Enternecer por femarques


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CAPÍTULO 10:

GIULIANA

 

            Confiro, pela segunda vez, se minha casa está arrumada, tomo um banho rápido e decido ficar à vontade, visto uma calça de moletom cinza e não tão larga, um suéter preto e fico calçada apenas de meias.

             A noite estava bem fria e a qualquer momento choveria. Aproveito para acender a lareira da sala a ligar o aquecedor. Ligo em um dos meus restaurantes de comida italiana favorito e peço para entregarem duas porções de macarrão à bolonhesa. Queria que ela provasse de uma das minhas comidas favoritas, mesmo que de restaurante, já que não me arrisco a cozinhar como ela.

            Dentro do tempo esperado, o entregador do restaurante bate em minha porta. Ainda tenho vinte minutos até o horário combinado e sei que, como boa inglesa, ela não se atrasará. Arrumo a mesa de jantar e substituo as caixas com a comida por uma travessa de vidro. Abigail ficaria orgulhosa de mim.

            As sete horas escuto novamente batidas na porta e corro para atender. Beatrice, enrolada em um cachecol e usando um casaco pesado e comprido, me esperava atender a porta de braços cruzados e se balançando.

            “Está garoando.” Ela diz com a voz baixa.

            Abro mais a porta e saio da frente, dando espaço para ela.

            “Entra, entra.”

            Fecho a porta atrás de nós e vou até ela, cumprimentando-a com um beijo na bochecha, sentindo como sua pele está gelada.

            “Essa noite esfriou bastante.” Beatrice comenta, ainda com os braços cruzados.

            “Quer que eu guarde seu casaco? O aquecedor está ligado.”

            Ela sorri para mim e concorda balançando a cabeça. Tira o cachecol e o sobretudo, me entregando. Os levo até o cabideiro ao lado da porta e reparo em sua roupa: botas de cano curto, calça jeans e uma camiseta de manga comprida com decote quadrado. Beatrice não tinha seios fartos, mas não eram muito pequenos. Eles apareciam sobre o decote.

            Balanço a cabeça de um lado para o outro, tentando afastar meus pensamentos sobre seu decote. Maldito Matteo.

            “Então, vamos comer primeiro?”

            Ela dá de ombros e me acompanha quando saio andando em direção a cozinha. Vejo que ela olha para todos os cantos, provavelmente observando minha casa.

            “Espero que não se importe, mas eu já escolhi o que iríamos comer.”

            Beatrice solta um riso baixo e se senta na cadeira que ofereço a ela. Me sento em sua frente, no lado oposto da mesa, e sirvo a nós duas com a massa.

            “Eu adoro macarrão com molho vermelho e carne, então, espero que você goste.”

            “Eu gosto, obrigada.” Ela pega seu prato de minha mão e dá a primeira garfada.          

            “Foi você quem fez?” Me pergunta com os olhos um pouco arregalados.

            “Depende, está bom?”

            “Muito! Está delicioso, ou eu quem estava morrendo de fome.”

            Começo a rir e nego com a cabeça. “Não, eu não sei cozinhar. Comprei de um restaurante que gosto muito, tomara que minha mãe nunca saiba disso.”

            “Sua mãe não gosta que você coma em restaurantes?”

            Dou risada de novo de sua pergunta.

            “Não, é que minha mãe não é italiana, ela é inglesa, mas como meu pai é italiano e ela morou na Itália, aprendeu a cozinhar algumas comidas típicas de lá, mas o macarrão do meu pai é melhor que o dela, claro que ela não pode saber disso.”

            Beatrice dá risada e concorda comigo.

            “Um dia faço minha massa para você e a gente descobre se um dia posso me mudar para a Itália.”

            Gosto dela em momentos assim, em que ela parece leve e solta, em que sua expressão sempre ranzinza dá lugar ao furinho em sua bochecha e aos seus olhos que ficam pequenos quando está sorrindo. Me sinto bem em ser a amiga que faltava em sua vida, em pelo menos proporcionar alegria a ela.

            Conversamos sobre assuntos banais durante todo o jantar, em que Beatrice até mesmo comeu de novo. Ela insiste em lavar a louça suja e não consigo convence-la do contrário. A ajudo e depois seguimos para a sala.

            Escolhemos por um filme de comédia e a deixo sentar-se na maior parte do sofá, em que daria para ela esticar as pernas. Me sento na outra ponta, cruzando minhas pernas em cima do mesmo.

            “Sua casa é muito bonita.”

            Olho em volta e sorrio, voltando a olhar para Beatrice em seguida e agradeço.

            “Então, você fica com mulheres?” Ela me pergunta sem desviar os olhos da televisão.

            Pela primeira vez sinto meu estômago embrulhar com a pergunta. Gostar de mulheres sempre foi algo que lidei muito bem e nunca precisei esconder de ninguém, mas eu me importava com a opinião dela e não queria que isso estragasse nossa amizade.

            “Bom, sim. Eu gosto de mulher. Você tem algum problema com isso?”

            Bea me olha com as sobrancelhas arqueadas e as bochechas ruborizadas. “Não! Claro que não. É só curiosidade.”

            “Meus amigos são meio bobos, sabe? Mas é verdade o que te disseram.”

            “E desde quando você gosta?”

            Franzo o cenho e entreabro meus lábios, fico encarando a televisão, sem prestar atenção no filme, enquanto penso sobre isso. Sei que já fiquei com garotos antes, em minha adolescência, mas foram poucos e os quais nunca me despertaram interesse. Provavelmente, desde sempre, só demorei um pouco a descobrir.

            “Eu não sei, Bea. Não sei exatamente quando, mas eu ainda era adolescente quando fiquei com a minha primeira garota.”

            “E então você teve certeza do que queria?” Ela se ajeita no sofá, ficando encostada com o corpo virado um pouco mais em minha direção.

            “Sim, eu tive. Passei um tempo pensando, mas logo contei aos meus pais e aquilo se tornou comum. Meus pais precisaram de um tempo para entender, mas foi muito pouco e tudo ficou bem. Esse fato nunca foi problema na minha família.”

            Termino de falar e desvio meu olhar da televisão para ela, encontrando seu olhar focado em mim. Dou um sorriso a ela e solto uma risada baixa. Pelo menos minha sexualidade não era um problema em nossa amizade.

            “E é verdade que você classifica garotas para ficarem com você?”

            Rio alto, deixando a sem graça. Vejo sua cabeça se abaixar e um sorriso tímido se formar em seu rosto.

            “Por Deus, não. Matteo e Andrea são dois idiotas as vezes. Eu não acho que relacionamento seja a melhor coisa do mundo e optei por não estar em um.” Pressionando os lábios, o curvo-os um pouco para baixo e dou de ombros antes de continuar. “Mas eu não sou uma megera sem coração. Eu fico com garotas que estejam afim de mim e eu esteja afim de ficar com alguém, não é sempre e nem todos os dias. E também não passo disso, só fico com garotas que queiram o mesmo que eu, assim, ninguém se machuca.”

            Beatrice está me encarando e eu não consigo imaginar o que ela está pensando. Geralmente percebo sua timidez, preocupação, distanciamento. Mas agora não sei. Ela me olha concentrada e parece prestar atenção em cada palavra que digo.

            “E agora você sabe como o meu sistema funciona.” Brinco, para ver se ela acha graça e dá risada, e funciona. Nós duas rimos.

            “Se o seu sistema funciona...”

            Pisco para ela e aceno positivamente com a cabeça, fazendo-a continuar rindo.

            “Mas e você? Já namorou bastante?”

            Instantaneamente ela nega com a cabeça e olha para baixo. Vejo seu peito subir e descer com a respiração. Fico pensando se perguntei algo de errado, mas logo ela volta a me encarar.

            “Tive um namoradinho quando adolescente, antes do acidente dos meus pais.”

            “O que aconteceu com seus pais?” Me levanto e me sento mais perto dela, mas não muito, não queria assustá-la.

            “Tiveram um acidente de carro e faleceram. Eu e minha irmã moramos com uma tia até decidirmos morar sozinhas.”

            “Sinto muito por isso. É por isso que se preocupa tanto com a sua irmã?”

            “As coisas são complicadas para mim, não espero que você entenda.” Ela termina sua frase e volta a abaixar a cabeça. Levo minha mão até a dela e seguro suavemente, espero um tempo, mas como ela não se afasta, deixo nossas mãos juntas.

            “Não quero que Amber sofra com nada depois de tudo o que já passamos, e não quero que eu cause nenhum mal a ela, então, sempre evitei tudo o que pudesse me distrair e me fazer esquecer de como me preocupo em deixá-la bem.”

            “Mas você é uma ótima irmã, Bea.”

            Sua expressão triste volta e noto novamente certo rubor em seu rosto. Com certeza esse assunto a deixava desconfortável e constrangida.

            “Amber insistiu muito para que eu me permitisse ser amiga de alguém depois de todos esses anos me dedicando a ela, mas as coisas realmente são difíceis para mim. Eu tenho medo de certas situações e as evito, não quero ver minha história se repetindo.”

            Beatrice soltou sua mão da minha e se levantou do sofá. Foi até sua bolsa que havia deixado na cozinha e voltou segurando-a. Sentou-se no sofá e apesar do espaço de sobra, se encolheu no canto do mesmo, encostando-se no braço do sofá. Fiquei observando-a calada enquanto ela abria sua bolsa e pegava de lá algumas balas.

            “Você adora bala de café.” Comento e tenho certeza de que já falei isso antes, mas ela está sempre chupando dessas balas.

            “Eu gosto, elas me acalmam.”

            Tiro o sorriso bobo que estava do rosto e maneio a cabeça de um lado a outro.

            “Eu não entendo, Bea. Você é uma ótima irmã, passou por coisas terríveis, mas você é uma garota boa, inteligente, poderia ter tanta coisa.”

            “Você não precisa entender, é delicado demais. E eu gosto da minha vida assim, já te disse.”

            “Então ser minha amiga te desvia de sua rotina, deve ser difícil também.”

            Ela termina de abrir o último papelote de bala, o quinto, e a coloca na boca. Era estranho vê-la chupar tanta bala, mas não me sentia confortável para perguntar, ainda mais por perceber nela tamanho constrangimento.

            “Eu gosto de ser sua amiga, e você não interfere nos meus medos, além disso, Amber fica feliz em me ver tentando sair do buraco em que me enfiei. Eu não sei se consigo sair, mas deixá-la feliz já me garante que não estou falhando.”

            “Então eu sou um experimento para deixar Amber feliz.” Comento com a voz brincalhona e a faço rir.

            Ela concorda com a cabeça e me dá seu sorriso aliviado, que já conheço. Talvez para ela me contar sobre seu passado, eu deva não insistir.

            “Desculpa.” Ela diz rindo, e leva a mão a boca, escondendo-se.

            Pisco para ela e nego com a cabeça, sorrindo. “Imagina, amigas são para essas coisas. Mas vem cá, nunca mais namorou?”

            “Não, eu sei que deve parecer estranho, eu devo parecer estranha, mas namorar, sair, fazer amizade, são coisas que não estão nos meus planos. Elas interferem na minha rotina de evitar que meus medos se tornem realidade. Eu evito esse tipo de contato porque as pessoas iriam esperar que eu me explicasse, que eu dissesse de onde vem tanto medo, o que tanto eu evito que aconteça, mas eu não posso falar sobre isso.”

            “Para mim você não precisa contar, eu já tenho dois amigos estranhos, você é só mais uma.”

            Ela cai na risada de novo e relaxa seu corpo, voltando a esticar suas pernas.

            “Você não se sentiu atraída por mim?”

            Arregalo os olhos ao ouvir sua pergunta e só consigo enxergar seus olhos curiosos. Fico muda um tempo, sem conseguir responder nada. Por mim, começo balbuciando algumas palavras sem sentido, até que consigo completar uma frase.

            “Você é linda, mas somos só amigas. Eu não pensei em você como um caso, nós nos tornamos amigas. Não foi?”

            Beatrice me encara com um sorriso no canto dos lábios e agora quem fica envergonhada sou eu. Nunca pensei em ofender alguém por não dizer a ela que me sinto atraída.

            “Claro que foi, Giu. Era só brincadeira.”

            Estreito os olhos e dou um sorriso sem graça.

            “Certo, então vamos voltar o filme e assistir.”

            Ela concorda, sorrindo e deita a cabeça no braço do sofá. Fico o tempo todo imóvel em minha posição me lembrando da conversa com meus amigos e agora pensando na última pergunta de Beatrice. É claro que somos somente amigas, mas eu não quero enganar a garota e deixá-la achando que gosto dela. Mas pensando bem, ela não gosta de mulher, então foi apenas uma brincadeira. Não foi, Giuliana?

            A sorte é que não discutiríamos o filme, já que não consegui prestar a atenção no mesmo. O filme termina perto das onze e meia da noite e ela se levanta apressada para ir embora.

            A ajudo a pegar suas coisas enquanto ela me agradece pela comida.

            “Você vai chamar um táxi ou quer que eu te leve?” Pergunto quando ela abre a porta.

            “Não, obrigada. Eu estou de carro. As vezes meu vizinho, que é dono do meu apartamento, me empresta o dele.”

            “Aquele fusca?” Pergunto, surpresa.

            Ela dá risada e concorda com a cabeça, apontando com a mesma para o carro estacionado em frente a minha casa.

            “Que bom que ele te empresta.” Comento em voz baixa, olhando para o carro e pensando se aquilo oferecia a ela a segurança necessária.

            “Obrigada pela conversa, por não me questionar.”

            “Tudo bem, estranha.”

            A faço rir de novo e abro um sorriso largo.

            “Bom, eu preciso ir.” E dito isso, se aproxima e beija minha bochecha. Me dá um sorriso tímido e se afasta, me dando as costas.

            Fico olhando-a entrar no carro e ir embora. Queria ligar para Andrea e contar tudo o que conversamos, mas sabia que eles começariam com o mesmo discurso sobre eu gostar dela, quando ficou nítido hoje, que nossa relação não passa de amizade. Gostamos de coisas diferentes e ela é frágil demais para fazer parte do meu sistema, acabaria magoando-a.

 

            Me jogo no sofá e escolho outro filme para assistir, ou tentar assistir, enquanto minha cabeça recapitulava toda a conversa e tentava entender qual era seu medo, ao mesmo tempo que achava que isso não era da minha conta e não faria diferença em nossa amizade. 

Nome: Teresa (Assinado) · Data: 27/09/2016 08:16 · Para: Capítulo 10

A Gui tá apaixonada :o tenho certeza haha



Resposta do autor:

oi, tudo bem?

Será, será?? Vamos torcer, einh.. Pq Giu é um amorzinho. haha

beijos,



Nome: laisl (Assinado) · Data: 27/09/2016 07:38 · Para: Capítulo 10

já estou amando tanto quanto sunshine, parabens a vocês duas bjs 



Resposta do autor:

Oi, Lais. Tudo bem?

Fico muito feliz que você esteja gostando tão quanto. 

Já que o comentário foi pra ambas...obrigada em dobro. rsrs

Beijos,



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