Enternecer por femarques


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CAPÍTULO 14:

GIULIANA

            Se passaram dois dias desde minha briga com Beatrice e nesse tempo, não me recordo de nada além do fato de me sentir irritada o tempo todo e com vontade de falar com ela. Tenho evitado os meus amigos, já que se souberem de tudo, vão acabar confirmando o que mais tenho tentado evitar.

            Tentei por vezes incontáveis pensar que a aproximação com ela se deu apenas por amizade, claro que no início sim, mas conforme eu ficava ao seu lado e a conhecia melhor, até mesmo suas manias estranhas, mais eu queria ficar com ela. Fui inocente de acreditar que faze-la rir me fazia sentir bem apenas como preocupação de amiga, não querendo vê-la sempre tão para baixo, quando na verdade, faze-la rir me fazia sentir importante por ser a única a conseguir.

            Não trocamos nenhuma mensagem, ela não me ligou e eu me mantive longe. A culpa disso tudo era, com certeza, minha. Aquele beijo não deveria ter acontecido, assim quem sabe Beatrice não estivesse tão assustada quando me encontrou para um café. E claro que continuei estragando tudo quando respondi por ela ao convite daquele garoto bobo.

            Desço as escadas, saindo de meu quarto para ir até a cozinha e, quando passo pela sala, tenciono o maxilar ao ver meu sofá. Há dias que olhar para ele me faz sentir vazia. Sinto falta dela. E o pior, me irrita lembrar de seu corpo ali, em meu sofá, sabendo que outras pessoas querem ter com ela a mesma lembrança.

            Fico parada encarando o sofá e me dou conta do que estou sentindo. Percebo que meu comportamento não passou de uma crise estúpida de ciúme e tudo o que inventei a mim mesma não passaram de tentativas falhas de evitar o que estou sentindo por ela. Estou sentindo, mas não quero e não posso.

            Meu estômago se comporta como o de um adolescente e parece dar voltas intermináveis. Passo a mão pelo cabelo e desisto de ir até a cozinha. Saio de casa pensando em encontrar um lugar em que posso ficar sozinha.

            Dirijo o carro pelo centro de Norwich e não consigo escolher um lugar sequer para parar. Acabo estacionando meu carro em um bar com a aparência não muito apresentável e convincente. O estacionamento com poucas vagas era escuro e o letreiro, com o nome Nancy’s, piscava algumas letras, mostrando que as outras haviam queimado. Definitivamente não encontraria ninguém aqui.

            Desço do carro e entro no bar, percebendo que algumas pessoas que estão sentadas em suas mesas me encaram enquanto atravesso o estabelecimento até o balcão.

            Me sento em um banquinho alto e peço à velha mulher uma cerveja.

            “Não recebemos muitos clientes como você, moça.” Ela comenta ao me dar a cerveja.

            Dou um gole enquanto a encaro e concordo apenas com a cabeça.

            “Estou querendo me esconder hoje.”

            Não sei quantas cervejas já tomei quando uma garota de cabelos castanhos e encaracolados se senta ao meu lado. Olhar para ela me faz rir baixo e tomar todo o restante do líquido em minha garrafa.

            “Nancy, duas cervejas, por favor.”

            Escuto-a pedir enquanto estou encarando minha garrafa vazia e contornando a boca da mesma com o polegar.      

            Logo uma garrafa cheia é posta em minha frente. Olho para a moça ao meu lado, que me oferece. Seu cabelo não é armado com o de Beatrice e seus olhos são azuis. Ela não é Beatrice, o que seria ótimo se eu quisesse ter certeza de que meu sistema ainda funciona.

            “Por minha conta.” Ela diz e sorri para mim.

            Respiro fundo e agradeço-a, dando um sorriso sem graça a ela.

            “Então, qual o seu nome?”

            “Giuliana.”

            “O meu é Rachel.”

            Sorrio novamente para ela e tomo um gole da cerveja. Rachel fala muito sobre como conheceu Nancy e adora vir a este bar, enquanto aproxima seu banco do meu cada vez mais e aos poucos começa a tocar meu braço.

            “Então, qual o seu problema? Ou você bebe sempre assim?”

            Dou risada do que ela diz e nego com a cabeça.

            “Gosto de uma garota que provavelmente não está interessada em beijar... outras garotas. E eu não quero ficar interessada em relacionamentos.”

            “Talvez você precise sair daqui.”

            Dito isso, ela se levanta e deixa sua mão em meu ombro, me esperando. Pego algumas notas na carteira e deixo em cima do balcão, me levanto e saio andando ao lado da garota. Era o melhor que eu podia fazer, me afastar de Beatrice e voltar a minha vida como ela sempre foi.

           

            Acordo sentindo pontadas horríveis em minha cabeça. Abrir os olhos nunca foi tão difícil, eles nunca estiveram tão pesados. Pisco algumas vezes e quando vou me espreguiçar, não consigo mover meu braço direito.

            Olho para o lado e vejo cabelos cacheados em mim. Meu coração dispara de uma forma tão rápida que parece que vou perder a respiração. Tiro meu braço dali sem muita delicadeza e me sento na cama, percebendo minha falta de roupa. Começo a tentar pensar no que eu havia feito, em como tinha chegado até Beatrice quando, virando-se lentamente na cama, olhos azuis sonolentos me encaram e sorriem para mim. Não era Beatrice. Claro que não.

            Levo as duas mãos a cabeça e sinto meu corpo todo perder a força por alguns instantes.

            “Cazzo!” Solto um palavrão em italiano para que a moça não me entenda e vou para o banheiro.

            Ela bate a porta quando já estou terminando de tomar meu banho e peço que espere.

            Abro a porta enrolada na toalha e a vejo vestida. Ela sorri para mim e toca meu rosto com uma mão.

            “Preciso ir agora, deixei meu telefone no seu criado mudo. Me liga.”

            Não digo nada a ela e a espero sair do quarto. A cama desarrumada e os lençóis abarrotados me faziam pensar na besteira que acabará de cometer. Por algum motivo, só conseguia pensar em Beatrice, lembrar de sua pergunta sobre eu classificar garotas para saírem comigo e de como eu me preocupei com seu julgamento. Mas agora, se ela soubesse, não teria motivo para não me julgar.

            “Como pude ser tão estúpida!” Reclamava enquanto vestia uma calça de moletom e uma camiseta.

            Me sentia uma pessoa horrível e não queria que ninguém soubesse disso, mesmo que eu estivesse precisando ouvir de alguém que estava tudo bem. Decido sair de minha casa, agora que meu quarto e sala me irritavam. Arrumo uma mochila com algumas roupas e saio do quarto a procura de Abigail.

            “Vou para a casa da minha mãe, não precisa ficar por aqui se a senhora não quiser.”

            Ela me olha sem entender e concorda apenas com a cabeça. Dou um sorriso de canto a ela e saio andando.

            Dirijo devagar demais até a casa de minha mãe, sentindo meu corpo todo pesado demais. Me sentia presa a algo não resolvido e que estava me matando. Sabia que tinha saído com aquela garota para parar de pensar em Beatrice, mas agi de forma tão errada que quando me dei conta, foi como um tapa na cara muito forte. Sair com aquela garota só me mostrou o quanto eu não quero outra pessoa. Ligo o rádio do carro e aumento o volume, tentando me fazer parar de pensar.

           

            Minha mãe me recebe muito bem e fica feliz quando digo que venho para ficar por alguns dias.

            Estou no meu antigo quarto tirando as roupas da mochila quando meu pai entra, batendo na porta antes. Ele se senta na cama e espera que eu me sente ao lado dele.

            “O que aconteceu, Giu?”

            “Só estou cansada, estressada, preciso de umas férias de tudo.”

            “Só isso mesmo?”

            Pressiono meus dentes uns nos outros e engulo em seco. É claro que não é só isso, mas também é claro que não quero envolver minha família em outro problema amoroso.

            “É, só isso.”

            Meu pai concorda e beija minha cabeça antes de se levantar e sair. Respiro fundo e me deito na cama, deixando as pernas para fora dela e os pés no chão. Encaro o teto e não consigo encontrar resposta alguma. É como se minha cabeça estivesse vazia.

           

            Mais dois dias se passam e eu continuo na casa de minha mãe. Consigo me divertir quando estou com minha mãe, meu pai e Francesco, mas me sinto como se Beatrice estivesse sempre no fundo de minha cabeça, nos meus pensamentos.

            É quinta-feira e me sinto cansada de não fazer nada o dia todo. Micah vai me matar quando eu aparecer no Senses por tê-lo deixado trabalhar sozinho a semana toda. Preciso dar um fim nessa situação. Pego meu celular e ligo para Andrea.

            “Ei, sumida. Fala rápido, tenho um intervalo de dez minutos até o próximo paciente.”

            “Certo. Quero conversar, venha até a casa da minha mãe.”

            Ela ri de mim ao telefone e concorda. Desligamos a chamada e eu volto a assistir a televisão.

            Não demora muito quando batem a porta da sala e eu me levanto do sofá em que estava deitada com dificuldade, me arrasto até a porta e quando vejo que é Andrea, dou um suspiro aliviado.

            Ela me acompanha até o sofá, onde nos sentamos lado a lado.

            “Nossa, você parece péssima. O que foi, Giu?”

            Abaixo a cabeça e a balanço de um lado para o outro. Apoio meus cotovelos nas coxas e deito a cabeça nas mãos, escondendo-a ali.

            Andrea toca minhas costas e a alisa devagar, esperando em silêncio até que eu finalmente consiga falar.

            “Eu dormi com uma garota ontem, fiquei bêbada e a levei para minha casa.”

            Levanto a cabeça para a encarar e engulo em seco quando olho em seus olhos.

            “Por que isso está te incomodando?”

            “Andie, eu acho que gosto de Beatrice.”

            Ela abre um sorriso largo e segura minha mão.

            “G, isso é incrível. Faz quanto tempo que não te vejo assim?”

            Franzo a testa e nego com a cabeça, dando de ombros no final, respondendo a sua pergunta.

            “Você não está entendendo. Eu acabei a beijando sem querer quando fui dar tchau a ela no domingo, depois não parei de pensar nela e no mesmo dia fomos tomar café, e eu tive uma crise de ciúme muito idiota quando um garoto chamou ela para sair. Ela ficou irritada comigo e foi embora, desde então, não nos falamos. Mas quando ela chegou ao café, a achei estranha demais.”

            Quando termino de falar, solto o corpo e me encosto no encosto do sofá, ficando com os ombros caídos e os braços caídos ao longo do corpo.

            “E então percebeu que gosta dela de uma forma diferente de amizade?”

            “Sim, eu não consigo parar de pensar nela. E quando acordei hoje e vi a garota ao meu lado, queria que fosse Beatrice. E me senti horrível quando me dei conta do que havia feito. Foi uma coisa muito estranha, me senti culpada mesmo não tendo nada com ela.”

            “Então fale isso para ela, Giuliana. Diga como você se sente, que você percebeu que gosta muito da companhia dela, mas de uma forma muito mais carinhosa.”

            “Eu não posso. Eu não sei se ela gosta de mim da mesma forma, ela me disse que namorou apenas um garoto a vida toda, e ainda foi um garoto. Homem, Andie.”

            “Giu, ela pode gostar de você, caso contrário, não teria ficado, provavelmente mexida, com o beijo que vocês deram no domingo antes de se encontrarem mais tarde. Você só vai saber se tentar.”

            Respiro fundo e olho para minhas mãos. “Eu não posso fazer isso.”

            Andrea leva a mão ao meu queixo e levanta meu rosto. “Giuliana, o que aconteceu com você há anos não quer dizer que vai se repetir eternamente em todos os seus relacionamentos. Eu entendo que foi difícil superar, entendo que envolveram mais pessoas próximas a você, mas você não pode ficar sofrendo por gostar de alguém e ter medo de se envolver. Me escute, você só vai saber se tentar. Ligue para ela.”

            “Você acha mesmo?” Me endireito no sofá e abro um sorriso.

            “Claro, e vou estar do seu lado se precisar.”

            Puxo minha amiga para perto e a abraço, envolvendo meus braços em seus ombros. Dou um beijo em sua bochecha e a aperto.

            “Obrigada.”

            Me sentia mais aliviada após a conversa com Andrea, e dava razão a ela sobre não permitir que meu passado interfira em meus sentimentos. Ficar fugindo disso me faria sofrer mais do que tentar algo com ela.

            Depois de jantar conosco, minha amiga se despediu de mim e foi embora, agradecendo por eu ter me aberto com ela.

            Vou para o meu quarto e já deitada, pego meu celular para ligar para Beatrice, mas a chamada cai direto na caixa postal. Era um tiro no escuro me envolver novamente, e ainda mais, tentar descobrir se ela, com tão pouca experiência e relacionamentos, sentia algo por mim, logo uma garota.

 

            Acabo pegando no sono enquanto tento ligar para ela mais algumas vezes, todas sem sucesso. Só restava agora esperar e tomar a decisão de como agir.

Notas finais:

Ao meu amor, tudo o que há de melhor. Te amo. 



Comentários


Nome: Teresa (Assinado) · Data: 09/10/2016 05:34 · Para: Capítulo 14

Ela gosta mesmo da Beatrice :) eu acho que ela deve arriscar, não perde nada e não, deve tentar :)



Resposta do autor:

Oi, Teresa!

Também acho, viu? Acho que Giuliana deve arriscar!



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