho e pressionar os lábios enquanto lança um olhar divertido ao segurança. Ela respira fundo e cruza os braços, voltando a me encarar.

            “Então qual o problema?”

            “Eu preciso encontrar minha irmã e não sei aonde ela está. Ela me disse que estava nessa rua, mas não a encontro.”

            “E quer saber se ela está aqui no Senses?”

            “Sim, mas não posso entrar.”

            “Qual o nome da garota?”

            “Amber.”

            Ela respira fundo de novo e revira os olhos. Me dá as costas e passa pelo segurança que abre a porta para ela. Não sei por quanto tempo fico ali, o suficiente para chupar duas balas.

            “Não tem Amber aqui hoje.”

            Levanto a cabeça quando a escuto e a vejo parada em minha frente. Coloco as mãos no rosto e me abaixo, colocando meu rosto quase entre os joelhos.

            “Ei, tem mais dois bares aqui e o restaurante de um amigo. Posso te ajudar a procurar.”

            Novamente a vejo em minha frente, agora abaixada também, com as mãos apoiadas em suas pernas compridas.

            Concordo balançando a cabeça assertivamente e me levanto com pressa. Ando ao lado dela sem trocar uma palavra e a espero do lado de fora de todos os bares, repetindo a mesma frase.

            “Não posso entrar aí.”

            Sem motivo aparente e sem entender o real motivo dela me ajudar, talvez por me achar patética o suficiente e ter sentido pena, passamos pelos dois bares e uma pizzaria. Não a encontramos em lugar algum.

            “Olha, só resta o Bianco’s, ou ela não está mais aqui.”

            Solto a respiração que prendia sem perceber, quase desistindo de encontrá-la. Já começava a me sentir estupidamente ridícula. Amber era uma adolescente e tinha todo o direito de sair com os amigos em uma sexta-feira à noite, não era motivo de tamanha preocupação, mas a minha cabeça não funciona dessa forma.

            Caminho com ela até o Bianco’s, um restaurante chique de comida japonesa. Entro com ela e logo um moço vem até nós, vestido todo de branco.

            “Ei, Giu.” Ele a cumprimenta com um abraço rápido e se vira para mim, com um sorriso cheio de malícia.

            “Ãh, essa é...uma amiga.”

            Percebo seu embaraço por não saber meu nome até agora e estendo a mão ao moço.

            “Beatrice.”

            “Matteo.”

            Arqueio as sobrancelhas e esboço um sorriso forçado. Começo a olhar em volta do restaurante, mas não a vejo.

            “Ela está procurando a irmã e eu acabei me metendo nessa confusão.”

            “Eu não pedi a sua ajuda.” Respondo ao escutar o comentário grosseiro, que parece faze-la se divertir.

            “Como é a sua irmã, Beatrice?”

            “Magra, mais baixa do que eu, 16 anos, cabelos lisos e compridos. Estava acompanhada de pessoas da sua idade, provavelmente.”

            “Ah! Eu acho que posso te ajudar. Esse pessoal acabou de sair daqui. Eles se divertiram muito, vendi tantas doses de bebida que tive lucro para a semana toda.”

            Arregalo os olhos e saio de lá as pressas, correndo pela calçada em direção a minha casa. Amber devia estar indo embora e eu pretendia alcança-la.

            “Ei, espera! Eu posso levar você!”

            Continuei andando sem olhar para trás.

            “Espera!” A garota me segura pelo braço, me obrigando a olhar para ela. “Vou pegar meu carro e te encontro aqui.”

            Sem tempo de responder, fico esperando por ela que não demora quase nada. Ela estaciona perto ao meio-fio uma mercedes preta e abre a porta, empurrando-a sem sair de seu lugar.

            Entro e bato a porta com delicadeza, fazendo-a rir. Provavelmente essa é só mais uma garota que me acha estranha ou antipática, mas apesar de escutá-la e perceber o que ela está fazendo, só consigo pensar em meus problemas.

            Digo a ela o caminho para minha casa e por sorte, já perto de lá vemos um grupo de jovens andando e falando alto. Peço a ela para parar o carro e desço dele quase em movimento.

            “Amber!”

            Minha irmã se vira, rindo e feliz.

            “Oi, Bea.”

            “Entra no carro.”

            Volto para o carro e bato a porta, dessa vez com força. Amber leva um tempo ainda em seu grupo de amigos para finalmente entrar no carro.

            “Não precisava disso, Beatrice.” Ela reclama com a voz embargada.

            “Eu tentei te ligar, você não atendeu. Você sabe que eu não consigo ficar sem saber onde você está, que fico preocupada e...”

            “E lembra de tudo e entra no seu mundo de pensamentos estranhos. Mas eu só estava me divertindo, disse quando me ligou mais cedo que estava bem, não lembrei de te mandar mensagens de meia em meia hora.”

            “Eu não consigo brigar com você dentro do carro.” Cruzo os braços e engulo em seco o nó que já se formava em minha garganta por tudo o que a ouvi dizendo, por saber que ela estava certa, que ela não conseguia se divertir tanto me informando toda hora com quem estava ou onde estava.

            Giuliana nos leva até nosso apartamento e Amber desce primeiro, batendo a porta com raiva. Respiro fundo e olho para minha ajudante, dando a ela um sorriso sem graça.

            “Obrigada pela ajuda, mesmo sem me conhecer.”

            “Mas eu te conheço!” Ela bate uma das mãos no volante, empolgada. “Você é a garota da livraria aqui do lado!”

            “Ah! Você é a garota da biografia.” Respondo, tentando sorrir, mas só consigo pensar em Amber.

            Ela ri, achando graça de como lembrei dela e concorda com a cabeça.

            “Então, obrigada de novo.”

            Abro a porta do carro e desço com calma, já sentindo todo o meu corpo mais relaxado.

            “Disponha, garota da livraria.”

            Olho para ela antes de bater a porta e consigo dar um sorriso, que provavelmente foi estranho.

 

            Entro em casa sem olhar para trás e subo as escadas desanimada. Envergonhei a noite da minha irmã e perdi a cabeça mais uma vez. Mas pelo menos, não perdi o controle sobre mim, ainda não sou como eles eram, ainda consigo proteger minha irmã.

Notas finais:

(love ya)



Comentários


Nome: patty-321 (Assinado) · Data: 17/09/2016 06:54 · Para: Capítulo 3
Que situação. Ela tem problemas.


Você deve fazer login ou se cadastrar para comentar.