Enternecer por femarques


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CAPÍTULO 16:

BEATRICE

 

            Quando eu era pequena, minha mãe me dizia que eu poderia fazer qualquer coisa e ser quem eu quisesse. Cresci escutando isso. Quando meu pai começou a se meter em problemas, o discurso era reforçado. Minha mãe deixava claro que não queria que eu tivesse o mesmo destino de meu pai, e, portanto, ainda me estimulava a ser quem eu quisesse.

            O problema é que quando me vi sozinha, sem ela e sem até mesmo meu pai, com seu vício, as coisas começaram a mudar. Depois que tudo aconteceu, tentaram, por boa vontade, me levar a um psicólogo, o qual eu abandonei em um mês. Só tive tempo de descobrir que as pessoas lidam com os acontecimentos de formas distintas, mas isso eu já sabia. Eu não era Amber, sorridente e esperançosa. Eu era uma garota que se escondeu atrás de seus medos e deixou a coisa crescer até onde ela está hoje. A situação ficou feia.

            Eu descobri que não podia ser quem eu bem entendesse. Eu não podia ir a todos os lugares do mundo, e quando digo isso, me refiro a lugares bem próximos a mim. Eu descobri que não posso um monte de coisas. E isso por ter desenvolvido certos temores, que com o tempo se transformaram em pavores. Tomei a responsabilidade de criar Amber e dar a ela a adolescência que eu não tive. Criei situações em minha mente que se tornaram reais demais para serem ignoradas, mesmo que no fundo eu saiba que são absurdas. A questão é que agora não posso deixá-las de lado. Minha sanidade depende disso. Preciso, exaustivamente, evitar que meus pavores criados pelo o que passei, não se tornem reais, e para isso, não posso me deixar cair na tentação, esquecer daquilo que vivo tentando evitar. Eu quero que Amber consiga ser quem ela quiser e ir a todos os lugares sem entrar em pânico.

            Respiro fundo e pressiono meus olhos. Quem sabe assim consigo parar de repetir a mim mesma toda essa história. Estou na cama há horas, sem dormir. É segunda-feira e sei que preciso ir trabalhar. Acho que não dormi nada essa noite, mas não tenho certeza.

            Me levanto, usando aquele vestido ainda, agora todo amassado. Me arrasto até o banheiro, sentindo todo o meu corpo pesar e doer. Me sentia doente mas precisava sair do quarto.

            Não fazia tanto frio quando terminei meu banho, mas decido vestir um moletom preto e qualquer uma de minhas calças jeans. Calço meus tênis e prendo o cabelo em um coque de qualquer jeito. Sei que tenho olheiras e meu rosto está péssimo, sei que não consigo respirar direito pensando em como falhei nas últimas semanas e estou correndo perigo.

            Deixo dinheiro em cima da mesa para Amber, que agora está tomando banho pelo barulho que ouço do chuveiro ligado, e escrevo um bilhete a ela, mentindo que precisei sair mais cedo para o trabalho, e com isso, que ela tomasse café no caminho para a escola.

            Abro a livraria uma hora mais cedo, subo as escadas e me sento no chão, escondida no fundo de um corredor não muito movimentado: o das publicações acadêmicas e cientificas. Era raro o dia que alguém passava por aqui.

            Olho para todos aqueles livros, mas não sinto paz. Sei exatamente onde está cada exemplar, por ordem alfabética dentro de cada categoria de literatura. Consigo organizar tudo isso perfeitamente, mas não consigo organizar meus pensamentos.

            A qualquer momento eu poderia me sentir frágil o suficiente, já que me deixei gostar de Giuliana, e cometer alguma besteira. Era em torno disso que meus pensamentos giravam. E eu não consigo faze-los parar! Dentro do meu peito a respiração pesa e sinto tudo dentro de mim queimar.

            “Tudo o que eu preciso é voltar a me concentrar em minha rotina. Ter uma amiga foi errado. Me distrair foi errado. Não vou ser como eles.”

            Repito isso vinte vezes. E por vinte vezes me sinto sufocar. Chego a perder o sentido do que estou pensando e não consigo me levantar do chão. Ouço meus colegas de trabalho chegarem e um deles grita meu nome. Eles sabem que fico organizando os livros quando não estou no andar debaixo.

            As horas provavelmente passam, pois começo a ver uma ou outra pessoa entrarem na livraria. E eu ainda estou sentada no mesmo lugar, mas preciso me levantar. Com dificuldade, saio dali e vou até a mesa do caixa, onde na parte de dentro, minha bolsa está guardada.

            Cumprimento Alice, a moça do caixa, mas não respondo quando ela pergunta rotineiramente “oi, tudo bem?”. Procuro por balas dentro da bolsa, já que sinto uma vontade enorme de finalmente me entregar ao que eu quero, afinal, é isso o que evito, não é?, mas não tem nada ali dentro. O pacote está vazio.

            Olho em minha carteira, mas a última nota de dinheiro foi deixada para minha irmã. Olho em volta, para as pessoas que estão comprando despreocupadamente, e começo a me sentir em pânico. Pego minha bolsa e vou em direção a porta, andando apressadamente e desesperada, quando esbarro em meu chefe.

            Ele me segura com as duas mãos em meus braços e me olha atentamente. Charlie Hermam me deu emprego quando fiz vinte e um anos, trabalho para ele há três anos, e ele me acolheu quando tive minha primeira crise. Ele sabe de tudo.

            “Beatrice, tudo bem?”

            Balanço a cabeça em negativa e pressiono os lábios trêmulos, deixando as lágrimas escorrerem.

            “Eu vou fazer, vou fazer agora.”

            “Do que você está precisando?” Ele pergunta com a voz calma e vejo seu peito descer e subir, respirando calmamente. Tento imitar sua respiração, mas não consigo e começo a ouvir o ar passar por minha garganta.

            “Minhas balas acabaram.”

            “Tudo bem, vamos até o mercado.” Ele segura minha mão e sai andando comigo, devagar.

            Caminhamos por alguns minutos em silêncio até o mercado local. Charlie compra o que eu quero e me entrega o pacote. Ele era a única pessoa que eu sabia que podia contar em Norwich quando ficamos sozinhas de verdade, quando assumi criar Amber e ir trabalhar.

            “Você não precisa trabalhar, tire uns dias de descanso.”

            Eu apenas concordo com a cabeça e continuamos andando em direção a minha casa.

            “Outra crise, querida?”

            “Sim. Perdi o foco.”

            “Vou ligar para sua irmã e avisar que você está em casa, tudo bem?” Ele diz quando me deixa em frente ao portão.

            “Obrigada, senhor Hermam.”

            Ele sorri e pisca para mim. Acaricia meu braço com ternura e se afasta. Eu entro em casa correndo e vou direto para o quarto. Agarrada ao meu pacote de balas, chupo uma por uma.

 

            Os dias passam enquanto eu fico trancada no quarto. Amber sabe que provavelmente estou numa crise e vem até mim apenas para checar se está tudo bem, não tenta conversar e respeita esse tempo.

            Mas o problema é que a falta de vontade de sair da cama não se dá apenas pelo medo, mas por ter começado, no dia seguinte ao meu episódio no trabalho, sentir falta de Giuliana, e com isso, ter criado uma confusão em mim maior ainda.

            Sinto falta de como me divertia com ela. Podia contar apenas o que eu quisesse, sem medo de ser cobrada. Giuliana nunca pareceu se importar com as migalhas que dei a ela sobre mim, ou apenas respeitava. Sinto falta de sua companhia, da leveza que ela tinha, das piadas sobre os ingleses, do sotaque estranho e de toda a sua animação. E provavelmente, me apeguei demais e me deixei envolver. Eu gosto dela, mesmo que isso não seja correspondido. Então era melhor esquecê-la. Além do mais, gostar de alguém me deixava apavorada. A situação parecia só piorar.

            Era quinta-feira e minhas balas haviam acabado. O mercado local fecharia em uma hora. Me levanto, sentindo-me enfraquecida por ficar tanto tempo deitada, e me vejo no espelho. Me aproximo dele e me arrependo de me ver.

            Estou horrível. Sei que o medo que senti estava controlado, mas bastava pensar em Giuliana e na falta que me fazia, que o medo voltava. Era uma situação sem saída.

            Enquanto me encarava, pensava na saudade que sentia. Queria poder vê-la sem entrar em desespero, sem saber que tudo estaria perdido. Mas era melhor assim, estava poupando também a ela.

            Saio do quarto e vejo Amber na sala, estudando sentada no chão, com as costas apoiadas no sofá e seu material na mesa de centro.

            “Amber, pode ir comprar mais balas para mim, por favor?”

            Ela se levanta instantaneamente e pega o dinheiro da minha mão. Anda até a porta e, segurando a mesma aberta antes de sair, diz séria:

            “Quando eu voltar vamos conversar.”

            Fico sentada no sofá a esperando e sei que devo uma explicação para ela, principalmente por ter sido tão paciente e não ter me cobrado nada durante esses cinco dias.

            Logo a porta se abre e ela entra com o pacote pardo nas mãos. Coloca-o na mesinha e se senta ao meu lado enquanto abre uma bala e coloca na boca. Dou risada dela chupando minha bala e fico em silêncio esperando.

            “Essa bala é realmente boa, mas enjoa.” Ela faz uma careta e mostra a língua. “Então, o que aconteceu?”

            Respiro fundo e, dobrando meus joelhos e me encostando no braço do sofá, coloco meus pés em cima do mesmo e fico de frente para ela. Começo a falar enquanto prendo meu cabelo em um rabo de cavalo.

            “Tive uma crise, fiquei com medo de, você sabe, fazer aquilo.”

            “Bea, você sabe que não vai fazer isso, você sabe que não tem o mesmo vício!”

            “Eu não sei!” Falo alto. “Olha, tem vezes que acho absurdo, mas eu tenho esses pensamentos que me dizem que vou ser como nosso pai e nossa tia foram. Eles ficam me dizendo, entende? Esse tipo de pensamento me diz que se eu não me regrar, se eu acabar me divertindo demais, vou esquecer de me controlar e acabar entrando no mesmo vício. Eu não posso me esquecer que tenho essas vontades, e também acabei adotando as balas como forma de controle, você sabe, elas não me deixam ter vontade de outra coisa a não ser...delas mesmo.”

            Os olhos de Amber se enchem de lágrimas e ela pigarreia. De alguma forma, acabo sobrecarregando-a com meus problemas.

            “E o que te fez entrar em crise?”

            “No domingo, Giuliana me deu um selinho, na verdade, nós demos. Foi sem querer, antes de entrar no táxi.”

            Minha irmã arregala os olhos e com a boca aberta, tapa-a com a mão.

            “Não faça essa cara, Amber. É sério.”

            “Eu não disse que não era, mas fiquei surpresa. E um pouco decepcionada por não ter me contado antes.”

            “Depois disso, ela me chamou para a cafeteria aqui perto e teve uma crise de ciúme quando um garoto pediu para se encontrar comigo.”

            “E então você teve a crise?”

            “E então eu percebi que gosto dela, e entrei em desespero por não entender isso.” Levo as mãos ao rosto, me escondendo. Não queria sentir tudo aquilo de novo, mas parecia que falar no assunto era difícil demais.

            “Bea, eu te falei que não tinha problema algum em gostar de alguém, independente de quem seja. Ela é uma mulher incrível, não seria problema algum.”

            “Amber, a questão não é essa. Olha, tudo bem eu ser inexperiente, nunca ter namorado mais de um garoto e muito menos uma garota. Aconteceu, eu percebi que gosto dela e ando sentindo muita falta dela. Mas ela não me vê sem ser como sua amiga, ela nem me ligou depois da briga.”

            “Tem certeza? Achei que seu celular estivesse desligado. Francesco me disse...”

            Interrompo Amber quando ouço o nome do irmão de Giuliana. “Está falando com ele?”

            Ela abre um sorriso largo e se ajeita no sofá.

            “Sim, todos os dias. Acho que ser incrível está na genética deles. Mas me deixa falar! Ele me disse que a Giu passou uns dias lá com ele e os pais deles, e ela parecia estar meio para baixo. Ela pode ter sentido sua falta, mas não conseguiu falar com você e deve estar pensando que isso não passa de amizade também.”

            Desvio o olhar de Amber para minhas mãos em meu colo e dou um sorriso de canto ao imaginar a ideia dela sentir minha falta. Pode ser que eu não esteja começando a sentir algo por ela sozinha. Balanço a cabeça, tentando parar de pensar nisso e volto a atenção para minha irmã.

            “Mas esse não é o problema. Ela é mesmo incrível e me divertia muito com ela, o que fez com que eu me apegasse, mas Amber, eu não posso gostar dela ou de qualquer outra pessoa!”

            “Por que?!” Amber bate com a mão na coxa e cruza os braços.

            “Se eu me envolver com ela, vou acabar deixando com que ela se torne um pensamento constante, podendo me afastar dos pensamentos diários que não me deixam esquecer do que aconteceu, ou seja, não me deixam esquecer de evitar que eu me torne viciada.”

            “Você não vai esquecer de se controlar, Beatrice. Se é isso o que você acha, que vai se tornar seja lá o que for, você não vai esquecer de evitar por estar se divertindo. Você não usa das balas para controlar uma vontade que nem existe?”  Respondo a ela com uma careta, franzindo a testa, e ela continua. “Chupe mais balas, chupe o mercado todo, mas não se prive disso. Ela pode ser algo muito bom em sua vida, Bea. Estar com ela não vai tirar da sua cabeça o maldito lembrete de tudo o que aconteceu com a gente!”

            “Eu não sei, Amber. Não é fácil fazer, garanto que falar é muito mais fácil. Mas pensar em gostar dela me deixa apavorada, com medo do que pode acontecer.”

            “Olha, a amizade de vocês estava indo bem, você se divertia e nem por isso algo de ruim aconteceu. Eu garanto a você que nada vai acontecer. Você não vai esquecer de nada, não vai sentir vontade de nada de ruim. Dê uma chance a isso.”

            “Vamos esperar então, se for para acontecer...”

            Amber revira os olhos e rouba mais uma bala do meu pacote.

            “Claro, vamos esperar. Me contento com a sua decisão de pelo menos pensar sobre o assunto.”

 

            Dou risada da voz dela cheia de ironia e consigo, pela primeira vez em dias, respirar um pouco mais aliviada. Ninguém entenderia como é cansativo e doloroso não parar de pensar, principalmente em algo que te diz que no futuro, você será um fracasso e fará mal as pessoas. Mas, ao mesmo tempo, os momentos com Giuliana eram ótimos e me faziam muito bem. Eu realmente podia tentar, se, quem sabe um dia, nos encontrarmos de novo.

Nome: Palas F (Assinado) · Data: 21/11/2016 21:22 · Para: Capítulo 16

Louca de curiosidade pra saber esse mistério da Bea.

Ps.: teria como entrar em contato com as autoras através de um e-mail?



Resposta do autor:

Teria sim, pode me mandar e-mail.

fernanda.fermarpe@gmail.com



Nome: Ada M Melo (Assinado) · Data: 18/10/2016 16:49 · Para: Capítulo 16

amber é show mesmo, e Giu sumiu estou aqui roendo as uhas por esse reencontro....kkkkk e viciada na sua historia Fê.....quero mais!!!!



Resposta do autor:

kkkkkk

Amber já conquistou vocês, einh? 

Giu deve ta tramando um plano. kkkk

Obrigada por sempre acompanhar, Ada.

Beijos,



Nome: Rita (Assinado) · Data: 17/10/2016 15:04 · Para: Capítulo 16

A Amber é espetacular =) só dá bons conselhos. Vamos ver se essa cabeça dura escuta alguma coisa kkk



Resposta do autor:

kkkkk

Vamos ver se Bea escuta um pouco, né?

E bom, Amber é mesmo show de bola. Vai ser um cupidinho.

Obrigada por comentar, Rita.

Beijos



Nome: Teresa (Assinado) · Data: 16/10/2016 05:10 · Para: Capítulo 16

Adoro a irmã dela, espero que ela pense bem no que a irmã lhe disse. Eu não percebo muito disto mas seria assim tão mau se ela se esquecesse um pouco do que aconteceu? Eu acho que lhe fazia bem se abstrair um pouco do passado e aproveitar o presente, ela tem que acreditar que é diferente do pai dela e que pode gostar de outra pessoa e estar na companhia dela sem se descontrolar.

Tá muito interessante :) e a irmã dela daqui a nada já está namorando com o Francesco haha :p 



Resposta do autor:

Oi, Teresa. Que bom te ver por aqui de novo!

A irmã de Beatrice parece ser mais esperta que ela, e vai ajudar a irmã a conseguir se livrar de todo esse peso. Quem sabe, aos poucos, Beatrice consegue melhorar consigo mesma, não é?

Obrigada por acompanhar, até a próxima!

Beijo.



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