2121: resiliência por Cristiane Schwinden
FeatureSummary:

[Esta história é a segunda parte de 2121]


A medida desesperada de Theo fez a busca frenética de Sam por um novo coração ser interrompida de forma trágica na véspera do prazo final.


O pássaro da morte, que esteve à espreita em toda a primeira parte desta emocionante saga, dá lugar agora a uma força vital que determinará o futuro delas, uma soldado que se encontrou e descobriu o amor genuíno; e uma garota cega que transpôs o inferno, e enfrenta agora um novo desafio: reaprender a viver.


Com Elias pairando como uma ameaça constante, e Mike servindo como braço direito de Sam, a presença de Letícia será decisiva nesta segunda trama, que vem com novo ritmo e objetivo; se antes a pressa era a companhia de aventura, agora é a paciência que precisará ser exercitada até as últimas consequências.


E o que poderia vir depois da superação? Um rastro de mortes e dias de desespero despontam no horizonte gélido. Quem chegará vivo ao final?


Resiliência: s.f.: Capacidade que um indivíduo ou uma população apresenta, após momento de adversidade, conseguindo se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação


Link para a primeira parte da história: www.projetolettera.com.br/viewstory.php?sid=21


AVISO: ESSA HISTÓRIA CONTÉM VIOLÊNCIA, TORTURA E ABUSO.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 77 Completa: Sim Palavras: 310065 Leituras: 200629 Publicada: 25/11/2015 Atualizada: 23/10/2017

1. Capitulo 1 - Quatervois por Cristiane Schwinden

2. Capitulo 2 - Lettera por Cristiane Schwinden

3. Capitulo 3 - Aurora por Cristiane Schwinden

4. Capitulo 4 - Peripécia por Cristiane Schwinden

5. Capitulo 5 - Resiliência por Cristiane Schwinden

6. Capitulo 6 - Anagapesis por Cristiane Schwinden

7. Capitulo 7 - Retrouvaille por Cristiane Schwinden

8. Capitulo 8 - Basorexia por Cristiane Schwinden

9. Capitulo 9 - Desconstrução por Cristiane Schwinden

10. Capitulo 10 - Nepente por Cristiane Schwinden

11. Capitulo 11 - Lenitivo por Cristiane Schwinden

12. Capitulo 12 - Vicissitude por Cristiane Schwinden

13. Capitulo 13 - Brio por Cristiane Schwinden

14. Capitulo 14 - Síndrome de Estocolmo por Cristiane Schwinden

15. Capitulo 15 - Lapso por Cristiane Schwinden

16. Capitulo 16 - Faileas por Cristiane Schwinden

17. Capitulo 17 - Desertar por Cristiane Schwinden

18. Capitulo 18 - Eleuteromania por Cristiane Schwinden

19. Capitulo 19 - Lassitude por Cristiane Schwinden

20. Capitulo 20 - Transfobia por Cristiane Schwinden

21. Capitulo 21 - Subjugar por Cristiane Schwinden

22. Capitulo 22 - Destinesia por Cristiane Schwinden

23. Capitulo 23 - Indelével por Cristiane Schwinden

24. Capitulo 24 - Catatonia por Cristiane Schwinden

25. Capitulo 25 - Pantomima por Cristiane Schwinden

26. Capitulo 26 - Fugaz por Cristiane Schwinden

27. Capitulo 27 - Volúpia por Cristiane Schwinden

28. Capitulo 28 - Lampejo por Cristiane Schwinden

29. Capitulo 29 - Perfídia por Cristiane Schwinden

30. Capitulo 30 - Gymnopédies por Cristiane Schwinden

31. Capitulo 31 - Nefasto por Cristiane Schwinden

32. Capitulo 32 - Pistantrofobia por Cristiane Schwinden

33. Capitulo 33 - Ablepsia por Cristiane Schwinden

34. Capitulo 34 - Nitidez por Cristiane Schwinden

35. Capitulo 35 - Celeridade por Cristiane Schwinden

36. Capitulo 36 - Rogar por Cristiane Schwinden

37. Capitulo 37 - Regalo por Cristiane Schwinden

38. Capitulo 38 - Sublevar por Cristiane Schwinden

39. Capitulo 39 - Capcioso por Cristiane Schwinden

40. Capitulo 40 - Apreensão por Cristiane Schwinden

41. Capitulo 41 - Golpe por Cristiane Schwinden

42. Capitulo 42 - 2122 por Cristiane Schwinden

43. Capitulo 43 - Condescendente por Cristiane Schwinden

44. Capitulo 44 - Empertigar por Cristiane Schwinden

45. Capitulo 45 - Conluio por Cristiane Schwinden

46. Capitulo 46 - Isogênico por Cristiane Schwinden

47. Capitulo 47 - Recalcitrante por Cristiane Schwinden

48. Capitulo 48 - Cercear por Cristiane Schwinden

49. Capitulo 49 - Slut shaming por Cristiane Schwinden

50. Capitulo 50 - Bonachão por Cristiane Schwinden

51. Capitulo 51 – Prevaricar por Cristiane Schwinden

52. Capitulo 52 - Mea culpa por Cristiane Schwinden

53. Capitulo 53 - Afã por Cristiane Schwinden

54. Capitulo 54 por Cristiane Schwinden

55. Capitulo 55 - Traquejo por Cristiane Schwinden

56. Capitulo 56 - Arbitrário por Cristiane Schwinden

57. Capitulo 57 - Vogelfrei por Cristiane Schwinden

58. Capitulo 58 - Expiação por Cristiane Schwinden

59. Capitulo 59 - Hiraeth por Cristiane Schwinden

60. Capitulo 60 - Supervivente por Cristiane Schwinden

61. Capitulo 61 - Eutanásia por Cristiane Schwinden

62. Capitulo 62 - Móvito por Cristiane Schwinden

63. Capitulo 63 - Ablação por Cristiane Schwinden

64. Capitulo 64 - Lívido por Cristiane Schwinden

65. Capitulo 65 - Sabatina por Cristiane Schwinden

66. Capitulo 66 - Indulgência por Cristiane Schwinden

67. Capitulo 67 - Alvorada por Cristiane Schwinden

68. Capitulo 68 - Alteridade por Cristiane Schwinden

69. Capitulo 69 - Déjà vu por Cristiane Schwinden

70. Capitulo 70 - Arquejar por Cristiane Schwinden

71. Capitulo 71 - Bon vivant por Cristiane Schwinden

72. Capitulo 72 - Incólume por Cristiane Schwinden

73. Capitulo 73 - Tálamo por Cristiane Schwinden

74. Capitulo 74 - Reenceto por Cristiane Schwinden

75. Capitulo 75 - Arrimo por Cristiane Schwinden

76. Capitulo 76 - Asséptico por Cristiane Schwinden

77. Capitulo 77 - Alétheia por Cristiane Schwinden

Capitulo 1 - Quatervois por Cristiane Schwinden

Esta história é a segunda parte de 2121.

Link para a primeira parte da história: www.projetolettera.com.br/viewstory.php?sid=21

 

Capítulo 1 - Quatervois

 

18 de fevereiro de 2121

Sam acordou naquela manhã com barulhos de tiros vindo da tela incorporada à parede do seu quarto de hospital. Com o novo coração batendo de forma acelerada, se deu conta que o barulho não era real, e então encontrou o rosto sorridente de Mike, que se levantava do sofá, lhe dando bom dia.

- Bom dia, Mike... O som da tela está meio alto, não acha?

- Desculpe, não quis te acordar. Como se sente hoje? Animada?

Sam olhou para o lado, e percebeu três balões azuis presos na cabeceira da cama.

- Quem trouxe?

- Lindsay.

- Ouvi meu nome? - A irmã de Sam adentrava o quarto, com dois copos de café, entregando um para Mike.

- Oi, Lynn.

- Gostou dos balões?

- Obrigada, não precisava disso. - Sam mantinha uma expressão abatida, como nos últimos quatro dias.

- Precisava sim, hoje é um dia especial, finalmente você vai para casa. - Mike respondeu.

Sam ergueu-se um pouco na cama, se ajeitando, tinha um grande curativo em seu peito, que ainda doía. Ficou um tempo pensativa, cabisbaixa, antes de falar.

- É... A casa dela, e isso está tão errado...

- Mas foi a própria garota que pediu naquela carta para que você desfrutasse da casa dela, é o melhor lugar para você se recuperar da cirurgia. - Lindsay disse.

- Não a chame de garota, por favor. - Sam resmungou com desalento.

Mike se aproximou, sentando numa cadeira ao seu lado, tomando sua mão carinhosamente.

- A casa é confortável e enorme, é perfeita. Eu pedi para arrumarem um quarto para você, ficou ótimo, você vai ver, a cama é tão grande. - Mike sorriu, animado. - Nós vamos cuidar de você, o transplante foi um sucesso, mas isso não significa que não precise de cuidados, você está em plena recuperação.

- Eu terei que voltar para Inglaterra daqui três dias. - Lynn se explicava. - Por causa das crianças, mas Mike vai tomar conta de você, eu voltarei sempre que possível.

Sam não se animava, mesmo com sua alta iminente, recostou a cabeça na cama que estava com cabeceira erguida, o olhar perdido para a porta.

- Vamos lá, cadê sua empolgação? Você vai ter alta! Adeus comida de hospital, que você tanto odeia. - Lindsay tentava.

- Quando vou?

- Depois do almoço, sua alta já está assinada, mas o Dr. Woler quer te ver antes de ir.

- Eu quero vê-la, antes de ir embora. - Sam disse, taxativa, pegando os dois de surpresa.

- Sam... - Mike resmungou.

- Vocês não querem me dizer onde Theo está, não querem tocar nesse assunto, mas ela deve estar aqui, e eu quero vê-la, eu tenho esse direito.

- Mana, para que isso? Vá para casa com a lembrança dela dos dias que passaram juntas, não vai lhe fazer bem vê-la desse jeito, vai te fazer mal.

- Sim, Lynn tem razão, você não pode ter esse tipo de emoção agora, vai lhe causar mal-estar, não é uma imagem agradável.

- Então ela está aqui? Vocês a viram? - Sam insistia.

Mike e Lindsay se entreolharam, hesitantes. Mike falou, de forma cuidadosa.

- Sim, a vimos, por isso achamos melhor que você vá para casa descansar, não pense nisso, não vai adiantar nada, e provavelmente o médico não permitirá que você faça isso.

- Falarei com ele. - Sam disse, mudando o canal da TV.

***

Próximo ao meio-dia, o cardiologista que havia a operado apareceu no quarto, para a preleção final. Depois de examiná-la e dar todas as orientações e indicações para sua recuperação, Sam voltou a tocar no assunto.

- Doutor, eu sei que Theo está aqui, eu quero vê-la antes de ir, por favor, só quero alguns minutos.

- Garota, garota... Para que passar por essa perturbação agora, quando você precisa de repouso e paz? - O senhor alto e quase careca falou colocando as mãos no bolso do jaleco.

- Foi o que falamos. - Mike concordou.

Sam exasperou, com um ar chateado, e não parecia querer desistir da ideia.

- Por favor, só quero alguns poucos minutos, se estou viva e em plena recuperação, eu devo isso a ela.

- Você não vai desistir, não é? - O médico sorriu de lado. - Ok, cinco minutos, nada além disso, vou deixar a orientação para quem vier te buscar. Cinco minutos, ouviu, mocinha?

- Obrigada. - Sam agradeceu sobriamente.

Um enfermeiro apareceu com a cadeira de rodas logo no início da tarde, Sam já estava com suas próprias roupas e terminava de prender um rabo de cavalo.

- Eu posso ir andando, não preciso desta cadeira.

- Faz parte do protocolo da alta. - O enfermeiro respondeu.

- Vamos, amor, sente-se, você precisa cuidar dessa perna que levou os tiros. - Sam foi ajudada por Mike a sentar-se na cadeira.

Sam olhou para trás, para o rapaz que a conduziria. - Você sabe aonde me levar, não sabe? O médico disse que deixaria instruído.

- Sei sim, mas não temos permissão para acessar esta área do hospital, por isso tem que ser rápido.

- Cinco minutos, foi o que ele me prometeu.

- Ok, vamos lá. Está preparada para o que vai ver?

- Sim, eu estou bem.

Os quatro seguiam pelos corredores, tomaram um elevador até o último andar, e de lá pegaram o curso de um corredor mais estreito, iluminado.

- É aqui. - O enfermeiro disse, abrindo a porta e passando com a cadeira, com cuidado.

Sam entrou no recinto com ansiedade visível. Os olhos atentos e temerosos logo correram para cima daquela maca, um baque em seu novo coração foi sentido, uma sensação fria que subiu pela espinha. Ela conduziu sua cadeira na direção de Theo, ficando ao seu lado, sem conseguir pronunciar nada, tinha vontade de chorar, mas se manteve firme.

- Theo... - Finalmente balbuciou algo, já com os olhos brilhantes. Era a primeira vez que a via, depois daquela noite.

- Talvez não tenha sido uma boa ideia... - Mike disse, se aproximando.

- Me deixem a sós com ela. - Sam disse, e ninguém se moveu. - Por favor, apenas alguns minutos, eu estou bem, não vai acontecer nada comigo.

O enfermeiro concordou, e os três saíram, esperando no lado de fora.

Sam finalmente deixou algumas lágrimas caírem, observando o corpo inerte de Theo, que se mantinha vivo graças à vários tubos e fios em seu corpo. Máquinas fazendo ruídos e bips aparelhavam aquela UTI, uma estrutura plástica branca em sua boca deixava os lábios entreabertos. Conectados à estrutura plástica saiam dois tubos sanfonados azuis, ligados ao respirador artificial, que se movia sincronizado com a subida e descida de seu tórax. Haviam eletrodos em seu peito, e um em cada lado de sua testa.

- Meu amor... Por que você fez isso? Por quê? - Sam a olhava com uma tristeza imensurável.

- Deus quis que você sobrevivesse, ele tem um propósito para você, um destino para nós duas. - Sam inclinou-se em sua direção, pegando em sua mão direita repousada, havia um acesso intravenoso na parte de cima.

- Sua mão está quentinha... - Sam esboçou um sorriso, e sentir aquele calor aqueceu um pouco sua alma.

- Eles estão fazendo tudo que podem, eu sei que você vai sair dessa. - Sam dizia, baixinho, a encarando. Theo estava um pouco pálida, com a cabeça levemente inclinada para trás.

- Três cirurgias, ela passou por três cirurgias. - Uma voz grave ressoou ao seu lado, despertando Sam do diálogo intimista que levava.

- E o senhor é... - Sam enxugou rapidamente o rosto.

- O neurocirurgião dela, Doutor Franco. Tenho acompanhando o caso de vocês de perto, afinal não é todo dia que alguém atenta contra a própria vida para salvar outra, me senti incumbido de salvar essa garota. - O médico aparentava uns sessenta anos, tinha cabelos brancos desgrenhados e óculos, o que poucas pessoas utilizavam nestes dias.

- Ela não está em morte cerebral, está? - Sam perguntou de bate pronto, o fitando.

- Não, todos os dias fazemos alguns exames para detectar se ainda há alguma atividade cerebral, e todos os dias detectamos baixa atividade em algumas regiões. Ela está viva e lutando.

Sam voltou a olhar para o leito, de forma entristecida.

- Ninguém me dava informações precisas, achei que estavam escondendo que ela já havia partido.

- Estavam te poupando deste assunto, você precisava de tranquilidade para se recuperar. Vim aqui conversar com você agora porque Dr. Woler me garantiu que você teria condições de suportar uma conversa franca sobre o estado dela.

- Sim, por favor, é tudo que eu quero, que me digam o real estado dela.

O médico se aproximou de Sam, ficando ao seu lado também olhando para Theo, ficou um instante pensativo antes de voltar a falar.

- Não posso garantir que ela irá sobreviver, eu estaria lhe dando falsas esperanças se falasse que ela sairia daqui algum dia. Talvez nos próximos dias seu cérebro pare de ter atividades, e teríamos que declarar o óbito. Bem como ela pode nos surpreender e mostrar recuperação.

Sam sentiu a cabeça doendo, girando, ao ouvir aquelas palavras, mas tentava se manter sob controle para conseguir ter aquela conversa sem que ele interrompesse.

- Ela ainda está aqui, eu sei que ela vai lutar. - Sam disse.

- É o que ela tem feito, a pouca idade tem a ajudado. Bem como o mau disparo.

- Como assim?

- Ela agiu com pressa, pelo que soube das circunstâncias em que isso aconteceu. Ela sacou a arma e não teve tempo de fazer uma boa mira, por isso a bala entrou na têmpora, e saiu na nuca. Digamos que ela teve sorte por não ter feito um disparo ideal para conseguir o que queria.

- Isso é bom, significa que não houve tantos danos assim.

- Não é bem assim, ela teve muitos danos, muitos. Inclusive em áreas nobres do cérebro. - Dr. Franco não parecia cheio de dedos nem tentava a poupar dos fatos.

Sam hesitou antes de perguntar.

- Há chances dela acordar algum dia?

- Minha jovem, estamos em estado tão avançado na medicina moderna, mas o cérebro continua sendo o maior mistério na nossa área, já presenciei verdadeiros milagres, bem como tragédias inesperadas. Se ela reagir nos próximos dias, que são os mais críticos nestes casos, ela terá alguma chance de um dia acordar.

Isso encheu Sam de esperanças.

- Então ela irá acordar, ela está sob a mão de Deus.

- É o que desejamos. Mas tenha ciência que se isso ocorrer, ela terá várias sequelas, não temos como saber de antemão quais seriam, mas houve perda significativa da estrutura cerebral, isso nunca é bom.

- Será um longo caminho, eu sei, mas eu estarei aqui no dia que ela acordar, estarei todos os dias. - Sam disse.

- Mas você precisa ir para casa agora, precisa se recuperar e ter saúde para cuidar dela posteriormente.

- Eu quero ter notícias dela enquanto não puder ficar aqui.

- Eu manterei você informada o tempo todo, prometo não lhe esconder nada, assim como não lhe escondo agora.

Sam continuava acariciando sua mão inerte, carinhosamente.

- Tem uma escala para o coma, não tem? Onde ela está nesta escala?

- A escala Glasgow, você a conhece?

- Um pouco.

- Ela está com pontuação três.

Sam fitou o médico, preocupada e um pouco assustada.

- Você pediu que eu fosse sincero. - Dr. Franco continuou.

- Três é estado vegetativo. - Sam respondeu com abatimento.

- Nem sempre, próximo disso às vezes. Escute, vá para casa, descanse nos próximos dias, quando estiver em condições venha tomar conta de sua namorada. Deixarei meu ID, você terá um boletim médico sempre que quiser.

Ouvir ele se referindo a Theo como namorada mexeu com Sam, ela sabia que sua ligação com ela era forte, mas nunca havia se colocado desta forma.

- Vamos. - Mike entrou no recinto sem que Sam percebesse, já com as mãos em sua cadeira de rodas.

 - Espera. - Inclinou-se para frente, segurou a mão de Theo com ambas as mãos. - Eu volto logo, aguente firme.

***

No banco de trás de um caríssimo carro esportivo branco, Sam ainda estava atordoada com a imagem de Theo sendo mantida viva por tantos aparelhos, seguia viagem num silêncio providencial, devido ao nó em sua garganta.

- Viu como não foi uma boa ideia? - Lynn quebrou o silêncio, estava sentada no banco da frente, ao lado de Mike, que conduzia.

- Eu estou bem. - Sam resmungou baixinho.

- Ela vai se recuperar, não se preocupe com isso agora.

Sam apenas balançou a cabeça, concordando.

- E mesmo que ela acabe morrendo, você vai superar isso. - Mike dizia. - Você precisa manter os pés no chão, o estado dela é crítico, talvez não resista.

- Theo é a pessoa mais forte que já conheci, ela vai se recuperar. - Sam rebateu, séria.

- Deus te ouça. - Lynn completou.

Alguns minutos introspectivos depois, em que olhava distraidamente pela janela a paisagem de San Paolo, Sam voltou a falar.

- Que carro é esse?

- Não faço ideia. - Mike respondeu. - Tinham tantos carros naquela garagem, peguei o mais potente, deve ser do papai falecido. - Deu dois tapinhas no volante, satisfeito.

- Pegou?

- Eu precisava de um carro para uso pessoal, para nós. E você agora é detentora de tudo que era dela.

- Não sou, apenas estou temporariamente respondendo legalmente pelos bens de Theo, até ela acordar.

- Se ela bater as botas você fica com tudo para sempre. - Mike respondeu, recebendo um olhar de repreensão de Lindsay. - Ok, desculpe a forma como falei.

Sam percebeu um penduricalho na tela retrovisora do teto, era um pequeno chaveiro de uma bola de basquete, com a sigla de uma faculdade.

- É dela. - Sam disse com um sorriso bobo.

- O que?

- Esse carro é de Theo.

- Não deve ser, isso é carro de homem. - Mike respondeu.

Sam não respondeu, apenas continuou olhando ao redor, ainda ostentando um sorriso. Percebeu algo caído no chão, entre os bancos, tirando dali, era uma mochila. Abriu e viu alguns eletrônicos em seu interior, e um comunicador, que estava descarregado. Sentiu uma pontada forte no peito, fechando os olhos, colocou a mochila ao seu lado.

- Estamos chegando? - Sam perguntou.

- Sim, a casa é um tanto afastada, numa colina artificial. Já estamos dentro do condomínio, em cinco minutos estaremos lá. - Mike respondeu.

Lindsay virou para trás, com um olhar preocupado.

- Você está bem?

- Estou, isso ainda incomoda um pouco. - Respondeu, com a mão sobre o curativo.

Logo o carro parou numa grande portaria espelhada, os muros altos e brancos pareciam uma fortaleza. Um guarda uniformizado e armado fez uma conferência rápida no interior do carro, gesticulando posteriormente na direção da portaria, fazendo o portão se abrir.

- Chegamos. Bom, teoricamente já estamos em casa, mas a casa mesmo fica uns quinhentos metros à frente, isso parece uma vila. - Mike disse, enquanto Sam olhava o interior da propriedade pela janela.

Além de um lago artificial, haviam campos gramados e com floreiras no decorrer da estrada interna, era possível ver também algumas quadras esportivas e casas menores.

- O que são essas casas?

- Duas são para os funcionários, duas são para visitas. A residência oficial é essa a nossa frente.

Sam pode ver uma suntuosa mansão, a maior parte de suas paredes eram de vidro, e possuía três pavimentos. À frente, um espelho d'água com duas estátuas em tamanho real no centro, de dois homens.

Mike tentou conduzir Sam pelo braço, a ajudando, mas ela recusou a oferta. Aproximou-se do espelho d'água, fitando as estátuas.

- Benjamin... - Murmurou. - Esse maldito.

- Quem? - Lindsay perguntou, logo atrás dela.

- É o pai de Theo. - Sam apontou para a estátua de porte altivo e arrogante. - O outro deve ser o avô.

- Ambos já morreram, alguém matou esse cara. - Mike disse.

- Sim, eu sei, alguém fez esse serviço para a humanidade. Não fará falta alguma, era um pária.

Aquela noite no laboratório na ilha passou rapidamente por sua memória, lhe deixando nauseada.

- Você precisa ver a área da piscina, lá atrás. - Mike falava com empolgação. - Parece um resort!

- Não quero saber de piscina, eu quero ficar de repouso para me recuperar o quanto antes, e poder ficar ao lado de Theo no hospital.

- Que diferença faz? Ela não saberá que você estará lá, melhor ficar aqui nesse paraíso. - Mike respondeu.

- Meu lugar é ao lado dela. - Sam disse sisudamente, e seguiu para o interior da casa, mancando e carregando a mochila azul e marrom.

- Venha, preparamos um quarto lá em cima para você. - Lindsay a levou até o elevador envidraçado.

Quando entrou no quarto, Sam olhou ao redor, viu um expositor iluminado, com uma coleção de bonés arrumados lado a lado, caprichosamente.

- É o quarto de Theo. - Constatou.

- Sim, é o segundo maior quarto. E o meu é logo em frente. - Mike disse.

- Achamos que você se sentiria desconfortável na suíte do falecido patriarca, por isso resolvemos alojar você aqui.

- Tudo bem. - Sam dava passos lentos pela imensidão do quarto, que possuía poucos móveis e objetos.

- Providenciamos tudo que você precisa para ficar confortável aqui, inclusive tem roupas no armário. - Lindsay explicava.

- Roupas de Theo?

- Não, roupas novas.

- Onde estão as coisas dela?

- Segundo Marcy, a senhora que cuida da cozinha, o pai mandou jogar tudo fora, só deixou essa coleção de bonés porque vale alguns milhares de dólares.

Sam largou a mochila sobre a cama, sentando-se ao lado, ainda conhecendo o quarto.

- Quer que eu faça a apresentação do restante da casa e dos empregados? - Lindsay perguntou.

- Não, agora não. Quero ficar um pouco sozinha.

- Vou pedir para trazerem o almoço aqui então.

- Não precisa, depois eu desço e como algo. - Sam percebeu que nenhum dos dois se moveu. - Vocês devem estar com fome, almocem, eu estou bem, sério.

Assim que ficou sozinha, ergueu-se da cama com dificuldade e caminhou até a lateral do quarto, um outro ambiente, com chão rebaixado e sofás negros, chegando até uma parede com persianas digitais. Tocou, as abrindo, e uma imensa varanda surgiu à sua frente. Aproximou-se e a porta de vidro deslizou, caminhou devagar até o parapeito, e pode ver o quintal, uma área recreativa com um complexo de piscinas e deques.

- Meu Deus... - Estava impressionada com a dimensão das coisas naquele lugar, uma grandeza nunca vista antes.

Após a contemplação, seguiu para o banheiro, novamente assustando-se com o tamanho.

- Isso é maior que meu quarto. - Resmungou, olhando ao redor.

Ficou um bom tempo embaixo do jato morno, regozijava-se com um banho sem supervisão ou auxílio, pela primeira vez em muitos dias.

Vestiu-se com um roupão branco atoalhado, com a marca da Archer em dourado no alto, sentiu novamente uma pontada no peito e tonturas, deitou-se e acabou adormecendo. Acordou assustada, sem saber onde estava num primeiro momento, sentou-se na cama e lembrou onde estava.

- Ah, meu amor... Eu queria que você realmente estivesse aqui. - Havia acabado de sonhar que Theo dormia ao seu lado em um dos tantos abrigos improvisados onde passaram suas noites.

- É tão estranho não ter você por perto. - Murmurou cabisbaixa, tentando não chorar.

Vestiu-se e desceu para a cozinha, onde uma mulher de aproximadamente cinquenta anos e cabelos quase grisalhos guardava alguns pratos.

- Boa tarde. - Sam a cumprimentou com a voz baixa, a pegando de surpresa.

- Você deve ser a Sam. - Ela sorriu em resposta.

- Sim. - Sam deu alguns passos tímidos adiante.

- Eu sou a Marcy, que felicidade finalmente conhecê-la! - Aproximou-se, lhe dando um abraço rápido. - Sente-se, você não deve fazer esforços.

- Por que finalmente? - Sam puxou uma cadeira junto à uma mesa central retangular, sentando-se devagar.

- Você não é a namorada da nossa Theo?

Sam ficou ainda mais sem jeito.

- Ãhn, bom, nunca oficializamos... Mas... Tínhamos algo sim.

- E não tem mais?

- Temos, temos sim. - Sam sorriu torto.

- Quando ela volta para casa?

Sam desfez o sorriso aos poucos.

- Talvez demore, ela precisa se recuperar, o estado dela ainda é delicado.

- Eu sei que você vai trazê-la de volta.

O sorriso tímido de Sam voltou a aparecer, balançou a cabeça concordando.

- Quer almoçar? - Marcy convidou.

- Sim, preciso de alguma coisa que não pareça comida de hospital.

- Pode ir para a sala de jantar, já sirvo você em um minuto.

- Não se incomode, eu faço algo.

- Menina, já tem tanta comida pronta, e acho que você vai gostar.

- Não quero lhe dar trabalho.

- Eu vou deixar você forte e saudável, combinado?

- Combinado. Posso comer aqui na cozinha?

- Claro! Já sirvo você.

Sam correu seus olhos pelo ambiente, tentando reconhecer todos aqueles aparatos modernos, sem sucesso.

- Mike e Lindsay já comeram?

- Sim. Mas eu fiz algo especialmente para você.

A jovem senhora serviu alguns acompanhamentos e por fim colocou a sua frente um prato com bifes e batatas fritas.

- Bife com batatas fritas. - Sam sorriu ao ver.

- Achei que talvez Theo tivesse lhe contaminado com seus gostos devido a convivência. - Marcy respondeu.

- É, digamos que eu comi esse prato várias vezes nas últimas semanas.

- Vou deixá-la à vontade, deseja algo mais?

- Importa-se de me fazer companhia?

- De modo algum. - Marcy sentou-se à mesa também.

Sam terminava de comer parte das comidas colocadas à mesa, apesar da fome, comia sem pressa.

- Há quanto tempo a senhora trabalha aqui? - Sam perguntou.

- Dezessete anos.

- Dezessete? Então viu Theo crescendo.

- Vi sim, tantas coisas que ela quebrou nessa casa com a bola de basquete... - Marcy riu.

- Como foi quando descobriu que ela estava viva?

- Menina, eu pulava de felicidade, Lucian teve que me trazer água, quase passei mal!

Sam riu.

- Acho que muita gente ficou feliz com a notícia, não é mesmo? - Sam perguntou com interesse, já havia terminado a refeição.

- Sim, pegou todo mundo de surpresa, foi uma benção. Principalmente depois do falecimento do senhor Benjamin, estávamos sentindo muito sua morte, não poderíamos ter recebido melhor notícia.

- Foi uma morte sentida por todos que trabalham aqui também?

- Sr. Benjamin era um homem duro, sério, mas era justo conosco. Coitado, teve uma morte tão violenta. Ele e aquela menina que Theo namorava, não lembro o nome.

- Evelyn?

- Isso, Evelyn. - Marcy balançava a cabeça como se lembrando nostalgicamente do passado. - Ela só esteve aqui uma vez, era uma moça tão bonita, não a conhecia direito, mas ninguém merece uma morte horrível dessas, dizem que cortaram as duas mãos dela.

- Foram só quatro dedos. - Sam respondeu de bate pronto.

- Misericórdia. - Marcy fez o sinal da cruz.

- Realmente ninguém merece uma morte assim, mas Evelyn não era uma boa pessoa, ela fez muito mal a Theo.

- Theo não falava muito sobre essa menina, dava para perceber que não eram apegadas.

- A senhora conheceu as outras namoradas?

- Letícia. - Marcy abriu um sorriso. - Letícia é uma menina abençoada, você a conheceu?

- Não, não a conheço ainda.

- Ela quase morava aqui, de tanto que frequentava essa casa, depois que terminaram o namoro parece que ficaram ainda mais próximas, cada coisa, né?

- Teve mais alguma?

- Que ela tenha me contado só a moça jornalista, mas essa não falava muito, como era mesmo o nome dela? Jane... Janet. O nome dela era Janet. Foi antes de Letícia, Theo era nova demais, nem tinha dezoito ainda.

- Então Theo conversava sobre sua vida amorosa com você.

- Ela sentava nessa cadeira onde você está agora, me pedia uma tigela de cereais e ficava conversando comigo, jogando bolinhas para o cachorro.

- Onde está o cachorro agora?

- Sr. Benjamin mandou colocar no canil lá atrás, junto com os outros.

- Bom, então a senhora já sabe de qual missão está incumbida hoje. - Sam sentenciou.

- Soltar o cachorro?

- Uhum. Posso contar com a senhora?

- Pois falo com Lucian agora! - Marcy levantou animada.

***

A noite Sam lembrou da mochila, que estava no chão ao lado da cama, tirou o comunicador de dentro e pousou sobre a mesinha ao lado, o carregando. Ao tomá-lo de volta, a tela acendeu.

"Informações biométricas não identificadas, tente novamente ou insira a senha."

- Hum. Senha? Ok. - Olhou para cima, pensativa. - Theo. - Falou ao comunicador.

"Senha incorreta."

- Theodora.

"Senha incorreta."

- Bedford.

"Senha incorreta."

- Archer.

"Senha incorreta."

- Basquete.

"Senha incorreta."

- Hum. - Sam fez um semblante contrariado. - Evelyn.

"Senha incorreta."

- Que bom. - Resmungou. - Letícia.

"Senha incorreta."

- Imogen.

"Senha incorreta."

- Ok, deixa pra lá. - Guardou o aparelho novamente na mochila.

Assistiu TV até tarde, apesar de não estar mais no hospital, sentia-se desconfortável no quarto de Theo, adormeceu já tarde. Acordou na manhã seguinte com o movimento de alguém se deitando ao seu lado.

- Bom dia, amor. - Mike a cumprimentou sorridente.

- O que faz aqui? - Sam o olhou com estranheza, coçando os olhos.

- Vim acordar você, a enfermeira vem trocar seus curativos dentro de uma hora.

- Eu posso trocar sozinha.

- Não pode, não. Sam, aproveite as mordomias de ser uma milionária, você pode ter um batalhão de empregados aos seus pés.

- Mike, olhe minha cara de quem está super feliz por ter empregados aos meus pés. - Sam disse de forma ranzinza.

- Ok, ok. Você continua nesse mau humor, isso não vai ajudá-la a se recuperar. Você sabe que estou aqui querendo o seu bem, não sabe? - Mike se aproximou devagar. - Tenho tanto carinho para te dar...

- Eu sei, agora me deixe levantar e tomar meu café, me deixe sozinha.

- Por que? - Mike se aproximou ainda mais, colocando a mão em seu rosto.

- Mike, saia. - Sam tirou a mão de seu rosto, de forma ríspida.

Ele saiu da cama contra sua vontade, deu uma olhada em Sam e seguiu para a porta.

- Você deveria se importar com quem ainda está vivo. - Resmungou, e saiu.

***

As instruções médicas ditavam cinco dias de repouso para Sam, mas em seu terceiro dia na mansão de vidro, já não suportava a espera. Mesmo sob os protestos da irmã e do ex-noivo, Sam saiu com o carro branco a procura do Dr. Woler, para que liberasse seu acesso ao quarto de Theo, Lindsay a acompanhou.

- Eu não tenho a menor chance contra você, não é mesmo? - O médico brincou.

- Não, eu não sairei desse consultório enquanto não tiver a autorização para visitar Theo. - Sam insistia, de pé a frente de uma mesa.

- Você venceu, mas apenas amanhã, fechado? Amanhã você estará liberada, hoje vou fazer você passar por uma bateria de exames.

Sam meneou a cabeça, mas acabou aceitando o acordo. Passou o restante do dia no hospital fazendo exames de todas as naturezas.

À noite, ostentando cansaço, jantava na cozinha, com a companhia de Marcy e do cachorro, um vira lata de médio porte, branco amarelado.

- Quando eu estiver gerenciando as visitas, eu vou liberar sua entrada, e vou te levar lá. - Sam prometia à Marcy.

- Eu poderia vê-la? - Ela se animou, com um semblante radiante.

- Sim, vou levar você e seu marido, Lucian. E quem mais quiser ir, mas aos poucos.

- Isso seria perfeito! Não vejo a hora dessa menina voltar para nosso lado.

- Em breve, temos que manter nossa fé. - Sam disse, gesticulando com o garfo.

- Faço minhas orações por ela todas as manhãs, na gruta.

- Que gruta?

- Atrás das casas tem uma gruta de pedra, a senhora nunca viu?

- Não, ainda não desbravei essa casa, mas gostaria de conhecer.

- Amanhã eu levarei a senhora lá.

- Marcy, não me chame de senhora, eu tenho a idade de Theo. - Sam sorriu.

- Tudo bem, chamarei de criança, como a chamo.

Sam continuou sua refeição, Marcy conversava de pé, recostada no balcão da pia.

- Combinado. Amanhã irei ao hospital, me deram a permissão para ir. - Sam voltou a falar.

- Tenho certeza que ela irá adorar receber sua visita, as pessoas sentem essas coisas, mesmo em coma.

- Espero que sim.

Marcy aproximou-se da mesa, sentando numa das cadeiras, parecia se preparando para perguntar algo.

- Sam, posso fazer uma pergunta?

- Claro.

- Você ainda é noiva de Mike?

- Não, ele é apenas meu amigo agora.

Marcy olhou demoradamente para Sam, parecia não acreditar totalmente nela.

- Mas vocês irão reatar o noivado, não?

- Claro que não, por que está perguntando isso?

- Mike disse que vocês estão se acertando, e que irão reatar quando Theo estiver melhor.

- Ele disse isso? - Sam perguntou com as sobrancelhas baixadas.

- Duas vezes.

Sam bufou irritada.

- Não é verdade.

- Sam, eu não quero causar nenhuma intriga, nem nada do tipo. Eu não sei há quanto tempo você conhece Theo, mas espero que seja tempo suficiente para saber que ela é uma boa menina, e que não merece ser enganada por ninguém. Além disso ela está sozinha, perdeu toda a família.

- Eu sou a família dela agora.

 

Quatervois: (francês): Encruzilhada. Decisão crítica ou ponto de virada na vida de alguém.

 

Capitulo 2 - Lettera por Cristiane Schwinden

CAPÍTULO 2 - LETTERA

 

13 de fevereiro de 2121

 

"Nunca imaginei que a morte poderia ser tão sarcástica. A aguardo sentada numa cadeira desconfortável, ladeada por outras tantas cadeiras igualmente desconfortáveis e que parecem zombar da minha solidão. A sala é branca, fria e comprida, como um frigorífico. Não consigo tirar os olhos daquela porta de vidro translúcida, nem consigo ver o que acontece além daquelas portas, mas posso imaginar.

Aguardo impaciente pela confirmação daquilo que não quero acreditar. Ao mesmo tempo que almejo que alguém com a roupa ensanguentada apareça na minha frente me dizendo algo que vai mudar minha vida, também odeio essa possibilidade. Odeio tanto que sinto vontade de vomitar.

Então é assim que se morre antes de morrer?

É assim que Theo vai embora, no dia da minha morte?"

A meia-noite em ponto, o temido dia treze de fevereiro surgira, com um bip longo vindo de dentro do peito de Sam, a assustando.

- Não desligue agora... - Sam disse, em pânico com a mão junto ao coração.

Um garoto de não mais que vinte anos surgiu pela porta lateral daquela sala fria do hospital, parando na frente de Sam, passavam alguns minutos da meia-noite.

- Samantha Cooper? É a senhora?

- Sim. - Sam o fitava apreensiva, já de pé.

- Me pediram para lhe entregar isto. - Estendeu um papel.

Sam tomou o papel em mãos, olhando rapidamente.

- E Theo? Como ela está? Ela sobreviveu? - Sam perguntava de forma afoita.

- Não sei, apenas me pediram para entregar, eu trabalho no administrativo, não sou médico.

- Por favor, me dê alguma informação sobre o estado dela, chame alguém que saiba de alguma coisa. - Sam deu um passo à frente, assustando o garoto.

- Moça, não sei de nada, mas alguém da segurança vem buscar você daqui a pouco, é tudo que eu sei.

- Da segurança? Por favor, eu estou desesperada aqui, ninguém apareceu, ninguém me dá notícias, eu preciso saber se ela está viva senão eu vou invadir aquele corredor! - Sam dizia nervosamente, apontando para a porta de vidro.

- Hey, não posso te ajudar, ok? Espere um pouco aqui, alguém vai aparecer em breve, eu tenho que voltar. - E saiu apressado.

Sam ainda ficou alguns segundos de pé, desolada, olhando para a porta. Sentou-se e deu uma olhada no papel que tinha em mãos. Estava meio amassado, dobrado duas vezes, com sangue nas bordas.

Assim que desdobrou, reconheceu o papel, era uma página do seu kit de desenho. Estava inteiramente manuscrito de forma irregular, as linhas estavam tortas, ora desciam, ora subiam.

"Este lado é destinado para o hospital e para os órgãos legais." Dizia a primeira frase, no topo do papel, com letras em maiúsculas.

"Eu, Theodora Bedford Archer, número de registro A96121321, declaro como representante legal e fiduciária Samantha Cooper, que deve estar na sala de espera deste hospital agora. Tenho como último pedido que meu coração seja imediatamente transplantado para a pessoa supracitada, assim que meu óbito for oficializado. Este pedido inclui quaisquer outros órgãos, tecidos, e sistemas que forem necessários para sua sobrevivência. Samantha Cooper foi vítima de um experimento do exército europeu e teve um coração artificial implantado, o mesmo irá se desligar no último minuto do dia 13 de fevereiro do corrente ano, portanto ela deve receber meu coração antes que este prazo se encerre.

Caso eu tenha por direito algum bem, valor, ou herança de minha família, desejo que tudo seja repassado e gerido também por ela. Se houver trâmite judicial para avaliar o mérito do meu pedido, desejo que, como ato de boa fé das autoridades, que Samantha desfrute desde já da minha casa, para que ela a tenha como residência a disposição assim que deixar o hospital.

Por fim, atesto que minha atitude de tirar a vida foi inteiramente de minha vontade, sem coerção ou solicitação de nenhuma outra pessoa, e eximo Samantha Cooper de qualquer envolvimento neste ato.

Que minhas solicitações sejam executadas inicialmente pelos responsáveis judiciais ou administrativos deste hospital, e que minha última vontade seja feita."

No final da carta havia a assinatura de Theo e sua contrassenha de assinatura virtual. Sam leu todo o conteúdo como se estivesse anestesiada com o teor, era a confirmação de que ela havia atentado contra a própria vida como último recurso para que Sam sobrevivesse, era seu plano B, que alimentava em segredo.

Com as mãos trêmulas, Sam virou o papel, e encontrou mais texto manuscrito de forma não muito ordenada.

"Este lado é destinado à Samantha Cooper" - Dizia em letras maiúsculas no topo.

"Eu sei que essa frase é um velho clichê, mas se você estiver lendo isso, é porque não estou mais por aqui."

Sam prontamente desabou num choro.

"Antes de qualquer coisa, peço que não fique brava comigo, por não ter compartilhado desta minha decisão com você. Entenda, se você soubesse deste meu plano, eu teria mais trabalho em executá-lo (provavelmente você tomaria minha arma). E desculpe também pela caligrafia, deve estar um aglomerado de frases tortas vagueando pelo papel, espero que esteja legível, e que você não acorde enquanto escrevo isto.

Num mundo perfeito você teria conseguido seu coração de outra forma, e eu ainda estaria viva tropeçando ao seu lado. Acredite, era tudo o que eu mais queria, uma chance de ser feliz com você, mas desde o início eu tinha o mau pressentimento que apenas uma de nós sobreviveria. E eu tinha certeza que deveria ser você."

Sam chorava copiosamente, as mãos mal tinham forças para segurar o papel, que tremulava.

"Me prometa que você irá colocar sua realização e felicidade acima de qualquer coisa, que não irá mais se submeter às vontades dos outros, nem viver sonhos que não são seus. Faça uma faculdade de artes, ou apenas faça arte, mas faça o que te faz genuinamente feliz. Tente não casar com o Mike, ele é um completo babaca. Procure um garoto ou uma garota que te valorize, te respeite, e te deixe livre para ser quem você quiser ser. Ok, você acordou e eu disse que estava procurando biscoitos. Quanta ingenuidade, oficial... Voltando ao assunto, não abra mão nunca de seu prazer, não abra mão de seus direitos como mulher, imponha-se, empodere-se.

Saiba que te amo, e que foi meu amor por você que apertou aquele gatilho. Não se sinta culpada, não se pergunte se poderia ter evitado isso, não fique triste por muito tempo. Eu não vou pedir para que não chore porque sei que não adiantaria, você é uma manteiga derretida. Mas não chore muito.

Levo comigo o som do seu sorriso, a visão da sua voz que me acalentava, a certeza física da sua mão e do seu abraço, as lemniscatas na pele, e o amor infinito mais breve que já conheci.

Sam, meu amor, te vejo do outro lado."

- Não... Não... - Sam soluçava com as mãos no rosto, ainda segurando o papel.

Uma carta escrita três dias antes, guardada por Theo provavelmente sob a roupa, e encontrada agora, por algum enfermeiro, enquanto era despida para os procedimentos cirúrgicos. Naquela loucura de pensamentos intensos e confusos, Sam ia montando o quebra-cabeças do plano B de Theo.

- Ela não estava procurando biscoitos... Estava escrevendo uma carta de despedida, e eu não percebi. - Sam murmurava sozinha, ainda chorando com desespero.

Aquela sala fria de espera parecia cada vez menor, Sam sentia-se sem ar, sem batimentos, o mundo parado ao redor, como se o tempo congelasse até receber alguma notícia sobre o estado de Theo.

Mas nada veio até ela, apenas uma carta que confirmava que aquilo havia sido premeditado, ninguém surgiu para lhe confirmar a notícia da morte da garota que amava, o que lhe salvaria a vida. Nem para decretar sua morte dentro de menos de 24 horas: Theo sobrevivera, seu coração ainda batia.

Releu a carta, se deu conta agora do que Theo havia feito nos minutos que antecederam o tiro: ela estava se despedindo. Aquele choro descontrolado era por saber que precisaria tirar sua vida, e o derradeiro momento chegara, não esperou o nascer do sol do fatídico dia treze, suicidou-se na última noite, no último abraço, no último beijo, a última vez que Sam a conduzira pela mão, no primeiro "eu te amo, oficial".

- Eu também te amo... Não morra... - Sam respondia sozinha, lembrando das últimas palavras de Theo.

Um homem inteiramente vestido de branco entrou na sala, ainda olhando uma prancheta eletrônica, olhou no recinto e percebeu apenas a presença de Sam, que levantou-se, esperançosa.

- Como ela está? - Sam perguntou afoitamente.

- Você se refere à Theodora... - Olhou a prancheta. - Theodora Archer, correto?

- Sim, ela sobreviveu?

- Ela é filha daquele dono da Archer?

- Sim, por favor, me diga como ela está!

- Ainda está em cirurgia, mas não tenho maiores informações.

Sam suspirou de olhos fechados.

- Ela está lutando, ela está viva. - Sam murmurou.

- Sim, mas preciso levar você para a sala de coleta.

- De que?

- Você precisa fazer os exames pré-cirúrgicos.

- Eu não farei cirurgia alguma.

- Eu sou o responsável pelo setor de transplantes no momento, e fui contatado sobre um transplante cardíaco que será feito nas próximas horas, você irá receber o coração da senhora Theodora Archer, então precisa fazer alguns exames antes.

- Mas ela está viva! Ela não irá doar o coração, ela sobreviverá.

- Fui informado que talvez ela venha a óbito nas próximas horas, então esse procedimento é necessário, por favor, assine aqui e me acompanhe. - Ele estendeu a prancheta.

- Leve isso embora. - Sam disse com impaciência.

- Ok, direi que você se recusou aos procedimentos. - Ele respondeu sem muito ânimo, e saiu.

Sam voltou a sentar-se, sua perna sangrava e latejava com os dois tiros.

- Ela está viva... - Abriu um leve sorriso.

Minutos depois, Sam corria a mão pela perna ferida, tentando abrandar a dor, levou um susto com a entrada de dois seguranças.

- Senhora Samantha Cooper, favor nos acompanhar. - Um deles, o mais robusto, vociferou.

- Para onde?

- Por gentileza, nos acompanhe.

Sam levantou-se devagar, cada vez mais a dor na perna lhe queimava.

- Vocês vieram me prender? - Sam perguntou com a voz baixa, abatida.

- Não somos policiais, somos seguranças.

- Tem policiais aí fora?

- Sim, tem alguns.

- Ok... - Sam olhou ao redor, procurando alguma forma de fugir dali, tudo que ela menos queria era ser presa.

- Senhora, essa sala não tem outras saídas, apenas nos acompanhe e nada de mal lhe acontecerá. - Ele disse, prevendo sua intenção.

- Eu não posso ser presa, preciso ficar aqui.

- Se a senhora não for por bem, teremos que usar da força.

Ela os encarou, em dúvida e angústia. Passaria suas últimas horas numa prisão, longe de Theo?

- Tudo bem. - Aceitou de bom grado, seguindo pelos corredores escoltada pelos dois grandalhões.

Quando avistou uma porta aberta, onde dizia "escadas", não teve dúvidas, correu na direção da porta vermelha. Ainda nos primeiros degraus foi contida por eles, sendo agora conduzida pelos braços pelo corredor, até um conglomerado de salas no andar de baixo.

- Boa noite, eu sou a supervisora do administrativo, Célia. - A mulher de meia idade estendeu a mão.

- Por que estou aqui? - Sam apertou a mão rapidamente, sentando-se a sua frente.

- Aquela carta encontrada junto a sua amiga foi encaminhada ao jurídico do hospital, e ao administrativo também. Por sorte eu estou de plantão no administrativo hoje. - A mulher de cabelos loiros e olheiras dizia de forma tranquila.

- Estou sendo presa?

- Não, não está.

- Eu quero falar com os médicos, não quero falar com o administrativo. - Sam falava nervosamente.

- Acalme-se, a menina ainda está na cirurgia, não vai sair tão cedo.

- Ela vai sobreviver?

- Eu não tenho essa informação, talvez nem os médicos tenham.

- O que você quer comigo? O jurídico acionou a polícia, é isso?

- Polícia? Não, ninguém acionou a polícia. Mas eles já estão aqui investigando, mesmo tudo indicando que foi uma tentativa de suicídio, eles investigam os casos que envolvem arma de fogo. Mas não é sobre isso que quero conversar, fique tranquila.

- O que você quer?

- Nosso hospital tem parceria com algumas ONGs, eu sou a responsável por este contato, e tomei a liberdade de falar com uma dessas ONGs agora, eles ajudam refugiados de guerra.

- Eu não sou uma refugiada de guerra.

- Legalmente você é considerada uma refugiada de guerra, porque está fugindo do exército da Europa, você é uma soldado desertora por motivos justificáveis.

- Então vocês sabem quem eu sou? Senhora, eu não posso ser enviada de volta para a Europa agora, eu preciso ficar aqui.

- Eu não tenho como evitar isso, mas farei de tudo para que não aconteça, não se preocupe. Nosso foco agora é na ajuda que esta ONG pode dar a você. Um representante já está a caminho do hospital, deve conversar com você nas próximas horas.

- Eu não preciso dessa ajuda agora, eu não quero ir para um abrigo de refugiados. - Sam dizia com exaltação moderada, gesticulando. - Meu único objetivo agora é permanecer nesse hospital.

- Aceite a ajuda deles, eles podem...

- A senhora leu a carta? Eu tenho menos de 22 horas de vida, eu pretendo passar essas horas aqui nesse hospital, quero me certificar que Theo vai ficar bem, e se possível vê-la uma última vez, isso é tudo que quero, não quero porcaria de abrigo nenhum.

A mulher ajeitou-se na cadeira, espojando-se para trás.

- Eles podem fazer mais do que dar abrigo a você. Mas não poderemos fazer nada se você mantiver esse tom. - Ela disse agora séria.

- Me desculpe... - Sam esfregou o rosto. - Eu estou um pouco nervosa, eu não quis ser rude.

- Ótimo. Como eu ia dizendo, é uma organização séria, mantida por uma senadora influente, eles ajudam os refugiados de todas as formas possíveis. Eles podem ajudar a colocar você no topo da lista de transplantes, você quer um coração novo, não quer?

Sam emudeceu, a encarou assimilando a informação.

- Um coração humano que seja compatível, serve? - Célia insistiu.

- Serve. Mas eu conseguiria trocar de coração até amanhã à noite? Eu só tenho algumas horas.

- Se você for para o topo, amanhã à tarde você estará de coração novo.

Os olhos da soldado brilharam com esperança, já havia descartado a possibilidade de sobreviver, estava focada na luta de Theo pela vida.

- Um coração humano? - Sam disse, ainda em choque.

- Sim, me parece ser compatível, se conseguirem te colocar no topo dessa fila paralela, teremos um coração em menos de dezesseis horas.

- O que eu preciso fazer?

A mulher de olheiras profundas parecia cansada com seu plantão noturno, mas mantinha um porte otimista e gentil.

- Apenas aceite a ajuda dessa ONG, eles já ajudaram centenas de soldados. Assine os termos quando o representante chegar e aguarde sua cirurgia.

- Enquanto isso posso ficar com Theo?

- Não, ela está em cirurgia, e mesmo quando finalizar, não poderá receber visitas.

Sam baixou a cabeça, pensativa. Pela primeira vez em muito tempo conseguia vislumbrar ambas sobrevivendo. Conseguia até mesmo imaginar um futuro ao lado da mulher que amava, um sonho inalcançável até então.

- Certo... Como faço para falar com eles? Precisam de meus dados? O que devo fazer agora?

- Aguardar. - Célia deu uma olhada em sua perna que sangrava e sujava boa parte da calça. - Na verdade acho que você precisa de atendimento médico, sua perna precisa de cuidados.

- Não, não quero ser internada, quero ficar na sala de espera aguardando informações sobre seu estado de saúde. - Sam dizia, na defensiva.

Célia levantou-se da cadeira e saiu de trás de sua mesa, aproximou-se de Sam, pousando a mão em seu ombro.

- Samantha, deixem que cuidem de sua perna enquanto aguarda sua cirurgia, prometo que os médicos manterão você sempre atualizada.

- Minha perna está bem. - Sam insistia, pousando a mão sobre os ferimentos.

- O que aconteceu?

- Dois tiros.

- Sua perna não parece bem. - Deu dois tapinhas em seu ombro. - Vamos, sua perna precisa de cuidados.

Sam hesitou por um momento, mas levantou-se com semblante dolorido. Célia chamou um dos seguranças, e deu instruções para que a levassem à sala de triagem.

Minutos depois ela já estava deitada numa maca, sem a calça, sendo examinada por uma médica.

- Uma bala ainda está aí dentro de você, talvez precise de cirurgia para removê-la.

- Você não consegue tirar aqui mesmo?

- Posso tentar, mas acho melhor a cirurgia, lá eu teria como anestesiar você, é um procedimento rápido, eu mesma faço. - A jovem médica respondeu de forma tranquila.

- Tente tirar aqui, eu vou aguentar.

A médica concordou e voltou com uma grande pinça.

Três minutos depois.

- Não, pare, pare! Eu quero a cirurgia com anestesia! - Sam bradou, apavorada com a dor.

Já no centro cirúrgico, Sam procurava o anestesista, que aproximou-se com algumas injeções.

- Eu não quero dormir, não me apague. - Sam pediu.

- Talvez você durma um pouquinho, ok?

Sam estava há 43 horas sem dormir, seu corpo e sua mente apresentavam sinais de exaustão, os anestésicos a derrubaram por algumas horas. Acordou no meio da manhã seguinte, com um homem de paletó cinza ao lado de sua cama, no quarto.

- Você é médico? - Sam perguntou com confusão.

- Não, sou da organização que conseguiu um coração novo para você. - Ele respondeu sorridente.

- Conseguiram? - Sam tentou se erguer, sentiu a perna doendo.

- Sim, já está a caminho. Mas antes preciso de mais informações sobre você e seu passado.

- Darei qualquer informação que você quiser, mas preciso saber se Theo já saiu da cirurgia.

- Saiu sim, seu estado é um tanto crítico, mas Doutor Franco está otimista.

- Posso vê-la?

- Não, ela não receberá visitas tão cedo.

- Ela vai sobreviver, não vai?

- Vai sim, não se preocupe com isso agora. Podemos conversar?

Alguma conversa depois, e as pontas soltas haviam sido acertadas, Sam havia sido oficialmente admitida no programa de auxílio à soldados refugiados. As três da tarde Sam entrou em cirurgia, logo seu coração artificial, que vivia suas últimas horas de atividade, fora removido de dentro do seu peito.

Um novo coração, de algum herói desconhecido, feito de músculos reais, fora colocado no lugar. Aquele momento tenso em que o novo coração é estimulado para começar a bater no novo corpo, foi superado com sucesso. Sam agora tinha um coração de verdade, um sem prazo de validade, e batendo vigorosamente, pronto para uma nova batalha.

A cirurgia levara cinco horas, Sam acordou aos poucos num quarto a meia luz, com bips de aparelhos ao redor, ainda confusa dos anestésicos. Tentou erguer-se, mas não tinha forças no momento. Percebeu seu comunicador na mesinha ao lado, o tomando com dificuldade.

- Quatorze. - Conferiu o dia na tela do aparelho.

O diz treze de fevereiro havia ficado para trás, Sam se dava conta que estava vivendo o primeiro dia de sua nova chance. Em seu peito não mais batia aquela ameaça de aço, o coração artificial repousava dentro de um frasco de vidro próximo à cama.

E era azul.

Logo Sam já recobrava sua plena consciência, mas ainda sentia seu corpo adormecido e lento. Apertou o botão de emergência ao seu lado, trazendo a pronta visita de uma enfermeira.

- Boa noite, eu sou a enfermeira Susie, tudo bem com a senhora? - Ela perguntou gentilmente.

- Eu preciso de informações. - Sam disse de forma lenta.

- Sobre o que?

- Uma paciente, Theo, preciso saber como ela está.

- Só um instante. - A enfermeira deu alguns toques em sua prancheta eletrônica. - Qual o nome?

- Theodora. Archer.

- Theodora Bedford Archer.

- Exato. Como ela está?

- Ãhn... A última informação em seu prontuário é das dez da noite, ela está em cirurgia.

- Outra?

- É o que consta aqui, uma cirurgia não programada, ela ainda está no centro cirúrgico.

- O que estão fazendo com ela? Por que ela está sendo operada de novo?

- Eu não tenho essa informação, senhora. Precisa de algo? Está sentindo náuseas?

Sam percebeu que não conseguiria mais informações com a moça, pousou a cabeça no travesseiro com desânimo.

- É, parece que meu estômago está embrulhado.

- Efeito da anestesia, eu aplicarei um antiemético em você daqui a pouco. Algo mais?

- Deu tudo certo? - Sam apontou para o curativo no peito.

- Sim, o transplante foi um sucesso, nenhuma rejeição até o momento. Você vai ficar bem, Samantha. - A enfermeira respondeu com um sorriso tranquilo.

- Quando vou sair daqui?

- Em alguns dias, enquanto isso descanse, você precisa.

- Ok.

- Bom, se precisar de algo, já sabe como me chamar. - Ela disse, já saindo.

- Hey, Susie, espere. Eu preciso saber quando Theo sair da cirurgia, você pode me manter atualizada?

- Posso sim. Mas não pense nisso, tente dormir novamente.

Algumas doses foram injetadas em Sam, a fazendo dormir novamente.

***

- Sam? Me ouve? - A voz de Mike a despertou na manhã seguinte.

- Mike? - Sam o fitou sem entender o que acontecia, olhou ao redor.

- Está tudo bem, você já está com o coração novo, e eu vou ficar aqui cuidando de você. - Ele disse sorridente, vestia uma camiseta branca e a barba estava feita.

- Theo já saiu da cirurgia?

- Saiu sim, ela está bem.

- Bem como?

- Está se recuperando.

- Eu preciso de informações mais precisas.

- Sam, meu amor, não se preocupe com essa menina agora, você acabou de passar por uma cirurgia delicada, precisa evitar qualquer tipo de esforço e preocupação. Quer que eu ligue a tela?

- Não... - Sam murmurou, correndo os dedos por cima de seu curativo.

- Melhor não mexer. - Mike pousou sua mão sobre a mão de Sam, que o encarou.

- Como me achou? - Sam o indagou.

- Seu nome está em todas as telas e noticiários, não foi difícil saber em qual hospital você estava.

- Meu nome? Estão me acusando de algo?

- Não, por que acusariam você de algo?

- Não sei, talvez algum envolvimento com a tentativa de suicídio de Theo. - Sam desconversou.

- Fique tranquila, já arquivaram como suicídio mesmo.

- Tentativa.

- Ok, tentativa. Ela é a notícia do momento, a herdeira dada como morta reaparece viva dois anos depois, e atira contra a própria cabeça, ninguém está entendendo. E a imprensa está especulando a ligação de vocês, mas graças a Deus não estão dizendo que você tinha algum envolvimento sexual com ela.

- E estão achando o que?

- Que você tem ligação com o sequestro dela.

Sam lançou um olhar incrédulo para Mike.

- Então você prefere que pensem que sou sequestradora do que namorada dela?

- Claro.

No dia seguinte Lindsay chegou de viagem, fazendo um encontro emocionado das irmãs que não se viam há mais de um ano.

- Lynn... - Sam a abraçou demoradamente, chorando.

- Eu queria ter estado ao seu lado cada dia de sua busca, mas você sabe que era impossível para mim. - Lindsay se desculpava, ainda emocionada.

- Eu sei, tudo bem, você estava comigo o tempo todo, era um grande conforto ter você para conversar, mesmo que a distância. - Sam também estava radiante com a presença dela.

- Vai ficar tudo bem. - Lindsay tomou a mão de Sam, ao lado de seu leito. - Eu e Mike estaremos ao seu lado, você terá sua vida normal de volta muito antes do que imagina.

O médico entrou no quarto minutos depois, interrompendo a conversa delas.

- Doutor Woler, trouxe as notícias que pedi? - Sam ergueu-se da cama, de forma afoita.

- Hey, mocinha, continue deitada aí, sem fazer esforços.

- Trouxe?

- Sim, sua amiga está estável, vai passar por uma cirurgia hoje à noite para introdução de um cateter, ela está com hipertensão intracraniana devido ao edema, precisamos monitorar a pressão.

- Mas é uma cirurgia arriscada?

- Eu não tenho como avaliar, mas com certeza é algo para beneficiar seu estado.

- Por favor, me deixe vê-la. - Sam se agitava na cama.

- Não, você vai continuar nesta cama, em repouso.

- Ela vai operar de novo, ela pode ter alguma complicação na mesa de cirurgia, me deixe vê-la, por favor.

- Eu vou falar com o médico dela, mas por enquanto nada feito.

O médico gesticulou discretamente para Mike ao sair do quarto, o chamando para fora também.

- A partir de agora iremos repassar apenas notícias vagas sobre o estado de Theo. - O médico falou em voz baixa.

- Eu também acho o mais prudente, ela tem se agitado com frequência por conta daquela garota.

- Eu direi a ela hoje que Theo foi transferida de hospital, e você dirá sempre que ela está bem e estável.

Mike apertou sua mão, sorridente.

Naquela tarde, Sam recebeu a visita de um oficial de justiça e dois advogados do grupo Archer, que traziam documentos digitais.

- Em primeiro lugar, parabéns, você agora é uma cidadã com dupla cidadania. - Um dos advogados, Fred, falou animado.

- Como assim?

- A ONG Martin, que conseguiu seu coração, conseguiu também uma série de benefícios, entre eles sua cidadania americana. Você não é mais procurada pelo exército europeu por deserção.

Sam o encarou com espanto.

- Eu fui anistiada?

- Foi sim, não se preocupe mais com isso. Mas temos algumas outras coisas para resolver.

- Temos alguns documentos precisa de sua assinatura digital, mocinha. -O oficial lhe estendeu o papel eletrônico.

- Sobre o que é isso? - Sam olhou sem entender.

- A carta da senhorita Theodora foi aceita judicialmente, você agora é a responsável por seus bens e entidades, bem como 75% das ações do grupo Archer.

Mike e Lindsay, que estavam sentados no sofá acompanhando atentamente, se entreolharam chocados e sorridentes.

- Mas Theo está viva. - Sam rebateu.

- Sim, tecnicamente está, porém no momento encontra-se incapaz, então ela não pode responder por si.

Sam olhou hesitante para os três homens engravatados ao seu lado, que aguardavam sua assinatura.

- Não tenha pressa. - O advogado disse. - Leia tudo com calma.

- O que isso implica para mim?

- Basicamente isso é um protocolo sem maiores responsabilidades para você agora, é uma formalidade. Depois que você estiver plenamente recuperada, terá poderes para gerir a herança de Theodora como quiser, bem como se inteirar da administração da Archer.

- Quem está presidindo a Archer agora?

- O conselho, formado pelos sócios minoritários.

- Então... - Sam continuava incomodada com tudo isso. - Assinando isso eu estarei concordando em cuidar de tudo que Theo herdou do pai?

- E da mãe. Agora ela já tem mais de 21 anos, então tem direito à herança da mãe também.

- Nossa...

- Sam, qual a dúvida? - Mike perguntou, impaciente.

- Eu não sei se isso é certo... - Sam suspirou incomodada.

- Por que não seria? Foi o último desejo dela.

Sam voltou a olhar o documento em sua mão, resolveu ler até o fim.

- Tudo bem. - Assinou, devolvendo ao oficial.

- Perfeito, podemos prosseguir com vários trâmites que estavam paralisados. E conforme solicitado na carta, a casa está sua disposição.

- Que casa?

- A mansão Archer, na Colina. Os empregados já foram avisados sobre a nova moradora.

- Quando podemos ir para lá? - Lindsay perguntou.

- Quando quiserem. Alguma dúvida?

- Espere... - Sam voltou a falar. - Minha preocupação agora é com a segurança de Theo, não apenas com pessoas mal-intencionadas por conta da fortuna dela, mas principalmente seu Tio Elias, ele é um bandido, e ele deve estar atrás dela.

- Não se preocupe com isso, Claire já está cuidando de tudo, um esquema de segurança foi montado para que ela não receba visitas não autorizadas, e controlando o fluxo de funcionários em sua UTI.

- Quem é Claire?

- Uma das conselheiras.

- Theo está segura, então?

- Está sim, fique tranquila.

O trio despediu-se, deixando novamente Sam em companhia da irmã e do ex-noivo, que pareciam ainda atordoados com as notícias.

- Que bom, você terá um lugar confortável para ficar quando sair daqui. - Lindsay disse.

- Ele disse mansão, vocês ouviram? - Mike falou animado.

 

Lettera: s.f.: (italiano) Carta.

Capitulo 3 - Aurora por Cristiane Schwinden
Capítulo 3 - Aurora

 

21 de fevereiro de 2121

 

- Tem certeza que não quer que eu fique com você? - Lindsay perguntou à Sam, do lado de fora do carro, em frente ao hospital.

- Tenho sim, estou me sentindo ótima, e eu quero ficar sozinha com ela.

- Tá bom, você é mais teimosa que nosso pai, vou pedir para o Lucian te buscar meio-dia.

- Não, eu passarei o dia aqui, me busquem no final da tarde.

- É seu primeiro dia aqui, pegue leve, fique algumas horas apenas.

- Lynn, final da tarde, ok? - Sam deu um beijo em seu rosto e seguiu mancando para a entrada do hospital.

- Bom dia, vim visitar uma paciente. - Sam apresentou-se na recepção.

- Qual o nome?

- Theodora Archer.

- Ah, o caso especial. - A atendente fez um sinal com a mão, chamando um forte homem de terno e gravata, e uma moça.

- Caso especial?

- A senhora pode nos acompanhar até aquela sala? - A moça apontou para uma porta logo atrás.

- Por que?

- É o protocolo para as visitas dela.

Sam concordou, entrando na pequena sala acompanhada dos dois. Teve sua íris escaneada e suas digitais confirmadas.

- Tudo ok, Samantha Cooper, correto? O segurança irá acompanhar você até a UTI. Claire deu a você autorização total de acesso, mas o Doutor Woler vetou que você durma aqui, então você precisará ir embora no máximo as 18 horas.

O segurança conduziu Sam até a porta do quarto treze, onde outro segurança permanecia de guarda, sentado ao lado. Sam fechou os olhos e respirou fundo, abrindo a porta.

Theo não estava muito diferente de quando a havia visto, quatro dias atrás. Continuava ligada à inúmeros aparelhos e fios, o respirador branco e azul deixando seus lábios entreabertos, e o mesmo semblante pacífico.

Sam parou ao lado do leito, a observando demoradamente, agora sem pressa. Cada dia ao seu lado, cada momento dividido, tudo que sentiu nas últimas semanas, Sam foi relembrando pouco a pouco, enquanto a fitava de forma carinhosa, porém pesarosa.

Sentiu-se cansada, ainda por conta da recente cirurgia, trouxe uma cadeira para perto dela. Sentou-se e olhou ao redor, se dando conta que provavelmente aquela UTI altamente equipada e com bipes constantes seria seu segundo lar por muito tempo.

Tomou sua mão direita, e agora era Sam que precisava de um pouco de certeza física, certeza que Theo ainda estava ali, e que tudo ficaria bem.

- Conseguimos... - Sam sorriu de lado. - Sobrevivemos, Theo.

Ela havia prometido a si mesma tentar se manter sempre firme, já havia chorado e lamentado o suficiente, queria agora estar forte ao lado de Theo, queria manter seus pensamentos otimistas, e fazer todo o possível para que ambas se recuperassem logo.

Mas poucos minutos depois Sam não conseguiu segurar uma sensação explosiva e triste dentro do seu peito, ao avistar sua mão esquerda, enfaixada. Levantou-se e foi até o outro lado da cama, pousou a mão em seu pulso, seu peito ardia de dor, mas não era por conta da cirurgia.

- Me desculpe... - Sam chorava, segurando sua mão ferida. - Eu nunca quis te machucar, me perdoe...

Uma culpa avassaladora surgiu, atropelando seu desejo de manter-se forte, e desencadeando uma enxurrada de sentimentos.

- Você pediu para que eu não chorasse muito... Eu vou tentar não ficar assim, tá bom? - Sam dizia entre soluços.

Pode ver parte da tatuagem do símbolo do infinito em seu pulso, lhe trazendo um sorriso bobo.

- Provavelmente eu não estaria viva agora, mas você não deveria ter feito isso. - Sam corria seus dedos delicadamente pela tatuagem. - Não foi justo, era você que deveria estar agora naquela mansão, aproveitando sua vida, jogando bolinhas de cereal para o cachorro que eu ainda não sei o nome. Saiba que vou te dar uma boa bronca quando você acordar, não era para ser assim.

Aproximou-se da cabeceira, acariciando seu rosto com as costas da mão e dedos.

- Eu te amo... Meu coração novo já está repleto de você. Não demore muito para acordar, ok? Estarei aqui sempre.. acompanhando você melhorando dia após dia, até poder levar você para casa.

Sam passou o restante do dia entre a cadeira ao seu lado e o sofá de tecido cinza, que não parecia muito confortável. Uma enfermeira lhe informou que o médico só chegaria no final da tarde, e Sam o aguardava com ansiedade.

Aproximava-se das seis da tarde, quando finalmente o neurocirurgião entrou na UTI, fazendo Sam levantar afoitamente do sofá.

- Que bom que consegui encontrar o senhor ainda hoje. - Sam desabafou, apertando sua mão.

- Samantha, correto? - O médico de cabelos desgrenhados e óculos redondos continuava a cumprimentando.

- Isso. - Sam soltou sua mão. - Como ela está?

Doutor Franco a encarou por alguns segundos, hesitante.

- Você já conversou com alguém sobre o estado dela?

- Não, as enfermeiras apenas dizem coisas vagas ou que não tem permissão para falar.

- Bom, me deixe dar um oi para a paciente, sente-se.

O médico fez um exame visual em Theo, depois conferiu alguns dados nos monitores ao redor, bem como em sua prancheta eletrônica. Sam não aguardou o final do exame.

- Ela vai acordar em breve, não vai? - Sam perguntou, esperançosa, com os cotovelos apoiados nas pernas.

O médico puxou a cadeira para perto de Sam, sentando de frente para ela.

- O quadro dela é estável.

Sam o interrompeu.

- Pelo amor de Deus, isso é tudo que tenho ouvido nos últimos dias, me fale algo mais concreto do que apenas estável.

- Ok. - Ele ajeitou os óculos. - Theo está piorando, ela continua com inchaço no cérebro e não tenho a menor dúvida que ela não sobreviveria a mais uma cirurgia.

Sam assustou-se com as notícias, o fitando em choque.

- E o que está sendo feito?

- Estamos monitorando, ela está recebendo medicação para reverter o quadro, mas depende quase que totalmente dela.

Sam lançou os olhos na direção do leito, ainda assimilando.

- Façam mais, ela não pode morrer, deve ter alternativas para a cirurgia.

- Ela é uma menina forte, vamos esperar uma reação.

Sam esfregou os olhos, aflita.

- Ela não está tendo melhora alguma? Achei que ela estava se recuperando em todos esses dias, ela já está há uma semana aqui!

- Samantha...

- Me chame de Sam, por gentileza.

- Ok, Sam. A atividade cerebral é quase nula, não há resposta à estímulo algum. Ontem seus rins começaram a falhar, hoje começaram os problemas com o fígado também. Ela está no processo de disfunção múltipla de órgãos, e não estamos conseguindo reverter.

- Meu Deus...

- Talvez ela esteja se despedindo.

- Não, não, isso não vai acontecer, ela não está se despedindo, ela tem muito o que fazer por aqui ainda.

- Ela pode nos surpreender e ter uma melhora, nesses casos tudo é possível, mantenha as esperanças, tudo que está ao alcance da medicina está sendo feito.

Sam levantou do sofá, se aproximando da cama.

 - Theo está aqui, ela ainda está aqui, é só um momento crítico, ela vai sair dessa.

O médico emparelhou-se com Sam ao lado do leito.

- Ela continua lutando bravamente.

- Eu não esperava algo diferente.

- Eu preciso ir, amanhã dou mais uma passada por aqui.

Assim que o médico saiu, o segurança do lado de fora entrou no quarto, anunciando o final do horário permitido de Sam.

- Não, eu ficarei aqui.

- Senhora, tenho ordens para removê-la do quarto as seis, por favor me acompanhe.

- Eu não vou, ela está morrendo, eu preciso ficar aqui! - Sam se exaltava.

- Estou cumprindo ordens, por favor, estamos num local delicado, me acompanhe.

- Com quem preciso falar para conseguir autorização?

- A senhora pode tentar falar com Claire amanhã.

- Não, eu quero ficar hoje!

- O que está acontecendo aqui?

Uma mulher negra, com cabelos trançados, entrou no quarto interrompendo a discussão acalorada.

- Quem é você? - Sam indagou rispidamente.

- Eu que pergunto, quem é você que está causando essa celeuma no quarto de Theo?

- Quem autorizou sua entrada aqui?

- Você não respondeu minha pergunta, quem você pensa que é?

- Eu tenho autorização para estar aqui! - Sam bradou.

- Até as seis da tarde, seu tempo terminou, senhora. - O segurança entrou na conversa.

- Eu acho melhor você sair com o segurança.

- Não vou sair do lado de Theo! - Sam vociferou e sentiu uma dor no peito, a deixando tonta e levando uma mão ao local.

- Moça, você está bem? - A mulher perguntou.

- Estou, eu fiz uma cirurgia semana passada.

- Cirurgia?

- Um transplante de coração.

- E você está aqui causando confusão ao invés de estar em repouso por que?

- Eu estou bem. E você ainda não disse quem é.

- Letícia, sou amiga de Theo, e tenho autorização para estar aqui.

- Letícia?? - Sam a fitou com espanto.

- Sim, me conhece por acaso?

- Theo falava de você.

O semblante de Letícia se suavizou.

- Você é amiga de Theo? Qual seu nome?

- Samantha, Sam.

- Theo nunca mencionou seu nome.

- Eu a conheço há pouco tempo.

- Senhora? Por favor. - O segurança voltou a insistir.

- Sam, nada vai adiantar ficar aqui discutindo, vem tomar um café comigo, vamos achar uma solução para isso.

Sam olhou em dúvida para o segurança e para Letícia, e acabou aceitando, logo as duas estavam num café no próprio hospital.

- Eles estão apenas cumprindo as ordens, você não conseguiria convencê-lo a mudar de ideia. - Letícia disse, recebendo sua xícara de café.

- Mas eu quero passar a noite com Theo, o médico disse que ela está piorando.

- Eu sei, mas ela tem grandes chances de sair dessa, eu conheço bem essa garota, ela não é de desistir assim fácil.

- Não, não é. - Sam parecia mais calma, deu um gole em seu café.

- Então, como você a conheceu? Do basquete?

- Não, é uma longa história.

- Não tenho pressa.

- Letícia, você sabe o que aconteceu com ela nos últimos dois anos?

- Soube pelos noticiários que ela foi sequestrada, e que o próprio tio estava por trás disso, aquele maldito Tio Elias.

- Sim, ele a sequestrou. Eu a conheço há poucas semanas, estávamos viajando juntas.

- Para onde?

- Para cá.

- Você tem algo a ver com o sequestro?

- Não, não. Eu a encontrei na noite em que ela fugiu.

- E se tornaram amigas?

Sam moveu a cabeça sem jeito, hesitante.

- Um pouco mais que isso.

Leticia arregalou o os olhos, sem entender.

- Theo está namorando?

- Bom, se ela resolver acordar, talvez um dia consigamos oficializar. - Sam sorriu torto.

Sam recebia um olhar analítico de Leticia, que parecia ainda incrédula.

- Quantos anos você tem? Vinte? Você não faz o tipo dela.

- 23. Por que não?

- Theo gosta de mulheres com mais de trinta.

- Você tem mais de trinta?

- Tenho 35. Então você sabe que eu e Theo fomos namoradas?

- Sei sim, ela me contou. Por dois anos, não foi?

- Dois anos. Daí ela se tornou minha melhor amiga, é só Deus sabe o quanto senti falta dessa garota nesse tempo sem ela.

- É, eu imagino. Eu já estou sentindo sua falta, eu passei minhas últimas seis semanas com ela ao meu lado, dia e noite.

- Só tem uma coisa que ainda não fez sentido nisso tudo. - Leticia inclinou-se para frente.

- O que?

- Se Theo havia finalmente conseguido fugir do cativeiro, e estava até mesmo namorando, por que ela tentou se matar?

- Longa história... - Sam respondeu com desconforto.

- Pode começar a contar.

- Não hoje, ok?

- Tudo bem.

- Apenas saiba que ela não queria morrer, ela fez isso num momento de desespero.

Sam olhou seu comunicador e ignorou as mensagens da irmã.

- Letícia, eu preciso ficar aqui hoje, você pode me ajudar? - Sam pediu num tom clemente.

- Me dê um minuto. - Letícia sacou o comunicador e trocou algumas mensagens.

- Vá para casa descansar, Theo não vai embora hoje.

- Como você sabe?

- Falei com um amigo que trabalha aqui no hospital, ele me passou a ficha dela. Theo está ruinzinha, mas se mantém estável.

- O que diz na ficha?

- Coisas que você não entenderia.

- E você entende?

- Eu sou médica residente.

- Trabalha aqui?

- Não, trabalho no Cedars, acabei de vir de um plantão de 24 horas.

- Você acha que ela vai sobreviver?

- Vai sim, vou lá em cima agora encher ela de bronca. - Letícia ajeitou-se na cadeira metálica. - Vamos fazer o seguinte: você vai para casa agora, vai descansar e ter uma bela noite de sono. Eu vou ficar um pouco com nossa amiga dorminhoca, depois continuo te mantendo informada sobre qualquer alteração do quadro dela, estarei sempre em contato com esse meu amigo que trabalha aqui.

- Ela estará aqui amanhã, não estará?

- E você ainda duvida disso? - Leticia abriu um belo sorriso alvo.

- Eu sei que vou levá-la para casa em breve.

- Uma coisa de cada vez, Sam. Escute, eu sei que ela vai sair dessa, mas apenas para desencargo de consciência eu acho que você poderia tirar um minutinho amanhã para conversar com ela, caso ela resolva partir.

- Me despedir?

- Eu não diria despedir, mas acho que você deveria dizer tudo que gostaria.

Sam apenas balançou a cabeça tristemente, concordando.

- Precisa de carona? - Letícia se ofereceu.

- Não, tem um motorista me esperando aqui.

- Ok, então vá para casa, você não deve cometer excessos agora, precisa ficar bem para cuidar da sua garota.

- Te vejo amanhã?

- Sim, vou passar a tarde com vocês.

***

Sam chegou em casa e encontrou Mike na sala, a aguardava com impaciência.

- Por que demorou tanto? Você não atendeu nossas ligações.

- Onde está Lynn?

- No quarto, falando com as crianças. Sam, você não pode ser irresponsável dessa forma, e se você tivesse tido alguma complicação? Você precisa de repouso e cuidados.

- Eu estou bem, vou tomar um banho e dormir. - Sam já se dirigia para o andar superior, Mike a segurou pelo braço.

- Não faça mais isso, ok? Você nos deixou preocupados.

- Me solte. - Sam o encarou furiosa.

Subiu para seu quarto, tomou um banho sem pressa, e deparou-se com Mike sentado em sua cama.

- Mike, não gosto de você invadindo meu quarto dessa forma. - Sam ia falando enquanto procurava roupas no armário.

- Vim pedir desculpas pela forma como falei com você agora há pouco. - Mike respondeu com doçura, indo até Sam, que usava um roupão branco.

- Tudo bem, eu responderei as ligações e mensagens da próxima vez.

- Venha cá.

- O que? - Sam virou-se, e Mike a abraçou.

- Vai ficar tudo bem, essa turbulência vai passar. - Mike dizia de forma carinhosa, enquanto afagava sua nuca, Sam rendeu-se ao abraço.

- Theo tem piorado... - Sam murmurou.

- Meu amor, entregue nas mãos de Deus, não podemos fazer nada.

- Deus não pode permitir uma injustiça desse tamanho, ela lutou tanto... - Sam embargou a voz, e desprendeu-se do abraço.

- Ela vai melhorar, não perca a fé. - Mike enxugou as lágrimas em seu rosto.

- Obrigada por estar ao meu lado, você e Lindsay tem sido minhas rochas.

- Eu faço qualquer coisa por você.

Lindsay entrou no quarto e sorriu ao ver a cena do quase abraço daqueles que um dia formaram um sólido casal.

- Estou atrapalhando algo? - Ela perguntou sorridente.

- Não, só estava cuidando um pouquinho da Sam, eu vou descer para jantar. - Mike respondeu. - Vem comigo?

- Daqui a pouco, vou me vestir.

Mike saiu, deixando Lindsay sentada numa confortável poltrona, Sam se vestia.

- O que estava rolando aqui? - Lindsay perguntou com malícia.

- Absolutamente nada, ele me deu um abraço, só isso. - Sam terminou de vestir uma camiseta branca e sentou-se na beirada da cama, cansada.

- Eu já conheci vários casais, mas vocês dois formam o casal mais bonito que já vi em toda minha vida.

- Lynn... Pare com isso, nós terminamos.

- Por que não dá uma nova chance para ele? Mike te ama de verdade, eu não tenho a menor dúvida que ele seria um excelente marido para você.

Sam baixou a cabeça com desânimo, dando um suspiro lento. O quarto enorme de dois ambientes parecia ainda maior com a ausência de alguns móveis, ela ainda não conseguia ficar à vontade ali.

- Talvez, eu não duvido que Mike possa ser um bom marido, mas não para mim.

- Por que? Não tem nada te impedindo, minha irmã.

- É com Theo que eu quero reconstruir minha vida.

- Sejamos honestas, você realmente acha que um dia ela vai se recuperar de um tiro na cabeça? Se algum dia ela acordar, provavelmente terá a mentalidade de um bebê, você não pode fazer planos com uma pessoa que não está disponível.

- Ela piorou... - Sam disse com pesar, baixinho.

- O que o médico disse?

- Ela teve uma piora nos últimos dias, no quadro geral. Os órgãos estão falhando.

- Sinto muito... Mas você sabe que Deus tem um propósito para todos nós, talvez essa seja a sina dessa menina, ela tinha a missão de ajudar você, e agora que cumpriu, terminou sua jornada na Terra.

- Ela não pode morrer, Lynn. - Sam voltou a ter os olhos cheios de lágrimas.

- Continue fazendo suas orações, eu também tenho rezado por ela, para que se recupere ou que possa finalmente descansar, em paz.

Sam tinha um semblante gravemente abatido.

- Você a odeia, não odeia? - Sam indagou sua irmã.

- Não, não a odeio.

- Você foi vê-la algum dia? Quando eu estava no hospital. - Sam perguntou.

- Fui. - Lindsay suspirou antes de voltar a falar. - Eu havia criado uma imagem dela, no decorrer de nossas conversas, uma imagem nada agradável. Confesso que estava curiosa em saber como ela era, eu não tinha nenhuma informação sobre a sua aparência, então criei uma Theo com tudo de pior que uma pessoa pode ter, uma mulher da vida, vulgar.

- Me entristece saber que você pensa isso dela.

- Antes de entrar naquela UTI, eu já fazia ideia do que veria, desconfiava que ela faria jus à imagem desagradável que eu havia feito.

- É o que você acha?

- Por Cristo, Sam, ela parecia uma criança dormindo! Eu não consegui sentir nada ruim por ela, eu estava enganada.

Sam deu um sorriso torto, já as lágrimas.

- Parece que ela está dormindo, não parece? A única diferença é que não está roncando... - Sam riu, fungando.

- Eu só consegui enxergar uma garota que tentou salvar a minha irmã.

- E ela conseguiu... Minha garota... Minha garotinha... - Sam chorava.

- Não fique assim, onde está seu otimismo?

- Eu tenho tanto medo de perdê-la para sempre... De chegar no hospital amanhã ou depois e receber a notícia que ela não resistiu.

- Se isso acontecer, ela terá ido embora sabendo do que você sente por ela, não é mesmo?

- Sim, eu tive tempo de dizer o quanto a amava. - Sam apoiou a cabeça nas mãos. - Ela está lá agora sozinha, num quarto de hospital, eu deveria estar lá, ela não gosta de ficar sozinha...

- Sam, Nossa Senhora está com ela, tomando conta. Agora jante algo e vá descansar.

Na manhã seguinte, Sam pulou cedo da cama, seguindo para o hospital. Theo se mantinha no mesmo quadro, e a tarde Letícia juntou-se a elas.

- Não acha que esse quarto está meio mortinho? - Leticia perguntou, andando pela UTI.

- Como assim? - Sam estava largada no sofá cinza.

- Falta cor.

- Arranjarei algo para enfeitar, quem sabe compre flores.

- Não, nada orgânico, ok? Isso aqui é uma UTI, não um jardim.

Sam ainda se acostumava com o jeito direto e descontraído de Letícia, mas não conseguia sentir ciúmes dela, mesmo sendo ex-namorada de Theo, enxergava alguém com boas intenções reais, cuidando de Theo.

- Ok, agora sente aqui e me conte sobre o que leu secretamente na ficha dela hoje. - Sam a intimou.

- Nada mudou. - Letícia respondeu, sentando-se na cadeira ao lado do leito.

- Não ter piorado é uma boa notícia, não é? Ela vinha piorando.

- Eu estou te falando, ela vai sair dessa, dê mais crédito à garota.

- Qual sua especialidade médica?

- Anestesiologia.

- É uma grande responsabilidade, não?

- É, bastante. Mas também é gratificante, aprendo muito na interação com os pacientes.

- Você se formou há pouco tempo? Você disse que era médica residente.

- Me formei no final do ano passado, esse é meu primeiro ano de residência, e tem sido uma loucura, estou iniciando num segundo emprego.

- Você trabalha em dois hospitais?

- Agora sim, vamos ver até quando consigo equilibrar tudo.

- É uma bela profissão, admiro você por tê-la escolhido. - Sam ponderou.

Letícia virou a cadeira na direção da cama, correndo a mão pela testa de Theo.

- Era para você ter se formado comigo, mocinha. - Letícia dizia ternamente para Theo.

- Como assim? Theo? - Sam a fitou espantada.

- Sim, ela teria se formado ano passado também, se não fosse esse maldito sequestro.

- Se formado em que?

- Em medicina, o que mais poderia ser?

- Theo cursava medicina?

- Você não sabia?

- Não.

- Nunca percebeu isso? - Letícia levantou a manga da bata hospitalar azul clara que Theo trajava, mostrando uma tatuagem de cobras e asas no alto do braço.

- Então era isso... - Sam se dava conta.

- Você achou que era o que?

- Eu sabia que reconhecia esse brasão de algum lugar.

- Sim, é o símbolo da medicina.

Sam deu um sorriso torto, ainda assimilando.

- Então ela queria ser médica?

- Ela vai ser, e será a melhor pediatra de San Paolo.

- Pediatra?

- Ela ia se especializar em pediatria.

- Nossa... - Sam abriu o sorriso, mas continuava sem jeito, cabisbaixa.

- Também é uma boa área, sempre apoiei a escolha dela.

- É sim... Mas é um tanto irônico.

- Por que? Decidiram não ter filhos? - Letícia brincou.

- Eu quero, mas não posso ter filhos, eu fiz uma histerectomia na adolescência. - Sam murmurou.

- Ah, sinto muito. Bom, mas Theo quer filhos, então você deu sorte. - Letícia tentou animá-la.

Sam encarou Theo de forma triste.

- Acho que ela também não pode ter filhos.

- Por que?

Sam hesitou antes de continuar nesse assunto.

- Se ela se recuperar do coma, tem grandes chances de um dia gerar um filho. - Letícia continuou.

- Você ainda não sabe onde ela estava, não é?

- Ela estava com você, certo?

- Antes de mim.

- Num cativeiro na Zona Morta?

- Numa casa de prostituição na Zona Morta, o Circus.

Leticia congelou, fitando Sam em choque.

- Ela trabalhou por quase dois anos nesse lugar. - Sam continuou.

- Você não pode estar falando sério. - Leticia balbuciou.

- Infelizmente sim. Ela passou por situações violentas, ela deve ter se ferido várias vezes, por isso acho que ela também não tem mais condições de engravidar.

- Samantha, você está me dizendo que Theo estava esse tempo todo fazendo programas sexuais?

- Sim, mas contra a vontade dela, Elias a escravizou.

Letícia levantou-se abruptamente da cadeira.

- Preciso tomar um ar. - Saiu quase correndo pela porta do quarto.

Sam foi atrás, e a encontrou debruçada numa janela aberta. Pousou com insegurança sua mão em suas costas, lhe dando um leve afago.

- Ela é forte, ela vai superar isso com o tempo. - Sam tentou abrandar.

- Como? Como, Sam? Como deixaram fazer isso com ela? - Letícia a olhava com desespero.

- O mundo é cheio de pessoas cruéis, Theo cruzou o caminho de algumas das piores.

- Deve ter sido horrível... Meu Deus, nem quero imaginar o que ela deve ter passado.

- Ela não conversava muito sobre isso, mas o pouco que soube me deixou estarrecida.

- Ok, não me conte. Não hoje, essa bomba já foi demais por hoje. - Letícia voltou a debruçar-se sobre a janela.

- Ela precisa de nós, ela vai precisar muito do nosso apoio, nosso conforto.

Letícia apenas balançou a cabeça, concordando.

- O pior já passou, ela conseguiu sair de lá. - Sam disse.

Letícia virou-se bruscamente, abraçando Sam com força.

- Obrigada por salvá-la. - Letícia murmurou.

 

Aurora: s.f.: Amanhecer; as primeiras manifestações de qualquer coisa; princípio.

 

 

Notas finais:

Meninas, muito obrigada por todo o retorno! Não imaginei que teria tantos comentários e tanto carinho, obrigada de coração!

Está corrido aqui por conta do NaNoWriMo, mas prometo responder todos os comentários nos próximos dias.

Capitulo 4 - Peripécia por Cristiane Schwinden
Capítulo 4 - Peripécia

 

2 de janeiro de 2121

Manhã.

A luz do sol entrava pelas janelas destruídas daquele centro comercial abandonado, incomodando o sono de Sam, que acabou acordando alguns minutos antes do seu comunicador despertar.

Dormia de lado no colchão, virada para fora. Tentou se virar, mas sentiu algo atrás de si, Theo dormia encolhida e aninhada em suas costas.

- Você pode chegar para lá?

- Ãhn? - Theo acordou confusa.

- Chegue para lá, você está ocupando todo o colchão.

- Desculpe. - Theo correu para a borda oposta. - É que você é quente, e eu estava morrendo de frio.

- Você está usando dois casacos. - Sam sentou-se.

- Mas aqui é frio. Posso continuar usando este outro casaco?

- Pode, tire.

- Estou confusa.

- Tire e me entregue.

- Eu posso ou não posso?

- Garota, tire logo esse casaco e me entregue.

- Eu tenho nome. - Theo resmungou e tirou o casaco, lhe entregando.

Sam levou o casaco até o carro, tomou uma lâmina e cortou dois emblemas do tecido verde. Por fim entregou-o novamente à Theo.

- Pronto, agora pode usar.

- O que você fez?

- Removi as insígnias do exército europeu, para não chamar a atenção.

Theo corria seus dedos pelo tecido, pelo local onde haviam os emblemas.

- Temos o mesmo tipo sanguíneo. - Theo comentou ao passar os dedos por cima do bordado com a tipagem de Sam.

- Provavelmente as coincidências param por aí. Eu vou recolher as coisas para pegarmos a estrada para Seattle, torça para que esses caras consigam nossa documentação, senão estaremos presas na Zona Morta.

Theo levantou com preguiça do colchão, tomou suas roupas que havia deixado atrás do travesseiro.

- Sam, posso me trocar aqui?

- Pode sim. - Sam guardava o chuveiro portátil no fundo do carro e congelou por alguns instantes, observando Theo trocando de roupa de pé em cima do colchão.

Theo recolheu as roupas de cama e travesseiros, seguindo na direção errada do carro, Sam a chamou, corrigindo sua rota e tomando tudo de suas mãos, guardando.

- Ainda está com frio? - Sam perguntou.

- Um pouco.

- Me deixe abotoar seu casaco. - Sam a trouxe para perto, pela gola.

- Obrigada. E obrigada por me levar com você, por não ter me largado em Alberta, eu terei uma dívida eterna com você.

- Dívida eterna? - Sam sorriu.

- Você salvou minha vida, e agora quero salvar a sua.

- E você é um tanto pretensiosa, mocinha.

- Confie no meu potencial. - Foi a vez de Theo sorrir.

Sam havia acordado mau humorada, mas alguns minutos ao lado de sua nova companhia, e um sorriso tímido dela, amoleceram seu coração e abrandaram seu humor.

- Algo me diz que faremos uma boa parceria. - Sam refletiu.

- Acho que sim, eu fui com a sua cara.

- Que bom, porque pretendo levar você para bem longe.

- Para onde?

- O mais longe possível do lugar de onde você fugiu.

- Eu estou livre... - Theo se dava conta, com um sorriso bobo. - Eu consegui, eu estou longe daquele inferno...

- Se vierem atrás de você, não deixarei que te levem, ok?

- Oficial, se importa se eu abraçar você?

Sam sorriu, e a abraçou demoradamente, mas sem jeito.

***

Tarde.

O prédio executivo no centro de San Paolo era refinado, e com salas espaçosas e bem decoradas. Michelle havia voltado ao trabalho no segundo dia do ano, detestava deixar suas pendências para depois, por isso encurtou o recesso de fim de ano.

- Boa tarde, Fibi. Cheguei mais cedo que você hoje. - Michelle brincou, estava em sua grande escrivaninha branca no final da sala.

- Se eu não adorasse trabalhar com você estaria te odiando agora, por me chamar de volta ao trabalho em pleno réveillon.

- O réveillon foi anteontem, deixe de reclamações, temos muito trabalho pela frente e ainda nem tomei meu café. Trouxe as pendências da semana?

- Sim, tudo aqui. - A assessora pousou um fino tablet flexível na mesa, a sua frente.

- Vamos organizar nossa agenda, então?

- Não prefere o café primeiro? - Fibi bocejou após falar.

- O dever nos chama, o café pode esperar. - Michelle ajeitou seu bem alinhado tailleur negro, que contrastava com o cabelo loiro que caía pelos ombros.

- Desconheço pessoa mais viciada em trabalho do que você.

- Ok, começaremos com as viagens, temos quantas?

- Duas, quarta-feira para Winnipeg e sexta para Quebec. - Fibi respondeu após consultar o comunicador em sua mão. Era uma jovem de aproximadamente 25 anos, uma ágil assessora.

- Zona Morta essa semana? Perfeito. - Michelle abriu um grande sorriso.

- Quatro dias ao todo.

- Bom, você já sabe o que fazer, não é?

- Ligar para o Circus para reservar uma noite. Ás vezes acho que você deveria pedir o divórcio e casar com aquela menina.

- A coloridinha não casaria comigo, mas não é má ideia. - Michelle espojou-se na cadeira.

- Por que você não tira aquela menina de lá? Traga para morar em San Paolo, arranje um apartamento aqui no Centro para ela.

- Fibi, Fibi... Queria que as coisas fossem simples assim.

- Você pode fazer mais do que isso.

Fibi plantou a dúvida e esperança em Michelle. Após a conversa, ficou sozinha com seus pensamentos e um café, andando pensativa pela ampla sala. Aproximou-se de uma das janelas, pousou a testa no vidro, observando o movimento na rua abaixo.

- Será que ela aceitaria? - Murmurou sozinha antes de tomar um gole de café.

Quarenta minutos depois, a assessora voltou à sala de Michelle.

- Eu liguei para o Circus. - Fibi disse, de pé em frente da mesa.

- E?

- Disseram que ela está indisponível.

- Indisponível? Mas eles sabem que tenho prioridade nas reservas dela, você disse isso a eles?

- Eu disse, falei que você era vip, e que poderia ser na noite seguinte. Mas informaram que ela está indisponível por tempo indeterminado.

- Que palhaçada é essa? Nunca deixaram de fazer uma reserva minha. Explicaram o motivo?

- Não, não se prolongaram no assunto. Quer que eu volte a ligar?

- Não, eu ligarei. Obrigada, Fibi.

Esperou a funcionária sair, e ligou diretamente no ID de Elias.

- Elias, que história é essa de indisponível por tempo indeterminado? - Michelle foi logo vociferando.

- Minha cara Michelle! Como tem passado?

- O que aconteceu com Theo?

- Tivemos um probleminha com ela, está fora do catálogo.

- Eu não quero saber de seus problemas internos, quero a noite de quarta-feira.

- Ela não poderá atender você, mas temos outras tão boas ou até melhores que Theo, chegou uma garota semana passada, ela também tem algumas tatuagens, produto de primeira linha, garanto a você.

Michelle andava pela sala, com passos irritados.

- Você sabe que não aceito outra.

- Então não terei como atender você, Theo está morta, não posso fazer milagres.

Michelle estancou abruptamente seu passo, seu rosto ficou lívido com a notícia.

- Theo morreu?

- Acidentes, sabe como é.

- Que tipo de acidente?

- Você a conhecia, ela vivia tentando fugir. Numa tentativa de fuga acabou despencando do telhado e morreu. Mas acho que você deveria repensar a nova garota tatuada que eu tenho, te dou a primeira noite inteiramente de graça, faça um test drive.

- Seu... Seu... Você matou Theo. - Michelle balbuciou com a voz embargada.

- Eu não, os clientes causam isso. - Elias riu.

Ela desligou o comunicador e continuou estática no meio da sala, com as primeiras lágrimas surgindo.

- Michelle, você tem uma reunião em... O que aconteceu? - Fibi entrou na sala e interrompeu o que ia dizendo ao ver seu estado.

- Theo morreu.

- Meu Deus, como?

- Tentando fugir.

- Que droga... - Fibi balançou a cabeça com pesar.

- Ela não poderia ter morrido, eu havia decidido trazê-la para cá.

- Eu sinto muito, Michelle, eu realmente sinto...

Michelle enxugou o rosto, tentando se recompor.

- Cancele meus compromissos hoje, eu vou para casa.

Fibi aproximou-se e a abraçou de forma terna, Michelle voltou a chorar.

***

Noite.

- Ora, ora, que ilustre visita, meu irmão! - Elias abriu os braços ao ver Benjamin entrando em seu escritório, que tinha cheiro de perfume barato.

- Deixe de gracinhas, você tem muito o que explicar. - Bem respondeu de pé em frente à grande mesa ornamentada com dados.

- Sente-se, vou pegar um uísque para nós, faz tanto tempo que você não me visita aqui. - Elias foi até um pequeno bar ao lado, trazendo dois copos com a bebida e gelo, entregando um ao irmão.

- Espero que você tenha uma boa explicação para um cadáver estar se movimentando desde anteontem. - Ele vociferou, após sentar-se na cadeira em frente.

- Que cadáver?

- Elias, acho bom você parar de se fazer de desentendido. Eu tinha colocado um rastreador em Theo, eu mandei você dar um jeito nela e acreditei que estava feito. Mas desde a noite de réveillon que meu ponto rastreado tem se movimentado pela Zona Morta, depois de quase dois anos imóvel aqui nessa cidade.

- Você colocou um rastreador em Theo? - Elias o fitou com uma sobrancelha baixada, seu sorriso cínico havia desaparecido.

- No cordão que ela carregava no pescoço. E não venha me dizer que resolveu vender a corrente depois de dois anos.

- Eu realmente não faço ideia do que você está falando, eu fiz o que você pediu, dei um jeito nela.

Benjamin inclinou-se agressivamente para frente, colocando as mãos espalmadas sobre o tampo da mesa.

- Theo está viva?

- Isso faria diferença para você? - Elias zombou.

- É claro que sim! Você é um incompetente, por isso nosso pai nunca te reconheceu como filho!

- Abaixe esse tom, maninho. Quem fez a merda foi você, mandando matar a própria filha. Eu sou um comerciante, estou tentando me dar bem na vida, já que não tive os privilégios que você teve.

- Onde ela está?

- Não faço ideia.

- O que você fez com ela? - Bem se exaltava.

- Dei um jeito. Mas do meu jeito. - Elias sorriu maliciosamente.

- Ela estava aqui, no Circus?

- Sim, e me rendeu uma boa grana, sua menina era bastante requisitada.

Benjamin levantou-se num rompante e partiu para cima de Elias, o derrubando de sua cadeira. No chão, Ben o sacudia segurando pela gola de sua camisa.

- Você a colocou para trabalhar nessa espelunca imunda? Minha filha?

- Hey! Me solte!

Benjamin lhe deu um murro, cortando o lábio do seu irmão. Elias conseguiu jogá-lo para o lado, levantando-se rapidamente.

- Você deveria cuidar melhor da sua família! - Elias vociferou, enxugando o sangue na boca.

Benjamin levantou-se ofegante, era mais corpulento e pesado que seu irmão.

- A traga aqui.

- Eu não faço ideia de onde ela se meteu. E se você aproximar suas mãos de mim novamente, eu não respondo por mim.

- Para onde ela foi?

- Ela fugiu, matou um cliente, arrancou o braço do meu segurança, e sumiu na escuridão da noite. Um outro homem meu apareceu morto num beco no dia seguinte, ela deve ter encontrado ajuda no caminho.

- Eu quero que você a encontre, eu te dei uma merda de tarefa simples, e nem isso você conseguiu cumprir. - Bem bebeu todo o uísque do seu copo de uma vez só.

- Por que esse súbito interesse na filhinha?

- Eu errei, eu quero levá-la para casa.

- Vai matá-la com as próprias mãos? A deixe aqui comigo, ela é bem mais útil viva. Além do que ela me fazia companhia de vez em quando, eu fodia sua garotinha nesse sofá atrás de você.

- Seu desgraçado... - Benjamin pulou novamente para cima de Elias, desta vez um segurança entrou, o prendendo pelos braços.

- Da próxima vez não mande sua filha para um bordel. - Elias se recompunha, ajeitando os botões da camisa.

- Seu bastardo! Você vai pagar por isso! - Benjamin se contorcia ainda preso pelo segurança.

- Você está muito nervosinho, vou arranjar uma puta para você, nem vou cobrar, já que você me forneceu matéria prima de qualidade.

- Seu fracassado de merda!

- Rooney, tire ele daqui.

Uma hora depois, Benjamin estava já em seu jato supersônico particular, voltando para o Brasil.

- Alô? Walter?

- Como vai, chefe?

- Tenho um serviço para você. Fale com meu pessoal da segurança e peça que lhe repassem o rastreamento de um ponto de interesse meu. Aguarde este ponto parar de se movimentar por algum tempo, e vá até o local onde estiver.

- Quem é o ponto?

- Minha filha, Theo.

- Ela não morreu num acidente?

- Não, pelo visto está viva e andando pela Zona Morta. A encontre e leve para minha casa. Eu quero ela viva, não esqueça disso.

- Deixe comigo. Ela não sabe quem sou, inventarei algum nome e a levarei para casa de forma amigável.

Benjamin pousou no Rio, ao anoitecer. Do aeroporto seguiu para um apart hotel em Copacabana, abriu a porta com sua própria chave magnética, sendo recebido com um sorriso satisfeito de uma bela mulher de cabelos loiros.

- Como foi a conversa com seu irmão?

- Confirmei o que já suspeitávamos, Theo está viva, coloquei Walter para ir atrás dela.

- Walter é seu melhor homem, ele a trará de volta em breve.

- Eu sei. - Ben largou seu paletó numa cadeira, na sala.

- Não via a hora de ficar sozinha com você aqui. - Ela disse maliciosamente, aproximando-se devagar.

- A noite é toda nossa. - Ben a beijou, a abraçando demoradamente em seguida.

***

 

Peripécia: s.f.: momento de uma narrativa, peça teatral, filme etc. que altera o curso dos acontecimentos, geralmente de maneira inesperada, e modifica a situação e o modo de agir dos personagens.

Notas finais:

Um flashback para deixar a história mais leve ;)

Capitulo 5 - Resiliência por Cristiane Schwinden
Capítulo 5 - Resiliência

 

Sam pendurou o boné azul e branco de Theo na parede da UTI, num gancho não utilizado. O contemplou por alguns instantes, numa nostalgia silenciosa. No leito, nenhuma evolução, Theo continuava em estado crítico, com uma infecção avançando.

Naquela manhã o carro azul, um dos coadjuvantes mais importantes da longa jornada, havia sido levado até à mansão, e escondido na garagem. Sam foi até lá buscar o boné, lhe trazendo algumas recordações.

Era o quarto dia de visita de Sam, Lindsay havia partido para a Inglaterra naquela manhã, a deixando apenas na companhia de Mike. No meio da tarde, Sam teve a agradável companhia de uma das conselheiras do grupo Archer, Claire.

- Obrigada por cuidar do esquema de segurança, eu temia que algo de ruim pudesse acontecer à Theo, ela está vulnerável aqui. - Sam disse após cumprimentá-la.

- Pois não está mais, o controle de entrada nesse quarto é rígido. E a partir de hoje, você poderá controlar esse acesso, ok? - Claire era uma mulher elegante, seus cabelos loiros presos num coque impecável, aparentava pouco mais de trinta anos.

- Agradeço a você e ao conselho por toda agilidade e cuidado que vocês tiveram desde o início.

- Sam, quero que isso fique entre nós, ok? Mas a maior parte dos conselheiros não aceitam que Theo, ou você, assumam a presidência.

- Mas a Archer é de Theo por direito. - Sam dizia, sentada no sofá cinza, inclinada para frente. Claire estava na cadeira ao lado do leito.

- Está acontecendo uma batalha silenciosa nos corredores da Archer, são oito conselheiros, nove comigo, e sou a única contra a medida cautelar.

- Que medida cautelar?

- Querem declarar Theo incapaz de forma definitiva, e assumirem os 75% dela.

- Mas eles não podem fazer isso. - Sam dizia com indignação.

- Bom, legalmente estão procurando brechas na lei, porque a Archer está com queda contínua na bolsa de valores, querem afastar o fantasma da falta de presidência, que segundo eles, é o que vem causando a queda.

- E o que você acha?

- Eles estão corretos em parte, a falta de uma chefia por conta da morte de Benjamin, e o coma de Theo, fazem o mercado olhar com dúvida para a Archer, os investidores costumam recuar com empresas com esse tipo de problema. Mas essa não é a questão, o conselho pode continuar cuidando dos assuntos importantes e urgentes, o mercado irá acalmar com o tempo.

- Não posso deixar isso acontecer, Theo confiou a mim a Archer.

- Sam, escute. - Claire saiu da cadeira, sentando ao seu lado no sofá, ajeitando cuidadosamente sua saia. - Eu acho que você poderia se inteirar desses assuntos de forma mais efetiva, com sua presença.

- Na Archer?

- Sim, comece a visitar a empresa, conheça os processos e as pessoas, assim você terá como intervir em qualquer tentativa de golpe.

- Mas não posso deixar Theo sozinha aqui.

- Você não precisa deixar de vir aqui, mas tire algumas horinhas de vez em quando para andar pelos corredores da empresa, conversar com as pessoas, entender as regras de negócio.

Sam balançava a cabeça, pensando na possibilidade de passar a frequentar a Archer.

- Você estará lá, para me orientar?

- Claro, você pode contar comigo. Mas tenha cuidado, algumas pessoas poderão se aproximar com más intenções, principalmente os desafetos de Benjamin.

- Você sabe quem são?

- Sim, mas prefiro não citar nomes, apenas fique alerta.

- Ok, eu vou cuidar para que a Archer continue sendo de Theo, eu vou me esforçar para entender o funcionamento e tentar convencê-los a desistir dessa medida cautelar.

- Você sabia que Theo era conselheira honorária? - Claire disse, agora num tom descontraído.

- Não. Ela trabalhava lá?

- Bom, trabalhar de fato, não trabalhava, mas frequentava nossas salas. - Claire riu. - Vivia destruindo o minigolfe da sala do pai.

- Eu gostaria de ter conhecido a Theo de antes... - Sam murmurou.

- Não gosta da Theo de agora? Ela mudou?

- Eu gosto, bastante. Mas pelos relatos que ouço, acho que os últimos anos apagaram um pouco do seu brilho.

- Acho improvável que algo apague o brilho dessa menina.

***

- Lembra quando assistíamos filmes no sofá da minha casa? Minha mãe trazia um balde enorme de pipoca. - Mike comentou, estava deitado num dos sofás da sala multimídia da mansão de vidro. Sam estava despojada numa poltrona reclinada.

- Eu lembro. - Sam respondeu, com preguiça. Assistiam um filme na grande tela à frente.

- Sente saudades dessa época? A vida era tão leve, tudo era simples.

Sam permaneceu um tempo pensativa antes de responder.

- Era mais leve, mas isso não significa que era melhor.

- Sam, nós éramos felizes, você não pode negar isso.

- Eu achava que era, mas não sabia que poderia ser e ter mais do que aquela vida.

- Eu sinto falta daquela tranquilidade, e de fazer planos com você. Tínhamos tantos sonhos a realizar.

- Meus sonhos tiveram uma reviravolta incrível nos últimos tempos. - Sam sorriu de lado.

- Eu não me importo de mudar meus planos, posso morar aqui com você, além do mais, você teria toda a liberdade de escolher outra carreira.

- Eu continuarei morando aqui, mas esqueça qualquer possibilidade de reatarmos nosso noivado, ok?

Mike bufou contrariado, voltando a assistir a tela em silêncio.

***

No dia seguinte, a visita foi novamente de Letícia, que desta vez estava acompanhada.

- Sam, essa é Daniela, minha garotinha. - Letícia apresentava sua namorada, uma loira de porte alto, mas aparente timidez.

- Sua namorada? - Sam a cumprimentou.

- Uhum.

- Médica também?

- Não, analista de sistemas. - Daniela respondeu, e aproximou-se do leito, afagando o rosto de Theo.

- Você a conhecia? - Sam indagou, ao seu lado.

- Sim, Theo me apresentou Letícia, foi nosso cupido.

A conversa foi interrompida pelo neurocirurgião de Theo, acompanhado de outro médico.

- Sam, precisamos conversar, quer ir até minha sala ou pode ser aqui? - Doutor Franco parecia sério demais.

- Pode ser aqui. - Sam respondeu preocupada.

- Esse é o doutor Amaro, ele é ortopedista. - Sam o cumprimentou. - Fizemos uma reunião agora cedo, para definirmos nossos próximos passos, e a equipe foi unânime, precisamos agir de forma imediata, Theo está com quadro de infecção generalizada.

- Façam tudo que estiver ao alcance, e se tiver algo ou alguém em outro hospital, vocês sabem que estão autorizados a ir atrás, não importa o custo.

Os médicos se entreolharam, doutor Franco voltou a falar.

- Sam, sente-se, o assunto é delicado.

Letícia foi até Sam, e a sentou no sofá, lado a lado, parecia prever o teor da conversa.

- Você sabe o que está causando essa infecção, não sabe? - O médico perguntou.

- Não, não sei.

- A mão? - Letícia respondeu.

- Sim, a mão esquerda. Ela tem piorado, e nada está conseguindo combater essa infecção, até que aconteceu o que temíamos, se espalhou.

- Ela tem problemas de imunidade, pode ser isso, vocês precisam aumentar a imunidade dela.

- Samantha, precisamos amputar a mão, e com urgência.

Sam arregalou os olhos, perdeu a voz, e sentiu algo gelado percorrendo a espinha.

- Já tentaram os nanobots? Eles costumam ter alta taxa de sucesso no combate a infecções. - Letícia questionou.

- Já tentamos, ela parece ser imune aos nanobots que programamos e injetamos em sua corrente sanguínea.

- Não... - Sam balbuciou, estarrecida. - Ela não pode perder a mão.

- Infelizmente não temos escolha, é a única chance de sobrevivência dela, seu quadro só tem piorado, ela não suportará mais do que três dias nesse ritmo. - O ortopedista disse.

Sam apoiou os cotovelos nos joelhos, esfregando o rosto em desespero.

- Ela tinha tanto medo de perder a mão... Theo nunca mais vai tocar piano.

- Não temos escolha, Sam, é para o bem maior dela. - Letícia a consolava, estava com o braço por cima de seus ombros.

- Colocaremos uma prótese, será uma prótese funcional, tentaremos manter o pulso, atrelaremos uma prótese cibernética, com micro condutores. - O neuro explicava.

- Exato, e após algum treinamento e adaptação, ela terá inclusive o tato de volta, é uma prótese de tecnologia avançada. - O ortopedista completou.

Sam continuava cabisbaixa, com semblante transtornado.

- Ela vai dar a volta por cima, ela vai se adaptar a uma vida com uma prótese. Theo é resiliente. - Letícia falava num tom confortador com Sam.

- Quando? - Sam indagou.

- Hoje à tarde.

- Se for para salvá-la, então que seja feito. Mas coloquem a prótese mais moderna possível.

Os médicos deixaram o quarto, e Sam continuava abatida, sentada ao lado de Letícia.

- Sam, não é o fim do mundo, ela vai se adaptar. - Daniela disse, estava sentada na cadeira.

- Espero que sim, mas vai ser duro.

- Escute, conheço pessoas amputadas que levam uma vida totalmente normal hoje. No início claro que tem todo o choque da perda do membro, mas é possível superar isso, com o tempo as pessoas deixam de se importar, tudo volta ao normal.

Sam deu uma olhada hesitante em Letícia.

- Eu sei, eu sei que existe vida pós amputação. - Sam subiu a calça de sua perna esquerda, mostrando sua perna artificial.

- Você é amputada? - Letícia olhou com surpresa.

- Sou.

- Como perdeu a perna?

- Posso tocar? - Daniela pediu.

- Pode. - Sam respondeu como timidez. - É sensível ao tato.

Daniela abaixou-se à frente de Sam, correndo os dedos pela prótese metálica.

- E é quentinha. - Daniela sorriu.

- É, é sim. Perdi numa explosão de mina, ou granada, não sei. Durante uma missão do nosso grupamento.

- Grupamento? Você é uma soldado?

- Era, primeira tenente do exército europeu. Mas desertei no final do ano passado.

- Dani, você consegue imaginar Theo namorando uma militar de 23 aninhos? - Letícia sorriu ao perguntar, tentava quebrar o clima tenso por conta da amputação.

- De jeito nenhum. - Daniela também riu, voltando a sentar na cadeira.

- Eu queria ter visto essa relação surgindo.

- Eu era noiva de um major, eu nunca havia ficado com mulheres, foi complicado, Theo teve muita paciência comigo. - Sam respondeu, um tanto sem jeito.

- Noiva de major? Amiga, você subiu no meu conceito. - Daniela deu dois tapinhas no braço de Theo.

- Theo não faz o estilo galanteadora, ela geralmente espera o primeiro passo da outra pessoa. Como ela te fisgou?

- Eu dei o primeiro passo. - Sam sorriu timidamente. - Eu não tive saída, é impossível não se apaixonar por uma pessoa que te acorda tocando piano no primeiro dia.

- Será que ela poderá tocar piano com a mão artificial? - Daniela perguntou, trazendo novamente um semblante triste de Sam.

- Após um bom tempo de adaptação e treinamento, é possível sim, só vai depender dela. - Letícia respondeu.

- Se for preciso que eu aprenda a tocar, para ajudá-la, eu aprendo. - Sam disse.

Naquela tarde Theo seguiu para uma nova cirurgia, voltando ao quarto no início da noite, já com uma mão protética. Era branca com detalhes em preto, o pulso havia sido conservado intacto, parte da prótese acoplava-se por cima do braço.

Pela segunda vez, Sam teria que se acostumar com uma amputação, o convívio diário com um membro artificial.

No decorrer daquela semana Theo teve grande melhorar no quadro clínico, as infecções sumiram, mas continuava com atividade cerebral quase nula. Sam fez algumas visitas ao grupo Archer, ficando a maior parte do tempo na sala de Claire, se inteirando dos processos e negócios, mas logo desinteressou-se, e deixou de ir até lá.

No início da tarde de sábado, Sam cochilava no sofá cinza da UTI, quando foi acordada por Letícia, que trazia balões coloridos.

- Achei que este quarto estaria em festa hoje. - Letícia brincou, prendendo os balões ao lado do leito.

- Festa?

- Hoje é aniversário de Theo, esqueceu?

- Eu só sabia que era em fevereiro, não sabia o dia.

- 28 de fevereiro, anote na sua agenda.

- Então precisamos de um bolo.

- Daniela vai trazer mais tarde.

- Com 24 velas, eu espero. Que horas ela vem? Eu sairei para jantar com Mike hoje.

- Mike, seu ex-noivo?

- Sim, preciso espairecer um pouco.

Letícia deu um beijo demorado na testa de Theo, e lhe encarou com um sorriso aberto.

- Parabéns, linda. E acorde logo, temos muito papo para colocar em dia. - Ela sussurrou, sentando ao seu lado.

- Está de folga hoje? - Sam a indagou.

- Entro no plantão as oito da noite.

- Se Theo estivesse acordada, como ela comemoraria o aniversário?

- Com uma festa na piscina que duraria mais de doze horas.

- Hoje a mansão de vidro estaria em... Espera. - Sam franziu o cenho, confusa.

- O que foi?

- Hoje não é aniversário dela.

- Claro que é.

- Não é.

- Sam, sempre foi.

- Não é hoje, e eu acho que é em abril.

- Abril?

- A senha... - Sam se dava conta. - A senha era 980417. O aniversário de Theo é nesta data, 17 de abril.

- E ela nasceu em 2098, e não em 2097?

- Isso. Theo não está fazendo 24 anos hoje, ela na verdade tem apenas 22. Quem diria, eu sou mais velha que você - Sam olhou para o leito, sorrindo.

- Sam, que drogas você anda usando? Encontrou o esconderijo de ácido no quarto de Theo?

- Ela tomava ácido?

- Às vezes. Ok, mas volte ao assunto, de onde você tirou que hoje não é aniversário dela?

- Eu não posso te contar.

- Eu sou a melhor amiga dela, Theo me contava absolutamente tudo, e quando eu digo tudo, é tudo mesmo, inclusive detalhes disso que você está pensando.

Sam hesitou, não sabia como Theo lidaria com este assunto, nem se a autorizaria a falar sobre isso com terceiros, mas resolveu arriscar.

- Esse assunto não pode sair deste quarto, é algo bastante sério. - Sam começou falando, receosa.

- Você está realmente me assustando.

- Theo achava que era de fevereiro de 97, mas um pouco antes desse acidente com ela...

- Você também não me contou ainda porque raios ela deu um tiro na cabeça. - Letícia a interrompeu.

- Uma coisa de cada vez.

- Ok, prossiga.

- Theo é um clone, nós acabamos de descobrir isso.

- Que tipo de brincadeira é essa?

- A verdadeira Theo morreu com cinco meses de idade, o pai dela fez alguns clones da filha, e apenas Theo vingou.

- Qual Theo?

- Essa que está ao seu lado.

Letícia olhava assustada na direção do leito.

- Meu amor, você é um clone??

- E a senha de um dos laboratórios da Archer é 980417. Provavelmente é a data de nascimento dela, bate direitinho.

- Isso é surreal demais, Samantha. - Letícia fitava Sam em choque.

- Eu sei, ela mal teve tempo de assimilar tudo isso.

- Como descobriram?

- Isso é melhor eu manter segredo, para sua própria segurança.

- No que vocês se meteram?

- Você não faz ideia da quantidade de encrencas que a gente se meteu nos últimos dois meses. Mas é uma fonte confiável, a informação é legítima.

Letícia levantou, andando pelo quarto tentando assimilar aquilo.

- Um clone...

- Daqui a pouco você esquece desse detalhe, eu já havia esquecido.

Letícia continuou andando pelo quarto, perplexa.

- É dela? - Letícia apontou para o boné no alto da cama.

- É sim.

- Theo adora bonés, ela tinha uma coleção enorme. - Letícia o tomou em mãos, o observando com um leve sorriso.

- Ainda tem, o pai não jogou fora.

- Os azuis são os preferidos, pelo visto isso não mudou.

Sam riu antes de responder.

- Mas ela não sabe que é azul e branco, ela pensa que é rosa e verde, eu esqueci de contar a verdade.

- Como assim? Ela não sabe a cor do próprio boné?

O sorriso de Sam foi se desfazendo.

- Você não sabe, não é? - Sam se dava conta.

- Do que?

- Eu achei que os médicos tinham te contado. Theo perdeu a visão.

- Você está me dizendo que Theo está cega?

- Sim.

- Completamente cega?

- Está. Tiraram a visão dela no Circus.

- Meu Deus... - Letícia devolveu o boné à parede, e correu sua mão pela testa de Theo.

- Eu já a conheci assim. - Sam murmurou.

- Então ela nunca te viu?

- Ela me via com as mãos. - Sam quase sorriu.

- Mas é reversível, certo?

- Não sei, ainda não verificaram isso, a princípio não é reversível, Doutor Franco diz que seria arriscado demais mexer nesta área, com tudo que aconteceu com seu cérebro.

- Tem que ser reversível.

- Uma coisa de cada vez, Letícia. Minhas orações agora são para que ela acorde do coma, depois consertamos o resto.

Letícia sentou-se atordoada ao lado de Sam, no sofá.

- Emoções demais para um dia?

- Demais para um ano! Acho que vou pedir para Dani cancelar o bolo.

- Não, não cancele, podemos comemorar nas duas datas.

- Meu Deus! - Letícia bradou assustada, como se estivesse se dando conta de algo terrível.

- O que foi?

- Theo é de áries!

***

Uma semana se passou, Theo estava em sua terceira semana de coma. Naquele dia Lindsay chegaria de viagem, passaria cinco dias com Sam, que foi buscá-la no aeroporto.

- Pai?? - Sam exclamou, ao ver Lindsay e Elliot vindo em sua direção.

- Trouxe uma visitinha para você. - Lindsay disse animada.

Sam o abraçou com força, abrandando um pouco da imensa saudade que sentia.

- Você parece ótima, filha.

- Meu Deus, que saudades que eu estava. Por que não avisou que viria?

- Lynn insistiu em fazer uma surpresa para você. - Elliot respondeu, com sua voz grave e forte, usava uma boina cinza.

Sam, Lindsay, Mike, e Elliot fizeram um festivo banquete à noite, na mansão. Após a janta, Sam e seu pai ficaram sozinhos na sala de estar, conversando.

- É bom estar reunida com minha família novamente. - Sam disse, aos sorrisos.

- Lynn me disse que você não pretende voltar para casa. - Elliot a indagou.

- Aqui é minha casa agora.

- Achei que você já havia parado com essa bobagem, que tivesse voltado ao normal.

- As coisas mudaram muito, pai. Minhas prioridades mudaram, eu ficarei aqui, com Theo.

- Uma mulher que está praticamente morta?

- Ela vai melhorar.

- Por que você continua se enganando? Você ainda não cansou de brincar de menininha moderna? Seu lugar é na Inglaterra, ao lado de sua família, casada com Mike, e frequentando a igreja, que você abandonou. - Elliot preparava um charuto, sentado no confortável sofá branco.

- Não abandonei a igreja, nem minha fé, e eu terminei tudo com Mike.

- Eu vi os olhares que vocês trocaram hoje, eu sei que vocês irão voltar, vocês precisam ficar juntos, é assim que deve ser, Deus fez homem e mulher para se unirem em Seu nome.

- Ele é apenas meu amigo agora, ele me ajudou quando estava me recuperando do transplante.

- Samantha, eu entendo que você tenha passado por uma fase difícil, buscando um novo coração. Eu já perdoei você por ter largado o exército, Mike me explicou que trocaram seu coração por um artificial. Mas eu não posso aceitar que você caia nessa vida mundana, essa pouca vergonha que andou vivendo, abandonando os bons valores que ensinei.

- Pai, eu sigo seus valores, eu estou tentando fazer as coisas da maneira mais correta possível, mas é aqui que devo ficar.

- E se o óbito dessa mulher for oficialmente declarado? Vai fazer o que aqui?

- Vou tocar minha vida, vou trabalhar.

- Se você quer ficar aqui, então fique, mas pelo menos se case com Mike, ele é um homem honrado, assim como o pai, Coronel Philips, que é um dos nomes mais respeitados no exército europeu.

- Não me casarei com Mike, eu não o amo mais. Mesmo que algo aconteça com Theo, não será com Mike que eu ficarei.

- Isso é besteira, essa mulher encheu sua cabeça de ilusões, dinheiro não é tudo na vida, Samantha.

- Não tem nada a ver com dinheiro, eu escolhi ficar com Theo antes de saber quem ela era de fato.

- Ela nunca mais vai acordar, no fundo você sabe disso. - Elliot deu um baforada, um tanto irritado.

- Eu rezo todos os dias para que ela acorde.

- Escute, o pior já passou, você tem um coração novo, tem saúde, e um homem disposto a formar uma família com você. Esse sempre foi seu sonho, e agora você tem a chance de colocar em prática, dê uma chance para Mike, deixe ele se aproximar, e as coisas vão acontecer naturalmente. Você vai perceber que ainda gosta dele, vai lembrar dos oito anos que ficaram juntos, e no fim vai se dar conta que é ao lado de um homem que você deve reconstruir sua vida.

- Pai... Eu não quero me aproximar de Mike. - Sam dizia incomodada.

- Ele me contou que vocês têm saído para jantar, que tem feito coisas juntos, e que estão se dando bem novamente. Você não acha que isso não significa algo? Seu sentimento por ele está voltando, tudo apenas ficou adormecido aí dentro durante o tempo em que você estava na estrada.

- Sim, temos nos entendido, saímos algumas vezes, mas é só amizade, ainda não tenho amigos aqui na Nova Capital.

- Dê uma chance ao amor de vocês, aquela mulher nem ficará sabendo, ela está em coma profundo, vegetando. Lynn me disse que os médicos acham que ela vai continuar assim para sempre.

- Existe chances de ela acordar. E mesmo que ela não acorde, eu não quero mais ter nada com Mike, eu apenas tenho carinho por ele, é uma companhia e um amparo que tenho aqui.

- Não me decepcione mais uma vez, filha.

- Eu sinto muito, pai... Eu só quero fazer o certo.

- Eu entendo seu gesto, acho nobre da sua parte querer tomar conta da mulher que tentou te salvar, mas sua gratidão é tudo que você deve, nada mais que isso.

Sam estava desconfortável com a conversa, seu pai era a figura que aprendera a ouvir e respeitar, sentia-se mal em contrariá-lo ou decepcioná-lo.

- Pai, você vai amanhã no hospital comigo visitar Theo?

- Claro que não, eu vim para esse continente apenas para tentar colocar juízo na sua cabeça.

***

Elliot passaria cinco dias na mansão de vidro, não foi em momento algum visitar Theo, nem ao menos perguntou sobre seu estado de saúde. No seu penúltimo dia de estadia, os quatro faziam um último passeio pelo litoral de San Paolo, no meio da tarde.

- Theo tem uma casa na cidade vizinha, em Ilhabela. - Mike disse, estavam todos num quiosque à beira-mar.

- Da próxima vez que vocês vierem, podemos nos organizar melhor e passar alguns dias na casa de praia, quem sabe Theo já poderá nos acompanhar. - Sam completou.

- Deve ser uma mansão também. - Lindsay comentou.

O comunicador de Sam tocou, era Leticia.

- Tudo bem por aí? - Sam a indagou.

- Mais ou menos, bom, você pediu para te manter informada, por isso estou ligando.

- O que aconteceu? - Sam curvou-se para frente, preocupada.

- Theo está com pneumonia, isso piorou tudo, tiveram que aumentar os parâmetros do ventilador mecânico, mas não tem adiantado muito, a taxa de oxigênio no sangue está baixa.

- Meu Deus... Mas ela vai ficar bem, não vai?

- Está medicada agora, temos que esperar. Escute, sei que você tem passado dias agradáveis com sua família, eu não quero interromper nada.

- Estou indo.

- Tem certeza?

- Sim, obrigada por me ligar. Onde você está?

- Ao lado dela.

- Ok, acho que consigo chegar aí em duas horas.

- Tudo bem, estarei por aqui.

Sam encerrou a ligação, Mike prontamente a indagou.

- Você vai voltar para a capital agora?

- Eu preciso ir, Theo não está bem, teve uma convulsão, e está com pneumonia.

- E ela acordou por acaso? - Elliot perguntou.

- Não, continua em coma, mas eu quero ficar ao lado dela.

- Mas estamos no meio da tarde, o dia está lindo. - Mike reclamou.

- É melhor irmos, Sam está preocupada. - Lindsay sugeriu.

Sam olhou para sua família na mesa, e decidiu.

- Estou indo, Theo precisa de mim. - Fez o pagamento com pressa, saindo em seguida da mesa.

À tardinha todos já estavam de volta, e Sam estava ao lado do leito na UTI, em companhia de Letícia, Mike, Elliot e Lindsay.

- Que susto você me deu, mocinha. - Sam tomou a mão direita de Theo, a pousando em seu rosto.

- Ela precisa lutar contra essa pneumonia. - Letícia disse num tom baixo, ao seu lado, com a mão no ombro de Sam. - Senão pode complicar bastante.

- É só mais um percalço na recuperação, ela vai superar, eu sei que vai. - Sam beijou a palma da mão de Theo, demoradamente.

- Claro que vai. - Leticia sorriu, em apoio.

- Amor, é hora de reagir, não deixe uma pneumonia te derrubar, ok? - Sam dizia para Theo.

- Por que você fala com ela? Theo não pode te ouvir, ela está em coma. - Mike disse.

Sam mudou de semblante, soltou delicadamente a mão de Theo de volta ao leito. Levantou da cadeira e fitou com Mike com cara de poucos amigos.

- Eu converso com ela todos os dias, eu converso por horas a fio, e além disso eu coloco música para ela ouvir todas as manhãs. - Sam ia vociferando. - Enquanto ela estiver viva, eu irei falar com ela, por que eu sei que isso faz diferença, e tenho certeza que ela sabe que estou ao seu lado. Portanto pense duas vezes antes de abrir a boca para falar asneiras.

Todos olharam assustados para Sam, que parecia ter perdido a paciência.

- Isso não é jeito de falar com seu noivo. - Elliot a censurou.

- Pai, Mike é meu ex-noivo, e mesmo se ele fosse meu marido, ou o diabo que o parta, ele não teria direito de falar nada a respeito de Theo.

- Pelo visto essa mulher te corrompeu mesmo, perdeu totalmente o respeito por nós.

- Não, pelo contrário, foi convivendo com Theo que eu aprendi o que é de fato respeitar quem a gente gosta, e vocês não estão me respeitando, nem respeitando a mulher que eu amo. - Sam percebeu a força em suas palavras, e gostou de como se sentiu.

- Eu não tenho mais nada para fazer nesse lugar decadente. - Elliot vestiu sua jaqueta e saiu do quarto. Mike e Lindsay a olharam sem reação.

- Levem ele para casa, por gentileza. Eu vou passar a noite aqui. - Sam determinou.

 

 

Resiliência: s.f.: Capacidade que um indivíduo ou uma população apresenta, após momento de adversidade, conseguindo se adaptar ou evoluir positivamente frente à situação.

Capitulo 6 - Anagapesis por Cristiane Schwinden
CAPÍTULO 6 - ANAGAPESIS

 

- Está acordada? - Mike perguntou, colocando a cabeça para dentro do quarto de Sam.

- Sim, ando com insônia.

- Assistindo algo bom?

- Um filme sangrento.

- Quer companhia? Adoro filmes sangrentos.

Sam hesitou antes de responder.

- Ok, venha.

Mike deitou na cama, ao lado de Sam, recostado na cabeceira.

- Você nunca teve dificuldades para dormir. - Mike comentou.

- Eu sei, mas tem sido assim todas as noites, desde o acidente de Theo, vou procurar algo para ajudar a dormir, algum remédio, sei lá.

O imenso quarto de Theo agora já tinha alguns móveis de volta, uma tela móvel em frente a cama, uma cômoda branca abaixo, e a cama de última geração, larga.

- Por que você chama de acidente? Ela atirou na cabeça porque quis.

- Eu prefiro chamar assim, ela não queria de fato se matar.

- Mas não foi um acidente. - Mike insistia.

- Eu fui um acidente na vida dela.

- Você a tirou daquele bordel, ela deve muito a você.

- Minha dívida é maior.

- É por isso que você não quer abandoná-la? Por gratidão?

- Eu sou grata sim, mas o que me leva àquele hospital todos os dias é muito mais que gratidão.

- Ok, eu só estou tentando entender o que se passa aí dentro. Theo tem suas qualidades e prometo não a julgar mais, em respeito a você.

- Fico feliz em ver você a chamando pelo nome. - Sam sorriu.

Mike desceu um pouco, deitando.

- Admito que fui intolerante com ela, quero ficar em paz com você, ela acordando ou não, estarei sempre com você, Sam. - Mike tomou sua mão, com delicadeza.

- Também quero ficar em paz com todos. - Sam fez menção de tirar a mão, mas desistiu.

Ambos adormeceram, lado a lado, e acordaram assim. O clima de paz estava instaurado, não apenas de paz.

Na manhã seguinte, assim que Sam chegou ao hospital, foi chamada no consultório de Dr. Franco.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sente-se, vamos conversar.

Havia um outro médico já sentado à frente da mesa.

- Samantha, minha equipe tem alguns padrões de procedimentos, e alguns deles são pertinentes ao quadro atual de Theo.

- O que isso quer dizer?

- Amanhã Theo completa um mês de coma, e como você sabe, não houve evolução alguma, as atividades cerebrais continuam praticamente nulas.

- Espera aí... - Sam parecia assombrada. - Vocês não estão pensando em desligar os aparelhos, estão? Eu não dou permissão, ela ainda está viva, ela está lutando.

- Não, não pretendemos desligar os aparelhos, os procedimentos que me refiro dizem respeito ao bem-estar dela. - O segundo médico respondeu.

- Sam, após um mês nesse estado de coma, começamos a ter preocupações de longo prazo, iremos fazer algumas mudanças em procedimentos e tratamentos, para garantir um estado vegetativo confortável para ela, nosso foco agora é em deixá-la confortável para um provável coma prolongado. - Doutor Franco ajeitou os óculos redondos.

- Vocês perderam as esperanças? É isso?

- Não trabalhamos com esperança, trabalhamos em cima de fatos e dados, e no momento os dados que temos nos levam a crer que ela tende a continuar neste estado.

- Deixamos as esperanças para os familiares e entes queridos. - O segundo médico completou.

- E no que isso implica?

- A principal mudança é relacionada ao respirador, e sempre gostamos de ouvir a opinião dos responsáveis pelo paciente. Queremos tirar o respirador via oral e colocar via traqueostomia.

- Isso a deixaria mais confortável?

- A longo prazo é a melhor opção, apesar dos possíveis danos.

- Que danos?

- Nos casos de coma com dano cerebral existe a possibilidade de atingir as cordas vocais, e ela perderia a voz.

- Que droga... - Sam corria as mãos pela cabeça.

- Mudaremos a fisioterapia também, e a medicação.

- Não podemos esperar um pouco? Com a traqueostomia.

- Bom, podemos. Como falei, são medidas visando conforto a longo prazo.

- Ela já não enxerga, se perder a voz também, será um pesadelo. - Sam falava com angústia.

- Tomaremos as outras medidas por enquanto.

***

Sam entrou no quarto e Letícia estava no sofá, fitando Theo de forma pesarosa.

- Querem fazer uma traqueostomia. - Sam disse com desânimo, sentando ao seu lado.

- É, eu soube.

- Acho que eles perderam as esperanças.

- Não importa, nós não perdemos.

Sam não respondeu.

- Não perdemos, certo? - Letícia a inquiriu.

- Não, não perdemos.

- Essa dorminhoca... Já dormiu demais, está na hora de acordar.

- Talvez ela tenha resolvido dormir para não sentir medo. - Sam devaneava.

- Medo?

- Uma vez ela me disse que só não sentia medo quando dormia. E que não enxergar é como ter a sensação de ter um monstro embaixo da cama o tempo todo.

- Você irá matar todos os monstros quando ela acordar, não vai?

- Não sei se conseguirei matar os que vivem dentro dela.

- Eu sei que você vai conseguir, mate os seus primeiro.

***

Mais uma semana se passou, sem maiores novidades. Sam se dividia entre o hospital e a mansão, e passou a ver TV com Mike em sua cama todas as noites.

- Theo vai fazer a traqueostomia? - Mike perguntou, estava na cama com Sam.

- Semana que vem, eu autorizei.

- Dizem que isso evita infecções.

- Sim, vai ser melhor para ela.

- Talvez ela consiga recuperar a voz depois, com ajuda de nanobots.

- Tomara. - Sam estava feliz com a aceitação de Mike com relação à Theo, ele estava cada vez mais amigável e parecia agora se importar com a saúde dela.

- Ela é jovem, vai ficar bem.

Sam virou-se na direção de Mike, o fitando.

- Que bom que sua birra com ela passou.

- Eu agora enxergo seus motivos, Theo agiu de boa-fé com você, é uma boa garota.

- Talvez ela nunca acorde.

- É cedo para pensar em nunca.

- Sabe, às vezes eu penso no que estou fazendo com minha vida, eu não tenho mais vida própria, não sei se Theo estaria satisfeita com tudo isso, ela queria que eu corresse atrás dos meus sonhos, mas me sinto num limbo.

- Então talvez seja hora de tocar sua vida. - Mike virou-se também para Sam.

E a beijou.

Sam foi pega de surpresa, não entendia o que estava sentindo, mas não era ruim. Era confortável. Sentia falta de ter alguém ao seu lado, afetiva e fisicamente, sentia-se carente nos últimos dias. Permitiu seguir em frente, e em alguns minutos Mike já estava sobre ela, tirando suas roupas.

Sua consciência gritava em culpa, mas naquele momento ela queria continuar, em instantes já estavam unidos praticando o que tanto fizeram nos últimos anos, fazendo sexo com tamanha volúpia, e Mike parecia mais atencioso do que nunca. Mas enquanto era invadida por Mike, Sam sabia lá no fundo que tinha algo errado ali, aquela mesma sensação de deslocamento que sempre tivera na cama com ele, definitivamente não era aquilo que lhe dava prazer.

Ao fim, Mike respirou cansado deitando ao lado de Sam, que ainda tentava assimilar o que havia feito, cobrindo-se com o lençol branco.

O lençol branco da cama de Theo.

Essa informação foi o suficiente para trazer Sam para a realidade. Instantes depois, Mike virou-se na direção de Sam, lhe afagando o rosto.

- Eu estava morrendo de saudades de você. - Mike disse com uma voz satisfeita.

- Não deveríamos ter feito isso. - Sam disse, sentindo-se mal.

- Por que não? Não tem nada nos impedindo, você sabe que precisa tocar sua vida.

Mike tentou beijá-la, mas Sam desviou o rosto, e se cobriu ainda mais.

- Desculpe se dei falsas esperanças, mas isso foi um erro, e não vai mais acontecer.

- Não quero discutir agora, tivemos um bom momento, e sei que você sabe disso. Meu amor, permita-se. - Mike afagou seus cabelos.

- Mike, vá para seu quarto. - Sam tirou sua mão.

- Não posso dormir aqui? Eu tenho dormido aqui há dias, eu sei que você gosta da companhia.

- Você não vai mais dormir aqui. - Sam dizia, transtornada.

Mike levantou-se e se vestiu, lançou um olhar carente na direção de Sam antes de falar.

- O que fizemos foi o certo, sua vida está voltando ao normal, aceite e tente ser feliz.

- Me deixe sozinha, por favor.

Sam não dormiu naquela noite, foi uma longa madrugada dividida entre a sacada e sua cama, tudo havia ficado ainda mais estranho em sua vida. Os primeiros raios de sol bateram em seu rosto, enquanto contemplava a piscina abaixo de si, que fazia um L. Pela primeira vez percebeu que a lateral da sacada era na verdade um portão, e que havia uma plataforma estreita ao lado.

Se deu conta da função daquilo, e sem pestanejar, abriu o pequeno portão, foi até a extremidade da plataforma, encarou o azul da piscina à sua frente, e mergulhou, ainda vestida.

Apesar de estar ali há mais de um mês, ainda não conhecia a piscina. Demorou-se por lá tempo o suficiente para lavar o corpo e a alma, por quase uma hora.

Saiu da piscina e caminhou até a entrada da casa, seguiu molhando todo o piso até seu quarto, foi abordada no caminho por Marcy.

- Criança, o que aconteceu?

- A piscina pareceu irresistível hoje. - Sam disse com um quase sorriso.

- Não me diga que se atirou da sacada daquela maluquinha?

- Só hoje percebi a função daquele portão na sacada.

- Vocês ainda vão quebrar um pescoço pulando de lá.

- Prometo mergulhar com cuidado, ok?

- Vem tomar café agora?

- Não, estou sem fome, obrigada.

Após um banho demorado, vestiu-se e saiu dirigindo em alta velocidade, chegando por volta das oito ao hospital.

Assim que adentrou o quarto viu Angelo, o fisioterapeuta, exercitando as pernas de Theo. Parou um pouco depois da porta, surpresa.

- A vestiram? - Sam questionou.

Theo estava com uma blusa branca de malha, com três botões, e mangas compridas.

- Eu ia te fazer a mesma pergunta, já que Theo não me respondeu quando perguntei onde ela havia conseguido roupas novas. - Angelo respondeu.

- Eu trouxe estas roupas há algumas semanas, resolveram usar hoje, pelo visto. - Sam caminhou até a cama, observando os movimentos finais da fisioterapia.

Sam havia esquecido o mal-estar e a sensação de culpa, gostou de ter visto Theo usando suas próprias roupas.

- Theo, vou te deixar deitada de lado hoje, ok? Amanhã eu volto para te virar novamente. - Angelo falou, cuidadosamente colocando Theo virada de lado, com os joelhos recolhidos.

Sam sentou-se no sofá cinza, abrindo os braços sobre o encosto.

- Angelo, há quanto tempo você trabalha com pessoas em coma?

- Bastante tempo, mas restritamente com pessoas em coma, uns seis anos, por que?

- Você já viu alguém acordando? - Sam mantinha os braços abertos espojados na parte de cima do sofá.

- Sim, vários.

- E tem os que nunca acordam, não é?

- Infelizmente, sim. Meio que sabemos quem vai acordar e quem não vai.

- Sério? Como? - Sam interessou-se mais, se inclinando para frente.

- Ah, uma série de fatores, convivendo com os pacientes, conversando com seus médicos, você acaba percebendo quem tem chance e quem não tem. - Angelo respondeu, cobrindo Theo até a cintura com um cobertor leve, azul.

- E Theo? O que você acha? Por favor, seja sincero.

Angelo hesitou, observou Theo com a cabeça de lado, suspirou antes de falar, ainda olhando para o leito.

- Não sei, ela é jovem, as chances são bem maiores nesses casos, mas os médicos já me disseram que a lesão dela é extensa.

- Não sabe ou não quer me falar?

- Realmente não tenho ainda um parecer sobre essa garota. - Falou de forma afetada.

Sam levantou-se, colocou os cabelos para trás da orelha, emparelhou-se com Angelo, ao lado da cama.

- Ela vai acordar. Só não sei ainda em quais condições. - Sam decretou.

- Reclamando com você, por não ter trazido roupas mais moderninhas.

Sam riu.

- Acho que ela não liga muito para essas coisas, mas eu adoraria vê-la reclamando de algo.

Angelo deu uma risada fungada, e tirou as luvas de látex.

- Ok Theo, por hoje a tortura terminou, nos vemos amanhã. Até mais, Sam. - Falou com a mão no ombro de Sam.

- Até amanhã.

Sam trouxe a cadeira de rodinhas até o lado da cama, sentando-se e observando Theo por algum tempo, que estava virada para seu lado. Deslizou sua mão pelo braço dela, por cima da blusa.

- Parece que você está dormindo, numa manhã qualquer onde eu preparava o café antes de te acordar. - Falou baixinho, nostálgica.

- Ok, tirando todos esses tubos e fios, até que parece. Quantas vezes eu te olhei dormindo, antes de te chamar, e você estava assim, dormindo de lado, com uma paz invejável, a paz que eu desejava para nós de forma permanente.

Sentia agora a garganta se fechando, uma onda de mal-estar que a derrubava, estava genuinamente triste.

- E você acordava, eu te chamava e você acordava. - Mexeu em seu cabelo, os olhos já começavam a brilhar.

- Mesmo que você tivesse dormido apenas três ou quatro horas, você acordava e me dava bom dia com um sorriso, o melhor bom dia que eu poderia receber. E você nem me via, você acordava de bom humor, sem sequer enxergar.

O choro finalmente a dominou, como se algo extremamente dolorido a acometesse.

- Por favor, acorde. Acorde Theo, eu preciso de você. - Um soluço a interrompera.

Pegou suavemente sua mão inerte, porém quente, baixou a cabeça até recostar em seu braço, e colocou a mão dela aberta em seu rosto, a beijando, e por fim a repousando em sua bochecha.

- Não está certo isso, você também precisa continuar sua vida, você tem tanta coisa pela frente... Eu vou te levar para conhecer tantas coisas, nós vamos conhecer lugares, pessoas... Eu quero ver TV contigo, eu quero ver TV com seus comentários, quero assistir filmes ao seu lado, quero ver o mundo ao seu lado.

Era doloroso falar com Theo e receber um silêncio cheio de bips como resposta, Sam sentia seu peito doendo, uma confusão que chegava ao limite. Algo aconteceria com ela, decisões estavam sendo tomadas.

- Eu errei essa noite, novamente errei com você. Quando você acordar e conseguir conversar, contarei a verdade, eu assumo as consequências do que fiz.  - Sam enxugou o rosto, falava sério agora. - Mas a partir de hoje eu prometo que farei você se orgulhar de mim, eu não quero que você acorde e se decepcione.

Sam passou toda a manhã no hospital, cochilou próximo ao meio-dia. No início da tarde foi para casa e vestiu-se de forma social, em seguida foi para a Archer.

- Que bom tê-la de volta aqui! - Claire a cumprimentou com um amplo sorriso em sua sala.

- Claire, você vai me ensinar tudo referente à essa empresa, eu quero ter conhecimento suficiente para participar das reuniões do conselho, eu vou assumir o espaço que Theo me deu aqui dentro. Posso contar com você?

- Seja bem-vinda ao conselho. - Claire lhe estendeu a mão.

- Quero também que você dê nome aos bois, quem é confiável e quem não é, quem é útil e quem está apenas ocupando espaço aqui. Eu já percebi que você é a única que tem paciência comigo nessa empresa.

- E também era a única que tinha paciência com Theo, os conselheiros viviam a enxotando de suas salas, principalmente Stefan e Sandro.

- Ótimo, é isso que eu quero, nomes e atitudes.

Sam chegou em casa à noite, encontrando Mike na sala, sentado na banqueta do piano translúcido.

- Boa noite, Sam. - Mike irrompeu, a assustando, Sam derrubou o comunicador no chão. - Te assustei?

- O que faz no piano?

- Estou aprendendo a tocar.

- Você não gosta de piano.

- Os gostos mudam. Podemos conversar?

Sam recolheu seu comunicador do chão e sentou-se no sofá branco próximo ao piano.

- Podemos.

- Aquela última noite...

- Deve ser esquecida. - Sam o interrompeu.

- Ou deve ser analisada. Já se perguntou porque você quis fazer sexo comigo?

- Naquele momento eu quis, mas foi um impulso completamente errado, e eu percebi que estava errado durante o sexo, e não depois.

- Desculpe Sam, mas não consigo acreditar em você, para mim é inconcebível que se sinta melhor na cama com uma mulher do que com um homem.

- Por que inconcebível? Tem mulheres que preferem estar com mulheres, e não tem nada errado nisso.

- O que uma mulher pode fazer na cama que seja melhor que o homem? - Mike subia o tom. - Você está se contentando com preliminares?

- Se você estivesse dentro da minha mente por um minuto enquanto faço sexo com Theo, você não faria essas perguntas idiotas. - Sam respondeu no mesmo tom.

- Você não se envergonha em falar essas coisas em voz alta?

- Nem um pouco. Mike, desculpe por ter alimentado algo em você, foi um erro, e pretendo me manter fiel, não vai acontecer mais nada entre nós.

- Tudo bem, você terá bastante tempo para repensar isso, até porque ninguém consegue se manter fiel à uma pessoa vegetando por muito tempo.

- Terminou? Estou cansada, quero comer algo e dormir.

- Eu sei que teremos outras noites como aquela.

- E eu sei que não. - Sam levantou e subiu para o quarto.

Foi uma exceção, naquela noite Sam dormiu por longas oito horas, sem dificuldades em adormecer. Acordou na manhã seguinte com disposição, foi até o carro azul, pegando alguns objetos. Na ida para o hospital parou numa loja, comprando alguns aparatos.

Quando entrou na UTI, largou tudo no sofá e deu um beijo demorado na testa de Theo, que já estava virada para cima. Afagou seus cabelos com um sorriso satisfeito, e voltou ao sofá.

- Bom dia, recruta, hoje é um bom dia para começar a fazer arte, não acha?

Armou um fino tripé metálico, colocou o bloco de folhas do kit de desenho, e preparou os pincéis.

- Vamos começar pelo primeiro, certo? - Sam conversava com Theo. - Que provavelmente é o seu preferido. Você deve ter adorado aquele piano velho, quase me matou do coração.

Sam passou a manhã pintando, tempo suficiente para imprimir naquela tela parte do teatro abandonado, de pomposas cortinas vermelhas puídas, onde haviam passado a primeira noite.

Almoçou no hospital com Letícia e Daniela, e seguiu para a Archer, passando a tarde se inteirando dos processos do setor financeiro.

À noite, sua velha companheira retornou, a insônia. A madrugava iniciava e continuava rolando pela cama que parecia infinita.

Uma ideia, a princípio estúpida, fez-se constante e cada vez mais atraente. Sam saltou da cama e foi de pés descalços para a garagem da mansão. Entrou no carro azul e tomou a caixa médica metálica, levando para o quarto.

Colocou sobre a cama e abriu, como quem abre um baú misterioso. Observou por alguns segundos uma reluzente ampola de hidrometa. Com uma seringa, absorveu um ml do frasco, fechou a caixa, e deitou-se confortavelmente.

- Vamos ver se isso funciona. - Murmurou.

Verificou ambos os braços, e injetou o líquido no braço esquerdo. Em poucos segundos sentiu uma onda que era quente e fria ao mesmo tempo percorrendo seu corpo. Era forte e nauseante.

Adormeceu em poucos minutos, mas não foi um sono tranquilo.

- Por que estou no hospital? Outro transplante? - Sam olhava para seus braços repletos de fios e agulhas, num leito de hospital. Theo estava sentada num sofá cinza ao lado.

- Acho que invertemos. - Theo disse de forma arteira.

- Você acordou?? - Sam a olhava com espanto.

- Não, isso não é real. Achei que você perceberia, não tem teto, não reparou?

- O que está acontecendo?

- Eu estava com saudades, achei que seria uma boa forma de encontrar você. - Theo ajeitou um boné branco na cabeça.

- Mas eu não estou aqui, nem você.

- E que diferença isso faz? Amanhã você achará que realmente falou comigo, isso que importa.

- Eu lembrarei disso?

- Sim, porque parece real.

- É um sonho ou pesadelo?

- Nenhum dos dois. - Theo olhou para cima. - Desculpe, chegou minha carona, tenho que ir.

- Já?

Na manhã seguinte Sam acordou encharcada de suor, e lembrava de cada detalhe do sonho que tivera, com um sorrisinho bobo no canto dos lábios.

- Isso realmente funciona. - Murmurou, olhando para a seringa vazia em cima da cama.

Uma rotina estava criada, uma manhã com pintura e música na UTI, uma tarde aplicada na Archer, e uma noite com hidrometa e sonhos estranhos. O que moveu Sam a comprar mais hidrometa e manter o uso noturno não foi a cura da insônia, encontrar com Theo nos sonhos era um alento ansiosamente aguardado.

Uma semana de sonhos estranhos depois, e desta vez Sam a encontrou dentro do pequeno banheiro da pousada que ficaram em Salvador.

- Que bom que você me deixou entrar dessa vez. - Sam resmungou, sentada no piso bege do banheiro simples.

- Só por que você deixou de ser chata. - Theo estava sentada sobre a tampa do vaso, mexia em sua mão mecânica.

- Por que você escolheu esse banheiro minúsculo para me encontrar hoje?

- Porque foi aqui que você disse que me amava pela primeira vez.

Sam sorriu, olhando ao redor, os azulejos eram bege, a porta marrom.

- Foi de uma forma nada convencional. - Sam respondeu.

- Você não faz ideia do que eu senti quando você disse aquilo, me senti a mulher mais sortuda do mundo.

- Mas você estava brava comigo.

- Sam, tem algo nesse mundo que o amor não dissolva? Eu tive vontade de sair por essa porta marrom, te atirar na cama, e fazer amor com você até o dia seguinte.

- Por que não fez isso?

- Eu esperei você falar de novo. Mas você não disse nada.

Sam baixou a cabeça, envergonhada.

- Eu fui covarde.

- Tudo bem, você se redimiu depois. - Theo ergueu-se, e levantou a tampa do vaso.

- Onde você vai?

- Embora.

- Bem que você poderia ficar mais tempo.

- Eu não posso, meu anjo. - Colocou um pé dentro do vaso, depois outro, e sumiu.

Mais uma manhã em que Sam acordava com as roupas úmidas de suor, dor de cabeça, e um leve sorriso satisfeito. Resolveu contar para Letícia sobre os sonhos que andava tendo.

- Se você pode conversar com Theo, então pergunte a ela onde guardou meus brincos de pérola, emprestei e nunca devolveu.

- Ok, perguntarei. - Sam respondeu, rindo.

Na noite daquele mesmo dia, Marcy subiu até o quarto de Sam, trazendo um pacote nas mãos.

- Sam?

- Oi?

- Eu estava limpando a despensa hoje e encontrei esse pacote, não sabia o que era e estava quase jogando fora, mas resolvi perguntar para Sonia antes, ela disse que Mike trouxe do hospital no dia que veio morar aqui.

- E o que é?

- Não sei, mas tem o nome de Theo, achei que você gostaria de ver antes de jogar fora.

- Sam tomou o pacote plástico de suas mãos, levando para cima da cama, após se despedir de Marcy.

Sam rasgou o plástico branco, e tirou as peças de roupas que haviam dentro.

- Eu conheço isso... - Disse com um sorriso bobo.

Eram as roupas que Theo usava quando deu entrada no hospital. A calça jeans surrada, a camisa preta com respingos solidificados de sangue.

- O tiro... - Sam traspassou o dedo pelo furo na lateral, do tiro que Theo havia levado de Theodore.

Sentou-se na cama, olhou demoradamente a camisa embolada em suas mãos. Um nó surgiu vagarosamente em seu esôfago, se alojando na garganta.

Fechou os olhos e encostou a camisa no rosto, pode sentir o cheiro de Theo.

- Não me abandone... Por favor, não me deixe sozinha aqui...

Adormeceu mais tarde, em companhia das duas peças de roupas, e de dois ml de hidrometa.

- Você tinha razão.

- Sobre o que? - Sam perguntou, debruçada sobre o parapeito de madeira do mirante.

- A cor dessas águas, é semelhante a cor dos meus olhos. - Theo disse, ao lado de Sam, fitando o mar com um quase sorriso.

- Que bom que você está comprovando isso com seus próprios olhos. A propósito, você voltou a enxergar.

- Sim, é bom enxergar novamente.

- E também está falando.

- Percebeu agora? Tenho falado tanto nos últimos dias. - Theo riu, olhando de lado para Sam.

- Eu gostaria que você estivesse ao meu lado. Eu sinto sua falta.

- Estou aqui agora.

- Mas não estará amanhã. Nem depois de amanhã. Você só está nos sonhos - Sam respondia com pesar.

- Eu não posso.

- Eu sei... É difícil acreditar que você foi embora.

- Eu não fui embora.

- Theo, é apenas seu corpo que está naquele quarto.

Theo deslizou silenciosamente sua mão pelo fino tronco do parapeito, e pousou sobre a mão de Sam, a pegando de surpresa.

- Sente isso?

- Sinto. - Sam respondeu olhando para suas mãos.

- Eu ainda estou aqui. Mas só por hoje.

- Essa conversa é uma despedida?

- Todas as conversas são despedidas em potencial. - Theo sorriu de lado. - Nunca se sabe o que nos espera na próxima esquina, você pode ter acabado de discutir com alguém por causa de um troco errado na cafeteria, e bum, tem um ataque fulminante na calçada. Aquela conversa patética sobre dezoito centavos foi sua conversa de despedida. Quem diria?

Sam ainda a fitou com alguns segundos, assimilando o que acontecia, e voltou a encarar o mar azul.

- Espero que não seja. - Sam arrematou.

- Você acha que irei para o inferno ou para o céu? - Theo perguntou de forma atrevida.

- Você não vai a lugar algum, você vai ficar aqui, na terra, com os dois pés firmes na terra.

- Aqui faz frio, meus pés estão congelando.

- Você não gosta de dormir de meias.

- Não, não gosto.

Sam ficou em silêncio por um instante, pensativa.

- Você ficará comigo essa noite? - Sam perguntou, com a voz comedida.

- Não, estou de saída.

- Já?

- Eu nem deveria estar aqui.

- Não pode ficar mais um pouco?

- Por que?

- Sinto saudades de nossas conversas.

Theo balançou a cabeça, como se decidindo algo.

- Ok, uma pergunta.

- O que?

- Você pode fazer uma pergunta, e então terei que ir.

Sam virou-se, olhando na sua direção, elaborando sua pergunta.

- Por que?

- Essa não é uma pergunta válida. - Theo rebateu.

- Por que você fez aquilo?

Theo desfez o leve sorriso, antes de respondê-la.

- Achei que minha carta fosse clara o suficiente.

- Temos como inverter?

- Não, nós somos o resultado de nossas decisões. Eu estou pagando pela minha decisão.

- Posso fazer outra pergunta?

- Pode.

- Onde estão os brincos de pérola de Letícia?

- Em cima da cômoda.

- Tem certeza? Acho que não tem nada lá.

Sam olhou para o lado e Theo havia sumido. Bem como seu sonho.

No dia seguinte, Sam verificou toda a cômoda que ficava em frente à cama, mas não encontrou nenhum brinco. Desceu e foi falar com Marcy.

- Marcy, você faz ideia se o que tinha na cômoda de Theo foi jogado fora?

- Quase tudo, mas Lucian me contou que tem algumas coisas guardadas na garagem da casa de visitas, ele ficou com pena de jogar fora, talvez as coisas miúdas estejam lá.

- Você sabe o que havia em cima da cômoda?

- Tranqueiras.

Sam foi até a garagem da outra casa, bagunçando e revirando tudo que encontrava pela frente. Até encontrar uma caixa com tranqueiras, e uma caixinha de joias.

Em seguida foi para o hospital, e prontamente pediu outro cobertor.

- Ela está com frio, preciso de outro cobertor.

- Ela não sente frio, ela não sente nada. - A enfermeira rebateu.

- Theo está com frio, eu sei que está.

Um outro cobertor foi trazido, Letícia permanecia sentada no sofá, acompanhando tudo.

- Agora você não sentirá mais frio. - Sam sussurrou para Theo, enquanto a cobria.

- Por que você acha que Theo está com frio? - Letícia perguntou, curiosa.

- Ela me disse. - Sam respondeu de bate pronto, com naturalidade.

- Disse?

- Sim, ontem à noite. - Sam sentou-se na poltrona ao lado do leito.

- Você anda tomando algo para dormir? Tem tomado hidrometa?

- Tenho.

- Ela disse que estava com frio?

- Ela me contou ontem, parecia um sonho, mas sei que era mais que um sonho, ela realmente estava ali comigo, eu senti o toque da mão dela na minha mão.

- E no sonho ela disse que estava com frio?

- Disse. Eu prometi providenciar outro cobertor, porque ela não gosta de meias.

Letícia riu.

- É, ela odeia meias.

- Letícia, Theo me disse que seus brincos estavam sobre a cômoda, mas não havia nada sobre a cômoda.

- Provavelmente Theo perdeu esses brincos e não teve coragem de me contar.

Sam estendeu a mão, mostrando um par de brincos de pérolas.

- Você achou? - Letícia olhou surpresa, os tomando.

- Estava na caixinha de joias que ficava em cima da cômoda, estava guardada na garagem.

- Ok, agora me assustou. Theo, se você estiver por aí, apareça no meu sonho essa noite, quero perguntar aquela receita de sopa de mexilhões que você disse que ia me ensinar.

- Acho que ela não vai, ela deu a entender que não viria mais.

- Bom, não custa tentar. - Letícia riu.

Mais dois ml de hidrometa naquela noite, e mais uma noite de sono rápido e agitado, porém sem sonhos.

O comunicador de Sam tocou no meio da madrugada, ela acordou zonza, tateando o criado mudo em busca do aparelho, olhou o visor, era do hospital.

- Senhora Samantha? - Disse a voz educada do outro lado.

- Sim, aconteceu algo?

- Aconteceu, a senhora deixou avisado que gostaria de ser comunicada caso acontecesse algo com a paciente...

- O que houve com Theo? - Ela o interrompeu, abruptamente.

- Ela acordou.

Anagapesis: s.f.: Não manter quaisquer sentimentos por algo ou alguém que já amou.

Capitulo 7 - Retrouvaille por Cristiane Schwinden
Capítulo 7 - Retrouvaille

 

Sam ficou muda por alguns segundos. Uma sensação intensa a arrebatara.

- Senhora Samantha?

- Acordou do coma? - Perguntou, incrédula.

- Sim, na verdade ela provavelmente está agora num grau moderado de coma.

- Estou indo para aí.

- Não é necessário, ela já voltou a dormir, ficou apenas alguns instantes acordada, sem interações.

- Não importa, estou indo. Obrigada por ligar. - Falou já desligando o comunicador.

Levantou-se rapidamente, trocou-se fazendo barulhos e aos tropeços, ao sair do quarto Mike surgiu coçando os olhos.

- O que aconteceu? Algo com Theo?

- Ela acordou, estou indo para lá.

- Acordou? Tipo, como se nada tivesse acontecido?

- Não, apenas acordou, agora está num outro estado de coma, algo assim, estou indo lá para saber melhor.

- Quer que eu vá com você?

- Não precisa, volte a dormir. - Sam falou já saindo na direção da porta.

***

- Senhora, como lhe avisei pelo telefone, ela voltou a dormir, amanhã o neuro irá examiná-la, nestes casos é comum que o paciente volte a dormir. - Disse o enfermeiro que havia ligado, na recepção.

- Tudo bem, quero passar o restante da noite aqui, ok?

- Claro, fique à vontade.

Sam entrou no quarto, onde apenas uma luz fraca sobre a cabeceira da cama iluminava pobremente o ambiente. Não havia mudanças aparentes no quadro dela, parecia dormir profundamente, alheia a este mundo.

- Quer dizer que você resolveu me ouvir. - Sam disse, ao seu lado, sorridente.

Ajeitou o tubo que saia de sua boca, e os esparadrapos que seguravam todo o aparato azul e branco.

- Não se apresse, eu já falei várias vezes e repito, terei toda paciência do mundo, estarei aqui todos os dias, e um dia te levarei para casa. Sim, isso é uma ameaça. - Ela riu, e sentou-se no sofá.

Com o passar silencioso das horas, Sam adormeceu, acordando na manhã seguinte, com a entrada de Doutor Franco.

- Duas dorminhocas. - Brincou o médico, se aproximando do leito.

- Ãhn... Bom dia. - Sam respondeu, desnorteada.

- Fiquei sabendo que alguém cansou dessa cama e acordou durante a madrugada. - Ele falou, nos pés da cama.

- O enfermeiro me ligou, disse que ela havia acordado, que estava num outro grau de coma agora, é isso?

- Também não sei exatamente o que aconteceu, soube pelo prontuário que ela acordou as três da manhã, abriu os olhos e mexeu a cabeça. Isso é bom, muito bom. - Doutor Franco disse.

- Ela deve estar agora em um coma moderado, mas só saberemos com o passar dos dias, e as possíveis reações dela. - Complementou.

- Mas ela acordou, não é? Oficialmente ela saiu do estado vegetativo?

- Acredito que sim, observe. - Ele levantou o cobertor, descobrindo seus pés, e o espetou com uma agulha de seringa.

- Ela agora reage. - Falou, com um meio sorriso, ao ver Theo mexendo o pé de forma brusca.

Sam levantou-se, prostrando-se ao lado, ansiosa.

- O que podemos esperar agora? - Ela perguntou, fascinada.

- Ela deve ter outras reações nos próximos dias, talvez volte a abrir os olhos, vamos acompanhar tudo que acontecer para reavaliá-la na escala Glasgow, mas baseada no que nos foi relatado, ela já deve ter subido uns cinco pontos.

- Em breve será possível desentubá-la, não? - Sam perguntou, animada.

- Vamos com calma, a abertura dos olhos sob estímulo verbal já seria uma grande vitória para ela, a autonomia respiratória é mais complexa, não podemos arriscar agora. - O médico disse.

- Meu Deus, ela acordou mesmo. - Sam falava eufórica, com as mãos cobrindo a boca.

- Tudo tende a melhorar agora. - O médico também parecia radiante.

Alguns exames depois, e novamente Sam estava sozinha no quarto, mandou mensagem para Letícia dando a boa nova.

"Eu soube!!! Estou esperando terminar meu plantão para ir até vocês. Pergunte à Theo se ela quer café com ou sem creme." - Letícia respondeu.

Letícia passou a maior parte do dia na UTI, Daniela visitou por algumas horas, e alguns colegas de faculdade também a visitaram, mas Theo continuava desacordada.

A noitinha, Letícia despediu-se delas.

- Sam, estou com plantão emendado, preciso ir para casa dormir, mas estarei à disposição qualquer hora, ok? - Letícia a abraçou.

- Eu sei, obrigada. Letícia, posso te perguntar uma coisa?

- Sim?

- Como Theo te chamava, Letícia mesmo?

- Lê. Você também pode me chamar assim se quiser.

- Ok. Lê. Ah, outra coisa. Você sabe a senha do comunicador dela?

Letícia a olhou a analisando.

- Para que você quer a senha?

- Curiosidade.

- Acho melhor você não mexer nisso.

- Por que?

- Porque você não vai gostar do que vai ver.

Sam arregalou os olhos.

- O que tem lá dentro?

- Coisas que te chocariam por um mês.

- Ela gravava cenas íntimas com as namoradas?

- Não. Quer dizer, não que eu saiba. Bom, há alguns anos alguém conseguiu roubar as fotos do comunicador dela, e espalharam na rede fotos de Theo e Janet... Você sabe... Juntas... Na cama.

- Fazendo sexo?

- Digamos que sim. Foi um escândalo, a imprensa caiu em cima delas, então Theo aprendeu a lição e nunca mais tirou fotos assim.

- Então não tem nada de mais lá.

- Não dela. Sam, o comunicador dela é repleto de pornografia, você que é uma moça religiosa, um tanto quadrada, e conservadora, pode se assustar.

- Não sou assim.

- Ok, ok... É o nome do cachorro. Boa sorte. - Disse e saiu pela porta.

- Hey, espera! - Sam saiu pelo corredor atrás dela.

- O que foi?

- Eu não sei o nome do cachorro.

- E como você tem o chamado?

- Eu o chamo de Theozinho.

Letícia riu.

- O nome é Levon. A propósito, parece que você não dormiu muito também, acho que deveria ir para casa repor as energias.

- Eu vim para cá as três da madrugada, mas vou comprar energético.

- Sam, ela não vai acordar tão cedo, vá dormir, volte renovada amanhã.

- Talvez.

Sam retornou ao quarto, diminuiu as luzes e sentou-se ao lado do leito, tomando a mão de Theo e colocando em seu rosto.

- Não tenha pressa, vai ficar tudo bem, você já acordou, seu cérebro voltou a funcionar. - Sam beijou a palma de sua mão. - Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida, você voltou... Não vejo a hora de levar você para casa.

Ficou mais alguns instantes ao seu lado, e levantou-se.

- Eu vou seguir o conselho de Letícia, vou embora dormir um pouco, porque esse sofá é péssimo, amanhã de manhã estarei por aqui. - Correu seus dedos pelo rosto de Theo. - Esqueci de colocar música para você hoje, quer ouvir agora? Vou colocar um pouco antes de ir.

Sam ligou o comunicador e foi ao banheiro. Saiu de lá com preguiça, interrompeu o bocejo ao ver Theo de olhos abertos, lhe trazendo um sorriso de lado a lado.

Aproximou-se sem conseguir diminuir o sorriso e a euforia ao vê-la assim, incrédula.

- Oi, Theo. - O coração de Sam pulava em seu peito.

Theo não tinha reação, apenas mudava o direcionamento do foco do seu olhar de vez em quando.

- Meu Deus, como é bom ver todo esse azul de novo... - Sam já estava com os olhos molhados.

- Eu senti tanta falta disso. Foi a música? - Sam se dava conta que tocava Morning Mood de Grieg no comunicador. - É a música que eu costumava te acordar, e deu certo!

Sam voltou a tomar sua mão e pousar em seu rosto.

- Eu não sei se você já consegue entender algo, mas saiba que estou ao seu lado o tempo todo, e nunca sairei daqui, prometo te dar certeza física todos os dias, você está segura aqui.

Theo permaneceu de olhos abertos por mais alguns minutos, voltando a adormecer. Sam mudou de ideia, e passou a noite no sofá cinza.

Acordou cedo, desceu para o café, e voltou rapidamente para o quarto, estava esfuziante.

- Bom, dia recruta! - Sam a cumprimentou ao entrar no quarto, ainda bebendo um copo de café.

Para sua surpresa, Theo abriu os olhos com o cumprimento.

- Ah, então você me ouve? Bom saber.

Sam abriu novamente um sorriso, e lhe deu um beijo na testa.

- Se você estivesse sem esse tubo na boca, eu lhe ofereceria meu café. - Sam brincou, segurando sua mão.

Naquele dia Theo voltou a abrir os olhos mais algumas vezes, Sam sabia que era o início de sua recuperação, um longo caminho onde a paciência se tornaria a peça chave estava se abrindo à sua frente. No dia seguinte ela passou por uma bateria de exames, o médico estava prudentemente otimista, a atividade cerebral agora era infinitamente maior que antes, ela respondia visualmente à quase todos estímulos sonoros, várias áreas do cérebro pareciam trabalhar de forma ordenada.

Dois dias depois e Sam estava exaurida, havia dormido as últimas noites no hospital, desde que Theo havia acordado. Ia até a mansão apenas para tomar banho e dar notícias aos funcionários.

No início da noite, tentava achar algo para espantar o sono, enquanto bebia seu quarto café. Tomou o comunicador de Theo, que havia trazido, e resolveu desbravá-lo.

- Levon.

O fundo era uma foto do cachorro que dava nome à senha, usando um laço vermelho.

- Mas você não é um menino? Quem botou esse laço em você? - Sam murmurou sozinha.

Respirou fundo e acessou as fotos, passava uma a uma, boquiaberta, eram várias fotos de mulheres nuas.

- Que pouca vergonha... - Resmungou.

- Jesus, Maria, José, e o camelo! - Exclamou ao ver fotos de sexo explícito, mas continuou vendo uma a uma, atenciosamente.

- Isso é possível? - Franziu a testa com uma foto onde duas mulheres faziam uma posição invertida na cama, com os rostos em seus sexos. - Até que é uma boa ideia, tudo ao mesmo tempo...

- Será que o nome disso também é fio terra? - Sam olhava de perto uma foto com uso de dildos. - Não, essas coisas devem ter outros nomes.

Via agora uma imagem de uma mulher usando um strapon, voltou a arregalar os olhos.

- Por que elas usam isso ao invés de fazer sexo com homens? - Sam exclamava. - Onde será que vendem isso?

- Três?? Ok, chega de pornografia por hoje. - Sam largou a aparelho na mesa ao lado, foi até a cama e sentou-se na cadeira ao lado, tomando sua mão e entrelaçando os dedos. A fitou demoradamente, estava cansada, mas as fotos haviam a acendido.

- Era tão bom... - Sam a encarava nostálgica, Theo estava acordada, com o olhar focado na direção de Sam. - Eu sinto falta de fazer amor com você.

- Mas tudo tem seu tempo, não devo pensar nisso agora. - Ela continuou. - Eu nem sei se você realmente está aí dentro, não sei onde você está agora. Sinto falta de nossas conversas, eu aprendi muito com você. E é bem melhor falar com você acordada, mesmo que você não esteja aqui, mas parece até que você me ouve e me entende.

Theo apertou a mão de Sam, sem muita força.

- Theo?? O que foi isso?

Sam a fitava espantada.

- Você me ouve?

Novamente Sam teve sua mão apertada.

- Você me entende?

Mais um aperto.

- Meu Deus, você está aí! - Sam mal podia acreditar. - Você está aí, e me entende!

- Você consegue se comunicar? Entende claramente tudo que falo? Desde quando está aí? Ok, ok, não quero te agitar. - Sam esfregou as mãos no rosto. - Você deve estar numa confusão danada aí dentro, uma coisa de cada vez.

Sam respirou fundo, estava num grande contentamento e euforia.

- Vamos de novo. - Sam voltou a segurar sua mão, Theo continuava olhando na direção de onde vinha a voz.

- Você entende tudo que eu falo?

Nada aconteceu.

- Você entende apenas algumas coisas que eu falo?

Theo apertou sua mão.

- Ótimo, já está ótimo. Jesus Cristo, eu não acredito nisso, você está se comunicando comigo! Theo, nós estamos conversando! Ok, vamos com calma. Você sabe onde está?

Um aperto.

- Sabe o que aconteceu com você?

Nada.

- Tudo bem, apenas saiba que você ficou seis semanas em coma, acordou há quatro dias, e vai ficar tudo bem, logo você vai para casa, a sua casa.

Sam beijou sua mão, animada.

- Cada evolução sua é uma vitória tão grande... Eu tenho certeza que você vai superar isso, que terá uma vida normal, acredite também.

Um aperto.

- Que bom. - Sam lançou um olhar no vazio, sem saber o que perguntar a seguir. Resolveu fazer a pergunta que mais temia a resposta.

- Theo, você sabe quem eu sou?

Um aperto.

- Meu nome é Letícia?

Nada.

- Lindsay?

Nada.

- Evelyn?

Nada.

- Samantha?

Um aperto, e Sam abriu um sorriso enorme.

- E você me chama de Sammy?

Nada.

- Sam?

Um aperto.

- Desculpe, eu precisava ter certeza. - Sam disse, rindo. - Ok, já que sabemos que você não perdeu a memória, vamos deixar as coisas claras. Você está segura aqui, Claire armou um sistema de segurança, e tudo é controlado. Eu tenho estado aqui com você todos os dias, tenho esperado ansiosamente por ver você acordada e se comunicando, você evoluiu muito nos últimos dias.

- E prometo tentar refrear meu ímpeto de te encher de perguntas e informações. - Sam completou. - Continua me ouvindo?

Um aperto.

- Sente alguma dor?

Um aperto.

- Onde?

Nada.

- Claro, você não tem como responder perguntas complexas. Dor de cabeça?

Nada.

- Dor no peito?

Nada.

- Dor nas pernas?

Nada.

Dor nos braços?

Nada.

- Mãos?

Um aperto.

- Essa mão? - Sam apertou sua mão direita, suavemente.

Nada.

- A outra mão?

Um aperto.

Sam olhou tristemente para a prótese que havia no lugar da mão, não teve coragem de contar do ocorrido.

- Eu vou pedir analgésico para isso, ok? Como está aí dentro da sua cabecinha, está confuso?

Um aperto.

- Eu imagino que sim. Mas tudo vai se ajeitar com o tempo.

Minutos depois a enfermeira ministrou alguns medicamentos, e Theo voltou a dormir.

No dia seguinte, Sam foi chamada para conversar com Doutor Franco.

- Você não está a agitando, está? - Ele perguntou.

- Ãhn, espero que não. Quando percebo que ela está cansada, paro de falar e perguntar coisas.

- A consciência dela no momento é uma grande nebulosa, ela não consegue processar tudo que chega até ela, então tente deixá-la tranquila a maior parte do tempo. Não precisa parar de falar, é bom esse estímulo, mas não a sobrecarregue, ela pode ter novas convulsões, como a da noite passada.

- Ela teve uma convulsão? - Sam o olhou assustada.

- Sim, de madrugada, os enfermeiros agiram rápido a medicando, acho que você não chegou a acordar.

- Não, não vi nada, eu estava com muito sono atrasado, tomei um remédio para dormir. Mas ela está bem?

- As convulsões debilitam, ela está um tanto grogue hoje, por isso é bom deixá-la quietinha por enquanto. Bom, mas chamei você aqui para comunicar uma coisa.

- Sim?

- Vamos tirar o respirador hoje à tarde, acreditamos que ela já tenha capacidade de respirar sozinha.

- Isso é ótimo!

- Ela terá mais liberdade e independência, começará a se alimentar via oral, mas provavelmente não conseguirá falar.

- Compreendo.

- Então, minha cara tagarela, nada de incentivá-la a falar, ok?

- Não farei isso.

- Ela vai tentar, e vai ficar nervosa por não conseguir, você terá o papel de acalmá-la, e incentivá-la a se comunicar de outras formas.

- Certo.

- Vamos torcer para que ela consiga respirar por conta própria, senão teremos que recolocá-la na máquina. Preciso de você aqui a tarde, não podemos sedá-la totalmente, então talvez ela se agite com o procedimento de retirada do tubo, esteja ao seu lado, a tranquilize.

- Darei certeza física.

- O que?

- Estarei ao lado, a tranquilizando.

- Ok, só mais uma coisa.

- Sim?

- No final da tarde você vai embora, e só vai voltar aqui depois de ter dormido por doze horas seguidas, na sua cama.

- Isso é uma prescrição?

- É sim, e é bom segui-la à risca.

- Tentarei.

No meio da tarde o procedimento foi executado, Theo debateu-se um pouco, mas sua respiração voltou ao normal rapidamente, ela estava finalmente livre do tubo em sua boca, usava agora apenas uma máscara de oxigênio. Os sedativos a fizeram dormir logo em seguida, Sam seguiu a recomendação do médico, e foi para a mansão dormir.

- Ah, finalmente lembrou o caminho de casa! - Mike a recepcionou ao pé da escada.

- É, aquele sofá está acabando com minhas costas, que já não eram grande coisa.

- Vou está acabando com sua saúde, sabia disso? Não adianta nada essa devoção com Theo, se você perder sua saúde.

Sam coçou os olhos, com sono, pensou um pouco antes de responder.

- Mike, hoje antes de vir para cá, eu me despedi de Theo com um beijo em seu rosto, e disse que a amava. Ela sorriu quando eu falei, e da última vez que eu a vi sorrindo, um coração artificial ainda batia dentro do meu peito. Você nunca vai entender o que isso significa, não é devoção, é amor.

- Ela já está falando?

- Isso vai demorar um pouco, mas não tenha dúvida que acontecerá algum dia.

- Amanhã irei com você ao hospital, quero dar um oi à Theo.

- Ok, nos falamos amanhã. - Sam evitou o elevador e subiu as escadas até seu quarto.

Evitou também a hidrometa, que não foi preciso, dormiu rapidamente, só acordando com o sol já alto. Tomou café conversando com Marcy e Levon.

- Theozinho, agora sei seu nome, é Levon, mas pare de usar coisas de menina, porque você é um menino. - O cachorro estava sentado ao seu lado, a olhando.

- Você não sabia o nome dele? - Marcy perguntou.

- Não. - Sam sorriu. - Ainda tenho muito o que aprender.

- Quando ela vem?

- Calma, Marcy, ela acabou de acordar, ainda oscila os momentos de consciência, às vezes ela se desliga e leva horas para voltar à lucidez. Sem contar as inúmeras sequelas que estão sendo percebidas, ela perdeu parcialmente o movimento no lado esquerdo.

- Ela vai voltar a andar?

- Não tão cedo.

- Será que ela lembra de mim?

- É bem provável que sim, já que ela lembra de mim, que estou há pouco tempo na vida dela.

- Você está indo agora para o hospital? - Mike perguntou ao entrar na cozinha.

- Estou, e de alma renovada. - Sam dizia com animação.

Sam e Mike entraram na UTI, Theo estava acordada, ouvia a tela à sua frente.

- Bom dia, recruta. - Sam disse lhe dando um beijo no rosto, Theo usava uma máscara de oxigênio. - Dormiu bem?

Theo balançou a cabeça de forma afirmativa.

- Que bom, eu também dormi como uma pluma, você me deu o melhor boa noite do mundo com aquele sorriso ontem. - Sam arrancou outro sorriso de Theo.

- Bom dia, Theo, lembra de mim? - A voz de Mike ressoou no quarto, tirando o sorriso do rosto de Theo.

- Mike veio te visitar. - Sam disse, tomando a mão de Theo, ao perceber seu estado de tensão.

Theo tirou sua mão, retesando seu corpo, parecia em pânico.

- Hey, calma, Mike apenas veio te ver, ele não vai fazer nada, está tudo bem. - Sam a acalmou, tomando novamente sua mão.

- Passado é passado, eu já deixei nossas desavenças para trás. - Mike disse, se aproximando.

Theo tentou falar algo, mas não saia voz alguma.

- Amor, fique calma, não tente falar, Mike cuidou de mim depois do transplante, ele tem sido um amigo. Ele soube da sua melhora e quis te ver.

Aos poucos Theo voltava ao normal, a agitação havia passado, Sam continuava segurando sua mão com ambas as mãos.

- Seremos bons amigos, ok? - Mike dizia, sorridente. - Estou orando por sua melhora, e que você possa voltar logo para sua casa, para morar conosco.

Novamente Theo se agitou, agora com mais vigor, Sam apertou o botão chamando auxílio.

- Tem algo para deixá-la tranquila? - Sam perguntou à enfermeira.

- Aconteceu algo?

- Não, ela só está um pouco agitada.

- Já volto.

Mike gesticulou para que Sam o deixasse se aproximar mais.

- Escute, está tudo bem, ninguém mais vai machucar ninguém, combinado? - Mike tomou a mão de Theo, que encarava o vazio em sua direção, tensa.

- Não precisa ter medo de nada. - Sam corroborou. - Mike está morando comigo porque me faz companhia, Lindsay veio me visitar duas vezes, mas não pode ficar muito tempo por causa da família.

- Já que Sam está cuidando de você, ela precisa de alguém cuidando dela, não acha? - Mike disse.

Theo não teve reação, a enfermeira lhe aplicou medicação, a sedando.

- Melhor você ir, Mike, não é bom ficar faltando ao novo emprego.

- Isso não é problema, o pessoal na Archer já me adora. - Mike brincou.

Sam despediu-se do ex-noivo, e sentou-se ao lado de Theo, que dormia.

- Desculpe, eu deveria ter contado antes. - Sam acariciava seus cabelos.

Sam foi dormir em casa naquela noite também, e chegou no hospital no outro dia com novo aparato.

- Bom dia, recruta. Trouxe algo para você hoje. - Sam disse, lhe beijando a testa.

Elevou o encosto da cama, a deixando quase sentada, colocou uma pequena tela sobre a cama, ao lado dela, tomou sua mão e colocou em cima.

- Amor, isso é uma tela, você pode tentar escrever, já que sua mão está funcionando bem.

Theo tateou toda a tela, com as sobrancelhas baixadas.

- Que tentar? Já está tudo preparado, é só correr os dedos.

Theo tateou um pouco mais, fechou a mão deixando apenas o indicador ainda erguido.

"Oi." - Escreveu lentamente.

- Oi para você também, meu anjo. - Sam respondeu com um sorriso largo. - Quer tentar escrever seu nome?

Letra a letra, com dificuldade, um "Theo" um tanto torto foi surgindo na tela.

- Garota, você está melhor do que eu imaginava, vou pedir sua alta hoje. - Sam disse.

"Hoje?" - Theo escreveu.

- Não, eu estava brincando, você vai ficar mais alguns dias por aqui, ok? Seu estado ainda é delicado, seus pulmões estão dando alguns sustos.

"Dor."

- Onde você sente dor?

"Mão"

- A mão esquerda?

Theo balançou positivamente a cabeça.

- Você lembra tudo que aconteceu com sua mão? - Sam entrava devagar nesse assunto.

Theo assentiu que sim.

- Sua mão piorou muito, uma infecção horrível acometeu você por conta da sua mão. Seus órgãos começaram a falhar, os médicos estavam pessimistas, achavam que você morreria logo se nada fosse feito...

Antes que Sam continuasse falando, Theo conseguiu subir sua mão esquerda para cima do peito, e a tocou com a mão direita, entrando em desespero instantâneo.

- Hey, acalme-se! - Sam tentava em vão diminuir sua agitação.

Theo continuava tateando sua mão artificial, se dando conta que havia sido amputada, estava com um semblante transtornado.

- Theo! Escute! Os médicos não tiveram alternativa, você morreria em 72 horas se não removessem a origem da infecção, você consegue entender? E mesmo que você continuasse com sua mão, ela não era mais funcional, o estrago foi grande demais.

O semblante de Theo passou de puro transtorno para tristeza, começava a assimilar.

Sam estava com o coração em frangalhos ao vê-la daquele jeito, por reação instintiva a abraçou. Theo retribuiu o abraço, e começou a chorar.

- Não chore... Aos poucos os movimentos na sua mão voltarão, colocaram uma ótima prótese em você. - Sam corria as mãos por suas costas, apesar da tristeza por ver Theo assim, ela sentiu um calor agradável por poder abraçá-la novamente.

Theo desprendeu-se do abraço, enxugou o rosto com a mão direita, com dificuldade. Seus movimentos se limitavam ao braço direito e à cabeça, mas sempre devagar, como se estivesse permanentemente dopada.

- É mais uma coisa que vamos superar juntas, ok? - Sam acariciava sua mão artificial. - Sente isso?

Theo balançou a cabeça positivamente, ainda chorando e fungando.

- Bem-vinda ao time dos Borgs. - Sam tentou brincar, Theo deu um sorriso torto, e tentou tirar a máscara de seu rosto.

- Melhor deixar aí.

Theo insistiu, baixando a máscara, tentava enxugar o nariz.

- Ah, espera, eu te ajudo.

Sam correu ao banheiro e trouxe papel toalha, a ajudando a enxugar o nariz.

- Pronto, se quiser mais tem aqui. Posso subir a máscara?

Theo negou.

- Ok, se você está respirando bem, fique um pouco sem ela.

Theo voltou a tatear sua mão mecânica, agora sem pressa, mas ainda com semblante devastado.

- Eu não queria que tivessem feito isso. - Sam falava num tom confortável. - Mas não tivemos escolha, era isso ou a infecção tomaria conta de você em definitivo. Bom, disso você deve entender, você estudava medicina, não é?

Theo olhou na direção de Sam, e assentiu com a cabeça.

- Você enxerga algo? Claridade?

Theo negou, repousou a cabeça no travesseiro, e começou a franzir a testa com uma expressão de dor.

- O que foi? - Sam perguntou preocupada.

Theo agora fechava os olhos com força, e trincava os dentes. Esticou os dedos da mão, e começou a tremer.

- Theo, o que está acontecendo?

Sam chamou auxílio, a enfermeira deu uma olhada rápida e saiu correndo, voltou com outra enfermeira e medicação. Theo tremia vigorosamente, afastaram Sam de perto da cama.

- O que está acontecendo?

- Uma convulsão, afaste-se. - Ela segurava Theo pelos ombros, enquanto a outra aplicava as medicações.

Finalmente Theo apagou, uma das enfermeiras baixou a cabeceira da sua cama, e colocou a máscara de oxigênio de volta em seu rosto.

- Ela se agitou? - Indagou a Sam, que assistia a tudo em choque.

- Sim, ela descobriu que perdeu a mão.

- Ela passará o dia dormindo ou grogue. - Entregou a tela à Sam. - Não a faça se comunicar hoje.

- Não farei, vou deixá-la descansando.

Theo acordou no final da tarde, Sam dormia desajeitadamente no sofá, quando acordou a viu de olhos abertos, mas com um olhar vazio e estático num ponto qualquer.

- Oi amor, você está bem? - Sam aproximou-se, esfregando a mão no rosto.

Não houve nenhuma reação.

- Você deu uma saidinha, não é? Amanhã deve estar de volta.

Recebeu uma mensagem no comunicador, era Letícia convidando para sair à noite. Aceitou o convite e foi para casa tomar um banho, Theo voltara a dormir.

- Onde você vai? - Mike perguntou ao vê-la na cozinha, já de banho tomado e razoavelmente arrumada.

- Vou sair com Letícia e Daniela, espairecer um pouquinho. - Sam tomava um copo com suco próximo à geladeira.

- Posso ir com você? Também estou precisando respirar outros ares, trabalhei feito um condenado essa semana.

Sam hesitou enquanto tomava o último gole.

- Ok, mas sairei em vinte minutos.

- Estarei pronto em quinze.

 

 

Retrouvaille: s.f. (francês): Prazer de reencontrar alguém após uma separação. Redescoberta.

Capitulo 8 - Basorexia por Cristiane Schwinden
Capítulo 8 - Basorexia

 

Mike guiou o carro branco até um bar próximo à Avenida Paulista, onde as meninas aguardavam.

- Você é o famoso major Mike? - Letícia o abraçou, sorridente.

- Espero que o famoso seja por bons motivos. - Mike brincou.

- Ah, foi de você que Theo roubou Sam? - Daniela perguntou, recebendo uma cutucada discreta de Letícia.

Sam deu um sorriso amarelo, e tentou remediar.

- Theo não roubou, ela conquistou.

- Prazer em conhecê-lo. - Daniela o cumprimentou, todos sentaram, mas Sam percebeu os olhares que Mike deu ao redor, o público era um tanto alternativo.

- Sam disse que você conseguiu um emprego, está gostando? - Letícia perguntou.

- É algo temporário até conseguir algo dentro da minha área, mas pelo menos estou numa grande empresa.

- Onde?

- Na Archer.

- Eu conversei com Claire. - Sam dizia. - Ela conseguiu alocá-lo.

- Você pretende voltar ao exército? - Letícia perguntou.

- No momento não, tenho outros planos, provavelmente vou abrir um negócio em San Paolo, talvez uma loja de armas.

Os drinques vinham à medida que o papo prosseguia, Mike estava incomodado com uma mesa cheia de homens na casa dos trinta anos que conversavam animadamente atrás deles.

- Isso é um bar gay? - Mike perguntou, alguns copos depois.

- Não, na verdade hoje em dia é raro você encontrar algum lugar que faça esse tipo de segregação. - Daniela respondeu, atraindo a atenção demorada de Mike.

- Você é um tanto estranha.

- O que? - Daniela perguntou, incrédula.

- Desculpe, não quis ofender, estava apenas pensando em voz alta. - Mike respondeu e fez sinal ao garçom pedindo outra bebida. Sam já havia parado de beber, e estava com sono.

- Está de plantão amanhã, Letícia? - Sam perguntou.

- Sim, por isso já parei de beber, entro as oito. Mas darei uma passadinha no Lincoln Memorial antes, para dar um beijo na Bela Adormecida.

- Dorme na minha casa hoje, é mais perto do Lincoln. - Daniela sussurrou para Letícia.

- Com todo prazer. - Letícia lhe deu beijo rápido.

- Vocês não namoradas? - Mike perguntou.

- Sim, não sabia?

- Não, mas eu deveria ter previsto, já que são amigas de Theo.

- Isso não quer dizer nada. - Letícia falou num tom sério.

- Sapatão anda com sapatão, não é assim que funciona? Já que não conseguem arrumar um homem.

- Mike, pare de falar besteira. - Sam pediu, envergonhada.

- De que planeta você veio? - Daniela perguntou, espantada.

- Na Europa temos costumes e crenças diferentes, desculpe, ele não quis ofender vocês. - Sam interviu.

- Vocês? - Letícia se indignou. - Vocês quem? Sam, ele também te ofende dizendo essas coisas.

- Eu sei. - Sam virou-se na direção de Mike, que estava sentado ao seu lado. - Mike, achei que você havia parado com essas coisas.

- No dia que ser bicha e sapatão for natural, eu paro de falar nisso. Mas enquanto isso, continuarei dizendo o que penso, porque é minha opinião, e deve ser respeitada.

- Não confunda opinião com discurso de ódio, major. - Letícia disse.

- Ah, vai dizer que você acha bonito essa pouca vergonha na mesa de trás? Dois barbudos se beijando, você sabe que é nojento.

- Ok, por hoje chega. - Daniela levantou-se.

Letícia fez o mesmo, abandonando a mesa.

- Não vai dividir a conta? - Mike resmungou. - Onde está seu feminismo agora? Não querem igualdade? Por que não lutam para que o serviço militar seja obrigatório para mulheres também, hein?

- Mike, você realmente não faz ideia do quanto está sendo patético, não é? - Sam bradou, enfurecida.

- Estou falando algumas verdades incômodas, apenas isso.

Sam pagou a conta, e seguiram em silêncio no carro até a mansão, ao entrarem na casa, Mike tomou a mão de Sam.

- Me desculpe, eu me alterei um pouco por causa das bebidas, eu não queria te ofender.

Sam soltou sua mão.

- Eu estou acostumada a ouvir ofensas suas, mas as meninas não precisavam conhecer esse seu lado preconceituoso, não acha?

- Preconceituoso? Tudo é preconceito para vocês agora? Não posso nem dar minha opinião nesse país de merda que já surgem os fiscais do politicamente correto.

- Pelo visto você só estava guardando isso aí dentro. - Sam fez menção de ir para as escadas, sendo parada por Mike, que a segurou pelos ombros, a virando.

- Espere. Não quero que durma chateada comigo, você me desculpa? - Mike aproximou-se de Sam, quase a beijando.

- Do que adianta desculpar? Daqui a pouco você fala alguma asneira de novo. Apenas saiba que nunca mais sairei com você.

- Eu te trato com tanto carinho, você poderia retribuir um pouco. - Mike a abraçou, contra sua vontade, e tentou beijá-la. Sam tentou desvencilhar, mas ele a segurou mais forte.

- Mike, é melhor você me soltar.

- Eu te amo, Sam, você sabe que te ainda te amo.

- Então faça a desprogramação química e seja livre, dinheiro para fazer isso não falta, agende um horário o mais rápido. Ou então conheça outras pessoas.

- Não tem nada a ver com programação, eu sempre te amei, mesmo antes disso tudo.

- Mike, você bebeu, não quero mais conversar com você, me solte, quero dormir.

- Eu já estou ótimo, vamos lá, me dê uma chance. - Mike continuava prendendo Sam, que o empurrava pelos ombros.

- Você teve oito anos de chances, me deixe ser feliz com Theo agora, procure outra pessoa.

- Sam, você teve a mesma criação religiosa que eu tive, no fundo você sabe que está tudo errado, que isso é imoral, e nem um pouco natural, o certo é homem e mulher, foi assim que Deus quis que as famílias surgissem, você sabe que está errada.

Sam o empurrou, conseguindo sair de seus braços, o fitava enfurecida.

- Errada? Sabe o que é errado? Eu estar aqui tendo essa conversa idiota com você, depois de uma noite bebendo e me divertindo, enquanto Theo está sozinha num quarto de UTI, sedada, porque teve uma convulsão quando descobriu que amputaram sua mão, isso que está muito errado!

- Ela vai se acostumar, assim como você se acostumou com sua perna.

- Olha quem está dizendo isso, a pessoa que não me deixava tirar a roupa porque não queria ter que encarar minha perna artificial, belo exemplo você, não é mesmo? Você é um bom hipócrita!

- Não tenho obrigação em sentir tesão por um pedaço de metal.

Sam bufou irritada, ensaiou falar algo, mas desistiu e subiu as escadas com passadas firmes.

Acordou na manhã seguinte com uma forte dor de cabeça, passou na cozinha apenas para beber água, e seguiu para o hospital.

Entrou na UTI e viu Theo dormindo virada para o outro lado. Aproximou-se devagar, olhou demoradamente as cicatrizes na nuca e lateral da cabeça, onde o cabelo voltava a crescer. Correu levemente seus dedos pelas extensas cicatrizes, até que Theo abriu os olhos, num susto rápido.

- Desculpe, não queria te acordar. - Sam disse.

Theo ficou ainda algum tempo assim, apenas de olhos abertos, sonolenta. Tentou virar-se para cima, sendo ajudada por Sam.

- Bom dia, recruta. - Lhe deu um beijo na testa. - Está melhor?

Não houve resposta.

- Acho que você ainda não voltou. Vou descer e pegar um café e algo para comer, já volto.

- Sss

Sam largou a porta, e voltou ao lado de Theo.

- Você estava me chamando?

Theo assentiu com a cabeça.

- Achei que você não estava aqui. - Sam disse entre um sorriso aberto. - Você estava tentando falar meu nome?

Theo meneou que sim.

- Depois eu pego o café, vou ficar um pouco com você.

Theo fez um gesto com o indicador, pedindo a tela.

- Você quer escrever? Vou colocar a tela na sua mão.

"Me conte" - Theo escreveu.

- Contar o que?

"Tudo"

- Tudo que aconteceu nesse tempo em que você estava em coma?

Theo concordou.

- Ok, por onde começo?

"Mike" - Escreveu.

- Ah, Mike. É, acho que devo explicações. - Sam sentou na cadeira ao lado, segurando e afagando a mão de Theo. - Quando acordei do transplante, Mike foi a única pessoa que pude contar, ele esteve ao meu lado o tempo todo, e os primeiros dias foram difíceis, ele foi uma boa companhia.

Theo franziu a testa, e ergueu a mão, pedindo uma pausa.

- Quer que eu pare de falar?

Theo negou, movendo a cabeça. E desenhou um coração na tela.

- Coração? Ah, você quer saber como consegui um coração?

Theo assentiu.

- Graças à sua carta de despedida, o administrativo do hospital leu a carta e entrou em contato com uma ONG que ajuda refugiados, me colocaram no topo da lista de transplantes, e aqui estou eu, com um coração de verdade. - Sam sorriu. - E sabe qual foi a primeira coisa que aconteceu quando colocaram esse coração em mim?

Theo respondeu que não.

- Eu enchi de você.

Theo sorriu de leve.

- Bom, eu fiquei alguns dias aqui no hospital, Lindsay veio e passou um tempinho também, e eu ainda estava internada quando liberaram sua casa para nosso uso, então Lindsay e Mike foram para lá, porque estavam pagando hotel.

Sam suspirou antes de prosseguir.

- Eu sei que você não gosta dele, mas está tudo bem, ele está apenas morando lá, me fazendo companhia eventualmente. E agora está trabalhando como motorista na Archer, eu pedi a Claire que o contratassem. Ah, e eu estou indo todas as tardes para lá também, Claire tem me ensinado tudo sobre a Archer biotecnologia, também tenho conversado com outras pessoas, mas os conselheiros não gostam muito de mim. Eu não ligo, já participo das reuniões, e até arrisco algumas perguntas e sugestões. Tem dois caras lá que não gostam muito de nós, Sandro e Stefan, eles são meio caladões, às vezes até um tanto grosseiros comigo, mas não me intimidam, eu estou ficando cada vez mais a par dos negócios, e quando você melhorar poderemos conversar melhor a respeito.

Theo ouvia tudo atentamente, mas sem maiores movimentos ou interações.

- Ãhn... O que mais... - Sam coçava a testa. - Meu pai veio nos visitar uma vez, Lindsay veio ao todo três vezes, minha mãe veio uma vez também. E sua vó Amelia veio da Suíça te visitar uma vez, mas não pode ficar muito tempo porque ela toma conta de um filho com problemas de saúde, acho que ele tem alguma deficiência mental, não é?

Theo concordou, balançando a cabeça.

- Ela deixou para você um canivete, que disse ter sido do seu avô Daniel. Ele morreu há muito tempo?

Theo ergueu quatro dedos.

- Quatro anos, ok. Você recebeu visitas de alguns colegas da faculdade e do basquete, Claire também veio te ver algumas vezes, ela cuidou da sua segurança, e tem me orientado, porque estava um tanto perdida nesse mundo de Theo. - Sam riu.  - Conversei algumas vezes com Levon, ele disse que sente sua falta. O pessoal que trabalha na sua casa também está com saudades, eu trouxe Marcy e Lucian para te visitar uma vez. Minhas companhias constantes são Letícia e Daniela, que vem quase todos os dias aqui. Letícia coitada, largou o segundo emprego, para poder ficar mais tempo com você, eu gosto dela, e da namorada também, agora entendo porque você me disse que tinha tanto carinho por ela, não senti ciúmes em momento algum, mesmo sabendo que vocês já namoraram. Bom, o que mais você quer saber?

Theo ergueu a mão, tocando o rosto de Sam, o acariciando sem pressa.

- Eu colocava sua mão em meu rosto todos os dias, para sentir teu calor em mim, para saber que você estava aqui, e que ainda tinha você comigo. Hoje é a primeira vez que sua mão está em meu rosto me fazendo carinho. - Sam se emocionava. - Bom, você quer que eu fale de mim?

Theo assentiu.

- Deu tudo certo com o transplante, no início eu apenas passava o maior número de horas possíveis aqui nesse quarto, sem fazer nada. Depois comecei a me dedicar à Archer, e também passei a usar seu presente, estou pintando aqui ao seu lado todas as manhãs, eu tenho pintado os lugares onde passamos nossas noites.

Theo sorriu.

- Gostou? Eu prometi a mim mesma que te daria orgulho quando acordasse, estou me esforçando, não acertei sempre, mas juro, estou me esforçando. Ok, próximo tema.

Theo voltou a escrever.

"Voz"

- Sua voz não voltou por conta de sequelas do seu acidente, mas doutor Franco está programando os nanobots, ele está esperando você estabilizar para fazer uma nova cirurgia, talvez você volte a falar em muito breve. Mas não se force a falar agora, o fonoaudiólogo vai cuidar disso por enquanto.

"Alta" Theo escreveu.

- Não tem previsão ainda, mas acredite, estou enchendo o saco de todos os médicos possíveis para tirar você daqui o quanto antes. Me comprometi a montar uma super estrutura de UTI na sua casa para te receber, mas não vão te liberar antes dessa cirurgia, então temos que ter paciência.

Theo balançou a cabeça com desânimo.

- Aguente firme, você está há dois meses aqui, em alguns dias estará de volta à sua casinha. A propósito, estou ocupando seu quarto, espero não se importar.

Theo sinalizou que não.

- Quando eu levar você para casa, você ficará num quarto no térreo, para facilitar sua vida, mas seu quarto estará lhe aguardando, ok? Bom, já enchi você de informações, não quero te deixar confusa nem agitada, então vamos fazer uma paradinha. Posso descer para pegar um café?

Theo ergueu dois dedos.

- Você ainda não pode tomar café, mas já está começando a se alimentar por via oral, eu sei que é um saco comer líquidos, mas as coisas irão evoluir devagar, você ficou muito tempo sem se alimentar normalmente, e ainda tem todas essas sondas em você, que vão ficar por aí por um bom tempo.

Theo escrevia algo lentamente.

"Odeio sondas"

- É, eu imagino, deve ser desconfortável esses tubos todos saindo do seu corpo, mas garota, você tem ideia do que já superou? Quase decretaram sua morte umas cinco vezes, seu cérebro estava paradinho, você teve infecção urinária, renal, intestinal, e urinária de novo, teve duas pneumonias, eu afundei o banco da capela do hospital, de tanto que orei por você, acendi umas quarenta velas, fora as missas que encomendei em nome da sua melhora.

Theo riu.

- E eu sei que tudo valeu a pena quando finalmente ouço o som da sua risada.

Sam beijou sua mão, depois deu um beijo demorado em seu pescoço.

- Eu te amo, Theodora. - Sam sussurrou, e ergueu-se.

Theo apontou para seu próprio peito, e depois para Sam.

- É, agora eu sei.

***

Nos dias seguintes, Theo continuou oscilando entre períodos de consciência e inconsciência, às vezes passava horas alheia ao mundo. Ganhou mais independência com a troca da máscara de oxigênio por um fino tubo abaixo de seu nariz. Fazia fisioterapia duas vezes por dia, e seu estado clínico melhorava a cada dia.

- Vou para casa, ok? - Sam aproximou-se do leito no início da noite, ela costumava fazer dois turnos no hospital: de manhã e à tardinha, depois de passar a tarde na Archer.

Theo balançou a cabeça, concordando.

- Você sabe que todo dia levo um pouquinho de você comigo quando saio daqui, não sabe? Eu fico contando as horas para voltar para o hospital de manhã.

Sam curvou-se por cima da cama, lhe dando um beijo demorado na testa. Estava já se erguendo quando mudou de ideia, encarou Theo com um sorriso arteiro, e lhe beijou suavemente os lábios, a pegando de surpresa.

Theo lançou um suspiro e abriu os lábios, a convidando para continuar o beijo. Sam não hesitou, prosseguiu um beijo tímido, mas tão quente e reconfortante, que despertou todo o restante do amor e desejo que sentia, e estivera em segundo plano por mais de dois meses, tudo cuidadosamente guardado em seu novo coração.

Sam sabia desde o momento em que havia despertado do coma que Theo estava de volta, mas agora, pela primeira vez, ela sentia que sua namorada estava de volta.

Cessou o beijo, mantendo seu rosto próximo, percebeu Theo abrindo os olhos devagar, sabia que aquele era um momento importante para ela também. Ela bem que tentou, mas acabou permitindo que a as sensações explosivas se manifestassem externamente.

Theo percebeu, e correu sua mão pelo rosto de Sam, o enxugando. Inclinou-se e a beijou novamente. Recostou-se na cama respirando rapidamente.

- Cuidado com os excessos, mocinha. - Sam brincou, passando seu dedo abaixo e acima dos lábios de Theo, enxugando.

Theo colocou o indicador no próprio peito, e depois apontou para Sam.

- Eu também te amo.

Dois dias depois, Letícia foi visitá-las no meio da manhã.

- Bom dia, moças. - Letícia entrou no quarto com dois copos de café. - Trouxe um café para você.

Theo ergueu o polegar e sorriu.

- Não é para você, por enquanto contente-se com seu suco de lima e de laranja, e as pastinhas super apetitosas. - Letícia entregou o copo à Sam.

Theo fez um gesto com a mão, abrindo e fechando os dedos.

- Muito? - Sam perguntou, tentando entender.

Theo sinalizou que não, e continuou fazendo gesto.

- Cheio? - Sam arriscou. - O que isso significa?

Ela passou então a sinalizar com o dedo, pedindo a tela.

- Ok, pode escrever.

"Fome"

- Não podemos alimentar você, sua dieta é bem restrita.

Theo voltou a fazer o gesto com os dedos.

- Amor, suas refeições são controladas, daqui a pouco deve vir algo para você comer, ou beber. - Sam explicava, carinhosamente.

Theo suspirou com tristeza.

- O que você gostaria de comer? - Sam perguntou.

- Não vale bife com batatas fritas. - Letícia completou.

"Frutas" - Escreveu.

- O suco de laranja não serve?

Theo negou.

- Eu vou conversar com o nutricionista, vou perguntar se ele libera mais algum suco para você, ok?

Theo balançou a cabeça negativamente, e bateu com o indicador na tela.

"Frutas"

- Prometo conversar ainda hoje com eles, combinado?

No dia seguinte, Sam chegou no quarto com uma sacola cheia de pequenos potes, largando ao lado da cama.

- Bom dia, recruta, trouxe uma coisinha para você. - Sam deu um beijo rápido em seus lábios, e passou a mexer na sacola, tirando os potes.

Theo correu a mão pela lateral da cama, e ergueu o encosto, estava curiosa.

- Conversei ontem com o nutricionista, ele disse que você não pode comer frutas ainda, mas adicionou mais dois sabores de sucos ao seu cardápio.

Theo suspirou desmotivada.

- Ele disse que você poderia até mastigar alguma fruta, mas não pode engolir. Eu achei um tanto sádico isso, por isso descartei essa possibilidade. Porém... - Sam fazia mistério.

Theo voltou a se animar.

- Você pode sentir o gosto das frutas de uma forma um tanto... Divertida.

Theo franziu as sobrancelhas.

- Eu trouxe algumas frutas, e vou comer todas.

Theo ergueu uma sobrancelha.

- Você gostaria de ganhar um beijo depois de cada fruta?

Theo balançou a cabeça com animação, concordando.

- Ótimo. Hum... Não vou dizer o nome da fruta, você vai ter que adivinhar.

Theo assentiu.

Sam comeu três pequenas frutinhas, quando terminou, sentou ao lado de Theo, na cama, e lhe beijou.

Após um voluptuoso beijo doce, Theo escreveu na tela.

"Pitanga"

- Essa foi fácil. - Sam brincou. - Quer continuar?

Theo balançou a cabeça empolgada.

- Bom, eu não sei que fruta é essa, mas parece gostosa.

Sam deu duas mordidas na fruta, e novamente beijou Theo quando terminou de comer.

"Carambola" - Theo escreveu.

- Deve ser, já ouvi falar dessa fruta. Essa também é meio estranha, mas já comi antes.

Sam repetiu o ritual, e prontamente Theo escreveu.

" Kiwi"

- Muito bom, você é uma aluna aplicada, recruta. Quer mais?

Theo concordou.

Sam comeu algumas frutas, e ao fim beijou Theo. Mas o beijo continuou, Sam correu sua mão por trás da nuca de Theo, e o beijo criou vida própria. Depois de algum tempo, ambas finalizaram ofegantes. Sam ajeitou o tubo no rosto de Theo.

- Uou. - Sam exasperou, ainda tomada pelas sensações fortes que aquele beijo lascivo havia provocado.

Theo também parecia um tanto perdida.

- E então, ainda lembra qual fruta provou, ou quer mais? - Sam provocou.

Theo parou com a mão sobre a tela, tentando se concentrar.

"Morango" - Por fim escreveu.

- É, morango. Pelo visto é sua fruta preferida. - Sam riu.

Theo abriu um sorriso, daqueles que atingiam o coração de Sam como uma bala.

Naquela noite nenhuma das duas teve dificuldade para dormir, Sam em sua enorme cama confortável na mansão, e Theo em seu leito de hospital, num quarto de luz baixa.

Acordou no meio da madrugada com um enfermeiro manuseando seu braço, parecia tentar colocar outro acesso intravenoso. Sentiu dor no local, e puxou seu braço, um tanto assustada.

- Não puxe o braço, é pior, posso fazer um grande estrago.

Instantaneamente Theo reconheceu a voz e entrou em pânico, era Elias.

 

 

Basorexia: s.f.: grande desejo de beijar alguém.

Capitulo 9 - Desconstrução por Cristiane Schwinden
Capítulo 9 - Desconstrução

 

- Sentiu saudades, sobrinha? Eu senti. Mas não irei matar as saudades hoje, quem sabe outro dia.

Theo se debateu o quanto pode, sua voz não saia, seu lado esquerdo estava parcialmente paralisado, não tinha forças, nem saída. Tentou buscar o botão que chamava atendimento, mas Elias segurou seu pulso com força.

- Está pensando que aqui tem botão azul? Esqueça, sua única chance de continuar viva é sendo uma boa garotinha, e me deixar fazer tudo que vim fazer.

Theo continuou se debatendo, em pânico. Elias usava roupas verdes de enfermagem, havia previamente adulterado as câmeras que podiam capturá-lo.

- Escute, vai ser rápido, só quero coletar seu sangue e sua medula óssea, por enquanto isso vai me bastar, mas eu volto outro dia para te buscar, você é uma garota preciosa. - Elias continuava segurando firmemente seu pulso.

- Posso te soltar? Colabore comigo e deixo você em paz em alguns minutos, eu prometo.

Theo balançou a cabeça, em positivo, sua mão tremia.

Elias colheu duas ampolas de sangue de seu braço, guardando cuidadosamente numa pequena maleta.

- Isso vai doer um pouco, mas você estará melhor amanhã. Consegue se virar? Preciso que fique de lado.

Theo virou-se com esforço, Elias tirou seu cobertor, baixando seu short e sua calcinha.

- Vou fazer uma punção na sua bacia, e remover um pouco de sua medula do interior do osso. - Elias preparava o local na lateral do seu corpo, um pouco abaixo da cintura. - Você vai ficar bem, não se preocupe, não lhe fará falta.

Theo se retraiu com a dor da grande agulha que lhe foi penetrada, até o interior do osso. Acoplou posteriormente uma seringa no encaixe do aparato da agulha, sugando lentamente um líquido viscoso avermelhado. Tentou gritar, mas não saia palavra alguma.

- É o suficiente. - Elias guardou também o conteúdo recolhido na maleta, a fechando. - Se eu fosse você, não contaria para ninguém que estive aqui, para sua própria segurança.

Theo voltou a posição inicial, Elias subiu sua calcinha, fazendo um gracejo malicioso.

- Se no nosso próximo encontro você estiver sem essa sonda urinária, acho que poderemos brincar um pouco. - Correu a mão por sua perna, subindo até seus seios.

Theo apenas respirava rápido, com um semblante de nojo e medo. Elias a cobriu, e saiu sorrateiramente, em silêncio, apagando a luz. Ela ficou ainda alguns minutos em choque, paralisada, não sabia o que fazer. Apertou o botão de emergência, quando a enfermeira chegou, fez o gesto com a mão que significa dor.

- Dor onde?

Theo descobriu-se, e mostrou a região onde havia sido perfurada.

- O que foi isso? - A enfermeira olhou de perto, sem entender. - Quem fez isso?

Ela saiu do quarto para chamar ajuda, quando voltou, encontrou Theo tendo uma convulsão.

Quando Sam chegou de manhã, lhe deu bom dia e um beijo na testa, mas Theo continuou dormindo. Sam logo começou a pintar ao seu lado, despreocupadamente. Assustou-se com a entrada afobada de Letícia no quarto.

- O que aconteceu com Theo? - Letícia a indagou, se aproximando da cama.

- Como assim? Ela está dormindo.

- Não, ela teve uma convulsão de madrugada, e apareceu com um furo na coxa.

- O que?? - Sam levantou-se abruptamente do sofá, descobrindo o cobertor de Theo. - Onde?

- Aqui. - Letícia mostrou o hematoma com a marca do furo no centro.

- Por que a furaram aqui? Eu não fui avisada desse procedimento. - Sam dizia irritada.

- Não sei, ninguém sabe de nada.

- Ninguém? Como ninguém? Que bagunça é esse hospital?

- Não foi ninguém do hospital, a princípio, eu li no prontuário que ela pediu ajuda de madrugada, disse que estava com dor e apontou esse furo, depois teve a convulsão.

- Ela teve uma convulsão?

- Você não sabia? - Letícia também estava agitada.

- Não, achei que estava dormindo. Temos que descobrir o que aconteceu, como pode essa menina aparecer com um furo no corpo assim do nada? E algo causou a convulsão, ela pode estar com alguma infecção!

- Fique aí, eu vou verificar, ok?

Uma hora depois, e nada de Letícia voltar. Sam andava pelo quarto, baratinada. Percebeu Theo de olhos abertos.

- Theo? Você está aí?

Theo balançou a cabeça negativamente.

- Me entende?

- Theo assentiu.

- O que aconteceu? O que aconteceu essa madrugada? - Sam tentava se controlar, para não a agitar.

Theo apenas moveu a cabeça para o lado, estava grogue por conta da convulsão.

- Amor, apenas responda sim ou não. Teve alguém estranho ou suspeita essa madrugada no seu quarto?

Theo ergueu o polegar.

- Essa pessoa estranha fez algo no seu quadril?

Ergueu novamente o polegar.

- Era alguém que trabalha aqui?

Theo negou.

- Era alguém que você conhece? Conseguiu identificar?

Theo concordou.

- Espera.

Sam colocou a tela sob sua mão, para que ela escrevesse.

Com dificuldade, Theo escreveu letra a letra.

"Elias"

Sam tomou um susto quando entendeu o que estava escrito, cobrindo a boca com espanto.

- Elias esteve aqui? Tem certeza?

Theo assentiu.

- Ele injetou algo em você?

Negativa.

- Por que ele te furou? Para te torturar?

Outra negativa. Theo estava sonolenta, os olhos queriam se fechar.

- Ok, descanse, Letícia já está verificando isso, vamos ver as imagens de vigilância e redobrar a segurança, fique tranquila, vou cuidar disso agora.

Theo procurou a mão de Sam, a segurando.

- Quer que eu fique?

Theo concordou.

- Eu ficarei, durma um pouco, eu prometo ficar o tempo todo aqui do seu lado, combinado?

Letícia retornou pouco depois, não trazia novidades.

- As câmeras foram desligadas, ninguém sabe o que aconteceu, só sabem que alguém coletou sangue e medula óssea.

- Medula?

- Sim, da crista ilíaca, na bacia. Quem faria uma maldade dessas? Isso dói pra caramba, geralmente é feito com anestesia geral ou epidural.

- Elias. - Sam ergueu a tela, mostrando o nome escrito.

- Você acha que foi ele?

- Theo me disse. Ela acordou ainda meio dopada, mas escreveu o nome dele na tela. Ele pode ter feito outras coisas com ela, temos que examiná-la.

- Ela já foi examinada, aparentemente foram apenas essas duas coisas, e o susto que essa menina deve ter levado. Mas por que raios esse louco quer sangue e medula de Theo?

- Lembra aquilo que eu falei sobre Theo ser um clone? Tem a ver com isso, mas é complexo demais para te explicar agora, e é melhor você nem entrar nisso, porque Elias é capaz de tudo, não quero envolver outras pessoas.

- Ok, ok, esse mistério de novo. - Letícia exasperou, e se atirou no sofá.

Sam continuava sentada na cadeira ao lado do leito, segurando a mão de Theo.

- Eu não quero sair daqui hoje, você pode me ajudar?

- Claro, vou tentar achar alguém para me substituir no plantão.

- Vou pedir para Claire aumentar a segurança. - Sam corria seus dedos pela testa e cabelos de Theo, a fitando. - E vou conversar com Doutor Franco, ele precisa fazer a cirurgia para que Theo recupere a voz.

***

Três dias após o incidente com Elias, e Theo voltava de uma nova neuro cirurgia, era esperada uma melhora não apenas na fala, mas também na mobilidade do lado esquerdo.

Letícia e Sam aguardavam que Theo acordasse, estavam espojadas no sofá cinza.

- O que você acha que será que primeira coisa que Theo vai falar? - Letícia perguntou, tentando espantar o sono.

- Fome? Café? Bife?

- É possível. Ou dor, ela ainda está com dor no local da punção que Elias fez.

- Nem me fale nesse homem. - Sam bufou. - Theo fica estranha quando toco nesse assunto, mas acho que ele a molestou, ou a ameaçou de algo.

- Pelas coisas que você me falou, eu não duvido. Sempre achei que esse tio Elias era um nojento, você precisava ver a forma como ele olhava para Theo.

- Ele frequentava a casa dela?

- Geralmente nas festas de família.

Theo acordou, se mexendo lentamente na cama.

- Bom dia, mocinha. - Letícia a cumprimentou, as duas se aproximaram do leito.

- É boa noite, Lê. - Sam a corrigiu.

- Nossa, é mesmo, eu nem percebi que havia anoitecido.

- Theo? Está aí?

A única reação de Theo foi franzir o cenho, parecia incomodada.

- Está com alguma dor?

- É a perna?

Theo apenas se mexia incomodada quando alguém falava algo.

- Tem algo estranho acontecendo. - Sam se dava conta.

- Ela está se irritando com nossa voz, venha aqui. - Letícia levou Sam para fora do quarto.

- O que você acha que aconteceu? - Sam perguntou, com preocupação.

- Talvez seja ainda efeito dos anestésicos, mas parece que algo deu errado.

- Precisamos falar com Doutor Franco. - Sam sacou o comunicador e tentou falar com o médico, mas não foi atendida, mandou uma mensagem.

- Nada?

- Vamos esperar ele responder. Se Deus quiser isso é apenas algo passageiro, daqui a pouco tudo volta ao normal.

O médico respondeu de madrugada, dizendo que iria ao hospital pela manhã. Quando chegou, ele a examinou, e suas feições não pareciam felizes com o resultado.

- Venham ao meu consultório. - O médico de cabelos grisalhos desgrenhados convocou.

As duas sentaram-se apreensivamente nas cadeiras em frente à mesa do médico, que conferia alguns exames em sua tela.

- Os nanobots agiram de forma desordenada, ainda não sabemos o que aconteceu. - Finalmente ele disse.

- Então não houve melhora?

- Na verdade houve uma piora, ela não consegue processar o meio externo, por isso fica agitada quando falam ao seu redor, ela ouve, mas não entende.

Sam correu a mão pelos cabelos, desapontada.

- Como isso pode ser possível? - Letícia se exaltava. - Vocês passaram dias e dias planejando essa cirurgia, e programando os nanobots, como pode dar tudo errado?

- Os engenheiros geneticistas estão verificando. - Doutor Franco dizia calmamente. - Confesso que nunca havia testemunhado tamanho problema com os nanobots.

- Espera... - Sam se dava conta de algo. - Os nanobots são programados baseados em que? No DNA de Theo?

- Sim.

- Deve ser isso. - Sam sacudia a cabeça. - O DNA dela é diferente.

- Como assim?

- Doutor, essa sala é um ambiente seguro?

- É sim, não há vigilância eletrônica aqui dentro. Mas o que você quer dizer com diferente?

- Não me pergunte como, mas Theo é um clone imperfeito, seu DNA é uma bagunça.

- Clone? A clonagem humana ainda é proibida na Nova Capital.

- Você sabe de quem ela é filha, não sabe?

- Isso explica várias coisas, Doutor Franco, inclusive o problema da imunidade e da coagulação. - Letícia completou.

- Digamos que isto seja verdade, onde está a original? O código original seria de grande ajuda, poderíamos programar os nanobots conhecendo o genoma original.

- Está morta. - Letícia respondeu desapontada.

- Mas eu sei onde estão os restos mortais.

- Onde?

- Lê, você iria comigo até lá? É em outro estado.

- Claro. Se for para consertar esse estrago, vou até a China plantando bananeiras.

Sam despediu-se de Theo no início da tarde, sem falar nada, para não a incomodar. Lhe deu apenas um longo beijo na testa, Theo seguia alheia ao mundo.

Duas horas depois, Sam e Letícia pousavam num luxuoso helicóptero da Archer na Ilha das Peças, com todas as credenciais e senhas necessárias para acessar aquela fatídica sala dos horrores. Era inevitável para Sam relembrar aquela noite de aventuras e revelações, a última antes do tiro.

- Letícia, acho que não tenho como preparar você suficientemente para o que você verá aqui dentro, é perturbador, o que eu vi aqui me assombra até hoje.

- Então você já esteve aqui?

- Eu e Theo, mas não posso me alongar nesse assunto. Além dos restos mortais numa gaveta, você verá cinco tubos com os clones de Theo, então prepare-se.

Entraram na sala fria sob os olhares dos seguranças, mal fecharam as portas e Letícia exclamou um grito assustado.

- Eu avisei que era perturbador. - Sam evitava olhar diretamente para os clones.

- Meu Deus... Estão todas vivas?

- Sim, e estou esperando Theo ter condições de conversar para decidirmos o que fazer com essas irmãzinhas.

Letícia andava pela sala, olhando cilindro por cilindro, boquiaberta.

- Você acha que elas sobreviveriam fora dos tubos?

- Acho que não, elas são mais defeituosas que Theo. - Sam respondeu.

- Você consegue se imaginar cercada por seis Theos? - Letícia riu.

- Acho que me apaixonaria por todas. - Sam também riu, quebrando o clima inicialmente tenso.

- Ok, vamos ao que viemos fazer, estou incomodada com esse monte de Theos nuas ao meu redor, onde fica a gaveta?

Sam foi até o final da sala, abrindo a gaveta que parecia um cofre. Ambas removeram o conteúdo que estava dentro de uma caixa acrílica. Guardaram em uma maleta térmica rapidamente, estavam desconfortáveis manuseando aquele pequeno cadáver.

- Tem algo mais aqui. - Letícia percebeu.

- É uma flash, deve ter informações importantes aqui dentro. - Sam abriu uma caixinha onde havia um pequeno chip.

- Vamos levar também, talvez tenha informações sobre o genoma original e sobre a clonagem.

- Ãhn, ok. - Sam guardou no bolso.

- Sam, você pode me responder uma coisa? - Letícia a fitava, pensativa.

- Não prometo responder.

- Por que isso tudo? - Ela correu a mão pelo ar, se referia aos clones.

- Ganância, Lê. Pura ganância do senhor Benjamin Archer.

- Uma pena você não ter conhecido seu sogro, era um amor de pessoa.

- Sério?

- Claro que não, Ben era um babaca egoísta. Vamos sair dessa sala, está me dando calafrios.

Enquanto voavam de volta para San Paolo, Sam resolveu verificar o conteúdo da flash com seu comunicador.

- Está criptografado. - Letícia percebeu.

- Espera, fiz alguns amigos no setor de TI da Archer. - Sam digitou algumas coisas no comunicador. - Pronto, agora é só esperar.

Onze minutos depois.

- Pronto, está decodificado. - Sam começava a ler as informações. - Eu sabia, eu sabia!

- O que?

- Todas as 14 crianças nasceram por cesariana no dia 17 de abril de 2098.

- Faz todo sentido.

- O que faz sentido?

- Você nunca desconfiou de nada? Faz muito mais sentido Theo ser ariana, ela não tem nada de peixes, ela tem toda aquela impulsividade e tal.

- Podemos voltar ao que realmente importa, ou quer conversar sobre astrologia?

- Prossiga.

- Imogen foi a barriga número 13, tem um parêntese ao lado de seu nome, "neutralizada", tem o nome das outras mães aqui, e quatro delas também tem essa observação ao lado. - Sam ia narrando.

- Você acha que neutralizada quer dizer...

- Sim, queima de arquivo. - Sam disse de forma séria.

- Então restam nove mães vivas, você quer tentar localizá-las?

- Não vejo utilidade no momento, vamos focar nessa questão do genoma, acho que já temos tudo que eles precisam para uma nova cirurgia.

- Mas talvez essas mulheres corram risco. - Letícia disse.

- Eu sei, e acho que Benjamin matou Imogen por conta disso, talvez ela estivesse ameaçando contar o que sabia sobre esse projeto.

- Hum.

Chegaram a noitinha em San Paolo, entregaram tudo ao setor responsável no hospital, Sam foi para casa, e Letícia para um plantão.

A nova cirurgia seria em quatro dias, no sábado à noite Letícia e Daniela visitaram a mansão de vidro, as três se reuniram ao redor da piscina, onde bebiam e conversavam descontraidamente.

- Como você aguenta morar com esse porco chauvinista? - Daniela indagou Sam, estavam nas espreguiçadeiras.

- Não é tão ruim assim, Mike é boa companhia na maior parte do tempo.

- Eu não consigo acreditar nisso, mas tudo bem, você namorou com ele por oito anos, deve estar anestesiada para tanto preconceito e machismo.

- Porque já fui como ele, então sei como a mente dele funciona. - Sam explicava.

- Você ainda tem muita coisa conservadora aí dentro, Samantha. Já tive vontade de te pegar pelos ombros e te sacudir algumas vezes. - Letícia brincou.

- É porque está arraigado aqui dentro, mas aos poucos estou desconstruindo.

- Desconstruindo? Essa é uma ótima palavra, foi Theo que te ensinou?

- Foi sim, ela foi o catalisador dessa minha evolução.

Um silêncio reflexivo tomou conta por alguns segundos, Letícia voltou a falar.

- E se não der certo de novo?

- Será apenas uma batalha perdida, e já perdemos tantas outras batalhas. - Sam respondeu, fitando a água calma na piscina.

- Se esse quadro não for revertido, Theo estará cega, muda, e tecnicamente surda, seria uma situação delicada.

Sam sentiu um nó esmagando sua garganta, e não conseguiu responder.

- Essa noite sonhei que estava assistindo um dos jogos de basquete de Theo. - Daniela disse.

- Ela não era uma das melhores do time, mas quando estava inspirada... Ninguém segurava. - Letícia comentou.

- Não mesmo, ela saia derrubando todo mundo que se metesse na sua frente. - Daniela riu, perceberam o semblante triste de Sam.

Letícia saiu de sua espreguiçadeira, e deitou-se ao lado de Sam.

- Venha cá, você está precisando de um abraço e um pouco de cafuné. - Letícia trouxe Sam para seu colo, afundando seus dedos em seus cabelos, carinhosamente.

Longos minutos depois, Sam voltou a falar.

- Está tudo errado, não está? - Sam disse, com a voz baixa.

- Sim, tudo de cabeça para baixo, Theo caprichou na reviravolta.

- Não foi culpa dela.

- Agora seria um bom momento para você contar por que ela tentou se matar.

Sam suspirou pesadamente, decidindo o que fazer.

- Ok, eu volto já.

Sam saiu da área da piscina, entrando em casa. Retornou com um papel em mãos, entregando à Letícia.

- Mas tem sangue nesse papel.

- Tem sim, é a carta de despedida de Theo. Acho que você vai ter uma ideia do que aconteceu lendo isso. Leia os dois lados.

Letícia leu tudo atenciosamente, Daniela aproximou-se, sentando ao lado. Ao final, Letícia estava boquiaberta.

- Foi por você. - Letícia concluía.

- Ela não queria morrer, ela não queria ir embora, vocês não imaginam o quanto essa menina chorou antes de fazer isso, mas eu não sabia dos seus planos, era uma despedida.

Daniela terminava de ler.

- Caramba, ela te ama mesmo.

- É recíproco, Dani..oi o catalisador dessa minha evolucaoucos estou desconstruindo.

preconceito e machismo.

- Amor, se seu coração estiver prestes a parar, vou te ligar numa tomada, ok? - Daniela brincou com Letícia.

- Ótimo, não aguentaria carregar essa culpa, não.

- Pelo menos ela sobreviveu, e você também. Dos males o menor, o resto é nanobots e fisioterapia. - Daniela finalizou.

Sam arranjou pijamas para todas, acabaram dormindo na enorme cama de Theo, após algumas horas conversando, até serem vencidas pelo sono.

Desavisado, Mike abriu a porta do quarto de Sam no dia seguinte, assustando-se com a presença delas. Sam era a única acordada, estava no banheiro.

- Que baixaria é essa? - Exclamou, acordando as duas ao mesmo tempo.

- Não te ensinaram a bater na porta, não? - Letícia resmungou.

- Eu posso entrar no quarto de Sam quando eu quiser.

- Não pode, não. - Sam vociferou ao sair do banheiro. - Agora deixe de ser mal-educado e nos deixe a sós, você está constrangendo as meninas.

- Meninas? - Mike riu irônico.

- Saia, Mike, faça essa gentileza, deixe de ser desagradável. - Sam pediu.

- Você ainda não conhece meu lado desagradável. - Rosnou e saiu.

***

O dia da quinta cirurgia chegou, Theo havia voltado para o quarto no início da noite. Na manhã seguinte Doutor Franco aguardava que ela acordasse, ao lado de Sam e Letícia.

- Deixem as expectativas baixas, é melhor assim. - Ele as orientava.

- Eu já nem rezo mais para que ela volte a falar, se ela voltar ao estado que estava antes daquela cirurgia, já estará ótimo. - Sam disse.

Minutos depois Theo mexeu-se na cama, abrindo os olhos.

- Opa, alguém acordou. - Todos levantaram.

- Bom dia, recruta. - Sam tomou sua mão, a cumprimentando, mas não houve resposta.

- Theo? Sou eu, seu adorado médico, consegue me ouvir?

Theo continuava com um olhar vazio, que mudava lentamente de foco de vez em quando.

- Amor, se me ouve aperte minha mão.

Nada aconteceu.

- Ela não está aqui, mas talvez acabe voltando em breve. - Letícia disse, com decepção.

- Theo, olhe na direção da minha voz. - Doutor Franco tentava.

- Não deu certo... - Sam constatava, com um suspiro triste.

- Theodora, você está aí? É bom começar a falar, estou achando você muito quieta. - Letícia brincou.

Não havia reação alguma, nem sequer desconforto.

- Não desanime, continuaremos tentando. - O médico afastou-se da cama. - Vou falar com minha equipe, começaremos a desenvolver novas soluções ainda hoje.

- Mas que droga... - Sam atirou-se no sofá.

- É só mais uma batalha, lembra? Ganharemos outras. - Letícia a confortava.

- Retornarei à tarde, irei fazer alguns testes e examiná-la de forma mais minuciosa. - O médico despediu-se abandonando o quarto.

Letícia também foi embora logo depois, estava atrasada para o plantão das oito.

Sam ficou alguns minutos com o rosto enfiado nas mãos, desolada, sentia a situação regredindo cada vez mais.

- Bom dia, oficial.

 

 

Desconstrução: s.f.: base da transformação humana, quebrando paradigmas, desconstruindo dogmas, e questionando regras sociais para que possamos ir para o próximo estágio de uma liberdade que desconhecemos.

Capitulo 10 - Nepente por Cristiane Schwinden
Capítulo 10 - Nepente

 

- Theo?? - Sam ergueu a cabeça e olhou assustada na direção da cama.

- Eu adoro quando você fala meu nome. - Theo brincou, estava sonolenta e falando devagar, mas totalmente consciente, e com um sorrisinho arteiro.

- Você está falando! - Sam correu até ela, a fitando surpresa.

- Eu escutei vocês falando comigo, mas ainda não conseguia articular as palavras. - Theo falava lentamente, com pausas e dificuldade. - Na verdade ainda está estranho, parece que estou com a maior ressaca da minha vida.

- Oh Meu Deus, você está falando! Como é bom ouvir sua voz! - Sam começava a se emocionar.

- Me perdoe se eu sumir de repente, a sensação é que meu cérebro está com a bateria fraca, e pode desligar a qualquer momento.

- Não force nada, ok? Só fale se não tiver dificuldade. Ainda não estou acreditando que estamos conversando! - Sam já estava às lágrimas.

- Ah, não, manteiga derretida, não chore. - Theo a trouxe para perto, a puxando pela mão. - Venha cá.

- Deu certo... - Sam continuava chorando, sentou-se na cadeira ao lado, debruçando-se sobre o corpo de Theo. - Pedi tanto a Deus...

- Já estava na hora de começar a falar, não acha? Você estava tagarela demais. - Theo afagava sua cabeça.

- Eu estava te deixando confusa, não é? - Sam virou a cabeça, fitando Theo.

- Não, estou brincando com você. Às vezes eu saio do ar, mas não é culpa sua, eu ainda estou com alguns curtos-circuitos.

- Você está ótima, melhor do que nunca, e eu quero ficar conversando com você por três dias seguidos.

- Tudo bem, desde que seja na minha casa, eu não quero mais ficar aqui, não aguento mais hospital.

- É meu próximo objetivo, te levar para casa, só vou sossegar quando te colocar dentro de um carro.

- Eu não poderei andar tão cedo, não é?

- Tudo é possível, tenha paciência, eu farei tudo que estiver ao meu alcance para que você volte a andar um dia.

Theo abriu um sorriso lento, desceu sua mão e pousou dois dedos nos lábios de Sam, que entendeu suas intenções. Sam subiu e a beijou.

- Isso é bom. - Theo sussurrou, afagava sua nuca, com os rostos próximos.

- Melhor agora, com sua voz no meu ouvido.

- Sam? - Theo mudou de expressão, Sam se afastou.

- O que foi?

- Está mexendo, não está? Ou apenas acho que estou mexendo?

Theo abria e fechava os dedos da mão mecânica.

- Os dedos estão se movendo sim, sua mão está funcionando!

- Eu tenho mão de novo. - Theo parecia animada, fazia agora movimentos circulares, movia o punho também.

- A cirurgia pelo visto foi um sucesso. Aperte minha mão.

Lentamente, Theo segurou a mão de Sam, fechando suavemente.

- E eu sinto sua mão, eu tenho tato.

- Tem sim, eu falei que era uma ótima prótese.

- Como ela é?

- Branca com detalhes em preto e transparente. Por falar nisso, seu boné é azul com a frente branca, e não rosa e verde, desculpe, eu estava brincando com você.

- E só agora você me conta isso?

- Eu esqueci. E ele está pendurado atrás de você.

- Posso sair daqui com ele?

- Com certeza. Consegue erguer o braço esquerdo?

Fazendo esforço, Theo conseguiu levantar um pouco seu braço, e moveu os dedos.

- Funcionando. - Disse animada, mas o braço despencou.

- Machucou?

- Não, mas acho que vou precisar de alguns anos de fisioterapia.

- Acabou a pressa, Theo. Temos todo tempo do mundo.

- Era seu desejo, não era? Não ter pressa.

- Era sim, e aqui estou, tendo uma conversa despretensiosa com você, fazendo planos para o futuro.

- Como é estar com um coração de verdade de novo?

- Pacífico. Algumas funções Borg estão prejudicadas, outras pararam de funcionar, mas quem se importa? Esse não tem prazo de validade.

- É verdade que eu já estou aí dentro?

- Desde a primeira batida. - Sam a beijou novamente.

***

Theo recebeu várias visitas nos dias seguintes, Letícia passava horas ao seu lado colocando a conversa em dia, a melhora era visível, apesar das limitações e apagões, Theo sumia no meio da conversa de vez em quando, ou então não lembrava do que estavam conversando.

Finalmente a autorização para levar Theo para casa estava prestes a sair, Sam cuidava de todos os detalhes e contratações para que ela continuasse sua recuperação de forma domiciliar, uma UTI estava sendo montada em um dos quartos do andar térreo.

Mas Sam queria resolver uma pendência antes de tirá-la de dentro do hospital: contar sobre sua noite fugaz com Mike.

Mal dormiu na noite que antecedeu o dia em que contaria tudo, passou a manhã um tanto calada na UTI, andando pelo quarto, Theo percebeu sua agitação, a inquirindo no meio da tarde.

- Sam?

- O que foi, meu anjo?

- Sente aqui do meu lado.

Sam prontamente atendeu, sentando na cadeira ao lado do leito.

- Precisa de algo?

- Sim, duas coisas: água, e que você me conte por que está estranha.

- Eu não estou estranha.

- E a água?

- Ah, já pego.

Sam a ajudou a beber, e a erguer a cabeceira da cama.

- Você está preocupada porque vou para casa essa semana?

- Não, pelo contrário, estou aliviada, nós duas teremos mais conforto, acho que sua recuperação vai se acelerar em casa.

- Está tudo bem, então?

- Está sim, agora está.

Theo captou a entrelinha.

- Antes não estava?

- Estava, esteve, quer dizer, as coisas estão evoluindo bem.

- Amor, você anda tomando meus sedativos? - Theo sorriu.

- Theo, eu dormi com Mike. - Sam soltou de uma vez só, suas feições eram de pura angústia.

- Dormiu? - Seu sorriso desapareceu.

- Eu cometi um erro, acabei me deixando levar num momento ruim, e fizemos sexo.

- Você está fazendo sexo com Mike enquanto estou aqui?

- Não, não estou, foi uma única vez.

- Essa noite?

- Não, claro que não, faz mais de um mês.

Sam percebeu a mão de Theo tremendo, ela estava pálida.

- Por que você fez isso?

- Theo... - Sam suspirou em agonia. - Foi um momento de fraqueza, os médicos me diziam que você não iria acordar, eu estava me sentindo sozinha, e acabei...

- Então você ainda o ama?

- Não, não amo, eu amo apenas você.

Theo deu um sorriso torto, pesaroso.

- Você precisa se resolver com Mike, evidentemente algo ficou inacabado, e eu não quero ficar entre vocês. - Theo disse com frieza.

- Já está tudo mais que resolvido com ele, depois daquela noite eu deixei claro que nunca mais aconteceria nada parecido, e não aconteceu, Mike nunca mais encostou em mim.

Theo balançou a cabeça, decepcionada.

- Que droga, Sam...

- Você me perdoa? Eu me arrependi imediatamente, não quero segredos entre nós.

- Por que você está me contando isso?

- Porque errei, e estou tentando consertar.

- Errou com quem?

- Com você.

- Acho que você errou com você mesma, não comigo.

- O que você está tentando fazer?

- Por acaso você acha que me traiu?

- Sim.

- Não há traição quando não há relacionamento.

- Você diz... Entre nós? - Sam estava ainda mais confusa, e com um aperto no peito.

- E nós temos algo?

- Claro que sim.

- Não fui avisada, e acho que não quero ter.

- Theo... - Sam embargou a voz, estava destruída.

- O que você quer que eu diga? Você acaba de me contar que foi para a cama com um cara que eu odeio, e que você claramente ainda tem sentimentos, quer que eu fique feliz? - Theo ficava cada vez mais nervosa.

- Não, eu sabia que você ficaria decepcionada, mas foi um deslize, apenas um! Você nem estava acordada, eu não fiz mais nada depois disso, por favor, me entenda.

Theo fechou os olhos e recostou-se no travesseiro desolada.

- Você tem um problema com Mike, não comigo.

- Não tenho nada com ele... É você quem eu quero. - Sam começava a chorar discretamente.

- Onde foi?

- Deixa isso pra lá...

- Onde foi?

- No quarto.

- No meu quarto?

- Sim.

- Na minha cama?

- Sim...

- Então enquanto eu estava aqui me recuperando da merda de um tiro na cabeça vocês estavam transando na minha cama?

- Não foi planejado, aconteceu. - Sam dizia, envergonhada.

- Samantha, teus pais não te ensinaram o que é respeito?

- Foi um erro... Foi apenas um erro. Me perdoe, por favor.

- Você sabe o que eu devo fazer, não sabe?

- Não.

- Expulsar o casalzinho da minha casa.

- Eu só queria poder ficar perto de você... - Sam enxugava o rosto. - Mas tudo bem, eu entendo sua decisão, só por favor não me proíba de te visitar.

- Eu não expulsarei vocês, sabe por que? Porque minha mãe me ensinou o que é respeito. Eu nunca tiraria ninguém de dentro da minha casa.

- Ok...

- Só tente não foder com Mike na minha cama de novo, ok?

- Eu não terei mais nada com Mike, mas de qualquer forma mudarei de quarto.

- Não é necessário, mas vou querer meu quarto de volta quando melhorar.

- Claro.

Após um silêncio carregado, Theo voltou a falar, agora num tom triste.

- Por que você, é sempre... Sempre tem que me decepcionar?

- Acho que não sou forte como você.

- Você estragou, isso... Tudo. - Theo tremia ambas as mãos, e sua fala estava cada vez mais confusa.

- Eu não tive a intenção, espero que você possa me perdoar algum dia.

- Samantha, por, vá para casa.

- Não, eu vou passar a noite aqui.

- Não vai, não. Vá embora, eu digo, eu... Por favor.

- Me deixe ficar aqui, eu prometo ficar em silêncio.

- Não... Eu não... Não volte. Não nos próximos dias.

- Tudo bem.

Sam saiu lentamente do quarto, se arrastando pelo corredor. Quando entrou no carro, ligou para Letícia.

- Você está de plantão hoje?

- Não, estava dormindo. - Disse com mau humor.

- Dormindo de tarde? Ok, me desculpe. Você pode vir ao hospital?

- Aconteceu algo com Theo?

- Nos desentendemos, ela precisa de alguém por perto.

- Brigaram? Ela mal fala direito, e você conseguiu brigar com ela?

- Eu contei que dormi com Mike.

- Mas que porra, Sam! Você foi para a cama com esse bolha?

- Foi no mês passado, Theo estava em coma e desenganada, foi um momento de fraqueza, mas nunca mais se repetiu. Você pode ir? Ela não me quer por perto, acho que ela terminou tudo comigo.

- Eu estou indo, mas tire a noite para refletir essa mancada, ok?

Letícia entrou na UTI quarenta minutos depois, encontrou Theo num quase estado catatônico, deitada de lado, com o olhar perdido.

- Achei que nunca mais falaria isso, mas vou dormir com você. - Letícia brincou, se aproximando e colocando carinhosamente o cabelo de Theo para trás.

- O sofá é todo seu.

- Não. Chegue para lá.

Letícia a ajudou a deslizar para o lado, e deitou-se na cama também, trazendo Theo para seu colo.

- Eu soube o que aconteceu. - Letícia dizia baixinho, lhe fazendo cafuné. - Sei que Sam pisou feio na bola, mas quem não pisa?

Theo apenas balançou a cabeça.

- Quer conversar?

- Lê, eu não consigo parar de imaginar aqueles dois transando na minha cama, eu vou pirar.

- Pare de imaginar, imagine você fazendo isso com Sam.

- Por que ela fez isso? - Theo começava a chorar.

- Por que ela estava carente, estava desconsolada, e aquele imprestável sonso aproveitou a oportunidade.

- Que droga...

- Não chore, mocinha, vocês vão superar isso, não chore não. - Letícia a abraçava mais forte.

- Se eu não... Ela... Se eu não... - Theo não conseguia mais articular as frases.

- Não se agite, ok? Tente ficar calminha.

- É porque eu... Eu amo a Sam, mas ela...

- Eu sei, eu sei, você está decepcionada, mas vai passar. Ela também te ama muito.

Theo começou a tremer, esticando os dedos e trincando os dentes, Letícia logo percebeu o que acontecia, saltando da cama e chamando ajuda.

- Estou aqui, aguente firme. - Letícia segurava seus ombros.

- Pois não? - A enfermeira chegou.

- É uma crise convulsiva, vá buscar os medicamentos e o aspirador.

Rapidamente duas pessoas retornaram ao quarto, aplicando os sedativos e retirando o excesso de saliva, que desta vez tinha sangue.

- Ela mordeu a língua. - Letícia constatava.

- Pronto, acabou.

Após a crise, que durava em torno de três minutos, Theo costumava apagar, mas desta vez estava acordada e sonolenta.

- O que... O que aconteceu... - Theo balbuciou.

- Você teve uma convulsão, mas já está tudo bem.

- Mike...

- Esqueça esse imbecil, descanse e durma um pouco, ok?

***

Assim que chegou em casa, Sam percebeu seu comunicador tocando, passava alguns minutos das quatro da tarde.

- Claire?

- Boa tarde, Sam, como Theo está?

- Evoluindo, vai ter alta em três dias.

- Você está no hospital, certo?

- Não, cheguei em casa agora, está tudo bem?

- Sim, mas tenho um assunto urgente para tratar com você, teria como vir até aqui agora?

- Você quer que eu vá para a Archer agora?

- Sim, os conselheiros me pediram para te chamar, eles querem uma reunião de urgência.

- Comigo?

- Eles descobriram que você esteve no laboratório da Ilha das Peças, estão em polvorosa, querem te fazer perguntas.

Sam suspirou aborrecida.

- Eu não estou com cabeça para isso, Claire.

- Eu sei, mas eles estão irredutíveis, eles acham que você pode prejudicar os negócios da Archer, estão falando em intervenção.

- Que droga... Ok, eu estou indo, acalme os ânimos desses nervosinhos.

Logo Sam entrava pelo hall principal da empresa, que ocupava todo um moderno prédio de 56 andares. Dirigiu-se à sala de Claire, que conversava de pé com três conselheiros.

- Até que enfim, Samantha. - Sandro disse, rispidamente.

- Onde vai ser a reunião? Aqui? - Sam também não estava no seu melhor humor.

- Não, vamos à sala de reuniões da presidência. - Stefan disse já saindo da sala.

A sala da presidência ocupava metade do andar, com três ambientes, mini golf, e uma sala de reuniões pomposa, com detalhes dourados em toda a decoração. E estava vazia desde a morte de Benjamin.

- Todos os nove estão aqui? - Aldo, o mais velho de todos, perguntou, na cabeceira da mesa.

- Clark está em Montreal, todos os outros estão aqui. - Claire respondeu, educadamente.

- Eu vou direto ao assunto. - Começou Sandro, um jovem executivo de cabelos negros bem penteados. - O que você e sua amiga foram fazer na Ilha das Peças?

- Fomos conhecer as instalações, e eu precisava de algumas informações que só conseguiria lá.

- Sobre o Beta-E? - Stefan também foi direto.

- Não, isso não me interessa, eu fui buscar informações que poderiam ajudar na recuperação de Theo.

- O que você sabe sobre o Beta-E?

- Sei que a Archer vende para o governo, acredito ser algum tipo de medicamento, mas não sei para que serve. - Sam desconversou.

- Com quais pessoas você conversou sobre isso? Sua amiga sabe também? - Sandro continuou o interrogatório.

- Apenas eu e Theo sabemos da existência do Beta-E, descobrimos juntas, e não conversamos com ninguém, nem com Letícia.

- Vamos dar o benefício da dúvida para você, mas devo alertar de algumas coisas. - Stefan, um quarentão de olhos verdes e cabelos castanhos dizia. - Esse contrato com o governo é sigiloso por questões comerciais, então você nunca irá falar sobre isso com ninguém. Você está protegendo o patrimônio de Theodora, então esteja ciente que se algo der errado neste contrato, a Archer perde metade do seu faturamento, que é o que esse fornecimento representa nos nossos lucros. Ficou claro?

- Totalmente. Mais alguma pergunta?

- Avise ao conselho da próxima vez que você visitar algum laboratório, temos controle de acesso. - Disse Aldo.

- Eu farei isso.

Quando deixou o prédio, já havia anoitecido. Entrou no prédio garagem ao lado para pegar seu carro, assim que destravou a porta sentiu o cano de uma arma contra suas costas.

- Entre e passe para o banco do carona. - A voz masculina sussurrou.

Sam apenas assentiu movendo a cabeça, e fez o ordenado. Rapidamente um homem de aproximadamente trinta anos e armado com uma pistola, sentou-se no banco do motorista. Não usava nada para esconder seu rosto, que Sam nunca havia visto antes, ele parecia não temer as câmeras de vigilância.

- Se isso é um assalto, você está perdendo tempo, minha conta bancária está vazia, e não ando com dinheiro. - Sam disse, nervosamente, com o cano da arma em sua têmpora.

O homem nada falou, apenas a algemou, e prendeu suas mãos no suporte da porta do passageiro.

- Apenas fique quietinha, vamos dar uma volta.

O carro seguia sem pressa pelas ruas de San Paolo, Sam arquitetava uma reação com as pernas, mas as mãos presas seriam uma grande desvantagem.

- Quem mandou você? Elias? Saiba que a segurança na UTI de Theo foi reforçada, você não vai conseguir fazer nada lá.

Afastavam-se da área movimentada da metrópole, andavam agora por uma rodovia estreita e sem muito movimento. As casas e prédios iam raleando.

- Se foi algum conselheiro da Archer, por favor diga a ele que estou aberta ao diálogo, não precisamos de medidas radicais, eu estou disposta a fazer o que o conselho quiser, e logo Theo terá condições de assumir a presidência, eu sairei completamente de cena.

O homem não respondia, apenas dirigia concentrado. Ele estacionou o carro branco atrás de um bar fechado, olhando atentamente para os lados.

Saiu e retornou dois minutos depois, trazendo um galão metálico de algo inflamável em cada mão. Despejou o líquido por todo o automóvel, abriu a porta do motorista e espalhou o outro galão pelos estofados.

- Não faça isso, por favor não faça uma coisa dessas. - Sam dizia em pânico, tentando soltar as mãos da algema.

Ele fechou a porta, deu a volta no carro, e debruçou-se na janela onde Sam estava, dando uma olhada rápida. Sam tentou acertá-lo com a testa, mas ele desviou para trás.

Sacou uma caixa de fósforos, e fitou Sam já com um palito na mão.

- Com os cumprimentos de alguém que quer tirar você do jogo. - Ele disse friamente, e atirou o fósforo acesso na direção do carro, pelo vidro traseiro, trazendo rapidamente labaredas laranjas.

Sam desesperou-se, os estofados atrás de si estavam tomados pelo fogo, que se alastrava para a frente, fazendo uma fumaça acinzentada tomar o interior do carro.

Além de tossir com a intoxicação, o calor no interior estava insuportável. Se contorcia tentando soltar suas mãos, se empurrava contra o painel com ambos os pés, tudo sob a observação silenciosa do homem.

Finalmente rompeu o suporte plástico onde a algema estava presa, pulou para o banco ao lado, em meio as chamas, sentiu sua mão esquerda ardendo no fogo, empurrou a porta do motorista e atirou-se para fora.

Apesar da mão queimada, estava determinada a enfrentar aquele homem que a observava morrer.

Havia uma pilha de cadeiras metálicas de bar fechadas, recostadas na parede, Sam tomou uma delas, deu a volta no carro, e correu na direção do homem, que sacou rapidamente a arma. Acabou efetuando o disparo para cima, Sam acertou a cadeira em seu braço, o desequilibrando.

O elemento voltou a erguer-se e tentar apontar a arma, mas Sam chutou sua mão. Em resposta, ele aplicou um soco em seu rosto, a derrubando no chão. A soldado agiu rápido, tomando novamente a cadeira fechada em mãos, e o acertando na cabeça, ele caiu tonto. Sam ergueu a cadeira com as duas mãos unidas pelas algemas, preparando um novo golpe, estava com os pés ao redor da cintura dele, que se antecipou chutando sua perna.

A luta agora era na horizontal, os murros de Sam passavam no vazio, era difícil brigar com as mãos algemadas. Ele acertou dois em seu rosto, arrancando sangue da sua boca, o que a enfureceu ainda mais. Aproveitando um golpe vazio que ele havia tentado, Sam conseguiu colocar a corrente da algema no pescoço do homem, o empurrando contra a terra do chão. Ele tentava tirá-la de sua garganta, mas Sam o sufocava com cada vez mais força e raiva.

O estrangulamento encerrou-se quando ela percebeu a ausência de respiração, resolveu garantir, caminhou até a arma, a tomando, e atirou três vezes contra sua cabeça.

Procurou por todos os bolsos dele, mas não encontrou nada, nenhuma identificação. Achou a chave das algemas, libertando suas mãos. Não sabia como sair dali, seu comunicador estava sendo incinerado no interior do carro, que ainda estava em chamas. Percebeu sua mão esquerda queimada na lateral, começava a arder. Arrastou o corpo até o carro, o jogando em seu interior.

Seus documentos e um pouco de dinheiro estavam no bolso de trás de seu jeans, sua camisa branca estava suja de terra e com dois botões arrebentados, e tinha um pouco de sangue da sua boca sujando as roupas. Resolveu caminhar pela estrada, até avistar alguma movimentação ou estabelecimento aberto àquela hora da noite, não fazia ideia de onde estava, seus implantes de geolocalização não estavam mais funcionando.

Minutos depois, encontrou uma quitanda, com uma senhora de idade sentada ao lado de caixas com frutas.

- Senhora, aconteceu um acidente comigo, eu poderia usar seu comunicador? Posso pagar pelo empréstimo.

- Tenho não, eu não gosto dessas coisas modernas.

- Tem alguém por aqui que poderia me emprestar?

- Meu neto está trabalhando.

Sam suspirou pesadamente, sua mão e seu rosto doíam, sentia o corpo ainda quente por conta das chamas.

- Sabe como faço para chegar no Centro de San Paolo?

- Aqui em frente tem ponto de trollbus.

- Tem ponto de taxi?

- Não.

- Ok, vou aguardar no ponto então.

Sam atravessou a calma rodovia, sentando num banco de concreto parcialmente destruído.

Cerca de uma hora aflita depois, finalmente um trollbus passou por ali, a levando até o Centro. De lá pegou um táxi até a mansão, chegando em casa passando das dez da noite.

Subiu cansada até seu quarto, a dor pela discussão com Theo era maior que a dor física, não queria pensar agora no atentado que sofrera, queria apenas tomar um banho e colocar a cabeça no lugar.

Assim que entrou no quarto e tirou a camisa na direção do banheiro, Mike entrou também, havia chegado de um happy hour com colegas da Archer, e parecia um pouco alcoolizado.

- Por que não atende seu comunicador? Eu estava num bar de granfino, com o pessoal do trabalho, queria que você tivesse ido até lá.

- Eu o perdi. E por favor, saia do meu quarto, eu quero tomar um banho e dormir.

- Você está bem? Não parece bem. Mas gosto de você assim, sem camisa.

- Estou ótima.

- Hum... - Mike estava recostado no batente da porta. - Por que veio de táxi? Cadê seu carro?

- Também o perdi. Me dá licença?

- Quer carona para o hospital amanhã?

- Não irei para o hospital amanhã.

Mike percebeu que algo acontecia, e desencostou da porta.

- Não vai? Você sempre vai. Brigou com Theo?

- Mais ou menos.

- Por que brigaram? Por minha causa? - Mike se animava.

- Mike... Por favor, eu quero descansar. - Sam foi até a porta, o colocando para fora.

Finalmente teve paz para tirar o restante da roupa e entrar debaixo da ducha. A mão ardia em contato com a água, mas a deixou ali por algum tempo. A cabeça também incomodava, tinha um corte dentro do lábio, e todo o rosto estava dolorido.

Continuava com a mão queimada parada embaixo da água, de olhos fechados, quando percebeu um barulho dentro do banheiro. O box se abriu, e Mike entrou sem pestanejar, indo na direção dela.

 

Nepente: (grego) que faz desaparecer a dor, algo que ajuda a esquecer a tristeza e o sofrimento.

Capitulo 11 - Lenitivo por Cristiane Schwinden

Capítulo 11 - Lenitivo

 

- Mike?? Fora daqui! - Sam tentava se cobrir com os braços.

- Eu sei que você quer de novo... - Ele caminhava devagar até Sam, estava nu e excitado.

- Não! Eu não quero nada, saia agora do banheiro! - Sam dizia, irada.

- Largue aquela menina mimada, fique comigo, eu sou seu homem.

- Se você não sair eu vou chamar os seguranças!

- Pensa que não sei que esse quarto tem isolamento acústico? - Ele dizia com um sorrisinho.

- Eu vou ter que bater em você, se não sair daqui agora.

- Sam... É tudo que você sempre quis, lembra? Você pediu para tomar banho comigo, eu sei que você morre de vontade de fazer sexo debaixo do chuveiro comigo. - Mike foi para cima de Sam.

- Saia! Me largue!

Sam debateu-se o quanto pode, seus chutes não surtiam efeito, o acertou algumas vezes, mas Mike era mais forte que ela, prendia seus pulsos contra o azulejo.

- Amor, facilite as coisas... - Mike disse enquanto beijava seu pescoço.

Finalmente Sam soltou-se e conseguiu empurrá-lo com violência, Mike caiu batendo com a nuca na borda da jacuzzi. Um filete de sangue descia ao lado de sua cabeça.

- Olha o que você fez! - Mike mostrava a mão suja de sangue.

- Eu me defendi, você pediu por isso!

- Você me agrediu!

- Mike, se você não sair daqui agora, eu vou chamar a segurança, eu estou avisando. - Sam voltou a tentar se cobrir com os braços.

- Isso não vai ficar assim. - Mike ergueu-se, fez um rápido semblante de dor, vestiu-se e saiu.

Escutou a porta do quarto batendo, Sam estava paralisada embaixo da ducha que continuava correndo, assimilando o que havia acontecido. Sentiu o gosto do sangue invadindo a boca novamente, o corte sangrava em profusão.

Escorregou, sentando-se no piso branco da grande jacuzzi, segurando as pernas contra o peito. Não queria acreditar em quais termos as coisas haviam chegado com seu ex-noivo, a pessoa em que confiou cegamente por oito anos, só conseguia sentir repulsa agora por esse homem.

A dor em sua alma era tamanha que não conseguia sequer chorar ou expressá-la. Pensou em pedir ajuda a alguém, ou em ir correndo para o hospital contar para Theo, na esperança de ganhar um colo. Não, não eram ideias plausíveis, ela teria que lidar com todas as desgraças do dia sozinha.

Após um longo período encarando os pequenos azulejos à sua frente, ergueu-se do chão. Terminou o banho, enxugou o sangue em sua boca o quanto pode. Vestiu um roupão e tratou de cuidar da queimadura em sua mão, que parecia pulsar.

Percebeu que o estado era pior do que o imaginado, enrolou a mão com uma atadura molhada, vestiu-se, e saiu de casa. No caminho, ligou para Letícia com o comunicador de Theo, era quase meia-noite.

- Você está no hospital? Theo está bem? - Sam perguntou.

- Sim, está tudo bem aqui, vim no corredor falar com você, Theo está dormindo. Como você está?

- Lê, eu preciso que você me diga o nome de algo para colocar numa queimadura, possivelmente de segundo grau.

- Quem se queimou?

- Eu queimei minha mão, não é nada de mais, só preciso passar algo para aliviar a dor.

- Venha para o hospital ver isso.

- Não, só quero algum medicamento, estou chegando numa farmácia.

- Sam, venha aqui agora, eu vou olhar isso.

- Se você não pode ajudar, tudo bem, eu vou perguntar para alguém na farmácia.

- Ok, ok. Sulfadiazina de Prata. Como se machucou?

- Descuido. Obrigada, te ligo amanhã. E obrigada por estar aí.

- Sam, hidrate, passe a pomada abundantemente, cubra e enfaixe, mas troque isso de...

A ligação foi finalizada por Sam.

Já em casa, fez o curativo na mão, tomou analgésicos, guardou a caixa de primeiros socorros, e olhou para os lados, como se acordando para tudo que havia acontecido.

Sentou numa poltrona colorida que havia no outro ambiente do quarto, lançando um olhar sem vida ao longe. Em poucos minutos, finalmente o pranto incontrolável surgiu.

A madrugada foi longa, sentia-se estranha, deslocada, tomou outro banho, outros analgésicos, acabou adormecendo já com o sol nascido, num tapete felpudo em frente à poltrona.

- Hey, Sam?

Daniela sacudia o ombro de Sam no chão, que acordou confusa.

- Eu bati na porta, mas você não atendeu, fiquei preocupada e entrei. - Daniela se explicava.

- Já amanheceu? - Sam levantou-se devagar, com trejeitos de dor nas costas, e sentou-se na poltrona colorida, Daniela sentou na beira da cama.

- São quase dez da manhã, Letícia pediu para ver como você estava, porque você não atendia seu comunicador, nem o de Theo.

- Foi um incidente bobo, está tudo bem. - Sam ergueu a mão enfaixada. - E perdi meu comunicador, depois arranjo outro.

- O que aconteceu com seu lábio? Você parece péssima, quer sair para tomar um café? Conversar às vezes ajuda.

- Dani, desculpe a franqueza, mas tudo que eu quero é ficar sozinha. - Sam passou o dedo na boca, sentindo o ferimento que estava um pouco inchado.

- Querida, todo mundo erra, não fique se culpando, logo Theo te perdoa e tudo vai ficar bem.

- Pelo visto eu vou pagar pelo meu erro por muito tempo... - Sam resmungou.

- Theo tem o coração enorme, amanhã você aparece no hospital, conversa francamente, e tenho certeza que se acertarão. Ou então espera ela vir para casa, depois de amanhã, e conversam aqui.

Sam apenas baixou a cabeça, desanimada, curvando-se para frente na poltrona.

- Acho que eu deveria ir embora.

- Para onde?

- Não sei, alugar um quarto em algum lugar na cidade, deixar Theo em paz por um tempo.

- Não faça isso, não se afaste, distância não resolve nada.

- Eu queria poder ficar longe de mim. - Sam embargava a voz.

Daniela levantou-se, postou-se de joelhos em frente a poltrona.

- Isso vai passar. - Daniela a chamou para um abraço. - Às vezes tudo parece conspirar contra nós, por mais que nos esforcemos para dar certo, mas quando você olha para trás e vê o quanto cresceu e está mais forte, você se dá conta que valeu a pena, mesmo as escolhas ruins, tudo isso faz parte da nossa evolução. Seja fiel a você, fica menos doloroso.

Sam não conseguiu responder, mas não queria chorar na frente de Daniela, por isso saiu do abraço.

- Tem certeza que não quer dar uma volta? Estou com a scooter de Letícia, pode fazer bem tomar um vento.

- Obrigada, Dani, obrigada mesmo, mas quero ficar sozinha aqui, preciso repensar algumas coisas.

- Estou indo trabalhar, mas posso sair e vir aqui quando você quiser, ok?

- Ok. Letícia ainda está no hospital?

- Não, ela foi agora há pouco para o plantão, fique tranquila, está tudo bem com Theo.

Sam estava novamente sozinha, mas não por muito tempo, minutos depois sua porta abriu-se lentamente, e Mike entrou, a encontrando na sacada.

- Saia de perto de mim. - Sam levantou-se do banco abruptamente, sentiu um calafrio ruim.

- Calma, eu vim pedir desculpas por ontem.

- O que você fez não tem perdão.

- Todos merecem o perdão divino e o perdão dos homens. Você nunca pediu desculpas a ninguém?

- Você ultrapassou todos os limites, você não tinha o direito. - Sam começava a chorar com raiva.

- Amor, quantas vezes fizemos sexo? Você sempre gostou, até pedia mais.

- Mike, suma da minha frente antes que eu faça uma besteira.

- Escute, eu errei, e vim pedir perdão. Eu estava um pouco alterado, e animado, sei que não justifica, mas você foi minha mulher por tanto tempo, eu sinto falta de fazer amor com você. Prometo que nunca mais farei nada contra sua vontade, ok? Eu estou me sentindo péssimo, nem fui trabalhar hoje, mal dormi.

- Eu quero que você saia dessa casa.

- Depois de tudo que fiz para você? Perdi a utilidade? Quando você estava operada e frágil minha presença era bem-vinda, não era?

- Eu perdi o restante do carinho que eu tinha por você depois de ontem, só quero que você desapareça.

- Eu entendo que você esteja chateada, mas não foi nada de mais, não faça uma tempestade num copo d'água, eu só tentei ficar com você, se você tivesse colaborado poderia ter sido bom.

Sam lembrava da época em que tentava deslegitimar a mágoa de Theo após o incidente com a mão, sentiu-se ainda pior.

- Você precisa aprender o que significa consentimento.

- Sam, você me consentiu por cinco anos. - Mike deu um sorrisinho.

- Eu quero que você saia dessa casa antes de Theo chegar.

- Pois eu não irei, não sou um cachorro sarnento que você pode expulsar quando quer. Você me quis por perto quando precisou, agora aguente, vou ficar aqui até quando eu resolver sair.

Sam encheu seus pulmões de ar, antes de falar de forma firme e enérgica.

- Saia agora dessa casa, senão vou tirar você a força.

- Se eu fosse você não faria isso. - Mike foi até o parapeito, apoiando com as mãos no metal.

- Eu não estou brincando, nem que eu tenha que chamar todos os vinte seguranças, eu vou tirar você dessa casa.

Mike virou-se, recostando-se na grade, ostentava um sorrisinho prepotente.

- Eu não queria ter que usar isso, mas se você me expulsar daqui eu irei imediatamente até a imprensa e contarei o que Theo fez nos últimos anos, a vida nada honrada que ela tinha naquele puteiro.

Sam o fitou sem palavras, mal podia acreditar na chantagem que Mike fizera.

- Não, você não desceria a esse nível.

- Você pode experimentar, mas algo me diz que você vai querer proteger sua namoradinha.

- Seu... - Sam enchia-se de raiva. - Você não tem o direito de fazer isso, Theo não tem nada a ver com nossas desavenças.

- Não tem? Foi ela que encheu sua cabeça de ideias erradas e pecaminosas, ela não tirou você apenas do caminho de Deus, ela tirou você de mim, o homem que você escolheu para formar sua família. Eu não me sentiria nada culpado em jogar a honra dela na lama.

- Saia dessa casa por bem, até amanhã, e quem sabe poderemos manter algum contato, não prejudique quem tanto te ajudou.

- Ajudou uma ova, aquele vegetal me odeia. - Mike desencostou-se do parapeito, ficando próximo do rosto de Sam. - Eu saio quando eu quiser, quando eu achar que é um bom momento. Enquanto isso ficarei aqui, desfrutando um pouco do conforto, até conseguir me estabelecer em outro lugar. Estamos conversados?

Sam balançou a cabeça cansada.

- Mike, saia da minha frente, por favor.

- Depois conversaremos melhor, quando você esfriar a cabeça e fizer as pazes com nossa galinha dos ovos de ouro.

A cabeça rodava, o choro pesava, o peito acelerado parecia dilacerado. Após algum tempo recostada na sacada, com as mãos no parapeito, tomou uma decisão.

Foi até o banheiro, onde havia escondido a arma tomada do assassino sádico de ontem, e colocou no cós de trás da calça. Lavou o rosto demoradamente, e saiu do quarto, próximo do meio-dia.

- Alguém viu para onde Mike foi? - Sam perguntou a Lucian, que passava pela sala.

- Disse que ia trabalhar.

Tudo estava nebuloso demais para tomar as decisões corretas, teve outro rompante e saiu de casa.

Minutos depois adentrou na UTI, Theo estava acordada, ouvindo a tela a frente.

- Sam?

- Sim, sou eu. - Sua voz estava fria, triste.

- Você veio conversar?

Sam não respondeu, apenas se aproximava devagar do leito.

- Eu não queria conversar agora, ainda estou meio estranha, tive uma convulsão. - Theo continuou, parecia sonolenta.

Mas Sam continuava em silêncio.

- Sam, você está no meu lado?

- Estou.

Theo aguardou que algo acontecesse, ou que Sam dissesse algo, mas nada aconteceu. Sam a fitava com as mãos sobre a proteção lateral da cama, de forma angustiada.

- O que você está fazendo? - O tom de voz de Theo não era de curiosidade, era quase temor.

Não houve resposta, Sam apenas se segurava para não chorar.

- Você vai fazer algo?

- Como o que?

- Não sei.

Sam baixou os dois suportes protetores que haviam ao lado da cama, Theo ouviu os ruídos e ficou ainda mais tensa.

- Me desculpe se falei algo ontem que te ofendeu. - Theo falava nervosamente, na defensiva. - Eu estava brava, mas não quis levantar a voz com você, me desculpe, ok?

Sam franziu as sobrancelhas.

- Você acha que eu faria algum mal a você?

- Não, claro que não. Você não seria capaz, seria? - Theo estava segurando seu pânico.

- Como machucar sua mão de novo?

Imediatamente Theo trouxe sua mão direita para junto do peito.

- Eu só tenho essa, não faça nada com ela, só me restou essa mão.

Sam voltou a chorar, ao entender que Theo estava com medo dela.

- Você está com medo de mim?

- Não, não estou.

Sam a deslizou delicadamente para o lado, descalçou-se, e deitou no leito. Ajeitou os fios, bolsas e sondas, ergueu o braço de Theo para o lado, e aconchegou-se no peito dela.

Theo ainda estava tentando entender o que estava acontecendo, com a mão direita suspensa no ar.

- Por favor, me deixe ficar aqui um pouco. - Sam implorou, às lagrimas.

- Ãhn... Ok. - Theo hesitou antes de prosseguir. - Fique o tempo que quiser. -Lhe sussurrou, beijando sua testa.

A abraçou fortemente com seus braços coloridos, inclusive com o esquerdo que ainda não tinha muita mobilidade.

- Me desculpe... Me desculpe, Theo... - Sam disse, aos soluços.

- Shhhh... Vai ficar tudo bem, ok?

Sam se permitiu chorar tudo que estava guardando, mas dessa vez sentia-se reconfortada pelo som do coração de Theo abaixo de si, e o calor da respiração no alto de sua testa.

- Me ajude... - Sam acabou falando.

Theo baixou as sobrancelhas.

- O que aconteceu?

- Nada.

- Sam, aconteceu algo com você?

- Não.

Theo continuou lhe dando um consolo silencioso, percebia Sam se acalmando.

- Eu juro que não quis te magoar. - Sam voltou a falar, agora já mais tranquila.

- Se você prometer esquecer isso, eu prometo esquecer também. - Theo corria sua mão pelos cabelos de Sam.

- Eu não quero mais lembrar disso, não quero me lembrar de mais nada com Mike.

- Então vamos enterrar essa coisa toda.

- E isso... - Sam estava cheia de dedos. - Então isso significa que ainda temos algo, não temos? Eu não quero ficar com outras pessoas, eu só quero ficar com você, eu me sinto completa quando estou do seu lado, você me acalma, me alivia, todas as dores somem.

- Sam, temos algo, mas ainda indefinido. E se você dormir novamente com Mike, saiba que arrancarei seu novo coração com minhas próprias mãos, inclusive com a mão mecânica, e jogarei aos mesmos peixes que devoraram minha ex. Ah, e sem anestésico para cavalos.

Sam acabou dando um riso fungado.

- Ficou claro? - Theo insistiu.

- QSL.

- O que é QSL?

- É a expressão de rádio comunicação para "entendido".

- Hum. E sobre o que você falou, você me chamou de lenitiva.

- O que é isso?

- Lenitivo é o que abranda a dor, que suaviza. É usado na medicina também.

- Eu preciso começar a anotar essas palavras que você me ensina.

- Comece por nostomania.

- O que é?

- Desejo extremo de voltar para casa.

- Depois de amanhã você vai saciar sua nostomania.

- Vou sim. - Theo sorriu torto. - Dois anos depois.

Após de um silêncio confortável, Theo voltou a falar.

- Sam?

- Hum?

- Quando eu melhorar, vou querer meu quarto de volta.

- Eu sei.

- Mas só se você estiver lá.

Sam abriu um sorriso lento.

- Ele passará a ser nosso quarto. - Sam disse, correndo sua mão pelo rosto dela.

- Você machucou a mão? - Theo sentiu a atadura.

- Sim, mas não foi nada.

- Machucou como?

- Eu queimei, mas foi de leve, já estou cuidando.

- Queimou como?

Sam suspirou.

- É uma longa história.

- Tudo bem, pode continuar.

- Não, deixa para depois.

- Faça um resumo, tipo, "queimei no fogão".

- Não foi no fogão.

- Me conte.

- Ok... Quando eu estava saindo da Archer ontem, e abrindo o carro no estacionamento, fui abordada por um...

- Você foi para a Archer ontem? - Theo interrompeu.

- Fui, tive que ir, Claire me ligou pedindo uma reunião emergencial com todo o conselho, eles queriam explicações do porquê eu e Letícia termos ido para o laboratório na Ilha das Peças e...

- Você e Letícia foram para a Ilha das Peças? - Theo interrompeu.

- Sim, há alguns dias, nós fomos de helicóptero, levamos uma tarde apenas, para ir e voltar, foi coisa rá...

- O que vocês foram fazer lá? - Theo interrompeu.

- Viu como é uma longa história? Você me interrompe o tempo todo.

- Ok, o que vocês foram fazer lá?

- Buscar o genoma da Theodora original, para reprogramar os nanobots que seriam inseridos em você, já que na primeira cirurgia deu tudo errado, os médicos não sabiam que você é um... Você sabe.

- A primeira cirurgia deu errado?

- Sim, não lembra de nada desse período?

- Eu lembro de ter dias bem confusos recentemente, pareciam falar vários idiomas estranhos dentro da minha cabeça, uma viagem bem chata de ácido.

- Bom, deu tudo certo agora, mas os conselheiros queriam saber o que eu sabia sobre o Beta-E, eu falei que eu e você descobrimos que o Beta-E é um medicamento vendido ao governo, só falei isso.

- E eles?

- Não devem ter acreditado. E eu acho que foi algum deles que mandou aquele cara me matar.

- Que cara?

- O que me incendiou viva.

- O que??

- Voltamos à mão. Como eu ia dizendo, não queimei no fogão, um homem bem vestido me abordou no estacionamento, me algemou na porta, e dirigiu até um lugar relativamente ermo. Ele ateou fogo no carro, eu estava ainda algemada dentro, ele queria me matar. Eu consegui quebrar o suporte e sair, mas queimei minha mão.

- Nossa... Foi feio?

- Mais ou menos, estou cuidando, mas dói bastante.

- E o que aconteceu depois?

- Eu dei uma surra, como sempre. - Disse convencida. - Depois dei fim no elemento, com a arma dele.

- Essa nas suas costas?

- Sim, vou andar armada a partir de agora, eu não sei quem armou isso, mas eu quase bati as botas.

- Não faz ideia de quem era?

- Não, não encontrei nada que identificasse ele ou o autor, eu aposto em algum conselheiro, mas pode ser Elias também.

Sam percebeu o corpo tenso de Theo abaixo de si.

- Hey. - Sam ergueu-se um pouco, ficando acima de Theo. - Não vai acontecer nada comigo, nem com você, ok? Uma cuida da outra, como fizemos tantas vezes.

- Você precisa se cuidar quando estiver aí fora, podem te abordar de novo, acho que é uma boa ideia você ter segurança particular.

- Por enquanto não, tá bom? Vou ficar mais alerta, por mim e por você. - Sam correu seus dedos pelos lábios de Theo, e a beijou.

- Ai! Minha boca está machucada e você mordeu bem em cima! - Sam reclamou, passando o dedo no corte, instantes depois.

- Se soubesse que estava machucada teria mordido ainda mais forte.

- Eu machuquei de verdade. - Sam olhou o sangue nos seus dedos.

- Desculpe. Posso ver? - Theo correu seus dedos levemente por seus lábios, e a beijou de mansinho. Algum tempo depois, Sam se deu conta de algo.

- Esqueci um detalhe.

- Qual?

- O carro incinerado, foi o seu. Sinto muito.

- O meu? Têm oito carros na garagem, e você toca fogo no meu?

- Era o mais bonito.

- Tudo bem, sei que você não irá se importar de andar de transporte público a partir de hoje.

- Eu vim com outro hoje, uma caminhonete vermelha.

- É meu também!

Sam acabou adormecendo ainda no peito de Theo, havia dormido menos de duas horas naquela manhã. No meio da tarde uma enfermeira apareceu no quarto, Theo gesticulou e sussurrou para que ela não a acordasse. Estendeu devagar o braço, para receber os medicamentos.

- Tem fisio agora. - A enfermeira falou baixinho.

- Cancele.

Aguardou a enfermeira sair, e voltou a lhe fazer um cafuné suave, agora com um sorrisinho satisfeito, até mesmo sentir sua gola da camiseta molhada de baba a fez sorrir.

***

O dia da alta chegou, e com ele uma pneumonia nem um pouco bem-vinda, que estava prestes a estragar os planos de ir para casa.

- Eu posso continuar o tratamento em casa. - Theo falava com dificuldade, e com uma máscara de oxigênio.

- No hospital é melhor, tem mais recursos. - Sam e Letícia tentavam convencê-la.

- Não, eu ganhei alta do Doutor Franco, me deixem ir para casa. - Fazia drama.

- Mas você está piorando, ele vai cancelar a alta.

- Nããããão, nãããããão...

- Espere mais um ou dois dias, você já esperou dois meses.

Theo ficou pensativa por um instante.

- Hoje é meu aniversário, não é?

- Seu aniversário foi em fevereiro. - Letícia disse.

- Espera, que dia é hoje? 17 de abril, certo? - Sam se dava conta.

- Hoje é meu aniversário de verdade. - Theo disse enfática, por trás de sua máscara.

- Como você sabe?

- A senha do laboratório é minha data de nascimento.

- Garota, você é esperta mesmo. - Letícia brincou.

- Eu estou fazendo 23 anos hoje, não estou? Pela segunda vez.

Sam foi até a cama, tomou o boné que estava pendurado, colocando na cabeça de Theo. - Feliz aniversário, vamos para casa.

- Tem certeza? - Letícia encarou Sam, preocupada.

- Ela vai passar o aniversário em casa. A propósito, Theo, você me deve respeito eterno, eu sou mais velha que você.

- É... - Theo assimilava. - E não é que é verdade?

- Isso estava entalado na minha garganta há muito tempo. - Sam riu.

***

Depois de um transporte de helicóptero um tanto delicado até a mansão, finalmente Theo estava agora em repouso num largo leito de última tecnologia, num quarto térreo. A parede havia sido derrubada para unir-se com o quarto ao lado, um espaço havia sido montado para apoio da equipe de enfermagem e demais funcionários que dariam suporte na recuperação de Theo.

- Vou pendurar seu boné aqui atrás, ok? - Sam tomou seu boné.

- Acho que preciso de mais oxigênio. - Theo estava com dificuldade para respirar.

- Meg? Você pode ver isso? - Sam chamou a enfermeira, de uma equipe de três que se revezariam no plantão de 24 horas cada.

Uma jovem senhora com ares atenciosos aproximou-se, tomando as providências para abrandar os sintomas da pneumonia.

- Vou aumentar também a dose de antitérmico. - Ela disse, e saiu para preparar a medicação.

- E então, o que achou da enfermeira? - Sam tentava dispersar a tensão pela dificuldade em respirar.

- Gostei. Como ela é?

- Hum... Sabe aquelas tias fofinhas e rechonchudas, que parecem nunca ficar de mau-humor? Algo assim.

- Não sei, só tenho dois tios, um que não sabe nem o próprio nome, e um maníaco.

- Se você quiser te empresto meus tios e tias, tenho 27.

- Sério?

- Juro, posso recitar o nome de todos, se quiser.

- Em outro momento. - Theo parecia incomodada, se mexendo o tempo todo no leito.

- Theo, tem algo além da dificuldade em respirar?

- Não sei, acho que ainda estou me adaptando ao meu novo habitat, me sinto estranha.

- É sua casa, meu anjo. Aos poucos você vai se dando conta que está de volta à sua zona de conforto, matando a saudade do pessoal que trabalha aqui, das suas coisas, do Theozinho.

- Quem é o Theozinho?

- Eu nunca lembro o nome do cachorro.

- Levon. Ele ainda mora aqui?

- Mora sim, quando você estiver melhor vou trazê-lo para te dar um oi.

No decorrer das horas seguintes, Theo piorou, e teve uma convulsão a noitinha. Sam havia colocado um sofá confortável à direita da cama, já pensando nas noites em que iria querer passar ali, como aquela. No outro ambiente do quarto, havia uma cama para a enfermagem, onde Meg também dormia.

Theo acordou com o sol ainda nascendo, e os primeiros sons de passarinhos que haviam na área arborizada da propriedade.

- Tem alguém aqui?

Meg acordou e foi até ela.

- Estou aqui, precisa de algo?

- Água. E algo para minha cabeça, parece que vai explodir.

- Já vou providenciar.

Sam acordou devagar, ainda morria de sono, os olhos ardiam.

- Tudo bem, Theo?

- Estou com dor de cabeça.

- Meg já está preparando algo para você. - Viu ao longe a enfermeira.

- Mas estou respirando melhor. Eu tive uma convulsão ou apenas dormi profundamente?

- Convulsão. E você mordeu a língua de novo.

- Ah... Esse gosto de sangue é disso então...

- Acho que é sua vontade de comer bifes que faz você morder a língua. - Sam brincou.

- Quando vou poder comer bifes e batatas fritas?

- Vai demorar um pouco, mas na equipe que está cuidando de você tem uma nutricionista, ela vem nos visitar dia sim, dia não. Vou pedir dicas a ela, vou ajudar Marcy na cozinha, para fazer você recuperar os quilos perdidos.

- Com... Com... Eu.

- O que?

- Eu não me... Bife. - Theo falava com confusão, não conseguia mais articular as frases.

- Ficou confuso aí dentro? Não tente falar, fique quietinha. - Sam baixou a cabeceira da cama, e afagou sua testa. - Meg já aplicou um analgésico forte, quer a água?

Theo bebeu com dificuldade, derrubando na cama, e se agitando. A enfermeira achou melhor sedá-la levemente.

À tarde, Sam saiu para comprar algumas coisas, e quando retornou, encontrou Mike de pé ao lado de Theo, que dormia.

- O que você está fazendo aqui? - Sam sussurrou irritada, puxando Mike para fora do quarto.

- Só fui dar as boas-vindas, e não me arraste pelo braço, ok?

- E você nunca mais entre nesse quarto, entendido? Ou terei que colocar seguranças na porta?

- Você anda muito impaciente nos últimos dias, acho que precisa relaxar, tirar uma folga, sei lá. Por que não passa uns dias na Inglaterra?

- Não, obrigada, ficarei por aqui mesmo, você que precisa sair dessa casa com urgência, eu ainda estou sendo educada.

- Irei em breve.

- Me dê licença, tenho mais o que fazer.

- Tipo o que? Limpar o vômito de Theo? Ela tem enfermeiras para isso.

- Não, vou preparar um lanche para nós.

- Para mim também? Bem que você poderia fazer aquele bolo de chocolate que eu adoro, você fez tantas vezes para mim quando morávamos em Kent.

- Faça seu próprio bolo, aproveite enquanto ainda tem acesso à cozinha.

Sam saiu trotando para a cozinha, onde preparou uma salada de frutas ao lado de Marcy.

Levou duas tigelas para o quarto, percebeu Theo acordada, e sentou-se ao seu lado, expandindo a mesinha sobre a cama.

- Olá, mocinha. Como está? - Sam lhe deu um beijo rápido.

- Com sede.

- Pronto, beba. Trouxe salada de frutas para nós, quer?

Theo ficou alguns segundos pensativa, sem expressão.

- Eu ainda não posso comer frutas.

- Pode sim, você vem comendo frutas há alguns dias.

- Então não conte nada para o Doutor Franco. - Theo recostou-se cansada no travesseiro. - A propósito, quero conversar com ele.

- Tome, aqui a tigela, aqui está a colher. - Colocou ambos nas mãos de Theo. - A próxima consulta com o médico é na semana que vem, o que você quer falar com ele?

- Pedir pela milésima vez minha alta, eu quero ir para casa.

 

Lenitivo: adj. Diz-se de quem ou do que provoca alívio ou acalma; calmante ou bálsamo. Que alivia dores.

Notas finais:

Já conhece o site do grupo Archer? grupoarcher.wordpress.com

E a ficha dos personagens? schwinden.com.br/2121-ficha-dos-personagens

Capitulo 12 - Vicissitude por Cristiane Schwinden
Capítulo 12 - Vicissitude

 

Sam a fitou confusa, com o cenho franzido.

- Ir para casa? Você já está em casa, amor.

- Estou?

- Sim, você veio ontem de manhã, não se recorda?

Theo balançou a cabeça, sem jeito.

- Acho que lembro. Então estou no meu quarto?

- Não, você está num quarto no andar de baixo.

- Ah. O que é isso? - Theo perguntou, colocando a colher dentro da tigela de frutas e percebendo o conteúdo.

- Salada de frutas, só as que você gosta.

- Eu já posso comer frutas?

- Pode, estas frutas estão liberadas, você vem comendo frutas há alguns dias.

Meg se aproximou, injetando algo em seu acesso intravenoso no braço esquerdo, Theo puxou seu braço.

- Quem é você?

- Meg, a enfermeira.

- Onde está Susie?

- Susie ficou no hospital, Theo. - Sam respondeu. - Susie trabalha lá, não aqui.

- Ok. - Respondeu, e comeu finalmente as frutas à sua frente.

Receberam a visita de Letícia e Daniela à noite, que evitaram maiores conversações com Theo, que parecia ainda confusa. A deixaram com a segunda enfermeira, Molly, e foram para a sala multimídia, assistir algo.

- Eu vou antecipar a consulta com Doutor Franco, tem algo errado. - Sam dizia, de forma apreensiva, estava sentada no tapete no chão, em frente ao sofá, bebendo uma cerveja.

- Na verdade isso é comum nesses casos, ela teve alguns danos sérios. - Letícia respondeu, o casal estava largado no sofá, também com suas cervejas.

- Sim, ela tinha essas confusões de vez em quando, mas agora é mais frequente.

- Pode ser pela mudança, por ter vindo para cá. - Daniela disse.

- Mas é tudo que ela queria, finalmente voltar para casa.

- Isso tem uma carga emocional grande, eu sei que ela queria voltar para casa, mas muita coisa aconteceu desde o dia em que ela saiu daqui para ir para a aula e não voltou mais, ela não é a mesma.

- As coisas tendem a melhorar devagar, tenha paciência, Sam. - Dani disse.

Uma semana passou-se, e Theo oscilava mudanças repentinas de humor e lapsos de memória.

Naquela tarde, Sam havia passado algumas horas na Archer, tentaria retomar sua rotina, já que Theo seguia estável.

- O que faz saindo do quarto de Theo? - Sam interpelou Mike, ao chegar em casa.

- Nada, fui ver se ela precisava de algo, ou se queria conversar.

- Eu disse para não entrar nesse quarto, você é surdo?

- Hey, abaixe as pedras, ok? Estou em paz.

- Quando você vai embora?

- Quando encontrar um lugar decente e me estabilizar no trabalho, não ganho o suficiente para manter uma vida confortável.

- Se o problema for dinheiro, podemos resolver isso rapidamente.

Mike deu um risinho.

- Não é tão simples assim. E você sabe o que acontece se tentar me tirar a força, certo? - Virou as costas e seguiu para seu quarto.

Sam foi até o cômodo onde os seguranças passavam algum tempo, e conversou com o chefe de segurança, o instruindo a ficarem de olho nas visitas de Mike ao quarto de Theo. Assim que deixou a sala dos seguranças, seu comunicador tocou, era seu pai.

- Oi pai, como você está? As dores no quadril foram embora?

- Samantha, que história é essa de expulsar Mike de casa?

Sam suspirou chateada.

- Ele anda fazendo fofocas para você?

- Não é fofoca, é conversa de homem. Ele cuidou de você por anos, depois te ajudou quando você fez o transplante, e agora quer simplesmente mandar embora? Isso não é atitude de gente honrada. - Elliot falava furioso.

- Pai, ele tem feito mal a mim e à Theo, eu não aguento mais esse estorvo aqui, ele só sabe encher meu saco.

- Não fale assim com seu pai! Escute, se você mandar Mike embora, você não precisa mais pisar em Kent, está entendido?

E a ligação finalizou.

- Que droga...

Sam esperou a cabeça esfriar, minutos depois foi finalmente ver Theo.

- Cheguei, meu amor. - Sam disse sorridente, adentrando a UTI domiciliar.

- Foi devorada pelos conselheiros? - Theo perguntou, recebendo um beijo nos lábios.

- Uhum. Me dê mais um. - Sam deu um beijo mais demorado. - Você está bem? Parece abatida.

- Estou bem, só estou cansada da fisioterapia.

- Não faça esforços demais, você pode ser machucar, pegue leve, mocinha.

- Quer ver o que aprendi hoje? - Theo disse animada.

- Quero sim.

- Ok, afaste-se.

Theo deu o comando para que a cama elevasse a cabeceira. Inclinou-se para frente, tirou o cobertor de cima das pernas, trajava um short, e com dificuldade girava para o lado de fora da cama, colocando as pernas para fora.

- Acho que você vai cair. - Sam disse preocupada, se aproximando.

- Não, não me ajude. - Finalmente colocou as pernas balançando para fora, ficando sentada na beira da cama.

- Você está sentada. - Sam abriu um sorriso.

- Já sento sozinha, não é ótimo? Amanhã descerei os degraus aqui embaixo.

- Não tem degraus abaixo de você, só para avisar.

- Não? Então é bom providenciar, quero sair da cama em breve.

- Não tenho a menor dúvida que você vai sair andando dessa cama em breve, mas não tão em breve, ok? Vamos com calma, hoje foi uma grande conquista.

- Eu sei... Ainda não tenho forças nem firmeza nas pernas. Nem no braço esquerdo, e essa mão biônica não me obedece direito. - Suspirou.

- Posso me aproximar agora?

- Venha. - Theo ergueu os braços à frente, a abraçando.

- Hum... É bem melhor abraçar você assim sentadinha. - Sam disse em seu ouvido.

- Tem algo ainda melhor. - Theo desprendeu-se, ergueu a mão em busca do rosto de Sam, até encontrar seu rosto e em seguida seus lábios. Era um código que Sam sabia muito bem o significado.

Foi um beijo que não deixou nada a desejar aos beijos lascivos de outrora, inclusive com a mão de Sam passeando pela nuca de Theo, um código involuntário que Theo também conhecia muito bem.

Ao cessar o beijo, Theo continuou correndo suas mãos pelo corpo de Sam.

- Está frio lá fora? - Theo perguntou, ao perceber que ela usava uma blusa leve de lã, que era verde clara, por cima de uma camiseta de malha, branca.

- Um pouco, já estamos quase em maio.

- Você está menos quente que antes, não é?

- Estou, perdi alguns décimos centígrados, já não sou tão Borg.

Theo colocou ambas as mãos por baixo da roupa de Sam.

- Posso te ver um pouquinho? - Theo pediu, de mansinho.

- Quando você quiser. Quer que eu tire a camisa?

- Meg está por aqui?

- Não, já sinalizei para ela nos deixar, minutos atrás. - Sam riu.

- Então quero.

Sam despiu-se das duas blusas, ficando apenas de sutiã branco, Theo não hesitou, corria delicadamente por cada centímetro nu, com um sorrisinho arteiro. Eram apenas toques despretensiosos, mas eram suficientes para Sam sentir leves estremeceres.

- Você está ainda mais linda do que antes. - Theo confidenciou.

- Não sei, mas saiba que não me importo se você quiser continuar verificando.

Theo sorriu e a beijou, Sam resolveu contra-atacar, e começou a correr suas mãos por baixo da camiseta azul de alguma banda que Theo trajava, mas não por muito tempo.

- Não quer que eu veja você? - Sam perguntou com a voz mansa.

- Não. - Theo respondeu, constrangida, com a cabeça enfiada no colo de Sam.

- Mas você sabe que continua sendo a garota mais bonita que já conheci, não sabe?

Theo não respondeu.

- Amor, algo te incomoda? - Sam perguntou.

- Eu não me sinto à vontade com meu corpo.

Sam ergueu seu rosto, com ambas as mãos, e de forma suave.

- Tudo bem, não precisa ficar assim sem jeito, prometo ajudar você a recuperar sua autoestima, combinado?

***

- Não é apenas um problema de autoestima. - Letícia sentenciou, conversavam num café próximo à Archer, alguns dias depois.

- Do que mais? - Sam indagou.

- Ela tem problemas psicológicos bem mais profundos que isso.

- Eu não sei o que acontece... - Sam parecia desolada. - Ela está se fechando, quando eu a toco ela se retrai, Meg me disse que tem a flagrado chorando, Theo não permite que eu a veja assim, ela parece tão angustiada, acho que essas limitações estão a deixando assim, ela está desmoronando.

- Ela está desmoronando porque agora ela pode desmoronar. Antes ela não podia, ela canalizou todas as forças e pensamentos em te salvar, na sua busca pelo coração, ela não podia fraquejar porque queria que você sobrevivesse. E você sobreviveu, ela se recuperou do tiro, agora está encarando seus próprios monstros.

- Quando você fala em monstros, você está se referindo ao período em que ela passou no Circus?

- Acho que essa é a causa principal, ela tem outras dificuldades também, mas é isso que desencadeia os problemas e neuras.

- Então é por isso que ela está se fechando?

- Posso te perguntar uma coisa?

- Claro.

- Você tem ideia de como é um prostíbulo? Das coisas que acontecem lá dentro?

- Tenho, claro que tenho.

- Você tem ideia das coisas que ela era obrigada a fazer?

- Não gosto de pensar nisso.

- Mas precisa pensar, se você quer ajudá-la a superar isso, você precisa entender o que ela passou.

- Eu tenho uma boa ideia de como as coisas funcionam nesses lugares.

- Tem? Tem mesmo? Você consegue imaginar o que é ser violentada diariamente? Por quase dois anos? Theo esteve perto da morte várias vezes, ela viu a morte na sua frente em várias ocasiões, ela presenciou suicídios e overdoses. Arrancaram toda a dignidade dela, programa após programa, a transformaram num pedaço de carne para fins sexuais.

Sam parecia incomodada, enjoada.

- Eu sei, eu imagino o inferno por qual ela passou.

- Ela foi espancada mais de cinquenta vezes, por seguranças ou por clientes, e não me refiro a situações simplesmente violentas, ela levou mais de cinquenta surras. Sabe quantas marcas de fraturas e fissuras ela tem nas costelas? Dezenove. Sabe porque ela tem problema respiratório agora?

- Ela tem uma falha no pulmão, algo assim.

- Não, ela tem uma cicatriz, de uma perfuração que sofreu numa das surras, após uma tentativa de fuga.

- Como você sabe dessas coisas? - Sam a olhava perplexa.

- Ela me contou.

- Ela não me conta nada, Lê.

- Isso não é desculpa, pegue a porcaria do seu comunicador e leia relatos de mulheres que foram vítimas de tráfico sexual.

Sam parecia envergonhada, movendo a cabeça de forma cabisbaixa e incomodada.

- A culpa é minha, dela não me contar essas coisas. - Sam admitiu.

- O que você fez?

- No início eu não acreditava nela, fazia pouco caso quando ela tocava nesse assunto, eu a afrontei.

- Você fez isso? - Letícia largou a xícara na mesa.

- Fiz, eu fui insensível, eu dizia que era vitimismo dela.

Letícia olhou atônita para Sam, e levantou-se.

- Eu preciso sair.

- Por que?

- Porque estou com vontade de bater em você.

- Não vá, pode me bater se quiser.

- É claro que não vou bater em você, mas estou muito, muito possessa. - Letícia voltou a sentar.

- Eu não fazia ideia, eu estava desesperada com meu maldito prazo de vida que se esgotava, não tive sensibilidade suficiente para lidar com isso. Mas as coisas mudaram, pelo amor de Deus, Lê! Você bem sabe o quanto tenho me dedicado a ela, você acha que ainda sou insensível assim? Ela é a minha vida agora!

- Ok, ok. Não quis te acusar de nada, mas sim, eu ainda estou brava por você ter sido uma idiota com ela. Mas vamos achar formas de resolver isso, ok?

- Como o que? - Sam perguntou.

- Ela precisa de uma boa terapia, em primeiro lugar.

- Certo, providenciarei, o que mais?

- Converse com ela, eu sei que você vai me dizer que ela está fechada e bla bla bla, mas encontre formas de desarmá-la, de deixá-la à vontade.

Sam entrelaçou as mãos em sua nuca, suspirando longamente de olhos fechados.

- Ela também está decepcionada por não conseguir ficar de pé, me disse que quer parar com a fisioterapia porque não serve para nada. - Sam comentou.

- Ela está negativa, mas tem mais coisas aí.

- Eu queria saber o que é.

***

Enquanto Sam e Letícia tomavam seus cafés amargos, Theo recebeu a visita de Mike, assim que a terceira enfermeira, Magda, saiu do quarto.

- Impressão minha ou você mandou o fisioterapeuta embora mais cedo hoje? - Mike perguntou, caminhando na direção da cama.

- Eu estava cansada. - Theo respondeu rispidamente.

Mike sentou-se na beirada da cama, de frente para Theo.

- Nossas conversas não estão servindo para nada? Sam ainda não me procurou, sequer está mais amigável comigo. Acho que você não tem cumprido sua parte no acordo.

- Eu não fiz acordo algum com você.

- Ok Theodora, me diga, do fundo do seu coração, você acha que Sam vai te aguentar por quanto tempo? Um mês? Seis meses? Acho que não tanto. Todo mundo tem um limite, eu percebo que o limite dela está chegando ao fim, ela confidenciou para Marcy que tem se sentido sozinha, que você não tem sido uma boa companhia.

Theo ouvia tudo, atentamente.

- Eu ia dizer para você se olhar no espelho, mas às vezes esqueço que você não enxerga. Não enxerga, não anda, não faz sexo. O que você faz? Toma vinte remédios, dorme o tempo todo, defeca e urina em saquinhos presos a você. Esquece de tudo no meio da conversa, esquece onde está, o que estava falando. Você se tornou um grande fardo, não percebe?

- Por que não me deixa em paz? - Theo pedia de forma angustiada, tentando não chorar.

- Você definhou, você não é mais aquela garotinha bonita de algum tempo atrás, é só uma ex-prostituta aleijada que não serve para nada, nem para dar ou comer, um ser de dar pena. Sam vai desistir logo, ela não encontra mais o que procurava em você.

- Afinal, o que você quer?

- Que desista de Sam, só isso. Aos poucos eu a reconquistarei, mas preciso que você saia do caminho.

- Se eu desistir de Sam, e a fizer desistir de mim, eu quero que ela encontre uma pessoa que a trate bem, eu não quero que ela fique com você, ela merece alguém melhor do que eu ou você. - Theo tremia o queixo. - Merece mais do que posso oferecer, eu sei, mas você... Você não...

- Viu? Nem consegue finalizar uma frase. - Mike sorriu. - Eu sou o que ela precisa, e ponto final. Sou homem, e sou um homem honrado e cristão, sou saudável e não me deitei com mil pessoas, como você. Theo, convenhamos, você não tem a menor chance, você acha que quando Sam toca em você, ela não pensa em todos os milhares de homens que já te comeram? No seu lugar, eu teria nojo de tudo que já fez, e desse corpo sujo e inútil.

- Por favor... Não quero... Me deixe aqui. - Theo estava agitada, com a fala confusa.

- Você sabe que voltarei, e em alguma visita talvez eu adiante o processo de desapego, injetando algum medicamento por engano em você, em uma dose fatal.

Mike saiu, deixando uma Theo nervosa e devastada para trás.

A noitinha, quando Sam chegou, Theo sequer virou-se na cama quando ela entrou no quarto. Continuou encolhida virada para o outro lado, com o quarto numa penumbra.

- Desculpe a demora, eu estava tomando um café com Letícia, conversando um pouco. - Sam aproximou-se, pousando a mão em seu ombro.

- Tudo bem. - Theo respondeu com a voz fraca.

- Já jantou?

- Já.

- Por que eu não ganho mais meu beijo de boas-vindas?

- Eu estou com sono, pode me deixar dormir?

- Claro. - Sam saiu cabisbaixa, subindo para seu quarto.

No dia seguinte, o clima era o mesmo, Sam passou a manhã no sofá ao lado da cama, tentando puxar conversas leves, mas Theo estava monossilábica.

- Meg me disse que você demitiu Eron, é verdade isso?

- Não. Só dei alguns dias de folga para ele.

- Como vai fazer as sessões de fisioterapia agora?

- Eu não preciso.

- Você sabe que vai piorar, parando com a fisio, né? Você não vai voltar a andar se continuar com esse pensamento.

- Eu não preciso andar.

- Ainda bem que amanhã você começa as sessões com o psiquiatra, você está ficando cada vez pior, espero que com ele você converse.

- Eu não vou.

- Vai sim.

- Não vou, e me deixe em paz.

- Quer que eu saia?

- Não precisa ficar aqui, já tenho enfermeira.

- Ok, acho que minha companhia não é bem-vinda, vou almoçar na rua, depois vou para a Archer.

Dois dias depois, Magda teve uma emergência e precisou sair por algumas horas, Mike estava em casa, de folga no trabalho, e ouviu a conversa entre Magda e Marcy, onde ela pedia que Marcy desse uma olhada em Theo mais tarde.

- Relaxa, só vim cuidar de você, Magda precisou sair, parece que o filho caiu de algum brinquedo. - Mike disse, ao lado da cama de Theo.

- Prefiro ficar sozinha.

- Não é prudente, quem vai administrar seus medicamentos? - Mike sorriu com ironia.

- Eu não vou tomar nada nas próximas horas.

- Hum, acho que vai sim. Deixa eu ver o nome disso... Tramal. Qual sua dose? Na dúvida melhor encher a seringa, não é?

- Eu não posso tomar mais do que 10ml disso. - Theo estava em pânico, apertou o botão de emergência, mas Magda já havia saído há um bom tempo.

- Que tal 50ml? - Deu dois petelecos na seringa cheia.

- Ok, vamos conversar. Você quer que eu termine com a Sam? Eu termino, assim que ela chegar eu termino tudo, eu juro.

- Do que adiantaria? Ela continuaria gostando de você. Preciso de algo mais radical. É por esse acesso que você toma as injeções? - Mike segurou seu braço direito.

- Mike, você vai me matar se aplicar isso! Não injete!

- Se isso derreter seu cérebro já estará de bom tamanho.

- Você é um militar condecorado, quer colocar uma morte dessas em suas costas? Preserve o nome que você construiu, não faça uma besteira que pode arruinar o resto da sua vida.

- Ninguém vai saber, eu não tão bobo assim, já planejei tudo. Ok, não mexa o braço, vai ser rápido, você não sentirá dor, irá apagar logo.

- Não, por favor, não, não, não...

Mike injetou todo o líquido no acesso intravenoso de Theo, ela o sentiu frio percorrendo suas veias, a deixando atônita.

- Sam deve chegar dentro de uma hora, infelizmente encontrará um corpo sem vida em cima dessa cama, enquanto isso eu estarei com um álibi fazendo hora para voltar para casa.

- Mike, me ajude, peça ajuda a alguém, não me deixe morrer aqui!

- Tenha uma boa passagem.

Ele saiu do quarto, mas ficou de olho na porta, a espreita do canto da sala.

Theo apertou o botão de emergência mais algumas vezes, tateou ao redor procurando algum comunicador por perto, mas só conseguiu derrubar coisas. Tentou sair da cama, mas acabou desabando no chão. Tentou se erguer, mas as pernas a traíram, ficou sentada no piso, chorando em pânico, esperando pelo pior.

- Hey! Alguém me ajude! - Gritava sem muita força, mas o quarto estava fechado.

Depois de quinze minutos, Mike retornou ao quarto, a tomou nos braços e recolocou no leito, a cobrindo com o cobertor.

- Eu injetei 10ml de soro em você, já pode parar de chorar. - Mike disse.

- Seu desgraçado... Seu... Seu...

- Isso foi um aviso, mas se você não terminar com Sam hoje, eu termino o que comecei. E se você contar algo para ela, saiba que eu não teria nenhuma dificuldade em levá-la para a Inglaterra, mesmo que contra a vontade, eu tenho meus meios para isso, ela sumiria para sempre da sua vida.

Theo não respondeu nada, ainda estava transtornada.

- Eu volto amanhã. - Mike disse, apagou a luz, e saiu.

Vinte minutos depois, Sam entrou no quarto, que estava na penumbra.

- Sam? - Theo virou-se na cama, na direção de Sam.

- Sim, só vim ver como você está, já vou te deixar quietinha.

- Fica aqui, por favor.

Sam se aproximou da cama, a olhando atentamente.

- Você está chorando? Onde está Magda?

- Deita comigo?

Sam não respondeu, foi logo tirando os sapatos e ajeitando os tubos e sondas, cuidadosamente, por fim deitando ao lado de Theo.

- Aconteceu alguma coisa? - Sam a trouxe para junto do seu corpo, Theo prontamente aninhou-se nela.

- Não. - Theo chorava baixinho.

- Converse comigo, eu prometo que vou te entender.

- Só fique aqui comigo.

- Tudo bem. - Sam afagava seus cabelos, com carinho. - Só saio daqui quando você me expulsar.

Não disseram nada por um bom tempo, Theo seguia nos braços de Sam, pensativa, acalmando-se.

- Se eu tivesse morrido com o tiro, você teria voltado para Kent? - Theo perguntou, já mais tranquila.

- Acho que não.

- Ficaria morando em San Paolo?

- Provavelmente sim. Ou na Baia. Mas acho que ficaria por aqui, trabalhando na Archer, tentando reconstruir minha vida, quem sabe casar.

- Com Mike?

- Mike é o último homem da face da terra com quem eu casaria.

- Não sente mais nada por ele?

- Hoje em dia mal posso olhar para ele.

- Por que ele continua morando aqui?

- Eu já o mandei embora várias vezes, ele diz que irá, mas precisa se estabilizar primeiro.

- Hum.

- Sente-se melhor? - Sam a deitou, e ficou por cima dela, a fitando.

- Não sei.

- Você está com uma carinha péssima.

- Estou repensando algumas coisas.

- Espero que esteja repensando a fisioterapia e o psiquiatra também.

- Não quero conversar sobre isso.

- Tudo bem. - Sam deitou-se ao seu lado. - Não fui para a Archer hoje.

- Onde você foi?

- Estou preparando algo para você.

- O que?

- É surpresa.

- O que é?

- Algo que talvez te motive.

- Hum.

- Hum hum para você.

Magda voltou ao quarto, e foi logo preparando seus medicamentos.

- Está melhor, amor? Permite que eu vá tomar um banho e comer algo? - Sam pediu.

- Sim, pode ir, estou melhor.

***

Uma hora depois, Meg assumiu o turno.

- O que faz sentada aí no escuro? - Meg perguntou, acendendo a luz da UTI, Theo estava sentada com as pernas para fora.

- Pensando na vida.

- Está pensando em dar uma voltinha?

- Na verdade, sim. Mas não hoje. - Theo estava com um semblante duro, quase enraivecido.

- Me avise com antecedência, para poder correr atrás de você.

- Trouxe sua janta. - Sam disse, entrando no quarto com uma bandeja. - Vai sair andando?

- Meg já fez essa piadinha, você chegou atrasada.

- Ok, aproveitando que seu humor ácido voltou, o que significa uma melhora no seu estado, não te darei comida na cama.

- Terei que ir buscar? Não deixe muito longe, minhas pernas são umas imprestáveis traiçoeiras.

- Venha cá. Meg, me ajude.

As duas tiraram Theo da cama, a sentando numa confortável poltrona ao lado do leito.

- Agora sim, vai jantar sentada. - Sam disse, colocando a bandeja em seu colo.

- Confesso que foi uma brilhante ideia, oficial.

Sam sorria abertamente à sua frente, Theo realmente parecia bem melhor.

Por volta da meia-noite, Meg aplicava alguns remédios em Theo, que dormia, Sam acordou no sofá, sentou-se, e alongava-se com semblante dolorido.

- Vá dormir na sua cama. - Meg se aproximou e sussurrou.

- Acho que vou, minhas costas estão me matando. Cuida direitinho dela.

Sam saiu andando devagar, com a mão nas costas.

- Meg? - Theo a chamou, minutos depois.

- Estou aqui, pequeno pássaro da asa quebrada.

- Por que pássaro da asa quebrada? - Theo se ajeitava na cama.

- Porque percebo que você está louca para voltar a voar, mas ainda não consegue.

- Eu quero voar.

- Essa é a parte mais importante do processo. Esse remédio é o que arde, não é? Desculpe ter te acordado. - Meg esfregava seus dedos pelo braço de Theo, onde havia injetado o medicamento.

- É, esse é o que dói, odeio esse.

- Culpa dessas suas pneumonias sorrateiras. - Meg sentou ao seu lado.

- Meg, eu quero andar.

- Se você continuar demitindo os fisioterapeutas, vai demorar para voltar a andar.

- Eu preciso andar, tenho coisas a resolver.

- Como o que? Cortar a grama?

- Não seja engraçadinha, eu estou falando sério, e quero completar meu raciocínio antes que meu cérebro tenha um lapso ou desligue.

- Ok, prossiga.

- As coisas irão mudar, não quero continuar assim.

- Essa é a atitude que eu estava esperando de você, porque sei que você é muito mais forte que essa criancinha chorona que derruba copos de propósito.

- Eu sou sim, acho que me deixei levar porque minha cabeça tem me pregado peças, eu estava insegura, mas chega, acabou. Eu já superei coisas bem maiores que essas, não faz sentido eu sentir medo, eu quero atacar a raiz do meu medo.

- E você sabe que tem aliados nessa luta, certo? Eu, Sam, Letícia, Daniela, Claire, somos todas suas soldados.

- Eu sei, e vou precisar de sua ajuda sim. Me traga uma tela, preciso pesquisar algumas coisas, eu quero enfrentar meus problemas de pé.

 

Vicissitude: s.f.: mudança das situações durante uma ação, mudança, mutabilidade, sequência de alterações, alternativas.

Capitulo 13 - Brio por Cristiane Schwinden
Capítulo 13 - Brio

 

- Bom dia, recruta. - Sam entrou no quarto com duas canecas de café. - Tem uma novidade na sua dieta, acho que você vai gostar.

- Bife?

- Café. Descafeinado e com leite desnatado, mas tá valendo.

- Café!

- Que ótimo ver você de bom humor. - Sam lhe entregou a caneca.

- Não, coloque aí do lado, me ajude a sentar na poltrona, quero tomar café sentada.

- Seu pedido é uma ordem.

Enquanto tomava seu café e comia biscoitos no sofá, Theo tateou a mesa ao lado.

- O que procura?

- Pegue essa tela, olhe isso que está sendo exibido, eu quero um desses, já marquei hora nessa clínica para hoje à tarde.

Sam olhava confusa para as imagens na tela.

- É de algum filme de ficção científica?

- Não, é um exoesqueleto de última geração, eu quero um desses, mas preciso ir até a clínica para que façam sob medida para mim, você pode me levar lá?

- Mas você tem condições de sair de casa?

- Tem. - Meg respondeu, sentada em sua poltrona do outro lado da cama. - Já pensei e providenciei tudo que ela precisa para poder sair de casa numa cadeira de rodas, inclusive os seguranças e o helicóptero.

- Me leva a tarde?

- Se Meg diz que é possível, então pode contar comigo, vamos comprar um exoesqueleto.

- Pode me fazer mais dois favores?

- Claro.

- Chame o fisioterapeuta, e marque também minha psicoterapia.

- É impressão minha, ou Theo voltou de férias? - Sam brincou.

- Só resolvi retomar as rédeas.

- Você vai ver como as coisas irão evoluir rápido, agora que você está com essa atitude, vai andar logo.

- Eu sei, mas uma coisa de cada vez.

- Ok, então. Sobre a fisioterapia, recontrato Eron, ou quer um novo?

- O que aconteceu com Eron?

- Você demitiu.

- Eu demiti?

- Tudo bem, você esquece algumas coisas, isso é normal.

- Esqueço, fazer o que. - Theo deu um longo gole no café. - Esse é o melhor café ruim da minha vida.

***

Três dias depois, e Theo estava hesitante, sentada em sua cama, Sam já havia colocado o novo exoesqueleto em suas pernas e cintura, era branco e preto, como a mão.

- Eu sei que aqui não tem as barras de apoio que tinha lá na clínica, mas eu e Meg somos suas barras de apoio agora. - Sam dizia, ao seu lado, segurando sua mão.

- Não se apresse. - Meg completou.

- Parecia mais fácil lá. - Theo estava nervosa, criando coragem para se erguer.

- Jeito, é só questão de jeito, como essa sua mãozinha cyborg, que já consegue até fazer malcriação. - Meg disse.

Sam a ajudou, e finalmente estava de pé, no meio do quarto, deu alguns primeiros passos inseguros, com Sam ainda segurando firmemente em sua mão.

- Está indo bem, tente chegar até a porta, mas cuidado para não cair. - Sam disse.

- Era exatamente isso que eu dizia aos meus filhos quando estavam aprendendo a andar, a diferença é que eles tinham um aninho, e andavam mais rápido que você.

Theo ergueu o dedo médio mecânico para Meg.

- Ok, agora venha até o meio da sala, pode seguir reto, não tem obstáculos. - Sam a soltou, e foi para a sala a esperar.

Theo continuou andando, tinha que fazer grande esforço a cada passada, seguia passo após passo, fraquejou num momento, caindo de joelhos.

- Opa, isso acontece. Quer descansar? - Sam disse.

- Quero, vou ficar um pouco sentada aqui, isso é cansativo.

- No chão?

- Me faça companhia.

- Com todo prazer. Meg, junte-se a nós.

Sam sentou ao lado de Theo, no piso da sala, Meg sentou-se num sofá.

- Prefiro não arriscar minha coluna. - Meg disse, rindo.

Marcy apareceu, sem entender a cena.

- Vocês caíram? - Ela perguntou, confusa.

- Não, estamos tendo uma tarde agradável no chão da sala, quer juntar-se a nós? - Theo convidou.

- Não, estou bem de pé, obrigada. Mas tem alguém que vai gostar de juntar-se a vocês. - Marcy saiu, e voltou com Levon, que correu na direção das garotas.

- Levon! Por onde você andou, garoto? - Theo brincava com o cachorro, entre suas pernas abertas.

- Passou um tempo no canil, coitado. - Marcy disse.

- Por ordem do meu pai, não foi? Ele odiava Levon. - Segurou a cabeça do cachorro com ambas as mãos. - Mas suas mamães te amam, viu?

Sam riu.

- Querem um chá? Um café? - Marcy perguntou.

- Se importaria de trazer café e rosquinhas para nós? - Theo disse.

- De forma alguma.

- O meu é puro. - Meg disse.

Após o inusitado café no chão, Theo se reergueu.

- Quer tentar ir até o piano?

- O piano ainda existe? - Theo disse maravilhada.

- Claro, está lá no canto, já até brinquei um pouco.

- Que fofo, vou comprar uma guitarrinha de plástico para você.

- Quer ou não quer ir?

- Me ajude. - Theo estendeu a mão, e algum tempo depois chegaram ao piano, ambas sentaram no banco em frente.

A tampa no teclado levantou-se ao toque, Theo pousou ambas as mãos nas teclas, emocionada, com um sorrisinho nostálgico.

- É o mesmo piano. - Por fim disse.

- Ele é lindo, nunca tinha visto um piano assim transparente.

- Todos os pianos são bonitos. Esse é mais bonito porque era da minha mãe. E sim, ele é lindo também por ser de um polímero transparente.

- Foi ela quem te ensinou a tocar?

- Foi, a única que teve paciência.

- Não vai tentar nada?

- Não tem graça tocar com uma mão só.

- Quem sabe sua outra mão possa fazer algo, não precisa tocar Liszt logo de cara.

Theo resolveu arriscar algo, mas a mão esquerda realmente não ajudava muito, depois de algum tempo resolveu parar, um tanto decepcionada.

- Qual era?

- Gimnopedia nº1 de Satie.

- Um pouco de fisioterapia pode resolver isso. - Sam a consolava.

- É... Em breve quem sabe eu te acorde com Morning Mood de novo.

- Theo, você ficou de pé hoje, caminhou, sentou no seu adorado piano, tem ideia quantas casas avançou nesse jogo?

- O suficiente para me motivar a fazer mais amanhã. - Theo disse com determinação.

Sam abriu um sorriso.

- Sabe aquela sensação maravilhosa de ter certeza que me apaixonei pela mulher certa? - Sam a beijou.

- Ok pombinhas, vou ajudar Marcy na cozinha. - Meg levantou do sofá, indo para a cozinha.

***

Theo passou um bom tempo no dia seguinte treinando com o exoesqueleto, já andava pela casa toda, indo inclusive para o jardim, estava exausta à noite, o aparelho demandava extremo esforço físico. Na tarde seguinte, Sam saiu para resolver algumas coisas da surpresa que estava preparando, Theo estava em sua cama, ouvindo algum filme, quando Marcy surgiu na porta.

- Psiu. - Marcy gesticulou.

- Livre? - Meg perguntou.

- Chegou agora.

- Ótimo. - Theo abriu um sorrisinho maquiavélico.

- Tem certeza? - Meg perguntou.

- É agora ou nunca.

- Coloque as pernas para fora. - Meg ordenou à Theo, Marcy já havia se mandado.

- Olhe o localizador.

- Barra limpa, ela está há mais de trinta quilômetros daqui. Anda, pernas para fora.

Meg prendeu o exoesqueleto em Theo, ajeitou as bolsas que estavam ligadas ao corpo de Theo por sondas, e logo ela ficou de pé com agilidade.

- Quer que eu te leve até lá? - Meg perguntou.

- Não, já aprendi o caminho até a cozinha, e contei os passos para chegar lá.

- Ok, então respire fundo e vá até o fim com firmeza, não se intimide, e se precisar de ajuda, ou se der tilt no cérebro, me chame, estarei por perto.

- É só o começo. - Theo deu um sorrisinho. - E alcance meu boné.

- Esse azul e branco encardido pendurado na parede?

- Ele está limpo, ok?

Colocou o boné e caminhou devagar pelo corredor, tateando as paredes, e contando as passadas. Entrou na cozinha, e encontrou Mike junto à um balcão, preparando um lanche.

- Deixaram o robô sair do quarto? Cadê suas babás?

- Eu não sei se você está sentado ou de pé, mas eu espero que esteja de pé, porque vamos falar de igual para igual. - Theo disse calmamente.

- Eu nunca serei igual a você, não sonhe com isso, você é apenas um empecilho imprestável. A propósito, eu estava mesmo já planejando minha próxima visita, ter uma conversa mais séria e resolver nosso assunto em definitivo.

- Eu me adiantei, vim ter nossa conversa final aqui. Na verdade, espero ter ainda uma outra conversa com você, em breve.

- Às vezes acho que você esquece quem está dando as cartas aqui. - Mike dizia com cinismo, dando uma mordida em seu sanduíche, recostado no balcão.

- Me encher de ameaças é dar as cartas? Eu vim aqui para informar minha decisão sobre o acordo que você propôs, que nem deveria ser chamado de acordo, porque o único beneficiado seria você.

- O acordo está atrasado, você sabe disso, não sabe? Já era para você ter se afastado da Sam, e ter terminado tudo com ela. Mas ainda não vi nenhum sinal de que você esteja se afastando dela, será que terei que invadir seu quarto de novo, e dessa vez injetar algo que tire você do jogo em definitivo?

Theo estava nervosa, a mão e a testa já suavam, mas se esforçava para se manter firme e não ser traída pelo seu cérebro disfuncional.

- Eu decidi que nunca, jamais, abrirei mão da minha felicidade, eu vou ficar com Sam, e ela será minha mulher.

Mike parecia surpreso com a determinação de Theo.

- Escolha errada, e você sabe as consequências disso, já te avisei várias vezes.

- Você não seria capaz de fazer isso com ela, se você diz que a ama, não lhe faria mal.

- Nós temos visões diferentes do que é fazer mal à Sam. Sim, eu teria coragem de sequestrá-la, e levá-la mesmo contra sua vontade para a Inglaterra, eu tenho amigos que me ajudariam com o rapto, e estando em nossa casinha, longe dessa ameaça lésbica, ela perceberia o erro que estava cometendo.

- Erro? Você acha que ela está infeliz comigo?

- E tem como alguém ser feliz ao lado do ser rastejante que é você? Theo, pense um pouco, Sam ficou comigo por oito anos, você acha que ela ficaria esse tempo todo comigo se não estivesse feliz? Ela apenas tem pena de você, é apenas gratidão que a move.

- Eu não presenciei esses oito anos, mas agora é para meu quarto que ela vai quando chega em casa.

Mike se enfureceu.

- Considere isso um ultimato: ou você termina tudo com ela ainda essa semana, ou acabo com a sua raça, e saio impune, porque já tenho tudo arquitetado.

- Ex-major Mike, eu não tenho medo de você. - Theo dizia com convicção. - Considere isso um ultimato: saia da minha casa ainda essa semana, com o resto da sua dignidade no bolso, e nos deixe em paz.

- Você está brincando com fogo, sua prostituta inconsequente, eu não sairei.

- Aviso dado.

Theo virou as costas e voltou pelos corredores, com a respiração ofegante e tonta. Meg tomou seu braço no caminho, a ajudando a chegar ao quarto.

- Gravou? - Meg perguntou.

- Tudo. - Theo respondeu, tirando seu comunicador de dentro da camiseta.

- Bom trabalho, andorinha.

- Você tem alguma fixação com pássaros?

- Vai precisar do anti convulsivo?

- Com certeza, estou quase surtando, me aplique uma ampola com urgência. E me alcança o oxigênio.

- Vai resolver tudo amanhã à tarde? Você vai falar com Sam antes ou depois? - Meg colocava o tubinho de oxigênio abaixo do seu nariz.

- O delegado disse que vem no início da tarde, resolverei com Sam depois, ela disse que vai me mostrar a surpresa a noitinha, quando chegar.

- Como se sente?

- Forte, por dentro e por fora. - Theo recostou-se na cama, com um sorrisinho. - Ameaça lésbica? - Riu sozinha.

***

No começo da noite do dia seguinte, Sam entrou animada no quarto de Theo, que a aguardava ansiosamente.

- Vem comigo?

- Meeeeg! - Theo a chamou. - Me ajuda a ir para a cadeira?

- Meg, hoje não é dia da Molly? - Sam perguntou.

- Sim, mas resolvi trocar com ela.

Depois de ajeitar Theo e seus tubos na cadeira de rodas, Sam a conduziu até o elevador, foram para o terceiro piso.

- Esse é o andar do quarto dos meus pais? - Theo indagou.

- É sim. Pronto, chegamos. Como você não enxerga, vou levar você para tatear algo, assim você pode se dar conta do que aconteceu aqui.

Sam levou a cadeira até um equipamento grande e complexo, e conduziu a mão de Theo até ele.

- Parece algo tecnológico... Hum... É um aparelho de musculação?

- Chegou perto, é um aparelho para fisioterapia, e tem mais doze nesse espaço.

- O que você fez? - Theo perguntou, com um sorriso surpreso.

- Reformei a grande suíte, derrubei paredes, e agora você tem um espaço para se recuperar e se exercitar, devidamente equipado com os melhores aparelhos, e com todos os aparatos e acessórios também.

- Nossa... Queria poder ver isso.

- Venha ver mais um.

- Esse é mais alto. - Theo tateava.

- Sim, é um andador, para você fazer suas caminhadas com suporte.

- Sam, você fez tudo isso sozinha?

- Com apoio técnico de uma equipe, da empresa que cuida de você e da sua UTI. Mas tive que decidir e correr atrás de várias coisas. O que achou?

- Eu achei maravilhoso! Eu imaginei várias coisas, até mesmo que você tinha construído um atelier, ou uma quadra de basquete lá fora, mas não tinha pensado nisso.

- Acho que você vai se recuperar mais rápido com uma fisioterapia bem equipada dentro de casa, já que você tem limitações para sair de casa.

- Meu anjo, assim eu vou andar sozinha semana que vem. - Theo riu.

- Nada de excessos, ok?

- Pegarei leve, mas com dedicação. - Theo ergueu o braço, a procurando. - Vem aqui.

- Que bom que gostou. - Sam inclinou-se para baixo, e a beijou.

- Obrigada, oficial. Você é meu anjo, já disse isso?

- Já. - Sam sorriu.

- Bom, eu tenho um assunto sério para tratar com você, mas agora estou feliz demais para fazer isso, então vamos jantar, e depois conversamos.

- Sobre o que é?

- Depois do jantar.

Sam parecia apreensiva no jantar, fazia sentada no sofá do quarto de Theo, que comia sentada na poltrona, em cima de um suporte.

- Quer conversar agora? - Sam puxou o assunto.

- Terminou sua refeição? - Theo falou de boca cheia.

- Sim.

- Ok, pegue meu comunicador na mesinha ao lado da cama.

- Pronto, peguei. Posso desbloquear?

- Como se você não soubesse que a senha é Levon, eu sei que você andou olhando minhas pornografias.

Sam arregalou.

- Sabe?

- Eu estava acordada aquela noite, inclusive escutei seus comentários, saiba que eu tenho tudo aquilo lá no meu quarto. - Theo largou os talheres. - Meg, leva para a cozinha?

- Volto mais tarde?

- Uhum.

- Ótimo, agora Meg sabe que você tem pornografia no comunicador e no quarto.

- E sabe também que você viu. - Theo riu.

- Depois digo a ela que olhei por engano.

Theo ajeitou-se na poltrona, e se alongou.

- Desbloqueie, e olhe os dois últimos documentos. - Theo orientou.

Sam fez o ordenado, e lia os documentos com a testa franzida.

- Achou os documentos?

- O que é isso? Ordem de restrição? Quem fez isso? - Sam perguntou, confusa.

- Não leu tudo?

- Você solicitou uma ordem de restrição de aproximação para Mike? Para se manter afastado de você por no mínimo 250 metros, é isso?

- Exatamente. Veja o próximo documento.

Sam também leu com um semblante confuso.

- De mim? Ele também não pode ficar a menos de 250 metros de mim? Por que isso?

- Por que achei necessário, o delegado veio aqui hoje à tarde, e solicitei estas ordens.

- Não tem necessidade disso, Theo. Mike não representa perigo, ele só está tocando a vida dele aqui, mas logo vai embora.

- Ok. - Theo suspirou pesadamente. - Agora vá até o arquivo de sons, e escute o último áudio, mas escute tudo.

Sam ouviu atentamente o diálogo na cozinha entre Mike e Theo, minutos depois estava boquiaberta, encarando o chão.

- Sam? Ainda está aí?

- Eu não fazia ideia... - Sam balbuciou, ainda atordoada.

- Ele vem me torturando psicologicamente há algum tempo, mas a última vez que ele esteve no meu quarto, tive certeza que ele me mataria, ou naquele dia, ou em breve.

Sam coçou os olhos com os dedos, assimilando.

- Por que não me contou?

- Você escutou o áudio todo, correto? Ele disse que te sequestraria se eu contasse algo. O que eu poderia fazer para impedir que ele te levasse embora? Cega, cheia de tubos, deitada numa cama sem conseguir sequer ficar de pé com minhas próprias pernas? - Theo elevou o tom. - Eu agi com os meios que tenho acesso, gravei as ameaças e mostrei à polícia.

- Ele já sabe disso?

- Não, eu deixei essa última decisão nas suas mãos. Essas ordens restritivas já estão valendo, mas negociei um acordo com o delegado. Um agente e dois policiais virão aqui em casa amanhã cedo, e se Mike ainda estiver nessa casa, ele será preso.

- E qual a decisão que preciso tomar?

- Lembra que eu falei que não expulsaria ninguém da minha casa? Você fará isso. Ou os policiais se encarregarão de fazer, você escolhe.

Samantha largou o comunicador e inclinou-se para frente, com os braços sobre as pernas e as mãos unidas, pensativa.

- Caso decida fazer com as próprias mãos. - Theo prosseguiu - Sugiro que mostre esses documentos a Mike, para ele acreditar que não estou brincando, porque ele é chato demais, nunca vi pessoa mais pegajosa que ele.

- Theo... Eu já o expulsei, eu vivo o expulsando, mas ele jogou baixo comigo.

- Ele sempre joga baixo.

- Não, ele fez uma chantagem, por isso não tomei nenhuma atitude radical ainda.

- Que chantagem? - Theo fitava um ponto vazio à sua frente, com a testa franzida.

- Ele disse que contaria para a imprensa sobre seus dois anos no Circus, e o que você fazia lá.

Theo jogou-se para trás, recostando-se na poltrona, perplexa.

- Eu quis te preservar. - Sam continuou, com a voz cuidadosa.

- Que merda, que desgraçado!

- Ele é, é um grande desgraçado, um mau caráter hipócrita, eu não consigo acreditar que pude sentir algo de bom por esse homem, eu também quero vê-lo bem longe daqui.

Theo ficou um tempo pensativa, esfregando as mãos nos apoios da poltrona, nervosamente.

- Samantha, faça o que tem que ser feito. - Theo decretou.

- Você sabe o que ele vai fazer.

- Foda-se, eu vou lidar com as consequências. Eu quero esse estorvo bem longe da minha casa. Se você não for lá agora, ele vai embora amanhã pelas mãos da polícia.

- Eu vou, eu colocarei um ponto final nisso agora. E enfrentaremos as consequências juntas, vou tentar blindar você o máximo que puder.

Theo novamente parecia desconsolada, balançando a cabeça devagar.

- Eu queria poder arrancar isso do meu passado, mas não dá.

- Eu irei falar com ele essa noite, vou pedir apoio para Claire, ela sabe como manter a imprensa longe e aumentar a segurança. - Sam disse com firmeza.

- Acho que é a solução mais digna, não que esse babaca mereça dignidade, mas acho que você vai se sentir melhor assim, do que vendo seu ex-noivo saindo algemado daqui, onde ele nunca deveria ter pisado seus pés, foi um grande merda você ter trazido esse pária para minha casa.

Sam ficou em silêncio.

- Sam?

- Sim?

- Estou sendo dura demais com você?

- Não, você está resolvendo algo que eu já deveria ter resolvido há muito tempo.

- Espero ter reagido a tempo, ele estava me destruindo, ele só tem feito merda comigo desde o dia que me conheceu, e agora chega, quero colocar um ponto final nisso de uma vez por todas, e conto com seu apoio, porque já engoli muita coisa de vocês dois.

- É o fim, Theo. Eu peço desculpas por ter colocado Mike na sua vida, ficaremos mais tranquilas sem ele por perto, você fez certo, tomou as decisões que eu deveria ter tomado.

- Você fez um bocado de burradas também, mas sei bem que você se torna apenas uma sombra de quem realmente é quando está com ele por perto, ele suga seu lado bom, te aniquila, você muda com ele por perto.

- Eu sei que fiz... - Sam respondeu entristecida.

- E eu ainda não acredito que esse bolha te comeu dentro da minha própria casa.

- Quase duas vezes.

- O que?? - Theo franziu as sobrancelhas, tentando focar na direção de Sam.

- Teve uma quase segunda vez, mas eu não te contei.

- Que porra é essa?

- Foi contra a minha vontade. - Sam dizia envergonhada, cabisbaixa.

- Ele estuprou você? Quando? - Theo já começava a respirar mais rápido.

- Não, ele não chegou a fazer nada, eu consegui empurrá-lo.

- Mas mesmo assim é crime.

- Ele é meu ex-noivo, não acreditariam em mim.

- Hey, você está errada. - Theo interrompeu. - Não existe isso, não importa se ele é seu marido há quarenta anos, se foi contra a sua vontade, é crime!

Sam já derrubava as primeiras lágrimas, enquanto relembrava aquele pior dia de sua vida.

- Não aconteceu nada, eu juro, não aconteceu.

- Amor, venha aqui. - Theo estava agora compadecida.

Sam foi até a poltrona, abaixou-se à sua frente, e recostou sua cabeça sobre a perna de Theo.

- Quando isso aconteceu? - Theo repetiu a pergunta, agora num tom suave.

- No dia que contei a você sobre a primeira vez.

- Naquele dia? No dia que tentaram te matar?

- Sim, eu cheguei em casa à noite, eu estava arrasada, minha mão estava queimada e doendo, eu só queria tomar um banho e ficar quieta na cama, mas ele invadiu o banheiro e... Quase conseguiu.

Theo afagava seus cabelos, carinhosamente.

- No meu banheiro?

- Sim, eu não percebi ele entrando.

- Temos que denunciá-lo.

- Eu não quero, eu só quero deixar isso tudo para trás.

- Mas ele cometeu um crime.

- Não irá fazer de novo, ele vai embora daqui a pouco.

- Sam... Ele cometeu um crime grave.

- Eu não quero mais mexer nisso, por favor.

- Tudo bem, não é a decisão correta nesses casos, mas eu não vou insistir, é uma decisão pessoal, é você quem está sentindo essa dor.

- Que você já sentiu tantas vezes, minha dor não chega nem perto da sua.

- Também estou tentando deixar isso para trás, Sam.

- Então me ensina como se esquece isso.

- Não se esquece, fica marcado a ferro quente na alma, mas alivia quando você para de olhar a cicatriz.

- Para você é fácil falar, você não enxerga. - Sam deu um sorriso torto, fazendo Theo sorrir também.

- O que seria de mim sem seu humor estranho?

- Quer que eu te coloque na cama?

- Eu me sinto um bebê quando você fala assim. Mas não quero ir para a cama, eu quero ir com você quando for falar com Mike.

- Mais tarde, preciso de um tempinho, ok?

- Então me coloque na cama, isso aqui dói as costas depois de um tempo.

Sam ergueu Theo da poltrona, a colocando na cama e a cobrindo.

- Senta aqui do meu lado. - Theo pediu, e foi atendida.

- Precisa de alguma coisa?

- Por que você não me contou?

- Eu não consegui... Me desculpe. Eu fiquei com medo de perder você de novo.

- Promete que vai me contar tudo a partir de agora?

- Prometo. - Beijou sua testa. - Mas nem tudo.

- Por que?

- Senão as boas surpresas deixam de ser surpresas, como o salão de fisioterapia.

- Ok, exceto as surpresas.

Duas horas depois, Sam sentiu-se pronta e com um mínimo de serenidade para fazer o que precisava ser feito. Subiu para um banho, ensaiou um pouco em frente ao espelho, e desceu para buscar Theo no quarto.

- Quer ir de cadeira ou exoesqueleto? - Sam perguntou.

- O exo é cansativo, e tive uma tarde agitada hoje, prefiro a cadeira.

Meg e Sam a colocaram na cadeira, com todos seus anexos, inclusive o cilindro de oxigênio, sua respiração estava pesada.

- Marcy pediu para um segurança ficar de vigília por perto, ok? - Meg disse.

- Ótimo, não sei do que aquele covarde é capaz. - Theo resmungou, colocando o tubinho abaixo do nariz. - Vamos lá, hora da limpeza.

 

Brio: s.m.: 1. sentimento de honra, dignidade, valor; amor-próprio. 2. qualidade de quem é bravo; coragem.

Capitulo 14 - Síndrome de Estocolmo por Cristiane Schwinden
Capítulo 14 - Síndrome de Estocolmo

 

Mike estava na sala multimídia, assistindo a tela, largado no sofá.

- Vieram assistir TV comigo? - Mike brincou, tinha uma lata de cerveja na mão.

- Olá ex-major, lembra que falei que teria ainda mais uma conversa com você?

- Então sentem-se comigo, vamos conversar, querem cerveja?

Sam respirou fundo, deu um passo, ficando à frente de Theo.

- Mike, serei breve e direta. Você vai deixar essa casa agora.

- Eu já disse que sairei quando for a hora certa. - Mike endireitou-se no sofá.

- Não, eu não estou te pedindo, estou comunicando, você vai arrumar suas coisas agora, e vai sair desta casa, para sempre. - Sam vociferou.

- Foi essa aleijada que mandou você fazer isso?

- Não, foi a polícia. Você pode sair agora, sem algemas, sem alarde. Ou assim que o sol nascer, algemado. Eu vim conversar com você porque gosto mais da primeira opção.

- Ah é? Se eu não sair você vai ligar para polícia?

- Não, eles virão amanhã cedo confirmar se as ordens de restrição estão sendo cumpridas.

- Que ordens?

- Sam sacou o comunicador, dando alguns comandos.

- Olhe seu comunicador. - Sam orientou. Theo fitava um ponto qualquer no vazio, prestando atenção na conversa, apreensivamente.

Após ler os dois documentos, Mike levantou-se com energia, agora irado.

- 250 metros de afastamento de vocês duas? Que besteira é essa? Eu nunca fiz nada!

- Você sabe que fez, querido. - Theo retrucou.

- Quem foi o idiota que acreditou nessa cega?

- O delegado, depois de ouvir o áudio daquela nossa conversa na cozinha.

Mike foi para cima de Theo, sendo impedido por Sam, que o segurou pelos ombros.

- Eu sei que você gosta de bater em mulheres, mas tem um segurança com o dobro do seu tamanho do lado de fora, se você encostar um dedo em Theo, eu darei pessoalmente uma ordem para que ele quebre cada osso seu. - Sam bravateou, o fitando com raiva.

Theo não entendia o que estava acontecendo, mas ficou com medo.

- Eu deveria ter me livrado dessa vagabunda quando tive oportunidade, mas outras chances virão, isso não vai ficar assim, Sam, isso não acabou. - Mike desvencilhou das mãos de Sam.

- Fim de linha. Não me faça ter que te tirar a força. - Sam disse.

- Mike, eu espero que você tire uma lição disso tudo, e deixe de ser um completo babaca. - Theo ia dizendo. - Pegue suas coisas e procure um hotel, se quiser pegar um carro da garagem, não me fará falta. Mas suma, por favor, suma para bem longe da gente, desapareça de uma vez das nossas vidas.

- Você vai deixar ela me humilhar? - Mike perguntou para Sam, ofendido.

- Ela não está te humilhando, está sendo até cordial demais com você. Humilhar é aquilo que você tem feito com ela desde que a conheceu, é quando você abre a boca para falar algo preconceituoso ou machista.

Mike atirou a lata na parede.

- Isso foi lavagem cerebral! Você não cansa de defender essa prostituta?

- Essa foi a última vez que você a ofendeu, não tenho mais nada para conversar com você. Vamos, Theo.

- Só um instante. - Theo correu sua cadeira de rodas para frente. - Já que é nossa última conversa, quero deixar minhas palavras de despedida. Michael, você é um dos homens mais covardes que já conheci, e eu conheci milhares deles, como você mesmo disse. Você é um morto de fome arrogante, que falhou em tudo na vida, principalmente no que diz respeito a caráter e integridade, você é um grande bosta fracassado que se acha portador da verdade, e um hipócrita defensor da moral e bons costumes. Sem contar dos anos de merda que você proporcionou à Sam, você roubou oito anos da vida dela, enquanto ela poderia estar fazendo algo que preste ou sendo feliz com outra pessoa.

- Como se você, uma aleijada cega, pudesse fazer algo de bom por ela, além de dar luxo e dinheiro. Serei o primeiro a rir de você quando ela te trocar por outra pessoa.

- Sam, meu amor, estou prendendo você nessa casa?

- Claro que não.

- Como pode ver, Sam está aqui por que quer.

- Ela te contou que transamos na sua cama? - Mike disse abrindo um sorriso cínico.

- Mike, pare com isso! - Sam o recriminou.

- Sim, ela me contou, e mais uma vez senti pena por ela ter dado para um babaca egoísta. Felizmente eu acordei, e agora ela voltará a ter prazer, espero fazer o suficiente para apagar as memórias ruins que ela tem de você, coelhinho.

Ele foi para cima de Theo, sendo novamente impedido por Sam, que resolveu encerrar saindo de lá tomando a cadeira de rodas.

- Ok, agora chega, você sabe o que deve fazer, suma daqui! - Sam disse, e virou as costas.

- Vocês me pagam!

Sam encontrou o segurança do lado de fora, lhe deixando instruções.

- O vigie até o momento em que ele saia pelo portão dessa casa.

Foi possível ouvir o barulho dele quebrando mais algumas coisas, o segurança entrou e o conduziu até seu quarto.

Sam terminava de colocar Theo de volta em sua cama, quando ela ergueu os braços e a puxou pelo pescoço, a abraçando.

- Você conseguiu, você me encheu de orgulho hoje. - Theo sussurrou, suas mãos tremiam.

- Avançamos mais uma casa.

- Obrigada, meu anjo.

- Enfim sós.

Theo sorriu, e a beijou.

***

- Meu Deus, nem acredito que me livrei dessas coisas! - Theo exclamou ao chegar em casa, saindo da cadeira de rodas para a poltrona em seu quarto, sozinha.

Alguns dias se passaram desde que Mike havia ido embora, Theo comemorava o fim das sondas, não tinha mais nada preso em seu corpo.

- Mas ainda precisa muito cuidado quando for fazer suas necessidades. - Molly alertou. - Será um longo caminho até suas funções voltarem ao normal, você terá dificuldade no início.

- Eu vou usar o banheiro! Eu não acredito nisso! Eu vou usar o banheiro de novo! - Theo bradava feliz.

- E tomar banho com mais tranquilidade. - Sam completou.

- Acho que nunca fiquei tão feliz por sentar num vaso sanitário.

- Bom, dando prosseguimento às comemorações por você poder fazer xixi no vaso novamente, eu fiz reserva num restaurante para nós duas, para amanhã, eles têm um ótimo bife com batatas fritas. Topa?

- Eu já posso comer bifes?

- Pode, o médico liberou.

- Samantha, hoje é o melhor dia da minha vida.

***

Na tarde seguinte, Sam chamou Meg para o corredor, lhe dando as orientações.

- Tia Meg, prepare uma mala com tudo que Theo possa precisar à noite.

- Ela vai passar a noite no hospital?

- Não, vamos dar um passeio. Coloque tudo que ela precisa e o que precisaria numa emergência, não esqueça de separar um cilindro de oxigênio e máscaras.

- Farei isso. Algo mais?

- Dê banho nela mais cedo, vamos sair as sete de noite, já falei com Lucian para preparar o helicóptero. Separe o exoesqueleto também, mas ela vai na cadeira.

- Só não vá para muito longe, ok?

À noite, Sam conduziu Theo até uma mesa lateral de um aconchegante restaurante, que ficava no último andar de um prédio alto. Checou todo o ambiente visualmente, certificou-se que haviam dois seguranças postos discretamente junto a porta. Theo estava agora radiante, sentada na mesa do restaurante, em sua cadeira de rodas.

- Como é aqui? - Perguntou.

- Não é um restaurante grande, mas é confortável, luz suave, cadeiras aveludadas.

- Vai pedir bife também?

- Não, vou escolher outra coisa, já comi um monte de bifes que Marcy tem preparado.

- Como você está vestida? - Theo perguntou, com um ar curioso.

- Uma camisa verde musgo.

- E?

- Uma echarpe marrom e jeans.

- Camisa de botões? Com bolsos?

- Sim e sim.

- Me mostra depois?

- Quando e quanto você quiser.

As refeições chegaram, Theo parou de comer, pensativa.

- Como é o público aqui? O restaurante está cheio? Será que tem imprensa?

- Mais ou menos, mas não precisa se preocupar com nada, tem dois seguranças tomando conta de gente, e não vi sinal de imprensa, tentei fazer tudo da forma mais discreta possível.

- É um saco lidar com a imprensa marrom, eu já escutei umas dez reportagens dizendo que haviam decretado minha morte encefálica, sem contar as que dizem que você é minha sequestradora.

- E você está comigo por conta da síndrome de Estocolmo?

- Ou por eu estar em morte cerebral. - Theo riu.

- Você deve estar acostumada a lidar com esse pessoal, não é?

- Desde que vim ao mundo.

- Tirava de letra?

- Acho que foi assim que desenvolvi meu sangue de barata. Teve uma época em que minha vida virou um inferno, eu não conseguia fazer nada em lugares públicos ou coletivos, sem ter um microfone enfiado na minha cara.

- Quando suas fotos íntimas com Janet vazaram?

- Como você sabe disso? Você viu as fotos? - Theo perguntou assustada.

- Não vi, não tive coragem de pesquisar na rede por elas. Foi Letícia que me contou.

- Foi uma merda... Até porque quando as fotos vazaram nós já havíamos terminado.

- Você era uma pirralhinha na época. Como superou isso?

- Enfiei alguns processos e me senti de alma lavada. Sabe, se sexo e nudez não tivessem todo esse tabu, esse tipo de coisa não aconteceria. Eu processei os responsáveis porque eles agiram de má-fé, não pelas fotos em si. Que tem de errado duas namoradas nuas? Não tem nada de errado, mas tem essa aura de proibido, de vergonha dos corpos. As pessoas deveriam desencanar disso e fazer mais sexo.

Sam ouvia tudo atenciosamente, os novos ares pareciam estar fazendo bem à Theo.

- Você deveria se tornar palestrante. - Sam brincou.

- Não, posso ser mais útil fazendo outras coisas.

- Por falar nisso, andei pensando em reativar a ONG da Archer, que está praticamente parada, o que acha? - Sam perguntou.

- Acho uma ótima ideia, achei que ela estivesse funcionando.

- Só mantém alguns funcionários para fazer de conta que funciona e conseguir deduções de imposto, mas na prática nada acontece.

- Então esse será nosso primeiro trabalho conjunto.

- Nosso?

- Quando eu resolvi retomar as rédeas da minha vida, decidi que voltaria a frequentar a Archer quando tivesse condições, e acho que em muito breve terei condições. Enquanto isso, eu preciso de você, preciso que você me inteire dos assuntos atuais aos poucos, você pode fazer isso?

- Com certeza. - Sam sorriu satisfeita. - Vou te colocar a par de tudo, e vamos reativar a ONG que leva seu nome.

- Essa será a primeira ação a ser tomada, mudar o nome da ONG.

- Você quer tirar seu nome?

- Sim, ela vai se chamar Instituto Imogen Bedford, sem o Archer.

- Sua mãe.

- Sim. E sabe qual será o objetivo principal a princípio?

- Assuntos relacionados à mulher, certo?

- Resgatar mulheres em condições perigosas, dar abrigo temporário ou permanente, capacitar, inserir no mercado de trabalho, empoderar.

- Acho que devemos começar pelo Circus.

Theo sorriu.

- Exatamente, é nossa primeira missão.

- Eu esqueci de te contar, quando você estava em coma conversei com alguns colegas da Zona Morta, dei a localização daquela rua onde encontrei você, pedi que procurassem pelo Circus. Eles não encontraram.

- Será que mudou de lugar? - Theo perguntou.

- Acho que não, você me disse que quando fugiu de lá correu por um bom tempo a esmo, sem saber em quais ruas entrava, acho que o Circus não é tão perto dali, e deve ficar bem escondido.

- Então temos que mandar diligências maiores fazer buscas.

- Eu vou lá procurar.

- Não, não vá para lá. - Theo havia parado de comer, absorta pela conversa.

- Não se preocupe, só irei localizar, não irei fazer nada quando encontrar, tem que ser algo planejado, para que as meninas não corram riscos.

Theo abriu um sorriso bobo.

- O que foi? - Sam perguntou.

- Essa parceria deu tão certo, não acha? Quem diria que seria assim.

- Qual parceria?

- Sam, quem perdeu meio cérebro fui eu.

- Ah, nós duas. - Sam riu. - Você é a melhor coisa improvável que poderia me acontecer, nem era para eu estar viva, quanto mais viva e feliz.

Ao final do jantar, Sam bebia o restante de sua taça de vinho, percebia Theo sonolenta.

- Podemos ir? Minhas costas já estão me matando, minha cabeça e a mão também. - Theo pediu.

- Vamos sim, você não pode ficar tanto tempo sentada.

- Eu adorei a noite. - Theo correu a mão pela mesa, pedindo pela mão de Sam, que logo a tomou, a afagando.

- Mas ainda não terminou.

***

- Sam, eu já comi vários bifes na minha vida, quando digo vários, quero dizer um monte mesmo, de todos os tipos. Mas o de hoje teve um sabor especial, foi o primeiro bife do resto das nossas vidas.

Sam riu, Theo estava sentada na cama de um luxuoso hotel, e a ajudava a trocar sua roupa.

- Você ainda não explicou porque viemos para um hotel, já que nossa casa é aqui perto.

- Matar a saudade da época em que ficávamos em espeluncas. - Sam respondeu.

- Eu tenho saudade das coisas que fazíamos, mas não das espeluncas em si.

- Por isso te trouxe num bom hotel, esse parece confortável. Erga as mãos. - Sam tirou sua blusa, e a vestiu com uma camiseta de dormir. - Deite. - Fez o mesmo com o jeans dela.

- Foi só por isso? - Theo deitou e se cobriu.

- Eu também queria poder passar uma noite com você numa cama de verdade, e não num leito de UTI. - Sam havia tomado banho e estava de roupão, agora vestia suas roupas de dormir, tiradas de dentro de uma pequena mala, que estava repleta de remédios e outras coisas emergenciais, ao lado do aparato de caminhar de Theo. E de um cilindro de oxigênio.

Theo se sacudiu em cima da cama, testando o colchão.

- É confortável, foi uma boa escolha.

- Vou te dar os remédios das onze agora, ok? Quer o oxigênio?

- Não, só os remédios. Tem um intravenoso de madrugada, Meg vai sair debaixo da cama e aplicar?

- Eu aplicarei. - Sam respondeu, e deitou-se ao seu lado.

Ficaram de barriga para cima por alguns instantes, com as mãos entrelaçadas sobre o peito, fitando o teto.

- Gostou da cama? - Theo puxou conversa, para quebrar o gelo.

- A sua é melhor.

- Você sabe que vai trocar aquela cama quando eu for dormir no meu quarto, não sabe?

- Por que? Ela é tão boa.

- Sam, acorda para a vida, não quero ter que mencionar o nome daquele ser.

- Ah, entendi. Eu trocarei então.

Silêncio novamente.

- Está com sono? - Agora era Sam que iniciava a conversa.

- Um pouco, mas estou sempre com um pouco de sono.

- Ah, eu marquei a consulta com o ortopedista para amanhã à tarde, ok?

- Bem na hora da fisioterapia?

- Já falei com Eron, ele vai mais cedo.

- Ah, então tudo bem.

- Amanhã é dia da Molly? - Sam perguntou.

- Não, da Magda, parece que elas trocaram o plantão.

- Ah tá, esqueci de olhar a escala em casa.

Silêncio.

- Precisa de alguma coisa? Quer mais analgésico? Quer água? Tem aqui do lado. - Sam perguntou.

- Não, está tudo bem, eu vou dormir.

Silêncio.

- Sam?

- Hum?

- Eu estou esperando alguma coisa? - Theo perguntou com confusão.

Sam riu, deslizou para o lado, ficando por cima de Theo, que pousou ambas as mãos no seu rosto.

- Um beijo de boa noite, talvez. - Sam brincou.

- Eu aceito. - Theo afagou seu rosto com os polegares

- Viu como a fisioterapia funciona? O toque da sua mão esquerda agora é tão suave quanto da mão direita. - Sam disse, virou o rosto beijando uma mão, virou e beijou a outra mão.

- Até que é divertido ser uma Borg. - Theo correu sua mão artificial pela nuca de Sam, a trazendo para um beijo delicado, quase estático. Logo Sam já estava a beijando com grande vontade.

Havia uma nova configuração de cenário agora, Sam tentava decifrar os sinais recebidos, que eram diferentes, tentava saber até onde poderia ir, onde suas mãos e lábios eram bem-vindos. Theo correspondia ao seu desejo, mas de forma mais tímida. Quando Sam subiu a camiseta de Theo, o beijo foi interrompido.

- Podemos ficar por aqui? - Theo pediu, baixinho.

Sam ficou um instante assimilando aquela negativa, com decepção.

- Claro, não temos mais pressa, lembra? - Sam sorriu de forma doce. - Mas posso continuar beijando você?

- Isso pode.

Namoraram por mais algum tempo, até adormecerem, mas o sono não durou muito tempo. Por volta das duas da madrugada, Theo acordou Sam, a sacudindo pelo ombro.

- O que foi?

- Me ajuda a ir no banheiro?

- Ajudo sim.

Sam coçou os olhos e ajudou Theo a ir até o banheiro, seguiu lentamente apoiada em seus ombros e braços.

- Pode esperar fora? - Theo pediu, timidamente.

- Não precisa de ajuda?

- Não.

Sam ficou de pé do lado de fora do banheiro, cinco minutos silenciosos haviam se passado.

- Sam, não consigo fazer xixi. - Theo reclamou.

- É porque você tirou a sonda há pouco tempo, tente mais um pouco, abra a torneira aí do lado.

Mais algum tempo depois.

- E aí? - Sam perguntou.

- Vou desistir.

- Quer ajuda? O que as enfermeiras fazem quando você não consegue?

- Coisas que não quero que você faça.

- Ok. Posso ir aí?

- Não.

Sam ouviu o barulho finalmente.

- Ah... Até que enfim. - Suspirou. - Quer ajuda para subir a roupa?

- Não, eu consigo aos pulos.

- Você não precisar pular, eu posso te erguer.

- Não quero. Pronto, venha me buscar.

Sam terminou de subir sua roupa, e a levou de volta para a cama.

- Desculpe ter acordado você.

- Eu sou sua quarta enfermeira, ok? Pode contar comigo a qualquer momento.

Theo ajeitou-se às costas de Sam, e adormeceram.

As três, o alarme tocou, e Sam levantou tropeçando numa poltrona.

- Porra!

- O que foi? - Theo acordou assustada.

- Bati o dedinho num móvel. Vou injetar o remédio da madrugada em você agora, ok?

- Podemos deixar esse pra lá? Ele arde. - Theo respondeu manhosa.

- Não, não podemos. Eu massageio seu braço depois.

Sam aplicou em seu acesso na mão, ficou um tempo sentada ao seu lado, massageando a região, e adormeceu nessa posição.

- Sam? - Theo esticou a mão, a encontrada sentada na cama. - Você dormiu sentada?

- Ãhn? Não.

Deitou, e logo adormeceram, sendo acordada novamente quarenta minutos depois.

- Sam? Me dá analgésico?

- Oi? - Sam acordou no susto.

- Minha mão dói, minhas costas também estranharam o colchão.

- Vou pegar. Quer do forte, do médio, ou do fraco?

- O forte, injetável.

Mais três horas de sono depois, e Sam acordou com o barulho do ronco de sua companheira de cama. Sorriu ao olhar para o lado e perceber a origem do barulho.

- Bom dia, amor. - Sam sussurrou preguiçosamente, a abraçou por trás, dando beijos lentos no pescoço de Theo, a acordando.

- Bom dia, oficial.

- Nunca imaginei que acordaria tão feliz com seu ronco.

- Desculpe...

- É o melhor despertador do mundo.

Theo riu.

- Quer ficar por aqui hoje, ou quer ir para casa? - Sam perguntou.

- Não estamos em casa? - Theo abriu os olhos, confusa.

- Não, estamos num hotel, não lembra?

Theo ficou alguns segundos tentando lembrar.

- Ah, o hotel depois do bife, desculpe.

- Tudo bem.

- Isso no meu braço são novas lemniscatas sendo desenhadas? - Theo perguntou, com um sorrisinho.

- São.

- Estava com saudades das lemniscatas matinais.

- E dos beijos no pescoço não?

- Principalmente dos beijos no pescoço. - Theo virou-se e a beijou, ficou algum tempo deitada no peito de Sam, recebendo mais símbolos do infinito.

- Podemos descer para o café?

- Sim, quer tomar banho antes? - Sam perguntou.

- Quero.

- Ok, te levo lá.

- Não precisa, vou de exo, já que você o trouxe.

- Vai tomar banho de exo? Aqui não tem a cadeira de banho.

- O equipamento é a prova d'água, consigo tomar banho sozinha.

- Se prefere assim, mas estarei na porta esperando.

Sam a ajudou com o exoesqueleto, apresentou todo o banheiro a ela, e Theo tomou um banho desastrado e cheio de dificuldade, a aguardava preocupada, quando ouviu um estrondo, entrando imediatamente.

- O que foi isso?

- Nada, só caí, mas já levantei.

- Quer ajuda? - Sam entrou no banheiro.

- Não! Espere lá fora.

Finalmente Theo saiu do banheiro, já vestida.

- Deu certo?

- Mais ou menos, talvez fique com alguns hematomas, e acho que não me enxuguei direito, mas estou limpa, isso que importa.

- É impressão minha, ou você não quer que eu te veja nua?

- Prefiro que não veja. - Theo respondeu encabulada.

- Você sabia que dei banho em vocês várias vezes quando você estava em coma?

- Deu? - Theo apertou as sobrancelhas.

- Você não reclamou nenhuma vez.

- Desculpe, eu não me sinto à vontade...

- Vem aqui, apoie as costas na parede. - Sam a conduziu até a parede ao lado da porta do banheiro. - Está firme?

- Eu estou bem, juro, nem estou tonta.

- Eu sei. - Sam parecia nervosa. - Eu vou me ajoelhar, ok?

- Para enxugar minhas pernas?

- Não. - Sam tomou a mão direita de Theo.

- O que você está fazendo?

- Calma.

- Eu estou calma.

- Theodora, você aceita ser minha namorada?

Theo se deu conta, boquiaberta.

- Foi tudo um plano!

- Foi sim.

- Você fez tudo que eu falei que faríamos se você resolvesse morar aqui.

- Uhum. - Sam deu um sorriso sacana, ainda de joelhos.

- E eu não percebi nada, que tapada. O jantar, o bife que apenas eu comeria, o hotel, a noite agitada, o banho, você de joelhos.

- O pedido de namoro, ainda não respondido. - Sam completou.

- Sim, tudo conforme o script, você é danada! Bom, a noite agitada foi por motivos diferentes do que eu imaginava, mas também foi uma noite agradável, eu gosto de ficar assim com você.

- Theo? Eu continuo de joelhos.

- Então se levante.

- Mas você não respondeu ainda, você aceita?

- Aceitar o que?

Sam exasperou.

- Eu estou neste momento ajoelhada à sua frente com uma caixinha com duas pulseiras, te pedindo em namoro.

- Sério? É lógico que eu aceito! Eu sou louca por você, Sam. Desculpe, eu tive um lapso de memória.

Sam riu.

- Tudo bem, você falou o que eu queria ouvir. Posso colocar a pulseira em você?

- Por que uma pulseira?

- Porque você não é uma pessoa convencional, achei que seria normal demais uma aliança, mandei fazer essas pulseiras de prata, e gravar uma lemniscata em cada. Pronto, passe seus dedos por cima.

Theo corria dois dedos pela pulseira, sentindo o símbolo em baixo relevo.

- Sam, você é a melhor namorada do mundo! Suba aqui. - Theo a puxou para cima.

- Coloca a minha? - Sam disse, colocando a outra pulseira na palma da mão dela. - Aqui.

- Pronto, você está oficialmente enlaçada comigo. - Theo comentou. - Agora quando eu te chamar de oficial terá um sentido ainda mais especial.

Sam riu, passou os braços por sua cintura, a apertando contra si, e a beijou.

- Theo, escute. - Sam se preparava, ainda a abraçando, com os rostos próximos. - Esse símbolo do infinito não está gravado nas pulseiras à toa, a maior certeza que tenho na minha vida é que quero ficar ao seu lado por toda eternidade. Eu amo você, da forma mais pura e intensa possível, eu não quero nunca fazer programação alguma, porque o que eu sinto por você é inefável.

Theo ouvia com um sorrisinho tímido, mas satisfeito.

- Eu nunca me senti tão amada como me sinto com você. - Theo respondeu. - Eu tinha uma forte resistência em assumir que estava apaixonada, me prometi várias coisas, mas tudo foi por água abaixo.

- Que tudo?

- Minhas promessas de nunca mais me envolver com alguém, meus planos de fugir e ficar sozinha, eu achei que havia perdido essa capacidade, de sentir algo bom e quente por alguém. Daí você surgiu, e destruiu todas as minhas convicções, conseguiu bagunçar ainda mais minha vida, que já era um tanto surreal.

- São coisas boas, certo? - Sam perguntou, confusa.

Theo não respondeu, apenas apontou para o próprio peito, e em seguida na direção de Sam.

- Eu também, um bocado. - Sam respondeu.

Um longo beijo depois, Sam se desprendeu, a encarando com um sorrisinho arteiro.

- Você não desconfiou das minhas pretensões em momento algum?

- Não, você me pegou.

- Eu queria formalizar do jeito que você idealizou, mas eu já enxergo você como minha namorada há meses. - Sam disse, ainda entrelaçadas.

- Desde quando?

- Hum... Boa pergunta. - Sam olhou para cima pensativa. - Acho que quando encontramos Igor, me dei conta que você estava com ciúmes dele.

- Eu não estava com ciúmes. - Theo resmungou.

- Ah estava sim, você confessou uma vez, inclusive.

- Um pouquinho. Espera aí. - Theo franziu a testa. - Quando conhecemos Igor? Estávamos brigadas, eu até dei a entender que não tínhamos mais nada.

- Exatamente, foi aí eu percebi que já era um namoro, e que estávamos enfrentando nossa primeira crise.

- Você é louca. - Theo sorriu, balançando a cabeça.

- Deita um pouco comigo, depois vamos para o café, pode ser? Quero namorar mais um pouquinho.

- Sim, mas antes você pode me ajudar a tirar o exoesqueleto? E pegar uma toalha?

- Por que?

- Está tudo molhado por dentro, não foi uma boa ideia tomar banho com isso. - Theo riu.

Uma hora depois, o casal fazia seu desjejum no salão de refeições do hotel. Sam segurava sua xícara repousada com ambas as mãos, e fitava Theo com um sorrisinho bobo.

- Por que você está quietinha? Está comendo? Você pode comer todos os pães do mundo, e eu tenho que me contentar com essas torradas integrais. - Theo resmungou.

- Estou fazendo meu hobby preferido.

- Comer?

- Perder a noção do tempo olhando para você.

- Ainda faz isso? - Theo respondeu encabulada.

- O tempo todo. - O comunicador estava recebendo uma série de bips, todos ignorados por ela, havia recebido mais um.

- Sam, acho que tem alguém desesperado para falar com você, não é melhor atender?

Ela olhou a tela, conferiu as notificações, e haviam dezenas de ligações e mensagens de origens diversas, não entendia o que estava acontecendo.

- Tem algo estranho acontecendo... - Ainda fitava a tela do comunicador.

Um homem com uma camisa polo azul abordou Theo, colocando uma mão em seu ombro e lhe apontando um comunicador.

- Theodora, você vai desmentir as informações que foram divulgadas nesta manhã? Você tem ideia com quantos homens você fez programas? Quer dar sua própria versão dos fatos para a rede WCK?

O repórter não era o único no recinto.

Síndrome de Estocolmo: é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor.

Capitulo 15 - Lapso por Cristiane Schwinden
Capítulo 15 - Lapso

 

Sam, com ajuda dos seguranças, expulsou do restaurante do hotel três jornalistas que abordaram Theo, todos queriam saber o que ela tinha a dizer sobre as declarações que Mike havia feito minutos antes na maior rede de mídia do país.

Não finalizaram o café da manhã, embarcaram rapidamente no helicóptero e seguiram de volta para casa.

- Eu vou cuidar disso, não se preocupe com nada. - Sam disse de forma firme a Theo em seu quarto, e saiu, puxando Meg pelo braço.

- Sedativos? - Meg perguntou, já do lado de fora.

- Sim, de leve. Tire o comunicador de perto, e evite ligar a tela.

- Algo mais?

- Dê um café da manhã decente para ela, eu vou para o escritório lá em cima tentar mensurar a dimensão da merda que Mike fez.

Sam entrou no escritório no segundo pavimento, sentou-se e tocou na tela a sua frente, a ligando, e as notícias iniciais já dava o tom do alarde.

"Confira detalhes íntimos da vida de prostituição que a herdeira do grupo Archer levava na Zona Morta"

"Assista na íntegra a entrevista com o militar que ajudou a resgatar Theodora Archer do prostíbulo, com detalhes picantes!"

Sam desligou a tela por alguns segundos, fechou os olhos reunindo coragem para voltar a lidar com aquilo.

- Seja o que Deus quiser. - Resmungou, ligou a tela e assistiu toda a entrevista com Mike.

Ainda tomada de raiva, ligou para Letícia.

- Finalmente retornou minhas ligações e mensagens. - Letícia atendeu num tom bravo.

- Estávamos fora, eu precisava colocar Theo em segurança dentro de casa primeiro. - Sam respondeu também de forma dura.

- Já assistiu?

- Já, eu esperava algo deprimente, mas foi pior.

- Mike não vale a cueca suja que usa.

- Ele distorceu várias coisas que contei a ele, aumentou outras.

- Você nunca deveria ter contado nada àquele verme.

- Ele era meu noivo na época, e várias coisas que ele sabe descobriu através de Lindsay.

- Sua adorável irmã, que adora Theo, assim como seu pai.

- Lê, preciso tomar algumas medidas, depois discutimos sobre a nobreza da minha família.

- Eu não sei o que sugerir, apenas afaste Theo dessa sujeira toda.

- Ela está afastada, está sedada no quarto, sem comunicador nem telas.

- Jura? E ela me ligou há cinco minutos de onde? Telepatia?

Sam exasperou.

- Droga, ela conseguiu algum comunicador. O que ela disse?

- Que ia implementar lâminas na mão mecânica para cortar as bolas de Mike pessoalmente.

- Eu vou lá tirar o comunicador dela.

- Não, espere. Ela está lidando bem, apenas não deixe que a mídia se aproxime dela, nem que entre em contato diretamente.

- Ela deve estar arrasada, revivendo o pesadelo.

- Nem tanto, Sam. Ela xingou Mike, mas depois me contou que você a pediu em namoro num hotel, ela está feliz com isso.

- Ela te contou? - Sam abriu um sorrisinho.

- Sim, contou em detalhes, e isso está tendo um peso maior, está toda alegre por ser sua namorada agora. Fofocas na imprensa marrom ela lida desde que nasceu, já não a afetam tanto.

- Nada como conversar com alguém que a conhece melhor. - Sam disse, mais aliviada.

- Ligue para a Archer, fale com o conselho, peça que lidem com as questões legais e de segurança, Claire talvez possa ajudar com isso. Mas não passe o dia sumida cuidando desse assunto, fique com ela, é tudo que ela quer agora, ter você por perto.

- Vou ligar para Claire. Você vem para cá?

- Prepare uma janta e um bom vinho, eu e Dani vamos jantar aí hoje, celebrar o início do namoro de vocês.

Em instantes Sam já resolvia todas as questões acerca do escândalo com Claire.

- Posso dar um pulo aí a tarde? Estou com saudades de Theo. - Claire pediu.

- Claro, você é sempre bem-vinda aqui.

Sam desceu, entrou no quarto onde Theo ouvia um filme barulhento na tela na parede em frente, estava sonolenta e o comunicador repousava na mesinha ao lado. Sentou ao seu lado na cama, tomou seu pulso beijando onde estava a nova pulseira.

- Verificando se ainda está no lugar? - Theo brincou.

- Feliz por estar no lugar.

- Não quero que você passe os próximos dias tentando limpar a sujeira que Mike fez.

- Já tomei algumas providências, mas vou ficar com você, nada vai nos atingir aqui, está tudo sob controle.

- Daqui a pouco surge outro escândalo e o meu será esquecido.

- Eu sei, hoje é um dia especial para nós, eu quero curtir essa boa fase nossa. - Sam a beijou.

***

- Sabe o que vou fazer para você agora? - Sam perguntou, sentada no sofá ao lado da poltrona, no quarto UTI, alguns dias haviam se passado, o escândalo já havia perdido força.

- Uma massagem? - Theo ouvia a programação na tela.

- Você quer uma massagem?

- Não é uma massagem?

- Não, eu ia fazer um pão.

- Eu não posso comer pão.

- Pode, o médico liberou.

- Eu posso comer pão? - Um sorriso crescia em Theo.

- Com algumas substituições, mas pode sim. - Levantou, lhe dando um beijo nos lábios. - Volto daqui a pouco.

Alguns minutos depois, Theo chamou Meg.

- Tia Meg, me ajude com o exoesqueleto.

- Você tem abusado disso, o médico disse para não usar tanto.

- É por um bom motivo, venha, me ajude.

Theo chegou de mansinho na cozinha, com suas passadas pesadas e lentas.

- Ainda não deu tempo de fazer. - Sam disse, ao vê-la entrando.

- Eu vim ajudar.

- Ah, você veio fazer pão também?

- Sim, me dê alguma coisa que eu tenha condições de fazer.

- Me contento com apoio moral.

- Sério, eu tenho mãos e todos os outros sentidos.

- Amor, sente-se e me faça companhia, não quero que se canse ou force as pernas nesse exo.

- Eu quero me sentir normal um pouquinho.

- Quer trabalhar? Vou te dar trabalho então.

Sam foi até ela, a conduziu até um balcão da cozinha.

- Aqui está a tigela, viu? - Sam colocou a mão dela em contato com o alumínio da tigela.

- Sim. - Theo tateou cuidadosamente.

- Aqui tem três ovos, quebre e coloque aí dentro. Quando terminar pegue a farinha de trigo, aqui, sentiu?

- Sim, aqui.

- Despeje duas xícaras cheias dessa farinha na tigela, a xícara está bem ao lado, veja. - Sam conduzia sua mão de objeto em objeto. - Consegue?

- Moleza. - Theo respondeu confiante.

- Eu vou terminar de moer os grãos aqui ao lado, quando terminar me chame, te darei novas instruções.

Sam selecionava os grãos atentamente, moendo cada especialidade, mas de olho em Theo. Um tempo depois a percebeu estática, com uma xícara vazia na mão.

- Não encontrou a farinha? - Sam perguntou.

- Eu estou na cozinha? - Theo perguntou confusa, e um tanto envergonhada.

- Está sim, você veio me ajudar a fazer pão.

- Eu deveria fazer algo com essa xícara, não é?

- Sim, encher de farinha de trigo, mas tudo bem, eu te ajudo.

- Desculpe, eu apaguei.

- Não peça desculpas, você não tem culpa. - Sam a envolveu pelas costas, a abraçando. - Ainda bem que não mandei você descascar batatas, imagina você com uma faca na mão sem saber o que fazer?

- Eu sou uma péssima ajudante. - Theo riu sem jeito.

- É a melhor de todas.

Sam beijou seu pescoço, Theo colocou os dedos dentro da farinha, virou-se, e deslizou seus dedos pelo rosto dela, a sujando enquanto ostentava um sorrisinho arteiro.

- Você sabe que não vou deixar barato, não sabe?

Sam também sujou dois dedos e correu delicadamente por sua testa, nariz, bochechas e queixo.

- Como ficou minha maquiagem? - Theo perguntou.

- Espera, faltou um retoque. - Sam a beijou.

Sam parecia não ter intenção de parar o beijo, pelo contrário. Ergueu Theo pelas coxas, a sentando sobre o tampo do balcão com agilidade, e sem desprender seus lábios dos dela, causando um barulho metálico do contato do exoesqueleto com o mármore.

Ela vinha se esforçando, se contendo, mas bastava uma fagulha como aquela para esquecer as reservas e limites impostos por Theo silenciosamente.

Suas mãos vagavam afoitas pelas costas de Theo, por baixo de sua camiseta branca, até a evolução ser abruptamente interrompida.

- Sam? Ah, me desculpe. - Meg disse, sem jeito, ao entrar na cozinha. - Volto depois.

- Não, entre. - Sam ajeitou a camisa de Theo, que estava ofegante e um tanto perdida, sobre o balcão.

- Eu trouxe seu comunicador, ele não parava de tocar, achei que poderia ser importante. - Entregou o aparelho a ela, já saindo.

- Obrigada, Meg.

- Quem está ligando? Letícia? - Theo perguntou.

- Não. - Sam olhava a tela com o cenho franzido. - Maritza. Vou retornar.

- Me desce daqui e me coloca numa cadeira?

Sam a colocou na cadeira e sentou em outra ao seu lado.

- Olá Ritz, como está? Aconteceu algo? - Sam disse, foi prontamente atendida.

- Graças a Deus estou falando com você! Sam, eu preciso de ajuda, eu não sei mais o que fazer, por favor me ajude.

- Hey, acalme-se, me explique o que está acontecendo, e tente falar devagar.

- Fizeram comigo! É tudo verdade, aquilo que você estava especulando, é verdade, está acontecendo!

- Do que você está falando?

- Me transformaram em alguma coisa, eu vou morrer, colocaram um coração que pode se desligar a qualquer momento, eu estou desesperada, eu não quero morrer.

Sam balançou a cabeça com tristeza, dando um suspiro.

- Ah não... Também te transformaram numa Borg?

- Isso, esse é o nome que eu descobri, fizeram depois daquele acidente que sofri, lembra que contei a você?

- Sim, faz uns três meses, não é?

- Isso, um pouco mais. Sam, você também está com um coração artificial? Como está se mantendo viva? Meu Deus, o que eu faço?? - Maritza falava com desespero, Theo acompanhava a conversa atentamente.

- Eu consegui um coração novo, um de verdade.

- Então tem como trocar? Eu preciso tirar isso de dentro de mim!

- Foi por isso que fugi do exército, para procurar um coração novo, acabei conseguindo horas antes do artificial se desligar.

- Você sabia quando o seu se desligaria? Como descubro meu prazo?

- O prazo de todos é de três anos, então acalme-se, você tem tempo, precisa manter a cabeça fria e planejar a busca por um outro coração.

- Como vou sair daqui? Eu não tenho como buscar outro, me ajude, Sam!

- Peça sua exoneração.

- Eu já pedi, me negaram, disseram que só posso pedir afastamento ou licença três anos após minha promoção, e eu fui promovida a primeira tenente mês passado. Eu não tenho como sair, o que faço? Eu vou morrer aqui dentro.

- Então você vai precisar desertar, assim como fiz. Planeje uma fuga, posso te dar instruções.

- Fugir para onde?

- Venha para cá, ajudo você aqui.

- San Paolo? Como vou fugir de um quartel isolado na Zona Morta e chegar até aí? Eu não tenho dinheiro, você sabe que meu rendimento é repassado diretamente a minha família, eu não tenho como conseguir dinheiro, apoio, nada!

- Não tem como conseguir algo emprestado aí?

- Sam, como vou entrar na Nova Capital? Serei foragida, sem documentos, sem grana, nem sei para onde ir quando sair daqui, estamos no meio do nada.

- Você precisa arranjar documentação fria para atravessar a fronteira.

Theo gesticulou, chamando sua atenção.

- Só um instante, Maritza. O que foi, amor?

- Vá buscá-la. - Theo disse.

Sam foi pega de surpresa, precisou de alguns segundos para ordenar os pensamentos.

- Está aí? - Maritza perguntou.

- Escute com atenção. Eu vou buscar você, preciso que você organize sua fuga para domingo de manhã, na hora da missa, eu estarei te esperando na cidade vizinha ao quartel, porque não é seguro me aproximar.

- Você vem me buscar, Sam? Você está falando sério? - Maritza parecia radiante agora.

- Hoje é quarta-feira, eu vou planejar as coisas aqui, tenho que pesquisar algum lugar aí perto para conseguir seus documentos falsos. Provavelmente irei para Quebec um dia antes, alugo um carro e busco você no domingo. Te levo para Quebec, fazemos os documentos, e de lá voltamos para San Paolo, em segurança. Aqui teremos tempo e calma para conseguir um coração novo para você, não se preocupe com isso.

- Você vai fazer tudo isso por mim?

- Vou, você vai ficar bem, como estou agora.

- Por que?

Sam deu um sorrisinho.

- Porque você é minha amiga, eu gosto de você.

- Eu não morrerei até domingo, morrerei?

- Não, fique tranquila, temos tempo. Mas não dê bandeira aí no quartel, tente não transparecer nada, e não converse sobre isso com ninguém.

- Ok, vou tentar ficar calma. Vamos nos falar outras vezes antes de domingo?

- Me ligue sábado, no horário que você puder.

- Combinado, preciso desligar antes que me interceptem.

A ligação finalizou e Sam ainda fitava a tela a frente.

- Mais uma Borg? - Theo disse.

- Fizeram com ela também, coitada. Estava desesperada.

- Pelo menos ela tem tempo, vamos conseguir um coração para ela aqui, com tranquilidade.

- Sem correria, sem dois meses de aventura na estrada.

- Não é porque você comeu o pão que o diabo amassou que ela precisa passar pelo mesmo.

- Sim, ela vai ficar bem logo.

- Diga para ela que ela pode ficar aqui em casa o tempo que quiser, mas se quiser voltar para a Inglaterra depois de tudo, nós a ajudaremos.

- Ela é irlandesa, mas eu falarei isso para ela sim.

- As irlandesas são bonitas. - Theo brincou.

Sam fitou Theo por algum tempo, com um semblante alegre.

- Eu deveria pedir você em namoro todos os dias, sabia?

- Renovar os votos? - Theo sacudiu sua pulseira.

- E dizer o quanto você é uma mulher incrível, e o quanto sou sortuda por ter você na minha vida.

- Eu ia responder que você é uma boba, mas é bom ser um pouco mimada. - Theo respondeu, procurando a mão de Sam sobre a mesa.

Sam tomou sua mão, beijando sua palma. Sempre que lembrava onde Theo havia passado seus últimos anos, tinha vontade de doar-se a ela, compensar de alguma forma o estrago feito, dar o conforto e carinho que lhe foi negado naquele lugar sórdido.

Levantou e entregou um beijo em sua testa.

- Você também me mima.

- É divertido amolecer seu coraçãozinho. - Theo riu.

- Vai continuar me ajudando com o pão?

- Não, você pode me fazer um favor? Quero voltar para o quarto, mas estou cansada demais para ir andando com essa coisa pesada.

- Quer que carregue você?

- Não, quero a cadeira de rodas. Mas quero o pão também.

***

Nos dias seguintes, Sam elaborou o plano de resgate de Maritza, que conforme combinado, fez sua ligação no sábado pela manhã.

- Você está em segurança? - Sam indagou a Maritza.

- Sim, estou num lugar seguro, e não dei bandeira durante a semana. Você vai vir, não vai? Por favor, não me diga que mudou de ideia. - Ia falando de forma afobada.

- Viajo hoje para Quebec, o plano continua o mesmo. Está com tudo preparado para a fuga amanhã? - Sam estava despojada na poltrona do quarto térreo, tomando café com Theo, que estava na cama e acompanhava a conversa.

- Tudo planejado, mas preciso de mais orientações, eu não faço ideia por onde fugir.

- Prepare uma mochila pequena com suas coisas, vista uma roupa civil, espere a missa ter começado. Por volta das 8:10h você segue pelos fundos dos barracões de treinamentos, ultrapassa o primeiro muro, que não é muito alto, segue pela direita até encontrar a área dos campos de exercício, tem uma parte que é isolada por tela aramada. Leve um bom alicate ou algo parecido, corte a tela, e siga no sentido noroeste por aproximadamente três quilômetros, na direção de Saint Fabien, eu estarei nessa cidade, próximo à margem do rio, na entrada do parque nacional, num carro alugado, de modelo simples, cinza escuro.

- E se perceberem a fuga? E se me interceptarem no caminho? Serão três quilômetros correndo pela minha vida!

- Maritza, deixe de drama. Você é uma soldado muito bem treinada, se vire.

- Você estará lá esperando?

- A partir das oito estarei lá, então seguiremos viagem de volta para Quebec.

- O que faremos em Quebec? E os documentos?

- Vamos fazer os documentos no período da tarde, já marquei com um pessoal que providencia isso, criarão uma nova identidade para você.

- Depois vou com você para San Paolo?

- Não, você vai ficar quietinha no hotel, eu vou alugar um helicóptero para Winnipeg, retorno no dia seguinte.

Theo franziu a testa.

- Por que? Vai me deixar sozinha no hotel? Para que essa viagem? - Maritza se segurava para não se desesperar.

- Tenho algo a resolver por lá, você estará com nova identidade e armada, apenas fique no hotel me esperando.

- Ok, apenas me tire daqui, me leve logo para onde eu possa trocar de coração.

- Algo mais?

- Não me abandone, Sam, só posso contar com você.

- Descanse hoje, siga o planejado, te vejo amanhã.

Após desligar a ligação, Theo foi logo perguntando.

- Winnipeg?

- Eu não quis conversar sobre isso antes para não te agitar.

- O que você vai fazer em Winnipeg? - Theo já pressentia a resposta, tensa.

- Procurar o Circus.

- Por favor, não vá, contrate pessoas para fazer isso.

- Irei apenas procurar, ok?

- Você não pode fazer isso sozinha.

- Theo, eu não farei nada, eu juro.

- Você vai procurar apenas?

- Sim, eu lembro bem onde encontrei você, vou varrer aquela região. Depois que conseguir a localização daí sim vou planejar algo. - Sam levantou, sentando ao seu lado na cama.

- Não entre lá.

- Não entrarei, até porque não quero colocar a vida das meninas em risco, será tudo muito bem arquitetado, e com uma boa equipe. - Sam afagava seu rosto.

- E se não encontrar?

- Volto para casa no dia seguinte, com Maritza. Depois vamos pensar em mais possibilidades, alguém tem que saber a localização desse lugar.

- Você volta para casa segunda-feira então?

- Segunda à noite estarei aqui, te dando um beijo de boa noite.

***

Sam bocejava preguiçosamente dentro de um carro cinza escuro, passavam alguns minutos das oito da manhã daquele domingo. Estava estacionada entre algumas árvores, atrás de si havia um rio, ao seu lado, a entrada de um pequeno parque ecológico.

Meia hora depois tamborilava seus dedos no volante, apreensivamente. Não havia sinal de Maritza, nem mensagens. As nove saiu do carro, deus alguns passos nas proximidades, voltou ao carro, recostando-se na lateral. Ajeitou o gorro e esfregou as mãos com frio, varria os olhos pelo local, procurando por algum sinal de Maritza, até finalmente avistá-la.

- Achei você, graças a Deus. - Maritza abriu um sorriso ao se aproximar de Sam, que lhe deu um demorado abraço.

- Você já foi mais veloz, cabo. - Sam brincou.

- Agora sou primeira tenente, ok?

- Estava com saudades de você. - Sam riu. - Você está bem? Correu tudo bem?

- Sim, deu certo, suas dicas estavam certas. Eu consegui, estou fora do quartel, nem posso acreditar nisso. - Maritza sorria animada.

- Ótimo, agora entre no carro, cara de salsicha.

- Ah Sam, por favor, você ainda lembra desse apelido?

- Entra logo, posso lembrar de outros.

Deram a partida, iniciando a viagem de aproximadamente duas horas até a capital Quebec.

- Se aqueça. - Sam jogou uma pequena garrafa térmica metálica no colo de Maritza.

- Café?

- Com rum.

- Como nas madrugadas de treinamento no Alasca?

- Isso aí. - Sam deu um risinho.

- Eu preciso muito disso. - Maritza abriu afoitamente, dando um longo gole.

- Deixe algo para mim, também estou com frio.

Maritza deu lançou seus grandes olhos verdes na direção de Sam, antes de voltar a falar.

- Você está com boas roupas, boa aparência, com tem conseguido se manter?

- Não são roupas caras. - Sam desconversou, sem jeito.

- Como arranjou dinheiro para me buscar? Passagens são caras, e esse carro não é nada simples.

- Tem uma pessoa patrocinando tudo isso, e inclusive preciso ligar para ela agora.

- Theo?

- Sam? Deu tudo certo? - Theo perguntava do outro lado.

- Deu sim, Maritza cara de salsicha está aqui ao meu lado, no carro. Já estamos voltando para Quebec.

- Que alívio... - Theo suspirou. - Eu só vou ficar tranquila quando vocês duas estiverem aqui, em segurança.

- Está correndo tudo dentro do planejado, não se preocupe, não se agite, combinado?

Theo não seguiu as orientações, e continuava agitada. Meg percebeu que algo mais acontecia, e a examinou minunciosamente.

- Você está com febre, não urinou nada hoje, seus leucócitos estão altos. Vamos lá estudante de medicina, diga seu provável diagnóstico. - Meg a estimulou.

- Uma infecção urinária na hora errada. - Theo bufou, chateada.

- Não tem hora certa para ter isso, você pode piorar rapidamente com qualquer coisa.

- Me dê mais remédios.

- Não, vou levar você ao hospital, para fazer exames mais detalhados.

- Nãããããão... Eu não quero ficar internada.

- Você não vai, serão só exames, você volta para a casa logo em seguida.

- Ok, agora que você descobriu, saiba que ontem eu consegui ir ao banheiro.

- E ontem estava normal?

- Digamos que tinha a cor vermelha.

 

Lapso: s.m.: Espaço ou intervalo de tempo; decurso de tempo, falha causada, provavelmente, por falta de atenção: lapso de memória.

Capitulo 16 - Faileas por Cristiane Schwinden
Capítulo 16 - Faileas

 

 

- Espera, como você sabe que sua urina estava vermelha? Visão supersônica interior? - Meg a questionou.

- Magda me disse ontem.

- E ela não fez nada?

- Me deu antibiótico e disse que me levaria para o hospital, mas eu a convenci a esperar um pouco.

- Precisamos ter uma conversa séria com Magda, não é a primeira vez que ela vacila.

- Nããããão, Magda foi legal.

***

Próximo ao meio-dia, a dupla militar entrou no quarto de um hotel de três estrelas. Sam orientou Maritza com suas coisas, e deitou-se em sua cama, mexia em seu comunicador.

- Essa será sua moradia até amanhã, então fique à vontade, peça comida se quiser. - Sam orientava, digitando algo.

- Para onde você vai?

- Procurar um lugar, vou aproveitar que estou na Zona Morta.

- Quando vai?

- Dentro de duas horas, já reservei o helicóptero. Por que ninguém me atende? - Sam tentou algumas ligações, sem sucesso.

- Você ganhou na loteria?

Sam largou o comunicador no colo, fitando Maritza.

- Esse dinheiro não é meu.

- Você e Mike reataram? Eu soube que ele descolou uma grana com aquele negócio ilícito. - Maritza estava sentada em sua cama, e falou num tom baixo.

- Não, não reatamos. E pelo que soube, confiscaram as contas bancárias dele depois que ele foi expulso.

- Ele foi expulso?

- Do exército, de casa...

- O que você está fazendo aí?

- Mandando mensagens, pedindo informações sobre Theo, já que ninguém me atende.

- A pessoa que você ligou mais cedo?

- Sim.

- Seu namorado?

- Namorada. - Sam respondeu sem tirar os olhos do comunicador.

Maritza riu.

- Você realmente não quer me contar quem é esse patrocinador sigiloso, hein? É algum militar?

- Acabei de contar.

Maritza parou de sorrir, a fitando séria.

- Você tem uma namorada?

- Tenho sim. Não se mexa. - Sam apontou o comunicador para ela.

- O que você fez? Você tirou uma foto minha?

- Sim, registrando sua reação. - Sam riu.

- Que história é essa? Você não é homossexual, é alguma piada comigo?

Sam esfregou os dedos nos olhos, e largou o comunicador na cama.

- Não, não tem piada, eu gosto de uma garota, qual o problema? Vai me julgar?

- Não, não vou... - Maritza baixou a cabeça, assimilando.

- As pessoas mudam, evoluem, se descobrem. Existe vida além quartel, Maritza.

- Tudo bem, não vou te julgar, a vida é sua. Mas que é estranho, é.

- Daqui a pouco você se acostuma, e duvido que continuará achando isso estranho quando conhecer Theo, ela é um docinho. - Sam dizia com um sorriso bobo.

- Você mora com ela?

- Moro sim, e é para lá que você está indo, ela ofereceu a casa a você com boa vontade, disse que você pode ficar o tempo que quiser.

- Ela que está pagando tudo isso? Em troca de que?

- Maritza, ainda existem pessoas de bom coração no mundo. E para seu conhecimento, saiba que foi sugestão dela que eu viesse te buscar.

- Mas ela nem me conhece.

- Ela sabe que você é minha amiga, e ela esteve ao meu lado o tempo todo enquanto buscávamos um novo coração, ela entende o que você está passando.

- Mas quem precisava de um coração era você, não ela.

- Conhece a palavra empatia?

Maritza continuava sentada na beirada da cama de lençóis brancos alinhados, um tanto incrédula. Coçou a cabeça e voltou a falar.

- E ela tem dinheiro?

- Tem sim.

- É por isso que você está com ela?

- Não faça eu me arrepender por ter resgatado você.

- Desculpe, eu não consigo visualizar você namorando uma mulher, e fazendo aquelas coisas com uma mulher, e fazendo... É meio repugnante essa coisa de homem com homem e mulher com mulher, você também achava isso, essa coisa de sexo gay é nojento, é o que eu acho.

- Se você continuar seguindo essa linha, eu juro que vou trancar você no banheiro e vou embora. - Sam se enfurecia.

- Não está mais aqui quem falou. - Maritza foi para o banheiro, voltando minutos depois, com uma roupa mais confortável.

- Se você pedir algo para comer, posso almoçar com você antes de sair, tem o cardápio aí na tela, escolha algo. - Sam disse, novamente compenetrada no comunicador.

- Ok. - Maritza respondeu, mas continuou de pé fitando Sam.

- E então? - Sam ergueu a cabeça, correspondendo o olhar.

- Por que não tenta voltar com Mike? Ele é um cara legal.

- Mike é um babaca, é mais fácil eu cortar minha perna restante com uma faca de manteiga do que voltar para aquele idiota.

- Tem outros caras por aí, não tem homens bonitos em San Paolo?

- Ok. - Sam suspirou longamente, sentando na cama. - Theo teve paciência comigo, então terei paciência com você.

- Ela nem tem nome de mulher.

- O nome dela é Theodora.

- Ela é tipo, sabe... Aquelas mulheres macho? - Maritza falou com nojo.

- Eu acho que não tenho a mesma paciência que Theo... - Sam balbuciou de cabeça baixa, tentando manter a calma.

- Eu não estou te julgando, é só curiosidade, quero tentar entender no que você se meteu.

- Ótimo, então pouco importa a aparência dela.

- Sim, pouco importa. - Maritza continuava confabulando. - Ela é tipo aquelas mulheres que andam como se tivessem uma batata quente entre as pernas?

- Ela nem anda! Pare de falar merda, pelo amor de Deus.

- Ok, desculpe. Por que ela não anda?

- Por que sofreu um acidente.

- Você namora uma aleijada?

- Esquece, não vou almoçar com você. - Sam levantou, procurando o casaco no cabideiro do closet.

- Sam, me desculpe, eu prometo parar com as perguntas, não quis te ofender, nem ofender sua namorada. - Maritza foi atrás dela.

- Você vai parar com as perguntas idiotas?

- Vou, prometo. Vamos fazer o seguinte, vou pedir almoço, e depois eu vou com você procurar essa coisa que você está procurando.

- Prefiro que fique no hotel. - Ambas estavam dentro do closet.

- Não quero ficar aqui sozinha, eu vou com você, posso te ajudar, sou Borg agora.

Sam a fitou pensativa.

- Ok, mas temos que manter o máximo de discrição, ninguém pode nos ver, vamos passar a noite rodando por ruas escuras e lugares decadentes.

- Tudo bem, serei seu braço direito.

- Vamos procurar até o meio da tarde de amanhã, se encontrarmos ou não, pegaremos nosso voo para o Brasil à tarde, lá de Winnipeg mesmo, assim ganhamos tempo.

- Combinado. Só uma pergunta: o que estamos procurando?

- Um bordel, chamado Circus.

Maritza franziu o cenho.

- Um bordel? - Fez um semblante enojado. - Por que você está procurando um bordel? Não me diga que você...

- Ahhhhh!

- Ok, nada de perguntas.

Uma hora depois a dupla já cortava os céus nublados da Zona Morta num helicóptero, mas Sam não contemplava a paisagem, estava compenetrada no comunicador.

- Aconteceu alguma coisa? Você não solta esse aparelho. - Maritza perguntou.

- Eu deveria ter os IDs de contato das pessoas que trabalham lá em casa. - Sam resmungava, seu comunicador tocou e ela atendeu prontamente.

- Claire, aconteceu algo? Não consigo falar com ninguém aí.

- Não sei, cheguei no hospital agora.

- Theo está no hospital?

- Sim, mas está tudo bem, não se preocupe, ela está fazendo exames.

- Por que?

- A princípio é uma infecção urinária, ela já teve outras, vai se recuperar rapidinho.

- Não poderiam ter tratado isso em casa? Theo sempre pede que não a levem ao hospital.

- Não, ela realmente precisa de alguns exames mais complexos, mas ela está bem, está tranquila, já estou aqui no quarto com ela.

- Ela pode falar?

- Pode sim, e já está gesticulando pedindo para falar com você. Só um instante.

- Ok.

- Sam? - Theo estava com a voz baixa, debilitada.

- Amor, o que aconteceu?

- Nada, Meg insistiu em me trazer para exames, ela disse que vou embora daqui a pouco, é só uma infecção, como as outras que já tive. Como estão as coisas aí?

- Aqui está tudo bem, não se preocupe conosco, ok? Estamos chegando em Winnipeg agora.

- Não faça nenhuma besteira, não aja por impulso, estamos entendidas, oficial?

- Sim, senhora. Onde estão Letícia e Daniela?

- Na praia, emprestei a casa para elas passarem o final de semana, estão comemorando aniversário de namoro.

Sam reparava na voz minguante de Theo, na dificuldade em falar.

- Theo, quer ir para a praia quando estiver melhor?

- Quero, você iria? - Animou-se.

- Claro, basta nos planejarmos com antecedência, e poderemos passar uns dias na sua casa em Ilhabela, que acha?

- Você não está prometendo isso só porque estou doente, não é?

- De forma alguma, nós vamos para a praia em breve, você tem minha palavra de oficial.

- Eu quero. - Theo se esforçava para falar, estava com febre e falta de ar.

- Anote na sua agenda. Agora tente ficar quietinha, logo você estará melhor e em casa, vou pousar aqui.

- Cuidado.

- Terei cuidado redobrado. Te amo, fique bem logo, temos uma praia para ir.

Sam desligou e olhou pelas janelas, o helicóptero já se preparava para pousar.

- Mais tranquila agora? - Maritza perguntou, tomando sua atenção.

- Ela está com infecção, isso sempre é preocupante no caso dela.

- Pelo menos se falaram, não fique tão ansiosa.

- Você tem alguma arma?

- Não.

- Não trouxe nenhuma arma do exército?

- Você não disse para trazer, disse para pegar meus objetos pessoais e roupas.

Sam suspirou, tirou uma arma das costas, e a entregou.

- Guarde essa com você, tenho outra aqui na frente, e uma pequena na perna.

- Você está armada até os dentes? Estamos lidando com o que? Cafetões?

- A pior raça de cafetões.

Um carro alugado já as esperava, em poucos minutos o carro fora estacionado numa rua lateral à rua onde Sam encontrou Theo na noite de Réveillon.

- Foi aqui. - Sam olhava para os lados, pensativa.

- Aqui o que? - Maritza esfregava as mãos com frio.

- Que encontrei Theo. Mas estava escuro e chovendo.

- Vocês devem ter uma boa história para contar aos seus filhos, sobre como se conheceram.

Sam deu alguns passos silenciosos para o interior da rua estreita e úmida, havia lixo por toda a extensão, Maritza hesitou, mas por fim a seguiu.

- Nossa busca será a pé? O que devo procurar? Letreiros? Mulheres da vida semi-nuas?

- Só estou tentando traçar um ponto de partida, de qual rua ela veio, e criar um raio de busca. - Sam mexia agora em seu comunicador

- Ok, apenas me esclareça uma coisa, essa garota saiu desse tal Circus, e veio parar aqui? Por que não pergunta a ela onde fica?

- Ela não sabe onde fica.

- Que péssimo senso de direção. - Maritza deu um risinho. - Ela morava aqui perto?

- Morava.

- Era frequentadora desse prostíbulo? Por que dizem que gays também frequentam esses buracos.

Sam parou de olhar ao redor e fazer cálculos. Baixou o comunicador e fitou Maritza, não teria como escapar da curiosidade dela por muito tempo.

- Ela trabalhava lá, em regime de escravidão, ela não faz ideia de onde fica porque nunca saiu de lá. Na verdade, quando finalmente conseguiu fugir, acabou nessa rua que estamos agora, onde a resgatei, mas não sabe por quanto tempo correu, nem por quantas ruas andou.

Maritza arregalou seus olhos, a olhando boquiaberta, quando fez menção de falar algo, Sam voltou a falar.

- E se você soltar uma vírgula de julgamento sobre isso que acabei de contar, eu decepo sua língua.

Imediatamente Maritza fechou sua boca entreaberta, mas ainda parecia chocada.

- Agora que você já sabe o que procuramos, vamos voltar ao carro e começar nossa ronda.

Sam caminhou com pressa e passadas firmes até o carro, com Maritza ainda assustada logo atrás.

- Mas... Mas... - Maritza balbuciou ao entrar no carro e fitar Sam.

- Mas o que? Fale logo. - Sam arrancou o carro.

- Uma... Uma mulher da vida? Já que você resolveu virar lésbica, porque não procurou algo melhor? Tantas mulheres limpinhas por aí.

Sam deu uma olhada rápida em Maritza, antes de começar a falar, calmamente.

- Use seus implantes de geolocalização, vamos ficar algumas horas rodando procurando por lugares suspeitos, depois vamos abordar moradores e transeuntes, vamos fazer uma pesquisa, preciso de você atenta o tempo todo. Posso contar com você, Ritz?

- Pode, eu vou prestar atenção.

Circularam alguns minutos, e Sam voltou a falar.

- Sabe, depois que fugi do exército eu estava vagando por essas ruas, na minha busca por um coração novo, dormindo em casas abandonadas, tomando café requentado, era uma vida um tanto complicada, estava completamente sozinha, por minha conta.

- Mas tinha o suporte de Mike e sua família a distância.

- Não me interrompa. Num desses dias miseráveis de andanças pela Zona Morta, eu acordei, encarei o espelho quebrado de um banheiro sujo, e então uma luz surgiu: vou virar lésbica, vou arranjar uma namorada recém-saída de um puteiro, cheia de traumas e ferimentos, e vou levá-la comigo nessa jornada, não tenho nada melhor para fazer no momento, e talvez ela goste de passear de carro comigo, tenho seis semanas de vida e menos de dois mil dólares para sobrevivermos.

- Foi assim que aconteceu?

- Me responda você, acha que foi assim que aconteceu?

- Me parece uma história absurda, você estava numa situação crítica, parecida com a que estou agora, e não consigo pensar em outra coisa que não seja conseguir um coração novo.

- Que bom que conseguiu perceber a asneira que falou minutos atrás.

A noite já estavam na segunda parte do plano, conversando com pessoas, perguntando por pistas, mas até o momento não haviam encontrado absolutamente nada. Haviam acabado de retornar ao carro, depois de conversar com algumas pessoas num bar, Sam recebeu uma ligação de Meg.

- Sam, eu vou passar a noite no hospital com Theo, essa é minha ID, me ligue quando quiser notícia do quadro dela.

- Ela ficou internada?

- Ficou, a infecção era pior do que o imaginado, mas não fique preocupada, ok, querida? A vontade dela de voltar para casa é tão grande que a infecção vai embora rapidinho com tamanha teimosia.

- Posso falar com ela? - Sam parou o carro abruptamente.

- Não, ela está sedada, amanhã eu a coloco para falar com você, só estou ligando para te dar notícias, está tudo sob controle.

- Vou abortar minha missão aqui, estou voltando para San Paolo hoje. - Sam comunicou.

- Ela não se chatearia com isso?

- Não sei, mas não estou tendo resultados produtivos aqui, não acho uma pista sequer desse lugar de merda, estou rodando em círculos.

- Tudo bem, então venha, mas venha com calma, ela está passando a noite aqui por precaução, o estado dela é bom. Letícia já esteve aqui agora a pouco, prometeu voltar, e Claire também está nos dando toda assistência.

Sam desligou a ligação e batia os polegares no volante, decidindo os próximos passos.

- Está com sono? - Sam perguntou a sua amiga que estava com a cabeça recostada no banco, sonolenta.

- Eu não preguei os olhos essa noite, preocupada com a fuga. Sua namorada está bem?

- Está, mas eu quero voltar hoje para casa.

- Então vamos.

- Faremos o seguinte: vamos procurar por mais algumas horas, e antes do sol nascer estaremos no aeroporto, embarcando para o Brasil, chegarei a tempo de acordá-la.

- Você que manda, tenente Samantha Cooper ex Phillips.

- Se você prometer nunca mais me chamar assim, te dou café agora.

- Prometido.

Andavam pelas mesmas ruas decadentes e com letreiros luminosos que já haviam dado voltas e voltas, conversaram com mais pessoas, e nada foi descoberto. As três da madrugada caminhavam pelo saguão do aeroporto, com suas pequenas bagagens, na direção do embarque.

Na entrada do portão designado, além de dois guardas do aeroporto que faziam a conferência dos passageiros, haviam quatro militares fardados e com armas em punho, olhando atentamente os passageiros que adentravam.

Havia uma pequena fila no embarque, ambas perceberam os olhares dos militares para Maritza. Quase na vez delas, um deles cochichou para o outro, e exibiu a tela do comunicador, assentindo com a cabeça.

- Senhora? - Um deles se adiantou, e foi até Maritza, que tremia de medo.

- Pois não?

- Para onde é seu voo?

- Costa Rica. - Sam respondeu por ela. - É nesse portão, correto?

- Não, senhora, aqui é para o Brasil.

- Nossa, que cabeça a nossa, Connie, estamos na fila errada, vamos procurar o portão correto. - Sam a segurou pelo braço, Maritza parecia não entender o que acontecia.

- Senhora, por gentileza posso fazer um escaneamento de reconhecimento? - O militar se dirigiu à Maritza.

- Outra hora, temos que correr senão perderemos nosso voo. - Maritza desculpou-se e saiu apressadamente com Sam. Perceberam dois militares as seguindo, passaram por uma grande tela de nanobots que havia acabado de se formar ao seu lado, e na tela era exibida a foto de Maritza, com o status de procurada.

- Ferrou. - Sam sussurrou, e apertou o passo.

Chamaram um elevador, e ouviram os militares as chamando.

- Senhoras, preciso que me acompanhem.

- Corre, Maritza.

Saíram correndo pelo aeroporto, esbarando em pessoas e malas, sendo perseguidas agora por quatro militares.

- Parem! - Um deles parou e efetuou mira nelas.

O tiro paralisador atingiu a perna mecânica de Sam, que sentiu uma onda de choque intenso percorrendo seu corpo, mas não foi o suficiente para derrubá-la. Continuaram correndo, e do lado de fora, tomaram o carro de alguém que aguardava um passageiro.

- Sam, roubamos um carro!

- Faz parte. - Sam ainda ofegava, e dirigia loucamente pelas ruas de Winnipeg, olhando nas telas retrovisoras.

- Estão me procurando, como vou sair daqui? - Maritza se desesperava.

- Não sei, temos que pensar em algo. Mas precisamos ficar em segurança primeiro.

Sam dirigiu até um posto de recarga, lá tomou outro carro, para despistá-los, e dirigiu por mais algumas dezenas de quilômetros, já estavam em outra cidade.

- E agora, Sam? Que lugar é esse? Não me deixe aqui, por favor.

Sam parou o carro num lugar ermo à beira da rodovia, deixando o carro entre as árvores.

- Saia do carro, pegue suas coisas.

- Onde vamos? Não tem nada por aqui.

- Tem uma vila três quilômetros à frente, vamos andando até lá.

- E depois?

- Vamos refazer nossos planos.

A dupla caminhava pelo acostamento, Sam mancava com o tiro elétrico que havia recebido.

- Parece uma cidade fantasma. - Maritza reclamou ao entrar no vilarejo de beira de estrada.

- Não está abandonado, tem gente morando aqui, vamos procurar um canto onde poderemos fazer planos em segurança.

- Será que tem algum hotel aqui?

- Não precisamos de hotel.

- Não?

Entraram num pequeno galpão, que parecia ser uma oficina mecânica, com peças e ferramentas espalhadas pelo chão e bancadas.

- Que lugar imundo.

- É um bom esconderijo, e parece recém abandonado. Arranje um canto confortável, você vai tirar um cochilo antes de seguirmos.

- Eu vou dormir aqui?

- Um cochilo, e pela manhã vamos embora.

Após uma longa conversa analisando as possibilidades, decidiram tentar um aeroporto na parte americana da Zona Morta, mas os helicópteros não tinham permissão para cruzar a fronteira, teriam que alugar um carro e dirigir até Dakota do Sul, onde havia um pequeno aeroporto operante.

- Poderíamos roubar um helicóptero, já que roubamos um carro. - Maritza ajeitava um canto sobre papelões.

- Você tem menos de três horas para dormir, não desperdice. - Sam observou, e ligou para Meg, que a tranquilizou, Theo teria alta a tarde.

***

Theo acordou ainda sedada as oito da manhã, confusa.

- Sam? - Virou se com dificuldade para cima.

- Bom dia, querida. Sam não está aqui. - Meg respondeu, Letícia acordou também, dormia no sofá.

- Aqui onde?

- No hospital, você veio por causa da infecção urinária, que estava se espalhando.

- Eu quero ir embora... - Resmungou baixinho.

- Theo, minha filha, tenha calma, você terá alta em breve. - Letícia disse, coçando os olhos e se aproximando da cama.

- Eu quero a Sam, ela vai me tirar daqui.

- Nem Deus te tiraria daqui sem a assinatura do médico, você terá alta a tarde provavelmente, sua infecção está diminuindo, os leucócitos estão baixando. - Letícia respondeu.

- Eu quero a Sam. - Continuava falando, de forma emburrada e sonolenta.

- Ela está na Zona Morta agora, foi resgatar Maritza.

- Zona Morta?

- Sim, lembra que ela foi buscar Maritza e procurar o Circus?

Theo ficou pensativa por um instante.

- Hoje é segunda-feira?

- É sim.

- Então ela vem hoje.

- Se tudo der certo, ela vem sim. - Letícia sabia do embarque malsucedido em Winnipeg, mas pouparia Theo destas informações.

Theo fechou os olhos, parecia ter voltado a dormir, mas instantes depois voltou a falar.

- Eu quero ir para casa, eu quero falar com a Sam.

- Quer que eu ligue para ela? - Letícia perguntou.

- Eu quero falar com ela.

- Ok, já volto, vou ver se ela pode falar com você.

Letícia saiu do quarto, Theo ouviu o barulho da porta.

- Por que ela saiu do quarto?

- Ela já volta.

Letícia fez a ligação, sendo atendida por Sam que tentava alugar um carro numa locadora barata.

- Sam? Theo acordou, quer falar com você.

- Ãhn... Ok. Maritza, vá verificar as condições desse carro que ele falou.

- Você não vem comigo?

- Vá na frente, eu já vou. - Terminou de gritar, e voltou a falar com Letícia. - Ela está bem?

- Sim, a infecção está diminuindo, vai ter alta a tarde, provavelmente. Mas ela está manhosa, quer você.

- O que você disse a ela, sobre o incidente dessa noite?

- Não contei, apenas confirmei que você foi resgatar Maritza e procurar o Circus.

- Eu vou pegar estrada agora, são 900 quilômetros até o aeroporto, se não conseguirmos embarcar neste local, só tem mais um aeroporto no lado americano da Zona Morta, e fica no Texas, no cu da Zona Morta.

- Por que vocês não vão de helicóptero até algum país da Nova Capital, como o México?

- Nenhum helicóptero tem permissão para atravessar as fronteiras.

- Ok, então boa viagem até Dakota do Sul. Estão em segurança? Precisam de algo?

- Dormimos menos de três horas numa oficina abandonada, tomei um tiro laser na perna mecânica, mas tirando isso estamos bem.

- Continuo enrolando Theo?

- Sim, se embarcarmos à tarde, chegamos de madrugada aí.

- Vou levar o comunicador para ela.

Letícia voltou ao quarto, e entregou o aparelho à Theo.

- Pode falar com ela.

- Ela quem?

- Sam, você pediu para ligar para ela,

- Pedi?

- Dê um oi para ela.

- Ok. Sam?

- Oi, amor, soube que você melhorou.

- Onde você está?

- Em Winnipeg.

- Você vem hoje? Vem me tirar daqui, por favor.

- Você vai sair do hospital à tarde, eu devo chegar só de madrugada.

- Me tira daqui, Sam... - Disse com a voz manhosa.

- Eu não posso, o médico precisa te dar alta.

- Eu vou comprar o médico.

- Você não pode comprar o médico, isso é antiético.

- Eu tenho dinheiro, eu vou comprar minha alta.

- Altas não estão à venda, Theo.

- Eu compro o que eu quiser e quem eu quiser.

- Escute, continue quietinha aí no hospital, dentro de algumas horas você vai voltar para casa, você consegue esperar um pouquinho? É para o bem da sua recuperação.

- Quando você chegar nós vamos para a praia?

- Ah, disso você lembra bem, né? Nós vamos para a praia daqui algumas semanas, combinado?

- Eu quero ir amanhã.

- Theo, eu preciso ir aqui, prometo que vamos conversar sobre uma data que agrade você, agora foque na sua alta, que eu vou focar no meu retorno para casa.

- Tá bom, mas venha hoje.

- E você deixe de fazer manha.

***

As cinco da tarde Theo teve alta, e retornou num helicóptero UTI para casa. Sam e Maritza chegaram ao aeroporto de Dakota do Sul, onde receberam voz de prisão assim que pisaram no saguão. Não houve tempo para reação ou como resistir a prisão, em alguns minutos estavam algemadas nos fundos de uma van.

 

 

Faileas: s. Escocês: reflexo.

Capitulo 17 - Desertar por Cristiane Schwinden

- Desculpe ter colocado você nessa fria. - Maritza disse, cabisbaixa, sentada num banco ao lado de Sam, estavam algemadas uma na outra com uma algema biométrica, fazia frio dentro do furgão verde.

- Eu não posso ir para a prisão. - Sam esforçava-se para manter um fio de calma.

- Provavelmente irão soltar você logo, eles querem a mim, eu sou a fugitiva.

- Eu estou ajudando na sua fuga, e roubei dois carros.

- Negarei tudo isso quando me perguntarem.

- Eu não posso ir para a prisão... Eu não posso... - Sam balançava a cabeça nervosamente, com as mãos unidas no colo, trazendo a mão esquerda de Maritza também.

Viajaram por cinco horas, sem receber nenhuma informação adicional, sem imaginar para onde estavam indo, seus comunicadores haviam sido confiscados, assim como suas bagagens.

Por volta das dez da noite, as portas do grande carro foram abertas, e a dupla foi conduzida até um escritório, não parecia um local militar, e os guardas que as conduziam pareciam policiais, e não soldados do exército europeu.

Foram atiradas numa sala sem móveis, ainda algemadas, ficaram sentadas no chão, olhando ao redor, tentando entender o que acontecia. A porta fechou-se, e um dos homens atendeu uma ligação já do lado de fora.

- Já estão comigo. - O homem respondeu ao comunicador.

- As duas?

- Sim, senhor.

- Tem certeza que foram elas?

- Tenho sim, senhor. Elas estavam circulando por Winnipeg perguntando pelo Circus.

- Qual o nome delas?

- Segundo as IDs que encontrei, uma se chama Connie Stevens, a outra Samantha Cooper.

- Samantha Cooper? Essa eu conheço. - A voz do outro lado riu.

- Continuarei fazendo guarda com meus homens, até o senhor chegar.

- Ótimo, quero cuidar da tenente Samantha pessoalmente.

Sam ouviu a conversa, com calafrios percorrendo seu corpo, só podia ser Elias do outro lado da ligação.

- Merda... - Sam desesperou, esfregou as mãos no rosto.

- Ai, minha mão está presa na sua, lembra? - Maritza reclamou.

- Maritza, estamos muito mais ferradas do que eu imaginava, e eu ainda mais.

- Por que?

- Não é o exército, nem polícia, é o cafetão do bordel que estávamos procurando, ele que está por trás disso, e pode acreditar que esse desgraçado vai transformar nossas vidas no pior pesadelo possível, ele é um enviado do demônio, você não faz ideia do que ele é capaz.

- Você está me apavorando, Samantha. - Maritza dizia em pânico, arregalada.

- Temos que sair daqui antes que ele chegue.

- Primeiro temos que soltar essas algemas, não quero ficar presa a você.

- Essa algema é biométrica, abre com digital ou com chave criptografada, essa tira é feita de uma liga que não arrebenta de jeito nenhum, não temos como abrir isso, temos que fugir agora e depois arranjamos alguém que programe uma chave para abrir isso.

- Fugir por onde?

Sam olhava ao redor, era uma sala comum, de algum prédio comercial, tinha apenas uma porta onde provavelmente algum guarda tomava conta, e uma pequena janela no alto, estreita e comprida.

- Vamos ter que passar por essa janela. - Sam apontou para o alto.

- Não vamos passar, nem deve ter dez centímetros.

- Tem uns vinte. Me ajude a quebrar o vidro e arrancar a estrutura.

- Como? Não trouxe ferramentas nem escada.

- Somos Borg, nós temos obrigação de nos virar! Venha, fique embaixo, você vai ser minha escada.

- Mas estamos algemadas.

- Eu sei, erga seu braço o máximo que puder, por sorte é o meu esquerdo que está preso.

- É, no meu direito, que ótimo. - Resmungou.

- Maritza, você não imagina o que esse homem vai fazer com a gente, se apresse, por favor!

- Ok, ok.

Maritza de ajoelhou, ajudando Sam a se erguer até alcançar a janela, tinha apenas a mão direita livre para agir e se segurar. Alguns murros na janela e cortes na mão depois, finalmente arrebentou o vidro.

- Já conseguimos passar? - Maritza perguntou, estava se desequilibrando.

- Não, tenho que arrancar essa estrutura metálica que divide a janela ao meio.

Maritza balançou, e Sam acabou pulando no chão.

- Preciso que você aguente mais um pouco, vai dar trabalho arrancar isso. - Sam pediu, as duas já estavam suadas e cansadas.

- Posso tentar?

- Vai lá.

Sam agachou e Maritza subiu, só podia usar a mão esquerda, e não conseguiu nenhum avanço por longos minutos.

- Esquece, pula daí!

- Vou tentar mais um pouco, o metal já está afrouxando.

Vozes masculinas foram ouvidas ao longe, e o bater de portas.

- Elias chegou. - Sam disse, em pânico. - Pula daí agora!

- Tá bom, que nervosinha.

Sam novamente montou em Maritza, usava o impulso do corpo para balançar e tentar arrancar o metal.

- Não vai dar, não vai dar certo, Sam, estamos fritas, ele já está aqui. - Maritza estava quase chorando.

As vozes se aproximaram, pareciam no corredor.

- Material de primeira? - Uma voz masculina perguntou no início do corredor.

- De qualidade, senhor.

- Que sorte, vou cobrar o dobro no primeiro mês.

Finalmente Sam arrancou, caindo no chão, derrubando Maritza.

- Vá primeiro! - Sam ordenou a Maritza, já em posição de apoio.

Maritza pulou e passou com dificuldade pela janela, se arranhando. Puxou Sam, que conseguiu elevar-se com os braços, e também pulou a pequena janela. Mas caíram em outra sala.

- O que é aqui? - Maritza perguntava olhando ao redor.

- Uma piscina. O que você acha que é? Procure uma saída!

- Aqui atrás, é uma janela para a rua. - Maritza constatou, e tentava abrir a tranca.

Sam puxou Maritza pela algema, pegou distância, e se atirou contra a janela, a espatifando.

- Pule! - Sam bradou, tinha um pequeno corte na testa.

As duas saíram correndo pela rua lateral do prédio, chegando numa avenida larga e deserta, todo o lugar parecia deserto, inclusive os prédios e casas.

- Onde estamos? - Maritza perguntou, respirando rápido, haviam entrado no saguão de um prédio vazio.

- Sei lá, seus implantes de geolocalização devem funcionar melhor que os meus, que mal me dizem a hora certa.

- Ãhn... Ok, ok, vamos lá, eu ainda não sei usar isso direito.

- Ative gesticulando em frente aos olhos.

- Isso eu sei. Espera, vamos ver, aqui é... Hum, aqui é, é uma cidade.

- Vamos lá, Maritza.

- Sua testa está sangrando.

- Está? - Sam passou a mão na testa, a olhando. - Não foi nada.

- Estamos na divisa entre o território americano e o canadense, mas do lado canadense. Tem um lugar povoado do outro lado da fronteira, seis quilômetros na direção nordeste.

- Já do lado americano, certo?

- Isso. Vamos para lá?

Sam já respirava mais devagar, ainda pensava nos próximos passos, estavam sem nada, apenas com as roupas que trajavam, a jaqueta verde escura de Sam estava com um rasgo e respingos de sangue.

- Em primeiro lugar precisamos ficar em segurança em algum lugar fechado, depois temos que pensar nas possibilidades de voltar para casa. Vamos caminhar até essa cidade, lá poderei comprar um comunicador, e pegar um quarto de motel barato para nos escondermos por algumas horas.

- Eles ficaram com tudo nosso, como você vai pagar?

- Minha ID biométrica está gerenciando as contas bancárias de Theo, posso pagar com minha digital.

- Ótimo, então podemos pegar um bom hotel, não acha? Preciso de um bom banho e roupas, eles ficaram com nossos pertences e comunicadores.

- Ritz, não inventa, motel barato não olha na nossa cara, não pede identificação, não grava nossa movimentação, por isso vamos para um motel bem pulgueiro, entendido?

- Você que manda. - Maritza limpou o sangue na testa de Sam com a manga de sua blusa vermelha.

Por volta de uma da madrugada, finalmente as duas entravam num quarto de motel simples, onde havia apenas uma cama de casal e um criado mudo.

- Eu vou ter que dormir com você. - Maritza se dava conta.

- Só vamos tirar um cochilo, eu preciso voltar para San Paolo o mais rápido.

- Como?

- Você me deu uma sugestão ontem.

- Dei?

- Roubar um helicóptero.

Maritza arregalou.

- Eu não estava falando sério.

- Eu sei que você já foi co-piloto de helicóptero de rondas. - Sam disse, puxando Maritza para o banheiro, pela algema.

- Co, você disse certo, eu fui co-piloto, eu nunca pilotei um pra valer.

- Eu sei um pouco, você sabe um pouco, vamos nos virar, só precisamos chegar até algum país da Nova Capital, e torcer para que não nos abatam em voo.

- Os radares nos pegariam, e mandariam jatos não tripulados para nos derrubar.

- Eu sempre gostei dos filmes de ação, será uma experiência interessante. - Sam lavava as mãos e rostos com dificuldade, por conta da mão unida à Maritza.

Maritza recostou-se no azulejo ao lado da pia, pensativa e cansada.

- No que está pensando? Tem outra sugestão? - Sam interpelou, enxugando-se.

- Não consigo pensar em nada, eu só queria sair daqui, quero estar longe do exército e desse cafetão demoníaco.

- Tem uma tela aqui no quarto, vamos usá-la para fazer pesquisas e analisar possibilidades, ok? Eu vou tirar você da Zona Morta, prometo.

- Eu nem posso tomar um banho e dormir um pouco.

- Por que não?

- Porque estamos presas.

- O que que tem? Tomamos banho e dormimos juntas várias vezes no exército.

- Mas agora é diferente.

- Por que?

- Porque você virou lésbica.

- Ah Maritza, não estou com cabeça para essas asneiras... Se quiser tomar banho, tome, se não quiser, que se dane.

Sam a puxou para o quarto, onde interagia com a tela, tentando falar com alguém em casa.

- Lê? Sou eu.

- Onde você está? É para te buscar no aeroporto?

- Não, estou numa cidadezinha na divisa na Zona Morta, deu tudo errado, fomos sequestradas por homens do Elias, mas fugimos, agora estamos aqui num hotel traçando nossos próximos passos.

- O que você vai fazer?

Sam suspirou pesadamente, sentando-se na cama de frente para a tela.

- Como ela está? - Sam perguntou.

- Dormindo, mas perguntava por você de cinco em cinco minutos, ela está meio grogue por conta da tonelada de remédios que está tomando.

- Eu vou dar um jeito, nós vamos descansar um pouco agora, mas amanhã cedo vou tratar de sair daqui. Diga à Theo que tivemos problemas com a documentação falsa de Maritza, mas já estamos cuidando disso, ok?

- Tá bom, eu estou indo para casa agora, mas Meg está aqui ao seu lado, vou deixar o recado.

Após mais algum tempo pesquisando na tela, decidiram ir até um aeroclube de pequeno porte distante 350 quilômetros dali, e alugar um helicóptero, sem informar a pretensão de seguir para a Nova Capital com ele, o que seria proibido.

- Ok, eu vou tomar banho, mas como vou tirar o casaco e a blusa? - Maritza respondeu, ficando de pé.

- A gente se vira, tira até onde puder.

- Você não vai dar em cima de mim, vai?

- Mesmo se eu não tivesse namorada, e mesmo se você também fosse lésbica, eu nunca flertaria ou daria em cima de você.

- Por que? - Maritza perguntou revoltada, tirando as roupas.

- Porque não, porque não sinto nenhuma atração por você.

- Você não me acha nada atraente? Me acha feia por acaso?

- Acho você um bucho. - Sam caiu na gargalhada.

- Pois saiba que várias mulheres já deram em cima de mim, ok?

- Nenhuma mulher te quer, Ritz, você é chata demais.

- Engano seu, se eu quisesse poderia ter ficado com um monte de mulheres. Ok, fique aqui fora, com o braço para dentro do box.

- Você engordou? - Sam disse com um risinho sacana.

Maritza apenas lançou um olhar fulminante para ela, e tomou seu banho.

Enquanto isso na mansão de vidro, o sono agitado de Theo foi interrompido pela entrada de Marcy no quarto, parecia preocupada.

- Theo? Desculpe te acordar, mas tem um moço lá na portaria, ele quer falar com Mike ou Sam, ele insiste, os seguranças querem saber o que devem fazer com ele.

- Hum? Que moço? - Theo virou-se sonolenta.

- Ele disse que se chama John, e é irmão de Mike.

Theo acordou completamente com essa informação, tentou erguer-se um pouco, caindo. Meg elevou um pouco a cabeceira, a ajudando a se ajeitar.

- O que ele quer?

- Ele insiste em falar com um dos dois, já dissemos que nenhum deles está em casa, mas ele quer falar com alguém.

- Não acredito que esse... Esse projeto de satã mandou a família me intimar. - Theo dizia revoltada, de forma confusa.

- Eu o vi pela tela, o menino não me pareceu ameaçador, deve ter uns dezoito anos e é um magricela.

- Sam já está aqui?

- Não, ela está com problemas na documentação de Maritza. - Meg respondeu. - Mas deve chegar amanhã.

- Ok, vamos ver o que ele quer, confirme a identidade e mande para cá, mas avise para que seja acompanhado o tempo todo por dois seguranças.

Minutos depois um garoto que lembrava Mike, porém de menor porte e com ares nerd, entrou no quarto, com dois seguranças.

- Quem é você? - O garoto, que parecia agitado, perguntou de bate pronto.

- Eu que pergunto, quem é você que ousa perturbar minha madrugada?

- John, eu já confirmei vinte vezes para esses brutamontes.

- Ok, John, pode tentar se acalmar? Caso não tenha percebido, isso aqui é uma UTI.

- Onde está Mike? Ou Sam?

- Mike não mora mais aqui, e espero que esteja bem longe. Foi ele que mandou você me intimidar?

- Intimidar? Eu não falo com ele há semanas, eu só quero um lugar para passar a noite, ou alguma ajuda financeira dele, porque estou sem nada, gastei todas as economias na viagem, eu não como nada desde ontem.

- Ele não sabe que você está aqui?

- Não, eu achei que ele morasse aqui, foi o que Sam me disse uma vez. - John se aproximou do leito, sendo impedido pelos seguranças. - Hey, me soltem!

- Tudo bem, fica apenas um segurança, sentado no sofá. E você, garoto, pegue essa cadeira, sente aqui do lado.

- Obrigada. Quem é você?

- Theo. - Estendeu a mão à frente. - Essa é minha casa.

- Ah, eu sei quem é você, Sam me contou que estava morando com uma amiga em San Paolo.

- É, eu sou essa amiga.

- Você é cega? Você parece não enxergar.

- Eu não enxergo.

- Mas vai voltar a enxergar, não vai?

- Não sei.

O garoto deu uma boa olhada ao redor, estranhando aqueles equipamentos todos.

- Por que você dorme aqui? Você é doente?

- Não, só estou me recuperando de um acidente.

- Você tem os olhos bonitos.

- Obrigada, John. Infelizmente não posso dizer o mesmo, mas devem ser verdes como de Mike, certo?

- Não, castanhos. Posso chegar mais perto?

- Pode. Você não vai tentar me matar ou algo parecido, vai?

- Por que eu faria isso? Você parece uma pessoa inofensiva.

- Porque seu irmão me odeia, eu expulsei ele daqui.

- Mike é um chato, fica dizendo como eu devo ser ou o que devo fazer.

Theo deu um sorriso satisfeito de lado.

- Chato, mas você veio pedir ajuda a ele.

- Na verdade eu conto mais com Sam do que com ele. Você também a expulsou daqui?

- Não, ela está viajando, deve chegar amanhã, da Sam eu gosto. - Theo sorriu.

- Eu tenho como falar com ela? Não tenho comunicador.

- Não sei, acho que ela está meio ocupada nessa viagem, você quer pedir ajuda a ela?

- Quero. Será que ela me emprestaria algum dinheiro para me virar nos próximos dias?

- Do que você precisa, uma cama e comida? Eu posso conseguir para você.

- Mesmo eu sendo irmão do Mike?

- Você não tem culpa, só azar.

John riu.

- Ele vai ficar possesso quando descobrir. - O menino mexia as mãos cruzadas no colo de forma nervosa.

- Descobrir o que?

- Que eu fugi de casa.

- Fugiu? Seus pais não sabem onde você está?

- Não, eu peguei minha mochila e comprei passagem só de ida para o Brasil.

- John, isso não se faz, seus pais devem estar preocupados. Meg, me alcança um comunicador?

- Eu não quero falar com eles.

- Não importa o que eles fizeram, eles devem estar apavorados sem notícias sua. Vamos lá, apenas diga que você está bem e em segurança. - Theo estendeu o comunicador no ar.

- Ok, vou ligar. Mãe?

- Onde você se enfiou, garoto? Seu pai está com a pressão nas alturas, quer matar a gente?

- Hey, não quero brigar, só estou ligando para avisar que estou bem, e em segurança.

- Onde?

- No Brasil.

- Está fazendo o que aí? Está com Mike?

- Não, mas estou com Sam, está tudo bem.

- Volte para casa agora.

- Não, eu não vou voltar, avise meu pai que ele vai ter que se contentar apenas com Mike como filho perfeito, eu estou pedindo demissão dessa família.

- Não fale assim, filho, nós amamos você. - A mãe dele chorava.

- Mãe, pare com o drama, eu prometo ligar outras vezes para dar notícias, tá bom? Mas vou tocar minha vida aqui.

Desligou o aparelho.

- Eles parecem bravos com você. - Theo comentou, descendo um pouco na cama.

- Estão sim. Mas eu não voltarei para casa.

- O que aconteceu? Importa em me contar?

- Ah... Eu não sou o filho que eles queriam, entende?

- Eles quem?

- Meus pais, quem mais poderia ser?

- Menino, ela tem lapsos de memória, não seja mal-educado. - Meg o repreendeu.

- Desculpe, eu não sabia.

- Meu cérebro trabalha de formas misteriosas. - Theo disse.

- Por causa do acidente?

- Sim. Por que decidiu fugir agora?

- Porque fiz dezoito anos, e tenho que entrar no serviço militar, mas eu odeio isso, eu quero fazer outras coisas da minha vida, não quero ser o soldadinho honrado que meu irmão é. Eu sou um desgosto, eu sei, mas eles já têm Mike para enchê-los de orgulho, podem viver sem mim.

- Mike não dá orgulho nem à um pé de samambaia, John.

- O que ele fez a você?

- Mike não é o homem honrado que diz ser, muito menos um homem de bem. Ele bate em mulheres, já bateu em mim e na própria noiva, sem contar a má índole, a arrogância, os preconceitos, a hipocrisia.

- Mas Sam também é preconceituosa, ela é bem conservadora, desde criança ela me dá lições de moral pelas coisas erradas que faço.

- Eu sei, mas ela melhorou bastante, está menos preconceituosa.

- Não pensa mais como Mike?

- Não, ela conseguiu abrir a mente, ainda tem muito o que desconstruir, mas você ficaria assustado com o quanto ela evoluiu.

- Será que ela me aceitaria como sou agora?

- Espero que sim. Ela te julgava muito?

- Não era tão ruim quanto Mike, ou meus pais, mas ela me recriminava sim, só que era mais compreensiva. - John fitou o chão, nostálgico. - Uma vez me viram na escola beijando um garoto, e a notícia correu rápido, logo chegou na minha família, e meu pai me bateu, além dos vários castigos que tomei. Sam foi a única que foi legal comigo, apesar de insistir que esse caminho era errado.

Theo deu um sorrisinho.

- Então você gosta de meninos?

- Eu já fiquei com garotos e garotas, eu gosto de tudo, eu preciso escolher um lado?

- Não, você não precisa, continue ficando com quem você bem entender, sem se importar com o gênero, certo?

John deu um riso fungado, cabisbaixo.

- Ok. Sam continua achando isso errado?

- Isso o que?

- Ficar com pessoas do mesmo sexo.

- Acho que não. Inclusive ela está namorando uma garota.

John a fitou espantado.

- Você está falando sério?

- Estou, não é meu cérebro mentindo, é verdade.

- Nossa... Que mudança radical. Você conhece a namorada dela?

- Conheço, Sam não poderia ter escolhido melhor, é uma garota incrível. - Theo riu.

- Fico feliz que ela tenha conhecido outra pessoa, nunca imaginei Sam abandonando Mike, mas sempre achei que ela merecia coisa melhor.

- É, Sam às vezes surpreende. - Theo franziu o cenho. - Sam já chegou?

- Não, você disse que ela chega amanhã.

- Ah, ok. Você está morrendo de fome, não?

- Mortinho.

- Segurança que está no sofá, leve John até a cozinha, peça para Marcy dar comida a ele até que saia rolando. Depois peça para ajeitarem um quarto para ele, mas não o do final do corredor, esse já está reservado para Maritza.

- Eu vou dormir aqui? Eu não quero dar trabalho.

- Sinta-se em casa, você me parece ser a versão legal da família Philips.

- Eu posso abraçar você?

 

 

Desertar: v.t.: ausentar-se; despovoar; fugir do serviço militar; bandear-se;

Capitulo 18 - Eleuteromania por Cristiane Schwinden

Capítulo 18 - Eleuteromania

 

Por volta do meio-dia, Sam e Maritza negociavam o aluguel de um helicóptero num aeroclube sucateado.

- Ok, você disse 1800 por três horas, e se eu te pagasse o dobro, poderia ignorar essa coisa do brevê? - Sam tentava.

- Não, moça. Só posso alugar máquina para quem tem brevê.

- Eu fui co-piloto de helicóptero por vários anos, tenho centenas de horas. - Maritza tentava.

- E eu dirigi um ultracóptero recentemente, decolei e pousei em segurança, correu tudo na maior tranquilidade, nós duas temos grande experiência na pilotagem.

O homem coçou a cabeça, as medindo.

- Não posso.

- O triplo. - Sam deu mais uma cartada.

- O triplo e não se fala mais nisso.

- O triplo? - Ele voltou a coçar a cabeça.

- Sim! Quanto é o triplo, Sam?

- 5400. 5400 agora, na sua conta. - Sam barganhava.

- Tá bom, nas não espalhem. Vou preparar o helicóptero para vocês, com combustível suficiente para irem até o Alasca e voltarem em segurança.

- Ótimo. - Sam disse.

- Coloque o máximo de combustível que puder, iremos rodar bastante pelo Alasca. - Maritza completou.

Instantes depois, começavam a sobrevoar a parte americana da Zona Morta, com Maritza no controle dos manches, era um velho helicóptero vermelho, sucata dos bombeiros.

- É verdade que você pilotou um ultracóptero recentemente? - Maritza perguntou, a viagem até o México seria de cinco horas.

- É verdade, exceto pela parte de pousar em segurança. Nós nos chocamos contra uma ribanceira.

- Que bom que eu estou pilotando. - Maritza deu uma olhadela em Sam, ambas estavam preocupadas em não serem descobertas ou abatidas.

- Temos combustível para chegar no México, certo?

- Temos sim. Por que vamos para essa cidade de nome engraçado?

- Porque Rosarito pertence ao Grupo Archer, será mais fácil pedir que nos resgatem lá.

- Grupo Archer? Aquela empresa farmacêutica? O que tem a ver?

- Pertence à Theo.

Maritza olhou arregalada para Sam, que ajeitava seus fones e microfone.

- Sam, você ganhou na loteria.

- Você não está voando alto demais? - Sam olhava com preocupação as telas a frente.

- Não, só estou um pouco acima da faixa dos helicópteros.

- Não nos derrube, por favor, eu tenho um monte de coisas para fazer ainda, não posso morrer agora, nem levei Theo à praia.

Quase cinco horas depois, já em território mexicano, iniciavam a descida, era possível avistar a cidade incrivelmente colorida de Rosarito.

- Tem um helicóptero nos seguindo. - Maritza disse apavorada, ao se dar conta.

- Merda, está na nossa cola.

- Eles vão lançar mísseis em nós, Sam!

- Ignore e desça.

- Seremos bombardeadas, Santo Deus!

- Ore, ignore, e desça.

- Eu só tenho 28 anos, eu nem casei, nunca plantei uma árvore, não tive filhos, eu nem fiz aquela...

- Ritz! Manobre para pousar em cima da delegacia, ali aquele prédio azul e verde, está vendo?

- Delegacia??

- É o lugar mais seguro para nós. Pouse ali!

Com dificuldade e transtorno, o helicóptero pousou no teto da delegacia, derrubando algumas torres e com a traseira empinada.

- Corra para dentro! - Sam corria arrastando Maritza pelas algemas, desceram uma escada dando de cara com alguns policiais.

- Eu conheço você. - Disse um simpático guarda.

- Olá, oficial Mardillo, tudo bom? - Sam tentou parecer normal, mas ambas estavam ofegantes, suadas, e nervosas, além de trajarem roupas com pequenos rasgos.

- Você! É a moça da cafeteria! Você me fez de refém, depois sua amiga cega e louca me atropelou!

- Essa época da nossa vida é um tanto nebulosa, eu não me recordo direito, usávamos drogas pesadas. Onde é a saída?

- Eu quebrei meu pé, sabia? Coloquei oito pinos.

- Eu sinto muito, mandarei bombons e um cartão para você depois, mas estamos com pressa, é por ali a saída, certo?

- Tudo bem, estou de bom humor hoje, já te perdoei. A saída é por ali, mas tem certeza que não quer dar uma volta por nossas estradas azuis? Estão ainda mais bonitas essa época do ano!

- Outra hora.

Sam novamente arrastou Maritza para fora do prédio, não via mais o helicóptero que as perseguia.

- E agora?

- Espera. - Sam olhou ao redor, com as mãos na cintura. - Ali.

Entraram numa galeria de lojas, Sam comprou um comunicador, foram até o banheiro, onde fez uma ligação.

- Claire? Preciso de ajuda.

- Sam, onde você está? Estão todos preocupados com vocês.

- Estamos no México, em Rosarito, preciso que mande um helicóptero nos buscar.

- Vocês não estavam na Zona Morta? Como chegaram em Rosarito?

- É uma longa história, você tem como providenciar? Se não for possível vou alugar um carro e dirigir até aí.

- Vocês estão bem?

- Estamos, passamos por alguns dias de aventura, mas tudo que eu quero agora é chegar em casa.

- Ok, ãhn, vou mandar então. Me passe sua localização.

- Enviada.

- São umas dez horas até o México, vocês vão aguardar aí? Depois mais dez horas para voltar.

- É o jeito, não podemos embarcar em nenhum aeroporto.

- Não acha melhor mandar um jato nosso?

- Jato?

- Temos dois aqui em San Paolo, posso mandar um, temos uma pista de pouso na cidade.

- Ãhn, ok, então mande o jato.

- Mandarei, ele deve chegar aí em cinco horas, ok?

- Cinco horas? Bem melhor, me informe depois onde ele vai pousar.

Sam desligou e Maritza a observava.

- Teremos um jato em cinco horas, cara de salsicha.

- O que faremos nesse tempo?

- Quer trocar de roupas? Podemos comprar alguma coisa, e podemos fazer uma boa refeição também, o que acha?

- Adorei as duas ideias, vamos. - Maritza saiu andando, sendo puxada de volta por Sam.

- Ai!

- Primeiro preciso ligar para uma pessoinha.

Sam ligou no comunicador de Theo, que demorou para atender.

- Sam?

- Oi, amor. - Sam disse com a voz suave.

- Que bom te ouvir, o que aconteceu?

- Imprevistos, mas está tudo bem agora.

- Com a documentação de Maritza?

- Também, mas te conto tudo pessoalmente.

- Você vem hoje, não vem?

- Devo chegar aí amanhã cedinho. Você está bem?

- Não, você não está aqui.

Sam abriu um sorriso bobo.

- Eu estou morrendo de saudades, amanhã vou te dar um abraço de meia hora.

- Você sabe que vou esquecer o que está acontecendo no meio do abraço, não sabe?

Sam riu.

- Não tem problema, eu vou ficar te recordando, entre um beijo e outro. E sabe o que eu também estou com saudades?

- O que?

- Uma coisa que não fazemos há algum tempo.

Theo levou alguns segundos para responder.

- Eu também sinto falta, mas... bom...

- Eu sei, eu vou esperar.

- São várias coisas... E... Eu também quero, mas... - Theo falava num tom culpado.

- Vai acontecer quando você quiser, combinado?

- Ok.

- Já anoiteceu aí, não é? - Sam tentou mudar de assunto.

- Acho que está anoitecendo, se bem que para mim está sempre escuro.

- Quando você acordar já estarei aí.

- Que horas você chega?

- Por volta das cinco, você estará dormindo.

- Me acorde, ok? Me acorde, não importa a hora que você chegar.

- Tá bom, vou direto para seu quarto.

Após desligar a ligação, Maritza balançou a cabeça e proferiu:

- Você é uma boba apaixonada, nunca vi você assim.

- Mais apaixonada que boba, e você não deveria ouvir conversas alheias.

- Estamos algemadas, lembra? - Maritza ergueu o braço preso.

- Bem lembrado, vamos procurar algum lugar que abra isso, antes de comer.

- Podemos trocar a ordem?

Depois de uma farta janta, de finalmente soltar as algemas, e de adquirirem algumas peças de roupas felizes e coloridas, o jato as conduziu para um aeroporto em San Paolo.

- Bem-vinda ao Brasil. - Sam disse, enquanto andavam pelo saguão.

- Vamos de táxi para casa?

- Não, Lucian está vindo nos buscar, sente aí e espere.

Maritza sentou-se numa das cadeiras enfileiradas na área de desembarque, olhava ao redor como se estivesse num espetáculo, estranhando algumas coisas.

- As mulheres se vestem de forma vulgar aqui, não sei como você consegue morar nesse país. - Soltou.

- Estava demorando para você começar a reclamar. - Sam disse, de forma cansada.

- Veja isso, olhe aquela mulher, estamos quase no inverno e ela está usando um short acima dos joelhos.

- As pessoas são mais liberais aqui, vá se acostumando, elas se vestem como bem entendem, não existem normas de vestuário.

- Você acha isso bonito? Aquela ali do lado dela, veja como anda, deve ser uma prostituta, espero que não venha sentar do meu lado.

- E se for uma prostituta, o que tem? - Sam começava a perder a paciência.

- Ah, desculpe, eu esqueci que você namora uma ex-prostituta, não quis ofender.

- Ok. - Sam esfregava os olhos, com sono, trajava uma blusa de lã com motivos natalinos, e Maritza uma jaqueta fúcsia.

- É alguma doença?

- O que? - Sam despertava de um quase cochilo.

- Por isso que sua namorada tem todos esses problemas, é por causa de alguma doença que ela contraiu no bordel? Eu não tomei todas as vacinas, estou suscetível à essas doenças exóticas.

- Não, Maritza, ela não tem nenhuma doença exótica, ela sofreu um acidente. - Sam falava sem energia.

- Você fez quarentena antes de tocá-la, certo? Por que às vezes essas coisas ficam incub...

- Lucian, graças a Deus. - Sam levantou e andou com pressa na direção dele, Maritza a seguiu.

Em alguns minutos, passando um pouco das cinco da madrugada, finalmente Sam chegou em casa, e correu para o quarto de Theo, Maritza a seguiu com insegurança.

O quarto estava na penumbra, Meg dormia na cama mais adiante, bem como Theo, que dormia de lado, abraçando um travesseiro. Sam sentou delicadamente ao seu lado, correndo os dedos por seu rosto, sem conseguir conter um sorriso satisfeito. Abaixou, lhe entregando um beijo demorado no rosto.

- Cheguei. - Sussurrou, a acordando.

- Sam? - Theo acordou um tanto confusa, ergueu os braços, dando um abraço forte nela.

- Desculpe a demora. - Sam disse, ainda enlaçada.

Theo a soltou, e Sam lhe deu um beijo delicado carregado de carinho. Maritza estranhou a cena, mas guardou seus preconceitos dessa vez.

- Você está bem? - Theo correu suas mãos por seu rosto, certificando que estava tudo bem.

- Estou sim. - Sam tomou suas duas mãos, as beijando.

- Trouxe Maritza?

- Sim, está aqui no quarto. Maritza, venha dar um oi.

Maritza aproximou-se com reservas, lhe estendendo a mão para um cumprimento.

- Prazer em conhecê-la, Theo.

O aperto não foi correspondido.

- Amor, ela está estendendo a mão para você cumprimentar.

- Ah, desculpe, cometo essas gafes. - Theo apertou sua mão.

Maritza se deu conta que ela não enxergava, apenas fitou Sam com surpresa.

- Você tem uma bela casa. - Maritza disse, polidamente.

- Sam já disse que você pode ficar aqui quanto tempo quiser?

- Eu disse sim. - Sam respondeu. - Só não banque a folgada, o último que abusou da hospitalidade foi expulso na calada da noite.

- Mike?

- Uhum.

- Eu... Eu não quero incomodar. - Maritza respondeu, sem jeito. - Ainda não tracei um plano, só quero um coração novo, depois eu toco a minha vida, não quero abusar da bondade de vocês.

- Um coração? - Theo perguntou, confusa.

- Um coração novo, colocaram um artificial em mim. - Maritza explicava.

- Amor, eu contei a você semana passada, Maritza virou Borg também.

Theo fitava o vazio, se esforçando para lembrar.

- Na cozinha, eu sujei seu rosto, isso?

- Isso, nesse dia.

- Desculpe.

Sam deu um beijo longo em sua testa, afagando seu rosto.

- Vou levar Maritza para o quarto, eu já volto, vou ficar um pouquinho aqui antes de subir para dormir, combinado?

Assim que Maritza e Sam entraram no quarto de visitas, Sam começava a indicar onde as coisas estavam, mas foi interrompida por Maritza.

- Ela é cega? - Maritza perguntou perplexa.

- Ela perdeu a visão recentemente.

- E ela tem problema de memória?

- Tem, às vezes esquece algumas coisas, tem lapsos, mas nada muito comprometedor.

- Perdeu uma mão também?

- Perdeu.

- Ok. - Maritza sentou-se na borda da cama. - Você pode ser sincera comigo, você é minha melhor amiga. Me diga, além de não andar, ela não enxerga, e tem esse passado num bordel, você está com ela por causa do dinheiro, não é?

Sam a fitou assustada, estava na porta do banheiro.

- Não repita isso.

- Mas é verdade, certo? Eu não vou contar para ninguém, fique tranquila, eu te entendo, juro, eu não estou te julgando, se eu estivesse numa situação complicada, sem ter onde dormir, sem dinheiro, eu também aproveitaria uma chance dessas, afinal é uma troca, já percebi que você cuida bem dela, e ela até que é bonitinha.

Sam deu alguns passos bruscos na direção de Maritza, e a fitou com dureza.

- Você está de favor na casa dela, você pode falar o que quiser de mim, mas eu não vou admitir que você a ofenda ou a perturbe de forma alguma, ela precisa de paz, e se eu perceber que você está colocando a paz dela em risco, não pensarei duas vezes antes de tirar você daqui, estamos entendidas?

Maritza a olhou arregalada.

- Eu não quis ofender ninguém, só perguntei.

- Sei que não devo explicações a ninguém, nem espero que você entenda, mas eu amo aquela garota desde o dia em que a conheci, eu não senti por Mike em oito anos o que eu sinto com ela em oito minutos ao seu lado. Espero que essa explicação baste para que você nunca mais questione meus motivos.

- Totalmente.

Sam voltou à porta do banheiro.

- Aqui é seu banheiro, tem toalhas limpas, roupões, e tudo que você precisar para sua higiene. Naquela cômoda tem roupas, para dormir e para o dia-a-dia, se precisar de mais alguma coisa, peça à Marcy, bem como se quiser comer algo, pode ir até a cozinha e preparar algo, ou pedir alguma coisa. Alguma pergunta?

- Sim, que horas é o toque de despertar? - Maritza perguntou em tom de brincadeira.

- Não tem, mas posso pedir para jogarem um balde de água em você as seis em ponto.

- Dispenso. - Maritza olhava ao redor, reparando todo o quarto. - Essa mansão é incrível, imagino o tamanho do quarto de vocês.

- Ainda não dormimos juntas, ela precisa de cuidados médicos. Mas a suíte dela é enorme sim, é onde eu durmo atualmente.

- Que acidente terrível foi esse que ela sofreu? Perdeu visão, movimento das pernas, memória, mão...

- A visão ela perdeu antes, a mão foi por outros motivos.

- Mas quando você a conheceu, ela ainda enxergava, certo?

- Não.

Maritza a fitou surpresa.

- Ela nunca te viu?

Sam suspirou fundo antes de responder.

- Ela me enxerga de outras formas.

- Isso é bem poético, mas não é verdade.

- Você está dentro da mente dela, por acaso?

- Bom, tomara que um dia ela volte a enxergar, ela vai ficar feliz em te ver.

Sam mudou do semblante sério para um quase sorrisinho.

- Seria legal, mesmo. - Sam falou baixinho, tentando imaginar como seria se Theo a enxergasse pela primeira vez.

- Tenha fé.

- Quem sabe algum dia... Ok, vou subir, eu estou sem dormir direito desde sábado, hoje já é quarta-feira, estou morta.

Sam voltou à UTI, Theo a aguardava lutando para não pegar no sono, a esperando.

- Que sono, hein? - Sam brincou, ao deitar ao seu lado.

- Você disse que voltaria. - Abriu um braço para receber Sam se aninhando em seu peito.

- É estranho ficar longe de você.

- Porque você acostumou comigo. - Theo falava serenamente.

- É um tanto triste também. - Sam se ajeitou, passou a correr seus dedos pelo braço de Theo. - Em alguns momentos nessa viagem, quando me via na Zona Morta, ao lado de Maritza, e sem você, me sentia naquela época do quartel, ou no tempo em que vaguei sozinha, e essa sensação me doía o peito, me dava um nó na garganta quando imaginava minha vida sem você.

- Você sobreviveria muito bem sem mim, tenente.

- Sim, mas viveria pela metade.

- Eu também prefiro ter você por perto.

Silêncio.

- Posso te fazer uma pergunta? - Sam reiniciou.

- Desde que não seja complexa.

- Em algum momento você achou que eu estava com você por causa do seu dinheiro? - Sam perguntou.

- Dinheiro não. Mas às vezes eu penso em algumas coisas não muito legais.

- Como o que?

- Que você está comigo por pena, ou por gratidão.

- Mas não é por esses motivos, nunca foi.

- Eu sei que não. É porque aqui tem piscina.

Sam deu um risinho fungado.

- Sim, piscina e essa garota espirituosa que me dá um colo as seis da manhã, com direito a cafuné.

- Talvez eu goste de você de verdade.

- Seria ótimo, porque eu também gosto.

Silêncio.

- Maritza é tão preconceituosa. - Sam voltou a falar.

- Ela é igual a você, Sam.

- Eu ainda sou assim?

- Não, só um pouco.

- Eu mudei vários conceitos do dia que te conheci até hoje, eu não penso mais como ela.

- Eu sei, ela é sua versão bruta, com o tempo ela pode ser lapidada também, abrir um pouco a mente.

- Mas eu não tenho a paciência que você teve comigo.

- Respire fundo cinco vezes quando ela falar alguma asneira, só depois responda. Eu fazia isso com você. Tem coisas que precisam de mais do que cinco, tipo "feminismo é falta de louça na pia", e coisas desse nível de idiotice.

- Usarei sua técnica.

- Desculpe, não quis te chamar de idiota.

- Eu sei que já falei um monte de bobagens, mas eu estou melhorando.

- Está sim. - Theo beijou o alto da sua testa. - Quer dormir aqui comigo?

- Você vai acordar dentro de duas horas para a fisioterapia, eu pretendo dormir umas oito horas seguidas, então melhor eu subir.

- Ok.

Sam ergueu-se, ficando por cima dela.

- Tente dormir essas horinhas.

- Já vai?

- Vou. - Sam respondeu e a beijou. - Mas você está tão quentinha. - Voltou a beijá-la.

O beijo continuou, Sam animou-se e logo suas mãos tomaram vida pelo corpo de Theo. Como não houve negativa, Sam correu a mão direita para dentro do short.

- Sam, não, eu estou...

- Você está com sonda de novo? - Sam se dava conta, ao ter contato com a sonda.

- Estou.

Sam deu um suspiro decepcionado, de olhos fechados.

- É por pouco tempo, foi por causa da infecção. - Theo tentava explicar.

Sam afundou seu rosto no pescoço de Theo, lhe dando beijos lentos.

- Eu só quero que você fique bem. - Sam sussurrava. - O resto a gente dá um jeito.

- A gente sempre dá um jeito. - Theo a abraçou.

***

Sam acordou em sua cama às cinco da tarde, ainda se sentindo um tanto cansada. Desceu para a cozinha, encontrando John no seu interior, sentado com um prato de cereais a frente.

- John?? - Exclamou com um susto.

- Sam! - O garoto levantou-se animado, e abraçou sua ex-cunhada.

- Mas que raios você está fazendo aqui? Como entrou? - Sam disse, após o abraço.

- Eu fugi de casa.

- Fugiu? E o que veio fazer aqui?

- Vim pedir ajuda a você e ao meu irmão, mas vocês não estavam.

- E quem deixou você entrar?

- Theo, ela disse que eu posso ficar o tempo que quiser, maneiro, né?

- Ela sabe de quem você é irmão?

- Sabe. Você vai me expulsar?

Sam ainda assimilava a presença dele na casa.

- Se Theo não te expulsou, não sou eu que farei isso. - Sam finalmente abriu um sorriso, e o chamou novamente para um abraço. - Venha cá, estava com saudade de você, pirralho.

- Eu estou preparando meus lanches e lavando minha roupa, não quero abusar da boa vontade de Theo, ela foi legal comigo.

- Quando você chegou? - Sentaram nas cadeiras ao redor da mesa retangular.

- Anteontem, eu não tinha mais dinheiro, nem para onde ir, eu não queria ter que pedir algo a vocês, mas eu estava ficando desesperado e faminto.

- Não sei se Theo comentou com você, mas Mike está proibido de pisar nessa casa, na verdade ele não pode nem se aproximar de mim ou dela, tem uma ordem judicial contra ele, então nada de chamar seu irmão aqui, encontre com ele bem longe desse lugar.

- Eu não consegui falar com ele ainda, na verdade acho que não quero falar com Mike, ele só me daria broncas, e me mandaria de volta para casa, mas eu não volto para Kent de jeito nenhum, eu quero morar aqui.

- Seus pais sabem onde você está?

- Sim, Theo me obrigou a ligar para minha mãe.

- Por que fugiu de casa?

- Eu não quero ser um soldadinho bitolado, como Mike, eu quero fazer o que eu gosto.

- Você me chamou de soldadinha bitolada por tabela, mas ok. - Sam também comia da tigela dele.

- Não, você conseguiu fugir do exército, e eu te admiro por isso, você não tem a mente fechada que minha família tem, sempre te achei diferente.

- Achou?

- Você está correndo atrás do que realmente gosta, é isso que eu quero fazer, nesse país eu sei que tenho mais chances, as pessoas não são conservadoras como na Europa, eu quero estudar e trabalhar no Brasil, e também ficar e namorar quem eu quiser, assim como você.

- Ah, e você acha que eu fico com quem eu quiser? Mais respeito comigo, menino.

- Você namora uma mulher agora, você mudou muito.

Sam parou a colher no ar, o fitando.

- Quem te contou isso?

- Theo, ela disse que você está namorando uma garota.

- E ela disse quem?

- Não, só disse que a garota é incrível, e que você não poderia ter feito melhor escolha.

Sam explodiu numa risada.

- Quer conhecer essa garota?

- Agora?

- É, ela está aqui.

- Quero.

- Termine seu cereal.

Dois minutos depois, subiram no elevador até o terceiro piso.

- O que é aqui? Uma academia?

- Mais ou menos isso, tem aparelhos de musculação também, você pode usar se quiser.

- Você e Mike que são obcecados em se exercitar, eu nunca gostei.

- Tá bom, moleque resmungão, me siga.

Theo estava sentada mais ao fundo, num aparelho onde exercitava o braço esquerdo, Eron e Molly estavam por perto.

- Você não me contou que já tínhamos um hóspede. - Sam disse ao se aproximar, e lhe deu um beijo nos lábios, surpreendendo John.

- Temos? - Theo perguntou confusa.

- Sim, John.

- Que John?

- Não lembra de mim? - John perguntou, assustado.

- Ele disse que você permitiu que ele ficasse aqui, é verdade? - Sam perguntou.

- Ah, John, o irmão daquele ser imprestável. Eu esqueço algumas coisas, desculpe.

- Eu estava falando a verdade, Sam. Você me conhece, eu nunca invadiria a casa de ninguém.

- Eu sei, Mike aprontou tanto que tenho receio até da sombra dele. Bom, essa é a garota incrível que você mencionou. - Sam tomou a mão esquerda de Theo, e a beijou.

- Era você o tempo todo. - John riu.

- Sim, provavelmente uma das pessoas mais odiadas por sua família. - Theo enxugou o suor na testa.

- Eu já disse que não sou igual a eles.

- Eu já percebi. - Theo estava com o cabelo preso num rabo de cavalo, quando foi enxugar o suor na nuca percebeu as cicatrizes extensas, parando com a mão no local, com um semblante confuso.

- Tudo bem? - Sam se aproximou e perguntou baixinho.

Theo continuou pensativa, correndo os dedos pelas cicatrizes.

- Foi um tiro? - Theo perguntou.

- Sim, eu achei que você soubesse.

- Quem atirou em mim?

 

Eleuteromania: s.f. Desejo ou paixão pela liberdade.

Notas finais:

Hiato: S.M.: fig. interrupção de continuidade em um corpo, em uma série etc.; falta, intervalo, lacuna.

Capítulo 18 postado, e 2121 entra num hiato por tempo indeterminado, por motivos pessoais.

Mas não é apenas 2121 que irá se ausentar, eu também estarei me ausentando das redes sociais por algum tempo.

Prometo que, tanto eu quanto a história, voltaremos a dar as caras num futuro não distante.

Se precisarem entrar em contato, meu e-mail: crishtiane@gmail.com
Au revoir!

Capitulo 19 - Lassitude por Cristiane Schwinden
Capítulo 19 – Lassitude

 

Por um momento Sam ficou sem ação, tinha certeza que Theo sabia tudo que havia acontecido com ela, que lembrava do tiro auto infligido. Tentava entender a situação, se era um lapso momentâneo, ou se ela vivera na ignorância o tempo todo. Lançou o olhar nas pessoas ao redor, que não entendiam o que acontecia, não queria expor o que de fato era o acidente.

- Pessoal, vocês podem dar uma saidinha da academia, por gentileza? – Sam pediu.

Todos saíram, e Theo ainda aguardava uma resposta.

- Sam?

- Estou aqui. – Colocou a mão em seu ombro. – Quer conversar sobre o que aconteceu com você? É uma longa história.

- Desculpe o susto, eu lembro, eu sei que tentei me matar, meu cérebro acabou de ter um apagão.

Sam respirou aliviada, e sentou-se no colo de Theo, virada para ela.

- Você me deu um susto sim, já estava me preparando para dar a surpreendente notícia de quem deu o tiro.

Theo cruzou seus braços ao redor do pescoço de Sam.

- Eu terei esses problemas para sempre.

- Imagina se um dia você acorda e “Samantha? Não conheço nenhuma Samantha, tirem essa mulher da minha casa.” – Sam brincou, e lhe roubou um beijo.

- Você criou um dispositivo para evitar que isso aconteça.

- Criei?

- Não foi de propósito?

- O que eu criei?

- Tem seu nome gravado do lado de dentro da minha pulseira, em baixo relevo. Se um dia eu acordar sem lembrar de você, basta você falar “deixe de besteira, passe o dedo dentro da sua pulseira”.

- Mas não foi com essa intenção, tem seu nome dentro na minha pulseira também. – Sam disse.

- Tem?

- Sim, tem os nomes de todas dentro da minha pulseira, inclusive o seu.

- Todas quem?

Sam se dava conta que os problemas iam além de lapsos de memória, às vezes Theo não percebia as brincadeiras e ironias óbvias.

- Só tem seu nome, estou brincando. – Sam a abraçou. – Você preenche meu coração por inteiro.

***

Dois dias depois, Sam havia acabado de ir para a Archer, no início da tarde. Theo resolvera almoçar na cozinha, mas queria ir andando com o exoesqueleto, Meg atendeu seu pedido, colocando o equipamento. Circulou pela casa antes de ir almoçar, depois sentou-se exausta e suando na mesa. Após a refeição, quis voltar também andando até seu quarto, mas resolveu dar uma volta pela sala antes, Meg a esperava já na UTI.

Alguns minutos depois, Meg estranhou o silêncio e o não retorno de Theo ao quarto.

- Theo? Volte para o quarto, você está abusando desse exoesqueleto, não pode usar tanto assim.

Nenhuma resposta.

- Theo?

Meg foi até a sala, e a encontrou caída de bruços, gemendo.

- Menina, o que aconteceu? – Meg tocou suas costas, recebendo um gemido mais alto, de dor.

- Não mexa em mim. – Theo balbuciou, chorando.

- O que foi? Você caiu?

- Acho que foi uma distensão muscular, na perna direita.

- Eu avisei que você estava abusando disso!

- Meg, sermões não ajudam.

- Eu vou chamar alguém para te levar para a cama.

- Não! Não mexa em mim, está doendo agora, mas daqui a pouco melhora e eu vou para o quarto.

- Você precisa ir para o hospital.

- De jeito nenhum, apenas me traga uma boa dose de Tramal.

- Não vou te medicar, você precisa ir para um hospital, você acha que é uma distensão, mas talvez seja algo pior.

- Eu não vou, não me tire daqui. – Theo resmungava emburrada.

- Então me deixe tirar o exo, e te levar para a cama, vou chamar Lucian.

- Não! Não faça nada comigo, só quero analgésico.

- Quanta teimosia. – Meg fitava com as mãos na cintura. – Vou ligar para Sam.

- Não ligue para ela, também vou ouvir uma ladainha por ter abusado do exoesqueleto, ela vai me encher de bronca.

- Então você quer que eu te deixe largada aí no chão?

- Quero.

- Que coisa, garota! Vou buscar um analgésico, mas um dos leves, já volto.

Ao chegar no quarto, Meg ligou para Sam, que saiu correndo da Archer e chegou na mansão em vinte minutos, Meg a instruiu a deixar as broncas para depois.

- Posso participar dessa brincadeira? É caça ao tesouro? – Sam disse ao encontrá-la ainda no chão da sala, na mesma posição.

- Eu disse para não te chamarem. – Theo resmungou com o rosto colado no chão, não se movia um milímetro.

- Dói muito? – Sam agachou-se ao seu lado.

- Dói, Meg me deu remédio de criança, não melhorou em nada.

- Quanto tempo você está aí?

- Dez minutos.

- Meia hora. – Meg a corrigiu.

- Acha que foi uma distensão na coxa direita? – Sam sentou ao seu lado, pousou sua mão por cima da mão dela, tentava deixá-la menos nervosa.

- Acho. Daqui a pouco melhora e eu levanto.

- Quer um travesseiro?

- Não, não mexa em mim.

- Por que você não quer ir para o hospital?

- Porque não foi nada sério

- Tem medo de ficar internada?

- Tenho.

- Não acho que te internariam por conta de uma distensão, vão fazer um exame, dar analgésicos, e mandar embora.

- Foi isso que a Meg disse da outra vez, e eu fiquei até a noite do dia seguinte.

- Tarde. – Meg corrigiu.

- Tardinha.

- Se você ficar internada eu durmo contigo, na mesma cama, a noite toda.

- Não quero...

- Da outra vez eu estava longe, mas agora ficarei o tempo todo te dando certeza física.

- A noite toda?

- Sim, até você ter alta.

Silêncio.

- Traga a cadeira de rodas.

Theo não ficou internada, voltou para casa no início da noite, com uma tala na perna direita, e ordens expressas de não usar o exoesqueleto por tempo indeterminado, o que a deixou um tanto frustrada.

Com o passar dos dias, a frustração aumentava, dependia somente da cadeira de rodas, perdera sua pouca liberdade que o exoesqueleto oferecia. Naquela tarde havia tirado a tala, uns dias antes do prazo dado pelo médico. Voltou da fisioterapia desolada com a falta de evolução, Meg deu seu banho, e jantou em silêncio com Sam, Maritza e John em sua UTI.

Por volta da meia-noite, Meg dormia ao seu lado, mas Theo não tinha conseguido dormir ainda. Sentou na cama, com as pernas para fora, acordando Meg.

- Insônia? – A enfermeira perguntou.

- Eu não vou andar nunca mais, Meg.

- Desculpe discordar, mas eu acho que é questão de semanas para você circular por aí com ajuda de muletas.

- Eu não aguento mais ser tratada como uma doente incapaz.

- Você está temporariamente incapacitada de algumas coisas.

- Eu não quero mais morar numa UTI.

- Quer mudar de quarto?

- Eu vou voltar para o meu quarto.

- Quando?

- Agora.

- Sam sabe disso?

- Ainda não, avisarei quando chegar.

- Vamos amanhã, terei tempo de preparar o quarto dela para você dormir lá, você precisa de um apoio mínimo e coisas emergenciais.

- Não, Meg, se algo acontecer eu te chamo, combinado? Traga a cadeira.

- Você que sabe, mas se você sentir algo ou perceber que a respiração está ficando pesada, me chame, ou peça para Sam me chamar.

Theo pulou para a cadeira, e Meg a levou para o quarto de Sam, que dormia.

- O que foi? – Sam acordou no susto.

- Posso dormir aqui?

Sam ergueu-se nos cotovelos, sem entender.

- Aqui nessa cama?

- Você trocou, não trocou?

- Troquei, mas... – Sam fitou Meg. – Acha uma boa ideia? Aqui não tem estrutura.

- Se acontecer alguma emergência, vocês me chamam. – Meg respondeu.

- E então, posso?

- Claro. – Sam levantou-se rapidamente, e ajudou a deitá-la.

- Eu volto de madrugada para aplicar os remédios, e me chame se quiser ir no banheiro.

- O banheiro você pode deixar comigo, Meg.

- Juízo, garota. – Meg disse, já saindo.

- Quer outro travesseiro? – Sam perguntou, solicitamente.

- Não, este está bom.

- Ficou com saudades de mim ou do quarto? – Sam brincou, deitada de lado, a observando.

- Acho que de ter uma vida normal com você.

- Você vai passar a dormir aqui?

- Não sei.

- Fique aqui, eu orei tanto para que você viesse para cá, eu vou tomar conta de você tão bem quanto Meg.

- Essa noite será um teste.

- Deita aqui comigo? Estou aqui. – Sam tomou sua mão, a orientando, Theo deitou em seu peito.

- Sam, você fez sexo? – Theo perguntou desconfiada.

- Que?

- O jeito como você está falando, é o mesmo de quando fazíamos amor. Você fez sexo agora a noite?

- Ãhn... Não, não é bem sexo. Nossa, você daria uma ótima detetive.

- Fez com quem?

- Comigo. – Sam respondeu envergonhada.

- Você?

- Desculpe, eu estava subindo pelas paredes, tive que encontrar uma forma de aliviar isso.

- Desde quando você se masturba?

- Pouco tempo, Letícia me ensinou.

- Ensinou na prática? – Theo arregalou os olhos, havia saído de cima de Sam.

- Sim, não, não, não foi assim. Eu liguei para ela, pedi ajuda, ela me explicou como fazer.

- Eu também sei fazer, porque não perguntou para mim?

- Eu achei que talvez você ficasse chateada se soubesse, me desculpe, eu estou me sentindo péssima. – Sam puxou o edredom para cima, como na época em que se sentia envergonhada ao lado de Mike.

- Eu não me chatearia, isso é saudável, eu pensei em sugerir a você, mas você já tinha me falado que não praticava.

- Eu nunca imaginei que faria algum dia, mas eu não estava sabendo mais o que fazer, e não queria te pressionar a nada.

- Tentou banho frio?

- Tentei. Piscina também.

- E como é? Consegue chegar lá?

- Consigo sim. – O clima estava estranho.

- Quer que eu volte para a UTI?

- Não, por favor, fique.

Silêncio.

- Eu estou tentando, Sam, mas são vários fatores, tem os remédios que me anulam, tem um monte de coisas ruins na minha cabeça, tem insegurança. Eu tenho conversado com o psiquiatra, mas ainda é complicado.

- Eu já falei que vou esperar o tempo que for preciso.

Ambas estavam se sentindo mal e culpadas.

- Eu sei.

- Vamos dormir? – Sam convidou.

Theo virou para o lado de fora.

- Me abraça?

Sam não respondeu, apenas correu para as costas de Theo, a abraçando e dando um beijo demorado em seu pescoço.

***

- Como foi a primeira noite de volta ao seu quarto? – Meg perguntou, enquanto a levava para o terceiro andar, para a fisioterapia matinal.

- Mais tranquila que o imaginado, só acordei Sam quatro vezes.

- Foi ao banheiro?

- Uma vez.

- Vai morar lá?

- Só a noite, eu passarei o dia no quarto UTI.

- Bom dia, Theo! – Eron a cumprimentou. – Que acha de fazermos pernas hoje? Quero te colocar no andador.

Theo suspirou com desânimo.

- Não vejo melhoras.

- É um caminho longo, e às vezes vamos estacionar no acostamento, faz parte dessa viagem rumo à sua vida ativa.

- Está tudo em inatividade, Eron. Não consigo fazer nada que gosto, nenhum hobbie, atividade, esporte, nem sexo eu faço.

- Se continuar negativa, vai demorar mais.

Ao final da sessão, Meg a retornou ao quarto. Após um banho, a levou até o deque da piscina, para almoçar lá.

- Sam não vai almoçar com a gente? – Meg perguntou.

- Não, ela saiu mais cedo, ia comprar umas roupas, algo assim.

- Para você?

- Sei lá.

- Você precisa de roupas novas, menos hospitalares, com mais vida.

- Meu pai jogou tudo fora.

- Por que não aproveita que Letícia vem passar a tarde com você, e diz quais roupas você gostaria que ela comprasse para você?

- Ou então eu posso ir com ela comprar.

- Na rua?

- Algum shopping ou algo do tipo.

- Hum... Não sei, mas vou ver se Lucian pode levar vocês.

Após a refeição, as duas continuaram no deque, Meg buscou suco para ambas, Theo estava deitada numa espreguiçadeira, pensativa.

- O que impede que o casal real faça sexo? – Meg perguntou.

- Eu.

- Sam já te procurou?

- Algumas vezes, mas eu não deixo prosseguir.

- Você tem receio de se machucar, ou sentir dor?

- Eu não sei.

- Você tem condições físicas de fazer, você sabe disso, não sabe? Não tem nenhuma ressalva médica.

- Não é físico.

- Você acha que perdeu a intimidade com Sam? – Meg ajeitava sua viseira, sentada numa cadeira reclinável.

Theo não respondeu logo.

- Se eu deixar prosseguir, vai ser pior, vou acabar parando mais adiante, vai ser ainda mais desolador para ambas.

- Sam é uma pessoa compreensiva e paciente, ela não se chatearia se você parasse mais adiante. Claro que se frustraria, mas ela sabe dos seus problemas, não é como ir para cama com alguém que não imagina o que se passa aí dentro. Ela te olha como se você fosse um milagre da natureza, ela comemora cada pequena evolução sua, desde quando quase te declararam morta, até agora, onde você está na beira de uma piscina, segurando seu copo com a mão mecânica, e escondendo uma barrinha de chocolate com a outra mão, achando que eu não reparei quando você pegou do meu bolso.

- Você nunca me deixa comer chocolate, e eu já posso comer.

- Talvez porque você não se contente com o limite de vinte gramas, faz birra e não come o que pode.

- Me recuso a comer um pedacinho minúsculo.

- Talvez um mundo de novas possibilidades se abra a sua frente se você começar devagar.

Letícia chegou logo em seguida, Theo fez o pedido para que fossem às compras.

- Lucian nos leva de helicóptero, prometo não demorar. – Theo pediu.

- Eu tive uma ideia melhor.

Meia hora depois, Letícia sacou seu comunicador, e ligou para Sam.

- Tá na Archer, mulher?

- Sim, e você está de plantão?

- Não, estou de folga, e na frente da Archer.

- Fazendo o que?

- Esperando você descer para tomar um café comigo, pode vir aqui?

- Posso, você está no saguão de entrada ou já está no café do prédio?

- Estou do lado de fora, procurando onde estacionar.

- Estou descendo.

Sam descia as escadas frontais do prédio da Archer, vestindo seu casaco, quando avistou Letícia e Theo recostadas na scooter vermelha e branca, com os capacetes em mãos, abriu um sorriso surpreso.

- O que você pensa que está fazendo? Quer matar minha namorada? – Sam brincou, Theo sorriu ao ouvi-la.

- É muito bom, você já andou? – Theo perguntou, animada.

- Não, nunca andei. Me dê um beijo, motoqueira selvagem. – Sam a segurou pela cintura, e a beijou.

- Estamos de passagem, vamos fazer compras.

- Vocês vão fazer compras agora?

- Sim, preciso de roupas novas. – Theo respondeu.

- Não sei se é prudente você circular por aí em lugares públicos. E você está sem suporte emergencial algum.

- Dê um tchauzinho para o carro ali. – Letícia gesticulou para um carro negro logo atrás, onde estavam Lucian e Meg. – Tem também um carro com seguranças ali.

- Aceitam mais um carro na comitiva?

- Você também vai?

- Posso?

- Pode. – Theo respondeu.

Minutos depois Letícia empurrava a cadeira de rodas com Theo para dentro de um shopping, com Sam e Meg por perto.

- Quer começar por onde? Sex shop? – Letícia brincou.

- Tem muita gente aqui. – Theo parecia cada vez mais tensa.

- Não, é um shopping afastado, não está cheio.

Theo ouvia as vozes das outras pessoas que circulavam pelos corredores, estava entrando em pânico por perceber aquelas pessoas todas ao redor, e sem conseguir enxergá-las.

- Está cheio, eu quero ir embora. – Já respirava rápido.

- Ok, operação abortada, vamos voltar. – Sam assumiu a cadeira, e a conduziu com pressa na direção do estacionamento.

- Tem muita gente aqui, eu não sei quem são essas pessoas. – Theo falava com agitação.

- São só os clientes das lojas, está tudo bem, já estamos chegando no carro.

Teve uma convulsão a caminho de casa, e naquela noite dormiu em seu quarto hospitalar.

Duas noites depois, e finalmente voltara para sua suíte, para alegria de Sam.

- Eu trouxe um monte de coisas para cima, para que você fique tranquila em caso de emergência, inclusive eu cuidarei pessoalmente dos remédios, eu quero que você se sinta confortável e amparada, mas também que se sinta normal, como mais uma noite numa casa abandonada comigo. – Sam disse, ao deitar ao seu lado.

- Você pensa em tudo. – Theo respondeu, e deitou-se em seu peito.

- Theodora, Theodora, se você tivesse ideia do quanto eu quero ver você bem e feliz. – Sam estava preocupada com o crescente desânimo de Theo, tentava melhorar sua estima com os pequenos gestos.

- Eu quero melhorar. - Sua voz soava abatida.

- Theo, você tem pensado na possibilidade de fazer aquela cirurgia para tentar reativar seu nervo ótico?

- É cedo para isso, posso ter complicações.

- Mas você quer, não quer?

- Sim, claro que quero voltar a enxergar.

- Quem sabe dentro de algumas semanas possamos consultar com Doutor Franco, saber o que ele acha.

- Ele vai proibir.

- Talvez libere, e seria ótimo.

- Incomoda você? – Theo perguntou de forma um tanto ríspida.

- O que? Você não enxergar? Claro que não, só acho que faria um bem danado na sua recuperação.

- E se eu nunca voltar a ver? Isso seria decepcionante, não seria?

- Se for vontade de Deus, então vamos tocar nossas vidas assim, a falta de visão não nos impedirá de termos uma vida normal e feliz.

- Normal para você, talvez.

- Não fale dessa forma. – Sam a abraçou mais forte.

- Desculpe.

Silêncio.

- Já imaginou como seria se você me visse pela primeira vez? – Sam perguntou num tom animado.

- Já. – Theo também abriu um sorrisinho.

- Você tomaria um susto.

- Eu tenho uma boa ideia de como você é.

- Mas seria divertido. – Sam disse. – Você continua com a mesma visão de mim? Ou mudou?

- Acho que você está mais saudável e bonita agora.

- Então você acha que sou bonita? E se você se decepcionar?

- Eu largo você no quarto de hospital e fujo com a enfermeira.

- Você partiria meu coração.

Theo ergueu-se por cima de Sam, ficando com seu rosto próximo ao dela.

- Sam, quando você me beija eu fecho os olhos, e é no beijo o momento em que mais amo você, isso nunca vai mudar, enxergando ou não.

Sam não conseguiu impedir que um sorriso largo surgisse, era tão raro ouvir Theo falando sobre seus sentimentos.

- Ganhei meu dia. – Sam respondeu, contente.

Theo ergueu sua mão com insegurança, pousando alguns dedos nos lábios de Sam. Por um instante pareceu decidir algo, talvez não fosse o momento, nunca saberia, mas a beijou.

Sam pensou em questioná-la, interromper o beijo lascivo e infindável para perguntar se ela tinha certeza, mas poderia ser o suficiente para estragar a noite. Teve certeza que Theo iria além quando tirou a camisa, ainda sobre seu quadril.

Depois que Sam a girou, ficando por cima, Theo procurou sua mão, e a guiou para entre suas pernas, o que seria um sonho para Sam em outra ocasião, não havia a sensação total de segurança.

- Faça em mim. – Sam tentou adiar.

- Depois.

Sam obedeceu, mas tudo foi interrompido de forma abrupta logo em seguida.

- Desculpe, não consigo. – Theo disse, e virou para o outro lado.

- Ok, pelo menos hoje fomos mais longe, não fique chateada. – Sam disse de forma ponderada, a abraçando por trás.

- Não sei se conseguirei algum dia, Sam, não é só a minha cabeça, eu tentei passar por cima de tudo, mas é incômodo, fisicamente também.

- Você sentiu desconforto?

- Mais do que isso.

- Dor?

- Também.

- Pode ser por causa do uso prolongado da sonda, mas deve ser temporário.

- Eu não sei... – Theo fechou os olhos, estava mais decepcionada do que nunca.

- É pior ficar pensando nisso, foque em outras conquistas. E você pode ir tentando sozinha, sem a pressão de me ter ao seu lado.

- Acho que vou ligar para Letícia. – Theo deu um meio sorriso irônico.

***

O inverno havia dado as caras, fazia um pouco de frio no grande salão de fisioterapia, Theo finalizava sua sessão vespertina, aos tombos e tropeços na esteira onde ela tentava caminhar com os suportes.

Suava, estava incomodada com os tombos e o casaco que Magda a obrigara a vestir. Parou a caminhada para tirar o casaco, teve dificuldade, caiu de joelhos ainda com uma manga engatada no braço.

- Ok, chega de andar, vamos fazer algo para os braços e encerramos por hoje. – Eron a ajudou.

- Não quero mais porcaria nenhuma hoje. – Theo resmungou irritada, atirando o casaco para longe.

- Venha, só um pouquinho de braço na máquina leve. – Eron a conduzia para outro equipamento.

- Não quero! É tudo inútil! – Gesticulou derrubando um suporte com anilhas.

- Machucou? – Magda perguntou se aproximando.

- Pegue a cadeira, quero ir para o quarto.

Na noite seguinte, Theo acordou de madrugada, querendo ir ao banheiro.

- Sam? – Chamou, mas sua namorada dormia profundamente.

- Sam, eu quero fazer xixi – Ouvia apenas o barulho da respiração forte de Sam dormindo.

- Deixa pra lá, vou sozinha... – Resmungou, e sentou na cama, atirando as cobertas para o lado.

Saiu da cama caindo de joelhos, o banheiro ficava do outro lado, rastejava-se apoiando os braços na cama, acordando Sam.

- O que aconteceu?

- Estou indo ao banheiro.

Sam levantou-se rapidamente, tentando ajudá-la.

- Não me ajude.

- Você vai se machucar assim, eu te ajudo a ir ao banheiro, se apoie em mim.

- Não precisa, eu quero poder ir na porcaria de um banheiro sozinha. – Seguia agora aos trancos e barrancos o caminho até o banheiro.

- Por que essa teimosia?

- Eu só quero ser independente, me deixe fazer as coisas sozinha, e não entre no banheiro.

Momentos depois chegou ao banheiro, já exausta e suando, seus joelhos estavam vermelhos, principalmente o direito, já que a perna esquerda estava debilitada.

Apoiou-se com dificuldade com ambos os braços na borda do vaso, erguendo-se do chão. As mãos escorregaram, a fazendo desabar sobre o vaso, seu queixo chocou-se contra a cerâmica, abrindo um corte que sangrou de imediato.

- Que merda... – Resmungou sentada ao lado do vaso, sentindo o sangue molhando sua camiseta cinza.

 

 

Lassitude: s.f.: Cansaço, fadiga, tédio, prostração de forças.

Notas finais:

Vamos brincar de quiz? 30 perguntas sobre tudo que já escrevi (que preste): schwinden.com.br/quiz-de-aniversario

Capitulo 20 - Transfobia por Cristiane Schwinden
Capítulo 20 – Transfobia

 

O corte no queixo não a impediu de concluir seu objetivo, ergueu-se novamente com os braços, e sentou-se no vaso. Ao terminar, subiu seu short e escorregou para o chão. Percebeu com desânimo que não teria forças para se arrastar de volta até a cama.

Ficou um tempo sentada, num desalento que minava sua energia, fitando a escuridão do piso frio. Levou a mão ao queixo, continuava sagrando, o corte parecia profundo.

- Sam? – Chamou lá de dentro, com a voz sôfrega.

- Sim?

- Pode vir aqui?

- Posso entrar?

- Pode.

- Mas o que foi isso?? – Sam exclamou apavorada, ao ver todo o sangue.

- Cortei o queixo, você pode dar uns pontos?

- Não, eu vou levar você para dar pontos no hospital. – Rapidamente Sam tomou uma toalha de rosto, agachou ao seu lado, e segurou a toalha abaixo do seu queixo.

- Não precisa, são uns três pontos, você já me suturou antes.

- Eram outras épocas, e eu suturo muito mal. – Tirou a toalha e deu uma olhada de perto no corte, erguendo sua cabeça. – Meu Deus, Theo, isso está péssimo, vou te levar ao hospital e pedir para um médico te suturar.

- Quem está de plantão aqui hoje?

- Magda.

- Peça para ela suturar.

- Não, nós vamos a um hospital para um cirurgião plástico fazer algo discreto, é seu rosto.

- Não...

- Por que não? – Sam disse sem paciência.

- Hospitais não são seguros.

- Você não ficará internada.

- Mesmo assim.

- Theo, pare de drama, você sabe que não será internada por causa de um corte. Vou pegar a cadeira, já volto, e não tente sair se rastejando.

No hospital, Theo estava em sua cadeira de rodas, segurando apaticamente uma toalha embaixo do queixo numa sala de espera interna, enquanto Sam discutia com algum atendente atrás de um balcão, exigindo um cirurgião plástico.

Voltou ao lado de Theo, tomando sua mão.

- Eles vão chamar o que está de plantão, não deve demorar. – Sam disse, dando uma boa olhada em Theo, que sequer respondeu.

- Quer algo? Quer água?

- Não quero. Aqui é seguro?

- É sim, é uma espécie de sala de espera vip, só tem nós e dois seguranças, inclusive tem um ao seu lado, não se preocupe.

- Ok.

A atendente gesticulou, chamando Sam para comunicar que não havia encontrado nenhum cirurgião plástico. Enquanto discutia, Sam relanceou os olhos para trás, viu Theo com a cabeça virada na direção do segurança que estava ao seu lado, parecia pensativa. Sentiu seu sangue congelando ao ver que o homem portava uma arma na cintura, e a proximidade de Theo com a arma, numa sala de espera de hospital, a fez reviver um momento traumático que ela lutava para esquecer.

- Só um instante, eu já volto. – Sam disse, abandonando a atendente.

Foi até Theo, e rapidamente a tirou dali, levando a cadeira para seu lado, junto ao balcão.

- O que foi? – Theo perguntou confusa.

- Nada, ela perguntou umas informações suas que eu não tinha, por isso te trouxe.

- Que informações?

- Ela já deixou em branco, não precisa mais.

- O cirurgião vai atender em alguns minutos, vocês podem entrar no ambulatório dois, nesse corredor, a direita. – A atendente orientou.

Sam estacionou Theo e sentou ao seu lado, dentro do ambulatório, segurava firmemente sua mão, a soldado suava frio.

- Você mentiu. – Theo se dava conta.

- O que?

- Não tinha informação alguma, você achou que eu ia pegar a arma do segurança, não é?

- Não, não tem nada a ver.

Theo balançou a cabeça aborrecida.

- Eu não sou suicida.

- Eu sei que não é, aquela vez foi por outros motivos.

- Você acha que eu sou.

- Não.

Silêncio.

- Eu não queria me matar.

- Eu sei que não.

- Nem naquele dia, nem hoje, nem nunca.

Sam suspirou longamente.

- Eu sei, desculpe, eu fiquei em pânico quando te vi ao lado de uma arma, você está tão abatida, e para piorar estamos justamente num hospital, como da outra vez.

Theo abriu um sorrisinho.

- Medo de ficar viúva, oficial?

Sam riu, e a abraçou pelo lado.

- Medo de perder essa garota manhosa com o queixo cortado.

***

A cirurgia do transplante de Maritza seria dentro de dois dias, ela se internaria na manhã seguinte. Naquela noite todos estavam reunidos na ampla sala multimídia, além de John e Maritza, Claire, Letícia e Daniela também bebiam e conversavam descontraidamente. Sam estava sentada de lado do sofá maior, com Theo recostada em seu peito.

- É verdade que Theo foi o cupido de vocês? – Sam perguntou.

- Um cupido de chifres. – Theo respondeu, rindo.

- Como assim?

- Letícia me roubou a loira. – Theo disse num tom de brincadeira.

- Sério?

- Conte a história, Lê.

- Não roubei nada, eu comuniquei que estava interessada na sua amiga, você estava ciente que eu estava a fim dela. – Letícia se defendeu.

- Ok, ok, eu conto. Eu levei o pessoal para passar o réveillon no meu barco, Dani foi como minha ficante, Letícia ficou apaixonada por ela, me contou isso na madrugada do dia primeiro, eu estava um tanto alta, mas eu lembro disso. – Theo narrava.

- Mas você me disse que não tinha nada sério com a Daniela. – Letícia ia dizendo. – Que era a terceira vez que estavam ficando, e que era só curtição, de ambas as partes.

- Da minha parte era curtição. – Dani disse. – E eu também fiquei caidinha pela Lê quando a vi, piorou quando você me disse que era recíproco.

- Eu já esperava que essas duas ficassem em breve, elas se comiam com os olhos. Na noite seguinte fui na cabine da Letícia pegar mais coisinhas e flagrei as duas juntas. – Theo contou.

- Letícia, você fez isso com sua melhor amiga? – Sam perguntou incrédula.

- Eu nem sei como Theo se lembra de algo, ela tomou as minhas coisas, as dela, e as da cidade inteira.

- Que coisas?

- Coisas alucinógenas, Sam, você não conhece.

- Drogas?

- Também tem esse nome.

- Você usava drogas? – Sam perguntou assustada.

- Só por diversão.

- Quais?

- Ah... Vamos deixar esse assunto para outra hora. Ok, hora da Maritza falar como está se sentindo às vésperas de ganhar um coraçãozinho novo.

- Apavorada e feliz. – Maritza respondeu, estava deitada sobre as pernas de John, no chão sobre um tapete.

- Como conseguiram? – Claire perguntou.

- A ONG Martin, a mesma que conseguiu para mim, do dia para a noite. Mas como Maritza não tinha tanta pressa, levou um tempinho até conseguir.

- ONG de que?

- Acho que ajudam refugiados de guerra, tem uns políticos por trás disso, mas o processo é inteiramente idôneo. – Sam explicava.

- Poderíamos fazer alguma parceria com essa ONG, o que acha? – Theo perguntava a Sam, se virando para trás.

- Quem sabe? Vou procurar saber quem são os responsáveis. – Sam aproveitou para lhe roubar um beijo.

Theo ainda usava um curativo no queixo, mas parecia mais tranquila agora, seu desânimo havia sido convertido em dedicação à fisioterapia.

Mais tarde, já em sua suíte, Theo estava sentada na beirada da cama, esperando Sam retornar do banheiro.

- Me leva para escovar os dentes?

- Levo sim, mas vamos tentar algo diferente hoje.

- O que?

- Theo, você já tentou andar fora da sala de fisioterapia?

- Fora dos equipamentos? Não.

- Estenda as mãos.

Sam tomou suas mãos firmemente.

- Levante-se.

Forçando as mãos de Sam, Theo conseguiu erguer-se.

- Ótimo. Fique um pouco de pé, a cama está logo atrás de você se cansar.

- Estou de pé. – Theo disse com um sorriso.

- Está, e nem está tremendo as pernas.

- A perna direita está quase recuperada. – Theo contou.

- Dê um passo, não solte minhas mãos.

Theo deu um passo inseguro com a perna direita.

- Mais um.

A perna esquerda fraquejou, dobrando o joelho, Sam a ajudou.

- Só mais um.

Com mais dificuldade, Theo deu o terceiro passo.

- Por hoje está ótimo, venha, grude nas minhas costas, te levo ao banheiro.

Quando retornaram à cama, Sam reiniciou a conversa iniciada mais cedo.

- Então... Você e Daniela tiveram um relacionamento.

- Ficamos duas vezes e meia, não foi um relacionamento. – Theo virou-se na direção de Sam, tomando sua mão por baixo da coberta.

- Tudo bem, não tenho ciúmes dela, Dani é uma garota legal, não sei porque Mike ficava fazendo piadas estranhas sobre ela.

- Porque Mike é transfóbico, um babaca por completo, não existe preconceito que Mike não tenha.

- O que é isso?

- Quem tem preconceito com pessoas trans.

- Trans o que?

- Pessoas transexuais, Sam, pessoas que fazem redesignação sexual.

- Parece que você está falando outra língua. – Sam dizia com confusão.

- Ok, vou explicar como se você tivesse cinco anos. Daniela nasceu menino, mas com o passar do tempo percebeu que era uma mulher, e aos poucos fez a redesignação do corpo, para o gênero feminino, que é o gênero que ela realmente é.

- Daniela é um homem?? – Sam disse, surpresa.

- Não, Daniela é uma mulher, tanto quanto eu e você, apenas nasceu num corpo em que não se reconhecia como mulher.

- Ela nasceu homem, e modificou o corpo? Mas ela parece mulher de verdade.

- Suas colocações foram grosseiras, mas acho que agora você entendeu o que é uma mulher trans.

- Eu nunca imaginei... – Sam refletia, ainda se dando conta. – E você ficava com ela, vocês faziam sexo?

- Fizemos.

- E como era?

- Era muito bom.

- Ok, mas como as coisas funcionam? Ela fez aquela cirurgia?

- Isso é extremamente indelicado da sua parte, nunca pergunte essas coisas para a Dani, ok?

- Fez?

- Eu não vou te falar, isso faz parte da minha intimidade com ela, e se um dia ela quiser conversar sobre isso com você, tudo bem.

- É só curiosidade, não quero ofender ninguém.

- Você gostaria que eu falasse sobre sua anatomia íntima com outras pessoas?

- Não.

- Então está resolvido.

Silêncio.

- Eu não quero ser transfóbica, desculpe se pareceu, mas são tantas novidades. – Sam disse.

- Tudo bem, mas tire as dúvidas somente comigo, que já sei como funciona sua mente.

- Você tem paciência para me explicar.

- Sam, você tem um bom coração, seus preconceitos são apenas culturais, isso não está de fato dentro de você.

- Você acha? – Sam perguntou com um sorriso contente.

- Se você fosse uma preconceituosa de verdade, daquelas corrompidas de alma, não estaria agora na cama com uma mulher.

- Bom ponto.

***

A cirurgia de Maritza foi tranquila, em cinco dias ela já estava de volta à mansão de vidro, John era sua companhia inseparável, inclusive esteve o tempo todo no hospital com ela.

A noitinha, Sam foi ao quarto de Maritza, perguntar o que ela queria jantar. Avistou John na cama deitado ao lado de Maritza.

- Espera aí... – Vocês dois... Vocês dois estão... – Sam se dava conta.

- Estamos nos conhecendo melhor. – Maritza respondeu com um sorrisinho, enquanto John já havia deixado a cama, sentando na poltrona ao lado.

- Gente... – Sam exclamou com surpresa. – Quem diria?

- Nós íamos te contar. – John disse nervoso.

- Tudo bem, vocês são livres e desimpedidos, só estou meio chocada. – Sam ria.

- John pode passar a dormir aqui?

- Claro, sintam-se em casa, mas respeitem a dona da casa, ok?

Sam saiu pelo corredor ainda sorrindo incrédula, encontrou Meg entrando no quarto UTI com Theo na cadeira de rodas.

- Meg, deixe comigo. – Sam assumiu o comando da cadeira, e subiram o elevador.

- Para onde está me levando? Eu estava indo tomar banho. – Theo indagou.

- Você vai tomar banho no nosso quarto. – Entraram na suíte.

- Então temos que chamar Meg.

- Não, não precisamos dela.

Theo não entendia as pretensões dela, Sam posicionou-se à sua frente.

- Aquele não é seu quarto, quero que você se desapegue dele, ganhe independência.

- Mas... Você vai me ajudar com o banho?

- Vou, levante-se, vamos para nosso banheiro, e você já tem condições de ir andando para lá. – Sam estendeu as mãos.

Theo não falou nada, apenas obedeceu estendendo as mãos, sendo auxiliada a levantar da cadeira, por fim apoiou-se no ombro dela.

- Não precisa ter pressa, ok? Devagar nós conseguimos tudo.

Ao chegar no banheiro, Sam guiou as mãos dela até um suporte metálico, preso à parede.

- Desde quando seu banheiro tem esse tipo de apoio? – Theo estranhou, segurando com o braço direito no suporte.

- Desde hoje, mandei colocar em todo o banheiro. E dentro do box. – Ela aproximou-se do ouvido de Theo. – E é nosso banheiro, não meu.

Theo sorriu de lado, estava surpresa com a novidade. Quando começou a tirar a roupa, foi ajudada por Sam.

- Deixe comigo, disso eu entendo. – Sam brincou. – Consegue tomar banho de pé ou quer a cadeira de banho?

- Consigo tomar de pé.

Theo já estava dentro do box, debaixo do chuveiro ligado, quando Sam entrou.

- Por que fechou a porta do box? – Sam perguntou.

- Para não respingar... Espera, você está... – Theo estendeu a mão e tocou no abdome nu de Sam.

- Se importa se eu tomar banho com você?

- Não, claro que não. – Theo respondeu, sem jeito.

Aproximou-se, pegando a mão de Theo e colocando no alto do seu peito.

- Me veja. – Sam disse, agora numa voz doce.

Theo desceu sua mão de forma lenta e atenta, até a sua cintura. Sam chegou ainda mais perto, a abraçando carinhosamente.

- Hoje eu só quero que você me olhe, como você fez tantas vezes. – Sam sussurrava em seu ouvido. – Lembra de quando me conheceu com suas mãos?

- Eu lembro.

Sam segurava seu rosto, enquanto distribuía alguns beijos em seu pescoço. Falou num tom provocativo.

- Me explore, me redescubra com suas mãos.

A respiração de Theo aumentou, colocou ambas as mãos em sua cintura e a virou, Sam apoiou-se com as mãos espalmadas na parede, Theo encaixou-se em suas costas, correndo as mãos de forma demorada pelo corpo da namorada.

- Eu lembro... Eu conheci suas costas, quando fiz a massagem. – Theo colocou o cabelo molhado para frente, distribuía beijos abaixo da nuca e nos ombros de Sam.

- E me arrepiou do jeito que está me arrepiando agora.

- Beijos nas costas sempre fazem isso com você...

- Eu gosto disso também. – Sam murmurou, tomando ambas as mãos de Theo e subindo para seus seios, que se divertia.

Pouco tempo depois Sam virou e a beijou, a recostando na parede contrária. As mãos de Theo não paravam quietas, desbravavam e enxergavam todos os poros de sua namorada, que estava mais do que excitada, mas acompanhava o ritmo ditado.

O beijo só foi interrompido para que Theo proferisse três palavrinhas que fizeram com que Sam quase gozasse sem sequer ser tocada.

- Eu quero você...

- Quer ir para a cama?

- Não...

Theo a virou novamente, enquanto a mão esquerda cuidava dos seios, a mão direita seguiu sem cerimônia para entre as pernas de Sam.

- Você está ainda mais deliciosa... – Theo sussurrou enquanto seus lábios brincavam com o lóbulo da orelha.

Sam estava se segurando como podia para não implorar que Theo fosse além, que seus dedos fossem adiante. Abriu as pernas, como um convite involuntário, não percebido por Theo.

- Theo... Eu quero sentir você dentro de mim.... – Sam perdeu a luta, e pediu.

- Ah é? – Theo abriu um sorriso malicioso. – Quer que eu entre? – Corria os dedos encharcados próximo à sua entrada, a provocando.

- Se você não entrar eu vou morrer. – Sam dizia com exagero, ou nem tanto.

Theo deu um risinho, com a boca em seu pescoço.

- Então pede.

- Ah, Theo...

- Pede. – A provocava ainda mais, lhe arrancando uns gemidos.

- Eu já pedi... – Sam estava com a testa recostada no azulejo, de olhos fechados, arfando.

- Não, não é assim que se pede.

- Me come, me fode, mas por favor, entra em mim!

Theo arregalou os olhos, surpresa.

- Agora sim. – E atendeu com vigor o pedido tão clemente de Sam.

Theo pousou seu rosto junto ao pescoço de Sam, extasiou-se com os lábios dela junto ao seu ouvido, que recebia os gemidos altos de um longo orgasmo.

Sam recuperou um pouco o fôlego, mas virou-se ainda respirando forte, e a abraçou.

- Quer mais? – Theo perguntou baixinho.

- Nesse momento não tenho condições sequer de ficar em pé... Eu não sei onde você estava guardando isso, mas parece que fui atropelada por um furacão.

Theo abriu um sorriso satisfeito, como há muito tempo não fazia, Sam desprendeu-se, e a beijou.

- Eu não quero hoje, mas tem algo acontecendo comigo, com meu corpo, eu me sinto diferente.

- Algo bom?

- Foi a primeira vez que me excitei desde que acordei do coma.

Sam segurou seu rosto com as duas mãos.

- Então seja bem-vinda de volta.

***

- Você vai dormir aqui todas as noites, não vai? – Sam indagou ao sair do banheiro, Theo já estava deitada se preparando para dormir.

- Agora esse é nosso quarto. – Theo ouvia um canal de notícias na tela.

Sam deitou-se, cobriu ambas com o edredom e aconchegou-se em Theo.

- Você se deu conta do que acabou de falar? – Sam perguntou.

- Sobre o quarto?

- É um sonho que finalmente estamos realizando, lembra? Dormir numa mesma cama mais de duas vezes. – Sam passeava sua mão despretensiosamente por dentro da camiseta de sua namorada, uma tranquilidade conquistada recentemente.

- Agora temos nosso cantinho. – Theo respondeu com um quase sorriso.

- Nada nem ninguém vai nos separar. – Sam sussurrou em seu ouvido.

- Aumentar o som. – Theo deu o comando à tela, de forma tensa.

- O que foi?

- Eu conheço essa voz.

- Na tela?

- Sim, é voz de uma pessoa que conheço bem.

- Essa mulher que está sendo entrevistada?

- Está aparecendo o nome dela?

- Ãhn... Está, está sim. – Sam endireitou-se na cama, lendo o rodapé da tela. – Senadora Michelle Martin.

- Michelle. – Theo sentou-se, com semblante surpreso.

- Michelle? Michelle, sua cliente do Circus?

- Sim, é ela, é a voz dela. Então... Essa era a profissão dela, Michelle é senadora.

- Ela nunca te contou?

- Não, ela só falava que era algo delicado, por isso ela não podia arriscar a reputação me tirando de lá.

- Que vaca, que vadia, que... que...

- Não fale dessa forma. Você está prestando atenção?

- Não, sobre o que ela está falando?

- A ONG dela.

- A ONG Martin. – Sam se dava conta, perplexa.

- Me deixe ouvir.

No restante da entrevista, a senadora explicava que a ONG que ajudava refugiados de guerra foi fundada pelo marido, também senador, Carl Martin, e que ela assumiu a direção depois que ele faleceu, em janeiro.

- Será que ela sabe quem você é? – Sam indagou.

- A essa altura, pelas notícias veiculadas, ela já deve ter ligado os fatos.

- E nunca procurou você.

- Por certo não quer seu nome ligado ao meu escândalo.

- Se eu a encontrasse na rua... Não responderia por mim. – Sam resmungou, com raiva.

- Eu quero que você a procure.

- Que?

- Ligue no seu gabinete, agende uma hora com ela, ou algo assim, o mais breve possível.

- Por que?

- Porque ela sabe onde fica o Circus.

- Mas ela não vai me atender, ela não sabe quem eu sou.

- É mais fácil você conseguir falar com ela, provavelmente ela continua querendo se manter longe do meu nome, não posso procurá-la.

- E você acha que ela vai revelar a localização assim, sem problemas? Ela não vai querer se envolver nisso, vai fazer de conta que não sabe do que estou falando e me expulsar.

- Sam, preciso que você tente, posso contar com você? – Theo pedia com um quase desespero, queria poder resgatar as suas colegas o quanto antes.

- Pode, prometo que vou ligar amanhã cedo e tentar agendar uma visita à senadora abusadora de garotas traficadas.

- E promete que não vai bater nela? Não quero ter que te visitar numa prisão.

Sam suspirou fundo.

- Prometo também, mas direi alguns desaforos.

- Eu não guardo mágoa dela, Michelle era um alento para mim.

- Ela é uma criminosa, eu estou com vontade de apertar o pescoço dessa loira na tela.

- Segure seu ímpeto quando encontrá-la, por favor.

Na manhã seguinte, Sam foi para o escritório no segundo piso depois que Theo subiu para a fisioterapia. Depois de sua ligação ser encaminhada para três pessoas, finalmente falava agora com a assessora particular da senadora.

- Até que enfim alguém que pode resolver algo. – Sam bufou.

- O que a senhora deseja?

- Um horário com Michelle, de preferência ainda hoje.

- Eu sinto muito, ela está em viagem.

- Quando ela volta? Você tem como me passar a ID dela?

- Ela está na Zona Morta e só deve retornar mês que vem, e não tenho autorização para repassar sua ID.

- É um caso urgente e especial, por favor, fale com ela, eu preciso conversar por um minuto apenas, eu sei que ela vai se interessar pelo assunto.

- E qual seria o assunto?

- Theo.

- Theo? – Fibi perguntou surpresa.

- Sim, eu sou amiga dela, e preciso falar com Michelle sobre algo relacionado a Theo.

Silêncio.

- Só posso prometer que tentarei contato e repassarei sua urgência, ela irá responder todas as requisições de visita ainda esse mês.

- Eu vou te ligar de novo amanhã.

- Já tenho sua ID, entrarei em contato quando conseguir agendar seu horário.

A ligação se finalizou, e três minutos depois Sam recebeu uma ligação do gabinete.

- Eu consegui agendar uma visita para hoje à tarde, as duas horas, pode ser? – Fibi disse.

- Aqui em San Paolo?

- Sim, em seu gabinete, passarei o endereço a seguir.

 

 

Transfobia: s.f.: discriminação relativa às pessoas transexuais e transgêneros.

Capitulo 21 - Subjugar por Cristiane Schwinden
Capítulo 21 – Subjugar

 

Sam entrou com passos curiosos no gabinete pomposo da senadora, e logo encontrou duas mulheres atrás de mesas de vidro.

- Você é a Samantha? – Uma jovem de cabelos negros logo saiu detrás de sua mesa, cumprimentando Sam.

- Sim, desculpe, cheguei um pouco mais cedo. – Sam a cumprimentou e sentou-se na poltrona atrás de si.

- Tudo bem, a senhora Martin lhe aguarda, por favor me acompanhe.

Sam entrou na sala de Michelle com olhares curiosos, até avistar a loira de roupas bem alinhadas atrás de uma larga mesa, já se levantando. Seu sangue ferveu.

- Boa tarde, Samantha, como vai? – Michele lhe cumprimentou com um aperto firme.

- Bem, e pode me chamar de Sam.

- Sente-se.

- Então você é senadora? Quem diria. – Sam voltou a olhar ao redor, se dando conta do luxo da sala.

- Sim, e você não é daqui, tem sotaque europeu.

- Eu era primeira tenente no exército europeu.

- E o que faz na Nova Capital?

- Não lhe interessa, eu vim conversar sobre outra coisa e não pretendo me demorar, então quero ir direto ao assunto.

- Theo.

- Sim, tem a ver com ela e com suas visitas ilícitas a ela.

- E você realmente é amiga de Theo? Ou é apenas alguém querendo tirar proveito da situação?

Sam a fitou com revolta, estava fazendo um grande esforço para não voar para cima da senadora.

- Proveito? Proveito de que? Sua... Sua...

- Você veio me chantagear? Você trabalhou com ela? – Michelle perguntou com certo nervosismo.

- Por causa das suas visitas ao Circus? Não, esse assunto está muito bem guardando entre nós, não pretendo contar seu passado escuso a ninguém.

- Theo é uma boa menina, ela não me chantagearia, se você realmente é amiga dela, espero que não tenha vindo aqui tentar arrancar dinheiro pelo seu silêncio.

- Você se importa com ela?

- Sim, Theo significou muito para mim.

- Não significa mais?

- Do que adiantaria? Ela não pode responder por si, está inconsciente.

Sam franziu as sobrancelhas.

- Inconsciente?

- Por causa do tiro, ouvi falar que ela nunca vai acordar.

- Ela está acordada há muito tempo, achei que você soubesse pela imprensa.

Os olhos de Michelle brilharam, seu semblante agora iluminara.

- Theo está consciente? Ela está bem?

- Está bem dentro do possível para uma pessoa que levou um tiro na têmpora.

- Meu Deus... Eu não fazia ideia. – Michelle balançou a cabeça baixa. – Ela perdeu a memória?

- Nadinha, ela lembra de você, reconheceu sua voz na tela, inclusive.

- Lembra? – Michelle não conseguiu segurar um sorrisinho.

- Infelizmente ela não esqueceu aqueles dois anos de abuso, nem as pessoas doentes que a abusavam, pessoas que poderiam ter acabado com o sofrimento dela, ou ajudado a fugir, mas que nunca fizeram nada, apenas descartavam depois de uma noite a usando um objeto.

- Você veio aqui me dar sermão? – Michelle disse com desconforto.

- Não, espero que sua consciência lhe atormente por si só. Eu vim buscar a localização do Circus.

- Está fazendo alguma investigação sobre o passado de Theo?

- Nós queremos resgatar as garotas que ainda estão lá sofrendo nas mãos daqueles pervertidos. – Sam disse duramente, estava sentada de forma rígida e na defensiva.

- Nós quem?

- Eu e Theo.

Michelle nada respondeu, apenas a fitou analiticamente. Saiu de sua cadeira, andou lentamente até à frente da mesa, sentando ali com as pernas cruzadas, e voltou a encarar Sam.

- Eu quero vê-la. – Michelle disse, de forma firme.

- Isso não está em negociação.

- Eu não posso me envolver em nenhum escândalo, eu tenho uma carreira política longa e impecável, meu nome não pode aparecer ligado ao Circus de forma alguma.

- Eu prometo que esse segredo estará bem guardado, eu só quero a localização, mais nada, seu santo nome estará a salvo.

Michelle lançou o olhar para baixo, pensativa.

- Como você fará isso? Elias protege aquele lugar com forte segurança, você precisará de um exército para retirar todas as meninas de lá.

- Eu cuidarei disso pessoalmente, mas irei formar uma equipe, será bem planejado. Por favor, me dê a localização, eu já varri aquela cidade e não encontrei nada, cada dia que passa, é mais um dia de pesadelo para as amigas de Theo.

- Eu posso fornecer alguns homens de confiança, além da localização. O que acha?

Em troca de uma visita a Theo? – Sam disse com um sorrisinho, percebia que Michelle continuava negociando.

- Eu não me demoraria, nem tocaria no assunto do passado no Circus, só quero vê-la novamente.

- Agora você se importa? Por que não se importou antes?

- Eu errei, eu sinto um grande remorso por ter decidido ajudá-la tarde demais, e apesar de você não acreditar, eu sempre me importei com ela, a tratava com respeito, nunca a forcei a nada, ela sempre me...

Sam sentiu o estômago embrulhando.

- Me poupe dos detalhes. – Sam ergueu a mão, a interrompendo. – Eu só posso lhe prometer que falarei com ela, se Theo aceitar te receber, eu não irei me opor.

- Está com seu comunicador? – Michelle saiu da mesa, ficando ao lado, tocando no tampo, digitando algumas informações.

- Aqui.

- Michelle correu dois dedos na mesa, na direção de Sam, jogando a localização para o comunicador dela.

- Negarei até a morte que te repassei essa informação. – A senadora disse, voltando a sentar em sua grande cadeira.

- Precisarei de pelo menos cinco pessoas para me ajudar, para a semana que vem.

- Disponibilizarei quantos você quiser. Theo está em San Paolo? Está em algum hospital da cidade?

- Está em casa.

- Na mansão de Benjamin Archer?

- Agora é a mansão de Theodora Archer.

- Você mora lá?

- Moro. Michelle, agradeço a informação, ainda hoje eu lhe respondo sobre seu pedido. – Sam fez menção de levantar.

- Pelo visto você está fazendo bom proveito com o coração que consegui para você. – Michelle espojou-se em sua cadeira, Sam interrompeu o movimento, voltando a se sentar.

- Sua organização, a ONG Martin.

- Eu tive acesso à carta de despedida de Theo, no dia em que ela atirou contra a própria cabeça. Movi meus pauzinhos para colocar você no topo da fila, na verdade tive que mover meio mundo para conseguir isso em tempo hábil.

- Então você já sabia quem eu era, quando entrei em sua sala hoje.

- Sabia, mas como lhe falei, acreditava que Theo estava até agora em estado vegetativo, por isso eu não fazia ideia de quais eram suas reais intenções.

Sam deu um rápido sorriso confuso, antes de indagá-la.

- Como uma pessoa que ajuda refugiados de guerra, que me ajudou a conseguir um coração, pode ser tão omissa com o sofrimento de garotas escravizadas?

- Sam... Eu sei que nada justifica, e que sim, tem uma boa dose de covardia da minha parte nessa história, eu tinha um marido também senador, uma ONG que dividíamos, uma carreira, tudo isso atava minhas mãos. Quer ouvir como começou?

- Seja breve.

- Eu não sabia que o Circus era assim, eu e mais quatro amigas escolhemos um bordel aleatório para a despedida de solteira de uma delas, eu achava que todas as mulheres que estavam ali eram simples prostitutas, que estavam trabalhando por vontade própria. Nessa noite eu não descobri a verdade, apenas me diverti com minhas amigas e Theo. Eu notei que ela era tímida demais para uma profissional do sexo, mas achei que era parte da personalidade dela, não me dei conta de nada.

- Ela não era uma profissional do sexo, ela estava sendo abusada. – Sam a interrompeu rispidamente.

- Eu sei, eu sei que não, mas só descobri isso na minha segunda vez no Circus. Eu... Eu não sei explicar o que aconteceu naquela primeira noite, mas eu gostei mais do que deveria de fazer sexo com ela, não só pelo sexo, mas pela noite em si, eu não parava de pensar nela depois daquela noite. Marquei para alguns dias depois uma noite apenas para mim, queria ficar a sós com ela, e foi uma noite incrível. Antes de ir embora, Theo me contou que estava presa ali, e que queria fugir, eu... – A voz de Michelle embargou. – Eu fui insensível, eu admito. Bom... Eu não dei a importância que deveria ter dado, achei que as coisas não eram tão ruins assim. E pedi que ela não tocasse mais nesse assunto.

Sam desistiu de recriminá-la, apenas permaneceu em silêncio, com um grande nó na garganta.

- E ela nunca mais tocou no assunto. – Michelle finalizou, enxugando rapidamente uma lágrima.

- E quando resolveu fazer algo, ela já havia fugido?

- Na verdade me disseram que ela havia morrido, no comecinho do ano. Três semanas depois meu marido faleceu, foi um janeiro horrível.

Sam tamborilou os dedos sobre seu jeans, pensativa.

 - Sábado à tarde.

- O que?

- Theo não tem nenhuma terapia sábado à tarde, é o dia mais tranquilo para ela, apareça na nossa casa.

- Sábado está ótimo. – Michelle respondeu com um sorriso.

- Não prometo que ela lhe receberá, mas conversarei com ela.

- Tudo bem, estarei lá. Ela está se alimentando? Posso levar algo, um chocolate?

- Não, nada de chocolate. Nem seus outros presentes, Theo não pode usar drogas nem ler.

- Ela não pode ler?

- A cegaram no Circus, você não fez nenhum programa depois disso?

- Não, eu... Meu Deus, a cegaram? Acho que a última vez que a vi foi no início de dezembro, deve ter sido depois.

- Ok, agora você já sabe de mais uma atrocidade que poderia ter evitado.

- Não precisa insistir, já me culpo o suficiente.

Sam levantou, e lhe estendeu a mão.

- Obrigada pelo endereço e pelo coração, estamos fazendo ótimo uso dele.

- Até sábado.

***

- John, vá brincar lá fora, preciso conversar com Maritza. – Sam entrou no quarto de Maritza ainda naquele dia, à noite.

- Odeio quando me trata como criança... – John resmungou baixinho ao passar por Sam, dando um soquinho em seu ombro.

Sam segurou seu pulso, girou seu braço, e o derrubou no chão, lhe aplicando uma gravata.

- Não me mate!

- Quem é o pirralho? – Sam perguntou, ainda o segurando com força contra o chão.

- Você!

- Quem é o pirralho? – Sam apertou ainda mais.

- Eu! Eu sou o pirralho!

- Ótimo. – E o soltou, rindo.

- Brutamontes!

- Vá logo, bebê chorão.

Sam sentou numa cadeira no canto do quarto, fitando Maritza que estava sentada na cama, emudecida e um tanto arregalada.

- Não precisava disso. – Maritza por fim disse.

- Foi para matar a saudade dos velhos tempos, quando eu importunava ele.

- Ok, você pareceu ter algum assunto sério para tratar.

- E tenho. – Sam ajeitou-se na cadeira, inclinando para frente. – Eu preciso de sua ajuda, é um bom momento para você retribuir o favor que lhe fizemos.

- Eu disse que faço qualquer coisa em agradecimento, você sabe que pode contar comigo.

- Preciso de pessoas de confiança para explodir um cativeiro na Zona Morta.

- O Circus? Você conseguiu a localização?

- Consegui hoje, quero resgatar as meninas na semana que vem, mas preciso de apoio profissional, sei que você tem condições de me ajudar. Topa?

- Me deixe liderar isso, por favor. – Os olhos dela brilhavam.

- Ritz, não podemos falhar, tem vidas em jogo.

- Pela primeira vez na minha vida poderei fazer algo de bom para a humanidade, já que no exército nunca pude fazer nada.

- Ok, soldado, passaremos os próximos dias planejando, a senadora vai arranjar mais algumas pessoas para nos acompanhar. George, nosso segurança mais próximo também vai. Depois que resgatarmos as garotas, vamos trazê-las de volta e colocá-las num primeiro momento no abrigo da ONG da Archer, que acabamos de reinaugurar.

- Eu estive conversando com algumas pessoas na Archer, naqueles dias que você me levou lá, e eu quero participar do instituto, será que permitiriam?

Sam sorriu, satisfeita.

- Sim, e acho que lhe fará muito bem.

***

- Que horas Michelle vem? – Theo perguntou com a voz fraca, estava deitada em sua cama, era quase meio-dia de sábado.

- Não sei, daqui a pouco talvez. – Sam estava sentada na cama, ao seu lado, acariciando seus cabelos. – Hoje é um dos seus dias ruins, acho que deveríamos remarcar a visita dela.

- É, tenho meus dias bons, e meus dias nem tão bons... Hoje não estou me sentindo bem, meu cérebro parece querer desligar, estou com falta de ar.

- Eu vou ligar para a assessora dela.

- Não, deixe ela vir, eu tenho condições de recebê-la, Meg já vai trazer o oxigênio.

- Ok, mas se você sentir algum mal-estar, ou se quiser se livrar dela, basta gesticular que a tiro dessa casa, minha vontade de voar no pescoço dela ainda não passou.

Duas horas depois, Michelle, sua assessora, e três seguranças, adentraram a sala da mansão, Marcy avisou Sam.

- Ela está lá embaixo, onde quer recebê-la? – Sam perguntou a Theo.

- Não quero ir para a cadeira, posso ficar aqui na cama?

Sam a fitou indecisa, sentou ao seu lado, dando um beijo em sua fonte.

- Eu vou dizer que você não está bem, e pedir que volte semana que vem.

- Mande subir.

Sam desceu para a sala, reencontrando a senadora, que hoje parecia mais à vontade, porém um tanto tensa.

- Boa tarde, Sam, é um prazer vê-la novamente. – Michelle estendeu a mão.

- Poupe sua simpatia para os eleitores. Só você vai subir, sua comitiva vai ficar aqui embaixo. E antes de entrar no quarto, eu quero conversar com você a sós, me acompanhe.

Entraram no quarto UTI, do térreo, onde Meg preparava medicamentos.

- Meg, pode os dar licença um minuto?

- Claro, estarei de prontidão no quarto ao lado.

Assim que Meg deixou o quarto, Sam começou a falar de forma dura com Michelle.

- Está vendo esse quarto? É uma UTI domiciliar.

- Theo está aqui? – Michelle olhava para todos os lados.

- Não, não mais, ela já dorme em nosso quarto, lá em cima, mas ela viveu aqui por dois meses, mais dois no hospital, esse agora é o quarto diurno dela, ou quando ela não está bem, como hoje.

- O que aconteceu hoje?

- Nada específico, ela tem dias bons e dias ruins, hoje é um péssimo dia para perturbá-la, mas ela insistiu em te receber mesmo assim. – Sam se aproximou de forma intimidadora. – Não toque no assunto Circus com ela, entendeu?

- Não, eu não tocarei. – A altiva senadora parecia intimidada.

- Aqui não é aquele prostíbulo, você não é cliente dela, então a respeite, a trate com decência, não flerte, não seja obscena, não a deixe desconfortável. Se eu perceber que ela não está à vontade, ou que não está se sentindo bem, arrancarei você do quarto.

Michelle balançou a cabeça com um sorrisinho.

- Você é a guardiã legal dela, certo?

- Por enquanto.

- E está levando isso a sério.

- Eu me importo com ela.

- Vocês namoram, não é?

- Sim.

- Sam, não vou negar que a invejo, que gostaria de estar no seu lugar. No segundo dia do ano, eu tomei finalmente a decisão de tirá-la de lá, meu objetivo era de trazê-la para San Paolo, dar um lugar para ela morar e recomeçar a vida, e se possível, ter um relacionamento. Eu já estava em vias de divórcio e não teria receio em me comprometer com outra pessoa. Não sei quando nem como você surgiu na vida dela, a única coisa que sei é que ela atentou contra a própria vida para te salvar, o que diz muita coisa. Você é o que Theo precisava naquele momento, e eu sei qual meu lugar agora, ficarei feliz em ser um apoio, uma amiga.

- Se ela permitir, se sua presença for algo positivo, tudo bem.

- A situação é outra agora, você precisa entender.

- Eu não tenho a benevolência de Theo, eu nunca vou entender por que você não a ajudou, nem tenho a menor vontade de ver você novamente nessa casa, mas Theo tem autonomia suficiente para tomar decisões.

- Enfim, posso vê-la? – Michele uniu as mãos.

- Venha. Espere. – Sam a segurou pelo ombro. – Ela tem lapsos de memória, esquece o que estava falando, onde está, acontecimentos passados, então seja paciente e delicada. E também está com dificuldades para respirar, então não a faça falar muito.

- Algo mais?

- Seja gentil.

Ao entrar no quarto, acompanhada de Sam, Michelle abriu lentamente um sorriso, e se aproximou devagar.

- Michelle? – Theo percebeu a presença, erguendo-se na cama, sentando recostada em uma pilha de travesseiros.

- Oi, garota. – Hesitou em continuar. – Posso? – Pediu permissão para Sam, para se aproximar.

- Pode sim.

Michelle se aproximou da cama e a abraçou, a pegando de surpresa.

- Como é bom vê-la novamente. – Sentou-se ao seu lado, na cama.

- É bom ouvi-la novamente. – Theo brincou.

- Não mudei muito.

- Mudou.

- Por que acha que mudei?

- Você não me chamou de coloridinha.

Michelle riu.

- Eu não sabia se podia.

- Pode sim, eu achava engraçado.

- Por falar em coloridinha, já fez aquela tatuagem nas costas que você estava planejando?

- Não tive oportunidade ainda, e também agora fica mais difícil escolher e definir o desenho, quem sabe eu faça em braile.

Michelle pousou sua mão por cima da mão de Theo, a fitando om um olhar tenro.

- Senti falta de nossas conversas espirituosas.

- Mas fiz essa. – Theo estendeu o pulso esquerdo, onde era possível ver a lemniscata, a amputação havia sido rente à tatuagem.

- Um símbolo do infinito. – Michelle sorriu. – Minha filha tem um no tornozelo, fez em homenagem ao pai. A sua tem algum significado específico?

- Não, fiz para combinar com a pulseira.

- É mesmo?

- Não, olhe para trás, me descreva a expressão que Sam está fazendo.

- Parece assustada. – Michelle disse.

- Eu vou tomar a pulseira de volta. – Sam brincou, estava sentada no sofá, acompanhando a conversa.

- Você já tem uma, oficial. – Theo respondeu.

- Como uma soldado europeia entrou na sua vida? – Michelle perguntou.

- Ela me achou na noite em que fugi, se não fosse por ela você estaria me visitando em outro lugar agora.

- Eu achei que nunca mais veria você, primeiro me disseram que você havia morrido, depois que estava viva, mas em coma.

- Você não sabia que eu estava acordada?

- Não, eu não sabia.

- Eu te contei isso, mas você deve ter esquecido. – Sam informou.

- É provável. A informação que você é senadora, é verdade? Ou meu cérebro falho inventou?

- É verdade, estou no meu segundo mandato, desculpe por não ter contado antes, bom... Na verdade eu preciso me desculpar por uma série de coisas.

- Do que?

- Tudo o que eu não fiz. – Michelle segurou ainda mais firme sua mão. – Escute, você e Sam terem permitido que eu viesse até aqui foi um gesto nobre, eu agradeço a oportunidade de conversar e pedir desculpas pessoalmente.

- Você tinha condições de me ajudar a fugir de lá, você é uma pessoa influente, teria os recursos para isso.

- Eu sei, foi um misto de egoísmo e covardia, mas uma pequena mancha na vida política pode significar o fim antecipado da carreira, eu tinha medo de acabar com tudo que eu e meu marido conquistamos. – Michelle falava num tom culpado. – Só me resta agora pedir seu perdão e deixar você seguir sua vida em paz, lhe desejando o melhor.

- Mas eu não quero lembrar do que você poderia ter feito, prefiro guardar apenas o lado bom das suas visitas.

- Theo, você não precisa falar sobre isso. – Sam interrompeu.

- Eu não me importo de falar sobre essas partes, eram poucos os bons momentos no Circus, e abrir a porta do quarto e encontrar Michelle era muito bom. – Theo deu um sorrisinho torto.

- Espero que não apenas pelos presentes. – Michelle brincou.

- Você era minha noite de folga, e você não faz ideia do valor de uma noite de folga naquele lugar, eu conseguia até dormir.

- Eu gostava de ver você dormindo.

Sam tossiu alto, de propósito.

- E você me acordava de uma forma um tanto inusitada. – Ambas riram.

- É, digamos que sim.

- Mas vamos mudar de assunto porque não quero que a tosse de Sam piore. – Theo riu.

- Eu vou deixar vocês à vontade. – Sam disse, levantando do sofá.

- Não precisa, amor, fique.

- Eu vou lá embaixo pedir para Marcy trazer algo para vocês comerem, depois ficarei por perto, se precisar você me chama.

- Venha cá.

- Sim?

- Tire um cochilo, eu te perturbei a noite inteira. – Theo estendeu o braço, a procurando, mas Sam não se aproximou.

- Não, prefiro ficar acordada. – Falou rispidamente.

- Não pretendo me demorar. – Michelle disse.

- Ótimo. – Sam disse, e saiu, as deixando a sós.

Michelle saiu de cima da cama, e sentou na cadeira ao lado.

- Acho que Sam não gostou da brincadeira. – Theo voltou a falar.

- Ela é jovem, ainda aprenderá a lidar com ciúmes.

- Sam não é ciumenta, mas ainda está zangada por você não ter me ajudado.

- Theo, eu tenho o dobro da sua idade, eu reconheço muito bem ciúmes, não é só birra dela, acredite.

- Bom, então ela vai aprender a lidar, como você disse. Eu já tenho problemas demais para vencer, não preciso disso na minha vida.

- Sam é uma garotinha brava.

- Não acho, ela pareceu brava para você? – Theo perguntou com um sorrisinho curioso.

- Parecia um leãozinho te defendendo.

Theo riu.

- Sam está endurecendo, isso é bom.

- Bom?

- É bom que ela endureça, ela não estava preparada para o mundo aqui fora, a família e a igreja a imbecilizaram, o exército a ensinou a cumprir ordens sem questionar, o namorado a tratava como um objeto burro e sem valor, finalmente ela está começando a tomar decisões e andar com as próprias pernas, mas será um caminho longo, ela foi muito subjugada durante toda a vida.

- Então talvez seja bom que ela sinta um pouco de ciúmes agora, deve ser um sentimento novo, provavelmente ela nunca teve o direito de sentir ciúmes.

Theo balançou a cabeça, concordando.

- É verdade, eu não tinha enxergado por esse lado. Sam nunca deve ter sentido ciúmes antes.

- Basta cuidar para que não tome proporções maiores.

- Acho que meu leãozinho não volta tão cedo.

- Ela vai ficar bem.

- Ok, chega de falar de meus dramas. – Theo ajeitou-se nos travesseiros atrás de si. – Como estão seus filhotes? Richard já escolheu o que vai cursar? Ele estava entre direito e psicologia, não era?

- Escolheu filosofia, mas já fala em trocar para medicina.

A conversa estendeu-se até a noite, quando Meg veio ao quarto dar algumas medicações.

- Sam está no escritório? – Theo perguntou.

- Ela saiu à tardinha.

- Disse onde ia?

- Não.

 

 

Subjugar: vtd: submeter-se por obediência; sujeitar; refrear; reprimir ou reprimir-se; conter algo, alguém ou si mesmo. Controlar sentimentos, desejos ou vontades.

Capitulo 22 - Destinesia por Cristiane Schwinden
Capítulo 22 – Destinesia

 

- Meg, importa de fazer companhia para Theo? Eu perdi a noção de tempo, já anoiteceu, preciso ir. – Michelle, disse já de pé.

- Por que não fica para o jantar? – Theo convidou, estava deitada com certo cansaço.

- Aprecio o convite, mas já extrapolei em muito minha hora, e você parece exausta.

- Minha energia acaba rapidinho.

- Obrigada por me receber, nada mudou, eu continuo esquecendo do mundo quando estou ao seu lado, sua companhia sempre me faz bem.

- Terei sua companhia novamente? – Theo perguntou.

- Você gostaria?

- Sim, eu gosto de conversar com você, e da próxima vez te receberei num lugar melhor do que na cama do quarto.

- Se você tiver condições, pode me visitar também, não moro longe daqui.

- Você deve ter uma agenda bem cheia, senadora.

- Tenho, mas sempre terei espaço reservado para você, perdi você uma vez, não quero perder de novo.

- Então nos veremos em breve. – Theo estendeu os braços, a convidando para um abraço, que foi atendido demoradamente.

- Cuide-se, quero te ver ainda melhor da próxima vez.

- Quem sabe de pé.

- Você pode contar comigo para qualquer coisa, ok?

- Preciso que você ajude Sam com a invasão ao Circus.

- Eu ajudarei, prometo.

- Meg, você pode acompanhá-la?

Dois minutos depois, Meg retornou ao quarto, mas Theo a dispensou, preferindo ficar sozinha, e acabou adormecendo.

Acordou pouco depois, com um ruído no quarto, estava assustada e sentou-se rapidamente. Mexia a cabeça de um lado para outro, tentando enxergar.

- Marli?

- Não, sou eu. – Sam respondeu.

Theo correu a mão pela cama.

- Eu não estou na cama, estou na poltrona.

- Que cama? Estou na minha cama? – Theo franzia a testa em confusão, parecia totalmente perdida.

- Está sim.

- Michelle já foi... Eu desci?

- Ela já foi. Desceu de onde?

- Que quarto é esse? Eu já deveria ter descido, Marli vai me matar. – Theo saiu abruptamente da cama, caindo de joelhos.

- Hey, hey, você não vai a lugar algum. – Sam a amparou, e a colocou de volta na cama.

- Sam? – Theo perguntou ainda confusa.

- Sim, sou eu.

- Sam? A minha Sam?

- Sua Sam.

- Graças a Deus... – Theo a agarrou, a prendendo num abraço.

- Está tudo bem, você está na sua casa, na sua cama. – Sam sentou ao seu lado, afagando seu rosto.

- Fica um pouco.

- Fico sim. Achou que tinha acordado no Circus? – Sam perguntou, depois que Theo a soltou.

- Isso sempre acontece... – Theo suspirou tristemente, cobrindo os olhos com as mãos espalmadas.

- Você está bem?

- Ainda não. Posso deitar em você?

Sam a ajeitou em seu peito, lhe afagando carinhosamente.

- Mas Michelle esteve aqui hoje, ou sonhei?

- Esteve sim, a tarde inteira, e parte da noite também, parecia que nunca ia embora.

- Onde você estava?

- Aqui.

- Meg disse que você saiu à tarde.

- Fui resolver algumas coisas.

- Que coisas?

- Não banque a curiosa.

Silêncio.

- Quem é Marli? – Sam perguntou.

- A gerente do Circus. Por que?

- Você me chamou de Marli quando acordou.

- Ela nos acordava todos os dias, e achei que havia acordado lá, desculpe, eu acordei confusa.

- Era a mulher que cuidava de vocês? – Sam perguntou de mansinho, continuava afagando os cabelos de sua namorada na penumbra do quarto.

- Cuidava? – Theo deu um riso fungado. – Ela era nossa carrasca particular, a pessoa que estava lá para garantir que nossa vida fosse um inferno, ela conseguia piorar ainda mais nossos dias.

- O que ela fazia? Obedecia as ordens de Elias?

- É, era uma aprendiz de Elias. Marli parecia sentir prazer em nos ver mal, em nos privar das coisas, ela sentia um ódio gratuito de nós, acho que desejava nossa morte.

- Mas você a venceu, está viva e longe daquele lugar.

- Apenas eu. Tem umas doze lá ainda trabalhando, tomando surras no quarto branco, passando frio e fome, elas continuam no inferno enquanto eu estou no paraíso.

- Isso vai acabar semana que vem.

Theo ficou um instante pensativa.

- Quinta-feira, vocês devem ir na quinta, é o dia de folga de Marli.

- Mas você não gostaria que pegássemos Marli também? Fazer algo com ela?

- Ah, eu adoraria colocar minhas próprias nessa mulher, bater o suficiente para que ela possa sentir a dor de ter costelas perfurando o pulmão, deixá-la se retorcendo numa cama dura por dois dias cuspindo sangue de minuto em minuto enquanto tenta respirar, e depois obrigá-la a fazer sexo, nessas condições. – Theo falava com raiva, parou quando percebeu que estava falando mais do que o de costume sobre suas experiências no Circus, alterou o tom da voz após a rápida pausa, e voltou a falar. - É melhor na folga dela porque os seguranças assumem suas funções, deixando alguns postos de vigilância desprotegidos.

- Ok. – Sam voltou a afagar seus cabelos, silenciosamente. – É por isso que você tem problemas respiratórios, não é?

- É sim.

- Eu gostaria de poder ter uma conversinha a sós com essa Marli, mas você tem razão, quanto mais fraca a vigilância, melhor. Vou voltar meus esforços para capturar Elias, e dar a ele tudo que merece.

- O que você vai fazer com ele?

- Tenho algumas coisinhas em mente, mas prefiro não falar agora.

Silêncio.

- Vai matá-lo?

- Também.

***

O dia seguinte foi um típico domingo na piscina, Theo sentia-se melhor e estava radiante por conseguir andar sozinha dentro da água.

Além dos moradores da mansão, Letícia, Daniela, Claire e os filhos de doze e quinze anos de Meg também se divertiam. Sam e Claire não entraram na piscina, passaram boa parte da tarde bebendo drinques coloridos, e conversando nas espreguiçadeiras, principalmente sobre a Archer.

Sam havia abandonado o posto de mera observadora do grande grupo de biotecnologia, já fazia parte das reuniões do conselho de forma ativa, e passava as tardes no escritório de Claire trabalhando em conjunto com a conselheira minoritária, inclusive tomando decisões de baixo impacto. Alguns meses haviam se passado desde que Theo acordara do coma, e Sam esperava que Theo algum dia demonstrasse curiosidade ou interesse nos negócios da família, mas ela seguia apática com relação a Archer, sem paciência para ouvir as notícias que Sam trazia quase todos os dias do escritório.

Havia um acordo naquele dia ensolarado de descanso e lazer, nada de falar sobre a investida contra o Circus, que aconteceria em quatro dias. No dia seguinte se reuniriam no gabinete de Michelle, para delinear a invasão. O objetivo maior era resgatar as garotas em segurança, mas Sam também tinha uma fome de vingança contra Elias que a motivava ainda mais.

- Vamos lá, Sam! Pule na piscina! – Letícia a puxou pelo braço, sem resultados.

- Hoje não, estou bem aqui, sequinha e sem exibir meus atributos físicos.

- Não seja tímida, mostre sua perna ultra moderna e nos mate de inveja. – Theo juntou-se ao coro, de dentro da água.

- É justamente isso que não quero exibir. – Sam respondeu sem jeito.

- Você deve estar com um biquíni por baixo dessa roupa, vá lá, nos mostre seus atributos físicos. – Claire incentivou.

- Vocês podem por gentileza me deixar quieta aqui? Não tem nada para ver, circulem.

Desistiram de levar Sam para a piscina, e Claire voltou a falar, agora de forma confidente para Sam, ao seu lado.

- Theo não enxerga, mas ele deve ter gostado do que tocou, por isso a curiosidade de todos. – Claire deu um risinho.

- Não tem nada de mais, não acho que Theo tenha se importado com minha aparência.

- Ela viu você com as mãos?

- Basicamente.

- Então temos sorte por enxergar você de verdade, quem sabe um dia ela também tenha essa sorte.

- Eu que tenho sorte em enxergá-la. E em tê-la, tanta gente menos problemática no mundo, e ela me escolheu.

- Theo não vive mais sem você, seu mundo desabaria se ela te perdesse, ela não liga mais para nada, a única coisa que lhe importa é se você está por perto.

- Ela gosta da minha presença, mas não acho que seja de uma forma dependente, ela gosta da sensação de segurança da minha presença, porque não enxerga.

- Você acha que com o tempo ela pode ganhar confiança e se sentir segura sem você? Eu acho que não.

- Eu torço que sim, quero ver Theo cada vez mais independente.

- Eu também. – Claire virou mais um drinque colorido.

Quando o sol caiu, restava apenas o casal real na área da piscina, Sam retornava da porta, onde se despedira dos convidados, e Theo estava sentada na borda da piscina.

- Vamos entrar, pequena sereia? – Sam convidou, vinha a passos lentos em sua direção.

- Mais um mergulho. – Theo disse e pulou na piscina.

- Você realmente estava com saudades da piscina, hein? – Sam a fitava de braços cruzados.

- E saudades de andar, aqui eu posso ir de um lado para o outro.

- Não está cansada?

- Morta. E feliz.

Theo deu alguns passos para trás, recostando-se na parede de quartzo azul da piscina.

- Quer ajuda para sair?

- Quer ajuda para entrar? – Theo brincou.

- Eu não vou entrar.

- Estamos sozinhas, Sam. Venha.

- Não estou com roupas apropriadas.

- Entre de roupas, ou sem.

- Outro dia, prometo.

- Vem.

- Não quero.

- Ninguém vai ver sua perna, eu prometo fechar os olhos.

- Não.

- Vem, eu quero namorar um pouquinho com você.

- Aí dentro? Não, venha comigo, te dou um banho e te coloco na cama, e depois te dou todos os beijos que você quiser, numa cama quentinha e confortável.

- Quem disse que quero conforto? Eu quero você. – Theo disse maliciosamente.

Sam não respondeu, dirigiu-se até o final da piscina, e desceu os degraus metálicos, devagar, ainda vestida com uma calça leve e clara, e uma blusa idem, que se tornavam transparentes à medida que molhavam.

Theo ouviu o leve barulho das águas se movendo e andou na direção do ruído, com a mão estendida à frente.

- Aqui. – Sam tomou sua mão, e lhe roubou um beijo, a pegando de surpresa.

- Não queria entrar e já vem roubando beijo? – Theo disse com falsa revolta.

- Me dê logo meia dúzia de beijos para sairmos dessa piscina. – Sam disse com falsa rispidez.

- De jeito nenhum. – Theo começou a se afastar de costas, seguida por Sam, até tocar as costas na parede.

- Fim de linha, pequena sereia. – Sam a cercou, com os dois braços ao redor de sua cabeça, mãos postas na borda.

Theo estendeu as mãos e tateou Sam.

- Ainda vestida? – Disse e tirou a camisa dela.

- Vai tirar minha calça também?

- Tire você, não tenho fôlego suficiente.

Sam mergulhou para tirar sua calça, Theo aproveitou para sair de seu domínio, nadando devagar na direção da outra borda. Sam a alcançou rapidamente, a puxando pela cintura.

- É melhor não resistir, assim ninguém se machuca. – Sam brincou.

- Amor, não diga essas coisas. – Theo falou de forma séria, um gatilho havia se disparado.

Sam levou dois segundos para entender a situação, a fitando confusa.

- Ah, claro, desculpe. – A soltou.

Theo colocou as mãos espalmadas no ombro de Sam, a empurrando na direção da borda, a emparedando.

- Agora é você que está sob meu domínio, oficial.

- E o que pretende fazer? Me dar um caldo?

- Não, algo pior. – Estendeu a mão, pousando em seus lábios, e a beijou de forma intensa em seguida.

Sam aumentava a lascividade do beijo, mas mantinha os braços entrelaçando o pescoço de sua namorada, de forma respeitosa.

- Tire meu biquíni. – Theo pediu, sua respiração estava intensa.

- Tudo?

- Tudo.

Sam desatou o nó em suas costas, soltando a parte de cima do biquíni, o atirando para fora. Os seios nus foram um convite informal para que Sam os tivesse em sua boca e mãos, para deleite de Theo. Pouco tempo depois Sam subiu para um beijo com gosto de piscina.

- Tudo. – Theo a relembrou, Sam o fez sem hesitar.

Sam voltou a subir, recostando os lábios na orelha molhada de Theo, e com as mãos abertas e firmes em seus glúteos.

- Como veio ao mundo. – Sam murmurou num tom desejoso, voltando a eriçar todos os poros de Theo, como há muito não acontecia.

- E você?

- Veja com suas próprias mãos. – Sam afastou-se o suficiente para que Theo a tocasse, que abriu um sorrisinho malicioso ao abarcar suas mãos nos seios dela.

A água dissolvera mais que reservas, desmanchara sólidos bloqueios, como um torrão de açúcar submergido.

Algum tempo depois, Theo jazia em êxtase com seus braços coloridos ao redor do pescoço de uma Sam aliviada, seus dedos a abandonaram, arrancando o derradeiro suspiro de Theo.

- Vamos sair da água? – Theo convidou, ainda retomando o ritmo correto de sua respiração.

- Uhum, vou buscar seu roupão e cadeira.

- Não precisa, eu quero ir para a espreguiçadeira. Com você.

- Descansar?

- Essa é a última coisa que quero fazer agora.

Demorou, mas Sam entendeu as pretensões. A tirou da água e a conduziu para uma larga espreguiçadeira, novamente a tinha sob seus domínios, entre seus joelhos.

- Era isso que você queria? – Sam perguntou após um longo beijo, astutamente Theo roçava seu joelho levemente erguido.

- Não, eu vou deixar as coisas mais claras. – Theo girou para cima de Sam, sem agilidade, os braços fraquejavam o tempo todo, parecia usar sua última fagulha de energia.

- Onde você vai?

- Ainda lembra o caminho?

- Que caminho?

- Da viagem.

Oito minutos depois Theo subiu e largou seu corpo exausto sobre Sam, que ainda vibrava com leves espasmos.

- Sim, lembro muito bem dessa viagem. – Sam brincou, mas sem resposta.

Deu uma olhadela com atenção em Theo, que parecia dormir, com a boca entreaberta sobre seu peito.

- Theo? Você dormiu? Theo? – Sacudiu seu ombro.

Sem resposta, Sam olhou para os lados, verificando se realmente estavam totalmente sozinhas.

- Vamos lá, Theo, não é hora nem local para dormir.

E nada aconteceu.

- Ok, vamos dar um jeito. – Sam a largou na espreguiçadeira e juntou dois roupões que estavam atirados sobre as cadeiras. Enquanto a erguia e a vestia, ela acordou.

- O que aconteceu? – Theo perguntou sonolenta.

- Você apagou.

- Estou nua? – Tateou seu próprio peito.

- Estou te vestindo para subirmos.

- Subirmos?

- Para nosso quarto. – Sam terminava de vesti-la.

- Ah, estamos na piscina. – Se dava conta.

- Sim. Venha, a cadeira está aqui do lado.

Sam ajudou a erguê-la e sentar na cadeira, Theo parecia esgotada fisicamente.

- Você já tinha feito amor ao ar livre? – Theo perguntou com um sorrisinho sacana.

- Não. – Sam respondeu timidamente. – Feche seu roupão.

Atravessavam a sala quando foram interceptadas por Meg.

- Até agora brincando na piscina? Haja energia.

- Mas agora a minha bateria acabou. – Theo respondeu sorridente.

- E você cedeu aos apelos e entrou também? Que pena que não vi essa cena. – Meg se dirigiu a Sam.

- Entrei um pouquinho. – Sam respondeu, tentando se livrar logo da enfermeira.

- Para tirar Theo da água?

- Não.

- Ah, que inocência a minha. – Meg deu um risinho. - Bom, precisam de algo? Algum remédio?

- Não, não, vamos tomar um banho e jantar.

- Boa noite, Meg. – Theo despediu-se, e a dupla entrou no elevador.

- O que acabou de acontecer? Não entendi. – Theo perguntou, confusa.

- Ela viu seu roupão aberto.

- E o que tem?

- Você está sem biquíni, ela deduziu o que fizemos.

- Ah. – Theo riu. – Nunca gostei de roupões por causa disso.

***

Na segunda-feira houve uma reunião no gabinete de Michelle que ocupou toda a tarde e parte da noite. Sam, Maritza, dois soldados amigos de quartel da Zona Morta, três seguranças cedidos pela senadora, e George, um segurança particular de Theo, esta era a equipe que tentaria acabar com aquela casa de exploração do sofrimento alheio, uma de tantas, mas tão significativa para os envolvidos.

Voaram para Winnipeg na quarta-feira pela manhã, se estabelecendo num hotel de luxo moderado, onde outros quartos haviam sido reservados para receber as reféns.

À noite, após uma última reunião no quarto, Sam ligou para Theo ao ficar sozinha em seus aposentos.

- Encontramos o Circus, Michelle confirmou, enviei imagens a ela. – Sam disse contente.

- Como parece?

- Parece um prédio comercial velho, cinza e abandonado, no final de um labirinto de ruelas. Sabe o quanto você correu naquela noite? Seis quilômetros, no mínimo.

- Eu não fazia ideia.

- Não, não tinha como você ter alguma ideia.

- Já está tudo acertado? – Theo perguntou com um leve tom apreensivo.

- Sim, tivemos uma última conversa, está tudo bem planejado, não se preocupe, o pelotão é de primeira. – Brincou.

- Apenas se mantenha viva, ok?

- Sexta pela manhã estarei por aí, e com suas amigas.

- Já está tudo certo no abrigo da instituição, dei um pulo lá hoje à tarde.

- Você foi lá sozinha?

- Não, com todas as minhas babás, e Claire, sua babá.

- Claire não é minha babá.

- Ela não sabe disfarçar, toca no seu nome de cinco em cinco minutos.

- É por causa da Archer, ela é viciada em trabalho.

- Tudo bem, não é sua culpa esse seu charme europeu borg, eu sei que é irresistível, eu também não resisti, na primeira grosseria me apaixonei.

- Achei que tinha sido amor à primeira vista. – Sam debochou.

- Viu? Esse é seu charme, me apaixonei de novo.

- Vá dormir, pirralha.

- Eu sou mais velha que você.

- Não é não, já esqueceu?

- Eu sou seis meses mais velha que você.

- Não, você é quase um ano mais nova do que eu.

- Do que você está falando? – Theo perguntou perdida.

- 980417

- A senha.

- Isso é mais que uma senha, Theo, vamos lá, puxe da memória.

Silêncio.

- Theo?

- Eu havia esquecido essa história da clonagem.

- Imaginei que sim, mas não é algo relevante, não muda nada na sua vida, na verdade você apenas ganhou mais uma data para comemorar o aniversário.

- Depois quero conversar sobre isso com você, mas agora vou apenas desejar que tudo corra bem amanhã, mantenha-se tranquila, e durma cedo.

- Sim, senhorita. Algo mais?

- Que horas vão invadir?

- As sete da manhã, nesse horário a casa está com apenas metade dos seguranças, e as meninas estarão dormindo, melhor todas num cômodo só.

- Pela última vez nesse lugar.

- Logo você poderá matar a saudade e estar com elas.

- Mal posso esperar.

- Saudade de alguma em especial?

- Pauline, quero saber como está essa marrenta.

- Aquela que te tratava mal e era apaixonada por você?

- Ela confundiu algumas coisas, mas se tornou minha melhor amiga depois que Sierra morreu.

- Sua amiga que morreu espancada, não é? Eu adoraria pegar o cara que fez essa crueldade.

- Esqueça isso.

- Ok, vou focar no que vim fazer, não vejo a hora de conversar com Elias, a sós.

- Ele é traiçoeiro, tenha cuidado, certifique-se de que ele não pode lhe fazer mal.

- Estarei alerta como um morcego. – Sam bocejou. - Vamos dormir?

- Irei em breve, vou descer para fazer um pouco de companhia a John, depois vou para o quarto hospital.

- Eu orientei Molly a te dar algo para que você durma melhor.

- Você orientou Molly a me dar um sossega leão, eu recusei.

- É porque você está ansiosa, tome algo.

- Mais tarde tomarei um sossega gatinho, combinado? Não gosto de ser sedada.

- Um sossega gatinha. – Sam riu.

- E você vai tomar o que? Um sossega soldadinho?

- Me respeite, criança.

- Eu poderia ter dito algo mais malcriado.

***

Faltando cinco minutos para as sete da manhã daquela quinta-feira, o esquadrão de oito pessoas observava ao longe os fundos do Circus, um silêncio carregado de apreensão preenchia o cômodo de uma casa parcialmente demolida.

- Alguma última recomendação? – Perguntou um dos homens de Michelle, ao olhar para o relógio.

- Deixem Elias para mim. – Sam respondeu de forma seca, e ergueu-se. Usava um jeans preto e blusa vermelha escura, com um colete a prova de balas negro.

A invasão foi liderada pelos dois companheiros de exército europeu, que abordavam e neutralizavam os seguranças. Sam e Maritza seguiam fazendo a cobertura, queriam correr menos riscos.

Chegaram ao salão/bar onde havia um palco cheio de pequenas luzes ao redor, mesas e cadeiras desarrumadas após mais uma noite de práticas perversas naquele antro. Um havia ficado tomando conta das escadas, um também na entrada nos fundos, outros dois foram checar o corredor e os quartos de trabalho. Três seguranças da casa foram algemados no poste de pole dance do palco, outro dois foram mortos.

Sam, Maritza e dois homens subiram para o andar administrativo, onde ficava a sala de Elias. Foram surpreendidos por um segurança que abriu fogo assim que foi avistado, atingindo um dos homens da equipe de Sam no quadril.

- Cuidado, Sam!

Maritza empurrou Sam para fora da mira do segurança, e atirou várias vezes em sua direção, o eliminando. O homem ferido no quadril estava sentado no chão, com a mão sobre o ferimento, Sam aproximou-se ainda com o coração disparado por conta da troca de tiros.

- Vai ficar tudo bem, vamos tirar você daqui. – Sam ajoelhou-se ao lado do homem, o tranquilizando.

- Invadam o escritório antes que ele fuja! – Ele respondeu com um semblante de dor.

Sam levantou-se rapidamente indo na direção da porta, sendo impedido pelo outro homem que as acompanhava.

- Nada feito, você segue atrás de mim. – Ele vociferou, e estourou a porta com um chute violento.

- Ninguém se mexe! – Maritza bradou ao invadir, os três já estavam dentro da estranha sala com cheiro de perfume doce e decoração extravagante.

- Procurem em todos os buracos! – Sam ordenou, mas ninguém foi encontrado, para decepção de Sam.

- Não tem ninguém aqui, Sam, ele deve ter fugido. – Maritza percebeu o desalento de Sam, e a consolou.

- Maldito. – Sam bravejou cerrando o punho com força, e batendo contra a mesa decorada por grandes dados a sua frente.

Tiros foram ouvidos no andar de baixo, fazendo o trio seguir para lá imediatamente. Deram de cara com um tiroteio entre um segurança da casa e dois dos seus soldados, escondiam-se atrás de mesas e do balcão de bebidas.

Maritza tomou a frente atirando contra o elemento, estava desprotegida e levou um tiro no alto do braço direito, Sam que vinha logo atrás acertou um tiro na fronte do segurança que continuava atirando detrás do balcão, o derrubando em definitivo.

- Ritz, foi de raspão, ok? Foi de raspão, está tudo bem. – Sam a deitou no chão, verificando o ferimento no braço, que havia sido certeiro, no meio do braço.

- Raspão porra nenhuma! – Maritza se contorcia com a mão apertando o braço ferido.

- Vocês irão para o hospital aqui perto, todo mundo vai ficar bem, você vai ter uma bela cicatriz de combate para mostrar para os outros. – Sam dizia com seu corpo encobrindo a visão de Maritza, abaixada ao seu lado.

- Isso dói bastante, eu não quero perder o braço. – Maritza dizia nervosamente, arfando.

- Ninguém vai perder nada, eu vou cuidar de você, aguente mais um pouco, eu vou procurar as garotas.

- Temos que resgatar as meninas logo, e talvez tenhamos mais ratos traiçoeiros por aí. – Um dos homens alertou.

- Eu sei. – Sam recarregou sua pistola. - Vá buscar seu colega ferido lá em cima. E George, você vem comigo, vamos descer para o quarto delas. – Sam puxou seu segurança particular pelo braço.

 

 

Destinesia: S.F. Quando chegamos a um local onde queríamos ir e nos esquecemos do que íamos lá fazer.

Capitulo 23 - Indelével por Cristiane Schwinden

A dupla abriu uma porta de correr e desceu as escadas lentamente, atentos a qualquer ruído ou movimentação. Chegaram no andar de baixo, onde havia um pequeno corredor com uma porta no fundo, Sam sabia que o quarto dormitório ficava mais um andar abaixo, olhou intrigada para aquela porta que Theo não havia mencionado, mas continuou a descer. Abriram uma pesada porta de madeira acinzentada, e destamparam numa sala de paredes irregulares, grande e cheia de camas. Em cima das pequenas camas, havia garotas acuadas, sentadas de forma amedrontada, segurando suas pernas, todas lançando olhares assustados para Sam e o homem que a acompanhava.

Sam levou alguns segundos para assimilar a cena, tentou manter contato visual com todas, ergueu as mãos em sinal de apaziguamento.

- Meninas, nós viemos resgatá-las, ninguém vai lhes fazer mal.

- Você é da polícia? – Uma garota perguntou com terror na voz.

- Não, mas viemos ajudá-las, não tenham medo, já cuidamos dos seguranças, Elias não está aqui, vai ficar tudo bem, vamos levá-las para a Nova Capital em breve.

- Há algum segurança por aqui? – George perguntou, com arma em punho, ainda olhando para todos os lados com desconfiança.

- Não, eles ficam lá em cima.

- Stan, tudo em paz aí em cima? – Sam falou pelo rádio com o colega.

“Sim, mas precisamos removê-los para um hospital logo.”

- Levem para o carro e sigam para o hospital, eu e George cuidaremos das garotas. – Sam disse pelo rádio.

“Tudo sob controle aí embaixo?”

- Tudo limpo aqui, vou subir com as garotas.

George retornou do banheiro no final do quarto, onde verificara por seguranças, as meninas continuavam acuadas, sequer haviam deixado suas camas.

- Sam, vou deixar você conversar a sós com as meninas, subirei para ajudar na remoção dos feridos. – George comunicou em voz baixa, já na direção das escadas.

- Ok, obrigada, subiremos em instantes. – Sam disse e fez um aceno positivo com a cabeça.

Sam deu alguns passos inseguros para o centro do quarto, as reféns continuavam assustadas, pareciam não acreditar que estavam de fato sendo liberadas do cativeiro, ela queria ser prática e lidar com calma, mas não queria aparentar insensibilidade, já havia errado uma vez.

- Se vocês possuem pertences, peguem tudo e depois subam comigo, temos carros aqui perto que levarão vocês à um hospital, irão passar por alguns exames médicos, faz parte do protocolo.

- E depois?

- Levaremos vocês para um hotel, onde alguns policiais irão conversar com vocês, eu preciso de autorização para entrar na Nova Capital.

- A polícia é comprada por Elias. – Uma garota rebateu.

- Eu sei, mas será a polícia internacional que virá, a pedido de uma senadora, não precisa temer estes policiais.

Uma das garotas, alta e com um porte imponente, levantou-se da cama e prostrou-se frente a Sam.

- E quem são vocês? Se não são da polícia, por que estão nos ajudando? – Ela questionou num tom de incredulidade.

- Somos um grupo de pessoas que veio em missão para libertar vocês e pegar Elias, infelizmente ele não está aqui.

- Vocês são rivais dele, não são? E vão nos levar para algum buraco na Nova Capital. - A garota continuava duvidando das boas intenções.

- Pauline, pare com isso, eles vieram nos libertar! – Uma das meninas disse, aos prantos.

- Você é Pauline? – Sam perguntou segurando um sorrisinho.

- Sim, por que?

- A pessoa que está por trás desse resgate vai ficar feliz em saber que você está bem.

- E quem é?

- Ela pediu anonimato, mas é alguém que se preocupa com vocês.

- Por favor, nos tire daqui. – Uma garotinha, possivelmente a mais nova delas se aproximou de Sam, e implorou em lágrimas. – Eu quero ir para casa, eu quero ver minha mãe.

- Eu vou tirar vocês do Circus, vocês estarão em casa em breve. – Sam disse num tom tranquilo para a garota.

- Eu não quero mais fazer essas coisas... – A menina voltou a chorar.

- Acabou, essa vida acabou, você vai voltar para sua mãe.

A garota com ar juvenil e cabelos claros abraçou Sam, que não sabia direito como reagir.

- Quantos anos você tem, mocinha?

- Quinze. – A menina respondeu de forma abafada, entre soluços.

- Meu Deus... – Sam murmurou transtornada, o sangue frio da missão começava a dar lugar para um sangue quente lhe fervendo nas veias. Vinha à tona todo o ódio a Elias e ao que ele fez com Theo, e também com aquelas garotas. Tudo tão vívido agora, em todas as cores opacas daquele prostíbulo, os semblantes assustados das garotas que pareciam ter suas almas roubadas, o mesmo semblante que ela viu em Theo na noite em que a encontrou correndo por ruelas escuras, fugindo deste inferno.

- Eu quero ir embora...

- Qual seu nome? – Sam desprendeu-se da menina, e perguntou carinhosamente.

- Blanche.

- Blanche, eu vou levar você para sua casa, prometo. – Sam inclinou-se para baixo e lhe disse fitando seus olhos.

- Como vamos saber se você está dizendo a verdade? E se estiver nos levando para trabalhar em outro lugar? – Pauline disse em voz alta, iniciando um burburinho.

- Vocês terão que se arriscar. – Sam respondeu no mesmo tom, percebeu que elas silenciaram, e voltou a falar num tom amigável. – Confiem em nós, tem duas ONGs participando desse resgate, depois eu explico tudo com calma, e tiro todas as dúvidas.

- Vamos lá, vamos embora! – Uma garota disse sorrindo, enxugando o rosto.

- Pegaram suas coisas? Vamos subir então. – Sam disse, e seguiu para a porta cinza da escada.

Subiu três degraus e sentiu um golpe na cabeça, sem saber de onde surgira. Um homem corpulento, trajando o mesmo paletó negro dos seguranças voou para cima dela, rolaram escada abaixo, engalfinhando-se agora no piso de cimento do dormitório.

As garotas assistiam em pânico a luta que desenrolava no chão, as armas de ambos haviam rolado para longe, Sam parecia vencer a luta, seu oponente aparentava cansaço e seu rosto sangrava em vários lugares, estavam no embate de mãos limpas, ou nem tanto.

O segurança acertou um soco em cheio, lhe abrindo o supercílio e a desnorteando, ganhou tempo suficiente para sacar uma faca da bota e cravar na cintura de Sam, na lateral desprotegida pelo colete.

- Arrrrgh! – Sam urrou e saiu de perto dele, ainda com a faca em seu corpo.

Removeu a faca apesar da dor, e partiu para cima do homem traiçoeiro. O esfaqueou no baixo abdome, e novamente rolaram no chão. Mas a luta desta vez foi encerrada por um tiro, o estampido paralisou Sam, que estava abaixo do segurança.

Lentamente, o corpo grande e pesado dele caiu sobre Sam, percebendo que ele havia sido baleado, mas ainda não sabia como.

- Desgraçado... – Um murmúrio raivoso fez Sam olhar para o lado e enxergar de onde viera o tiro.

Pauline ainda segurava a arma com ambas as mãos, e mantinha um olhar irado na direção do segurança. Sam o empurrou, saindo do domínio do corpo inerte, ele já estava morto.

- Obrigada, Pauline. – Sam agradeceu com a voz trêmula, ainda se recompondo.

- Você se machucou. – Blanche se aproximou, pousando a mão abaixo do corte na lateral do corpo de Sam.

- Não foi nada. – Sam respondeu com ares doloridos, desmentindo o que acabara de dizer.

- Já foi tarde, esse nojento... – Uma das meninas disse ao se aproximar do corpo no chão.

- Acreditam em mim agora? – Sam perguntou a todas, recuperando o fôlego, e cobrindo o corte na cintura.

- Qual seu nome? – Perguntaram, todas já estavam de pé.

- Samantha, podem me chamar de Sam. E então, vocês vêm comigo?

Ouviu-se um burburinho, um incentivo àquelas que ainda estavam receosas.

- Você precisa de um hospital, Sam. – Pauline também se aproximou, olhando a blusa dela cada vez mais molhada de sangue.

- Foi um corte de nada. Escutem, nós vamos subir, mas fiquem alertas, talvez tenha mais algum desses ratos na espreita, e eu só...

Um barulho ao lado fez Sam cessar o discurso, chamando sua atenção.

- Tem alguém ali. – Sam deu alguns passos receosos na direção de uma porta de duas folhas que ficava ao lado.

- Eu também escutei. – Uma das meninas disse.

- E quem está ali? – Sam virou-se para as garotas, as questionando.

- Não sei. – Responderam.

- Que lugar é esse? – Sam apontou para a porta.

- A cozinha.

- Vocês viram alguém entrar na cozinha?

- Não, estávamos dormindo.

- Tem algum rato aqui dentro, e deve ser dos grandes. – Sam disse para si própria, ergueu o punho e chamou seu colega militar no rádio.

- George? Me ouve?

“Estou aqui em cima.”

- Um segurança me atacou, mas estou bem, porém preciso de sua ajuda aqui embaixo, tem mais um rato na cozinha, e talvez seja o maior deles.

“Elias?”

- Acho que sim, por favor desça.

“Estou indo.”

Assim que George chegou, Sam o conduziu para a frente da porta larga da cozinha.

- Me dê cobertura, vou entrar. – Sam disse, arregaçando as mangas de sua blusa vermelha.

- Não, eu vou na frente, me siga.

Ele abriu a porta devagar, Sam aguardava de forma tensa logo atrás, querendo correr para o interior daquele cômodo. Estava escuro, mas a abertura da porta permitiu a entrada de um pouco de luz. A dupla andou devagar ao redor da mesa comprida de madeira onde as meninas faziam suas refeições, sem avistar nada importante.

- Pode ter sido um rato de verdade. – George sussurrou para Sam que estava agora ao seu lado.

- É, acho que foi algum rato, ou alguma panela que despencou no armário. – Sam disse em voz alta, apontando na direção de uma cortina.

George entendeu o sinal, e ambos caminharam pé após pé na direção da cortina escura, que parecia guardar alguma despensa por detrás. Sam puxou a cortina para o lado com violência, e avistaram atrás de uma caixa uma mulher de aparentes cinquenta anos e fortes olheiras, abaixada de forma defensiva.

- Não se mova, senhora. – George ordenou, apontando a arma para ela.

- Não atire! – Ela implorou.

- Onde está Elias? – Sam perguntou, também apontando uma arma.

- Não sei.

- Onde está Elias?? – Insistiu aos berros.

- Ele não está aqui, está viajando, é tudo que sei. – A mulher de cabelos castanhos encaracolados respondia com as mãos erguidas de pavor.

- Onde ele mora?

- Eu não faço ideia, ele nunca disse isso para ninguém.

- Como eu faço para encontrá-lo?

- Não sei, moça, eu não sei.

Sam marchou na direção dela, e a ergueu por um braço, de forma violenta.

- Eu sei quem é você, Marli, não é? – Sam a indagou enquanto a segurava pelo colarinho.

- S-sim.

- Para onde Elias foi?

- Não sei, ele não me conta essas coisas.

- Onde ele está?? – Sam insistiu.

- Ele só disse que faria uma viagem para o Brasil para resolver problemas de família.

- San Paolo? – Sam sentiu um arrepio congelante na espinha.

- Acho que sim.

- Droga... – Sam a soltou, e passou a mão pelo cabelo nervosamente.

- Theo está em perigo, George. – Sam sussurrou.

- Deixe comigo, eu vou falar agora com o chefe de segurança da casa e pedir que reforcem a equipe e redobrem a atenção.

- Ok, e também ordene para que não deixem Theo sair de casa.

- E o que fazemos com essa mulher, algemamos no palco com os outros?

- Não, isso é comigo, quero conversar um pouco com ela.

George saiu da cozinha, e Sam saiu logo atrás, conduzindo Marli com as mãos algemadas para trás.

- Meninas, acompanhem George lá para cima, eu subirei daqui a pouco.

- E essa sua facada? – Pauline perguntou ao se aproximar.

- Neste momento minha raiva é maior que qualquer dor. – Sam a confidenciou. – Suba, eu não encontrei Elias mas achei a aprendiz dele.

- Espero que você mate essa vaca. – Pauline disse e subiu, Sam ainda a olhou um tanto assustada.

Com o grande cômodo vazio, Sam caminhou com Marli em seu poder até o centro do quarto.

- Qual era a cama de Theo?

- Quem?

- Theo, uma das meninas que você ajudou a transformar a vida num inferno.

- Ah, a sobrinha de Elias.

- Exatamente.

- Aquela lá no fundo, a direita. Mas saiba que ela já não está mais aqui, ela morreu no início do ano.

- Eu sei.

As duas foram até a cama, onde Sam parou em frente, a fitando em silêncio.

- Foi aqui que você a deixou por dois dias com costelas quebradas perfurando seu pulmão, cuspindo sangue, com febre alta, foi nessa cama, não foi?

- Como você sabe disso?

Sam deu uma cotovelada nas costelas de Marli, que se contorceu após um grito de dor.

- Foi aqui? – Sam insistiu.

- Eu não sou médica! O que eu poderia fazer por aquela infeliz?? Não era eu que batia nela, eram os seguranças.

- Ou os clientes.

- Também, mas não é minha culpa, eu apenas sou a gerente aqui, cumpro ordens.

Sam deu uma olhada ao redor, e conduziu Marli para as escadas. Chegando no pavimento intermediário, Sam cessou o passo, e voltou a olhar para a porta que havia a intrigado momentos antes.

- O que tem ali? – Sam perguntou, apontando para a portinha.

- O buraco.

- O que é o buraco?

- Um lugar onde colocávamos as garotas que se comportavam mal.

- Tipo uma solitária?

- Isso.

- Venha comigo.

Sam a levou até a porta, abriu e entrou com a mulher. Uma claridade forte no seu interior doeu seus olhos. Após acostumar-se com a luz, Sam perscrutou os detalhes do cômodo gelado: havia manchas de sangue por todo lugar, no piso esverdeado e na parede, além de sujeira e um odor forte. Deu alguns passos até dois baldes vazios num canto, tentando encaixar aquela cena desagradável.

Pisou em algo granulado, sem entender o que acontecia.

- O que é isso no chão?

- Sal grosso.

- Marli, me conte o que acontecia no buraco. – Sam colocou ambas as mãos nos ombros de Marli, segurando uma arma.

- Melhor não saber.

Sam novamente a golpeou nas costelas, sem paciência.

- É a porcaria de um buraco! Era um castigo, acontecia de tudo aqui! – Marli falou com raiva.

- Theo esteve aqui alguma vez?

- Várias. – Marli sorriu de lado. Sam percebeu o risinho e golpeou seu rosto com as costas da mão.

- Sua vadia... – Marli resmungou.

- Era aqui que a espancavam?

- Não, elas tomavam alguma lição no quarto branco, depois as atiravam aqui, com privação de comida e de sono.

- Por que esse sal?

- Por que sim.

Sam ergueu a mão, mas Marli a interrompeu.

- Ok, ok! Elas ficavam aqui nuas e com seus ferimentos expostos, o sal nos ferimentos aumenta a dor e acelera a cicatrização.

Theo nunca havia contado para Sam sobre o buraco, nenhuma menção ou descrição desse lugar, agora ela entendia o porquê do silêncio.

- Para que as mercadorias não morressem, não é? Elias não queria prejuízo, só queria dar lições.

- Se essas garotas estúpidas apenas cumprissem suas funções, ninguém precisaria passar por aqui... – Marli fungou com raiva. - Elas nunca apanhariam se fizessem o que mandavam, mas eram burras demais.

Sam a fitou em silêncio por alguns segundos, refreando seu ímpeto violento.

- Marli, como você veio parar aqui?

- Eu tinha meu próprio negócio, minhas meninas, mas estava falindo. Sabe como é, essas garotas profissionais ficam com boa parte do lucro. Elias comprou meu negócio, e passei a trabalhar aqui. Se eu soubesse que esse tipo de casa dava tanto dinheiro, eu teria mudado de ramo.

- Que tipo de casa?

- Você sabe... Garotas sem remuneração.

- Escravas sexuais, você quer dizer.

- São todas garotas pobres, sem eira nem beira, ninguém está sentindo falta delas em lugar algum, pelo menos aqui estão sendo úteis.

Novamente Sam lutava para se manter calma, apertava com tremenda força o cabo de sua arma.

- Vamos continuar a visita guiada, se não se importa. – Sam disse, e a conduziu para fora do buraco.

- Você é policial?

- Não, para seu azar.

Chegaram no saguão do bar, onde restavam apenas os seguranças presos ao mastro no palco, George já havia levado as garotas para o hospital, para onde Maritza e Kohl, o militar ferido no quadril, também haviam sido encaminhados.

- Estamos a sós aqui, Marli, só eu e você no Circus. – Sam disse a encarando com um olhar sádico.

- Você vai me entregar à polícia? Ou vocês são alguma espécie de justiceiros?

Sam sorriu, e voltou a conduzi-la pelas mãos algemadas.

- Esse é o corredor dos quartos de trabalho, certo? – Sam perguntou, caminhando pelo corredor de ar pesado e odor forte de perfume doce.

- É sim. Sete quartos aqui, sete quartos lá em cima.

Sam andava sem pressa, olhava com atenção aos números pintados nas portas.

- Treze. – Sam parou em frente à uma porta amarela.

- Que bom que você sabe ler.

Sam a golpeou nas costelas, sem cerimônia.

- Entre aí.

Sam a empurrou para dentro do pequeno quarto de paredes amarelas, o ar ali era ainda mais pesado que no corredor. Deu alguns passos até a cama, parando ao lado, encarando aquele colchão sujo e cheio de manchas, permaneceu algum tempo em silêncio.

- Este era o quarto onde Theo trabalhava?

- Era sim, como sabe tantas coisas sobre ela? Você era cliente da tatuada malcriada? Não lembro de ver você aqui antes.

Sam não respondeu, algo nauseante e forte crescia em seu estômago enquanto olhava ao redor. Um lençol retorcido nos pés da cama, preservativos usados no chão, objetos sexuais caídos ao lado do pequeno criado mudo.

- Essas bagunceiras... – Marli resmungava. - Dormem sem arrumar o quarto, porque sabem que nós vamos arrumar tudo no dia seguinte, e largam assim desse...

- Cale a boca. Cale essa boca. Cale essa maldita boca. – Sam começava a explodir.

- Você acha que é fácil lidar com um bando de garotas desobedientes? Se você fosse uma das minhas garotas já teria tomado uma bela surra.

Sam a encarou rapidamente, antes de golpear seu rosto com o cabo da pistola, a derrubando no chão, ao lado da cama.

- Você é um demônio sem alma, você destruiu vidas, e finalmente chegou a hora de destruir a sua. – Sam vociferava com um ódio descomunal no olhar e nas palavras, fitando Marli caída sob seus pés.

- Você acha que salvará todas as donzelas inocentes me matando? Eram só vagabundas sem valor, não se iluda, no fundo todas elas gostavam de passar suas noites trepando nessas camas, não suje suas mãos por elas. – Marli se arrastava aos cotovelos.

Sam encheu seu pulmão de ar e desferiu seis ou sete chutes nas costelas de Marli, que rolava no chão em desespero.

- Isso foi pelas garotas que passaram por suas mãos. – Sam disse entredentes.

- Não me mate... – Marli balbuciou, com sangue enchendo sua boca.

- E isso é por Theo, que está viva, e planejou todo esse resgate.

- Está viva?

Sam tirou uma pistola branca de dentro da bota, tinha um formato estranho, não parecia uma arma de fogo.

- Eu trouxe esse brinquedo para Elias, mas infelizmente ele não está na casa, então será todo para você.

Marli cuspiu um pouco de sangue e tentou se erguer, fugindo de Sam.

- O que você vai fazer?

- Vire-se.

- O que?

Sam segurou seu braço e a virou com violência, colocando sua bota em cima das costas dela, para que não tentasse se levantar.

- É um brinquedo secreto do exército, meus colegas arranjaram para mim, ele não vai te matar, acho que não.

- O que é isso? – Marli se debatia, tentando se virar e ver o que acontecia a suas costas.

- Tem o nome provisório de desmanchador. Fique quieta, não se mexa.

Sam encostou o cano da pistola peculiar no alto de sua coluna vertebral, e disparou uma corrente visível e azulada.

Marli gritava pelo chão, tentando se arrastar com as mãos.

- Você nunca mais vai andar, Marli, sinto muito.

- Me tire daqui! – Continuava se arrastando pelo assoalho, com o rosto ensanguentado. – O que você fez??

Sam abandonou o quarto amarelo em silêncio, chegou novamente ao bar e encontrou policiais removendo os seguranças algemados, os levando presos.

- Senhor, tem mais uma no quarto treze, é a gerente do local. – Sam comunicou à um dos oficiais.

- Elias vai nos soltar ainda hoje! A polícia está do nosso lado! – Um dos seguranças gritou com Sam.

- Não a polícia internacional. – Sam rebateu. Deu uma última olhada pelo ambiente e desceu as escadas que davam na rua.

Enquanto caminhava até o carro estacionado numa rua próxima, sentia a cabeça pulsando e o ferimento na cintura latejando, mas o vento em seu rosto lhe trazia uma sensação de liberdade e dever cumprido. Antes de dobrar a esquina, viu fumaça saindo por algumas janelas do decadente prédio do Circus, algum comparsa de Elias havia ateado fogo no local, era o último recurso dele para encobrir seus negócios.

Acompanhou todos saindo do prédio, policiais e presos, e finalmente seguiu para o carro. Aquele problema já não cabia mais em suas mãos, o Circus havia ficado para trás, mas sua imagem e suas lembranças seriam indeléveis.

 

 

Indelével: Adj.: Que não se pode apagar, que não se pode destruir, que não desaparece, que dura; indestrutível.

Capitulo 24 - Catatonia por Cristiane Schwinden

Naquela mesma manhã, em San Paolo.

 

- Já acordada? – Marcy indagou Theo, que entrava na cozinha conduzida por Meg.

- Não parou quieta na cama, acho que nem dormiu. – Meg resmungou, e sentou-se numa das cadeiras.

- Eu acho que dormi. – Theo ajeitou-se junto à mesa. – Mas preciso de café, uma grande caneca desse líquido milagroso.

- Bom dia, galera. – John entrou na cozinha coçando os olhos.

- Mais um que madrugou? – Marcy disse, servindo café a Theo.

- Estamos preocupados com as meninas, daqui a pouco elas vão invadir aquele antro. – Theo respondeu.

- Se aqui agora são oito horas, que horas são lá? – John perguntou.

- Três a menos, então cinco e alguma coisa.

- Ritz já está acordada, ela mandou mensagem agora há pouco.

- Sam disse que só entraria em contato depois que estivesse tudo finalizado e todos estivessem em segurança.

- É para não te deixar ansiosa. Quer dizer, mais do que já está... – Meg disse.

- Hoje será um dia longo... – Theo disse e consultou o comunicador em busca de alguma mensagem.

“Zero mensagens.”

- Criança, procure alguma ocupação para hoje, não vai te fazer bem ficar nessa agonia. – Marcy a repreendeu.

- Eu já a entupi de remédios, mas ela não desliga. – Meg disse.

- Me arranja algum? – John pediu.

O videofone tocou e Marcy foi até o canto da cozinha atender.

“Marcy? A senhora Samantha tem visitas, permito a entrada?” – O segurança na portaria a inquiriu pela câmera.

- Quem são?

“Pai, já vamos entrar, fique tranquilo.” – Falou ao longe uma voz feminina pelo videofone.

“Eu quero falar com minha filha!” – Ele respondeu.

- Ah não... – Theo esfregou o rosto em desespero ao reconhecer a voz de Lindsay.

- Eu já conferi as IDs, é a irmã, o pai, o cunhado, e três sobrinhos. – O segurança respondeu.

- Theo? Eles podem subir? – Marcy perguntou.

- Mande subir, fazer o que.

- Ok. Pode liberar a entrada deles. – Marcy informou pelo fone.

- Justamente hoje? Por que justamente hoje? – Theo reclamava inconsolável.

- Eles não devem fazer ideia, não sabem onde Sam está. – Meg disse.

- Não, não devem, eu que vou ter que segurar essa bomba sozinha.

- Eu te ajudo, eu os conheço bem. – John se prontificou.

Theo baixou a cabeça recostando o rosto sobre os braços sobre a mesa.

- Porque essas encrencas parentes de Sam tem que aparecer sempre que ela está longe? – Reclamou.

- Hey, assim você me ofende. – John retrucou.

- Eu não achei nada bonito você fugir de casa e bater na minha porta, ouviu?

- Mas eu não tinha para onde ir! – John disse cuspindo seu cereal.

- Ok, pirralho, eu já te acolhi, não acolhi? Agora me faça um favor, receba a comitiva dos parentes de Sam, eu vou para o quarto para Meg me dar algo mais forte. – Theo estendeu o braço direito exibindo a mão aberta, que tremia.

- Eu percebi essa mãozinha tremendo, vem comigo, vou te dar algo para derrubar. – Meg alcançou sua cadeira de rodas.

- Não quero apagar, preciso falar com esse povo que me odeia.

- O que significa sua mão tremendo? – John perguntou, de boca cheia, já de pé.

- Convulsão à vista. – Meg respondeu, e a levou para o quarto hospitalar.

Minutos depois, Theo adentrou a grande sala onde John recebia as visitas, o pai de Sam era o único de pé, as crianças brincavam no piano translúcido no final da sala.

- Onde está minha filha? – Elliot vociferou ao ver Theo chegando na cadeira com Meg.

- Olá Elliot, prazer em finalmente conhecê-lo, Sam está viajando. – Theo o cumprimentou educadamente, estendendo a mão.

O senhor de cabelos castanhos e grisalhos, fitou seriamente na direção de Theo, com as duas mãos pairadas sobre sua bengala.

- Eu já conheço você, estive no hospital algum tempo atrás. – Finalmente Elliot apertou sua mão.

- Eu estava dormindo na ocasião, sinto muito. – Theo brincou.

- Oi Theo, é bom te ver finalmente acordada. – Lindsay a abraçou.

- Oi Lynn, como estão?

- Cansados, viemos de surpresa, sem maior planejamento, o voo foi horrível. Esse é meu marido, Arnold, e as crianças estão ali, brincando no piano, Oliver, tem quatro anos, Amanda, seis, e Gerry, sete. – Lindsay falava de forma agitada.

- Prazer, Arnold.

Arnold estendeu sua mão, não vista por Theo.

- E ainda por cima é cega... – Elliot resmungou baixinho.

O marido de Lindsay, um simpático irlandês de bochechas rosadas, pousou sua mão por cima da mão de Theo, a cumprimentando.

- Prazer em conhecê-la, Theo.

- Meg, chame Marcy. – Theo virou-se e sussurrou à enfermeira.

- E então, quem vai explicar onde Samantha se meteu? – Elliot finalmente sentou-se num dos sofás.

- Sam está na Zona Morta, foi resolver um assunto particular, mas deve voltar essa noite, ou amanhã de manhã.

- Ela está voltando para o exército? – Elliot sorriu animado. – E irá fazer uma surpresa para nós?

- Não, nada de exército.

- O que é então?

- É um assunto particular nosso.

- Sam não tem segredos comigo.

- É algo que apenas nos diz respeito. – Theo dizia firmemente, mas com o coração palpitando com a situação desagradável.

- Ligue para ela.

- Ela estará incomunicável esta manhã, provavelmente a tarde o senhor consiga contato, sugiro que não tente ligar agora.

- Quem você pensa que é para interferir na minha relação com minha filha? – Elliot enfatizou os dois ‘minhas’.

Theo hesitou.

- Sua nora. – Respondeu e sorriu com um ar debochado.

- Você está me insultando. - Elliot vociferou.

- Não, não é do meu feitio. Bom, vim apenas dar as boas-vindas, sintam-se em casa, logo Sam estará de volta. Marcy, você pode assumir agora?

- Claro.

- Marcy vai ajudar vocês a se acomodarem nos quartos, se precisarem de mim, estarei lá em cima fazendo fisioterapia.

Meg fez a volta com a cadeira, indo na direção do elevador, Theo fez um sinal com a mão, chamando Marcy e lhe sussurrou algo.

- Tire esses monstrinhos do meu piano.

***

- Te acordei? Aí são três horas a mais ou a menos que aqui? Sempre esqueço.

- Sam! – Theo atendeu o comunicador eufórica. – Você está bem?

- Estou sim.

- O que aconteceu?

- Está feito, amor. Está finalizado. – Sam dizia com um sorriso satisfeito.

- Resgatou as meninas?

- Todas as treze que encontramos no dormitório subterrâneo, inclusive suas amigas Pauline, Iana e Claudia.

- Você conseguiu... Meu Deus, você conseguiu... – Theo emocionava-se, estava sentada nos pés de sua cama, sozinha.

- Nós conseguimos, eu, você, toda a equipe.

- Alguém se machucou?

- Kohl, meu colega militar, levou um tiro no quadril, vai ser transferido ainda hoje para Nova Capital para uma cirurgia, mas ele passa bem. Maritza levou um tiro no braço, entrou agora para a cirurgia, a bala atingiu seu úmero, mas também vai ficar bem.

- E as meninas?

- Estão todas bem, ninguém se machucou. Ai!

- O que foi?

- Nada. Como ia falando, as meninas estão bem, estão aqui no hospital passando por uma avaliação, mas logo serão liberadas e George as levará para o hotel. Quando eu sair daqui irei falar com elas, e depois ver como está Maritza.

- Sair daqui onde?

- Da sala que estou agora.

- Sam, aconteceu algo com você?

- Não, não aconteceu nada, só tive um corte bobo aqui do lado, mas uma moça simpática já está me costurando. Ai!

- Corte? Você está me contando a verdade?

- Um dos malditos seguranças cravou a faca na minha cintura, mas foi superficial, não atingiu nada importante, a moça está me dando uns cinco pontos e serei liberada.

- Oito. – A enfermeira a corrigiu.

- Ok, oito pontos.

- Não minta para mim, Sam.

- Eu juro, foi só isso. Estamos todos vivos e inteiros, não se preocupe.

- E Elias?

Silêncio.

- Não o peguei, ele não está aqui.

- Ele fugiu?

- Não, parece que está viajando, e pelo visto está perto de você, já mandamos reforçar a segurança aí na casa.

Theo apenas suspirou pesadamente, com tristeza.

- Eu sinto muito, meu amor. – Sam disse com pesar.

- Ele não vai me pegar.

- Não, não vai, você está segura aí.

- Eu vou pegá-lo. – Theo disse com raiva.

- Não, você vai ficar quietinha, na sua. Depois vamos procurar formas de neutralizá-lo, ok?

- Ok... Até porque sua família vai me ocupar nos próximos dias. – Theo franziu as sobrancelhas. – Eu te contei que eles estão aqui?

- Não contou, mas eu já estou sabendo, acabei de ler as vinte mensagens que me mandaram. Eu não fazia ideia que eles me fariam essa surpresa, eu peço desculpas.

- Está tudo sob controle, seu pai ainda não me praguejou, só insinuou que vou para o inferno, e que sou um mau exemplo para a sociedade, mas o clima está tranquilo.

- É difícil lidar com ele...

- Eu sei, não se preocupe com isso. Você vem hoje à noite?

- Acho que não, Maritza não deve ter alta hoje, e eu não deixarei soldado ferido para trás, não posso deixá-la aqui, você me compreende?

- Claro, acompanhe Maritza, as meninas ficarão seguras no hotel com nossos homens tomando conta. O único problema é que sinto sua falta, mas consigo ficar mais algumas horas sem você.

Sam abriu um meio sorrisinho.

- Pronto. – A enfermeira comunicou, tirando as luvas.

- Finalizado, senhora? – Sam perguntou à enfermeira, que havia se virado para o outro lado.

- Finalizado, troque o curativo por alguns dias, tire os pontos após uma semana.

- Eu farei seus curativos e removerei seus pontos. – Theo respondeu, havia escutado a enfermeira.

Sam conferiu a sutura e baixou sua blusa suja de sangue.

- Theo, tem uma coisa que preciso contar. – Sam agradeceu a enfermeira e saiu para o corredor do hospital.

- O que?

- Eu peguei Marli.

- Ela estava no Circus?

- Estava, parece que havia cancelado a folga para cobrir a viagem de Elias, não peguei o peixe grande mas peguei um peixe importante, que também faz estragos.

Theo balançou a cabeça em confusão e incômodo.

- Entregou para a polícia?

- Entreguei, mas conversamos um pouco antes.

- Conversou?

- Ela está viva, mas um pouco avariada e aleijada.

- O que você fez?

- Eu conto pessoalmente, mas talvez agora ela esteja um tanto arrependida pelas coisas que fez a você.

- Adoraria ter chutado as costelas daquela mulher.

- Depois conto em detalhes como foi chutar as costelas dela, ok?

- Espero que apodreça numa jaula... – Suspirou pesadamente.

- Theo, você está bem? Parece cansada, tem tomado os sedativos?

- Estou bem, só estou um pouco cansada fisicamente, fisioterapia puxada. – Theo respondeu, pousando as mãos sobre as muletas que estavam em cima da cama.

- Então descanse, não precisa fazer sala para minha família, eles se viram sozinhos.

- Estou na minha cama, está tudo bem, terminei a fisioterapia da tarde agora. Promete me manter informada?

- Volto a ligar com mais notícias, ainda hoje. Agora durma um pouco, não quero você tendo convulsões aí, permaneça forte, vai ser pesado reencontrar as garotas.

Sam caminhou com ansiedade pelos corredores do hospital, até encontrar a ala onde as treze garotas ainda faziam alguns exames e passavam por consulta médica. Passou quase duas horas com elas, até a chamarem para visitar Maritza, recém-saída da cirurgia.

- Pensei que amputariam seu braço, cara de salsicha. – Sam sentou-se na cama, de frente para Maritza, que ainda estava sonolenta da anestesia.

- Nem brinque com isso. – Respondeu baixinho.

- O médico disse que você irá recuperar todos os movimentos do braço em algumas semanas, acho que você sobreviverá.

- Como estão as meninas?

- Assustadas, porém aliviadas. Algumas já conseguiram contato com seus familiares, todas moram na Nova Capital, acho que não teremos problemas em embarcar com elas.

- Vocês vão hoje à noite?

- Não, amanhã à tardinha, ou à noite. Vamos esperar você ganhar alta, o que deve acontecer amanhã à tarde, se você não tiver alguma piora.

- Vire essa boca pra lá... – Maritza se ajeitou com cuidado na cama, seu braço direito estava imobilizado. – Consegue água? Estou com sede.

Sam serviu um copo com água, e sentou na cadeira ao lado, havia um hematoma avermelhado surgindo em seu rosto, próximo ao corte do supercílio.

- Leve as meninas para casa hoje, posso ficar sozinha aqui. – Maritza disse.

- Não, nenhum soldado ferido fica para trás, lembra disso?

- Então elas dormirão aqui?

- No hotel, a polícia vai interrogá-las hoje à noite.

- Ok, mas não precisa ficar aqui no hospital comigo, elas precisam mais de você do que eu. – Maritza insistiu.

- George está com elas.

- Elas se sentirão melhor com você, Sam.

- E você vai ficar sozinha aqui?

- Peça para um dos nossos vir me fazer companhia a noite. Durma no hotel com elas, essas meninas acabaram de sair do inferno.

- Seu coração está amolecendo ou é impressão minha?

- Sammy, eu nunca vou esquecer o que eu presenciei hoje.

- Você não me chama de Sammy desde o ano passado. – Sam sorriu e pousou a mão sobre a de sua colega.

Maritza fechou os olhos, numa expressão cansada.

- Nossas vidas deram uma boa guinada, não acha? – Ponderou.

Sam baixou a cabeça, pensativa.

- Saímos finalmente de nossas ostras, começamos nossa vida real.

- Eu estou com medo do que vem pela frente, só sei ser soldado.

- Um mundo de possibilidades, Ritz. Quanto mais você expande sua mente, melhor você enxerga, e a vida real tem tantas cores.

Maritza a fitou em silêncio por um instante.

- Theo é como essas meninas, deve ter vários traumas, como você consegue conviver com ela? Não apenas conviver, mas ter um relacionamento íntimo com alguém que provavelmente está confusa demais? Você sabe lidar?

- Estou aprendendo, estou em constante evolução. – Sam tinha um semblante otimista.

- Eu não sei se você é a pessoa mais indicada a estar ao lado dela agora, você terá paciência suficiente com ela?

Sam sorriu cabisbaixa.

- Ela que tem uma paciência enorme comigo.

A conversa foi interrompida pela entrada no quarto de algumas das garotas, que vieram conhecer Maritza.

- Estão todas bem? – Maritza perguntou com a voz fraca.

- Agora sim, graças a vocês. – Uma das meninas adiantou-se.

- Formamos um bom pelotão. – Maritza ergueu a mão aberta para Sam. – Ai.

- Você é quem está por trás de tudo? – Uma menina perguntou.

- Não, eu sou apenas um soldado, isso tudo foi planejado e idealiza...

- Shhhh. – Sam cobriu a boca de Maritza.

- Por quem? – As meninas perguntaram.

- Por motivo de segurança, não vamos revelar quem resgatou vocês. – Sam explicava. – Mas quando vocês estiverem devidamente abrigadas em San Paolo, eu prometo revelar a identidade dessa pessoa.

- É algum político?

- Não vou dizer.

- É seu parente?

- Não vou dizer, desistam.

- É homem ou mulher?

- Desistam.

- Deve ser algum traficante... – Pauline murmurou.

- Não, é apenas uma pessoa que tem motivos para se importar. – Sam levantou-se. – Bom, vamos deixar Maritza descansar, vou levar vocês para um hotel, vamos passar a noite aqui, e quando ela tiver alta viajaremos para o Brasil.

- Se não me derem alta amanhã, eu prometo que fujo daqui, combinado? – Maritza disse.

No início da noite daquele longo e interminável dia, Sam finalizava seu banho no quarto do hotel, quando ouviu batidas na porta. Vestiu rapidamente um roupão e atendeu George, ele informou que agentes da polícia internacional já estavam no local, no aguardo para iniciar os depoimentos.

As garotas haviam sido acomodadas em quartos triplos, ganharam uma bolsa cada, contendo objetos de uso pessoal e roupas, tudo planejando e montado por Theo, que mais do que ninguém, sabia o que elas precisariam ao deixar o Circus. “Nessa bolsa não cabe o que elas mais precisam, elas precisam de abraços, calor humano, que voltem a ser tratadas como pessoas.” Foi o que Theo instruiu antes da viagem.

- Elas jantaram? – Sam perguntou.

- Estão terminando, algumas já subiram de volta. Peço para os agentes subirem nos quartos das que já retornaram?

- Não, eu quero que seja individual, para que elas fiquem mais à vontade. Conduza os policiais para o auditório do hotel, e peça que aguardem. Levarei uma a uma, me visto em cinco minutos.

Dez minutos depois, Sam descia o elevador com Anne, a primeira das meninas que prestariam depoimento.

- Não precisa se prolongar. – Sam orientava, com o braço em seus ombros. – Apenas fale quanto tempo ficou no Circus, e como foi parar lá, se quiser faça um apanhado da sua rotina. Eles irão coletar suas digitais e dar seu visto de entrada na Nova Capital, procedimento de rotina.

- Você ficará comigo? – A menina parecia amedrontada, parada na entrada do auditório, com seus grandes olhos brilhantes a fitando.

- Claro, estarei do seu lado o tempo todo.

Por volta das duas da madrugada, Sam subia o elevador acompanhada de Pauline, a última a prestar depoimento. Pauline ainda enxugava os olhos, todos os treze depoimentos trouxeram à tona alguns detalhes horripilantes da rotina em que estiveram imersas até aquele dia. E Sam presenciou todos os depoimentos.

O elevador se abriu e as duas garotas, que tinham a mesma idade, mas destinos tão diferentes, andaram em silêncio pelo corredor. Sam ostentava exaustão, tanto física quando psicológica, ouvira coisas que nunca esqueceria, detalhes que Theo não lhe contara nem haveria de contar algum dia.

Um transtorno que se manifestava em ondas de náusea, a lacuna de palavras para lidar com aquilo, o medo da falta de tato, a impeliam a dizer apenas palavras de segurança, promessas de dias melhores, e dar abraços demorados e apaziguantes. Mas agora, horas depois, ela mal conseguia falar, estava destruída. Como mulher, sentia-se também violada, como todas as treze que acompanhara nos depoimentos. Talvez naquela noite, a duras penas, Sam tenha entendido o significado de empatia.

- Sam? – Pauline parou em frente a porta de seu quarto, que dividia com mais duas garotas.

- Precisa de algo? – Sam respondeu, quase de forma catatônica.

Pauline, do alto de seus quase 1,75, parecia uma criança acuada.

- Eu sei que alguns homens estão aqui fora fazendo nossa segurança, mas... Eu poderia dormir no seu quarto? – Pediu timidamente, com as mãos nos bolsos de seu jeans.

- Vai se sentir mais segura dormindo no meu quarto?

- Vou.

- Então venha comigo, a cama de Maritza está vaga mesmo.

- Posso pegar minha bolsa?

Pouco depois, ambas já estavam alojadas em suas camas, lado a lado. Pauline pediu para que uma luz fraca permanecesse acesa, a garota parecia ainda não acreditar no que estava acontecendo, não conseguia sequer fechar os olhos.

- Pauline? – Sam a chamou, ao perceber sua apreensão.

- Sim?

- Você está segura aqui, amanhã estará bem longe de tudo isso. Tente dormir.

- Elias continua por aí.

- Têm seguranças no hotel, e eu aqui do seu lado, eu era militar, sabia?

- Por que não é mais?

- Deserdei. Vamos lá, estou desmaiando de sono, tente fechar os olhos e descansar.

- Ok. – Pauline puxou a coberta para debaixo do queixo.

- Você não é a durona da turma? A marrenta? – Sam brincou.

- Quem falou isso a você?

- Ninguém, eu percebi sozinha.

Silêncio.

- Você ronca? – Pauline perguntou.

- Não. E você?

- Não que eu saiba.

- Por que perguntou se eu roncava?

- Lembrei de uma amiga que roncava, ela me chamava de marrenta, como você me chamou agora.

- Então você vai poder reencontrá-la quando voltar para casa.

- Não... Ela morreu.

- Ah. Sinto muito. Qual era o nome dela?

- Theodora. – Pauline virou-se de lado, fitando Sam. – Se vocês tivessem aparecido alguns meses antes, ela estaria agora nesse hotel, com a gente.

- Mas nós...

- Desculpe, não estou reclamando, pareceu ingrato da minha parte.  – Pauline a interrompeu. – Ela morreu no Circus, seis meses atrás, na noite de ano novo.

- Tudo bem.

- Ela fez falta.

- Você deve ter presenciado várias fatalidades como essa.

- Theo morreu tentando fugir, mas algumas tiraram suas próprias vidas.

- E essa garota, Theo, era sua melhor amiga lá dentro?

- Era. Eu posso ser marrenta, mas ela que era a durona do grupo. – Pauline sorriu para Sam.

- Ela está num lugar melhor agora.

- Espero que sim. – Pauline abafou um nó na garganta antes de voltar a falar. - Uma menina se matou mês passado, usando as cordas de Theo, que foram herdadas por mim.

- Cordas?

- Elias inventou esse lance das cordas, Theo foi a escolhida para isso. Depois que ela se foi, eu passei a ser a garota das cordas.

- E para que servem as cordas?

- Sam, você realmente não faz ideia?

- Durante o sexo?

- Sim.

- Nossa... Deve ser horrível.

- Era sim.

- Desculpe, não quis te deixar pior.

- Isso não importa mais, sabe por que? Porque acabou. – Pauline voltou a sorrir torto para Sam.

- Acabou, você vai voltar para casa, para sua vida. – Sam a confortava.

- Depois de três anos roubados, eu não faço ideia do que será de mim aqui fora.

- Você não estará desamparada. – Sam ficou em silêncio por uns segundos, a curiosidade a faz voltar o assunto. – Pauline?

- Sim?

- Essa sua amiga, Theo, vocês... Sabe... Vocês tiveram algo? Eram namoradas?

- Não, ela era apenas uma boa companheira de inferno.

- Sempre foram amigas?

- Hum... Não nos batíamos no início, mas resolvemos nossas arestas. E a morte de uma das meninas a abalou muito, elas eram próximas, e Theo... Bom, Theo sofreu bastante.

- Eu imagino.

- Pelo menos ela se vingou do desgraçado que matou Sierra.

- Quem se vingou?

- Theo matou o cara, com as próprias mãos.

Sam arregalou os olhos, a fitando com surpresa na penumbra.

- Como ela fez isso?

- O degolou, com uma faca roubada da cozinha. – Pauline sorriu torto. – Entende porque foi uma pena vocês não terem chegado antes? Aquela filhinha de papai merecia estar viva.

Sam deu um riso fungado, e arrematou a conversa.

- Deus age por caminhos misteriosos.

 

 

Catatonia: S.F.: Forma de esquizofrenia que se caracteriza pela alternância de períodos de passividade e de excitação repentina.

Capitulo 25 - Pantomima por Cristiane Schwinden
Capítulo 25 - Pantomima

 

- Quando elas chegam? Hoje? Que horas? Maritza não me atende. – John adentrou o quarto de Theo vociferando perguntas, a acordando, era oito da manhã.

- Teu pai não te deu educação? – Theo acordou no susto.

- Sam ligou?

- Ligou ontem. – Theo sentou-se, esfregando os olhos. - Está tudo bem, pirralho, acalme-se.

- Ritz levou um tiro, ela pode ter piorado.

- Ela já foi operada e passa bem, você sabe disso.

- Todos vem hoje, não vem?

- A princípio sim, Maritza deve ter alta a tarde. Você sabe de tudo isso, por que está aqui enchendo meu saco?

- Porque Maritza não está atendendo.

- Porque ela está dormindo, seu demente. Lá são três a horas a menos que aqui.

John sentou-se na poltrona, fazendo um semblante de descoberta.

- Esqueci esse detalhe. – Ele balbuciou.

- Daqui a pouco elas ligam, fique tranquilo. – Theo sentou-se na beira da cama.

- Quer a cadeira de rodas?

- Não, me alcance as muletas.

***

Por volta das dez, Sam já estava no hospital, onde passaria o restante da manhã fazendo companhia a sua colega militar.

- Falou com as meninas hoje? – Maritza perguntou, enquanto devorava os biscoitos que Sam havia levado para ela.

- Sim, falei com todas antes de vir para cá, dei bom dia e um abraço demorado, uma por uma. – Sam riu.

- Elas estão te enxergando como mãezona. – Maritza também riu.

- Não, mas eu percebo um vínculo de confiança se formando.

- Igual ao vínculo que Theo criou com você quando te encontrou.

- Theo. – Sam se deu conta.

- O que foi?

- Esqueci de ligar para ela. – Sam disse já sacando o comunicador, o encarou e deu um sorrisinho.

- Por que você está com essa cara de quem vai aprontar?

- Faz tempo que não prego uma peça nela. – Sam fez a ligação, e foi prontamente atendida.

- Bom dia, meu anjo. – Theo a cumprimentou com doçura na voz.

- Oi Theo, tudo bem aí? – Sam fingia uma voz temerosa.

- Sim, aguardando ansiosamente o retorno das heroínas. Como estão as coisas nesse pedaço gelado do mundo?

- Tudo sob controle, as meninas estão no hotel. Escute, eu... Eu tenho algo que preciso te contar, não consigo mais guardar isso de você.

- Eu sabia, você se machucou mais do que me contou, não foi?

- Não, foi só aquele corte mesmo, não é nada disso.

- O que foi então?

- Eu dormi com Pauline.

- Que? Como assim? – Theo perguntou atônita.

- Desculpe, aconteceu, nem sei como acabou acontecendo... Foi um daqueles momentos em que o cérebro não funciona direito, e eu...

- Você dormiu com a Pauline? A Pauline que você acabou de resgatar? Que loucura é essa?

- Foi tudo tão rápido e nebuloso, ela pediu para dormir comigo, parecia amedrontada, eu não tive coragem de dizer não, e sabe como as coisas são.. Aconteceu, passamos a noite juntas.

Silêncio.

- Pior que eu não sei quem se aproveitou de quem... – Theo resmungou.

- Me desculpe, foi coisa do momento, não significou nada para mim, apenas uma noite errada que vamos esquecer que aconteceu.

- Vamos? Vamos? Quem vai esquecer? Eu vou esquecer? – Theo esbravejava, sentou-se num aparelho da sala de fisioterapia.

- Sim, vamos fazer de conta que não aconteceu nada, certo? Você já me perdoou antes, pode me perdoar agora.

- Eu não estou acreditando nas coisas que estou ouvindo... Samantha, você tem ideia da merda que fez? Você consegue enxergar essa situação por um ponto de vista que não seja do seu umbigo?

Sam se segurou para não rir.

- Não vai afetar ninguém negativamente, Pauline nem sabe que sou sua namorada.

- Ex! Ex namorada! Que vacilo foi esse, Sam? Você tem algum fetiche por garotas recém-saídas do Circus? Que porra você acha que está fazendo aí?

- Theo, não se exalte, isso tudo é...

- Escute, me ligue depois, eu preciso digerir isso.

E desligou.

- Theo? Theo? – Sam olhou para o aparelho em suas mãos, estupefata.

- Que porcaria você fez? – Maritza a questionou, boquiaberta.

- Era só uma brincadeira.

- De muito mau gosto, diga-se de passagem.

- Ela desligou na minha cara. – Sam ainda não acreditava.

- Então ligue e diga que era tudo mentira, antes que ela espume.

- Eu vou fazer isso.

Sam tentou algumas vezes, mas Theo não a atendia.

- Ela não me atende, o que faço?

- Ligue para John.

- Você pode ligar?

- Não, você fez a merda, você limpa.

John levou um tempo até atender a ligação.

- Oi, Sam.

- Onde Theo está? – Sam foi logo falando.

- Sei lá.

- A encontre, é urgente.

- Foi algo com Ritz?

- John, encontre Theo agora, eu preciso falar com ela!

- Ok, ok.

Segundos depois, John voltou a falar, estava na sala.

- Vocês viram Theo?

- Não. – Lindsay respondeu, estava no sofá da sala tomando conta dos filhos.

- É minha filha? Me deixe falar com ela. – Elliot foi na direção de John, com o braço erguido a frente.

- Seu pai quer falar com você, Sam.

- Eu não posso agora, por favor, encontre Theo, é importante.

- Ela disse que não pode falar com o senhor agora, porque precisa falar algo importante com Theo.

- O que é mais importante que o próprio pai? Me dê esse aparelho.

- Sam, ele quer falar com você.

- John! Pelo amor de Deus, eu falo depois com ele, eu preciso resolver um mal-entendido com Theo, ela acha que eu a traí.

- Você traiu Theo? Com quem?

- Samantha traiu aquela menina? Com homem? – Elliot perguntou assustado.

- Eu não traí! Foi uma brincadeira idiota que eu fiz, mas não deu tempo de explicar. Saia daí, vá procurá-la na cozinha, depois no quarto, depois na fisioterapia, depois na piscina, mas vasculhe essa casa atrás dela!

- Ela não traiu de verdade, parece que só usaram brinquedos. – John explicava para Elliot.

- John? – Sam a chamou.

- Sim?

- Vá procurar Theo!!

- Volte aqui, garoto. – Elliot foi atrás de John.

- Ela fala com o senhor depois.

- Me dê esse aparelho!

- Ok. – John entregou o comunicador a Elliot.

- Samantha, que história é essa? Finalmente criou juízo e arranjou um homem? Só não me diga que arranjou outra mulher na Zona Morta.

- Pai, tudo isso é um grande, enorme mal-entendido, ok? Eu não fiz nada com ninguém, foi uma brincadeira que terminou de forma errada, prometo explicar melhor depois. Por favor, devolva o aparelho para John, ele precisa passar para Theo.

- Espero que tenha sido com um homem. – Bufou e devolveu o aparelho para John.

- A encontrou? – Sam perguntou.

- Ainda não, vou procurar no quarto agora.

John averiguava o interior do quarto e do banheiro, quando tomou um susto.

- Quem está aqui? – Theo questionou, ao entrar no quarto.

- Eu, John. Tome, segure o comunicador. – John colocou rapidamente o aparelho nas mãos de Theo.

- Por que?

- Agora coloque no ouvido e diga “Theo falando”.

Theo não se moveu, apenas suas sobrancelhas, para baixo.

- Vamos lá, coloque no ouvido, é para você.

Theo suspirou e levou o comunicador até o ouvido.

- Samantha, eu não quero falar com você agora. – Theo despejou.

- Era brincadeira! – Sam berrou em pânico, a voz falhou.

- O que?

- Eu estava pregando uma peça em você, eu juro!

- Você está usando drogas?

- Theo, eu não dormi com Pauline, eu não dormi com ninguém, era só uma brincadeira, mas você não deixou eu contar isso.

Silêncio.

- Que brincadeira estúpida.

- Parecia engraçada quando bolei.

- Você já foi melhor nisso.

- Eu sei, estou enferrujada.

- Então não dormiu com Pauline?

- Eu dormi, mas não desse jeito, ela dormiu no mesmo quarto que eu, na cama de Maritza, foi só isso.

- Por que?

- Ela pediu, disse que ia se sentir mais segura, ela tinha acabado de prestar depoimento, parecia arrasada, eu permiti.

- E não rolou nada?

- Não, claro que não.

- Nadinha?

- Nadinha, dormimos como duas rochas.

- Conversaram?

- Pouco.

- Ela sabe quem você é?

- E quem eu sou?

- Minha namorada.

Sam deu um sorrisinho.

- Voltei a ser sua namorada?

- Com ressalvas. Ela sabe que estou viva?

- Não, ela acha que você morreu na fuga. Por que com ressalvas?

- Eu ainda estou brava. Nenhuma delas sabe que estou viva?

- Não, ninguém sabe, elas ficarão surpresas ao descobrirem quem está patrocinando isso tudo, uma alma penada bondosa. A propósito, quando chegarmos em San Paolo, poderei dar a notícia?

- Não sei, não quero pensar nisso agora, estou morrendo de dor de cabeça, vim para o quarto procurar algum remédio, não quero decidir essas coisas agora.

- Você está bem?

- Ficarei depois que encontrar algum maldito remédio.

- Você parece brava.

- Que engraçado, foi exatamente o que eu disse segundos atrás.

- Acho melhor deixar você descansar, então.

- Onde você está?

- No hospital, com Maritza. Volto para o hotel depois do almoço.

- Vem hoje?

- Vou procurar algum voo para o início da noite, devo chegar de madrugada, então só nos falaremos amanhã.

- Não.

- Não?

- Me acorde, se eu já estiver dormindo.

- Tem certeza? Você ficará ainda mais brava por ser acordada.

- Eu quero te ver hoje. – A voz de Theo perdia o tom ríspido.

- Para me dar bronca?

- Quer saber, Sam? Não me acorde, nem precisa subir, durma no sofá, ok?

E desligou.

- Theo? Theodora?

Novamente Sam olhou para o aparelho com semblante embasbacado. Maritza, que acompanhava a conversa, gesticulou, sem entender o que havia acontecido.

- O que houve?

- Ela desligou.

- De novo?

- Ela está brava. Fazia tempo que eu não via Theo ficar brava assim. Até me mandou dormir no sofá.

- Então torça para que ela tenha um lapso de memória e esqueça tudo isso.

- Não tem graça, Ritz.

***

No meio da tarde, Sam já estava de volta ao hotel. Seu quarto era grande, recebia a visita de todas as garotas, algumas sentadas no chão sobre o tapete que havia abaixo da tela ligada. Conversavam, comiam guloseimas, algumas estavam vidradas assistindo os programas e filmes, disputando os canais de forma descontraída.

- Eu não vejo filmes há três anos, me deixe assistir aquela comédia.

- Veja, um programa de culinária, eu adoro cozinhar! – As meninas passavam no hotel as horas que antecedia o retorno para San Paolo.

Sam estava numa das camas, recostada na cabeceira, dividindo um pote de castanhas com outras duas garotas que também estavam na cama.

- Já reservou as passagens? – Pauline perguntou.

- Sim, saímos as sete. Antes da meia-noite estaremos em San Paolo. – Sam respondeu.

- Para onde vamos? – Blanche perguntou.

- Um abrigo para meninas, que foi inteiramente reformado e vai acomodar todas vocês confortavelmente.

- Que tipo de abrigo?

- De uma instituição. – Sam deu um gole em seu canudo. – É uma ONG que vai dar todo o suporte que precisarem, não apenas um lugar para dormir e comer.

- Como assim?

Sam percebeu que agora todas prestavam atenção nela.

- O resgate não acaba aqui, essa instituição vai continuar ao lado de vocês, dando apoio, disponibilizando médicos, psicólogos, e vocês podem também contar com bolsas de estudos, profissionalização, tudo que precisarem para retomarem suas vidas.

- Por que esse interesse em nós?

- Porque esse é o trabalho deles, cuidar de mulheres em situação de risco.

- De onde surgiram?

- É uma ONG de uma empresa chamada Archer, e eu garanto a vocês, tudo que precisarem, absolutamente tudo, vocês estarão amparadas, não só a Archer, como também a ONG Martin está participando disso, e disponibilizou toda estrutura e pessoal.

- Então você acabou de contar quem está por trás disso tudo! – Claudia disse eufórica.

- Na verdade não. Tem uma pessoa bancando tudo isso, alguém que queria muito ver vocês livres, que idealizou tudo, e ajudou no planejamento. Se dependesse dela, com certeza estaria aqui também, ajudando no resgate.

- E por que não veio?

- Porque não tem condições de saúde para sair de casa.

- Você o conhece? Ou só foi contratada por ele?

- Conheço, dividimos o mesmo teto.

- É seu namorado? Marido? Amigo?

- Desculpe, eu não posso contar.

- Nem isso?

- Como vocês são curiosas, encham suas bocas com esse monte de comida que tem aqui. – Sam olhou atentamente todo o ambiente. – Está faltando uma, onde está Iana?

- Ficou no quarto, ela não está legal.

- Está doente?

- Não.

- Eu vou lá. E não saiam do quarto, ok?

Sam entrou no quarto triplo onde Iana estava encolhida na cama, as luzes estavam apagadas. Deu alguns passos hesitantes até a cama, acendeu uma luz na cabeceira e sentou-se na cama ao lado, de frente para a garota de traços orientais.

- Iana?

- Está na hora de ir? – Disse sem se mover.

- Não, ainda temos algumas horas no hotel.

- Posso ficar aqui?

- Claro. Não está se sentindo bem? – Sam falava de mansinho, com as mãos unidas a frente do corpo.

- Só quero ficar um pouco sozinha.

- Tem toneladas de chocolate no meu quarto, tem certeza que não quer ir para lá? – Sam brincava.

- Eu não quero estragar o clima delas.

- Por que estragaria? Você também não se sente aliviada de estar aqui fora?

- Aliviada sim, mas não consigo fingir que tudo vai voltar ao normal, eu sei que não vai.

Sam fez uma pausa reflexiva antes de voltar a falar.

- Como eu estava explicando para as meninas agora há pouco, você não estará sozinha aqui fora, terá apoio de duas ONGs. Apoio total, viu? Em tudo que você precisar ou quiser fazer, médicos, profissionais, todo tipo de suporte. E pode estudar também, fazer algum curso, faculdade, ou trabalhar em algo que você goste.

- Sam, eu não quero soar pessimista nem rude, mas não somos mais as mesmas, somos garotas avariadas, não existe vida normal para pessoas como nós.

- Existe sim, eu sou testemunha disso.

Iana apenas olhou com estranheza para Sam, que continuou falando.

- Não, eu não passei por nada parecido, mas convivo com uma pessoa que passou exatamente por esta situação. Não vou iludir você com a promessa de que amanhã sua vida estará totalmente de volta aos eixos, é um caminho longo, Iana. Você vencerá obstáculos dia após dia, de vez em quando algum fantasma vai surgir em determinadas situações, mas é possível continuar, é possível ter sua vida de volta, por completo, em todos os âmbitos.

Sam percebeu a menina se retraindo, parecia ter tocado em algo delicado com suas palavras.

- É fácil falar... – Iana murmurou baixinho, quase chorando.

- Qual seu medo? – Sam levantou e sentou na beira da cama da garota, segurando sua mão.

- Talvez eu consiga um emprego, ou voltar a estudar. Talvez eu consiga ter um bom relacionamento com minha família, até mesmo com alguns amigos que deixei para trás, mas... Eu nunca...

- Você acha que nunca vai conseguir se relacionar com alguém? – Sam captava os temores da garota.

- Quem vai querer alguém como eu? Estamos estragadas... – Iana chorava.

- Você pensa que não vai conseguir, mas é possível, é mais do que possível, é inevitável.

- Eu sempre sonhei em ter uma família, sabe? Como nos filmes, ter um marido carinhoso, filhos, netos... Nunca terei nada disso.

- Você acha que nunca estará curada o suficiente para se entregar a alguém?

- Tudo que eu terei são pessoas me olhando com nojo... Quem em sã consciência iria querer como mulher alguém como eu?

- Eu. – Sam respondeu de bate pronto.

Iana apenas arregalou os olhos, confusa.

- Não, não é o que você está pensando. – Sam começava a explicar, fez uma pausa. – Iana, você sabe guardar segredos?

- Sim.

- Eu estou falando sério, você promete guardar em segredo uma coisa? Não pode contar para nenhuma das meninas.

- Prometo. – Iana ergueu o dedinho da mão, prontamente entrelaçado por Sam, que sorriu.

- Você conheceu uma garota chamada Theo?

- Sim, era uma das meninas do Circus, você a conhecia?

- Por quanto tempo vocês conviveram lá?

- Uns dois anos, ela chegou seis meses depois de mim. Você esperava resgatá-la? Esse é o propósito de tudo, você estava em busca dela?

- Não, vocês são nosso propósito, todas vocês.

- Mas esperava encontrá-la também, certo? Ela é parente sua?

- Não, eu sabia que ela não estaria lá.

- Ela teve um fim horrível, eu sinto muito.

- O que Elias disse que aconteceu?

- Que ela matou um cliente para fugir pelos dutos, mas acabou caindo do último andar, morreu na tentativa de fuga.

Sam abandonou o semblante tranquilo, ficou um instante cabisbaixa, imaginando o que acontecera naquela noite.

- Desculpe. – Iana disse baixinho. – Vocês eram próximas?

- Como foram os últimos dias dela no Circus? – Sam ignorou a pergunta.

- Um inferno, eles haviam a cegado, parecia que haviam extraído o restinho de vida que havia nela. Sabe, foi uma tragédia horrível sua morte, mas de certa forma foi um alívio, eu sabia que ela não sofreria mais, não precisaria mais passar por aquelas coisas.

Sam desviou o olhar, e balançou a cabeça, assimilando.

- Sam?

- Hum?

- Você disse que me contaria um segredo, esse é o segredo? Que você conhecia Theo?

- Não. – Sam respirou fundo e voltou a fitá-la. – Theo está viva.

- Eu também gostaria que ela estivesse viva, ela foi uma grande amiga.

- Ela fugiu, não caiu de telhado algum, ela conseguiu fugir.

Os olhos de Iana brilharam, ela parecia incrédula.

- Elias mentiu?

- Mentiu, provavelmente para desencorajar fugas.

- E onde ela está agora?

- Em casa, em San Paolo.

Iana abriu um largo sorriso, saiu da posição encolhida e sentou-se.

- Ela conseguiu, ah aquela garota... Claro que ela conseguiria.

- Assim como você, Theo também achava que essa parte da vida dela estava morta, que passaria o resto da vida sozinha, reclusa. Mas essas coisas não morrem, por mais que se machuque, tudo fica guardadinho aí dentro. Ou seja, você é sim capaz de dar e receber amor, só está um pouco destreinada. – Sam lhe entregou um sorriso otimista.

- Theo conheceu alguém?

- Você ainda não sacou o segredo, não é?

- Você?? – Iana perguntou surpresa e sorridente.

- Eu.

- Por isso você sabe tantas coisas sobre o Circus.

- Esse resgate é ideia dela, foi um pedido de Theo.

- Ela voltou a enxergar?

- Não.

- Mas ela leva uma vida normal?

- Dentro do possível, porque ela sofreu um acidente depois que fugiu.

- Na fuga?

- Não, aconteceu algo um tempo depois, mas ela está se recuperando, ela está bem.

- E namorando uma pessoa legal como você.

- Tenho minhas escorregadas, mas estamos nos dando bem. E estou morrendo de saudades dela.

- Eu também!

- Segredo revelado, agora vem comer chocolate com a gente.

***

Sam e Maritza deixaram as garotas no abrigo em San Paolo passando da meia-noite, John e Lucian foram buscá-las, era quase uma da madrugada quando finalmente chegaram em casa. Arnold ouviu o pessoal chegando quando saia da cozinha, e foi até os quartos chamar seus parentes.

Em instantes a sala estava num clima festivo, até as crianças haviam acordado e pulavam no colo de sua tia, que se emocionava com o reencontro. Elliot surgiu logo em seguida, com passos lentos em sua bengala e seu habitual semblante sério.

- Por onde você andava? – Elliot a questionou.

- Fazendo uma boa ação por aí. – Sam esperou que ele se aproximasse, e o abraçou demoradamente. – Bom te ver, pai. – Disse com um sorriso aberto.

- Também estou feliz em te ver. – Finalmente Elliot deu uma amostra de um sorriso contido.

- Há quanto tempo não reunimos todos no mesmo lugar, hein? – Sam dizia satisfeita, apontando para os sobrinhos.

- Essas crianças não paravam de falar de você, Tia Sam para cá, Tia Sam para lá...

Elas pularam em suas pernas, e logo todos estavam novamente embolados brincando no chão da sala.

Meg, que dormia no quarto do térreo, acordou e foi até o quarto de Theo.

- Hey, dorminhoca. – Meg tocou seu ombro.

- Hum? – Acordou desorientada.

- Sua princesa encantada chegou.

- Que?

- Sam chegou.

- Onde ela está?

- Na sala, com a família, mas deve subir daqui a pouco.

- Acho que ela não vai vir aqui.

- Não?

- Eu disse para ela dormir no sofá.

Meg riu.

- E você quer que ela durma no sofá?

Theo não respondeu.

- Vamos lá, menina, você está treinando com essas muletas há dois dias, para fazer uma surpresa quando Sam chegasse, vai estragar tudo?

- Me alcance as muletas.

- Assim que se fala.

Theo desceu o elevador e caminhou até a entrada da sala, com as muletas e acompanhada de Meg. Escutou as vozes felizes ao longe, a sala era formada de vários ambientes.

- Quer ir até lá? – Meg sussurrou.

- Ali ainda tem um aparador? – Theo apontou na direção da parede.

- Tem sim.

Caminhou devagar até o aparador e recostou-se nele, aguardando em silêncio.

Dois minutos depois, Meg cochichou algo no ouvido dela.

- Sam acabou de perceber sua presença.

- Ela fez alguma expressão?

- Como assim?

- Pareceu preocupada? Triste? Feliz? Indiferente?

- Vocês brigaram?

- Ela ignorou minha presença, não foi?

- Ela está vindo na sua direção.

- Com qual expressão? Com qual expressão, Meg?

- Parou dois metros a sua frente.

- Com qual expressão?

- Venha cá, Theodora. – Sam pediu.

- Ela te chamou.

- Eu percebi.

- O que está esperando? Vai lá.

 

 

 

Pantomima: s.f.: Arte de demonstrar, através dos gestos e/ou expressões faciais, os sentimentos, pensamentos, ideias, sem utilizar palavras; mímica. Figurado: Mentira bem elaborada; logro.

Capitulo 26 - Fugaz por Cristiane Schwinden
Capítulo 26 – Fugaz

 

Theo ajeitou as muletas e iniciou sua caminhada com certa dificuldade, parando na frente de Sam, com semblante preocupado, sem fitar lugar algum.

- Então você anda. – Sam falou, de braços cruzados, tentando segurar um sorriso.

- Entre outras coisas. – Theo respondeu, com deboche, também tentando impedir um sorriso.

Sam a puxou para si, lhe dando um longo abraço caloroso, encontrou o conforto que precisava correndo suas mãos pelas costas de Theo, por baixo de seu moletom.

- Obrigada, Sam. – Theo sussurrou. – Obrigada por ter resgatado as meninas.

Sam lhe deu um beijo rápido, estava sem jeito por estar sob os olhares de seus familiares, mas não escondia a felicidade em reencontrar a namorada.

- Conseguimos. – Sam disse satisfeita, ainda a prendendo pela cintura.

- Você está bem? Onde se machucou?

- Aqui. – Colocou a mão de Theo em cima do corte. – Ainda dói bastante, acho que infeccionou. – Sam fez drama.

- Você não deve estar limpando com frequência, nem tomando remédios, não é? Eu cuido disso a partir de agora.

Sam sorriu e roubou outro beijo rápido.

- Vem cá.

Sam conduziu Theo até o centro da sala, parando ao lado do sofá onde seu pai estava sentado.

- Vocês me perguntaram onde eu estava, e o que eu estava fazendo. – Sam foi falando para eles. – Eu estava na Zona Morta, com Maritza e outras pessoas de confiança, acabamos de estourar uma casa de prostituição, e resgatamos treze garotas que eram mantidas nesse local em regime de escravidão.

- Por não deixaram isso a cargo da polícia? Por que se arriscaram desse jeito? – Elliot perguntou.

- Não confiamos na polícia de lá.

- O dono do bordel comprou toda a polícia e justiça da região. – Theo completou.

- Agora faz sentido, você saiu desse antro, não foi? – Elliot se dirigiu a Theo.

- Sim. – Theo respondeu sem se intimidar.

- E planejou buscar as amigas, mas como não anda nem enxerga, mandou Samantha no seu lugar.

- Eu fui por que eu quis, pai. – Sam tentou se justificar.

- Com todo esse dinheiro poderia ter contratado alguns capangas.

- Pai, não vamos discutir isso hoje, eu estou exausta, só quero subir e dormir. Amanhã poderemos conversar o dia inteiro, ok?

- Eu só estava tentando entender essas suas novas atitudes, parece que perdeu o juízo, ou que fizeram uma lavagem cerebral, é influência dessa menina toda desenhada.

- Crianças, amanhã vocês vão me contar tudo que andaram aprontando nesse tempo que fiquei fora. – Sam se abaixou, abraçando o menor deles. – Agora voltem para suas camas.

- Vamos fazer algo amanhã? – Lindsay perguntou.

- Sim, mas depois que eu e Theo resolvermos as coisas no abrigo.

- A prioridade deveria ser sua família. – Elliot resmungou, finalmente estourando a paciência de Sam.

- Theo também é minha família. – Disse duramente, virou-se e pousou a mão no rosto da namorada. – Vamos subir?

- Uhum.

Ainda com a mão em seu rosto, Sam a beijou sem receios, ignorando os resmungos de seu pai que vieram a seguir. Após a despedida, a conduziu na direção do elevador, com a mão em sua cintura.

- Onde está Maritza? – Theo perguntou.

- No quarto, John a levou.

- Eu quero agradecê-la.

- Agora?

- Sim, eu vou lá.

- Quer a cadeira?

- Não, vou andando.

- Espera. – Sam segurou seu braço antes de abrir a porta. – Melhor bater antes.

Theo entrou devagar no quarto, com suas muletas brancas, que não tinham apoio abaixo do braço, todo o peso ficava em suas mãos e cotovelos.

- Ritz, só vim ver como você está e agradecer, vou te deixar descansar, o repouso merecido da soldado.

- Agora está tudo ótimo, a tensão já passou. Theo, essas meninas foram uma grande inspiração para mim, eu que agradeço por ter confiado em mim.

- Elas vieram conversando durante todo o voo, adoraram essa cara de salsicha. - Sam resmungou em tom de brincadeira.

- Quero visitá-las amanhã, vou acompanhar de perto a recuperação delas. – Maritza contou.

- Você fez algo grandioso, elas serão eternamente gratas a você, você foi uma guerreira.

- E eu não? – Sam indagou.

- Você também, criança. – Theo ironizou. – E sinto muito pelo braço.

- Foi um trabalho em equipe que deu certo, nossos ferimentos são os ossos do ofício. – Maritza falou, estava deitada em sua cama com o braço imobilizado, com John na poltrona ao lado.

- Bom repouso para vocês, amanhã nos falamos. – Theo disse e saiu do quarto, acompanhada de Sam ao seu lado.

Caminhou já cansada até o elevador, antes de entrar esticou o braço, procurando por Sam.

- Estou aqui, quer ajuda?

- Onde você pensa que vai?

- Dormir. – Sam respondeu.

- Que eu saiba o sofá fica aqui embaixo.

Sam a encarou sem palavras, havia esquecido totalmente esse assunto.

- Você estava falando sério? – Finalmente balbuciou algo.

- Sim, eu vou subir, você não, peça para alguém buscar uma muda de roupa no quarto. – Theo deu dois passos à frente e entrou no elevador.

- Mas eu estou com saudades de você. – Sam tentou.

- Como se sente agora do outro lado da brincadeira de mau gosto?

- Então eu posso subir?

- Claro, venha logo, eu também estou morrendo de saudades.

Sam abriu um sorriso aliviado e correu para o elevador, Theo estendeu seus braços, a entrelaçando e aninhando-se nela.

- Você me beijou na frente do seu pai. – Theo comentou com preocupação.

- Beijei. – Sam respondeu com um sorriso arteiro e nada arrependido.

- Você enlouqueceu. – Theo riu.

Assim que entraram no quarto, Sam tirou as muletas dos seus braços, a segurou pela cintura e a conduziu para cima da cama, a deitando no travesseiro, o que a pegou de surpresa. Podia enfim beijá-la sem reservas.

- Ai! – Sam cessou o beijo levando a mão ao lábio inferior.

- Você sabe porque te mordi. – Theo disse com um sorriso malicioso.

- Mas foi só uma brincadeira.

- Eu sei, foi só para te lembrar que não gostei da brincadeira, mas isso não foi nada perto do que você fez ontem.

- O que?

- Samantha, você salvou treze garotas, você e sua bravura fizeram a diferença na vida delas.

- E deu tudo certo. – Sam continuava em cima de Theo.

- Você é a minha guerreira, minha oficial, eu estou tão orgulhosa de você. – Theo acariciava seu rosto. – E tão aliviada por não ter levado nenhum tiro.

- Nenhum.

- Só isso aqui. – Theo pousou os dedos sobre o curativo um pouco abaixo das costelas.

- Au, não aperte. – Retraiu.

Theo subiu as mãos e desentrelaçou o cachecol negro de lã que Sam usava, o manteve atrás do pescoço, e puxou, trazendo o rosto para perto do seu, por fim a beijando.

- Confesso que tive medo de não ganhar um beijo de boas-vindas quando eu chegasse. – Sam murmurou, enquanto Theo beijava seu pescoço.

- Você cumpriu a missão, tem direito a quantos beijos quiser. – Theo respondeu com os lábios subindo seu queixo.

- Só beijos?

Theo parou e se afastou alguns centímetros.

- Vá tomar um banho, se quando você voltar eu ainda estiver acordada, você ganha mais do que beijos.

- Tomarei o banho mais rápido da minha vida. – Sam pulou para fora da cama, indo para o banheiro.

***

- Alguém foi acordá-las? – Theo perguntou a Liana, responsável pelo abrigo do instituto.

Era quase nove da manhã, Theo, Sam, Maritza e Michelle estavam sentadas numa mesa redonda de toalhas brancas, no refeitório do abrigo. Haviam outras cinco mesas como aquelas, aprontadas aguardando que as garotas aparecem para o café da manhã. Sam ajeitou o cachecol branco e leve que Theo usava por fora do casaco negro, enquanto ela própria usava um casaco de lã vermelho. Havia passado a usar mais roupas vermelhas depois que percebeu que a namorada gostava dessa cor. Sempre que Theo a perguntava o que estava trajando, e a resposta era alguma peça em vermelho, percebia um sorriso por qual valia a pena mudar um pouco seu guarda-roupas.

No final daquele salão cheio de grandes janelas, havia uma mesa comprida, repleta de pães, bolos, e coisas do tipo. Theo já havia se servido, Sam a conduziu na cadeira de rodas, seus braços estavam exaustos do uso das muletas nos dias anteriores. Parecia ansiosa com o reencontro, já havia devorado dois pães, e escavava o terceiro.

- Acho que sim, alguém bateu em todas as portas. – Liana respondeu, ela também estava na mesa.

- E ontem quando eu saí do banho, ela não lembrava se eu estava chegando da Zona Morta ou do banheiro. – Sam conversava com Michelle, estava dando um tempo na cisma que nutria pela senadora.

- Hey, você está falando mal de mim? – Theo entrou na conversa.

Três das meninas finalmente apareceram, e logo reconheceram a colega de Circus que estava dada como morta, fazendo um estardalhaço. O barulho trouxe mais quatro delas, e rapidamente aquele ambiente anteriormente calmo, transformara-se, enchendo-se abraços, lágrimas e alegria.

- Eu morri? Eu estou vendo assombração? – Claudia surgiu, e não acreditava no que estava vendo, com as mãos cobrindo a boca e sacudindo suas trancinhas negras.

Iana também apareceu, era a única que já sabia de tudo, mas emocionou-se ao ver a amiga, desabando num abraço em Theo, que permanecia na cadeira de rodas e mal cabia em si, estava com o coração saltitante.

Alguns minutos depois, a última das garotas apareceu na porta, esfregando os olhos.

- Que barulheira é essa? O café está contando piadas por acaso? – Pauline falou com mau humor.

- Chegou a marrenta. – Theo respondeu, fazendo Pauline arregalar os olhos ao percebê-la no meio das garotas.

- Mas que porra é essa?

- Achou mesmo que tinha se livrado de mim?

- Isso é alguma brincadeira? É um holograma?

- Sou eu, Pauline, lembra que eu falei que fugiria daquele inferno? Eu consegui, estou vivinha.

- Não... Não... Você morreu na fuga.

- Por que não vem aqui e constata com as próprias mãos? – Theo abriu os braços, pedindo um abraço.

Pauline demorou-se nos braços da amiga, por fim puxou uma cadeira e sentou-se à sua frente.

- Elias te soltou?

- Não, eu escapei de lá, aquele desgraçado me procura até hoje.

- Ele não sabe onde você está?

- Sabe, mas ainda não teve coragem de invadir minha casa, eu enchi de seguranças.

- Espera aí. – Claudia levantou-se. – Você é a tal pessoa?

- Do que você está falando?

- Você é a tal pessoa misteriosa por trás de tudo? Que Sam não queria nos contar de jeito nenhum?

- Eu pedi para ela não contar, achei prudente enquanto vocês estivessem lá.

- Você planejou nosso resgate?

- Ajudei, o trabalho pesado foram essas guerreiras aqui na mesa que fizeram. – Estendeu a mão para Sam, que estava sentada ao seu lado, e foi prontamente atendida.

- Mas como você conseguiu se safar? Você não nem enxergava, como voltou para casa? – Pauline perguntava ainda eufórica.

- Graças a ela. – Theo beijou a mão de Sam, que estava entrelaçada com a dela.

- Sam foi até o Circus te resgatar?

- Não, eu estava passando por perto, e encontrei essa menina correndo desesperadamente. – Sam falava num tom lúdico. – Enfiei no meu carro e levei embora.

- Sam é ótima para resumir fatos. – Theo brincou.

- Eu não estou entendendo nada... – Claudia resmungou.

- Me deixe apresentar as convidadas. – Theo começou. – A minha frente, temos a senadora Michelle Martin, diretora da...

- Michelle? Sua cliente? Nossa fornecedora oficial de pó e hidrometa? – Pauline interrompeu, trazendo certo desconforto para a senadora.

- Sim, e agora uma amiga. – Theo explicou e voltou a explanar. - Michelle é diretora da ONG Martin, que está agindo em parceria com a ONG Imogen Bedford.

- Que ONG é essa?

- Pertence ao grupo Archer Biotecnologia, que pertence a mim.

- Você? Você tem uma empresa? – Pauline indagava.

- É uma longa história, só precisam saber que vou garantir todo respaldo financeiro que precisarem. Voltando à mesa, temos Liana, Liana erga a mão, não sei onde você está. Ela é a diretora deste abrigo, será a mãezona de vocês nesse momento, podem contar com ela para qualquer necessidade, inclusive passagens para vocês ou seus parentes.

- Minha sala fica no final do corredor dos quartos, podem me procurar. – Liana se manifestou. - Era uma mulher de cabelos loiros para grisalhos, parecia dona de grande serenidade.

- Maritza cara de salsicha vocês já conhecem. – Theo apontou para o lugar errado.

- Estou aqui, Theo. – Maritza a corrigiu.

- Ok, ali, naquela cadeira, está uma soldado que colocou a vida em risco para salvar vocês, e que me confidenciou que gostaria de continuar apoiando vocês e a ONG, então é uma pessoa que também poderão contar a partir de agora, apesar do bracinho ferido.

- Estou bem, prometo estar aqui todos os dias. – Ritz completou.

- E ao meu lado, está minha heroína particular, a oficial Samantha, que resgatou não apenas vocês, como também a mim. E ela é a garota mais incrível que já conheci, não estou exagerando.

Sam baixou a cabeça com um sorriso sem jeito.

- Também acho! – Bradou uma das meninas.

- Ela é linda, gentil, sensível, destemida, e sabe qual a melhor parte? Eu namoro com ela. – Theo disse a última frase de forma convencida e apontando para Sam, que estava vermelha.

- Ah! Eu sabia que tinha algo aí! – Pauline disse.

- Tem, tem bastante coisa. E ela deve estar vermelha e tímida.

- Ela adora fazer isso comigo. – Sam resmungou.

Theo virou-se e segurou o rosto de Sam com as duas mãos, tascando um beijo.

- Pronto, agora você tem motivo para ficar vermelha.

***

Theo estava sentada na beirada da cama do casal, com Sam deitada a sua frente, sem camisa, ela limpava seu ferimento, trocando o curativo. Chegavam ao fim do longo dia no abrigo com as baterias descarregadas, era visível o cansaço no semblante de Theo.

- Eu posso terminar, vá tomar seu banho para dormir. – Sam pediu, observava Theo limpando cuidadosamente os pontos em sua cintura.

- Eu também posso terminar. Está doendo?

- Não, você continua com dedos leves.

- Onde está o curativo?

- Aqui, tome. Mas depois você vai encerrar o expediente, estou comovida com essa carinha de cansada.

- Você fez dupla jornada hoje, no abrigo e depois saindo com sua família, deve estar morta. – Theo dizia enquanto ajeitava o curativo na pele.

- Foram coisas revigorantes.

- Lembrei de uma coisa. – Theo parou o que fazia.

- O que?

- Sua família saiu para jantar ontem à noite.

- E nem te convidaram?

- Não, mas isso não vem ao caso. Eles jantaram com Mike.

- Mike? – Sam mudou de semblante.

- Sim, num restaurante nos Jardins.

- Lindsay te contou?

- Não, Lucian me disse, ele levou e trouxe o pessoal.

Sam ficou um instante em silêncio, pensativa.

- E não me contaram nada hoje.

- Aquele encosto está na cidade, quem diria... Será que ele vai tentar usar alguém da sua família para chegar até nós? – Theo perguntou temerosa.

- Espero que tenha sido apenas uma reunião de família, meu pai tem Mike como um filho.

- Que bonito isso. – Theo rebateu com cinismo.

- Eu vou tirar isso a limpo, não deve ser nada demais.

- Apenas saudades do major.

- Terminou, enfermeira? Tenho a impressão que você está se aproveitando de minha nudez parcial.

- Você está sem camisa? Achei que ela só estivesse levantada.

- Estou sem camisa. – Sam deu um risinho. – Sabe, acho que se você voltar a enxergar não terei coragem de ficar sem camisa na sua frente, nem tirar a roupa.

- Eu não te verei nua?

- Talvez no escuro.

- Sam, eu não te verei nua? – Theo perguntou incrédula.

- Eu vou ficar sem jeito, não sei se terei coragem.

- É bom ir se acostumando com a ideia, tenho horas e mais horas de observação do corpo alheio para lhe devolver.

***

- Soube que saíram para jantar anteontem. – Sam perguntou para Lindsay, estavam tomando o café da manhã juntas.

- Fomos num restaurante tão refinado, eu nem sabia usar aqueles talheres. – Lynn riu.

- A convite de quem?

Lindsay a encarou hesitante.

- Não é porque vocês não são mais noivos que Mike deixou de ser parte da nossa família.

- Vocês tiveram coragem de sair com aquele cretino? E nem me contariam nada, não é?

- Para que? Você ainda está com essa birra dele.

- Essa birra se chama medida cautelar, ele ameaçou Theo de morte várias vezes.

- Sam, ainda não entendo o que se passa na sua cabeça. – Lindsay largou a faca de pão na mesa. – Mike fez o que fez porque estava ressentido, você o traiu, fez o coitado de gato e sapato, o trocou por uma menina que encontrou na rua, o que você esperava? Ele é homem, tem orgulho, tem honra, ele reagiu assim porque te ama, e não queria te perder.

Sam a fitou em silêncio, já se fora o tempo em que rebatia os sermões da irmã mais velha de forma culposa ou fugaz.

- Mike fez o que fez porque não tem escrúpulos nem caráter, eu não sou nenhum exemplo de bom comportamento, mas assumo meus erros e me esforço para seguir no caminho de retidão que Deus nos ensinou.

- Você está confortável onde está, mas no fundo sabe que está cheia de dúvidas, que está se desviando do caminho, e ainda por cima tem coragem de dizer que segue os preceitos de Deus.

- Eu tenho certeza de estar onde sempre quis estar, e com uma pessoa que me trata de igual para igual.

- Vocês foram para a cama enquanto Theo estava em coma, isso não diz alguma coisa? – Lynn provocou, como se tivesse tirando uma carta da manga.

- Mike deve ter contado isso no jantar e se vangloriado a noite inteira. – Sam balançou a cabeça com desgosto. - É o regozijo dos perdedores, já imaginava que ele usaria isso, mas não pensei que você também jogaria baixo como ele.

- Irmã, não estamos contra você, nem contra Theo, isso não é um cabo de guerra, onde tomamos lados. Todos nós queremos sua felicidade, que você repense algumas coisas, agora que sua vida está voltando ao normal, que não corre mais riscos nem é procurada pela justiça.

- Quanta benevolência. – Sam debochou, abriu um sorrisinho e tomou lentamente seu café.

***

46 dias depois

- Podemos remarcar para o mês que vem, Theo, é o mais prudente e você se divertiria mais. – Sam pedia pela vigésima vez.

- Perderíamos esse pequeno verão de agosto, a previsão é de calor para os próximos dias. – Theo estava na cadeira de rodas, arrumando sua mala em cima da cama, com a ajuda de Sam.

- Quem sabe tenhamos dias quentes mês que vem?

- No mês que vem não tem seu aniversário.

- Podemos comemorar meu aniversário aqui mesmo, uma festa na piscina.

- Já está tudo confirmado e combinado, amor.

- Quatro dias em Ilhabela é tempo demais.

- Onde colocou os biquínis?

- Aqui, já estão na mala. – Sam respondeu e sentou na cama, segurando as mãos de Theo.

- O que foi?

- Me escute por um segundo. Você está com pneumonia, Theo. Você sabe que não se brinca com isso, que isso te deixa vulnerável e que pode piorar rapidamente, pode inclusive te matar rapidinho. Por que não planejamos essa estadia na praia para o mês que vem?

- Eu já estou melhor.

- E porque está usando essa máscara de oxigênio?

- Ainda estou me recuperando, mas estarei ótima nos próximos dias. Já arrumou suas roupas?

- Theo...

- Eu estou bem, Sam, eu sei que estou bem, não darei mais sustos. – Suspirou. – Eu entendo sua preocupação, mas posso garantir que estou quase sem pneumonia, continuarei tomando os remédios, andando de cadeira de rodas, me poupando de esforços, usando o oxigênio sempre que sentir falta de ar, prometo me comportar.

- Ainda acho uma loucura.

- Seu aniversário é no domingo, até lá estarei ótima e iremos comemorar fazendo um luau. E é tão difícil Letícia conseguir quatro dias de folga seguidos, ela nunca mais vai conseguir essa proeza.

- Quem mais vai?

- Letícia, Daniela, Maritza, e duas amigas de Daniela: Isadora e Andrea.

- Você conhece essas duas?

- Só de vista, da época que Daniela saia com a gente.

- É um casal?

- Dani disse que ainda não oficializaram, que estão apenas ficando.

- Quando John volta da Inglaterra? – Sam perguntou.

- Se os pais dele não o sequestrarem, volta semana que vem, as aulas da faculdade de arquitetura começam logo.

Sam levantou da cama e tornou a ajudar Theo na arrumação da mala.

- Não dobrei nenhum short seu, onde estão? – Theo perguntou.

- Você sabe que não uso shorts.

- Meu anjo, você está indo para a praia.

- Estou levando calças leves.

- Ahhhhh.

No dia seguinte, uma quinta-feira de sol e temperatura agradável, o helicóptero pousou na casa de Ilhabela, trazendo o quinteto e alguns seguranças.

A bonita e moderna casa tinha dois pavimentos e um deque frontal, de ponta a ponta, com vista para o mar a frente, além de uma piscina retangular num dos lados do deque. O pavimento inferior possuía apenas vidraças, o que dava uma vista deslumbrante para quem circulasse por ali, até a cozinha tinha uma de suas paredes de vidro. Um elevador havia sido instalado há poucos dias, facilitando o acesso ao pavimento superior, que possuía em sua fachada um revestimento que imitava madeira. Os quartos ficavam em cima, e embaixo havia uma sala de estar que ocupava metade do andar.

O acesso a areia da praia se dava por uma escada de pedras de poucos degraus, uma rampa fora construída também nos últimos dias, paralelamente à escada. Aquele pedaço de praia era particular e bem vigiado.

- Ok, pode deixar que assumo aqui, George. – Sam disse e assumiu a cadeira de rodas, seguindo para o interior da casa.

- Está sentindo isso? – Theo perguntou no caminho.

- O que?

- O sol, está forte.

- Já vamos nos abrigar.

- Não, não estou reclamando. É ótimo sentir esse calor todo na pele, sinal que teremos dias de praia pela frente.

- Vou morrer de insolação, pelo visto... – Maritza, que seguia logo atrás, resmungou.

- Quando você ver o mar, seu humor vai melhorar, Ritz. – Theo respondeu, usava máscara de oxigênio com dois cilindros acoplados em sua cadeira.

- Onde estão as outras duas garotas? – Maritza perguntou.

- Estão vindo de carro, chegam à tarde.

Chegaram na sala, Sam parou o passo ao ver o mar verde através das paredes de vidro.

- Theo, você foi um tanto econômica na descrição da casa e da vista. – Sam contemplava deslumbrada. – Isso aqui é lindo, e essa casa parece saída de um filme.

- Que bom que gostou. – Theo sorriu.

- Nada como ter dinheiro... – Maritza murmurou indo na direção da porta da frente, que era larga e dava no deque, onde haviam espreguiçadeiras brancas.

- A arquitetura dessa casa é linda, dinheiro não compra tudo, mas ajuda a ter uma bela mansão numa praia particular. – Letícia brincou.

- E contratar bons arquitetos e paisagistas. – Theo completou. – Tenho que tirar meu chapéu para meu pai, ele tinha boas ideias, e adorava vidro.

- Os quartos são lá em cima? – Maritza perguntou.

- Sim. Sam, me leva lá? Não sei onde está o novo elevador.

Sam saiu do transe deslumbrado, e olhou ao redor, procurando as escadas e elevador.

- Perto da escada, venha.

Haviam passado boa parte do dia pela sala, Theo sentia-se melhor e usava agora apenas um fino tubo abaixo do nariz. Isadora e Andrea chegaram juntamente da noite, e cumprimentaram as cinco moças na sala.

- Theo, quanto tempo não lhe vejo. – Andrea, uma oriental de sorriso fácil a abraçou.

- Ainda lembra de mim?

- Claro, e você ficou nos noticiários por um bom tempo.

- Olá Theo, como está? – Isadora aproximou-se a cumprimentando, era uma mulher alta e com um porte que chamava a atenção, com cabelos castanhos lisos e esvoaçantes, lábios cheios e brilhosos, e roupas curtas.

- Neste paraíso? Estou muito bem.

- Achei que estivesse com a recuperação mais avançada, Dani disse que você já estava caminhando.

- E estou, mas precisei dar um tempo nas muletas, uma pneumonia oportunista surgiu essa semana.

- Sinto muito, espero que as coisas melhorem, deve ser horrível depender dos outros para qualquer coisa.

- Já foi pior, e essa menina aqui é paciente. – Apontou para o lado, para o sofá onde Sam estava sentada.

Isadora finalmente notou a presença de Sam, e seu semblante mudou imediatamente.

- Você é a famosa Samantha? Ouvi falar muito bem de você. – Isadora a abraçou. – Mas ninguém me contou que você era tão bonita assim.

- Prazer em conhecê-la. – Sam respondeu, envergonhada.

- Theo, depois me conte como você conseguiu fisgar essa garota. – Isa brincou, desagradando Theo.

- Parece que a conversa que tivemos não serviu para nada, não é? – Andrea cochichou no ouvido de Isa, a repreendendo.

- Relaxe, só estou me divertindo, daqui a pouco volto a bajular você. – Respondeu baixinho, com um sorriso irônico.

Enquanto Sam e Maritza conversavam no deque que servia também de varanda, Theo, Daniela e Letícia preparavam o jantar, bagunçando a cozinha.

- Ritz, eu apoiarei qualquer decisão que você tomar nesse sentido, eu já falei isso antes. E esse curso tem tudo a ver com seu trabalho na ONG. – Sam apoiava a decisão dela de cursar faculdade de assistência social.

- Os alunos vão caçoar de mim, eu terei dez anos a mais que eles.

- Você será a queridinha deles, e com certeza outras pessoas trintonas estarão na sua turma.

- Eu não sou trintona, vou fazer 29 ainda.

- Você me entendeu. – Sam deu um gole num drinque vermelho escuro. – Por Deus, que negócio bom é esse?

Maritza olhou para seu copo, que continha o mesmo conteúdo.

- Eu não sei o que Theo colocou aqui dentro, mas eu não consigo parar de beber isso.

- Vodca.

- Eu sei que tem vodca, me refiro às frutas.

Isadora e Andrea surgiram ao lado das meninas que estavam sentadas num sofá de madeira com almofadas, estavam arrumadas.

- Meninas, estamos indo para a vila curtir a noite, topam? – Andrea convidou, de forma simpática.

- Hoje não, vamos fazer um programa mais caseiro. – Maritza respondeu.

- Mas obrigada pelo convite. – Sam negou educadamente.

- Ah Sam, vai ficar mofando em casa? Vem com a gente! – Isadora insistia.

- Quem sabe no sábado? Vamos jantar daqui a pouco, as meninas estão preparando alguma coisa lá na cozinha.

- Tenho certeza que Theo entenderia se você resolvesse dar uma saída, não voltaremos tarde. – Isa respondeu.

- Entenderia, mas é uma opção minha ficar em casa hoje. – Sam respondeu já nem tão educadamente.

- Vamos, Isa, as meninas querem ficar e curtir a casa. – Andrea colocou a mão no ombro dela, a chamando.

- Tem certeza, Sam? Eu espero você se vestir. – Isadora pediu.

- Boa curtição, e cuidado lá fora. – Sam finalizou e virou-se novamente para frente. Maritza ainda acompanhou as meninas voltando para o interior da casa.

- Essa Isadora não me desceu. – Maritza comentou após ajeitar-se no sofá, estendendo o braço pelo encosto.

- É o jeito dela, acho que daqui a pouco a gente se acostuma.

Por volta das duas da manhã, todos já dormiam na casa, mas o silêncio foi interrompido por uma discussão em alto volume no térreo.

- Tem alguém na casa. – Theo acordou sobressaltada, sentando-se assustada na cama.

 

 

Fugaz: Adj. de dois gêneros: Rápido, que desaparece rapidamente, que dura muito pouco; efêmero, passageiro.

Capitulo 27 - Volúpia por Cristiane Schwinden
Capítulo 27 - Volúpia

 

- São só as meninas, pode voltar a dormir. – Sam respondeu com sono e ainda um pouco bêbada.

- Quem?

- Andrea e Isadora voltaram da rua, e estão quebrando o pau na sala.

- Quebrando o que?

- Estão brigando, devem estar bêbadas.

Theo continuou sentada, prestando atenção nos ruídos.

- Andrea está brava, estão alteradas. – Theo constatou.

- Venha, deite. – Sam a recolocou deitada na cama, com as mãos em seus ombros. – Quer oxigênio?

- Não, daqui a pouco a respiração volta ao normal, eu acordei no susto.

- Isadora deve ter aprontado alguma, mas não é problema nosso, elas que se resolvam.

- Ouviu isso?

- Quebraram algum vidro, deve ser um copo ou garrafa. Ou algo da decoração da casa. Theo, tem seguranças pela casa, não perca seu tempo com isso.

- Elas podem se machucar.

- Ok, ok, eu vou dar uma espiada. Não tente sair da cama. – Sam suspirou e levantou da cama, com preguiça e um tanto tonta.

Sam juntou-se a Maritza na observação silenciosa que faziam do mezanino.

- O que elas quebraram? – Sam perguntou sussurrando.

- Um vaso azul. – Maritza respondeu baixinho, sem tirar os olhos da dupla que discutia de forma acalorada lá embaixo. – Isadora chutou o vaso, os cacos voaram longe.

- O que mais eu perdi?

- Nada, só troca de acusações.

Após mais alguns gritos, Andrea ergueu os braços como se desistindo da briga.

- Eu vou embora, eu não vou ficar nessa casa com você. – Andrea disse e saiu na direção do elevador.

- Deixe de ser criança. – Isadora tentou segurá-la pelo braço.

- Eu não quero nunca mais olhar para a sua cara! Me deixe em paz para sempre!

Desvencilhou-se de sua mão e entrou no elevador. Maritza e Sam voltaram correndo para seus respectivos quartos.

- E aí? – Theo perguntou curiosa.

- Andrea vai embora.

- E a Isa?

- Acho que vai também. Não sei. Ah, elas que se resolvam, eu vou dormir. – Sam voltou para a cama se enfiando debaixo da coberta.

- Embora essa hora?

- Elas são grandinhas, Theo.

- Se elas realmente forem embora podem usar o helicóptero, alguém precisa avisá-las, ou então podem usar algum dos carros, posso falar com...

Sam subiu em Theo e a beijou.

- Shhhh, acabou o show.

- Você está tentando fazer eu calar a boca com um beijo?

- Estou. – Sam deu um risinho bêbado e a beijou de novo.

***

Na manhã seguinte, Sam e Daniela preparavam o café na cozinha, conversando de forma descontraída, Sam terminava de fazer uma omelete sem glúten para Theo. Isadora surgiu na porta, ainda com resquícios de maquiagem, trajando apenas uma camiseta e calcinha.

- Preciso de café. – Disse de forma desanimada e foi logo enchendo uma caneca com o café que Sam havia acabado de fazer.

- Bom dia, Isa. – Dani a cumprimentou. – Noite difícil?

- Noite de merda... – Sentou junto a mesa e bebeu do café.

- Onde está Andrea? – Sam perguntou, enxugando as mãos numa toalha.

- Foi embora ontem, teve uma crise de ciúmes e não teve maturidade para assumir seus atos.

- Você deveria ter insistido para ela ficar, para conversar melhor hoje, de cabeça fria. – Dani disse.

- Sabe de uma coisa? Me livrei de uma encrenca, ela que arranje uma santinha para namorar. – Falou com um tom de sarcasmo. – O que tem para comer?

- Nós vamos servir o café para todo mundo daqui a pouco, lá fora. – Sam comunicou, e Dani saiu para a sala de jantar, levando alguns pratos já prontos.

- Sam, você ia ficar louca naquele lugar ontem, estava repleto de garotas lindas, você podia escolher qualquer uma.

- Do que você está falando? Eu já tenho uma. – Sam largou a toalha na mesa.

- Eu digo mulher pra valer, uma mulher de verdade para tirar seu atraso. – Apontou a caneca na direção dela. – Eu sei que você está precisando de um pouco de ação.

- Você está sendo grosseira. – Sam a repreendeu, assustada. - Eu não te dei essa liberdade.

- Relaxa, eu não vou contar nada para Theo, essa conversa fica entre nós, não quero atrapalhar a recuperação dela, coitada, ela faz o que pode.

- Você não sabe do que está falando.

- Todo mundo sabe que você é tipo a babá dela, mas é um grande desperdício, você deve ser um vulcão na cama. – Isadora piscou para ela. – Eu daria conta.

- Eu vo-vou servir o café lá fora, me dê licença. – Sam saiu da cozinha nervosamente, levando duas jarras.

Ao sair da cozinha, Sam deu de cara com Theo, que vinha devagar com suas muletas, acompanhada de Maritza.

- Jesus Cristo! – Sam assustou-se.

- Que foi? Viu assombração?

- Você chegou agora?

- Onde?

- Aqui.

- Não, eu estava acampada na porta da cozinha, tem uma barraca aqui e tudo. – Theo zombou.

- Você tinha prometido não andar de muletas, lembra? Onde está sua cadeira?

- Bom dia, Theo, como se sente hoje? – Isadora passou por ela, a cumprimentando num tom artificialmente simpático.

- Melhor. Andrea já acordou?

- Andrea já deve estar em San Paolo há muito tempo, finalmente estou livre. Hum, adoro omelete de queijo. – Isadora sentou e deu uma garfada.

- Mas...

- Eu faço mais para você. – Sam sussurrou, tentando evitar uma discussão.

- Ok, eu também não quero confusão. – Estendeu o braço direito procurando o rosto de Sam, a muleta pendeu do alto do seu braço, onde estava presa.

- Bom dia, amor. – Sam disse já mais calma, após beijá-la. – Venha para a mesa.

***

Todas desceram para a areia da praia, onde passaram a manhã. Apesar da insistência, Sam recusou-se a trajar algo curto, e para contrapor a teimosia dela, Theo não aceitou levar nem usar nada para respirar melhor. Em contrapartida, Sam não permitiu que ela entrasse no mar de muletas, o que gerou uma leve discussão as deixando um tanto emburradas.

A tarde estava com a temperatura ainda mais alta, mas ninguém topou voltar para a praia ou ficar pelo deque, com exceção de Isadora, que tomava sol na espreguiçadeira com um biquíni mínimo.

Theo e Maritza estavam no quarto multimídia assistindo e ouvindo algo, o outro casal tirava um cochilo, e Sam inventara algo para se ocupar, queria esperar o clima entre elas melhorar. Estava no alto de uma escada embaixo da porta principal da casa, que dava para o deque, consertava as duas câmeras dispostas ali em cima, e que estavam desligadas.

No meio do serviço olhou de relance para fora, avistou Isadora fazendo topless e passando algum óleo bronzeador pelo corpo, onde acabou perdendo seu olhar, esquecendo do que fazia. Letícia voltava da cozinha com uma caneca de chá, e avistou a cena, Sam olhando fixamente para a espreguiçadeira, ela mal piscava.

Balançou a cabeça em desaprovação e seguiu para o elevador, mas antes de entrar desistiu, e resolveu abordar Sam, dando dois tapinhas em sua perna. Sam assustou-se e quase caiu da escada.

- O que foi? – Perguntou assustada a Letícia.

A médica não respondeu, apenas gesticulou com os dedos a chamando para descer e ir até o outro lado da sala para conversar.

- O que você está fazendo? – Letícia a indagou em tom repreensivo.

- Consertando as câmeras de vigilância, elas não estavam aparecendo na central de monitoramento. – Falou nervosamente.

- E as câmeras estão instaladas nos peitos da Isadora?

- A... É... Eu... Eu não sei do que você está falando.

- Que coisa feia, Sam.

- Eu só dei uma olhada, não fiz nada.

- Você estava comendo ela com os olhos.

- Você vai contar isso para Theo? – Sam perguntou num tom de súplica.

- Não, não vou, mas evite esse tipo de coisa, é desrespeitoso para todo mundo.

- Desculpe, não foi a intenção... – Sam disse cabisbaixa, girando uma chave de fenda nas mãos. – Eu só dei uma olhadinha, ela tem o corpo bonito.

- Tá bom, sei que não foi por mal.

- Eu vou terminar as câmeras e vou subir.

Letícia suspirou, a fitando.

- Quer tomar chá comigo? Eu fiz bastante, Dani tá dormindo.

- Quero.

Sam guardou a chave de fenda no bolso do jeans e a seguiu até a cozinha, onde foi servida por Letícia, já sentadas a pequena mesa quadrada.

Letícia deu um longo gole em sua caneca, enquanto olhava Sam de forma analítica.

- Você tem praticado o que eu ensinei? – Por fim perguntou.

- Não, não mais. – Sam respondeu encabulada.

- Por que parou?

- Não havia mais necessidade, já reiniciamos nossa vida sexual.

- Você pode continuar praticando, mal não irá fazer.

- Quem sabe... Talvez.

- E você está satisfeita?

Sam moveu a cabeça de forma hesitante.

- Estou.

- Não me convenceu.

- Eu gostaria de ter uma frequência maior, mas entendo o lado de Theo, as limitações e tal...

- Você parece uma adolescente no auge dos hormônios.

- Não, eu tenho controlado direitinho.

- Não estou te recriminando, estou constatando, ter desejo sexual é bom, espero que você continue nesse fogo para sempre.

Sam apenas bebeu seu chá, cabisbaixa.

- Ok.

- Sam, relaxa, está tudo bem.

- Não comente nada com Theo, ela ficaria chateada.

- Não vou comentar, apenas evite voltar a comer Isadora com os olhos, ela pode interpretar de uma forma errada, você arranjaria um baita problema.

- De forma errada?

- Isa é complicada, ela pode achar que você está dando em cima dela, ela ficaria no seu pé, seria uma merda.

- Entendi. – Sam preferiu não comentar a rápida conversa que as duas tiveram na cozinha logo cedo.

- E volte a se tocar, você precisar ter mais orgasmos.

Sam engasgou com o chá.

***

Letícia voltou ao seu quarto, Sam voltou a mexer nas câmeras, dessa vez finalizando com pressa. Ajeitava a caixa de ferramentas ao lado da escada, quando Isadora surgiu ao seu lado.

- Se você me acompanhar até meu quarto pode olhar o tempo que quiser. – Ela disse baixinho, num tom provocador. – Pode até tirar meu biquíni.

- Você precisa começar a me respeitar, Isadora. – Sam respondeu nervosamente.

- Era você que estava me olhando. – Deu um risinho cínico.

- Não estava olhando nada. – Sam permanecia agachada.

- Ah não? Então vem comigo, prometo fazer um monte de nada com você.

- Me deixe em paz, por gentileza. – Sam fechou a caixa e ergueu-se a carregando.

Isadora se aproximou de forma sensual, mordendo o lábio e a encarando com um sorriso malicioso. Sussurrou com os lábios próximo da orelha dela.

- Vem pra minha cama, eu vou cair de boca em você e te dar um prazer que você nunca sequer chegou perto.

Sam estremeceu, não queria sentir-se assim, mas estava excitada. Não conseguiu se policiar o suficiente, e olhou por um momento para os seios quase desnudos que estavam tão próximos.

- Pare com isso. – Sam a empurrou educadamente e seguiu para os fundos da casa, onde ficava as garagens e as ferramentas.

De lá correu para o banheiro do seu quarto, onde tomou um banho frio.

- Não precisa arrumar as câmeras, eu posso chamar a empresa que cuida disso. – Theo disse quando Sam saiu do banho, ela estava sentada na cama com aparência emburrada, com suas muletas ao lado.

- Já arrumei.

- Obrigada.

- O filme já terminou? – Sam perguntou, enxugando os cabelos, de roupão.

- Terminou, Maritza dormiu na metade.

- Ela é meio narcoléptica.

- Você ia gostar do filme, era de guerra.

- Prefiro paz. – Sam fincou os pés na frente de Theo, segurou seu rosto, o erguendo na sua direção, e deu um beijo demorado.

- Eu também. – Theo disse com um leve sorriso, ao término do beijo.

- Sabe o que faremos essa noite?

- Dormir?

- Vamos jogar pôquer.

- Eu terei um pequeno problema, não enxergarei as cartas.

- Letícia pensou em tudo, ela arranjou um baralho com números e naipes em alto relevo, próprio para cegos que ainda não aprenderam braile.

- Sério? Eu vou limpar vocês, preparem-se.

***

À noite, depois de algumas rodadas de pôquer e drinques alcóolicos, exceto os de Theo que não podia beber por conta dos remédios, os ânimos estavam agitados. Theo cumprira o que prometera, e estava ganhando de lavada das amigas, que já estavam um tanto alteradas.

- Tive uma ideia. – Isadora disse eufórica. – Vamos jogar strip pôquer.

- Aquele em que vamos tirando uma peça de roupa a cada derrota? – Maritza perguntou.

- Exato. O jogo vai ficar bem mais emocionante.

- Não é justo, eu não enxergo. – Theo reclamou.

- Você tem as mãos. – Maritza respondeu, aos risos.

- Sam, o que você acha de eu apalpar as meninas quando elas perderem as roupas?

- Não senhora, ninguém vai apalpar ninguém.

- Viu? – Theo gesticulou para Maritza.

- Ah, vamos lá! – Isadora inflamava o discurso.

- Eu já brinquei na república que morava, era divertido. – Letícia entrou no coro.

- Você quer? – Sam perguntou, pousando sua mão na mão de Theo, estavam sentadas numa mesa redonda na sala.

- Você não quis mostrar a perna na praia, e tudo bem jogar strip pôquer?

- Eu teria que mostrar algum dia, não é?

- Topa, Dani? – Isa perguntou.

- Tudo bem eu topo.

Theo balançou os dedos na mesa, pensativa.

- Ok, mas ninguém tira a roupa de baixo.

- Combinado, nada de tirar a lingerie.

- Lê usa cuecas. – Dani disse rindo.

- São cuecas femininas, e são muito bonitinhas. – Theo respondeu.

- Cuecas femininas? – Sam indagou, com semblante confuso.

- Ok, se eu perder você vai entender o que são cuecas femininas. – Letícia entrou na brincadeira.

Os drinques continuavam rolando pela mesa, e aos poucos as garotas iam tirando suas roupas, Theo era a única invicta, ainda totalmente vestida.

- Como você faz isso? Você nem tá vendo a gente! – Dani questionou Theo, que ganhava quase todas.

- A visão às vezes é uma distração. – Theo disse serenamente.

- E essa aqui perdeu essa rodada de propósito né? – Letícia acusou Isadora.

- Eu nunca fui boa em jogos de cartas. Apenas em outros jogos. – Disse com ironia.

- Ok, vamos terminar essa rodada, finalmente estou na frente. – Maritza disse.

Vinte minutos depois, Sam perdeu e teve que tirar a camiseta, já havia tirado a calça.

- Amor, você está nua? – Theo estendeu a mão, tocando o ombro de Sam.

- Só estou sem calça e sem camisa.

- Só?

- Eu perdi de novo.

- Você precisa sair do jogo, já tirou suas peças, não vai tirar o resto, vai?

- Claro que não.

- Sam está fora. – Dani concordou.

- Vamos parar por hoje? – Letícia convidou.

- Tudo bem, fim de jogo. Nem vou perguntar quem venceu. – Maritza disse.

- Theo não tirou nada, mas eu só tirei a blusa, ainda estou de short, fiquei em segundo lugar. – Letícia disse.

- Protesto! Você estava usando meias! – Dani disse, rindo e a beijando.

- Vamos para os sofás? – Sam convidou, e todas se atiraram nos sofás da sala, ligando a tela a frente, onde passava um filme erótico.

- Quem deixou nesse canal? – Theo perguntou.

- Você emprestou a casa para nós comemorarmos o aniversário de namoro, lembra? – Dani respondeu.

- Lavaram o sofá depois, certo?

- Que exagero... – Letícia disse.

- Sam, você já se vestiu?

- Estou me vestindo, espera.

Sam tinha dificuldades em vestir suas roupas, estava cambaleante.

- Pronto, estou trajando roupas novamente.

- Ah, eu estava gostando da visão de antes. – Isadora brincou.

As seis garotas passaram mais algum tempo pelo chão e sofás da sala, bebendo, vendo programas e conversando. Theo acabou apagando após tomar seus remédios, dormia no sofá, alheia ao mundo. O sono por fim chegou para as outras garotas, que resolveram finalizar a noite, por volta das três da madrugada.

- Quer ajuda para levar Theo? – Maritza se ofereceu.

- Precisa não, vou acordá-la e ela vai andando com as muletas. – Sam respondeu.

- Boa noite para vocês então. – Letícia disse, seguindo para o elevador com Maritza e Daniela.

Sam juntava os copos e pratos espalhados, Isadora a observava.

- Quer ajuda para limpar a sala? – Ofereceu-se solicitamente.

- Não vou limpar, só levar a louça suja para a cozinha, eu não consigo ir dormir deixando essa bagunça para trás.

- Deve ser resquício dos tempos de quartel, não?

- É provável, eu odeio sujeira e desordem.

- Bom, então tenha uma ótima noite. – Saiu devagar para o elevador, e Sam foi para a cozinha levando as louças, equilibrando nas mãos e braços.

Após ajeitar os pratos e copos na pia, abriu a torneira, e levou um susto ao sentir uma mão deslizando em sua cintura.

- Mudei de ideia, acho que posso te ajudar. – Isadora sussurrou.

Sam virou-se rapidamente, a encarando assustada e retraída no balcão da pia.

- Eu não preciso de ajuda, Isa, pode dormir.

- Coloque Theo para dormir lá em cima, depois vá ao meu quarto. – Isadora voltou a pousar sua mão na cintura de Sam, deslizando lentamente para trás.

- Você enlouqueceu?

- Ninguém vai saber de nada, você não precisa se sentir mal, não é traição, é apenas sexo de qualidade. – Sorriu e desceu sua mão para dentro da calcinha de Sam, a assustando.

- Isa, você está extrapolando todos os limites. – Sam desvencilhou da mão dela.

- Eu sabia, você ficou molhada. – Isa lambeu seus dedos maliciosamente.

- Saia da cozinha.

- Estarei te esperando na minha cama, sem roupas, mas deixarei a calcinha para você arrancar com os dentes. – Piscou e saiu.

Sam ficou alguns instantes encarando a porta, recuperando o fôlego. Isadora tinha razão, ela estava excitada com a visita inesperada.

Fechou a torneira e foi para a sala, colocou a cadeira de rodas ao lado do sofá e convenceu uma Theo bastante sonolenta a ir para a cadeira, a conduzindo para o quarto.

Após colocá-la na cama, onde continuou dormindo, Sam seguiu para o banheiro, foi inevitável tomar um banho frio, que não surtiu muito efeito, continuava sentindo-se quente, acesa.

Vestiu sua roupa de dormir e ao sair do banheiro estancou lentamente na porta, onde apoiou-se no batente com o ombro. Assistiu Theo dormindo, de lado, virada na direção dela. Respirava forte, mas não roncava, usava um fino tubo de oxigênio abaixo do nariz.

Ficou assim por algum tempo, com pensamentos conflitantes e vontades indizíveis, não conseguia processar a contento o que sentia, por mais contraditório que fosse, não queria admitir que Isadora havia causado aquilo. Ela sentia-se um tanto carente já há algum tempo. Pensou na possibilidade de aliviar por hora seguindo o conselho de Letícia, masturbando-se, mas temia acordar Theo e ter que lidar com a situação. Tentava apagar da mente a imagem de Isadora e seu corpo escultural a esperando trajando apenas uma calcinha no quarto do final do corredor.

Fechou os olhos com força e saiu da porta do banheiro. Apagou as luzes, ergueu a coberta e deitou-se na cama, virada para fora, com os pensamentos ainda a deixando perturbada.

Alguns segundos depois, sentiu Theo aninhando-se às suas costas, a abraçando por trás, e dando um beijo carinhoso em seu pescoço.

- Boa noite, oficial. – Theo falou cheia de sono, de olhos fechados.

Sam sorriu, e dormiu com a leveza na alma de ter feito a escolha sensata.

***

No sábado de manhã foram novamente para parte baixa da casa, onde ficava a faixa de areia da praia, e com um mar verde e revolto a frente. Dessa vez Theo aparentava melhores condições físicas, e Sam a acompanhou até o mar, para alegria de ambas. Por conta das fortes ondas, não adentraram muito, a água batia às vezes na altura das coxas, o que já significou bastante para Theo, que não sentia o mar em seu corpo há muito tempo.

- Foi sua estreia no mar? – Theo perguntou após o breve banho, já sentadas em cadeiras reclináveis na areia.

- Tecnicamente sim, só o conhecia de vista. – Sam respondeu, com um sorriso contente.

- Uma pena o mar está tão agitado, nem pude te dar caldos.

- Teremos outras oportunidades, enquanto isso me dê caldos na piscina.

Próximo do meio-dia, as garotas voltaram para casa, Theo pediu para ficar na espreguiçadeira do deque, queria tomar mais um pouco de sol. Sam seguiu para um banho no andar superior, a buscaria logo em seguida.

Isadora saiu da cozinha e avistou Theo sozinha semi-deitada no lado de fora, e resolveu ir até lá, sentando numa espreguiçadeira ao lado, fingia tomar sol.

 

 

Volúpia: s.f.: Grande prazer dos sentidos e sensações, grande prazer sexual; luxúria, qualquer sensação muito prazerosa.

Capitulo 28 - Lampejo por Cristiane Schwinden
Capítulo 28 – Lampejo

 

- Isa? É você aqui do lado?

- Sim, vim tomar um pouco mais de sol, o dia está lindo, talvez amanhã não tenhamos essa sorte.

- Espero que a previsão esteja certa, até porque é o aniversário de Sam, eu planejei um luau.

- Sam sabe?

- Sabe, no início não gostou da ideia, mas agora já está de acordo.

- Vai fazer contra a vontade dela?

- Não é contra a vontade, ela já concordou.

- Você percebe o quanto ela se anula por sua causa e para fazer suas vontades?

- Que?

- Sam abriu mão da vida dela para fazer suas vontades, e para ser sua babá, tomar conta de você. Eu me pergunto, você não sente remorso de estar fazendo isso com ela?

Theo baixou as sobrancelhas um tanto cética do que estava ouvindo.

- Eu não obrigo Sam a nada.

- Ela é ingênua, ela tem pena de você e faz qualquer coisa para te deixar confortável, inclusive abrindo mão de ter uma personalidade e desejos próprios.

- Isa, você está falando um monte de merdas.

- Estou? Você está negligenciando uma vida normal a ela só porque a sua vida não é normal, o nome disso é egoísmo, você está anulando essa garota porque precisa de um capacho para tomar conta de você.

- Você está criando essas teorias baseada em que?

- Não são teorias, são testemunhos. Escute, eu entendo que você tenha limitações, pessoas com essas deficiências precisam se privar de algumas coisas, como por exemplo de ter uma vida sexual ativa, mas não leve outras pessoas nesse barco da morte com você, guarde seus problemas.

Theo ficava cada vez mais estarrecida com as colocações de Isadora.

- Sam reclamou com você? – Theo havia finalmente caído no jogo dela.

- Eu soube que a vida sexual de vocês é horrível, e é perceptível, basta conviver três dias com vocês.

- O que é perceptível?

- Sam está louca para ir para a cama comigo, mas continua resistindo e abrindo mão de seus próprios desejos e necessidades porque tem pena de você, não quer te magoar, vai que você tem algum piripaque.

- Você criou essa fantasia na sua cabeça.

Isadora riu abertamente, com deboche.

- Pobre criança cega, que não enxerga o que acontece debaixo do próprio nariz. Desde que cheguei aqui que ela não consegue tirar os olhos de mim, às vezes fico constrangida com os olhares demorados no meu corpo, e tenho certeza que as outras meninas já perceberam também, mas não comentam com você para que não surte ou tenha uma convulsão.

- É mentira. – Theo respondeu com nervosismo.

- Pergunte para suas amigas. Ou melhor, pergunte para Sam, quero ver se ela terá coragem de mentir descaradamente.

- Você está inventando essas coisas, ainda não sei o porquê.

- Theo, deixe de ser egoísta, Sam está desesperada para fazer sexo comigo, deixe ela livre, deixe que ela faça o que ela quiser, não a sufoque nesse relacionamento de mentirinha que vocês levam.

- As coisas não são assim...

- Oi, amor, vamos lá para cima tomar banho? – Sam chegou no deque.

Theo não respondeu, ainda estava atordoada.

- Você está bem? – Sam se aproximou da sua espreguiçadeira.

- Sim, acho que o sol não me fez bem.

- Eu percebi que ela não estava passando bem, vim aqui lhe fazer companhia até você chegar. – Isa disse.

- Acha que vai ter uma convulsão? – Sam perguntou preocupada.

- Não, eu vou ficar bem quando deitar lá em cima.

Após o banho, Theo deitou-se e ficou calada em sua cama, com um olhar vazio e fixo no chão. Algum tempo depois Sam voltou a chamando para almoçar, mas Theo recusou.

- Não se sente bem o suficiente para descer?

- Se importa se eu almoçar aqui? – Theo pediu.

- Não, claro que não, vou trazer seu almoço.

Sam retornou com uma bandeja cinco minutos depois, acomodando sobre o colo de Theo, na cama.

- Já está tudo cortado e separado.

- Obrigada. Você não vai almoçar?

- Já almocei. – Sam fazia manutenção nos tubos e cilindros.

- Agora?

- Uhum, comi rapidinho e trouxe seu almoço.

Theo ainda não havia comido, apenas mexia na comida a frente.

- Sam, isso não está certo.

- Eu trouxe alguma coisa que você não gosta? Posso ir lá buscar mais de alguma outra coisa.

- Não, não é isso. – Theo parecia incomodada. – Você não pode deixar de fazer alguma coisa por minha causa, nem comer rapidinho para me trazer o almoço.

Sam sentou na cama, de frente para ela, com semblante confuso.

- Theo, eu ainda não entendi do que você está reclamando, é do bife?

- Não estou reclamando, eu quero que você tenha uma vida normal. As outras garotas estão lá embaixo comendo sem pressa, você deveria estar fazendo o mesmo.

- Eu não quero almoçar de novo, estou de barriga cheia, eu juro, comi o suficiente.

- Ok, deixa para lá.

- Tente ser mais específica, o que está acontecendo?

- Nada, ideias desagradáveis na minha cabeça. Desculpe perturbá-la, esqueça. – Deu um suspiro e iniciou sua refeição.

Sam ficou algum tempo sentada ali, pensativa.

- Foi a Isadora que te deixou assim?

- Não, eu já pedi, esquece isso.

- Ok... – Sam não estava convencida de que não era nada, mas preferiu deixá-la comer em paz.

Theo finalizou a refeição e ergueu a bandeja, a colocando do seu lado.

- Posso tirar daqui? – Sam perguntou.

- Pode sim, depois eu levo para a cozinha na cadeira de rodas.

Sam colocou a bandeja em cima de uma cômoda, e voltou a sentar na cama, agora mais próxima de Theo.

- Você tem planos para essa tarde? – Sam indagou.

- Dormir.

- Pretende passar a tarde desse dia lindo de sol na cama?

- Pretendo.

- Não senhora. – Sam levantou e trouxe as muletas para o lado da cama.

- Não o que?

- Aqui estão suas muletas, nós duas vamos lá para o deque, eu vou ler para você, e se você acabar dormindo, tudo bem.

Theo não respondeu de imediato, analisou o pedido que se assemelhava com uma ordem. Destampou-se, jogando a coberta de lado, e sentou na lateral da cama.

- Você lê muito devagar.

- Eram contos de terror, a leitura precisa de mistério.

- Então leia outro gênero hoje.

- Vamos descer, lá você escolhe.

Pouco tempo depois ambas já estavam deitadas numa espreguiçadeira no deque, abrigadas do sol. A temperatura havia caído um pouco, o calor estava indo embora.

- Preferia ter ficado lá em cima? – Sam perguntou um tempo depois.

- Não, aqui está gostoso. – Theo ajeitou-se sobre ela.

- É porque sou gostosa. – Sam brincou.

Theo riu abertamente.

- Eu sempre soube disso.

Quando Sam via Theo finalmente relaxando e abrindo um sorriso, sentia como se o sol voltasse a surgir entre as tempestades.

- Que mentira.

- Eu peguei a mais gostosa do quartel.

- Como você disse certa vez? Que você roubou a mulher do major, lembra?

- Roubei mesmo, não me arrependo de nada. Roubaria de novo. Roubaria mais cedo, inclusive.

Foi a vez de Sam rir.

- Que nada, você estava esperando que eu desse o primeiro passo.

- Mas depois que você veio para o meu time, eu deveria ter dado logo o bote. Mas não, fiquei cheia de dedos, respeitando seu noivado. Deveria era ter jogado seu comunicador fora e fugido com você para bem longe do major.

- Você agiu dentro do tempo certo, se fosse rápida demais teria me assustado e eu que teria fugido.

- Depois de provar do outro lado do arco-íris? Duvido.

- Que pretensão, eu poderia estar apenas com minha sexualidade confusa.

- Sam, dá para perceber o quanto você gosta disso a quilômetros de distância.

- Eu gosto disso tudo com você, a culpa é sua, fui corrompida.

- Antes tarde do que nunca, não é?

- Serei eternamente grata por ter me colocado nesse caminho pecaminoso.

- Amém.

Sam lia uma ficção científica de robôs para Theo, que depois de algum tempo ajeitou-se, aconchegando-se ao seu lado, fechando os olhos. Não demorou para que Sam percebesse que ela havia adormecido, interrompendo a leitura.

Por um longo momento a soldado esqueceu dos problemas que a rodeavam, provou plenamente do momento de paz que a invadia. Estava deitada confortavelmente num pequeno pedaço de paraíso, tendo como companhia o mar, uma brisa amena, um livro, e a mulher que amava adormecida junto ao seu corpo. Era um daqueles momentos de se guardar para reviver na memória tantas outras vezes, principalmente após analisar a trajetória do caminho que a levou até ali. Sentiu-se afortunada, sentiu-se amada, sentiu a efemeridade de um momento feliz, e descobriu onde esse sentimento se escondia.

***

Após o jantar, as seis garotas passaram algum tempo do lado de fora, num local do deque onde havia redes e um grande banco, formando uma espécie de varanda. Os assuntos eram leves, bebiam vinho descontraidamente, Dani contava sobre as compras que havia feito a tarde, para a comemoração do aniversário de Sam, um luau no dia seguinte.

As onze da noite o alarme no comunicador de Sam tocou, avisando que era hora de Theo tomar alguns remédios. Resolveram subir juntas e não mais retornar, Theo estava com sono.

- Já vai? A noite nem começou ainda, Theo. – Isadora espetou.

- Depende, a minha noite ou a sua? – Theo ergueu-se nas muletas.

- Bom, a minha ainda terá algumas horas de vinho pela frente, apenas isso. – Letícia brincou, erguendo uma garrafa.

- Por que não saímos? Vamos dançar um pouco, estão parecendo velhas doentes. – Isa disse.

- Eu passo – Dani respondeu.

- Nós vamos subir para dormir, obrigada pelo convite. – Sam respondeu polidamente.

- E então, Maritza? – Isadora a questionou.

- Ãhn, não tenho planos.

- Então me acompanhe! Vamos pegar uma festa na vila, que acha?

Maritza olhou para Sam, indecisa.

- Ritz, a vida é sua, se tiver a fim vá se divertir um pouco, é bom dar uma saída. – Sam disse.

- Acho que vou. – Maritza animou-se.

Sam deu seu último gole de vinho, largando o copo uma mesinha. Pousou a mão no ombro de Theo, e despediu-se, dando boa noite.

O casal chegou à sua suíte, Sam ministrou os remédios à namorada, por fim a abraçou pela cintura, lhe dando um beijo rápido.

- Vou tomar um banho, precisa de ajuda com algo? – Sam ofereceu-se.

- Não. E então, gostou do vinho que escolhi? – Theo preparava a cama para deitar.

- É ótimo, só me doeu o coração quando Letícia disse o valor dele. – Sam respondeu já dentro do banheiro, enquanto tirava a roupa.

- Me doeu o coração quando me dei conta que não posso beber. – Theo respondeu, rindo.

Sam saiu do banho minutos depois, apagando as luzes e deitando ao lado de Theo.

- A temperatura caiu, lá se vai o pequeno verão de agosto. – Sam comentou.

- Podemos levar cobertores para o luau. – Theo brincou.

- Ficarei próxima da fogueira. – Sam terminou de se ajeitar na cama e apagou a última luz, sobre a cabeceira.

- É uma boa tática, defumar-se.

- Boa noite, amor.

- Boa noite, Sam.

- Eu escovei os dentes, pode me dar um beijo de boa noite sem receio, prometo que não sentirá o gosto do vinho de dois mil dólares.

Theo sorriu e ergueu-se sobre Sam, lhe dando um beijo rápido nos lábios.

- Boa noite, bebedora de vinho. – Theo disse ainda sobre ela.

- Boa noite, minha cara abstêmia.

Sam roubou outro beijo rápido, assustando Theo. Subiu a mão até o rosto de Sam, encontrando os lábios, e a beijou demoradamente.

- Não era beijo de boa noite? – Sam brincou.

- Depende... – Theo beijou o canto de sua boca. – Você quer uma boa noite, ou uma ótima noite?

- E qual a diferença?

Theo lhe deu outro beijo sem pressa.

- Na boa, nós vamos dormir agora. Na ótima, não dormiremos tão cedo. – Theo sussurrou com os lábios encostados na orelha de Sam.

- Eu não estou com o menor sono. – Sam sorriu com malícia, e girou para cima de Theo, mergulhando num beijo inflamado.

Sam acendia em milésimos de segundos, Theo precisava de alguns minutos, e Sam sabia disso, sabia também como encurtar esse caminho.

Após subir despretensiosamente a camiseta de Theo, sem cessar o beijo, chegou o momento de mergulhar em outro lugar, em seus seios, os pontos estratégicos que traziam os arrepios e os suspiros fortes.

Agora a cama estava igualmente inflamada, apenas o sentir era permitido. Levava algum tempo para Theo desligar-se do mundo ao redor, dos problemas, das limitações, mas ela dividia a cama com alguém que aprendera a observar. O método ação e reação já não era exclusividade de Theo e sua falta de visão, Sam havia assimilado os dados sensíveis e invisíveis, a árdua luta para deixá-la confortável estava sendo vitoriosa.

Algum tempo depois, mais uma batalha ganha, Sam já subia lentamente pelo corpo nu e espasmódico de Theo. Entre um beijo e outro em sua pele, sorria satisfeita com a visão de Theo ainda de olhos fechados, respirando forte. 

Ao chegar em seu pescoço, Theo abriu os olhos e deitou seus dedos entre as mechas de cabelo de Sam, a trouxe para um beijo.

- Sam, você nasceu para isso. – Theo disse séria e ainda ofegante, segurando seu rosto com ambas as mãos.

- Não, é só uma fase. – Sam respondeu rindo.

- Então vou aproveitar ao máximo essa fase, deve ser sua fase de ouro. – Theo sorriu também, e abraçou com seus braços coloridos.

Na hora seguinte Theo retribuiu. Três vezes.

Depois de toda ação, o cansaço e o sono vieram, e Sam adormeceu, com a cabeça sobre o ombro de Theo. Quando as respirações retomavam o ritmo e a adrenalina ia embora, os monstros voltavam a invadir a mente da jovem herdeira, que não conseguia dormir.

Afagava carinhosamente os cabelos da namorada adormecida e babona, enquanto a conversa com Isadora logo cedo populava seus pensamentos. Era visível, até mesmo para Theo que não enxergava, que Sam estava em outro ritmo, repleta de energia sexual e fome de viver. Era difícil processar todas as informações, seu cérebro falhava no meio da linha de raciocínio, estava incomodada.

Theo enxugou a baba em seu ombro e no rosto de Sam, a tirou cuidadosamente de cima de seu braço, a acordando de leve.

- Ãhn?

- Continue dormindo, vou lá fazer companhia para Dani e Lê no deque.

- Quer que eu te leve?

- Não, durma. – Beijou sua cabeça e saiu da cama.

Tateou a cama procurando suas roupas, vestiu-se e desceu as escadas de mármore branco cuidadosamente, de muletas, degrau por degrau. Esquecera que havia agora um elevador ao lado.

- Aceitam companhia? – Anunciou sua presença para o casal, que continuava com seus copos e numa conversa lenta.

- Claro, venha aqui.

Letícia, que estava num banco largo cheio de almofadas, levantou-se e trouxe Theo pela mão, sentou recostada na lateral do banco, e deitou Theo em seu colo, a abraçando por trás. Dani estava se balançando lentamente na rede em frente.

- Não está com frio só com essa camiseta curta, Theo? – Dani perguntou.

- Acho que sim, esqueci que aqui fora esfriou. – Disse encolhida.

Dani colocou uma manta clara sobre as duas, Letícia esfregou os braços de Theo.

- Agora está perfeito.

- O que faz aqui, minha fugitiva? – Letícia deu um beijo carinhoso em seu rosto.

- Vim espairecer com vocês.

- Brigaram?

- Não, pelo contrário.

- Qual o contrário de brigar?

- O que você acha que é?

- Ah, entendi. – Letícia sorriu.

- Sam está dormindo?

- Está, mas eu não consigo dormir.

- Preocupada com o luau? Eu já cuidei de tudo. – Daniela disse.

- Não... Vocês me responderiam algo estranho se eu perguntasse?

- Claro, vindo de você não estranho nada. – Letícia rebateu.

- Sam parece a fim da Isadora?

- A Samantha que está lá na sua cama agora? Claro que não. – Letícia respondeu.

- Mas ela fica olhando para a Isadora, não fica? Com segundas intenções.

Letícia apressou-se em erguer a mão e gesticular negativamente para Daniela, para que ela não falasse nada.

- Acho que ela olha tanto quanto a gente, a Isadora chama a atenção, mas nada além disso, ninguém tem segundas intenções, nem Sam parece ter.

- A Isa é uma encrenca, ninguém aqui é maluco. – Dani falou rindo.

- Sam te falou alguma coisa? – Letícia perguntou cheia de dedos.

- Não. – Theo parecia reflexiva, com o olhar perdido.

- Então o que te incomoda?

- Isa deve ter falado alguma besteira, não é? – Daniela disse, já conhecendo a amiga.

- Ela me disse que Sam não tira os olhos dela.

- Isadora estava provocando você, não caia nessa. – Letícia protestou.

- Quer mais, Lê? – Dani ofereceu vinho.

- Quero sim. – Estendeu seu copo para a namorada.

- Vocês se recordam quando estavam descobrindo sua sexualidade, quando se envolveram com alguém do mesmo sexo pela primeira vez? – Theo perguntou.

- Sim, onde você quer chegar?

- Quando vocês se descobriram, qual foi a primeira pessoa com quem se relacionaram?

- Eu namorei uma amiga do 9º ano, dois meses depois ela me trocou por um amigo nosso, achei que ia morrer, parecia o fim do mundo. – Letícia contou, rindo.

- Comigo foi parecido, mas foi com uma professora do segundo ano da faculdade de Design. Só que eu que dei o fora nela, não que eu também não tenha sofrido, mas... – Dani disse.

- Em algum momento vocês acharam que seria para sempre?

- Claro, eu já tinha escolhido os nomes dos quatro filhos que teríamos, tinha certeza que ia casar com aquela menina. – Letícia disse.

- Confesso que também tinha certeza que nos casaríamos no dia da formatura... – Dani riu.

- Conseguem imaginar casadas hoje em dia com essas pessoas? – Theo continuou o questionamento.

- Deus me livre! – Dani respondeu.

- Ah, ok, eu acho que estou entendendo onde você quer chegar. – Letícia disse agora com a voz séria.

- Minha primeira namorada provavelmente vocês sabem que foi, porque o mundo todo viu nossas fotos íntimas. – Theo ia dizendo. – Eu namorei alguns meses com a Janet, estava apaixonada, achava que seria para sempre, e hoje em dia não consigo nem olhar para ela, aquilo foi apenas um lampejo.

- Theo, você é muito mais que a primeira namoradinha lésbica da Sam, não compare.

- Ela se descobriu ao meu lado, mas ela tem muito o que experimentar ainda. Sam vai conhecer várias outras camas, provavelmente ficará com outros homens também, e vai se apaixonar por tantas outras pessoas, é assim que a vida segue. – Theo dizia com tristeza.

- Por que não deixa o destino se encarregar disso e aproveita o agora? Sam quer estar com você, ela deixa isso bem claro.

- E não significa que Sam está apaixonada pela Isa só porque ela a come com os olhos. – Dani disse.

- Daniela! – Letícia a repreendeu.

- Desculpe, não foi isso que eu quis dizer, ela não faz isso, ok? – Daniela tentou consertar.

- Eu já desconfiava, Dani, relaxa. – Theo respondeu.

- Quer vinho? – Daniela estendeu a garrafa.

- Eu não posso beber, mas obrigada.

- Talvez Sam fique com você por alguns anos, por algumas décadas, ninguém sabe o que pode surgir. Inclusive você pode se apaixonar por outra pessoa e abandoná-la. – Letícia disse.

Theo ajeitou-se no colo confortável de Letícia, virando de lado.

- É...

- Como está a vida sexual de vocês? – Lê perguntou.

- Satisfatória quando tem.

- E como foi hoje?

- Foi ótimo, meu braço está todo dolorido, ela precisa de um batalhão para dar conta.

- Já sei o que dar de presente para ela de aniversário, vou a uma sexshop amanhã cedo. – Letícia brincou.

- Bem que eu queria ter encontrado minha caixa de brinquedos, mas meu pai deve ter jogado fora.

- Já procurou na garagem da última cada de visitas? Tem coisas suas lá. – Letícia disse.

- Tem?

- Sam disse que tem algumas tranqueiras suas, ela achou meus brincos de pérola lá.

- Aqueles que você me deu?

- Na-na-ni-na-não, eu te emprestei. Lembra o que eu disse quando terminamos? Pode ficar com todos os brinquedos sexuais que compramos juntas, mas os brincos eu quero de volta.

- Agora eu lembro. – Theo deu um sorrisinho.

- Theo, acho que você deveria trocar sua mão mecânica por um vibrador. – Dani disse, arrancando gargalhadas de todas.

Isadora e Maritza apareceram no deque, alegres e alcoolicamente extrovertidas.

- Só viemos dar boa noite. – Maritza disse, segurando os sapatos numa mão.

- E dizer que vocês perderam uma festa maravilhosa. – Isadora continuou.

- Ok, nós vamos na próxima, vão dormir agora. – Letícia disse.

As duas garotas subiram conversando em voz alta, fazendo uma bagunça.

- Hey, vocês vão acordar a Sam! – Theo recriminou.

- Não tem como baixar o volume da Isadora quando ela bebe, esqueça. – Dani disse.

- Estou desenvolvendo sentimentos não muito nobres por sua amiga. – Theo resmungou.

- Nunca mais a convidarei para sair com a gente, prometo. – Daniela comentou.

As três ficaram mais algum tempo na varanda, Letícia e Daniela já não bebiam, o sono ia chegando para todas.

Letícia pegou o comunicador e mandou uma mensagem para Daniela, que leu prontamente.

“Quer ver como faço ela dormir em alguns segundos?”

“Como?” – Dani respondeu.

- Se amanhã chover a gente faz uma fogueira dentro de casa. – Theo refletiu, continuava deitada de lado sobre Letícia, com os olhos pesados.

- Uma fogueira enorme, até o teto. – Dani respondeu.

Letícia começou a mexer carinhosamente na orelha dela, em um minuto Theo havia adormecido.

- Eu não te falei? – Letícia sussurrou para Daniela.

- Qual é o lance da orelha?

- Uma vez ela me contou que dormia mexendo na orelha quando era criança, já fiz isso várias vezes, sempre dá certo, ela capota.

As duas riram, Dani levantou-se com preguiça da rede, permanecendo sentada e bocejando.

- E agora como faz para levar para a cama?

- Agora a gente acorda. – Letícia sacudiu de leve seu ombro. – Psiu, vamos dormir?

- Hum?

- Vamos para nossos respectivos quartos?

- Ah, vamos. Eu apaguei, desculpe.

Letícia ajudou Theo a subir para seu quarto, com suas muletas desajeitadas, Dani também subiu, mas seguiu para o outro lado, para o quarto dela.

Ao abrir a porta do quarto, Letícia conduziu Theo até próximo da cama e parou abruptamente.

- Mas o que vocês pensam que estão fazendo?? – Letícia vociferou.

Isadora dormia abraçada por trás em Sam, ambas estavam sem roupas.

 

 

Lampejo: s.m.:  1. clarão ou brilho momentâneo. 2. faísca, centelha; cintilação. 3. Figurado: rasgo de sentimento que pode ser intenso mas é de curta duração.

Capitulo 29 - Perfídia por Cristiane Schwinden
Capítulo 29 – Perfídia

 

- O que foi, Lê? – Theo perguntou assustada, sem entender o que acontecia.

- Isadora está na sua cama, com Sam. – Letícia disse incrédula.

Sam havia acordado assustada, sentou-se rapidamente cobrindo-se com o edredom. Isadora apenas virou-se, continuando deitada, e cobriu seus seios.

- Isa?? – Sam olhou para o lado arregalada.

- Sam, o que essa vagabunda está fazendo na minha cama? – Theo indagou.

- Olha como fala comigo.

- Eu não faço ideia! – Sam respondeu com nervosismo e bochechas vermelhas.

- Isa, pelo amor de Deus, saia daí e se vista. – Letícia ordenou com impaciência.

- Eu não acredito que você fez isso, Sam... – Theo resmungou.

- Eu não fiz nada, eu não sei como essa mulher veio parar aqui, achei que era você!

Theo deu um sorriso triste de lado, sem acreditar.

- Mesmo que você fosse cega, acho que você perceberia se fizesse sexo com a mulher errada, não acha?

- Eu não fiz sexo com ninguém, eu estava dormindo, eu não fiz nada depois que você saiu.

- E qual a explicação para ambas estarem nuas? – Letícia perguntou.

- Theo, eu adormeci sem roupas hoje depois de... Depois que fizemos amor, lembra disso? Eu continuei dormindo, eu não me vesti, estava morrendo de sono.

- E ela?

- Eu não faço ideia!

- Bom, eu sei o que aconteceu, mas melhor deixar a sua versão. – Isadora disse, já com seu vestido vermelho justo.

- Eu percebi essa mulher aqui no mesmo momento em que vocês perceberam, eu juro, eu estou falando a verdade, eu não fiz nada com ela – Sam já estava chorando, segurando com força o edredom abaixo do queixo.

- Samantha, você quer que eu acredite que você não percebeu que tinha uma mulher nua grudada nas suas costas? – Theo perguntou.

- Eu achei que você havia voltado para a cama.

Isadora riu, com deboche.

- Essa não está colando, Sam, tente outra desculpa.

- Que merda você pensa que está fazendo?? – Sam se dirigiu à Isa, com raiva.

- Você não se preocupou com isso antes. – Isa ironizou.

- Isadora, saia do quarto. – Letícia rosnou.

- O que está acontecendo? – Daniela entrou no quarto.

- Dani, tire essa mulher daqui, depois conversamos. – Letícia disse apontando para Isadora.

- Não preciso de ninguém para sair. – Isadora disse erguendo os braços, e saiu do quarto, Dani a acompanhou.

- Theo, me ouça... – Sam tentou.

- Estou ouvindo.

- Eu não fiz sexo com ela, eu não sabia que ela estava aqui na cama, muito menos nua.

- Desculpe, mas sua versão é absurda demais, Sam. – Theo estava respirando rápido, com raiva.

- Eu não faria isso com você! Theo, mesmo se eu tivesse coragem, você acha que eu faria isso na sua casa, na sua cama?

- Você já fez uma vez.

- A situação era bem diferente, você sabe disso.

- Você estava louca para pegar a Isadora, há dias!

- Theo, acho melhor você se sentar. – Letícia murmurou.

- Estou bem. Lê, você pode nos deixar a sós?

- Tem certeza?

- E estou bem, juro.

- Ok, estarei no meu quarto.

Theo aguardou Letícia abandonar o recinto, e sentou-se no final da cama.

- Você vai me ouvir? – Sam tentou.

- Vista-se.

- Ok.

Sam saltou da cama, recolheu nervosamente suas roupas e vestiu.

- Eu não sabia, eu estou...

- Cale a boca e sente-se aqui. – Theo a interrompeu, colocando a mão sobre seu lado na cama.

- Ok.

As duas estavam agora em silêncio, sentadas lado a lado no final da cama, cabisbaixas. Theo estava séria, Sam transtornada.

- Me conte tudo que aconteceu, não apenas hoje, mas tudo que vem acontecendo desde que chegamos nessa casa. – Theo pediu de forma sisuda.

- Com Isa?

- Sim, entre você e Isadora.

- Nada, não aconteceu absolutamente nada.

- Eu já sei que você estava se sentindo atraída por ela e a comia com os olhos, então te darei apenas mais uma chance de ser honesta comigo, não desperdice, se continuar mentindo você não vai chegar a ver a luz do dia nessa casa.

- Eu não... – Sam fechou os olhos com força antes de voltar a falar. – Eu a olhei algumas vezes, mas foi sem querer, eu não me sinto de fato atraída por ela, só a considero uma mulher bonita, sensual.

- Continue, e não esqueça da sinceridade.

- Um dia ela me cercou na cozinha, colocou a mão na minha cintura, me fez alguns convites indecentes, mas eu não fiz nada, eu a mandei embora.

- O que mais?

- Ela me provocou algumas vezes, mas nunca foi retribuído, nunca permiti nada, ou dei a entender que poderia rolar algo. Apenas quis te poupar dessas besteiras dela, não queria correr o risco de estragar o feriado.

- Continue.

Sam fechou os olhos, e disse num tom culpado.

- Me senti excitada por ela algumas vezes, quando ela provocava.

Theo ergueu as sobrancelhas.

- Você está indo muito bem. E hoje à noite?

- Eu não fiz sexo com ela.

- O que vocês fizeram?

- Eu não sei o que ela fez, mas eu não fiz nada.

- Mas sabia que ela estava na cama, não sabia?

- Não, eu não sabia. Eu estava dormindo e percebi alguém deitando na cama, eu estava virada para fora, nem abri os olhos, não havia acordado totalmente. Senti um braço passar por cima de mim, achei que era você, que você havia voltado para a cama.

- Vocês não trocaram nenhuma palavra?

- Eu não sei se ela falou algo, eu só perguntei se estava tudo bem com você, acho que ela não respondeu, ou só fez uhum, eu não lembro de ter escutado alguma voz.

- Você não desconfiou em momento algum que não era eu que estava te abraçando? Você não é tão tapada assim, você estava nua, Sam.

- Não, não desconfiei, eu queria continuar dormindo, só isso, você sabe porque eu estava exausta.

- O que ela fez com você enquanto isso?

- Não sei, espero que nada.

- Não lembra de nada?

- Ela subiu e desceu a mão algumas vezes, por um instante achei que era você querendo fazer amor de novo, mas acabei apagando.

Theo trincou os dentes com raiva.

- Que merda descomunal tudo isso... – Resmungou.

Sam aguardou Theo falar algo, mas nada aconteceu. Levantou da cama e ajoelhou entre as pernas dela, em desespero.

- Theodora, por favor acredite em mim, eu não fiz isso que ela disse, nem o que pareceu. – Sam segurou firmemente as pernas dela. – Eu juro, em nome de Deus, eu juro que não fizemos sexo, você precisa acreditar na minha palavra, eu te peço... – Sam soluçou.

- Você está chorando? – Theo procurou o rosto dela.

Sam não respondeu, apenas baixou a cabeça, envergonhada.

- Não chore, não chore, ok? – Theo ergueu seu queixo, e enxugou seu rosto.

- Ok.

- Levante-se, sente aqui de novo.

Sam atendeu prontamente, sentando ao seu lado. Theo tateou procurando a perna e a mão dela, quando encontrou, entrelaçou seus dedos e segurou firme.

- Eu acredito em você, em quase tudo que você disse.

Sam suspirou com alívio.

- Não é o tipo de coisa que espero de você, seus vacilos seguem outro padrão. – Theo continuou.

- Eu admito que a olhei de um jeito que não deveria, mas não cedi em nenhum momento. Eu já pisei na bola algumas vezes, estou aprendendo, eu respeito você e nossa relação.

- Mas ela não.

- Não, ela não respeita ninguém. – Sam disse.

- Eu sei, ela quer nos dividir, nos jogar uma contra a outra.

- Sim! Desde o primeiro dia ela tem nos provocado, ela deve ter falado coisas para você também, não falou? Ela faz intrigas!

Theo virou-se na direção dela, soltando sua mão.

- Acalme aqui e aqui. – Theo disse já com uma voz acolhedora, colocando a mão em sua cabeça e no alto do seu peito em seguida. – Está resolvido, pode aquietar o coração.

Sam a encarou com um sorriso juvenil, e a beijou. Theo não permitiu que o beijo se estendesse.

- Eu preciso de algumas coisas, com certa urgência. – Theo disse, tentando parecer calma.

- Do que?

- Eu vou ter uma convulsão dentro de alguns segundos, pegue os remédios anti convulsivantes e ligue o oxigênio.

Sam saiu correndo, abrindo afoitamente a gaveta onde ficavam alguns dos remédios separados metodicamente. Voltou na mesma velocidade e a deitou em seu lado na cama, baixou sua calça e aplicou uma injeção em sua coxa.

- A máscara. – Theo pediu já com a respiração descontrolada.

A fez engolir mais alguns remédios antes de colocar a máscara em seu rosto.

- Esqueci alguma coisa? – Sam perguntou de forma apreensiva.

- Não, segure minha mão.

Em instantes Theo fechou os olhos com força, enquanto apertava a mão da namorada, que estava sentada na cama, em posição de lótus de frente para ela, acompanhando apreensivamente.

Segundos depois, Theo abriu os olhos devagar.

- Conseguimos evitar? – Sam perguntou.

- Conseguimos. – Theo respondeu baixinho, ofegante.

- Quer que aumente o oxigênio?

Theo apenas balançou a cabeça positivamente.

Sam aguardou de forma atenciosa as coisas voltarem a normalidade, ainda sentada a observando.

- Os remédios farão efeito, você vai pegar no sono rapidinho.

Theo balançou a cabeça, concordando.

- Agora que você está sob controle, eu vou lá expulsar aquela intrusa.

- Não, chega disso por hoje.

- Não vai expulsá-la?

- Amanhã de manhã, amanhã resolvemos. Estamos no meio da madrugada, venha dormir, deite aqui comigo. – Theo falava por trás de sua máscara. – Mas tome um banho antes.

- Você que manda.

Sam enfiou-se depois debaixo da coberta, enquanto se ajeitava Theo aninhou-se lentamente em seu ombro, fazendo uma bagunça de tubos.

- Espera, assim acordaremos enforcadas. – Sam ajeitou a máscara e o tubo, por fim a abraçou.

O único barulho no quarto agora era o leve soprar do oxigênio, a paz voltara, Sam apagou a última luz ainda acesa.

Theo falou algo que Sam não compreendeu.

- O que?

- Feliz aniversário. – Theo disse com os olhos baixos de sono.

- Ah. Obrigada. – Sorriu e beijou sua testa.

Não demorou muito para que finalmente fechasse os olhos, Sam fez o mesmo.

- Ela pegou nos seus peitos? – Theo voltou a abrir os olhos e perguntar.

Sam suspirou antes de responder.

- Pegou.

Theo balançou a cabeça de leve, em desaprovação.

- Não quero que ninguém pegue nos seus peitos.

- Eu sei, eu entendo sua chateação, também não gostaria que pegassem nos seus.

Um minuto depois, Theo subiu sua mão maliciosamente, acariciando devagar os seios de Sam, por dentro da camiseta vermelha.

- Você está verificando se eles ainda estão no mesmo lugar?

- Estou.

- Ok. Não tenha pressa.

Theo finalmente apagou, com a mão dentro da camisa.

***

O comunicador de Sam tocou as oito da manhã, horário de mais remédios. Theo engoliu sem sequer abrir os olhos, tamanho o sono que ainda ostentava. Sam não conseguiu voltar a dormir, resolveu ir para cozinha preparar o café para todos, encontrou Letícia por lá, havia tido a mesma ideia, e juntou-se a ela.

Poucos minutos depois Isadora surgiu no corredor do piso superior, com passos lentos e observadores, sentiu o cheiro do café e dos alimentos sendo preparados, desceu o elevador e espiou rapidamente para dentro da cozinha, avistando Sam e Letícia. Abriu um sorrisinho e subiu novamente pelo elevador, não retornou ao seu quarto, tomou a direção da suíte principal.

Abriu as persianas de uma parede de vidro do quarto, que tinha vista para o deque e o mar, abriu também a janela, o barulho acordou Theo.

- Sam? – Theo perguntou de sobrancelhas baixadas, tateando ao seu lado, usava ainda a máscara.

- Não, ela está fazendo o café para nós. – Isa respondeu, permanecendo de pé próximo à janela.

- Isa. – Constatou, com um arrepio na espinha.

- Eu vim me despedir, e pedir desculpas por ontem.

- Se você tivesse vergonha na cara já teria ido embora há muito tempo. – Theo rebateu irritada.

- Que falta de educação é essa, Theodora? Onde aprendeu isso?

- Como você vem como convidada para uma casa, e faz essas merdas todas? E ainda vem falar em falta de educação? – Theo ficava cada vez mais alterada e nervosa.

- Pelo visto acreditou em todas as desculpas da sua namoradinha insaciável, não é? Bom, não vou mais me meter nesse relacionamento estranho de vocês, de um lado ela finge que está tudo bem, enquanto olha a bunda de outras mulheres por aí, e você não enxerga e não percebe. De outro lado, você a prende ao seu lado se fazendo de coitada. Vocês se merecem, duas fingidoras.

- Isadora, eu não quero mais perder meu tempo nem minha paz, você tem uma carência desesperada por atenção, e quando não a obtém por bem, apela para essas coisas baixas. Não preciso disso, não preciso de pessoas como você por perto, me faça o favor de sair logo da minha casa.

- Não acha que está exagerando na reação? Achei que você fosse uma pessoa mais civilizada.

- Eu estava civilizada enquanto você apenas me incomodava e perturbava, mas você cometeu o erro de mexer com a Sam, e isso eu não admito, você a fez mal, a fez chorar, eu não vou deixar isso barato. – Theo virou-se, tateando a parede em busca da válvula para aumentar o volume de oxigênio.

- Quer ajuda?

- Não, eu quero que vá embora.

- Aposto que você não tem a menor necessidade de estar com essa máscara, mas está usando apenas para que Sam tenha pena de você. – O ruído de seus saltos no piso, se aproximando da cama, estavam deixando Theo em pânico e ainda mais ofegante.

- Eu não devo satisfações a você. – Finalmente conseguiu aumentar o oxigênio.

- Não se preocupe, não vou contar para Sam que é tudo de mentira, no fundo ela também sabe.

- Não se aproxime de mim. – Theo percebia ela ao seu lado.

Isadora parou por um instante, observando os aparatos de emergência acima e ao lado da cama, olhou os tubos, de onde vinham e saiam.

- Quer ver como é fácil desmascarar você? – Isa soltou os tubos que saíam da máquina acoplada aos cilindros, cortando o fornecimento de oxigênio.

- O que você fez?

- Eu sei que você consegue se virar sozinha. – Isa deu um risinho e foi na direção da porta.

- Isa? Isa? Você desligou? Isa, o que você fez? – Theo sentou-se na cama, afoita.

- Até logo, Theo. – E fechou a porta.

- Isa?? – Estava com falta de ar, respirando rápido. – Sam? Saaaam??

Ergueu-se na cama e abriu ainda mais a válvula, mas não adiantaria com os tubos soltos. Saiu da cama e tateou os tubos e equipamentos, tentando entender o que ela havia feito. Esbarrou no criado mudo, caindo por cima do móvel, sua máscara soltou-se, saindo do rosto.

- Saaaam!

Quanto mais o nervosismo aumentava, menos ar conseguia colocar para dentro dos pulmões. Tomou as muletas e saiu aos trancos e barrancos pelo corredor, esquecera novamente que havia um elevador, e desceu as escadas, de pés descalços e respirando com dificuldade.

Faltando metade dos degraus, apoiou a muleta em falso, despencando até o chão da sala, esbarrando no caminho no corrimão de mármore. Ficou alguns segundos em choque deitada de costas no piso, assimilando o que acontecera, a respiração continuava difícil, e no momento respirar era tudo que importava.

Virou-se e ajoelhou, tateou ao redor em busca das muletas, não as encontrando. Ergueu-se de pé, deu três passos cambaleantes e mancando do pé direito, caiu de bruços no chão.

- O que foi isso? – Daniela surgiu no alto da escada, atraída pelo barulho da queda.

- Dani... – Theo virou-se, e a chamou com a voz quase inexistente.

- Estou indo! – Dani voou escada abaixo, indo em socorro.

Letícia e Sam também surgiram da cozinha, não sabiam a origem do barulho, mas logo entenderam ao ver Theo no chão.

- Theo, o que aconteceu com você? – Sam perguntou apavorada, já de joelhos ao seu lado.

- Oxigênio... – Murmurou.

- George!! – Sam chamou o segurança. – Geoooorge!!

O homem de aparência forte surgiu correndo na sala.

- Leva ela para cima.

George a tomou nos braços e subiu a passos afoitos para o quarto, onde a deixou na cama.

Sam tomou a máscara no chão e colocou no rosto dela, aumentou o oxigênio na válvula.

- Não está saindo, Sam, não está saindo nada. – Letícia subiu na cama, se aproximando do rosto de Theo.

- Acabou todo o oxigênio? É impossível! – Sam a fitava em pânico.

Letícia olhou pela parede e cabeceira, encontrando o problema.

- Ali, está tudo solto, ali, Sam, engate os tubos de volta.

- Já vi. – Sam voltou a prender tudo em seu devido lugar, e aos poucos Theo voltava a colocar ar nos pulmões.

- Respirando? – Sam perguntou, sentada na beirada da cama, ao seu lado, enquanto segurava sua mão.

Theo apenas ergueu o polegar e mostrou um leve sorriso.

- Alguém sabe que raios aconteceu aqui?

- Eu já encontrei ela caída naquele local. – Dani respondeu.

- Deve ter rolado da escada. – Letícia disse.

- Mas ela não estava embaixo da escada. – Dani rebateu.

Theo ergueu a mão, pedindo para falar.

- Você quer nos explicar o que aconteceu? – Sam perguntou.

- Eu caí da escada. – Theo disse por baixo da máscara.

- E porque te encontramos longe de lá?

- Eu tentei andar até a cozinha, mas caí de novo.

- Agora que você já voltou a respirar vamos para o hospital em San Paolo, ok? – Sam comunicou.

- Não, não, eu estou bem.

- Você caiu da escada, sabe-se lá o que machucou.

- Só o pé.

Sam foi até seus pés verificar.

- Acho que torci o pé direito. – Theo informou.

- Parece mesmo, mas pode ter quebrado.

- Não, não foi nada, estou ótima.

- Então quem sabe um hospital daqui da cidade mesmo? – Letícia sugeriu.

- Nada de hospital, não precisa.

- Só para examinar, não vão te internar.

- Me examine, você é médica.

- Eu não tenho um raio-x, Theodora. – Letícia rebateu.

- Depois você dá uma geral em mim, ok?

- Theo, o que você estava fazendo de muletas e sem máscara descendo as escadas? Que loucura foi essa? – Sam questionou.

- Estava com dificuldades para respirar, fui chamar você.

- Por que você soltou os tubos?

- Eu não soltei.

- Então o que aconteceu? Esses tubos não soltam sozinhos, tem travas.

Theo baixou as sobrancelhas, confusa.

- Eu não sei.

- Não lembra o que aconteceu?

- Não, eu só... Não sei, eu não conseguia respirar e desci as escadas correndo.

- E antes disso?

- Eu não lembro.

- Você teve um lapso? Não lembra de nada?

- Não, eu não lembro, desculpe, eu só me recordo da escada em diante. – Theo dizia com agitação.

- Ok, isso não importa. – Sam disse acariciando seus cabelos. – Foi só um grande susto, está tudo bem agora, fique tranquila.

- Eu vou te examinar daqui pouco, combinado? – Letícia disse.

- Tudo bem, eu oriento você. – Theo brincou.

Sam parou de afagar os cabelos ao perceber seus dedos sujos de sangue, olhando assustada para eles. Em seguida os exibiu em silêncio para Letícia, que também mudou seu semblante e a encarou com preocupação.

- Theo, está sentindo dor de cabeça? – Letícia perguntou calmamente.

- Estou, acabei de praticar mergulho em escada.

- Posso examinar?

- Pode.

Letícia debruçou-se sobre a amiga, e encontrou um corte no topo.

- Você lembra de ter batido a cabeça?

- Por que? – Theo levou os dedos à cabeça, procurando algum ferimento.

- Não, não coloque sua mão. – Sam segurou sua mão, a baixando. – Tem um corte aí.

- Tem? – Ignorou Sam e tentou colocar novamente a mão no corte.

- Tire sua mão, mas que coisa. – Sam segurou novamente.

- Eu só quero ver o tamanho do corte.

- É pequeno, uns três centímetros. – Letícia respondeu. – Mas é sinal que você bateu em algum lugar.

- No corrimão, eu bati a cabeça na queda, é uma besteira, Letícia pode suturar.

- Você acha mesmo que ainda escapará do hospital depois dessa descoberta? – Sam levantou da cama, foi até os armários pegar uma muda de roupa.

- Sam... Samizinha, vem cá conversar... – Theo pediu manhosa. – Amorzinho, vamos negociar, eu tenho uma contraproposta.

- Não tem Samizinha nem amorzinho, sua única escolha é se quer ir assim de pijama ou quer trocar de roupas.

- Meu Deus, que mulher difícil. – Theo fechou os olhos e suspirou chateada.

- Desculpe, eu concordo com ela, você tem que ver essa cabeça num hospital, ela já levou um tiro, lembra? – Letícia corroborou.

- Vai com roupa de dormir então? Eu já me troquei.

- Me dê uma camiseta limpa e uma calça jeans. – Bufou.

Foram ao hospital da cidade, onde passaram algumas longas horas de exames e espera. Theo foi liberada no final da tarde, já com a cabeça suturada e uma bota imobilizando seu pé direito.

Retornaram para casa com o sol baixando, encontrando Letícia, Daniela e Maritza jogando cartas no chão da sala, em cima de um largo tapete felpudo, Theo pulou da cadeira de rodas e juntou-se a elas.

- E então? Você vai sobreviver? – Letícia a questionou enquanto a colocava na posição para jogar.

- Estou gozando de ótima saúde. – Theo respondeu, rindo.

- E o pé?

- Vai ficar bom em uma semana.

- Não quer subir e deitar? – Sam perguntou, agachada ao seu lado.

- Quero ficar por aqui, se estiver cansada descanse um pouco, depois volte.

- Não quer nem tomar um banho?

- Mais tarde.

- Eu pensei em sairmos para jantar, o que acha?

Theo paralisou, ficou em silêncio por um instante se dando conta.

- É seu aniversário.

- É sim.

Theo a abraçou, a derrubando sobre o tapete, aproveitou para montar em sua cintura.

- Feliz aniversário!

- Por um momento achei que você queria me matar, mas obrigada. – Sam disse rindo.

Theo debruçou-se sobre ela e a beijou.

- A gente pode sair da sala para deixar vocês mais à vontade. – Letícia zombou quando finalizaram o beijo, minutos depois.

- Estamos apenas comemorando, não as convido para juntar-se a nós porque Sam não gosta dessas coisas.

- Fale por você. – Sam rebateu.

- Você gosta de sexo grupal? – Theo perguntou assustada.

- Não, claro que não, achei que você estava falando de outra coisa.

- Que outra coisa?

- Sei lá, algum jogo de cartas.

Theo riu.

- Essa é a minha garotinha, completando 24 anos hoje.

 

 

Perfídia: s.f. Ação ou qualidade do que é pérfido, enganador ou traiçoeiro; deslealdade, traição, infidelidade.

Notas finais:

Capítulo 29 antecipado porque a página no Facebook do meu blog atingiu as 1000 curtidas hoje!

Obrigada!

E prometo responder tudo ainda esse ano, viu?

Capitulo 30 - Gymnopédies por Cristiane Schwinden
Capítulo 30 – Gymnopédies

 

O grupo de garotas, agora menor, acomodou-se num espaço reservado num bom restaurante no centro de Ilhabela, era possível ver os outros clientes, mas alguns seguranças faziam uma discreta linha de segurança as separando do restante das pessoas.

Pediram a sobremesa, a essa altura Theo já estava à vontade, apesar de estar num local público.

- E que fim levou Isadora? Foi embora hoje cedo mesmo? – Maritza perguntou.

- George disse que chamou um taxi para ela. – Sam respondeu.

- Isadora. – Theo falou se dando conta.

- Já está bem longe, não se preocupe. – Sam afagou sua mão.

- Foi ela, foi ela que tirou os tubos do lugar.

Sam a encarou com confusão.

- Hoje cedo? Você acha que ela fez isso?

- Não, eu estou lembrando agora, ela veio ao meu quarto, brigamos, ela fez algo que parou o oxigênio.

- Ela foi ao nosso quarto enquanto eu estava na cozinha? Eu não acredito! – Sam se enfurecia, atirando o guardanapo na mesa.

- Foi, disse que queria se despedir e pedir desculpas, eu estava possessa demais para desculpar qualquer coisa, a conversa não seguiu nada bem. Por isso que eu desci as escadas correndo, porque eu não consegui religar o oxigênio, acabei caindo, perdi a máscara, saí feito uma desesperada para te buscar.

- Isso não vai ficar assim, eu vou encontrá-la.

- Não vai adiantar nada, Sam.

- Theo, o que ela fez foi tentativa de homicídio, você sabe que poderia ter morrido, não é exagero, eu quero que ela pague por isso.

- Ela está em San Paolo agora, ou sabe-se lá onde. – Letícia disse.

- Você lembra de mais alguma coisa? Algo que ela tenha feito com você?

- Foi só o oxigênio mesmo. – Theo respondeu.

- E todas as merdas nos últimos dias... – Sam transpirava irritada, bebeu quase metade do seu copo de vinho. – Aquela vadia.

- Sam, não xingue. – Theo a recriminou.

- Desculpe interromper, mas vocês conhecem aquele cara ali fora? Ele já está há algum tempo olhando para nossa mesa. – Dani apontou com a cabeça na direção de uma vidraça que ficava atrás de Sam e Theo.

Sam virou-se discretamente, e avistou um homem alto, recostado num carro, falando num comunicador, distante dali uns trinta metros.

- Deve ter parado o carro para atender uma ligação. – Letícia disse.

- Pode ser, mas que é estranho é, com esse bigodão e sem um braço. – Dani disse.

- Que? – Theo congelou, apavorada.

- Realmente está estranho. – Sam continuou olhando por cima do ombro. – Mas já está indo embora.

- Sam, é o segurança!

- Que segurança?

- Do Circus, aquele que eu enfiei a motosserra no braço, ele tem um bigode grande e bizarro.

- Deve ser coincidência. – Sam virou-se para trás, olhando melhor.

- Um cara alto, magro, cabelos castanhos, calvo, provavelmente o braço amputado é o esquerdo.

- Bate. Droga. – Sam levantou da mesa rapidamente.

- É ele.

- Eu vou atrás dele.

- Não, não, Sam, não vá. – Theo pedia.

- Eu levo um segurança comigo.

- Sam, não.

- Ok, levo dois. Eu já volto.

Dez longos minutos depois, Sam e os seguranças retornaram.

- Sumiu. – Comunicou e voltou a sentar ao lado de Theo.

- Ele estava nos espionando.

- A mando de Elias.

- Talvez seja vingança pessoal, mas é bem provável que seja a mando de Elias mesmo.

- Então estamos correndo algum risco aqui? – Maritza perguntou.

- Não acho que alguém tente algo num lugar público, mas os seguranças ficarão mais alertas, não se preocupem, ok? – Sam acalmava a mesa.

- Sim, não há com o que se preocupar, é só alguém observando meus passos, se algum dia ele tentar algo, será para me levar com vida para a Zona Morta para que eu sirva como cobaia de laboratório, está tudo em paz.

- Em paz?? – Letícia assustou-se.

- Vocês não correm risco. – Theo arrematou.

As sobremesas foram servidas, mas todas apenas olharam seus pratos ou taças. Theo percebeu que não mexeram em suas refeições, não ouviu os ruídos.

- Pessoal, é o aniversário dela, esqueçam isso, comam as sobremesas, peçam mais vinho. – Theo pediu.

- Está tudo sob controle, relaxem. – Sam incentivou.

- Se vocês garantem. – Maritza deu de ombros e começou a comer.

Sam também começou a comer seu doce vermelho.

- Theo, prove esse doce.

- Onde? Qual?

E a beijou.

- Morango? – Theo sorriu.

- Uhum. Quer se certificar?

- Quero. – Theo respondeu de forma arteira, Sam conseguira dissipar seu nervosismo com sucesso.

***

- Sinto muito pelo luau. – Sam disse.

Estavam sentadas no tapete da sala, era próximo da meia-noite. As outras garotas haviam subido há pouco para seus quartos, o casal permaneceu ali, numa conversa lenta. Theo estava sentada no chão, recostada no sofá, Sam encaixada em seu colo, lateralmente, recebendo afagos em seus cabelos.

- O dia foi agitado demais, teremos outras ocasiões para o luau. – Theo respondeu num suspiro.

- Mas eu fiquei satisfeita com o jantar, queria que soubesse disso. Estou feliz por ter passado meu aniversário com você.

- Era para você estar casando com Mike hoje, não era? – Theo riu.

- Era. – Sam sorriu, se dando conta.

- Se você não tivesse me conhecido, ou se eu tivesse batido as botas, você estaria agora devidamente casada, seria oficialmente a senhora Philips.

- Graças a Deus é aqui no seu colo que eu estou agora.

- Sua vida seria mais simples, mais tranquila. Você estaria agora na festa do seu casamento, dançando com seus sobrinhos em cima dos seus pés, orgulhosa com uma aliança dourada na mão esquerda, se preparando para lançar o buquê. Daqui a pouco se despediria de algumas pessoas e do padre Clive, e partiria para a lua de mel, no carro emprestado do cunhado, para alguma cidade litorânea dentro da Inglaterra. Você talvez tivesse largado o exército para se dedicar ao seu marido, Mike estaria de licença, reclamando que seus subordinados estão sozinhos no quartel, que é por uma boa causa, mas no fundo ele realmente estaria pensando nisso, no quartel sem a ilustre presença dele. Vocês fariam sexo por dez minutos, você não gozaria, gostaria mais do que nunca ter tido mais prazer, é uma noite especial, mas entenderia, é assim que funciona. Mike está cansado, o deixaria dormir sem incomodá-lo, afinal ele já cumpriu a parte do homem no casal. Mas você estaria radiante, desde os oito anos que você imagina como seria esse dia, em cada detalhe, não saiu como esperado, mas não importa, agora você é uma mulher casada, ganhou o respeito máximo da igreja e dos vizinhos, teria encontrado finalmente seu lugar na sociedade, estaria com a sensação de estar acertando na vida, estar honrando seu pai, suas únicas preocupações agora seriam cuidar da casa nova recém entregue e adotar algumas crianças daqui dois anos. Estaria feliz, um outro tipo de felicidade.

- Uau. – Sam acompanhou tudo atentamente, ainda assimilava.

- Acertei quanto?

- Errou o fim. Eu não estaria feliz, estaria conformada.

- Isso é subjetivo.

- É o que importa. Nessa sua descrição do meu dia hipotético de casamento, você errou os pesos. A Samantha dessa sua historinha não existe mais, eu rompi essa linha cronológica, por mais improvável que parecesse há um ano atrás, mas... Aqui estou, vivendo o avesso do meu papel e feliz.

- Mas se não tivesse rompido, nunca saberia da existência desse avesso, e estaria feliz dentro da sua ignorância.

- Theo, eu sabia que existia um avesso, eu nunca fui feliz seguindo meu papel, então porque estaria feliz hoje, dentro daquela igreja num vestido branco? Eu tinha consciência que não era feliz vivendo aquela vida, só nunca imaginei que eu tinha direito de romper.

- Você percebia que tinha algo errado?

- O tempo todo, meu amor. – Sam sorriu. – É isso que você não entendeu ainda.

- E agora? Ainda é estranho, né?

Sam tomou a mão dela, brincando com seus dedos.

- Eu estou onde sempre quis estar, mesmo sem saber onde era esse lugar. Isso... – Sam levou a mão dela até sua boca e beijou. – Ou o que eu sinto quando faço isso, entre tantas outras coisas, é o que me diz que agora estou fazendo a coisa certa.

- Eu queria ver sua carinha agora. – Theo deixou seus dedos correndo suavemente pelo rosto dela.

- É uma carinha feliz, pode apostar. – Sam lhe roubou um beijo.

- Quem diria, tínhamos 23 anos quando nos conhecemos, agora você tem 24 e eu fiz 23 de novo. – Theo riu.

- Tenho quase o dobro da sua idade.

- Por falar em aniversário, você deve estar se perguntando onde está seu presente.

- Isso sequer passou pela minha cabeça.

- Mas eu comprei um presente para você.

- Ah é? E onde está?

- Digamos que não ficou pronto.

- Pronto?

- É uma longa história, mas não posso entrar em detalhes, é surpresa.

- Você mandou fazer algo?

- Não, já está pronto, mas ainda... Ah, Sam, não posso explicar. Eu achei que poderia te entregar por agora, mas não deu.

- Só para eu entender: ainda ganharei?

- Sim, em breve.

- Me dê uma pista.

- Eu quero te entregar numa viagem à Baia.

- Por que lá?

- Tem um motivo especial, mas não falarei mais nada. – Theo cruzou os dedos sobre os lábios.

- Isso não foi uma pista.

- Segure a curiosidade. Não gosta de surpresas?

- Prefiro fazer surpresas. E você?

- Eu gosto mais de receber.

Sam roubou um beijo.

- Como beijos surpresas?

- Principalmente beijos surpresas.

Sam roubou um beijo mais longo.

- Você nunca consegue roubar beijos, você vem com essa mãozinha nervosa procurando minha boca antes de me beijar.

- Talvez porque eu não enxergue. Se eu não usar a mão para me guiar, na melhor das hipóteses, vou beijar sua orelha, ou sua sobrancelha. – Theo ironizou.

- Eu adoro quando vejo sua mãozinha vindo na minha direção.

Theo riu e cobriu a boca dela. Sam removeu a mão dela de cima da boca, a pegou pela cintura, e a deitou no tapete, ficando por cima dela.

- Vamos dormir aqui na sala? – Theo perguntou rindo.

- Claro que não, mãozinha nervosa, só vou dar uns amassos antes de dormir. – Sam brincou, lhe dando um longo beijo repleto de suspiros.

Cessou o beijo para descer pelo pescoço dela, e a mão por dentro da blusa, levantando seu sutiã.

- Você fica ainda mais tarada quando bebe vinho. – Theo zombou, Sam riu abertamente.

- Eu sou tarada por você. – Sam disse maliciosamente, com o rosto acima dela, os cabelos caindo pelas orelhas.

- E o que a aniversariante vai pedir hoje?

- Sexo de dez minutos.

Ambas gargalharam.

- Não trabalhamos. – Theo respondeu.

- Então eu quero te levar para o quarto e arrancar sua roupa... – Sam sussurrou em seu ouvido.

- Ah... Acabei de lembrar de uma coisa, uma má notícia que esqueci de te dar.

- Que má notícia? – Sam sentou em seu quadril.

- Na verdade é uma boa notícia, mas para você neste momento é péssima.

- Pare de enrolar.

- Eu fiquei menstruada hoje.

Sam franziu o cenho.

- Mas você não fica menstruada.

- Finalmente a visitinha retornou.

- Mas você ainda toma um monte de remédios, eles cortam, não cortam?

- Eu tomo bem menos agora, Sam, meu corpo está voltando ao normal.

- Então isso é uma boa notícia.

- De forma geral sim.

- Por que seria má notícia?

- Por causa das suas pretensões neste momento.

- Pretensões?

- Sexo, Samantha.

- E o que tem?

- Quando você deixou de menstruar?

- Aos 17.

- E como Mike não é um ser menstruante, então você não faz ideia do que é estar num relacionamento onde alguém menstrue, certo?

Sam ficou alguns segundos pensativa antes de responder.

- Não podemos fazer sexo nesses dias? – Finalmente assimilou.

- Algumas pessoas fazem, eu não me sinto à vontade.

- Ãhn... Tudo bem.

- Mas me refiro apenas a receber, eu não gosto que façam em mim nesses dias.

- O que isso significa?

- Que eu posso fazer uma infinidade de coisas em você.

- Não é a mesma coisa.

- Você está dispensando uma boa gozada? – Theo riu, Sam estava vermelha do vinho, do tesão, e agora de timidez também.

- Nessa conjet... conjec... conju...

- Conjectura.

- Nessa conjectura eu prefiro subir com você e ficar namorando, o que é tão bom quanto sexo.

- Como queira, aniversariante.

***

- Serão apenas três dias, você nem vai perceber minha ausência. – Sam comunicava enquanto arrumava uma pequena mala em cima da cama, dez dias após o retorno da praia.

- É impossível não sentir sua falta e imensa tristeza, mas talvez seja mesmo uma boa oportunidade para você dar um passo além na Archer, com essa viagem ao Uruguai. – Theo respondeu, estava deitada ao lado da mala, atravessada na cama.

- Você está deitada em cima das minhas calcinhas?

- Não.

Sam a virou para o lado.

- Hey!

- Você estava em cima das calcinhas.

- Quem mais vai?

- Claire, Stefan e Sandro.

- Quem te convidou?

- Claire, ela não queria ir sozinha com esses dois caras para Montevidéu, e também disse que seria interessante para mim, participar da negociação da compra de um laboratório.

- Vocês estão indo para começar ou fechar o negócio?

- Espero que fechar, estamos negociando há dois meses. – Sam respondeu enquanto colocava uma pilha de roupas na mala.

- Claire safada. – Theo riu, enquanto atrapalhava a arrumação de Sam com o pé.

- Você tá bagunçando tudo, Theo. – Sam disse segurando seu pé. – E que meia suja é essa? Você não toma banho?

- Tomo banho, mas reciclo as meias até ficarem sujas.

- Essa está imunda. – Sam disse e tirou as meias dos pés dela. – Achei que você não gostasse de andar de meia.

- Não gosto de dormir com meias, é diferente.

- Por que você disse ‘Claire safada’? – Sam atirou as meias no banheiro.

- Ela vai adorar passar três dias grudada em você.

- É uma viagem profissional.

- A quedinha dela por você não é nada profissional. – Theo voltou a mexer no interior da mala com os pés, agora sem meias.

- Ok, agora eu também concordo que ela talvez tenha uma quedinha por mim. – Sam segurou os pés de Theo e puxou. – Mas ela nunca tentou nada, e sempre me respeitou.

- Apenas se mantenha alerta e tenha juízo, minha cabeça já tem chifres demais.

- Não vai acontecer nada. – Sam virou a cabeça e fez uma careta. – Theodora, você tem chulé.

- Claro que não.

- Tem sim.

- Você pode soltar meus pés, por gentileza?

Sam soltou seus pés e foi buscar algo nas gavetas.

- Sam?

- Sim?

- Onde você foi essa madrugada?

- A lugar algum.

- Eu acordei e não encontrei você.

- Ah, fui na cozinha comer algo, fome da madrugada.

- Hum... Fome da madrugada. – Theo continuava deitada atravessada, com as mãos abaixo da nuca.

- Fui fazer um sanduíche.

- Semana passada também?

- Não lembro.

- Sam, é a quarta vez que acordo e não te encontro na cama, todas as vezes foram sanduíches?

- Provavelmente, eu costumo ter fome quando acordo para ir ao banheiro, eu janto cedo.

- Jantamos no mesmo horário.

- Mas você não acorda com fome, eu sim, algum problema?

- Não, nenhum. Espero que esteja levando sanduíches para Montevidéu. Hey, o que é isso? – Sam atirou algo nela.

- Meias limpas.

***

Três dias depois.

- Eu estou com taquicardia de tanta saudade. – Theo dizia no comunicador.

- Você está sendo melodramática, Claire está aqui do lado rindo do seu drama. – Sam respondeu, tomava café da manhã no hotel com a loira.

- Eu vou mandar para seu comunicador o log das últimas medições dos meus batimentos, você vai ver como estou sofrendo de saudades. – Theo riu.

- Amanhã à tarde já estarei de volta. E conversaremos sobre aquele assunto que falei ontem.

- Qual?

- O conselheiro que não gosta de mim, Stefan. – Sam disse em voz baixa.

- Acho que isso é coisa da cabeça de vocês duas, Stef não iria sabotar o próprio patrimônio, ele também tem uma porcentagem da Archer, assim com Claire e os outros conselheiros.

- Não sei, algo me diz que ele está tramando algo.

- Ok, junte as provas e depois conversamos. Ah, comprei ingressos para nós.

- Ingressos de que?

- Um concerto daqui duas semanas.

- De qual banda?

- É um concerto de música clássica. Topa?

- Claro, mas e seu medo de sair em público?

- Já está na hora de curar isso, vamos fazer uma tentativa.

- Ãhn... Ok, quando eu chegar a gente conversa melhor.

Sam repousou o aparelho na mesa, e voltou a tomar seu suco, sob a observação de Claire, com seu habitual semblante sereno.

- Temos que nos precaver com Stefan, judicialmente. – Claire iniciou a conversa.

- Como?

- Não sei, quando voltarmos para San Paolo eu vou marcar uma reunião com os advogados, apenas aqueles em que confio, você vai participar, e acho que seria uma boa ideia Theo participar também.

- Theo não está nem aí para essas coisas.

- A empresa é dela, Theo precisa participar mais das decisões importantes, pelo menos se inteirar das operações e dados básicos.

- Eu vou convencê-la a ir até a Archer, já está na hora dela visitar a própria empresa.

- Bom, mas chega de negócios por hoje. – Claire levou o guardanapo aos lábios, havia terminado o café. – Hoje é nosso dia de folga.

- Não temos reuniões hoje?

- Não, nenhuma. – Claire sorriu.

- Vamos passar o dia no hotel finalizando os detalhes do contrato?

- Stefan e Sandro estão providenciando isso, eles estão voltando para San Paolo agora de manhã.

- E nós?

- Reservei esse dia para conhecermos um pouco de Montevidéu, o que acha? Dizem que a cidade é bastante cultural.

- Achei que seria mais um dia falando de números. – Sam sorriu sem jeito. – Mas sua ideia realmente me parece mais agradável.

- Eu soube que você gosta de artes plásticas, dei uma pesquisada e descobri um museu de arte aqui perto, o que me diz?

- Eu nunca fui em algo do tipo. – Sam respondeu de olhos brilhantes. – Podemos entrar?

- Claro, é aberto ao público. E tem um bairro aqui na capital cheio de murais e paredes com artes urbanas, podemos ir lá também, no final do dia dizem que tem música ao vivo. – Claire levantou da mesa, animada. - Vamos, prometo um dia prazeroso para todos os seus sentidos.

***

- Por que você está fazendo essa cara? – Theo perguntou, estava largada no sofá da sala de mídia da mansão, duas semanas depois da viagem de Sam.

- Como você sabe que cara estou fazendo? – Sam acabara de entrar na sala, mas parou na porta e a observava.

- Você chegou mas não veio para o sofá, ou está no comunicador, ou está me olhando com alguma cara pensativa. Ou está terminando de comer algo que não quer dividir comigo.

- Como está sua mão boa?

- A direita? Cansada, já que a esquerda é um tanto burra. Quer os serviços da minha mão hoje? – Theo perguntou com um sorriso malicioso.

- Quero, mas não para o que você está pensando. Pegue as muletas e venha comigo.

- Devo lavar as mãos?

- Eu já falei que não é para o que você está pensando. Venha. – Sam a conduziu pelo corredor até o final da sala, com as mãos em seus ombros.

A colocou sentada ao piano, e sentou-se ao seu lado, abrindo a tampa transparente sobre as teclas.

- Quer que eu toque? – Theo perguntou.

- Quero, mas espere um pouco.

- Ok. Está escolhendo qual música quer? Tem que ser algo bem fácil, porque só a mão direta consegue tocar direito, e eu estou enferrujada.

- É que estou um tanto nervosa, preciso de um minuto. – Sam parecia inquieta.

- Nervosa por que? – Theo virou-se, procurando o rosto da namorada com a mão direita.

- Você pode tocar a Gymnopédie nº1 de Satie? Mas apenas com a mão direita.

- Ela vai ficar bem estranha tocada com uma mão apenas.

- Tudo bem. Você consegue?

- Consigo.

Theo pousou os dedos sobre as teclas, respirou fundo e iniciou a lenta melodia. Assustou-se ao ouvir o som das outras teclas tocando, Sam estava fazendo a mão esquerda na música.

Após a surpresa, Theo abriu um sorriso, iluminando a grande sala, e a dupla continuou tocando, em conjunto, Sam parecia compenetrada, mas também com um sorriso arteiro.

Depois de poucos minutos, a música encerrara, Sam pousou sua mão por cima da mão de Theo, sobre as teclas.

- Só sei até aqui. – Sam disse baixinho.

- Você sabe tocar piano? – Theo perguntou sem entender o que havia acontecido.

- Não, aprendi o básico, e ensaiei bastante essa música, para poder te acompanhar.

- Quando? Quando aprendeu isso?

- Eu fiz aulas nas últimas semanas.

- Fez? – Theo estava incrédula, mas alegre.

- Uma vez por semana, à tarde. E pratiquei algumas vezes de madrugada.

- Suas fugas na madrugada!

- Sim, não era fome, mas eu precisava inventar uma desculpa.

Theo sorriu balançando a cabeça, se dando conta.

- Eu não desconfiei de nada.

- Que bom.

- Desde quando?

- Lembra o dia que Michelle te visitou e vocês estavam especialmente irritantes? Eu sai de casa e fui procurar algum lugar que tivesse aulas de piano, queria ser a sua mão esquerda.

Theo segurou seu rosto com carinho, ostentando um sorriso bobo.

- Essa foi a coisa mais bonita que já fizeram por mim.

- Isso significa que gostou?

Theo balançou a cabeça de forma afirmativa, e a beijou.

- Você sabe, não sabe? – Theo perguntou baixinho enquanto a abraçava.

- O que?

- Que eu te amo.

 

 

As Gymnopédies são três composições para piano escritas pelo francês Erik Satie, publicadas em Paris a partir de 1888, mas também se referem a curtas e atmosféricas peças escritas no tempo ¾.

Capitulo 31 - Nefasto por Cristiane Schwinden
Capítulo 31 – Nefasto

 

As nove em ponto, a orquestra sinfônica municipal de San Paolo iniciou a primeira de três partes de um concerto clássico, no dourado Theatro Municipal e suas famosas cadeiras carmesins.

Em um dos camarotes laterais, mais ao fundo, Theo, Sam, e dois seguranças (e dois do lado de fora) apreciavam os precisos movimentos da orquestra, que interpretavam Macbeth, de Verdi. Passados alguns minutos, Sam não havia conseguido ainda relaxar a aproveitar o espetáculo sonoro, olhava para os lados e para trás de tempos em tempos.

- Nada vai acontecer, ninguém vai entrar aqui, e eu não terei nenhum surto. – Theo sussurrou tomando sua mão para seu colo, ao perceber a agitação dela.

- Eu sei. Você está à vontade cercada de tantas pessoas estranhas? Da outra vez...

- Estou, prometo não sair daqui babando hoje.

Ao final da segunda parte, Theo demonstrava sinais de desconforto, a orquestra havia tocado Schubert, a sinfonia nº3 em ré maior, estavam agora num intervalo.

- Nossa... Que coisa forte, eles são ótimos. – Sam comentou, embasbacada com o concerto.

- É lindo, não é? – Theo também estava encantada.

- É sim.

Theo voltou a se mexer incomodada.

- Tem formiga na sua poltrona? – Sam sussurrou.

- Minhas costas estão doendo.

- Quer ir embora? Ou um analgésico?

- Tem analgésico? – Perguntou com os olhos radiantes.

- Tem uma pequena maleta de socorro ao meu lado, com uns vinte tipos de remédios, só de analgésicos tenho seis especialidades.

- Que maleta é essa?

- Eu montei essa tarde, eu batizei de kit saída em público.

- O que mais tem aí dentro?

- Fraldas, babadores...

Theo arregalou os olhos.

- Estou brincando. – Sam riu. – Apenas seus medicamentos básicos de sobrevivência.

- Me dê algo forte, mas não injetável.

- Tem certeza que não quer ir embora?

- Não, isso tudo está tão fabuloso, eu não quero ir, e agora vem a terceira parte, tem piano, é Mozart, nº 24.

- Também estou achando incrível, mas se você não aguentar, tudo bem, podemos voltar outro...

- Analgésico e água.

- Ok.

Theo aguentou até o final do emocionante concerto, saia devagar com suas muletas ostentando um sorriso aberto e os olhos molhados, com Sam ao seu lado, acompanhando suas passadas pelo corredor ornamentado do teatro.

- Eu não imaginava que isso era tão bonito. – Sam comentou.

- O teatro?

- A música.

- Eles são bons nisso, não acha?

- Parecem super-heróis, com suas armas musicais.

- Eu gostei da sua comparação.

- Theo vamos parar aqui no saguão de saída, mais ao canto, esperar esse pessoal todo sair senão seremos atropeladas, e nosso carro deve demorar um pouco para chegar.

- Tudo bem, não tenho pressa, faz uma noite agradável e meu nível de pânico está baixo.

A dupla aguardava o motorista próximo a uma das largas pilastras do teatro, Sam quase foi cegada por uma luz que surgiu sobre elas. Conseguiu perceber então o que acontecia, uma equipe da imprensa se aproximava afoitamente.

- Gente, que furo! Olha quem encontramos na saída do Theatro Municipal! Vem comigo, acompanhe conosco esse furo de reportagem, pela primeira vez em quase três anos a herdeira do grupo Archer faz uma aparição pública. – A jornalista dizia frente às duas câmeras que cobriam a saída das personalidades do teatro.

- Quer que eu procure alguma sala reservada para fugirmos? – Sam perguntou no ouvido de Theo, que ouvia a repórter.

- Fugir é pior, eu encaro essa.

A simpática repórter, uma morena com um grande sorriso alvo e microfone em riste, a abordou de forma efusiva.

- Theodora! Que saudade que estamos de você!

- É, aqui estamos...

- Finalmente de volta aos holofotes? Em definitivo? Conta aí.

- Boa noite, Serena. – Deu um sorriso falso. – Sim, pretendo circular por aí por muito tempo.

- E contrariando todas as fofocas e boatos, você está ótima e gozando de boa saúde, hein?

- As fofocas fazem parte, quando ficamos um tempo sem dar as caras os boatos começam, mas é normal, é normal surgir boatos, o povo tem imaginação. – Outro sorriso artificial. – Mas está tudo bem agora.

- E o que você está fazendo da sua vida, para estar tão linda? Conta aí o segredo!

- Acho que estar cercada de gente do bem faz a diferença, não acha? Esse é o segredo.

- É verdade que você passou dois anos trancafiada na Zona Morta? Quebra esse galho, confirma esse babado aí pra gente.

- Isso eu nunca neguei, sempre que a imprensa perguntava eu soltava alguma nota confirmando a versão verdadeira, não tenho problemas em confirmar.

- E foi tentativa de férias ou foi o que espalharam, que você estava trabalhando numa casa de prostituição? Que pesado isso.

Sam bufava impaciente ao seu lado, nada do carro delas estacionar.

- Algo bem longe de férias. – Sorriu amarelo, desconversando.

- Por que você forjou a sua morte? Queria sossego, não é? – A repórter piscou sorrindo.

- Não fui eu que forjei, eu nem sabia que tinham forjado. Mas foi uma boa ideia, da próxima vez que eu quiser férias da imprensa já sei o que fazer. – Alfinetou.

- E como tá esse coraçãozinho, batendo mais forte por alguém? Qual é o nome da sortuda da vez?

- Ah, tá sempre ocupado, mas deixa em off. – Quase riu.

- Tá rolando uns boatos que a Janet terminou o casamento para voltar com você, que loucura é essa? É isso mesmo?

- Na verdade eu nem sabia que ela havia se divorciado, ainda não tivemos oportunidade de colocar o papo em dia.

- Tem chances de ter um revival? Janet tá na pista!

- Não, não tem chances, eu não estou na pista. – Riu.

- Ficou mágoa da traição dela? Continuam amigas?

- Não, não houve traição, isso inventaram na época para deixar o término mais sensacionalista, mas foi de comum acordo, ninguém traiu ninguém.

- Então ainda são próximas? Mágoa zero?

Theo começava a se irritar com a persistência.

- Não tem mágoa, nós continuamos amigas depois que terminamos, a Janet é uma ótima pessoa, sempre vou querer ter a amizade dela, a vida seguiu para ambas.

- E sabendo agora que ela tá solteira, não balança o coraçãozinho? Confessa vai!

- Mas eu não estou solteira, minha vida amorosa tá super bem resolvida.

- Diz aí pra gente, em primeira mão, o nome da gata que roubou teu coração e conquistou a herdeira mais disputada do pedaço.

- Eu prefiro resguardar a privacidade dessa pessoa, fica pra próxima.

- Theo, o carro já está aqui em frente, quando quiser ir. – Lucian a abordou.

- Minha carona chegou, foi um prazer conversar com vocês. – Theo despediu-se de forma simpática.

- Ah, diz o nome da namorada antes de ir.

- Se ela quiser falar, por mim tudo bem. – Theo respondeu, já caminhando na direção do carro, conduzida por Lucian.

- Theo, é verdade que você se envolveu com uma das suas sequestradoras?

Theo apenas riu, Sam parou o passo e se dirigiu à repórter.

- Eu ajudei no resgate, não no sequestro, já está na hora de vocês pararem de espalhar esse boato absurdo. – Sam finalmente se manifestou, de forma calma.

- É você?? – A jornalista perguntou com um sorriso enorme.

- Se isso servir par