A vida no mundo perdido [em hiatus] por charliefgrosskopf


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Sábado, 31 de dezembro de 2016

Simone respirou fundo lentamente, estava um calor insuportável. Ela não sabia se o verão estava pior a cada ano ou se era só porque havia nove meses de um calor um pouco menos pior para ela esquecer os três meses onde a sensação térmica geralmente estava acima de quarenta graus. Secou a testa com a barra da camisa, tentando não pensar muito em como aquilo era assustador.

A situação era tão diferente. E só fazia um ano. Não era tanto tempo assim, era? Dizem que enquanto você envelhece, um ano parece cada vez menos. E Simone sabia que ela  não era velha o suficiente para achar que um ano é pouco tempo, mas tinha a sensação que as coisas haviam mudado tão radicalmente que ela não conseguia explicar tudo aquilo no período de somente doze meses.

Era tão mais fácil, tão mais simples e inocente há um ano.

Ela era feliz. E ela daria qualquer coisa para ter aquela vida novamente. Mesmo que estivesse morando com Amanda, não era a mesma coisa. ela podia ver que havia algo de diferente no modo como Amanda estava agindo. Elas estavam dormindo na mesma cama (e Simone gostava de como era mais fácil dormir quando Amanda estava lá, os braços ao seu redor e envolvendo ela com uma aura de proteção). Elas tinham uma rotina e conviviam bem.

Mas elas não estavam juntas e isso estava machucando pra caralho.

Simone olhou para o relógio na parede, onze e quinze da noite. Ela se lembrava perfeitamente do mesmo dia um ano antes. Também estava naquele apartamento, mas era somente ela e Amanda. Ela sabia que Amanda não era fã de beber, mas um dia no ano, no último dia do ano, talvez não fosse ruim. E claro que Amanda tentou impedir ela de beber, mas álcool fazia 'milagres'. E por mais que tudo que estivesse acontecendo naquele momento não fosse o certo - moralmente, pelo menos - era melhor do que agora.

Porque ela tinha certeza que Amanda acabaria seguindo em frente em breve. Não achava que podia culpar Amanda, afinal, foi ela que foi embora primeiro. Foi ela quem desistiu primeiro e depois voltou quando Amanda fez as malas para sair da cidade. Isso a deixava com nojo de si mesma, com raiva. Ela começou a mexer com a barra da camisa para impedir de se arranhar.

Respire, para dentro e para fora.

"Ei" virou a cabeça com a voz de Amanda a chamando, a psicóloga estava ao lado do sofá com a jarra de suco de laranja de saquinho "Quer um pouco?"

"Hm. Uhum" Amanda encheu o copo e entregou "Valeu."

Amanda voltou para a cozinha depois de sorrir levemente para ela. Simone bebeu um gole do suco, o gosto artificial não era realmente bom, mas ela estava acostumada o suficiente para acabar gostando do sabor. Colocou o copo na mesa de centro, no porta-copos de plástico.

Respire, para dentro e para fora.

Abriu e fechou as mãos, fez o mesmo com os olhos. Tentando ignorar e tentando não pensar. Podia sentir os olhos se encherem de lágrimas e a respiração se acelerando. Engoliu seco, não é hora de chorar. Ela não conseguia pensar em um motivo específico. Não havia um motivo específico.

Ela sentiu o sofá de afundar ao lado dela e uma mão nas suas costas, quase na nuca, e outra no seu braço, pressionando levemente. Com cuidado, como se estivesse com medo de quebrar, de machucar. Amanda sempre era delicada, Simone sabia disso, mas ela sabia que a psicóloga estava sendo ainda mais delicada. Ainda mais gentil. E ela sabia que havia emagrecido nos últimos meses e que isso incomodava a psicóloga. Claro que incomodava.

Claro que Amanda havia notado que ela estava tendo uma pequena crise ali.

"Simone?" Ela chamou baixinho, a garota respirou fundo, tentando se acalmar "O que foi?"

"Nada."

"Você não sabe mentir."

"Eu não estou mentindo."

Ela ouviu Amanda suspirar e as mãos saírem do seu corpo. A psicóloga levantou, ela não queria insistir ou pressionar, por mais que ela quisesse tentar ajudar, ela só estava cansada de tentar e falhar porque ela tinha a impressão que mesmo que Simone tenha dito que tentaria deixar ela se aproximar, continuou afastando ela.

Então ela pretendia voltar para a cozinha, mas Simone acabou segurando o braço dela e puxando ela de volta para o sofá. Amanda sentou e ela suspirou com uma certa surpresa quando Simone se encolheu contra ela. Amanda a envolveu com os braços lentamente, apertando a garota contra o corpo. 

Simone tentou se controlar, ela não queria chorar. Ela sabia que se havia sobrevivido ao Natal, ela precisava se controlar no Ano Novo. 

Mas ela não conseguia para de pensar em como tudo estava tão diferente. 

Amanda beijou sua têmpora: "Ei, vai ficar tudo bem."

Terça-feira, 03 de janeiro de 2017

Mar não gostava de hospitais. Talvez, ninguém gostasse de hospitais, mas ela se sentia presa a um lugar que não podia sair. Frágil de um jeito desconfortavelmente familiar. Com aquela roupa leve, nada realmente impedia que alguém a machucasse. Mesmo que, em teoria, ninguém pudesse entrar sem autorização, ela não achava que era um lugar seguro.

Porque médicos e enfermeiros tinham autorização. E isso não era seguro.

Talvez você não possa realmente considerar Mar uma pessoa covarde. E ela estava tentando não pensar sobre como estava vulnerável demais para seu gosto. Porque era fácil atacar alguém em uma  cama de hospital. Ela não gostava do som constante do monitor cardíaco, ela sabia que o coração dela ainda estava batendo, ela não precisava de bipes agudos para lembrar disso, okay? E ela sequer havia se machucado tão feio, ela não fazia ideia de porque precisava de um monitor cardíaco e de acompanhamento tão próximo.

Ela havia perdido de quantas vezes alguém tirou uma amostra de sangue nos últimos dias. E ela havia acabado de voltar de um exame de raio X. Era um exame desconfortável, a sala fria enquanto a máquina zunia.

"Ei" Mar virou o rosto a voz na porta do quarto, ela sabia que era horário de visita, ela não esperava que Ana aparecesse "Posso entrar?" Mar assentiu.

A parte racional dela sabia e já havia aceitado que aquilo nunca daria certo, que Ana merecia alguém melhor. Alguém que pudesse fazer ela feliz de verdade. Mesmo que ela tentasse, mesmo que ela realmente amasse a garota, ela tinha certeza que não valia a pena. E que nenhuma felicidade que causasse era o suficiente para compensar a dor que ela causava - a dor que ela tinha potencial para causar.

Mesmo assim, ela não teve coragem de mandar Ana ir embora agora, mesmo que odiasse aquele olhar. Ela conhecia esse tipo de olhar. Mesmo que houvesse mais de um sentimento, ela não conseguia ignorar que havia alguma pena. E ela odioava pena. Ela odiava quando parecia frágil o suficiente para alguém sentir pena dela.

Ela focou o olhar nas mãos no seu colo e ouviu os passos de Ana se aproximando.

"Aconteceu alguma coisa?" ela perguntou e colocou uma mão no braço de Mar, um pouco abaixo da manga da roupa de hospital. E Mar tentou ignorar como o toque delicado e quente fazia ela se sentia um pouco mais calma.

"Não" Ana percebeu que até a voz dela parecia frágil.

Ana apertou o braço dela com um pouco mais de força: "Você não parece nem um pouco bem."

"Geralmente pessoas em camas de hospital não parecem bem."

"Eu quero dizer menos bem do que da última vez que eu vim aqui."

"Eu não dormi muito."

"Só isso?"

"Uhum."

Ana franziu o cenho. Ela tinha certeza que não era isso. Ela tinha certeza que havia algo de errado. Não era só seu instinto, era o modo como Mar estava agindo. Além de parecer exausta, ela parecia que estava se encolhendo. Porque Mar normalmente estava com uma postura mais confiante, não com os ombros comprimidos e as costas curvadas.

"Eles disseram quando você vai poder sair?"

"Ainda não" ela coçou o queixo.

"Isso é um pouco estranho."

"Eu não sou a pessoa mais saudável do mundo."

"Mas isso não quer dizer que você precisa ficar tanto tempo no hospital."

"Não precisa se preocupar."

"Claro que eu preciso me preocupar" subiu a mão até o ombro, podia sentir o quanto Mar estava tensa "Mar."

"Hm."

"O que aconteceu?"

"Nada, eu já disse."

"Você está tensa pra caralho."

"Eu não gosto de hospitais."

"E só lembrou agora?" Mar soltou um grunhido.

"Por que você veio aqui?"

"Porque eu me importo."

"Você não deveria se importar."

"Não, não comece com esse papo."

Mar grunhiu de novo. E ela odiava como seu corpo reagia ao toque de Ana. Não era desagradável de verdade. Porque fazia ela relaxar um pouco e pensar menos na fragilidade que estava sentindo agora. Porém, isso só a lembrava de como era difícil parar e acabar de verdade com tudo aquilo. Como era difícil terminar de vez um relacionamento que não daria em nada positivo.

Ela sabia que seria muito mais violento se fosse o inverso. Porque ela era violenta e ela não reagia bem quando alguém a machucava. Mesmo que ela achasse que merecesse que Ana fosse violenta assim com ela.

"Quando você vai desistir?"

"Eu tentei. Acho que é impossível."

"É estúpido."

"Eu sou boa em ser estúpida" Mar virou para ela "Não dizem que as pessoas não simplesmente param de amar?"

"Eu não mereço o seu amor."

"Isso não é sobre merecimento."

"Isso é bem idiota."

"Está bem. Quebrar o meu coração não foi o suficiente para me fazer parar de te amar, acha que mandar eu fazer isso vai dar certo?"

"Claramente não, sua masoquista."

Devagar, ela moveu a mão até alcançar o pescoço. Devagar para dar chance de Mar se afastar, mas a garota não se moveu. Ana se aproximou da cama e puxou Mar para perto. Ela sabia que a garota podia se afastar, mesmo que não estivesse com a força de sempre, Ana não estava realmente usando alguma força. Ela sentiu um certo alívio quando Mar se deixou ser abraçada.

Mar passou o braço ao redor da cintura dela e soltou um som baixinho, quase um gemido de satisfação, enquanto enfiava o rosto na curva do pescoço de Ana. E Ana sentiu um certo alívio quando percebeu que a garota estava relaxando no abraço, além do alívio por não ter sido rejeitada.

Ela sabia que isso era uma parte que fazia tudo aquilo ser ainda mais difícil. Era difícil se manter afastada quando parecia tão fácil quando estava tudo bem. Quando parecia que ela deveria viver aquilo, mesmo que se machucassem e a parte racional de Ana também havia aceitado que aquilo não valia a pena.

Mas você sabe, tender à ouvir o lado emocional era muito mais fácil do que ouvir o lado racional.

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