A vida no mundo perdido [em hiatus] por Senhorita Charlie
Summary:

Em um piscar de olhos, a primeira vista. Simone Kupstas se apaixonou por Amanda. E então sua vida mudou, virou de cabeça para baixo. Tudo o que parecia firme, a rotina parada e tediosa, se desfez em uma nova vida. Com uma namorada, uma nova amiga, uma nova vida. Mesmo com problemas e obstáculos, elas lutaram por um amor que parecia impossível. Porém... então um dia tudo mudou outra vez.

Primeiro, Patrícia Fontes, a mãe de Simone que simplesmente a abandonou, voltou. Depois, um cara filho-da-P*** simplesmente atirou em seu pai. E isso corroeu Simone, mudou ela, e destruiu o relacionamento entre ela e Amanda.

E tudo acabou: mais uma dose de bebida. E ela decidiu se afundar de verdade, mais um cigarro barato, mais uma vez transando com quem ela não ama em uma vaga tentativa de esquecer. De esquecer a morte e a dor. Esquecer a perfeição que ela vivia. As coisas mudaram em um piscar de olhos. Em um segundo, ela tinha o pai perfeito, os amigos perfeitos e a namorada perfeita. No segundo seguinte, tudo se perdeu, sumiu, mudou, foi destruído, se desfez em fumaça e ela caiu em desgraça.

Ela não tira coragem de terminar tudo de uma vez, de se matar ou de fugir daqui. Então ela apenas se destruiria lentamente e esperaria a morte chegar.


Categoria: Romances Characters: Original
Challenges:
Series: Nenhum
Capítulos: 24 Completa: Não Palavras: 63522 Leituras: 10817 Publicada: 11/02/2017 Atualizada: 31/07/2017
Notas:

* trigger warnings: depressão, auto-mutilação, menções à suicídio, alcoolismo, violência, sexo explicito

* venha falar comigo no Twitter: srtacharlie27

* primeiro parte da duologia: http://www.projetolettera.com.br/viewstory.php?sid=431

1. 01. Arranhões por Senhorita Charlie

2. 02. Mockingjay por Senhorita Charlie

3. 03. O Primeiro por Senhorita Charlie

4. 04. Se For Pra Ser por Senhorita Charlie

5. 05. Sectumsempra por Senhorita Charlie

6. 6. Decisões por Senhorita Charlie

7. 07. Uma Última Vez por Senhorita Charlie

8. 08. Decisões por Senhorita Charlie

9. 09. Algumas Coisas Diferentes por Senhorita Charlie

10. 10. O Demônio Detrás Olhos Verdes por Senhorita Charlie

11. 11. O Sofrimento do Falcão por Senhorita Charlie

12. 12. Os Dias na Admirável Vida Nova por Senhorita Charlie

13. 13. Egoístas por Senhorita Charlie

14. 14. A Grande Quebra por Senhorita Charlie

15. 15. O Reflexo na Escuridão por Senhorita Charlie

16. 16. O Que Você Não Pode Ter por Senhorita Charlie

17. 17. Casa Nem Sempre é Um Lugar por Senhorita Charlie

18. 18. Estilhaços por Senhorita Charlie

19. 19. Está no Sangue por Senhorita Charlie

20. 20. Faz Parte da Família por Senhorita Charlie

21. 21. Caindo aos Pedaços por Senhorita Charlie

22. 22. Quem Salva o Herói? por Senhorita Charlie

23. 23. Viagem Através da Escuridão por Senhorita Charlie

24. 24. Coração Feito de Vidro por Senhorita Charlie

01. Arranhões por Senhorita Charlie

 

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2016

Simone Kupstas sentou no chão, suas costas encostadas na parede. Era sexta-feira outra vez, logo alguém apareceria com bebida. Ela fechou os olhos, não deixando ninguém ver o par de olhos verde-claros com pontinhos dourados, a música tocando alto em seus ouvidos. Seu cabelo loiro preso, brilhando no sol. De casaco, cobrindo a pele pálida. Ela abraçou as pernas, sua bolsa pendurada no ombro e apoiada nela. Ela não queria chorar, mesmo que tivesse uma vontade gigante de fazer aquilo.

Sua vida estava um desastre.

Ela foi criada pelo pai, já que sua mãe havia abandonado ela quando a garota era um bebê de poucos meses. E havia voltado alguns meses, se mostrava uma mulher bem filha da puta. Parecia não se importar com o seu bem-estar, a casa só não caia aos pedaços porque Simone ainda tentava manter as coisas do jeito certo. Porém, faziam semanas que seus armários estavam vazios e que sua geladeira só tinha água. Ela não comia direito, não porque foi acostumada a ter sempre comida pronta, mas sim porque ela simplesmente não tinha vontade, não sentia fome. Podia ficar dois ou três dias sem comer, basicamente vivendo a base de água. Patrícia claramente também detestava a sexualidade da garota, tinha puro asco do relacionamento que Simone tinha.

O antigo relacionamento da garota.

No ano anterior, em uma tarde de maio, Simone havia entrado em mais um consultório para mais uma tentativa frustrada de terapia, e encontrado o seu sonho de consumo. Amanda Borges, uma psicóloga de vinte e sete anos. Um pouco mais alta que a garota, os olhos escuros e expressivos, os cabelos escuros e macios. O sorriso sincero e a voz doce. Simone havia se apaixonado em alguns segundos, a primeira vista. Foi incontrolável. Em poucas sessões, elas se aproximaram e tornaram amigas. A evolução foi natural, não foi uma grande mudança, a amizade se tornou um romance facilmente. Simone se lembrava perfeitamente do primeiro beijo, da confusão após isso e a decisão de deixar rolar para ver o que aconteceria.

O namoro ‘oficial’ havia durado quase um ano, tiveram momentos difíceis, complicados. Momentos com Henrique, o ex-melhor amigo de Simone, com Claudia, a tia mais velha de Amanda. Momentos complicados com Amanda e seu TEI, o transtorno que fazia Amanda acreditar que era um monstro. E, depois que Patrícia voltou do nada e Lucas foi morto por um bandido qualquer. E, há uma semana, Simone havia tomado uma decisão: terminar o namoro.

No dia seguinte, ela beber e bebeu, ficando completamente e acabou transando com Ana, a garota que a sua melhor amiga amava.

Elas acabaram contando para Mar, já que ambas sentiam que estavam sentindo que haviam cometido uma traição. Simone sabia que, mesmo que tivesse terminado com Amanda, ela se sentia traindo a mulher. E, pior, se sentia traindo Mar. Há meses sabia dos sentimentos da ruiva pela garota. E Ana também sentia que estava traindo Mar. Era uma situação tensa. E Mar acabou perdendo completamente o controle naquele sábado e acabou batendo em Ana. Simone não sabia dos detalhes, só sabia que, por pura sorte, Amanda apareceu por lá e praticamente salvou a garota.

A culpa pesava tanto que os ombros dela estavam caídos. Os arranhões nas costas já haviam melhorado bastante, mas foram lembretes constantes do erro naqueles dias em que ardiam, assim como não ver Mar durante todos aqueles dias. Porém, aquele era mais um erro depois de vários. Dizem que errar é humano, mas ela achava que errar tantas vezes era uma estupidez que talvez apenas adolescentes sejam capazes de fazer. Erro após erros, merda após merda e toda a sua vida desabou como um castelo de cartas. Todo o amor escorreu entre seus dedos e o que restou se transformou em raiva e culpa. Cada minuto que passava, a dor corroía um pouco mais de quem ela um dia já foi.

Quem é você? O que você é? O que você quer?

É uma pergunta que ela tentava responder, porém, talvez a resposta não esteja nela.

Simone sentiu o cheiro de cigarro encher o seu nariz no mesmo momento em que sentiu alguém se sentar do lado dela, a pessoa que se sentou ao lado dela arrancou um dos seus fones de ouvido. Simone ergueu a cabeça, virou e a olhou. Mar estava do lado dela, parecia mais cansada e pálida do que da última vez em que a viu, como se estivesse doente. Isso deixou Simone preocupada, a raiva que ela sentia pela injustiça do que Mar havia feito com Ana sumiu no meio da preocupação.

— Precisamos conversar — Mar falou baixo, a voz levemente grave soou delicada.

— Você está com raiva de mim?

— Não, eu... eu estou decepcionada. Não estou zangada ou chateada com você, só decepcionada.

— Você esperava mais de mim.

— Você me fez esperar mais de você.

— Eu errei com todo mundo, não é? Errei contigo, com a Amanda, com a Julia e até com o meu pai. Por mais que eu tente... eu só consigo estragar as coisas.

— Ei, olha para mim — Mar segurou o rosto dela — Sabe com quem você está errando? Não comigo, com Amanda, Julia e nem com o seu pai. O seu maior erro é com você mesma. Se você mesma de um ano atrás olhasse para você hoje, teria orgulho?

— Não.

— Então esse é o problema. Você está sendo alguém de quem você não se orgulha e é isso que faz a culpa te machucar. Confia em mim, eu entendo.

— Por que eu tenha a impressão de que seu discurso é “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”?

— Porque é exatamente assim — Mar acariciou o rosto dela com os polegares. Os olhos verdes brilharam com um carinho suave havia uma certa dor por trás do carinho, muito diferente da raiva abrasiva que ela viu da última vez — Eu fiz as escolhas erradas e eu vou tentar de novo.

— Com a Ana.

— Sim, com ela. Mas, antes de poder tentar de novo, eu precisei ir até o fundo do poço. Você não sabe de metade do que eu passe, não queira saber. E você não precisa ir até o fundo também antes de levantar. Você não precisa se destruir antes de tentar levantar.

Simone assentiu, enfiou o rosto na curva do pescoço de Mar. Quente e confortável. Sentiu a garota envolver seus ombros, as mãos dela acariciarem suas costas delicadamente. A conversa depois que Simone contou o que havia feito foi um tanto dolorosa. Não que Mar tivesse dito algo ruim, mas sim pelo quanto o erro de Simone e Ana machucaram Mar.

— Eu vou matar vocês — Mar falou olhando para Simone, seus olhos brilhando de dor, parecia que fora torturada até a alma — Matar as duas.

— Eu sei que não é uma coisa que eu deveria ter feito. Me desculpe...

— Acha que desculpas é o suficiente? Depois de tudo que eu fiz por você?

— Olha...

— Você deveria ser a última pessoa desse mundo que faria algo assim comigo! Quantas vezes eu falei o quanto eu gosto dessa garota? Quantas vezes eu conversei com você sobre isso?

— Mar...

— Não me olha como se você tivesse o direito de fazer algo.

— Você sabe que a gente poderia não ter contado, não sabe?

— Não é como se eu não fosse descobrir.

— Mas demoraria, não?

— Então você pensou em não me contar?

— Não, Mar, eu não cogitei isso. Nenhuma das duas. Só... não fique tão irritada.

— Não quer que eu fique irritada? Você transou com ela e não quer que eu fique irritada? — O rosto e o pescoço dela estavam ficando cada vez mais vermelhos — Eu estou puta da vida e chateada. O que você sentiria se eu transasse com a Amanda?

— Mar...

— Vamos, você não ficaria puta comigo? Nem magoada?

— Eu não estou mais namorando ela, eu já disse.

— E isso faz diferença? Então não namorar é carta branca para você transar com a garota que eu amo — depois de uma breve frase, Mar continuou — Eu confiava em você. Eu realmente confiava em você, Simone. Eu deixei você entrar na minha vida, eu deixei você ser alguém importante na minha vida. E você faz isso? Eu só não quebro a sua cara porque eu prometi que não te machucaria, mas você bem que merece. As duas merecem.

Aquela havia sido a última vez que Simone viu Mar até aquele momento. Ela não queria machucar a garota, era a sua melhor amiga. Porém, cada aspecto da sua vida estava desmoronando. Mar murmurou em seu ouvido:

— Você fez Amanda ir embora. Por favor, não faça isso comigo. Me deixe ficar.

Simone assentiu, elas se afastaram e Mar beijou sua testa. Como a garota conseguia agir tão protetoramente?

Depois de alguns minutos, uma garota e um garoto apareceram com as sacolas conhecidas, pesadas e cheias de bebida. Simone levantou, Mar levantou com ela, e foi em direção ao casal.

— Não, hoje não — Mar segurou a mão de Simone e a puxou em direção ao ponto de ônibus — Você vai para casa, estamos no final do ano. Você não tem uma pilha de livros para ler? — Simone riu baixo.

— Okay... e você não vai beber?

— Hoje não.

Simone assentiu. Mar esperou o ônibus com ela e a observou entrar. Simone se sentou no último banco do ônibus, encostada na janela. Ela fechou os olhos e se controlou. Quando chegou em casa, ela imediatamente se enfiou no quarto e se jogou na cama. Ela enfiou a cara no travesseiro e se viu chorando desesperadamente. Sentia falta de seu pai, dos braços fortes e da segurança que ele passava. Sentia falta do amor dele. Faria qualquer coisa par ter seu pai de volta, porém, os mortos nunca voltavam.

Ela sentia falta de Amanda, do relacionamento delas. Porém, não o relacionamento dos últimos meses, mas sim o relacionamento antes de Patrícia. Antes do acidente de carro. Sentia falta de se enfiar no peito da psicóloga e sentir o cheiro de alfazema. Os beijos suaves, os abraços familiares. Também sentia falta do sexo. Não exatamente do prazer, o ato em si e dos orgasmos. Ela sentia falta do quanto elas se conectavam quando faziam amor. O quanto era íntimo se abraçarem nuas, podiam se tornar uma só por alguns instantes.

Lucas era a sua família e ela o perdeu. Amanda era sua casa e ela a perdeu. Julia era sua amiga e agora ela a odiava. Apenas Mar restou, afinal, apenas Mar parecia entender perfeitamente o que estava acontecendo.

Ela continuaria tentando, ela continuaria lutando contra o que ela se tornou. Isso porque ela continuava precisando de Amanda, porém, ela não poderia ficar com a mulher enquanto fosse daquele jeito, enquanto machucasse a mulher. Ela só queria não demorar demais, ela só queria que não se consertasse quando já fosse tarde demais. Queria conseguir tê-la de volta antes que Amanda a superasse, antes que tentasse com outra pessoa.

Ela não queria ser como Arthur. Simone pertencia à Amanda, seu coração e sua alma eram da mulher, mas a sua mente não estava funcionando do jeito certo. E, enquanto sua mente estivesse daquele jeito, pensando nos melhores modos de se autodestruir, Simone sabia que precisava se manter longe. Precisava ficar sozinha. Ela não queria machucar ainda mais aquela mulher. Por isso, ela estava sozinha.

Simone viu o medo em Mar, o medo de que ela se afundasse tanto assim. Simone também tinha esse medo, ela não queria cair tanto. Afinal, quem poderia fazê-la se erguer era Amanda, e era perigoso arriscar tanto assim. Simone poderia ficar bêbada todos os dias para tentar esquecer, poderia transar com qualquer garota para se aventurar, podia até mesmo aceitar um dos cigarros mentolados de Mar.

Porém, no fundo, Simone sequer queria levantar da cama. Ela não queria acordar todos os dias, levantar, se arrumar, ir para escola. Ela não queria seguir a rotina; Ela queria ficar na sua cama, com fones de ouvido, abraçada com um travesseiro e esperar até definhar.

 

Mas ela precisava continuar.

02. Mockingjay por Senhorita Charlie
Notas do autor:

Vocês se lembram do que 'mockingjay' significa dentro dessa história?

Segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Iago Mendes estava irritado, muito irritado. Puto com os seus pais. Ele estava com uma expressão emburrada, os olhos negros. Ele estava batendo com o pé no chão em um ritmo rápido e irritando, seus dedos batucavam o braço da cadeira enquanto ele falava de mau humor:

— E, além de toda essa merda, meus pais me colocaram de castigo: duas semanas sem internet. Minha vida está uma merda — o garoto bufou, frustrado, cruzou os braços com uma expressão emburrada.

— Então use esse tempo para estudar — Amanda falou calmamente, seu relógio apitou, marcando o fim da sessão.

— Vou pensar nisso — ele resmungou.

— Ótimo. Te vejo semana que vem.

Ele não respondeu, assentiu, mau humorado, e saiu do consultório. Amanda fechou os olhos, sua cabeça estava pulsando como se alguém estivesse batendo com um martelo a parte interna de seu crânio. Ela massageou lentamente as têmporas, tentando diminuir um pouco a pressão. Lentamente, ela pegou uma caneta e anotou algumas coisas sobre aquela sessão, sua letra saiu desleixada e levemente tremida. Simone cerrou os dentes e jogou a caneta e o bloco de notas na sua mesa.

Ela olhou para o relógio, nove para o meio dia. Tinha marcado para almoçar com Julia. Quando deu meio dia, ela saiu do consultório e desceu pelas escadas. Assim que ela chegou na calçada, viu seu carro parar no meio-fio. Julia apertou a buzina brevemente e Amanda entrou no carro. Mesmo que conseguisse dirigir apenas se sentindo nervosa, Amanda havia decidido que realmente deixaria o carro com Julia.

Apesar do restaurante ser perto da clínica, Julia precisava ir de carro porque a faculdade era relativamente longe. Amanda observou Julia dirigir, concentrada no trânsito. Era um trajeto rápido, então em dez minutos, elas já estavam na fila do self-service.

Ao contrário do que sempre fazia, Amanda colocou pouca comida no prato, só o suficiente para continuar de pé. Ela adorava a comida daquele lugar e normalmente enchia o prato, comia tanto que ficava se sentindo inchada. Tão cheia que poderia explodir se levasse um soco no estômago. Porém, ela não estava com vontade de comer.

Depois de fazerem seus pratos, pegarem suas bebidas e pagarem a conta, elas sentaram em uma mesa perto da janela. Tinham uma visão legal dos carros passando na avenida do lado de fora. Julia abriu a soda dela, tinha algumas coisas para contar para a irmã.

Depois de falar durante cinco minutos, Julia percebeu que Amanda não estava prestando atenção nela. A psicóloga estava mexendo no arroz com o garfo distraída. Os olhos castanhos opacos e vazios, ela tinha uma expressão triste.

— Você não está prestando atenção em mim — Julia bufou — Por causa dela, não é?

— Eu já entendi que você está com raiva dela, não precisa reafirmar isso toda hora e todos os dias.

— Eu só perguntei...

— Com esse tom de raiva, eu conheço você. É o mesmo tom com que você fala de Arthur.

Amanda deixou o garfo no prato praticamente intocado, ela havia perdido a fome. Perder a fome era algo que andava acontecendo demais, mas ela era racional o suficiente para se obrigar a comer e a manter a comida no estômago. Ela não pretendia chegar ao fundo do poço outra vez, então se forçaria a ter a mesma velha rotina. A viver exatamente como vivia antes de Simone entrar na sua vida.

Só havia um problema com isso: agora ela sabia como era viver com aquela garota na sua vida e isso era viciante.

Amanda bufou, terminou de beber seu refrigerante, murmurou uma despedida para Julia e saiu do restaurante. Como era perto do consultório, ela caminhou lentamente em direção ao prédio. Ela travou por um segundo quando viu uma figura encostada no poste em frente ao prédio. Claudia, com os braços cruzados e claramente esperando por ela. De longe, já era possível ver que ela estava bem mais magra e pálida do que parecia da última vez que Amanda a viu. Amanda respirou fundo, se aproximou dela e perguntou:

— O que você quer?

— Precisamos conversar — o tom de voz dela não era ameaçador ou frio. Na verdade, era suave, delicado, parecido com o tom de voz com que Carmem falava. Isso pegou a mulher de surpresa, o que fez a sua guarda praticamente desmoronar — Eu não vim para brigar, eu não vim para atacar.

— Okay... então, vamos entrar. Não é exatamente confortável conversar no meio da rua.

Claudia assentiu e seguiu a sobrinha. Amanda fez um sinal para que a mulher esperasse perto da porta e se aproximou do balcão. Ela falou para Diego:

— Ela vai entrar comigo.

— E quem ela é? — Ele perguntou enquanto se curvava para a direita, olhando para a mulher.

— Minha tia.

— E você tem uma família além da Julia?

— Mais ou menos — Amanda resmungou.

— Mais ou menos? Você nunca...

— Cala a boca e me dá o formulário.

Diego revirou os olhos, Amanda às vezes podia ser bem rude. Na verdade, ele mesmo sabia que era um tanto irritante. Ele pegou um formulário e entregou para ela junto a uma caneta. Era preciso preencher aquele formulário toda vez que alguém que não fosse um paciente quisesse entrar no consultório de um dos psicólogos. Amanda preencheu o formulário rapidamente, rubricou e entregou para Diego. Ele conferiu rapidamente e disse que Claudia poderia entrar.

A mulher seguiu Amanda. Ela nunca havia entrado no prédio, então quando entrou no consultório, ela observou ao redor. Viu como era pequeno e confortável ao mesmo tempo. A psicólogo apontou para a cadeira, Claudia se sentou e Amanda foi para seu lugar.

— Então, o que te trouxe aqui?

— Eu vim pedir desculpas.

— Desculpas — Amanda ergueu lentamente as sobrancelhas — Desculpas depois de o que? Vinte anos me odiando?

— Eu estava errada... muito errada. E eu já tinha percebido isso, mas... mas eu sou orgulhosa demais.

— E o que te fez mudar de ideia? O que te fez vencer o seu orgulho e vir aqui me pedir desculpas? — Claudia abaixou a cabeça, a psicóloga sabia que havia algo de muito errado — Você está doente ou alguma coisa assim, não está? — Claudia assentiu lentamente, Amanda suspirou, era típico: humanos eram frágeis, se arrependiam de tudo quando estavam doentes — E é grave.

— Sim.

— Você está morrendo.

— Basicamente.

— O que você tem?

— Insuficiência renal crônica — Amanda ergueu as sobrancelhas, ela já ouviu falar daquilo algumas vezes.

— E isso é bem grave.

— Sim...

— Por isso você veio me pedir desculpas: você se arrependeu porque está morrendo.

— Sim. Eu sei que não é o certo e...

— E isso é mais comum do que você imagina, não se preocupe.

— Me perdoa ou não?

— É realmente importante.

— É, é importante.

— Você pode me dar um tempo para pensar?

— Claro — Claudia levantou para sair — Então você, hm... pode me ligar?

— Sim.

Amanda a observou da sala, tinha a incômoda impressão de que Claudia não queria apenas pedir desculpas. Parecia que ela queria pedir ajuda, mas estava envergonhada ou era muito orgulhosa para simplesmente pedir. Amanda fechou os olhos, ainda tinha algumas sessões antes de poder ir para casa e se enfiar em sua cama confortável.

Sua vida estava desmoronando outra vez.

Julia estava irritada com ela, a garota parecia sempre estar disposta a confirmar o quanto estava com raiva de Simone e isso deixava Amanda se sentindo mal. Julia agiu de um jeito parecido, mas havia algo de diferente. Algo simples: Amanda amava Simone e aquilo estava machucando ela de um jeito cruel.

A psicóloga queria voltar no tempo e consertar as coisas. Ela teria conversado mais com Simone depois da volta de Patrícia. E, melhor ainda, teria arranjado um jeito de impedir que Lucas morresse. O jeito não importava, ela faria aquilo.

***

Julia estava cortando um pedaço de carne quando Amanda chegou, a psicóloga resmungou um “oi” e abriu a geladeira em busca de uma água gelada, ela pegou uma garrafa, um copo e se sentou na mesa. Julia via o quanto a mulher estava cansada, a garota se sentiu culpada por ter passado a última semana deixando claro até demais o quanto ela estava puta com Simone. Ela largou a faca e lavou as mãos, secou as mãos e se aproximou da irmã. Amanda a olhou desconfiava, praticamente esperando que Julia falasse alguma coisa desagradável.

Porém, a garota apenas passou os braços ao redor dos ombros dela. Amanda fechou os olhos e respondeu ao abraço passando os braços ao redor da sua cintura, fechou os olhos enquanto sentia o calor da garota.

— Me desculpe — Julia murmurou.

— Você não precisa pedir desculpas.

— Claro que preciso — Julia se afastou um pouco e se agachou na frente da irmã — Vou parar de agir como uma babaca — Amanda sorriu levemente, se curvou e apoiou a testa no ombro da garota — Eu te amo.

— Eu também te amo.

Depois de alguns minutos abraçadas, Julia se afastou para terminar de fazer o jantar. Ela perguntou para Amanda como foi o seu dia. Amanda falou sobre as sessões, sobre seus adolescentes irritantes que achavam que sua vida acabaria apenas porque estavam com um 4G péssimo.

Depois, a mulher falou sobre Claudia.

— É meio hipócrita, não é?

— É algo comum, Julia, a ideia de ver a morte tão perto muda os seus pontos de vista. Quase morrer ou saber que você não tem muito tempo... Mesmo que todos saibam que podem morrer algum tempo, ter isso tão confirmado na sua vida faz você pensar em cada coisa que você já fez

Julia virou para olha-la. Sua irmã estava diferente, ela era mutável até demais. Ela mudou quando se apaixonou por Simone, quando aconteceu aquilo no baile de primavera e então Simone a convenceu a mudar. Ela mudou quando sofreu o acidente e Julia achava que era essa mudança que Amanda estava falando enquanto falava sobre morte. Ela havia chegado perto da morte.

— E você vai perdoar ela?

— Eu não sei — Amanda batucou os dedos na mesa — Acho que sim.

— Mesmo depois de tudo que ela fez? — Julia virou para ela — Depois do quanto ela te machucou?

— Ela é da família.

— Não, ela não é.

— Julia...

— Você realmente quer perdoar ela? Olha de quantas coisas ela já te chamou, ela nunca sequer te tratou de um jeito certo. Ela sempre te tratou como se você fosse um monstro. Como você pode ter coragem de perdoar ela?

— Eu acho que todas as pessoas merecem uma chance.

— Mas ela é uma vadia!

— E se arrependeu! Ela simplesmente se arrependeu.

— Porque ela está morrendo.

— E por isso ela merece uma chance!

— Não Amanda.

— Eu não estou pedindo para você perdoar ela.

— Mas você quer fazer isso.

— Claro que eu quero, Julia, ela é da família.

— Não é. E ela não é como a nossa mãe, ela não é nem um pouquinho como a nossa mãe. E pedir a porra do seu perdão não vai fazer ela ser alguém melhor.

— Eu sei disso, Julia — Amanda massageou a própria nuca, estava latejando e ela sabia que isso era ruim — Para com isso.

— É você quem enlouqueceu, é você que agora chama ela de família.

— Eu não enlouqueci, okay? — Ela levantou, os olhos mostrando o quanto estava magoada — Eu não devia ter te contado sobre isso.

Ela saiu da cozinha e foi em direção ao banheiro, sua cabeça latejava. Era uma dor de cabeça que nunca diminuía, que nunca melhorar. Às vezes era tanta dor que ela não conseguia pensar direito. Ela molhou o rosto com a água gelada, tentando se sentir melhor. Aquele era um bom momento para ter Simone perto.

A velha Simone.

A garota que a abraçaria, que deixaria Amanda deitar a cabeça no seu peito e chorar com toda a pressão que sentir por causa de Claudia. A garota que acariciaria as suas costas lentamente, delicadamente, com o amor suave que ela sentia. A garota que faria Amanda se sentir melhor, que a acalmaria e a ajudaria a decidir se perdoaria ou não. Depois, a psicóloga a levaria para casa e diriam: Mockingjay.

Porém, aquela garota estava perdida. Ou, pior, estava morta. E o que havia restado em seu lugar apenas machucava e deixava Amanda ainda pior.

A psicóloga trancou a porta do banheiro e tirou as roupas para tomar seu banho, a água gelada que a acordaria e a faria conseguir pensar melhor. Claudia não era sua mãe, não se parecia nem um pouquinho com ela. Porém, por mais filha da puta que aquela mulher fosse, ela continuava sendo parte da família. Era o mesmo sangue, era o mesmo nome, a mesma genética.

 

E se Claudia estava arrependida, Amanda precisava dar a chance.

03. O Primeiro por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Simone estava sentada em sua cadeira giratória, preguiçosamente rodando, os olhos fechados e prestando atenção nas batidas da música. Nos últimos dias, quem estava ocupando sua mente era Amanda, deixando Lucas um tanto de lado. Porém, era quase uma disputa saber de quem ela sentia mais falta.

Apesar de saber que poderia dar um jeito e ter Amanda de volta, ela sentia uma dor maior quando pensava que era culpa dela. Culpa do que havia se tornado, ela própria havia expulsado Amanda da sua vida. Era mais ou menos a mesma culpa que ela sentiria se ela tivesse atirado em Lucas.

Ela olhou para sua mesa bagunçada, cheia de papéis e canetas. A maioria estava rabiscada com palavras aleatórias. Pegou um post-it, cinco versos sem rima escritos com sua letra desleixada.

Loucura consome minha mente

Um dia após o outro

Cansada de tudo isso

Apenas querendo dormir

Sem nunca acordar

— Sou uma idiota.

Ela resmungou, amassou o papel e jogou ele em direção a lata de lixo. Ela não era poetisa, apenas alguém viciada em ler. E que estava tentando desabafar sua dor de outros jeitos. Fosse em uma poesia cuja a primeira letra da primeira palavra de cada verso formava o nome de quem ela sentia falta. Ela suspirou e encontrou outro post-it, seis versos.

Antes de tudo acabar

Me ame outra vez

Até a minha exaustão

Não precisa parar

Dia após dia

Até o final dos tempos

Simone sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.

Ela precisava esquecer ou ela morreria, tudo aquilo estava a assombrando há dias e a fazendo se sentir um lixo podre. Simone já estava naquele ponto onde chorar não é mais o suficiente para que toda a dor seja colocada para fora. Então Simone lembro que poesias de cinco ou seis versos, música no último volume, doses de vodka e sexo com outras garotas não eram os únicos modos de aliviar uma dor emocional insuportável. Ela não queria se render, mas ela também não queria realmente morrer. Por isso, ela erraria mais uma vez apenas com a esperança de alguma hora realmente acertar.

Ela pegou um apontador e o rodeou entre os dedos, lembrando-se de uma história:

Estavam na sexta série, ela e Henrique sentavam um ao lado do outro. Estavam em julho, havia um garoto que sentava no fundo e não falava com ninguém. Sempre de casaco, touca e parecia eternamente triste. Naquele dia, ele se meteu em uma briga porque estavam jogando bolinhas de papel nele durante toda a aula. Ele contra cinco outros garotos e acabaram tirando o casaco, o expondo na frente de cerca de 40 alunos. Braços magros, pálidos, frágeis cheios de linhas vermelhas e cicatrizes, com curativos e band-aids. Ele fugiu da sala e nunca mais apareceu, mudou de colégio depois da humilhação. Chamaram ele de todos os nomes ofensivos: viado, bicha, baitola, fracote, maricas, fresco, louco e coisas assim.

Aquela imagem ficou na mente de Simone durante meses até que ela ouviu o termo “auto-mutilação”. Pesquisou o termo e encontrou imagens terríveis e depoimentos tão tristes que a fizeram chorar. Tantos modos diferentes, qualquer modo de se ferir era considerado auto-mutilação. Os braços daquele garoto sofreram muito com aquele problema e ela não sabia o que poderia ser tão ruim a ponto de fazer alguém ferir a própria pele.

Pelo menos, não sabia até aquele momento.

É um tanto óbvio do porquê disto estar sendo contado agora. É um tanto óbvio o que ela estava pensando enquanto olhava o apontador em sua mão. Ela o ergueu até a altura dos olhos, a luz brilhava na pequena lâmina do objeto. Ela franziu o cenho enquanto via o pequenino parafuso, os vincos nele para se tirar da estrutura de plástico eram pequenas, talvez a ponta de uma faca conseguisse ajudar.

Simone estava sozinha em casa, Patrícia só chegaria depois das oito. Então, ela saiu do quarto e foi para a cozinha. Procurou por uma faca de ponta que poderia se encaixar no pequeno parafuso. Então ela apoiou o apontador na mesa, se curvou e calmamente encaixou a ponta da faca, girou lentamente até soltar. Virou o apontador na mão, o pequeno parafuso e a lâmina caíram em sua mão. Ela foi até o quarto olhando aquilo na sua mão.

Sentou de volta na sua cadeira, jogou o pedaço de plástico e o parafuso na mesa, encarou a pequena lâmina entre o indicador e o polegar. Pequena e extremamente leve, fácil de se perder e Simone precisaria encontrar um lugar para esconder aquilo. Passou a ponta do indicador da outra mão pela lâmina, sentiu a dor fraca e viu algumas gotas de sangue. Ela colocou o dedo na boca e sugou o sangue, pressionando com a língua para parar de sangrar.

Ela colocou aquilo na mesa, cuidadosamente para não perder. Se fosse fazer algo ruim, que fizesse aquilo do jeito mais correto possível. Foi ao banheiro, abriu o armário debaixo da pia e pegou um rolo de papel higiênico. Na caixinha de primeiros socorros, haviam algumas coisas que poderiam ser úteis. Ela abriu, pegou a caixinha de chumaços de algodão e a garrafinha de álcool. Voltou para o quarto, deixou seus materiais na mesa e trancou a porta.

Seria como um ritual.

Ela tirou a camisa e abriu a porta do armário, havia um espelho que permitia ela ver uma boa parte do próprio corpo. Não comer direito tinha seu efeito, ela viu que estava mais magra. Suas costelas estavam perfeitamente visíveis, mais do que antes, o osso do quadril parecia mais proeminente. Os ossos nos ombros também, eles se destacavam contra a pele.

Simone molhou um chumaço de algodão e limpou um pedaço de pele, lado direito, abaixo das costelas. Com outro chumaço de algodão embebido no álcool, ela limpou a lâmina. Ela se olhou no espelho, sem camisa e uma lâmina na mão. Viu seu reflexo triste, abatido, quase como o de alguém morto.

Então ela o fez. O primeiro, apenas o primeiro. Encostou a lâmina na pele, empurrou e cortou. Ardeu, ela cerrou os dentes com força e grunhiu. O estava a garota que ela era? Aquilo era o seu salto para realmente se auto destruir. Fez outro e outro, linhas imperfeitas na sua pele, o sangue escorreu. Vermelho, rubro, escarlate, destacado contra a pele doentiamente pálida.

Continuou, um após o outro. Dois, quatro, oito, dezesseis. Ela parou, suas mãos tremendo e sem fôlego. A lâmina ensanguentada caiu de sua mão, gotas de sangue sujaram o chão entre seus pés. Ela se olhou no espelho, o sangue escorria dos cortes e chegavam na calça de pijama que ela vestia, era uma sujeira danada. Ela ignorou uma regra fundamental: nunca faça o seu primeiro corte.

Respirou fundo. Ela pegou o papel higiênico e enrolou a mão, do melhor jeito que podia, ela cobriu os cortes com o papel e pressionou. Suas pernas estavam trêmulas, então ela se empurrou até a cama. Caiu deitada de costas, ambas as mãos pressionando a barriga que sangrava. Colocou mais e mais papel higiênico. Ardia, era algo quente e úmido sob as suas mãos. Ela não morreria com aquilo, mas ela se sentia cansada, incrivelmente exausta. Ela fechou os olhos e se deixou mergulhar em um sonho, em uma lembrança boa com Amanda.

Sábado, 9 de Janeiro de 2016

 Simone empurrou Amanda até que as costas dela batessem na parede do quarto. Pedro e Julia estavam na sala assistindo um filme, mas Simone não estava interessada naquele filme. Então, não havia assistido nem vinte minutos quando decidiu pedir para Amanda ajuda-la a arrumar a bagunça que sua mala estava, porém, a maior parte das suas roupas estavam penduradas para secar. Então ela trancou a porta e beijou a psicóloga com toda a vontade.

— Já transamos na praia — Amanda murmurou enquanto Simone marcava o seu pescoço.

— Eu sei — ela respondeu, suas mãos na cintura da psicóloga desceram lentamente até estarem na sua bunda e apertou a carne com força.

Simone desceu mais as mãos e acabou por fazer Amanda subir no colo dela, as coxas ao redor do seu quadril enquanto a garota a segurava. Depois de alguns minutos se beijando naquela posição mesmo, Simone girou com a mulher pendurada nela e foi para a cama. Em poucos segundos, as roupas de Amanda estavam longe de seu corpo. Simone a puxou até que suas pernas ficassem para fora da cama e logo enfiou o rosto em um dos seus lugares favoritos.

Era uma coisa divertida e interessante: algumas vezes, Simone passava longos minutos nas preliminares, nos dias em que elas podiam passar horas fazendo sexo. E outras vezes, quando o tesão estava grande, Simone praticamente mal a beijava antes de enfiar o rosto e abocanha-la.

Não que Amanda tivesse um preferência, no final, ela chegava de qualquer maneira no ápice.

Mas uma coisa sempre acontecia: o abraço morno e carinhoso.

Depois de atingir sua meta favorita (fazer Amanda gozar), Simone subiu os beijos pela barriga psicóloga e a abraçou. Amanda passou os braços ao redor dos ombros dela e enfiou o rosto no seu pescoço.

— Eu amo você — Simone disse quando ela se afastou um pouco, acariciou o rosto da mulher com os polegares — Eu amo tanto você...

— Eu também te amo — a beijou delicadamente — Agora você pode devolver a minha roupa?

Simone riu e pegou a camisa e a calcinha dela, ajudou ela a se vestir. Amanda deitou e Simone se enfiou no seu peito, os braços ao redor da cintura dela e o ouvido colado no peito onde podia ouvir perfeitamente as batidas do seu coração. Era outro som que Simone amava.

Quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Simone cruzou os braços, com cuidado para não fazer seus cortes doerem. Os fones enterrados nos ouvidos e a batida enchia a sua mente. Ela fechou os olhos e apoiou a cabeça no vidro atrás dela. Ela não havia prestado atenção na aula do dia, estava apenas pensando no que havia feito no dia anterior. No quanto aquilo ardia por baixo da blusa.

Ela sentiu uma mão no seu ombro, abriu os olhos e viu Mar.

— Oi — tirou os fones de ouvido e viu a garota sentar do seu lado.

— Oi — respondeu e tirou o maço de cigarros — Você não parece muito bem.

— Não dormi direito — encolheu os ombros e observou ela tirar um cigarro do maço — “Vocês fumam para apreciar, eu fumo para morrer”, essa frase combina contigo?

— Combinava, acho que a minha namorada não gostaria que eu morresse.

— Eu também não gostaria. E quem diria que você deixaria de ser uma cafajeste, não é mesmo?

— Acho que é mais impressionante alguém me fazer mudar do que eu mudar — ela cobriu a ponta do cigarro para evitar o vento e o acendeu.

— As duas coisas me parecem impressionantes — Mar riu baixo — Você nunca fica sem um cigarro na boca?

— Só quando ela está ocupada. Mas não importa, eu reparei que você não estava prestando muita atenção na aula de hoje.

— Estava pensando que eu deveria estar dormindo em vez de estar na aula.

— Eu sei que as aulas são chatas, mas fazer o que? Você precisa assistir elas se quiser alguma coisa da vida.

— Eu sei disso — ela viu o motorista se aproximar do ônibus e sentiu um pequeno alívio, ela não queria realmente conversar com Mar porque morria de medo da garota notar que havia algo de errado com ela — Te vejo amanhã.

Mar levantou atrás dela, segurou seu braço para que ela não subisse imediatamente no ônibus. Ela beijou sua bochecha e murmurou no seu ouvido:

— Só não faça nada de ruim contra si mesma.

E deixou Simone entrar no ônibus.

A garota sentiu uma culpa dolorosa se espalhar pelo seu corpo, quase como se Mar pudesse ler os seus pensamentos, saber o que ela estava escondendo. Ela fechou os olhos, procurou outra música para ouvir enquanto o seu ônibus sacudia para fora do terminal. Ela estava enjoada, apesar de só ter tomado uns dois copos de água.

Quando desceu no seu ponto, Simone praticamente correu até a casa. Ela largou a mochila no corredor e se enfiou no banheiro, ela se apoiou na pia e respirou fundo. Abriu a torneira e jogou água gelado no rosto. Ela se olhou no espelho, parecia ainda mais cansada do que no dia anterior. Tirou a camisa do uniforme e a blusa de mangas compridas e olhou para as feridas, estavam vermelhas, coçavam e ardiam.

Ela tirou o resto das roupas e se enfiou debaixo do chuveiro, a água gelada bateu em seu corpo e tirou todo o suor que estava nele. Ela deixou que as lágrimas escorressem junto com a água, ela não queria precisar daquilo.

 

Abaixou a cabeça, respirou fundo e apenas se sentiu desabar cada vez mais.

04. Se For Pra Ser por Senhorita Charlie

Sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Cerveja não era exatamente a bebida favorita de Amanda, mas ela não podia beber nada forte por causa do seu trabalho. Havia marcado um lanche com Claudia e estava bebendo uma cerveja gelada enquanto ela esperava.

- Eu não sabia que vendiam bebida ao meio dia - Claudia disse enquanto sentava no banco ao lado de Amanda - E muito menos que você podia beber.

- Eu já passei dos dezoito há muito tempo.

- Você entendeu.                                                                        

- Eu posso beber sem ter uma crise - ela encolheu os ombros - E isso aqui nem é tão forte.

- Você não parece nem um pouco bem.

- Eu sei. Não é nada demais.

- Tem algo a ver com a sua namorada?

- Ex-namorada. Ela terminou comigo. Mas não exatamente, eu não estou bebendo só por causa dela - ela colocou o copo de volta na mesa - Enfim, você está muito mal?

- Não muito, só estou um pouco cansada. Mas não vamos falar sobre mim.

- E vamos falar sobre o que? Eu sou realmente boa em ouvir.

- Eu também. Então fala um pouquinho.

- Mas... Está bem, é que me ofereceram uma promoção.

- E isso é bom, não é?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos?

- Sim, não sei... me ofereceram um cargo legal em um projeto novo.

- E o que é esse novo projeto?

- Terapia para algumas crianças e pré-adolescentes.

- Isso é interessante.

- Talvez, mais benefícios e um aumento de cerca de 30% do meu salário.

- Parece maravilhoso, por que você não parece muito feliz com isso?

- Porque digamos que esse projeto não é aqui no Rio, então...

- Você vai ter que se mudar?

- Sim, para alguma cidade minúscula e quente no norte ou nordeste, eu não sei. Eu nem sei se vou aceitar.

- Parece coisa boa.

- Eu sei, só não sei se vou aceitar.

- Por que não?

- Eu não gosto muito de mudanças.

- Eu também não.

- É... posso fazer uma pergunta?

- Faça.

- Por que você me odeia?

- Eu não odeio você - Claudia encolheu os ombros - Eu fui uma babaca. Sua mãe sempre foi a melhor em tudo, acho que eu tinha inveja dela. E você é muito parecida com ela. E o TEI... e em vez de querer ajudar, eu só tentei te desprezar. Eu nunca te odiei, eu só estava agindo como se você fosse algum tipo de culpada de tudo. Me perdoa?

- É família, não é, é claro que eu perdoo.

Segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O paciente das duas já havia saído quando Arthur apareceu na porta do consultório, Amanda revirou os olhos, porém o deixou entrar. Ele estava vestido de um jeito mais social do que o costume. A calça social azul marinho, a camisa social branca com uma gravata vinho. A barba a fazer e o cabelo curto sem nenhum único fio de cabelo fora do lugar do penteado que ele mantinha.

- Ainda não vai me dar uma chance?

- Você é o meu passado, Arthur. Eu não te esqueci e nem perdoei, então não vou te dar outra chance.

- Por favor, Amanda - a psicóloga ergueu as sobrancelhas - Vamos...

- Você ficou meses sem me encher o saco, por que voltou agora?

- Porque eu não posso simplesmente desistir da mulher da minha vida, posso?

- Eu não sou a mulher da sua vida - ela revirou os olhos - E você não é o homem da minha vida, não é difícil entender. Além disso, no momento eu não estou disponível para ninguém, nenhum homem e nenhuma mulher. Só me deixe em paz.

Arthur cerrou os dentes quando Amanda se aproximou da porta e fez um gesto mostrando que ele deveria sair. Ele se aproximou dela e, em vez de sair, chutou a porta para que ela se fechasse. Ele agarrou os braços dela e a empurrou contra a porta.

- Você é minha.

- Me solta, está machucando.

- É isso que você quer, não é? - Ele prendeu os braços dela acima de sua cabeça - Que eu prove que eu sou homem o suficiente pra você.

- Eu quero que me solte, você está bêbado, Arthur.

- Não vou te soltar até você se entregar...

Ela o interrompeu acertando uma joelhada entre suas pernas, ele a soltou e se curvou com as mãos onde foi atingido. Amanda abriu a porta do consultório e o empurrou para fora, fechou e se trancou ali dentro. Sua respiração acelerada, as costas e os braços doendo. Ela se encostou na porta e escorregou no chão, seria um bom momento para ganhar um abraço de Simone.

Mas ela não tinha mais Simone, praticamente não tinha Julia e sua vida estava desmoronando.

Terça-feira, 25 de outubro de 2016

Amanda ergueu as sobrancelhas quando viu Mar, ela estava encostada no poste, os braços cruzados, fones de ouvido e balançando lentamente a cabeça com os olhos fechados. A psicóloga se aproximou, puxou o fone do ouvida da garota e perguntou:

- Esperando alguém?

- Esperando você - tirou o outro fone. Ela sorriu levemente.

- E como você sabe onde eu trabalho?

- Eu quase namorei a sua irmã, ela me falou tudo sobre você. Tanto que acho que eu te conheço melhor do que você mesma - ela desencostou do poste e enfiou as mãos nos bolsos do casaco - Posso te acompanhar?

- Claro - Amanda enfiou uma mão no bolso do jeans enquanto a outra mão segurava a alça da bolsa cheia de papéis, as duas começaram a andar em direção a estação do metrô - Você já se resolveu com a Ana?

- Sim, sim. Eu sei que eu errei feio naquele dia, que eu realmente exagerei. Não sei como ela conseguiu vir atrás de mim.

- Provavelmente porque ela realmente gosta de você - Amanda encolheu os ombros - Apesar de ela não estar exatamente certa em te perdoar enquanto ela estiver viva

- Talvez seja aquele ditado: se for pra ser será.

- Uma pessoa de vinte e oito anos com cara de vinte falando um ditado é estranho, sempre imaginei ditados como coisas de pessoas idosas.

- Mas a maioria dos ditados são verdadeiros, acredito que esse seja um deles.

- Talvez... você acha que eu e a Ana, sabe, é pra ser?

- Eu não sei, talvez. Você só vai saber se você tentar.

- Acha que vai dar mais certo do que com Julia?

- Bem, ela está te aguentando.

- Eu era pior.

- A Julia não aguentou e você não bateu nela.

- A Julia não transou com a minha melhor amiga - resmungou e enfiou o ticket pela fenda na roleta.

- Você está justificando? ­- Amanda também enfiou o ticket - Existe alguma justificativa boa para bater naquela garota daquele jeito?

Marisa abaixou a cabeça e começou a descer as escadas em direção a plataforma. Depois das sete, o metrô não ficava tão cheio, até mesmo era possível conseguir se sentar sem grudar desconfortavelmente em outra pessoa. Com esse fato agradável, Mar e Amanda se sentaram lado a lado. O vagão estava gelado a ponto do nariz arder, era o tipo de coisa que Mar gostava. Ela enfiou as mãos nos bolsos e encolheu os ombros. Ela estava incomodada, era algo que Amanda podia sentir.

- Sabe... às vezes parece que a violência é a minha natureza. Eu cresci sentindo tanta raiva, dor e medo todo o tempo e por causa disso eu sou um caos completo.

- As pessoas são caóticas.

- Você não parece ser muito caótica.

- Se eu parecesse, eu não faria meu trabalho direito.

- Faz parte do trabalho esconder?

- Acho que faz parte da vida - Amanda suspirou - Minha vida está um caos.

- O quanto caótico?

- Muito. Simone terminou comigo, Artur voltou a encher a minha paciência, Julia me odeia e a Claudia simplesmente voltou. Querem que eu trabalhe em um projeto novo.

- Projeto novo?

- É, psicólogos para um projeto social para crianças e pré-adolescentes carentes.

- E esse projeto é bom ou ruim?

- É um projeto interessante, mas não é aqui no Rio. Então não sei bem se eu deveria aceitar.

- Um pouco de mudança na sua vida, não é algo bom?

- Acho que sim - Amanda esfregou o rosto, quando ela levantou as mãos, as mangas da camisa escorregaram e deixaram a mostra as marcas de dedos.

- E o que aconteceu com você?

- Hm - ela abaixou os braços, Mar apontou para as marcas - Ah, não foi nada.

- Marcas de dedo assim não são "não foi nada". Quem fez isso com você?

- Marisa...

- Amanda.

- Foi o Arthur... mas não é nada.

- Ele machucou você.

- Ele não me machucou.

- Não foi uma pergunta.

- Eu sei que não, mas foi só um incidente.

- Incidente?

- Sim, não vai acontecer de novo. Ele só perdeu o controle por alguns segundos, me agarrou e eu o empurrei. Nada demais.

- E o que ele ia fazer se você não tivesse força o suficiente para empurrar ele? E o que garante que ele não vai fazer isso de novo?

- Não precisa se preocupar tanto comigo.

- Então olha pra mim e diz que realmente acredita que o Arthur não vai te machucar, que não existe a mínima probabilidade de ele te agarrar, chance zero dele estuprar você.

- Marisa...

- Vamos, diz pra mim - Amanda tentou encarar ela e dizer que sim, que acreditava que aquilo não aconteceria. Mas ela não tinha certeza, não tinha certeza de nada.

- Está bem, eu não sei.

- Então você deveria arranjar um jeito de se afastar dele. Se ele não for para esse projeto, você pode ir.

- Não precisa se preocupar.

- Claro que preciso - Mar suspirou e abaixou a cabeça, ela murmurou tão baixo que Amanda só ouviu porque estava perto - E eu sei o quanto isso dói.

- Oh... e quem...? - Mar respirou fundo, ela não gostava de falar sobre aquilo. Quase ninguém sabia, mas ela achava que se contasse um pouco mais para Amanda, talvez a convencesse de se afastar de Arthur.

-Eu não quero dar detalhes... foi realmente nojento, Amanda. E muito menos quero que você me olhe com pena. É só que se você tem alguma oportunidade de ficar longe de Arthur, é melhor fazer isso do que arriscar.

- Eu... eu sinto muito.

- Não sinta - Mar beijou a testa de Amanda quando o metro parou - É a minha estação. Confia em mim: melhor fugir antes que seja tarde demais.

Quinta-feira, 26 de Setembro de 2013

- Acho que bebi mais do que deveria - Marisa resmungou, ela estava tentando ficar equilibrada para andar em direção ao seu ônibus - Puta merda.

- Eu te levo pra casa, amor - Julia disse e colocou a mochila nas costas ­- Quer que eu carregue a sua bolsa?

- Não precisa, só preciso que me empurre para o ônibus certo.

Julia riu baixo, segurou o braço de Marisa e a guiou até o ponto de ônibus, a empurrou para que ela sentasse. Falou com o despachante, pedindo autorização para que elas entrassem pela porta traseira e depois ela passaria os cartões. Ele olhou rapidamente para a garota bêbada no bando e disse que elas poderiam entrar. Marisa morava longe, então Julia a puxou até o final dos ônibus, a fez sentar no bando ao lado da janela.

- Vem aqui - Marisa murmurou e abraçou a garota ­- Por que você está sentada do meu lado?

- E onde era pra eu sentar?

- No meu colo.

- Estamos no ônibus.

- E? - Marisa não respondeu, ela enfiou um braço por baixo dos joelhou de Julia e puxou, fazendo ela ficar sentada de lado no banco com as pernas sobre as suas coxas - Melhor agora, miniatura de gente.

- Sua babaca - Julia riu e passou os braços ao redor do pescoço dela - Você não pode fazer isso.

- Posso sim - sorriu - Eu ainda nem fiz o que realmente quero fazer.

- E o que você realmente quer fazer?

- Você sabe...

Marisa a beijou, claro que Julia sabia.

***

Julia ajudou Marisa a descer do ônibus, ela esperava que o motorista não tivesse sequer desconfiado do que havia acontecido nos bancos da parte de trás do carro dele. Ela gostava e como Marisa agia na maior parte do tempo, fofa e tarada ao mesmo tempo, elas acabavam combinando por causa disso. As duas gostavam de um momento "amorzinho" e de um momento quente ao mesmo tempo.

Elas subiram com o elevador. Julia apertou a campainha e um homem grande, o cabelo loiro acizentado curto em um corte meio militar, os olhos verdes mais escuros que os de Marisa, atendeu. Ele pareceu não gostar nem um pouco da cena. Ele foi ríspido ao mandar Julia ir embora, ela praticamente correu para longe dele sem fazer a mínima ideia do que aquilo significaria para o relacionamento que ela mantinha com Marisa.

O homem puxou ela para dentro, a mãe e a irmã apareceram e uma discussão calorosa começou. Marisa cuspiu tudo, o quanto detestava ir para a igreja, fingir ser a mulher perfeita, falou sobre o cigarro e a bebida. Falou sobre Julia. E é claro que ela não deveria ter mencionado aquele detalhe, já estava ferrada o suficiente sem que sua família soubesse.

Podemos te consertar. Seu irmão, que havia chegado depois que a discussão começara, falou. Nem sua mãe e nem sua irmã moveram um músculo quando os dois homens a arrastaram para o quarto vazio e pequeno, eles não tinham uma empregada e aquele quarto não tinha nenhum uso. Ninguém podia ajuda-la e nem salvá-la enquanto eles a "consertavam". Os chutes e os socos não a machucavam tanto quanto o fato deles, que deveriam ser a família dela e cuidarem dela, a violentarem daquele modo.

A noite inteira, horas entre socos e estupros, qualquer coisa boa dentro dela estava se desfazendo. E, de manhã, depois que eles saíram do quarto, tomaram seus banhos e saíram de casa, a mãe pegou uma mochila com algumas peças de roupa para ela. Então entrou no quarto, a agarrou pelo braço e arrastou para fora. Escadas abaixo, o caminho todo, quase setecentos metros em uma rua de pedras arrastando uma garota que mal conseguia andar, sangrando e ferida, até jogar ela para fora como se fosse um animal, um cão sarnento.

E ela faria Julia se afastar, machucaria o suficiente para isso, não queria pena de ninguém.

05. Sectumsempra por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 02 de novembro de 2016

 Sectumsempre significa, basicamente, "cortar sempre'. Só uma pequena informação: Simone não reclamaria se ela pudesse lançar esse feitiço em si mesma. Ela estava no banheiro, a mão dentro da pia enquanto os cortes acima do cotovelo sangravam lentamente, mesmo que ela soubesse que o sangramento pararia mais rápido se ela erguesse o braço. Ela fechou a mão com força, viu as veias saltarem em seu antebraço magro. Eram seis e meia da manhã, ela precisava se apressar para não se atrasar.

O problema de se cortar não é o seu corpo, nem mesmo as cicatrizes que ficarão nele, é o fato de você estar tão fodido emocionalmente que você quer fazer isso na sua pele. O problema é sentir culpa e vergonha, como um ciclo sem fim de sofrimento. Afinal automutilação é algo complicado. Um pouco de experiência, ou de simples empatia, pode te dizer que quem chega a esse ponto é alguém que realmente precisa muito de ajuda. Ninguém pode dizer o que fazer, mas há coisas que pioram. Não para pedir atenção, não é por modinha, é mais sério que isso, mais fatal que isso. Literalmente é algo que pode matar alguém.

Nem todos que se cortam querem se matar e vice-versa, mas não é a regra. Ou pode ser um acidente, um dia cortar fundo demais e sangrar até o fim. E ela, quem está nessa situação, é a primeira pessoa que precisa admitir que tem algum problema sério e que precisa de ajuda, essa é provavelmente a parte mais difícil. O primeiro corte é difícil, ter um segredo desses e lidar com ele também, mas é ainda mais difícil e doloroso admitir que há algo de errado com você e que só vai piorar se você continuar usando a dor física como uma válvula de escape para o que machuca a sua alma.

Muitas vezes acaba se transformando em uma espécie de vício e nem todos os cortes realmente são para aliviar alguma dor, são só por uma vontade quase doentia de se ferir e sangrar. É uma queda constante, sem parar e cada vez mais rápida. E Simone estava nessa queda livre direto até o fundo do poço, ou o fundo de uma cova.

Quando achou que já havia sangrado o suficiente, Simone cobriu os cortes com uma toalha de rosto e ergueu os braços. Esperou por quase três minutos até ao sangramento diminuir. Então limpou a sujeira, improvisou um curativo, envolveu o braço com uma bandagem de um jeito um tanto desajeitado. Ela colocou a camisa do colégio, vestiu o casaco, pendurou a mochila nas costas e correu. Chegou um tanto atrasada, mas ela não se importou muito.

O colégio era barulhento demais, na hora do intervalo Simone saiu de sua cadeira e se escondeu entre a parede e a mesa do professor, sentada no chão abraçando as pernas. Ela colocou os fones de ouvido para tentar abafar seus pensamentos sobre dor. Mesmo com a música no máximo, ela ouvia aquela voz baixinha murmurando que ela deveria sair de lá, fugir, correr e morrer. Ela sabia o que faria quando chegasse em casa: entraria no banho, a nova lâmina na mão e sangraria mais um pouco. Cada linha era um grito sem voz, um pedido de socorro que ela não tinha coragem de realmente pedir. As lágrimas e o sangue se misturariam à agua e escorreriam pelo ralo para desaparecer, mas isso não levaria a agonia embora.

Seria assim dia após dia.

Vivendo ou morrendo, aquilo não importava, ela sentia como se estivesse somente existindo. Ela quase enxergava o fim, quase sentia o cheiro áspero da morte. Pensava e repensava sobre o passado, mesmo que fosse nova, ela se sentia culpada pelos erros, deslizes e escolhas. Tudo o que fez e o que deixou de fazer. Se arrependia também de tudo que ainda poderia fazer. E quando doía demais, ela nem mesmo se lembrava do que a levou à essa saída. Era só choro e sangue com uma mente vazia e entorpecida.

A manhã passou assim, como um borrão cinzento sem sentido. Simone se arrastou para fora da sala, escadas abaixo e desceu a ladeira. Ela se sentou no banco. Mar se aproximou, de mãos dadas com a namorada e com a mochila dela nas costas (o clichê do namoro: alguém sempre carrega a mochila do outro).

- Você não parece nem um pouco bem - Mar disse - Quando foi a última vez que você comeu?

- Ontem.

- Não minta para mim.

Simone revirou os olhos e depois desviou o olhar. Mar virou para a namorada.

- Eu vou levar ela pra casa, okay? - Mar murmurou e beijou Ana - E mais tarde eu vou sair com o Marcos, ele disse que sabe alguns lugares onde eu posso arranjar um bico.

- Okay - ela pegou a mochila de volta - Te vejo amanhã de manhã.

- Te amo.

- Eu também.

Mar sorriu e seguiu a garota com os olhos até que ela entrasse no ônibus, girou sobre os calcanhares e olhou para Simone. Ela havia faltado o colégio para resolver um pequeno problema no banco por causa da conta na qual ela costumava receber o salário da casa de festas. Diferente de como ela costumava andar, estava com o tênis escuro, um jeans claro com rasgos e uma camisa social de manga - era xadrez vermelha com faixas brancas e pretas.

- Usar camisa xadrez é um clichê enorme, sabia? - Simone resmungou e cruzou os braços.

- Eu sou um clichê - ela encolheu os ombros - E saiba que eu comprei essa camisa na sessão feminina da loja.

- Então você conhece a parte feminina das lojas de roupa?

- Claro que conheço - ela mexeu na manga da camisa - Não posso fazer nada se a maioria das estampas são broxantes e as mangas são finas, não sou um cara tentando provar a masculinidade mostrando os músculos com uma camisa apertada. Essa aqui tem um tamanho bom.

- A culpa é sua se você é gigante.

- Não sou gigante, só que eu sempre pratiquei algum esporte e acabei desenvolvendo um pouco mais do que a maioria das garotas. E essa coisa de estrutura é genético.

- Porque seu pai é enorme.

- Uhum. Enfim, vamos, vou te levar pra casa.

- Não precisa...

- Calada, vamos.

Mar puxou ela para que ela se levantasse, pegou sua bolsa e pendurou no ombro. Seguiu ela para dentro do ônibus e sentou ao seu lado. O trajeto era curto, então em poucos minutos elas já estavam no ponto certo. Desceram e caminharam até a casa. Mar percebeu o quanto parecia vazio e gelado, como se ninguém realmente morasse lá. Os retratos não estavam a vista, qualquer tipo de enfeite também não estava visível. A mesa na segunda sala estava vazia e empoeirada.

O quarto de Simone também não estava em melhor estado, livros e papéis jogados pelo chão, a cama bagunçada, roupas jogadas pelo quarto. A escrivaninha cheia de poeira, o lugar tinha um cheiro estranho, há semanas ninguém abria a janela. Simone se jogou na cama e deitou com o rosto em um travesseiro. Mar olhou melhor ao redor, acabou chutando sem querer a lata de lixo cheia, o que jogou papel amassado, latinhas de refrigerante e pedaços de papel higiênico ensanguentado.

Puta merda. Ela pensou, cerrou os dentes. Mar se aproximou da mesa de cabeceira e abriu a gaveta. Simone percebeu o movimento e se sentou.

- Ei, você não pode ficar mexendo nas minhas coisas!

Mar a ignorou ela e continuou mexendo dentro da gaveta. Simone suspirou, ela sabia que não era exatamente ume boa ideia mexer na gaveta daquele jeito. Quando ela enfiou a mão esquerda mais fundo na gaveta, sua mão passou por uma das lâminas que Simone havia deixado lá. Ela tirou a mão rapidamente quando sentiu a dor na palma da mão.

- Ouch - ela segurou a mão com força e olhou para Simone - Por que diabos você tem a porra de uma lâmina na sua gaveta?

- Por nada - Simone se aproximou dela - Deixa eu ver isso aí.

- Não te ensinaram que você não pode tocar no sangue de outras pessoas?

- Sim, mas não me importo muito.

Mar revirou os olhos e deixou Simone segurar seu pulso e avaliar o machucado. Não era um corte fundo, mas ardia bastante. Simone a puxou em direção ao banheiro, colocou a mão dela na pia e ligou a água. Com cuidado, Simone limpou o machucado. Ela secou e usou um pedaço de papel higiênico para apertar e fazer o sangramento parar. Ela terminou de limpar, passou um pouco de antisséptico e fez o curativo. Como ela sabia que o curativo soltaria se ela só colocasse a gaze com o esparadrapo. Então ela colocou um pedaço de gaze, o esparadrapo e envolveu a mão dela com um pedaço de bandagem, prendeu com um pedaço de curativo.

Mar seguiu Simone de volta para o quarto, elas sentaram na cama. Mar tirou

- Você pode me explicar isso?

Simone suspirou, ela não queria aquilo. Queria que continuasse sendo o seu segredo, algo que só ela sabia. Não queria deixar Mar ver, mas sabia que não podia fugir da garota. Então ela levantou e ficou de frente para a garota. Ela tirou o casaco e depois a camisa de colégio, mostrando o que ela estava fazendo consigo mesma.

- Você sabe que precisa de ajuda, não sabe? Não de uma amiga ou coisa assim, ajuda profissional. Ou isso pode matar você.

- Eu não quero ir para uma nova terapia.

- E eu não quero perder você - Simone fungou levemente, ela não queria chorar - Vem aqui - Mar passou os braços ao redor dos ombros dela, com cuidado porque ali também estava machucado. Simone passou os braços ao redor da cintura dela e respirou fundo, o cheiro de Mar entrou em sua mente como algo reconfortante e amoroso - Eu estou aqui por você, está bem?

Simone suspirou e assentiu.

- Aqui - Mar pegou um caderno e uma caneta - Escreva alguma coisa, qualquer coisa.

- Eu já tentei, não funciona.

- Tenta de novo, Simone, continue tentando até a exaustão.

- Não vai dar certo.

- Tenta, porra.

- Escrever funciona pra você?

- Às vezes, quando não funciona eu bebo.

- Então nunca funciona.

- Podia ser pior. Cala essa boca e tenta.

- E se ficar ruim.

- Eu acho que é melhor ter dez versos ruins no seu caderno do que dez cortes sangrando em algum lugar do seu corpo.

Simone suspirou, aceitou o caderno e a caneta. Se arrastou até a cabeceira da cama, puxou as pernas para cima e apoiou o caderno nas coxas. Ela bateu com a caneta no caderno, sem saber exatamente o que escrever. Mar sentou na sua frente e colocou as mãos nos seus joelhos, Simone olhou para ela com a ponta da caneta entre os dentes.

- E sobre o que eu preciso escrever?

- Sobre o que você está sentindo.

- Mas eu não sei exatamente o que estou sentindo e nem por quem. É meio confuso.

- Então escreva sobre a sua confusão.

Simone assentiu. O que sentia era confuso. Ela se cortava para diminuir a dor emocional que sentia, a dor da perda. No momento, era um alívio. Era quase delicioso. Depois vinha a culpa, a sensação de fracassar. O quanto isso decepcionaria Lucas? O quanto isso magoaria Amanda? Apesar de Mar não ter se zangado ou coisa assim, como se compreendesse o que aquilo era, Simone achava que não seria assim com outras pessoas. Por isso ela decidiu tentar outra vez, afinal, a maior parte dos poemas mais bonitos são os melancólicos.

Se você pensar bem sobre isso, a tristeza não é bonita, nem um pouco. A dor não é bonita. Sofrer é ruim. Isso nos mata um pouquinho a cada minuto. Porém, isso pode fazer as pessoas escreverem coisas bonitas. Não é necessariamente poético, o amor costuma ser poético, mas algumas pessoas aprendem a fazer poesia quando sofrem. A melancolia cria poetas, cria inspiração para palavras bonitas. Não é romântico sofrer, mas talvez seja bonito escrever sobre isso. Uma caneta, um pedaço de papel e algumas palavras. Alguns desenham na pele, tirando tinta vermelha de si, mas isso também não é bonito. Transformar toda a dor em poesia não é realmente belo ou algo para fazer parecer que é bonito sofrer, é apenas um jeito de conviver com a morte lenta causada pela tristeza.

Mar levantou e saiu para comprar alguma coisa no mercadinho, uma pizza e uma lasanha congeladas e um refrigerante de um litro. Quando voltou para a casa de Simone, ela guardou a pizza no congelador e colocou a lasanha no micro-ondas, eram onze minutos rodando dentro do aparelho. Ela voltou para o quarto.

- Escrever alguma coisa? - Simone assentiu e ofereceu o caderno, Mar o pegou e sentou na cama.

Cicatrizes no corpo

Nos braços

Nas pernas

Na barriga

Em todo o corpo

Marcas de feridas

Feitas por mim

Sangrar e morrer

Lentamente

Devagar demais

Morrer e viver

Não há diferença

É tudo vazio

Frio e doloroso

Os cortes

As lágrimas

A dor

As coisas não mudam

A dor não diminui

E o tempo não cura

- Uma merda, não? - Simone perguntou.

- Não, acho que está bom. Não é pra ser perfeito, Simone, é pra ser verdadeiro. É verdadeiro?

- É...

- Então está ótimo - Mar levantou e colocou o caderno na mesa-de-cabeceira - Vem, você precisa comer. Depois vamos limpar esse lugar porque está uma merda.

6. Decisões por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 02 de novembro de 2016

Conversar com Julia sobre suas decisões: realmente perdoar Claudia e aceitar a proposta de emprego, definitivamente não seria algo fácil. Claro que não, mas Amanda não imaginou que seria tão difícil e doloroso. Ela estava terminando de dobrar algumas roupas para colocar dentro da mala, ela disse sim e as coisas foram rápidas, em ela iria embora sexta-feira de manhã. Julia estava sentada na cama observando ela.

- Você não pode simplesmente decidir tudo isso sozinha, Amanda.

- Eu posso sim, não são decisões difíceis.

- Não? Claudia foi uma desgraçada por todos esses anos.

- Ela pode ter sido uma grande filha da puta comigo, mas ela ainda é da família. E, apesar de tudo, é justo dar uma chance. É uma boa oportunidade para provar que não sou o monstro que ela sempre pensou, que ela me fez acreditar que sou, talvez não seja tarde demais para consertar tudo isso.

- É tarde demais, para de ser tão boa com todo mundo, Amanda!

- E você precisa parar de ser tão rancorosa.

- Eu não sou rancorosa, eu só não gosto da ideia de dar uma chance para aquela desgraçada.

- Eu não estou dando uma chance, estou seguindo em frente. Perdoar ela, aceitar essa proposta, simples.

- Você não pode me abandonar!

- Eu não vou te abandonar, só vou trabalhar em outro lugar.

- Longe daqui.

- E por que acha que pode ir? - Ela levantou e parou em frente a irmã - Por que acha que pode me abandonar?

- Eu não estou te abandonando. E Julia, você tem quase vinte anos, você não precisa de mim.

- Claro que eu preciso! - Ela agarrou a camisa de Amanda, os olhos se enchendo de lágrimas.

- Você cuida mais de mim do que eu cuido de você, não precisa se preocupar com aluguel, contas e coisas assim. Eu vou receber mais, eu posso mandar alguma coisa.

- Não é questão de pagar as contas.

- Então é o que?

- Eu estou grávida - isso travou Amanda por um segundo antes dela pensar em uma solução.

- Você pode vir comigo, Julia! Eu dou um jeito...

- E deixar tudo aqui pra lá? A faculdade, os amigos?

- Eu pago o seu curso, você pode ter novos amigos.

- Eu não quero ir embora, aqui é a porra do meu lugar.

- Só estou te dando a alternativa. Eu não estou te abandonando.

- Eu acabei de dizer que estou grávida, vou ter a porra de um filho e você vai embora de qualquer jeito.

- Por isso eu estou falando para você vir comigo!

- E por que as coisas precisam ser do seu jeito? - Amanda perdeu a paciência, quase a ponto de ter uma crise, segurou os ombros de Julia com força e falou com raiva.

- Porque eu sou a filha da puta que está tentando seguir em frente, porque eu sou a filha da puta que está tentando fazer o melhor que pode. Porque sou a filha da puta que está mais ocupada dando o melhor de si do que odiando todo mundo! Então as coisas têm que ser do meu jeito porque eu sou a filha da puta está tentando fazer algo certo! - Ela respirava rápido, a nuca latejando - O meu maldito ex-namorado acha que vai me conseguir de volta tentando forçar alguma coisa, eu perdi a porra da minha namorada, e é claro que eu ainda amo ela pra caralho, e a minha irmã está com raiva de mim porque eu tento ser uma boa pessoa! Então sim, uma vez na vida, eu tenho que pensar mais em mim do que nas outras pessoas ou isso vai me destruir. Eu preciso ser egoísta ou eu vou enlouquecer!

Ela soltou Julia e se afastou, de costas para ela, massageou a nuca, tentando se acalmar. Julia cruzou os braços e olhou para ela. Sabia que, de certo modo, Amanda estava certa. Claro que ela tinha o direito de fazer o que quiser, tinha todo o direito de seguir em frente, de tentar se sentir melhor. Mas isso não deixava a ideia de ser abandonada - mesmo com a oferta de ir junto - menos ruim ou menos dolorosa.

- Eu não posso ir com você.

- Você pode, você não quer.

- Não, eu não quero - Amanda virou para ela - Como você pode ficar e não quer.

- Julia...

- Cala a sua maldita boca! - Ela girou sobre os calcanhares e saiu do quarto rapidamente, Amanda foi atrás dela.

- Ei, você vai aonde?

- Não é da sua conta - ela pegou os tênis, a mochila, a chave e abriu a porta.

- Você não pode simplesmente sair daqui assim!

- E você não pode simplesmente ir embora - ela parou por um segundo na porta - Considere isso a sua despedida. Eu volto em alguns dias.

Amanda viu ela fechar a porta, deixa-la para trás exatamente do mesmo jeito que Simone fez. Ela se jogou no sofá, o rosto enfiado numa almofada. Ela não reclamaria de ser chutada para o chão se isso significasse que Julia não detestava ela completamente. Não chore, não chore, não chore. Ela continuou imóvel, os minutos passaram, quase duas horas se passaram e ela continuou com os olhos fechados desejando acordar e ver que tudo era a mesma coisa. Que não havia Patrícia nenhuma, que Lucas estava vivo, Julia a amava e Simone ainda era a sua namorada. Mas é claro que quando o interfone tocou, tirando ela do seu sonho acordado, as coisas estava, a mesma merda. Amanda atendeu o interfone, o porteiro falou que Mar estava lá, então ela disse para deixar subir.

- Eu achei que tinha vindo cedo demais...

- Não, não - ela deu um passo para o lado, dando espaço para que Mar entrasse.

- Achei que estaria no trabalho.

- E veio mesmo assim.

- Esperava fazer a Julia transar comigo - comentou, Amanda riu baixo da ironia - Sei que ela me odeia, mas achei que ela me deixaria esperar por você. Então, por que não está no trabalho.

- Porque aceitei o seu conselho sobre o projeto - ela trancou a porta e foi para a cozinha, Mar a seguiu - Conversei com o Arthur, ele disse que só tinha mais uma vaga no projeto e que ele não iria sem mim, então ele não aceitou. Fui lá e falei com meu chefe. Sexta, dez da manhã para Rio Branco.

- Acre? Sério? Ele realmente existe...

- Existe, sua boba.

- E a Julia?

- Está me odiando com todas as forças, disse que só vai voltar para cá sábado.

- Ela realmente não vai sequer se despedir de você?

- Não, ela acha que estou abandonando ela - Amanda entregou um copo de água gelada para Mar - Não faço de ideia do que deu nela, ela nunca ficou com raiva assim.

- Deve ser porque têm muita coisa na cabeça dela.

- Talvez... e ela tem mais um motivo para ficar com raiva.

- Qual?

- Ela está grávida - Mar só não cuspiu água porque já havia engolido.

- Grávida? De quem?

- Pedro, o primo da Simone. Eu acho, não sei, eu não perguntei, estava ocupada apanhando dela.

- E você ainda vai?

- Eu não posso voltar atrás agora. Esse é o meu emprego agora, se eu despedir vou ter que correr atrás de um novo. Ela pode vir comigo, eu posso muito bem comprar uma passagem para ela e arranjar um jeito de pagar a faculdade dela. Existem lugares para ficar que não são muito caros, ela pode ficar lá enquanto eu procuro um apartamento para vivermos. Eu vou dividir um com outras quatro psicólogas, mas eu não preciso ficar lá se a Julia for comigo. Não é muito diferente daqui, mas ela não quer ir.

- Sua irmã é muito cabeça-dura.

- Sim...

- Pelo menos você vai se livrar do Arthur.

- Acho que é a única coisa positiva que aconteceu na minha vida nos últimos meses.

 Quinta-feira, 03 de novembro de 2016

Simone se aproximou do seu novo casal favorito: Ana e Mar. Elas estava no terminal. Mar estava sentada, as pernas esticadas e Ana estava com a cabeça deitada nas suas coxas, lendo um livro enquanto Mar, distraidamente, fazia carinho no seu cabelo.

- Vocês são um casal adorável, sabia? - Simone falou quando parou em frente a elas.

- Não se engane pela cara fofa dessa miniatura de gente, ela é muito tarada - Mar respondeu, Ana grunhiu e beliscou a cintura de Mar - E é uma filha da puta.

- Cala a boca - Ana resmungou.

- Okay, baby - Olhou para Simone - Senta aí, precisamos conversar.

- Sobre o que?

- Sobre a Amanda - Simone suspirou e sentou.

- O que foi?

- Eu conversei com ela ontem de noite.

- E?

- E eu acho melhor você ir atrás dela.

- Para que? Nós terminamos e pronto.

- E você não quer voltar?

- Eu não posso voltar, eu não quero machucar ela.

- Então você machuca a si mesma por causa disso - Simone abaixou a cabeça - Você realmente vai deixar ela ir?

- Eu já deixei.

- Estou falando literalmente - Simone olhou para ela - Ela vai embora amanhã, Simone, ela aceitou a vaga em um projeto fora do Rio. Ela vai embora e ninguém sabe quando ela vai voltar, se ela vai voltar. E muito menos se, quando ela voltar, vocês têm alguma chance.

- E para onde ela vai?

- Rio Branco, você não pode ir atrás. Tente ao menos se despedir dela.

- E a Julia vai deixar ela ir embora.

- O que a Julia pode fazer? Amarrar a Amanda na cama? Ela está com raiva demais até para se despedir, Simone, pelo menos você tem que fazer isso. Por tudo que vocês passaram, pelo que vocês foram. Não precisam reatar, mas pelo menos vocês precisam se despedir. Vai, Simone, antes que seja tarde demais.

Simone passou a língua entre os lábios e levantou, ela olhou para o ônibus que passava na frente do metrô. Era tão simples, tão rápido, ela não sabia se teria coragem de ir até o apartamento de Amanda sabendo que a mulher realmente iria embora. Ela andou lentamente até lá, pensando em como tudo mudou.

Há tão pouco tempo estava tudo tão bem. Ela e Amanda em um relacionamento firme - mesmo com algumas brigas, seu pai vivo e bem cuidando dela, Julia tentando construir um relacionamento com Pedro. E agora, faziam semanas desde a última vez que ela falou com o primo. Julia odiava ela, nem mesmo parecia a mesma pessoa. Lucas não estava mais lá e Simone não teve coragem de "visitar" ele outra vez. E ela mesma havia acabado com o relacionamento com Amanda, agora Simone tentava fugir da sua realidade com os cortes.

Quem ainda estava lá era Mar, e ela parecia a continuar lá até o fim. Simone entrou no ônibus e viu o casal pela janela. Ela havia temido tanto que Mar não a perdoaria por ter ido para cama com Ana, mas ela havia perdoado e continuava com ela. Parecia certa na ideia de cumprir a promessa. Mar não iria embora, Simone sorriu levemente, aquela garota havia grudado na sua vida e não sairia até uma das duas morrer. Não era algo ruim, mesmo que Simone tivesse afastado Amanda, tivesse feito Julia odiar ela, Mar era impossível de ser afastada, era teimosa demais para desistir.

Simone fechou os olhos, apoiou a cabeça no banco e começou a pensar no que ela poderia dizer para Amanda: Vou sentir sua falta, muita falta. Eu sei que não estamos mais juntas, ainda assim... meu coração já está doendo apenas ao pensar sobre isso, sobre o quanto tempo eu realmente vou ficar longe de você, sem nenhuma oportunidade de aparecer no seu apartamento e pedir para voltar para você. Longe de te ter deitada no meu peito, ou de deitar no teu peito. Acordar e ouvir a sua voz de manhã, ter o seu calor perto de mim e ouvir as batidas do seu coração. Eu sinto falta de poder verificar se você está bem, de te abraçar forte quando me sinto mal. Sinto falta de cada detalhe do que é a minha vida com você. De como era mais simples e fácil, bem menos doloroso, com você. É exatamente o que eu preciso: você comigo.

Eu não me esqueço do momento em que olhei para teus olhos e me apaixonei perdidamente por você. Eu não esqueço de quando percebi que você só pode ser a mulher da minha vida. Não há um maldito dia em que eu não sinto a sua falta, em que eu não desejo ter os seus braços ao meu redor. Os teus lábios nos meus, ver o seu olhar carinhoso para mim, ouvir a sua voz perfeita enquanto você canta alguma coisa para mim. Eu faria qualquer coisa para te ter comigo mais uma vez. E te ter, dessa vez, até o fim da minha vida e não até eu mesma estragar com tudo.

07. Uma Última Vez por Senhorita Charlie

Quinta-feira, 03 de novembro de 2016

Um antigo provérbio chinês diz: Um fio invisível une todos aqueles que estão destinados a encontrar-se, independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar-se ou emaranhar-se. Mas nunca se partirá.

Talvez, se esse provérbio estivesse certo, esse fio era o que unia Simone e Amanda mesmo que elas estivessem longe. E o coração de Simone batia violentamente enquanto ela esperava o elevador deixar ela no andar correto. Respirou fundo, precisava se acalmar, até suas mãos tremiam devido ao nervosismo que ela sentir. Ela queria ver Amanda, abraçar ela, beija-la e ouvir sua voz. Porém, nem mesmo sabia se a psicóloga seria delicada com ela. Quando saiu do elevador, Simone enfiou as mãos no casaco que vestia e se aproximou da porta do apartamento. Com o resto da coragem que restou dentro dela, apertou a campainha. Amanda atendeu rapidamente.

Ah, como Simone sentiu uma saudade indescritível daqueles olhos castanhos. Você já se apaixonou pelos olhos de alguém? Pela cor, pelo olhar, pela alma vista através dessas janelas. A beleza de alguém nem sempre está somente na aparência - o que acontece em pessoas vazias -, às vezes está no todo, e, principalmente, na tal da alma. Não é a voz, é o modo de falar e as palavras. Não é o corpo, é o sentimento durante um abraço, ou beijo ou sexo. Não é a cor dos olhos, é o olhar. Amanda podia não ser a Miss Universo, mas ela definitivamente era a mulher mais bonita do mundo com aqueles olhos castanhos.

Amanda sorriu levemente e deu espaço para que a garota entrasse. A primeira coisa que ela viu, claro, foi o par de malas que estava encostado no sofá. Nenhuma das duas fazia a mínima ideia do que falar. Elas ficaram todo aquele tempo sem se ver, sem se falar, basicamente tentado esquecer uma a outra. Porém, ainda havia algum clima do que eram antes. Amanda estava vestida de um jeito tão simples e confortável que parecia exatamente o mesmo de antes, mesmo que Simone soubesse que ela não fazia a ideia que a garota apareceria, ela só vestia uma blusa e uma boxer, o que mostrava bem mais pele do que Simone achou que veria naquele momento.

O que uma garota pode falar depois de quebrar o coração de alguém? Estava lá, no fundo dos olhos castanhos, o quanto Simone a machucou. O quanto era doloroso amar alguém. Talvez Julia tivesse razão quando dizia que o amor é uma doença, mas talvez não existisse uma pessoa certa. Porém, mesmo com toda a agonia que aquilo causava nela. Por causa dessa dor, por mais que ambas quisessem simplesmente se ‘atacar'. Se beijarem, passarem a noite juntas e ficarem bem novamente.

Elas se olharam por alguns momentos. Simone tinha uma caralhada de coisa para falar, para jogar na mesa, para admitir. Ela queria pedir desculpas, ou perdão de joelhos na frente dela, se humilharia para conseguir aquilo.

Simone não fazia ideia se Amanda ia ou não empurrar ela, mas ela ‘venceu' o espaço que havia entre elas e, com toda vontade que tinha, segurou o rosto da psicóloga e a beijou. Uma espécie de alegria colorida explodiu dentro da garota quando Amanda correspondeu o beijo, gemeu baixinho de satisfação quando sentiu os braços da mulher ao redor da sua cintura e quando ela realmente a abraçou. Era como a perfeição: quente e carinhoso. Sem pensar, Simone empurrou Amanda para o sofá e subiu em seu colo. Amanda interrompeu o beijo, as mãos na cintura de Simone e a olhou, se sentindo confusa.

- Você não era tão magra assim...

- Está dizendo que eu era gorda?

- Não, não estou dizendo isso. Você entendeu o que estou dizendo.

- Você está quebrando o clima, Amanda.

- Eu só... eu estou meio preocupada com você.

- Não precisa se preocupar, só precisa me beijar.

Simone enfiou os dedos no cabelo castanho que ela realmente adorava, com força e com vontade. "Me ame quando eu menos merecer, pois é quando eu mais preciso."  Um provérbio chinês que combinava perfeitamente com a situação de Simone. Era bom como antes, mas ela sentia que Amanda parecia incomodava com aquilo. Simone parou de beijar ela, suspirou e sentou ao seu lado. A psicóloga respirou fundo. A garota olhou para ela, sentiu como se estivesse se apaixonando de novo. Ficar tão perto outra vez era praticamente perfeito. Ela queria ficar ali para sempre, ela se sentia melhor só por estar por perto.

- Seria abuso pedir para que você cante algo para mim?

- Seria uma honra cantar algo para você - ela levantou do sofá e puxou a garota - E dançar também, só uma última vez.

- Você realmente não vai voltar?

- Eu não sei, você não está presa a mim e nem pode vir comigo. Então vamos só cantar e dançar um pouco para que a última lembrança seja boa.

Guiou os pulsos de Simone para que ela enlaçasse seu pescoço, passou os braços ao redor da cintura da garota e puxou ela para mais perto. Amanda não gosta da sensação estranha de abraçar Simone daquele jeito, ela parecia pequena demais, bem mais magra do que antes. Quanto tempo ela ficava sem comer? O quanto tudo aquilo estava afetando a garota. Por um momento, ela pensou seriamente em desistir e ficar. De perder o seu emprego, fazer Julia odiar ela ainda mais - já que era quase uma traição - e ficar com a garota. Porém, ela sabia que não podia fazer nada para ajuda-la. Sabia que não seria capaz de ser quem Simone precisava que ela fosse. Amanda beijou sua bochecha e começou a cantar baixinho, a voz perfeita para Simone, como sempre.

She says I smell like safety and home

I named both of her eyes "Forever" and "Please don't go"

I could be a morning sunrise all the time, all the time

This could be goo, this could be good

Amanda acariciou suas costas lentamente, mesmo por cima do casaco, Simone sentia o toque morno das mãos da mulher. Ela gostava daquilo, ela sentia que precisava daquilo para viver. Como se Amanda fosse o ar que ela precisava para respirar.

And I can't change, even if I tried

Even if I wanted to

And I can't change, even if I tried

Even if I wanted to

My love, my love, my love, my love

She keeps me warm, she keeps me warm

A voz de Amanda falhou levemente, soando um pouco mais baixo do que antes. Simone havia sentido tanta falta daquilo... De ouvir a voz baixa e não tão afinada assim, do calor que saia do corpo dela, sentir os braços fortes dela ao redor da sua cintura e sentir o ar quente da respiração dela em seu pescoço. A garota apertou Amanda com mais força, com mais vontade.

What's your middle name?

Do you hate your job?

Do you fall in love too easily?

What's your favorite word?

You like kissing girls?

Can I call baby?

Yeah, yeah

She says that people stare ‘cuz we look so good together

Simone afastou um pouco o rosto para olhar diretamente para os olhos escuros da mulher. Ela sentiu como se estivesse mais calma, como se toda a dor que ela estava sentindo todo o tempo de repente diminui. Era como se ela estivesse se sentindo curada das feridas simplesmente porque Amanda estava ali, abraçando ela, cantando para ela. Simplesmente porque a psicóloga não chutou ela para longe, não estava com raiva dela.

- Eu amo tanto você - Simone murmurou e enfiou os dedos de uma mão no cabelo macio dela - Você sente minha falta?

- Todo o tempo, como se eu tivesse perdido parte de mim - Amanda segurou o rosto da garota, acariciou lentamente com os polegares - E isso está me matando todos os dias.

- Por que isso machuca tanto?

- Eu não se... ficar longe dói, mas ficar perto também machuca.

- É difícil assim perto do Arthur?

- Não, não é. Eu nunca senti falta dele como eu sinto de você, eu nunca senti por ele o que senti por você... o que eu sinto por você.

- E não podemos tentar de novo?

- Eu não posso levar você comigo... não.

- E você não pode ficar?

- Me desculpe...

Ela sabia que Amanda não ficaria, não que a psicóloga não a amasse o suficiente, talvez ela somente estivesse machucada demais para ficar, para tentar outra vez. Simone quase sentia a dor que estava dentro dela, a dor que a garota sabia que havia causado. Ela que havia desistido primeiro, ela que havia ido embora, ela sabia que não era justo simplesmente pedir para que Amanda jogasse tudo para o alto e continuasse por perto.

Simone respirou fundo, Amanda abraçou ela com mais força. A garota enfiou o rosto no pescoço dela, sentiu o cheiro conhecido de alfazema. Porém, por mais "pesado" que o clima entre elas ficasse, elas não conseguiam realmente resistir. Simone a beijou com vontade e puxou ela para trás, sentou no sofá e puxou a mulher para que ela subisse em seu colo.

- Como você consegue mudar o clima tão rápido? - Amanda perguntou quando se afastaram do beijo.

- Eu não sei - ela segurou a nuca da mulher e passou a ponta do nariz pelo seu pescoço - Eu não quero pensar nisso, uma última vez...

Então ela segurou a barra da blusa e puxou para cima até tirar a peça. Ela havia sentido falta de tocar Amanda com tanta vontade, seus dedos enterrados com força, ela gosta do quão quente era a pele, a carne, da mulher. Simone beijou seu ombro, passou os dentes levemente pela pele dela. Ela passou os dedos com força pelas costas dela, quase a arranhando, Amanda gemeu baixo com isso. As mãos de Simone agarraram sua bunda com força. Amanda saiu do seu colo, segurou seus pulsos e começou a andar para trás, puxando ela lentamente em direção ao quarto.

Elas não precisavam realmente de alguma palavra, ambas sabiam exatamente o que aconteceria. Ou quase. Elas entraram no quarto, estava um tanto escuro. Amanda deitou na cama e Simone subiu na cama também. A psicóloga passou os braços ao redor do pescoço dela, as coxas ao redor do seu quadril, segurando ela perto. Nenhuma das duas queria realmente pensar que aquela era provavelmente a última vez em que ficariam juntas durante um longo tempo. Ou talvez pelo resto da vida. Simone desceu os beijos pelo pescoço e pelo peito, ela realmente havia sentido uma falta terrível de sentir a pele quente sobre seus lábios, a carne macia que podia ser mordida.

Continuou descendo os beijos pela sua barriga até o cós da calça. Ela beijou as coxas delicadamente, passou a ponta do nariz ali, sentindo o cheiro que ela havia sentido falta. Suas mãos tremiam levemente quando ela enfiou os dedos entre o elástico da boxer e a pele dela. Ela puxou para fora até tirar a peça de roupa e então enfiou o rosto em um dos lugares favoritos dela. Amanda enfiou os dedos no seu cabelo. As sensações eram as mesmas, o sabor era exatamente o mesmo, era tão irresistível quanto antes. E os sons dos gemidos de Amanda continuavam parecendo uma melodia para Simone.

A garota engatinhou pela cama até estar em cima da psicóloga outra vez, a beijou lentamente, ela gostava daquela sensação de beijar depois de um orgasmo. Amanda passou os braços ao redor dos seus ombros novamente. Simone se apoiou em uma mão e colocou a outra mão em sua cintura.

- Normalmente você veste menos roupas...

Amanda murmurou, a garota riu baixinho. Ela se ajoelhou e tirou o casaco e a camisa do colégio, ficando só com a blusa de mangas compridas cinza escura. Amanda sentou e passou os braços ao redor da sua cintura. A garota segurou seus ombros enquanto a beijava outra vez, sentiu as mãos dela escorregarem até a barra da sua camisa, então segurou os pulsos dela. Amanda afastou o rosto e perguntou:

- O que houve?

- Nada...

- Tem certeza? - Mexeu levemente as mãos e Simone segurou seus pulsos com ainda mais força.

- Tenho.

- Então por que você está segurando os meus pulsos com tanta força? Desde quando você não deixa eu tirar a sua camisa?

- Amanda...

- Vamos - ela afastou as mãos da barra da camisa e a garota soltou seus pulsos - Simone?

A garota suspirou, ela não queria realmente fazer aquilo, mas ela sentia que precisava. Talvez, apenas talvez, isso conseguisse conversar Amanda de ficar, por mais injusto e doloroso que fosse. Ela segurou a barra da camisa e tirou, rápido antes que perdesse totalmente a coragem de fazer aquilo. Ela desviou o olhar, não queria ver qual seria a reação da mulher. Ela estava com medo... ouviu a respiração dela falhar por um segundo. Ela esperava que os cortes não estivessem parecendo tão ruins, mesmo que alguns estivessem ardendo levemente. Ela sentiu os dedos da psicóloga tocarem levemente os cortes avermelhados no ombro direito, virou o rosto para ela.

- Por que...? - O toque dela era tão delicado que Simone deixaria ela toca-la assim o tempo todo.

- Me desculpe.

- Você não precisa pedir desculpas - segurou seu rosto.

- Cada corte que faço, eu sinto como se eu jogasse todas as horas em que resisti no lixo como se fosse nada demais.

08. Decisões por Senhorita Charlie

Quinta-feira, 03 de novembro de 2016

Elas ficaram abraçadas por vários minutos, sem falar nada. Amanda continuou acariciando as costas da garota. Ela não gostava nem um pouco do quanto os ossos dela estavam "destacados" em seu corpo. Amanda beijou carinhosamente seu ombro, ela havia sentido uma falta terrível de ficar tão perto da garota, de sentir o calor do corpo dela e o quanto sua pele era macia. Simone apertou a psicóloga com mais força, não queria ir embora, não queria que a mulher a soltasse jamais.

- As únicas marcas que você deveria ter em seu corpo são as marcas que eu faria em você...

Amanda murmurou baixinho sem afastar o rosto da garota, Simone pôde sentir os lábios se movendo em sua pele. Depois de mais alguns minutos naquela posição, Simone murmurou que estava com sede. A garota levantou, colocou a blusa de mangas compridas e caminhou até a cozinha, encheu um copo com água gelada e bebeu lentamente. Ela não faia ideia do quanto sentira falta daquele lugar, ela olhou ao redor.

Ela havia dormido no apartamento algumas vezes. Ela se lembrava de como Amanda era adorável fazendo café porque sabia que a garota realmente gostava daquilo. Lembrava de como era confortável abraçar a psicóloga por trás, os braços ao redor da cintura e o nariz na sua nuca, enquanto a mulher fazia sanduíches. Ela também lembrava de momentos não tão carinhosos, como transar na mesa depois de jogar no chão, ou transar na pia mesmo sem se importar muito com os fluídos corporais. Eram boas lembranças.

Simone estava distraída com esses pensamentos de uma época realmente boa quando Amanda parou na entrada da cozinha, havia se enfiado em uma calça comprida e uma camisa larga. A psicóloga cruzou os braços e se encostou no portal, Simone virou e a viu, sorriu levemente. Amanda perguntou:

- No que está pensando?

- Em nada demais - apoiou as mãos na pia e tomou impulso para sentar ali - Eu só sinto falta de ficar aqui - Amanda assentiu e parou na frente dela - Você não sente?

- Claro que eu sinto - a psicóloga colocou as mãos na pia se encaixando entre suas pernas - Por que eu não sentiria?

- Eu não sei... esquece.

- Você não precisa ser tão insegura - ela beijou a bochecha da garota e perguntou - Está com fome?

- Não.

- Tem certeza, querida? - Mesmo que não estivessem mais juntas, ela ainda falava do mesmo jeito gentil e carinhoso - Eu posso arranjar algo comestível para você.

- Não precisa, é sério - encolheu os ombros, viu a psicóloga olhar para ela - O que foi?

- Quando foi a última vez que você comeu - ela viu o brilho maldoso nos olhos da garota e disse antes que ela soltasse uma besteira - Eu não sou alimento, Simone. E é sério, quando foi a última vez que você comeu?

- Bem, eu tomei café antes de ir para o colégio.

- E já são mais de três da tarde.

- Eu não estou com fome.

- Você precisa comer mesmo sem fome - Amanda passou os braços ao redor da sua cintura e começou a acariciar as suas costas - Aposto que você está pesando menos do que deveria.

- Eu não estou tão magra assim.

- Está sim - Amanda segurou a mão da garota e ergueu o seu braço, passou a mão ao redor do pulso dela, a diferença de como a mão dela ficava ali era gigante - Minha mão não cresceu, sabia? - Simone puxou o braço para si, fazendo a mulher soltar, e cruzou os braços - Simone!

- Eu não vim para você falar se estou ou não mais magra.

- Então para que veio?

- Eu vim ver você... eu vim pedir desculpas.

- Você só veio porque eu vou embora.

- Eu... eu queria vir antes.

- E por que não veio? - Amanda virou um pouco a cabeça para o lado, o cenho franzido, estava claro em seus olhos que ela desejava de verdade que Simone tivesse aparecido antes. De preferência, que tivesse aparecido antes da decisão.

- Eu estava com medo...

- Medo de que?

- Medo que você me odiasse.

- Eu nunca te odiaria, Simone, você deveria saber disso.

Amanda segurou seu rosto delicadamente, Simone gostava da sensação das mãos mornas em sua pele. Ela se sentia "em casa" quando estava tão perto assim da psicóloga. A mulher estava quase a beijando quando o som da porta sendo destrancada as distraiu. Amanda suspirou e foi para a sala, era Julia. Ela parecia cansada, estava com olheiras e os ombros caídos.

- Ei - Amanda falou baixo.

- Eu só vim buscar mais roupas - Julia passou por ela, ignorou Simone quando passou pela garota e entrou no próprio quarto.

- Julia...

- Eu já vou embora - ela abriu uma gaveta e começou a pegar roupas aleatórias - Não vou demorar, não estou aqui para atrapalhar a sua pegação com a sua namorada.

- Não... Julia, para com isso.

- Com o que?

- De agir como uma criança - se aproximou e segurou seus pulsos - Isso é sobre eu e você, não sobre eu e a Simone.

- Como se ela não tivesse nada a ver com isso.

- Talvez não tenha. Talvez não tenha a ver nem com você e nem com ela - soltou os pulsos da irmã - Então para de ser tão babaca.

- Eu sou babaca? - Julia riu em um tom sarcástico - Você volta rapidinho para  a filha da puta da Simone e eu sou babaca?

- Primeiro, eu não voltei para ela. Segundo, fica mais calminha aí porque não precisa de tanta raiva. E terceiro, e daí se eu voltar?

- Você faz o que você quiser, não me importo - ela enfiou as roupas na mochila vazia - Você não quer ser egoísta? Então seja!

- Julia, por favor...

- Para, Amanda - Julia estava vermelha de tanta raiva que ela sentia - Para de tentar agir como se estivesse tudo bem.

- Talvez você não queira que esteja tudo bem.

- Você acha que eu não quero que esteja tudo bem? - ela empurrou Amanda para o lado e passou por ela apressadamente - Quer saber? Você estava certa, eu não preciso de você!

Ela girou sobre os calcanhares, a mochila cheia de roupas pendurada no ombro direito. Ela saiu do apartamento apressadamente, respirando rápido sentindo tanta raiva que estava quente. Amanda sentou no braço do sofá e suspirou, ela esfregou o rosto e respirou fundo. Simone coloco as mãos nos ombros dela.

- Amanda...

- Não fale nada - suspirou - Só não fale nada.

Simone assentiu e se ajoelhou no sofá atrás dela, escorregou a mão pelas suas costas e a abraçou, apoiou a testa no seu ombro e fechou seus olhos. Sentiu a mão de Amanda em seus braços, os dedos a apertavam com força. Amanda suspirou, ela sentia que tudo em sua vida estava realmente desmoronando. Ela desviou dos braços da garota e começou a andar de um lado para o outro da sala, sua cabeça estava latejando de dor. Sua nuca estava incomodando.

Simone sentou e abraçou as pernas, ela decidiu somente olhar Amanda andar daquele jeito, quase podia sentir a tensão nos ombros da mulher.

- Não podemos simplesmente fingir que está tudo bem? Por alguns instantes? - Simone perguntou baixinho para a mulher, Amanda suspirou.

- Eu não sei, Simone - se aproximou dela e se ajoelhou na frente do sofá - Mesmo se a gente voltar, você sabe que não dá para ser como era antes.

- Eu sei, mas a gente podia pelo menos fingir que estamos bem por alguns momentos? Eu sinto falta disso, eu sinto falta de como éramos antes....

- Eu também sinto falta, claro que eu sinto. Mas eu não posso fazer nada...

- Eu sei que você não pode fazer nada... - Simone fungou - Você pode me abraçar, dizer que vai ficar tudo bem, mesmo que seja complicado, eu não sou capaz de hesitar em acreditar em você.

- Não posso dizer que vai ficar tudo bem, é o que falam para não dizer... Talvez porque alguém com depressão acredite nisso.

- Eu acredito em tudo que você diz, em cada palavra sua. Se for para ter fé, eu tenho em você.

- Você sabe que eu não posso te salvar.

- Não estou pedindo para me salvar, estou pedindo para ficar.

- Não, eu não vou ficar. Não, você não pode me pedir isso. Não, não podemos tentar um relacionamento outra vez. Não, não podemos ficar juntas agora. E sabe por que? Porque eu não sou um brinquedo que você pode quebrar e depois colar os pedacinhos com supercola. Porque eu sei que prometi ficar com você, mas você prometeu nunca me machucar. Quantas vezes você me feriu? Talvez, apenas talvez, eu esteja quebrada para segurar os seus pedaços e te consertar.

"E por um momento, uma vez na minha vida, eu preciso ser uma vadia egoísta porque eu não vou aguentar ser o porto seguro de alguém. Não por você, não pela minha irmã, não é pessoal, eu só estou machucada demais para ser o amor da sua vida, ser a sua cura. Vamos, existem garotos e garotas por aí, você pode arranjar alguém. Ficar com outro alguém. E se eu realmente não for a mulher da sua vida? Ou, talvez, ainda não esteja na hora de ser a mulher da sua vida.

"Afinal, duas pessoas quebradas nunca vão dar certo. E sim, eu amo você, amo com todo o meu coração, com cada pedacinho quebrado e afiado dele, mas não quero machucar ele e não quero que você me machuque."

Simone cobriu o rosto com as mãos, ela sabia que não podia pedir que Amanda ficasse. Ela não podia sequer pensar em pedir para a mulher ficar. Sabia o quanto havia errado, entendia muito bem porque Julia a odiava. Também se odiaria se estivesse no lugar da garota. Amanda levantou.

- Vamos, vou te levar para casa.

- Eu não quero ir para casa - a olhou entre os dedos.

- Mas você precisa ir, eu te dou uma carona.

- Por que eu tenho que ir?

- Porque a sua mãe não gostaria nem um pouco de você passar a noite fora.

- Ela nem se importaria.

- Claro que se importaria - cruzou os braços.

- Amanda... - ela levantou e agarrou os ombros da mulher - Você podia deixar eu passar a noite com você...

- Simone...

- Por favor, só hoje...

Amanda suspirou, isso só faria a coisa ser mais e mais difícil, porém ela não podia resistir. No fundo, ela sabia muito bem que queria ficar. Porém, ela acreditava de verdade que estava fazendo o melhor para si. E achava que tinha feito uma boa escolha em ouvir Mar, que era algo que valeria a pena.

Amanda segurou o rosto da garota e beijou sua testa, ela não diria não para aquele pequeno pedido.

Sexta-feira, 04 de novembro de 2016

Simone não queria levantar, não queria acordar. Ela desejava ficar ali para sempre. Elas passaram a noite transando - algo que Simone não reclamaria -, na verdade, assistiram um filme e um pouco de TV aleatória. Amanda conseguiu fazer ela comer, tomar um banho e vestir uma roupa confortável. Deitaram cedo, Simone se encaixou nos braços da psicóloga e decidiu que não sairia dali até o último momento. Então mesmo depois de acordar, a garoa não se moveu. Ela sabia que Amanda também estava acordada, percebia isso pela divisão e pelo modo como a mão de Amanda acariciava suas costas. Porém, não podiam ficar ali o resto do dia.

- Eu vou deixar você em casa - Amanda falou enquanto saia da cama - Então precisamos sair logo ou eu vou me atrasar.

Simone assentiu e observou Amanda sair do quarto, indo para o banheiro. A garota sentou na cama, os ombros caídos. Ela também saiu da cama e então se enfiou dentro da roupa que estava vestindo no dia anterior. Conferiu o telefone, todas as chamadas perdidas e mensagens eram de Mar, não havia nenhum sinal de que sua mãe ao menos se importou.

Ela respondeu que havia passado a noite com a psicóloga e que a mulher a levaria para casa. Mar perguntou se Simone queria alguma coisa, disse que como estava indo para o colégio, estava relativamente perto de onde a garota morava e podia aparecer por lá. Simone não reclamaria, ela achava que era uma boa ideia ter Mar por perto.

Depois do banho, Amanda foi para a cozinha e rapidamente fez um pouco de café e um sanduíche. Voltou para o quarto com um prato e uma caneca. Sentou na cama e fez Simone comer, ela definitivamente estava preocupada com a garota. Depois que Simone comeu, Amanda levou o prato e a caneca para a cozinha, guardou nos armários e terminou de se arrumar. Simone se ofereceu para ajudar ela a levar as malas para o carro, mas a mulher disse que não precisava daquilo.

Simone se sentia nervosa enquanto elas desciam até o estacionamento. A garota não queria entrar no carro porque sabia que provavelmente era a última vez que ela fazia isso. Naquele horário, havia um certo movimento, mas não era tanto porque estavam indo contra o fluxo (já que a maior parte das pessoas estavam indo para o Centro da cidade e elas estavam indo para a Zona Norte). Parecia perto demais, rápido demais. Simone passou o caminho inteiro olhando a mulher dirigir.

Ela observou como as mãos da psicóloga seguravam com força o volante, como ela batia os dedos ali toda vez que paravam no trânsito. Ela gostava de ver o formato do perfil de Amanda, a mandíbula, os lábios, o nariz, cada detalhe dela parecia perfeito. Pareceu rápido demais, entretanto Amanda parou o carro no meio fio em frente à casa de Simone. Mar estava encostada naquele muro de pedra, os braços cruzados esperando elas chegarem. Amanda apertou o botão para soltar o cinto da garota. Saiu do carro e abriu a porta do carona.

- Vamos, Simone.

- Eu não quero realmente sair... - Amanda cerrou os dentes e puxou ela para fora.

- Não faça isso mais difícil do que já é, Simone - Amanda segurou seus braços e empurrou ela - Vamos.

- Eu não quero eu você vá...

- Mas eu preciso...

Simone literalmente se agarrou na mulher com tanta força que Amanda sentiu que ficaria com marcas roxas nos braços. Amanda olhou para Mar, estava claro o que ela queria que a garota fizesse. Mar suspirou e se aproximou delas. Com o máximo de delicadeza que ela podia, a garota segurou a cintura de Simone firmemente e começou a puxar ela. Era difícil, ninguém sabia de onde vinha tanta força para tentar não se afastar de Amanda, culpa do desespero terrível que ela sentia naquele momento.

Mar passou os braços os braços ao redor da cintura dela, acabou erguendo ela do chão, Simone tentou desesperadamente se soltar. Amanda fechou a porta do carona, apressadamente foi para o outro lado do carro e voltou sentou no banco do motorista. Respirou fundo e tentou ignorar o quanto Simone estava desesperada. Quase como um ataque.

Era extremamente doloroso ver o carro se afastar.

Mar tentou acalmar ela, não era algo fácil. Simone se cansou, ou simplesmente percebeu que espernear e grunhir não traria Amanda de volta, e então Mar conseguiu puxar ela para dentro da casa.

Simone decidiu então somente ficar calada, somente sentir a dor quebrando ela ainda mais. Ela deitou na cama e se encolheu. Mar não saiu de perto dela, sentou na cama e deixou uma mão em sua perna, acariciando em um toque tranquilizador. Depois de algumas horas, Mar decidiu comprar comida. Simone não quis comer, por mais que Mar insistisse.

Já eram quase duas da tarde quando ouviram a campainha. Mar suspirou e foi ver quem era. Para sua surpresa, viu que quem estava no portão era Julia. A garota parecia muito, muito irritada. Mar se aproximou do portão.

- O que foi?

- Eu vim ter uma pequena conversa com a Simone.

- Que tipo de conversa?

- Não é da sua conta.

- É sim.

- Eu preciso falar com ela.

- Olha, Julia...

- Deixe ela entrar - Simone falou, estava na varanda com os braços cruzados - Provavelmente é importante.

Mar revirou os olhos e entrou na casa para pegar as chaves. Abriu o portão, deixou Julia entrar e trancou de novo. A tensão entre Julia e Simone era quase palpável. Elas entraram, Mar sentou no sofá e observou as duas garotas começarem a conversar de um jeito não muito delicado. Estava claro o quanto Julia culpava Simone pela decisão de Amanda, e a garota parecia não achar algo diferente. Porém, Simone também culpava Julia por aquilo.

- Não é como se você pudesse ter a cara-de-pau de reclamar - Julia empurrou Simone levemente - Se você não tivesse machucado ela tanto, ela não teria ido embora.

- E você nem mesmo se esforçou para fazer ela ficar! - Empurrou de volta.

- Não seja tão idiota.

- Não seja tão filha da puta.

- Você fez um monte de merda com ela - empurrou com mais força - Você fodeu com os sentimentos dela.

- E você não fez porra nenhuma de diferente.

Julia perdeu o resto de paciência e socou o rosto da garota com toda força, o golpe foi violento o suficiente para fazer Simone cair de costas com o nariz sangrando. A garota levantou para atacar de volta, mas foi impedida por Mar. Ela perdeu a paciência com a briga delas, com a discussão besta que elas estavam tendo.

- Nenhuma das duas tem o direito de reclamar! As duas precisam calar a maldita boca, precisam pensar menos na própria dor e pensar na dor das outras pessoas. Por acaso umas das duas se deu o maldito trabalho de perguntar porque ela decidiu aceitar um trabalho do outro lado do país?

- Como se ela sempre precisasse de motivos para fazer algo - Julia falou e se jogou no sofá, Simone grunhiu, mas não falou nada.

- Eu não sei se vocês se lembram no meio desse egoísmo do caralho, mas a Amanda tem um ex-namorado maluco que por acaso trabalha com ela. E talvez, apenas talvez, ela não esteja abandonando vocês, talvez ela esteja fugindo dele - Julia e Simone a olharam confusa - E talvez ela não tenha decidido sozinha.

- Talvez ela não tenha decidido sozinha? - Julia levantou e se aproximou de Mar - Ela simplesmente chegou e disse que ia embora.

- Você não é a única pessoa da vida dela, Julia. E caso as duas aí não tenham notado, parece que eu me importo mais com ela do que vocês. Eu fui atrás dela, eu quero saber como ela está. Eu escutei ela e eu tento entender o lado dela. E eu fui a primeira a saber dessa história de ir embora porque eu escutei ela em vez de atacar ela. E fui eu quem disse que ela deveria aceitar. E o que vocês fizeram? Ficaram com raiva da decisão dela sem nem ao menos saber os motivos. Eu tenho certeza que vocês fariam exatamente o mesmo se estivessem no lugar dela. Pode ser difícil para todo mundo aqui, mas vocês não podem parar um maldito segundo para pensar em como é para ela fazer isso. Parem de brigar como duas crianças e cresçam!

Mar estava vermelha, veias saltando no pescoço e na testa. Estava com raiva, ódio de toda aquela situação. Nenhuma das duas estava agindo como uma garota madura. Nenhuma das duas parou por um segundo para ver o lado de Amanda e isso era realmente injusto.

09. Algumas Coisas Diferentes por Senhorita Charlie

Sexta-feira, 05 de novembro de 2016

Amanda percebeu que não gostava de aviões, sua cabeça estava latejando quando ela foi uma das últimas pessoas a sair do veículo, além de sentir seu estômago revirar desagradavelmente. Ela segurou a alça da bolsa de mão com mais força, se sentia extremamente nervos por estar sozinha em um lugar completamente novo. Do outro lado do cordão, se destacando por parecer extremamente tranquila entre a multidão, ela segurava uma plaquinha escrito "Amanda B." enquanto esperava calmamente pela psicóloga.

Tinha os olhos escuros, tão escuros que era praticamente impossível ver sua pupila. O cabelo escuro era curto e parecia combinar com a provável praticidade dela. Amanda sorriu levemente para ela e conseguiu se aproximar. A garota ofereceu a mão para um cumprimento, Amanda segurou sua mão e apertou.

- Eu sou a Clara, sua colega de apartamento - sorriu.

- Olá - Amanda se sentiu um pouco nervosa com o olhar da outra - Então... o que eu faço agora?

- Vamos pegar suas malas e vamos para o apartamento, é um pouco longe daqui.

- Certo.

Elas foram em direção à esteira e pegaram o par de malas. Clara carregou a menos, já que Amanda não deixou ela carregar as duas de jeito nenhum. O carro da mulher estava estacionado um pouco longe do aeroporto. Era um carro prata pequeno, ela abriu o porta-malas e elas colocaram o par ali dentro. Entraram no carro e Clara começou a dirigir em direção ao apartamento.

- Então... Você é uma das pessoas nesse projeto?

- Uhum, acho que peguei a última vaga.

- Sim. Eu achei que as vagas não seriam preenchidas.

- Por que?

- Que tal a piadinha com o Acre? - Clara riu, Amanda a acompanhou - notando, claro em como a risada dela era adorável - ela achou aquilo agradável - Quando você voltar pro Rio, vai poder dizer que o Acre existe.

- Vou lembrar de espalhar esse boato - Clara sorriu para ela, era um sorriso gentil e quase carinhoso.

O apartamento não era tão longe assim, Clara estacionou e ajudou Amanda a carregar as malas para o apartamento. Ficava no quinto andar, 504. Amanda olhou ao redor quando entrou no local, reparou como era relativamente pequeno. Um balcão dividia a sala da cozinha, era um lugar arrumado. Ela gostou do lugar, do clima que tinha ali. Parecia um lugar simples, Clara parecia uma mulher legal.

Talvez não fosse ser tão difícil quanto ela havia imaginado.

- Quer uma água? Café? Energético? Cerveja? Qualquer coisa?

- Um pouco de água está bom.

Clara assentiu e foi para a cozinha, encheu um copo de água e levou para Amanda, que agradeceu e sorriu. Ela puxou as malas em direção ao quarto. Elas conversaram um pouco sobre o projeto, Clara explicou que ele já existia há algum tempo, porém, cada vez havia mais crianças dentro do projeto, assim precisavam de mais psicólogos. Então, os líderes do projeto decidiram chamar alguns psicólogos para o projeto. Como a clínica que Amanda trabalhava fazia parte de uma espécie de rede, foi uma das clínicas escolhidas para mandarem psicólogos para o projeto.

Clara explicou que ela levaria Amanda para a clínica principal na manhã seguinte, depois Clara poderia levar a mulher para o trabalho todos os dias, mesmo que elas não trabalhassem no mesmo lugar. Clara era três anos mais velha que Amanda, diferentemente de Amanda, era psiquiatra, por isso provavelmente não trabalhariam no mesmo lugar.

Amanda achou a conversa fluida, mesmo que fosse apenas sobre o projeto, ela não havia pensado muito sobre o projeto em si. Afinal, estava ocupada preocupada com Julia, Simone e a grande mudança.

Depois da conversa sobre o projeto, acabaram fluindo a conversa para coisas sobre a cidade e Amanda perdeu as contas de quantas perguntas ela respondeu sobre o Rio de Janeiro. Clara gostava do sotaque de Amanda, a maioria das pessoas pareciam gostar do sotaque carioca (apesar de nenhum - ou quase nenhum - carioca entender qual era o tal do amor por esse sotaque).

Elas passaram horas conversando sobre aquilo, Amanda não falou muito sobre Simone e Julia, não falou tanto sobre si. Clara fez um jantar rápido, macarrão com molho. Depois de mais algum tempo, Amanda decidiu tomar um bom banho, vestir uma roupa confortável e dormir. Ela não havia notado o quanto ela estava cansada até deitar na cama macia e confortável. Ela passou um braço embaixo do travesseiro, deitada virada para a cama, fechou e suspirou.

Amanda se sentiu desabar.

Ela gostaria que Julia não a odiasse daquele jeito, que a garota tivesse ido com ela. Amanda tinha certeza que poderia arranjar um jeito de tudo dar certo. E ela queria que ir embora não machucasse Simone daquele jeito. Mas claro que ela confiava em Mar, imaginava que a garota estaria sempre por perto de Simone. Era a melhor amiga que Simone poderia ter arranjado, por mais que Mar não fosse a pessoa mais exemplar que ela conhecia, havia algo nela que impedia Amanda de achar que não daria certo.

Ela esperava que fosse uma boa escolha, a melhor escolha. Que ir embora era a melhor coisa que ela poderia fazer por si mesma.

Segunda-feira, 07 de novembro de 2016

Julia enfiou o rosto no travesseiro, estava com dor de cabeça, parecia prestes a explodir em mil pedaços. Ela não queria levantar, ela queria ficar deitada ali o dia inteiro. Era estranho ficar no apartamento vazio, era estranho levantar durante a madrugada e ver Amanda na sala em uma posição desconfortável. Ela sentia falta até mesmo do "romance suado" entre a psicóloga e o sofá.

A garota ouviu o barulho de alguém batendo na porta. Ela suspirou, levantou e atendeu. Do outro lado da porta estava Mar. Ela estava com um short mais curto do que o recomendável e uma blusa sem mangas (que mesmo que ela não gostasse muito sobre os próprios braços, ver ela deixando eles a mostra era uma visão bem agradável). As roupas que não cobriam tanta carne assim foi o suficiente para fazer Julia corar levemente.

- Ah, oi - ela sorriu levemente- Hm, sua irmã me pediu para manter o apartamento limpo enquanto você não voltava para casa.

- Isso é definitivamente a cara dela - resmungou e deu um passo para o lado, deixando espaço para ela passar. Julia se sentiu um tanto tensa quando a garota passou por ela, por que Mar precisava ter aquele corpo?

- Eu sei, achei que você não ia voltar. E que você ia me odiar.

- Eu odeio você.

- Claro que me odeia. Falou com a Amanda?

- Não.

Mar suspirou, Julia trancou a porta. Elas não tinham muito o que falar, o que fazer. Julia virou para ela, viu que a garota a olhava com o velho olhar que deixava claro que ainda havia a velha tensão sexual entre elas. Claro que Julia podia ver que Mar sentia uma certa culpa por sentia alguma atração por qualquer garota que não fosse a namorada dela. Mar se aproximou, Julia tentou não desejar que Mar a tocasse, porém ela deixou que Mar segurasse seu rosto delicadamente.

- Por que é tão difícil resistir a você? Meu Deus, eu te desejo pra caralho e não posso te tocar - Mar murmurou e acariciou as bochechas dela com os polegares - Tão perfeita...

- Você não deveria estar tão perto...

- Eu sei. Quer que eu me afaste?

- Não... - segurou sua cintura - Você vai machucar ela...

- Eu sei, Julia. É o que eu faço, não?

Julia não respondeu, o hálito de cigarro misturado com bebida (e com o leve cheiro do refrigerante de limão) era quente. Ela respirou fundo, o cheiro fazia ela lembrar de coisas boas. Por mais que Mar tenha quebrado o coração dela em milhares de pedaços, ela se lembrava perfeitamente de como elas tiveram momentos realmente bons. Sexuais ou não, apenas momentos carinhosos, eram bons. Ela sentiu as mãos de Mar no seu rosto, o carinho daquele toque podia não ser vindo de algum amor, mas era bom do mesmo jeito. Henrique nunca tocou ela daquele jeito, ele nunca foi realmente carinhoso ou amoroso com ela. Pedro foi, porém, era diferente. Aquilo era quase nostálgico.

Mar estava se controlando para não fazer o que ela queria muito fazer: beijar Julia até a exaustão.

Era tenso, o silêncio era quebrado pela respiração acelerada de ambas. Mar beijou a testa dela, deixou seus lábios tocando ela por alguns segundos. Cada músculo do seu corpo desejava aquela garota com tudo o que podia. Ela abaixou um pouco a cabeça, seus dedos se enfiaram no cabelo dela com vontade. Julia segurou sua cintura e puxou ela para mais perto.

- Você vai me bater se eu beijar você? - Mar perguntou baixinho.

- Não, eu não vou te bater...

Mar sorriu levemente e a beijou. Empurrou a garota até que as costas dela batessem na porta. Julia segurava sua cintura com toda força e estava nas pontas dos pés. Mar deixou uma mão enfiada no cabelo dela e passou o outro braço ao redor da cintura da garota. Ela sabia que não deveria fazer aquilo. Sua função era simples: ir até o apartamento, limpar a poeira e manter a geladeira sem coisas estragadas. Ela achava que Julia não estaria lá, mas bateu na porta apenas por educação. E Julia estava, mas Mar deveria apenas limpar o apartamento e ir embora.

Simplesmente ir embora.

Porém, ali estava ela: beijando, agarrando Julia. Com força, vontade, ela sentia o corpo da garota esquentar sob suas mãos. Julia pegou impulso e passou as pernas ao redor de Mar. As duas tinham certeza que provavelmente se arrependeriam depois, mas no momento estavam ocupadas em se agarrar ali mesmo. Mar deu um passo para trás, os braços ao redor de Julia a segurando com força.

Mar andou até o quarto, ela não se lembrava de como Julia segurava ela com tanta força. Ou talvez agora a garota estivesse segurando ela com tanta força. Com mais delicadeza do que o esperado, Mar colocou Julia na cama, continuou em cima dela e a beijou com vontade. Mar enfiou as mãos por baixo da camisa dela, passando pela barriga até os seios, os agarrou com toda vontade. Julia gemeu baixo quando Mar mordeu seu pescoço. Com pressa, Julia puxou a camisa da garota para cima, Mar foi para trás e tirou a blusa, Julia passou as unhas pela barriga dela. Quando Mar se abaixou de novo, Julia agarrou suas costas.

Mar tirou sua blusa e beijou cada pedaço de pele que podia, deixou marcas de chupões sem hesitar. Enfiou os dedos entre o short e a pele da garota e puxou a última peça de roupa. Mar encaixou uma mão entre as suas pernas e pressionou, Julia gemeu baixo. Depois de provocar por mais alguns momentos, Mar se inclinou para frente e murmurou:

- Vire-se...

Deu espaço para que Julia vira-se de barriga para baixo. Beijou seu ombro e se ajoelhou atrás dela, segurou seu quadril para que ela se erguesse um pouco. Julia gemeu alto quando sentiu os dedos de Mar entrando delicadamente nela. Mar enfiou os dedos no seu cabelo e puxou para trás enquanto estocava com vontade.

Ela não precisou se esforçar tanto para fazer a garota chegar ao ápice, talvez pelos hormônios, talvez porque ela era sensível ou talvez Mar fosse boa naquilo. Julia deitou com o rosto enfiado no travesseiro, respirando rápido. Mar riu, limpou os dedos com a boca mesmo. Praticamente deitou nela, sem realmente deixar o peso em cima da garota.

- Sai de cima de mim, sai de cima de mim, sai de cima de mim - Julia praticamente gritou e girou, mas Mar apenas riu e deitou de costas com a garota em cima dela, teve cuidado para não cair da cama e a abraçou ela - Meu Deus, Mar!

- Você pediu para eu sair de cima você - riu e beijou seu ombro.

- Não faça isso - Julia murmurou.

- Fazer o que? - Mar perguntou e acariciou sua barriga delicadamente.

- Fazer eu me apaixonar por você - segurou sua mão para que ela parasse de acariciar sua barriga, ela murmurou baixinho - Me machucar de novo...

- Isso não está no meu plano - Julia escorregou um pouco para o lado, sem realmente sair de cima da garota e deitou a cabeça no travesseiro, virou o rosto para ela e Mar a olhou - Não deveríamos ter feito isso, não é?

- Definitivamente.

- E por que fizemos?

- Porque é irresistível - tocou seu rosto delicadamente com as pontas dos dedos - Você é irresistível.

- Eu sou um pecado.

- Eu gosto de pecados.

- Para de flertar, filha da puta.

- Eu flerto até com um poste - Julia riu baixinho - Sabe de uma coisa que você deveria fazer?

- Sentar na sua cara?

- Não - sua voz soou delicada e gentil - Você deveria ir atrás da Amanda.

- Eu não vou atrás da Amanda... - Julia se livrou da sua mão e levantou, se sentou na cama - Eu não vou atrás dela...

- Por que não? Por acaso você não entendeu o que eu falei sobre isso?

- Eu ouvi...

- Mas você é rancorosa demais para pensar em dar uma chance para a sua própria irmã - Mar sentou.

- Talvez eu seja rancorosa, talvez eu esteja tentando me proteger.

- Mas ela é a sua família.

- E o que você sabe sobre família? - Julia virou para ela - Você odeia a sua família, não é? Você não pode falar merda nenhuma sobre isso.

Julia levantou e começou a catar as roupas dela, estava vermelha de raiva e sequer olhou para Mar outra vez. Talvez ela fosse rancorosa, talvez ela fosse extremamente orgulhosa. Ela sentia falta de Amanda, aquilo machucava. Faziam alguns dias que a psicóloga tinha ido embora e a garota sentia como se fossem anos.

- Talvez a minha família não me ame como a Amanda te ama - Mar murmurou, a voz rouca e Julia ouviu ela fungar - Então eu acho que seria uma boa ideia você parar de atacar todo mundo ao seu redor e ir atrás da sua família.

10. O Demônio Detrás Olhos Verdes por Senhorita Charlie

Quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Ela se sentou na escada da saída do colégio, a bolsa repousada entre seus pés. Simone prendeu o cigarro entre os dentes e o acendeu. Havia visto Mar fazer aquilo centenas e centenas de vezes, era costumeiro. Porém, parecia estranho. Não parecia combinar com quem ela era. Entretanto, o que assustava era simples: parecia combinar perfeitamente com quem ela estava se tornando.

- Eu achei que cigarros não eram sua praia - Mar falou e parou em frente a amiga - Agora é a sua praia?

- Coisas que aliviam a minha dor são a minha praia agora.

- Cigarro não realmente alivia a dor de ninguém - ela ergueu as sobrancelhas enquanto via Simone soltar a fumaça esbranquiçada.

- Não é como se você fosse um exemplo positivo sobre fumar. Ou sobre viver.

- No momento, você também não é e nem por isso eu decidi te atacar.

- Claro, porque você é uma santa - Mar fechou os olhos e respirou fundo. Ela só não estapeava Simone porque sabia que a garota não estava exatamente em seu melhor estado

- Eu não disse que sou uma santa - ela enfiou as mãos nos bolsos - Eu só disse que cigarros deveriam continuar não sendo a sua praia.

- Não é algo importante.

- Para mim é importante - Mar se abaixou na sua frente e segurou seu pulso, puxou para si. Simone a observou, não puxou o braço de volta quando Mar empurrou a manga para cima e viu que haviam cortes recentes - Você disse que ia parar...

- Eu estou tentando parar, Mar - suspirou -É difícil.

- Eu sei que é difícil, quem disse que a vida é fácil?

Simone abaixou a cabeça, ela não sabia o que estava com a própria vida. Deixou Mar tirar o cigarro da sua mão, mas a garota não tirou o maço dela e nem o isqueiro (talvez porque pensasse que Simone provavelmente jogaria aquilo fora). Mar se levantou, apagou o cigarro e o jogou dentro do lixo.

- Você tem que ir pra casa.

Mar lhe ofereceu a mão, Simone segurou e pegou a bolsa. Ana ainda não havia saído, então Mar precisaria esperar sua namorada. Desceram a ladeira lentamente e sentaram no ponto de ônibus, não havia nenhum sinal do veículo. Simone deitou a cabeça no seu ombro, Mar a abraçou e começou a acariciar lentamente seu braço.

Simone fechou os olhos e suspirou, deixar Mar a abraçar daquele jeito era um dos poucos momentos em que ela se sentia bem.

 

Segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Patrícia era definitivamente uma das piores mães que alguém poderia imaginar.

Ela chegou em casa um pouco mais cedo que o normal, por isso Simone não estava com a camisa de mangas compridas. Estava com uma camisa de mangas curtas e passava lentamente o antisséptico pelos cortes no antebraço. Ela estava distraída e ouviu os sapatos quando já era tarde demais. Ela pulou para fora da cama e tentou fechar a porta, mas a mulher já estava perto o suficiente para vê-la.

Claro que sua reação aos cortes foi péssima. Uma mãe que se importa provavelmente ficaria preocupada, chocada ao ver a própria filha se machucando tanto. Então tentaria conversar, saber e entender o porquê. E tentaria ajudar, ofereceria amor e carinho para tentar curar a filha.

Porém, como foi dito, Patrícia era uma das piores mães que alguém poderia ter.

O ódio nos seus olhos deixou claro o que ela faria antes mesmo que esse pensamento passasse na sua mente. Ela entrou no quarto, Simone deu passos para trás tentando fugir da mulher. Porém, era quase uma armadilha.

- Você deveria aprender a prestar, seu pai fez um trabalho de merda com você, sua vadiazinha.

Patrícia era bem mais forte do que parecia. O soco dela atingiu o queixo de Simone com força, isso fez a garota morder a própria língua e sentir o gosto de sangue na boca. A mulher segurou seu braço, as unhas longas fazendo os cortes avermelhados sangrarem com a brutalidade. Ela puxou a garota e acertou um tapa no seu rosto, os dedos batendo com força na sua orelha. A força do tapa fez Simone se sentir tonta e ouvindo um som desconfortável e agudo em seu ouvido.

O gosto metálico do sangue em sua boca não era tão ruim assim. A dor dos tapas não eram tão ruins assim. Por mais masoquista que isso poderia soa, Simone quase sentia prazer por estar apanhando.

Parece um pouco menos doentio sentir dor quando é causado por outra pessoa. Quando outra pessoa fazia ela sangrar, era como se assim ela realmente merecesse. Na verdade, ela tinha que admitir que achava que merecia. Merecia por não ter sido uma filha boa o suficiente para Lucas, por ter sido uma péssima namorada para Amanda e por ser uma péssima amiga para Mar (afinal, ela era a melhor amiga da garota e mesmo assim ela havia transado com Ana. Por mais que Mar já tivesse lhe perdoado, ela ainda se sentia culpada).

Sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Simone cruzou os braços e olhou para o teto durante a aula, sua cabeça estava latejando. Era um pouco difícil respirar, essa coisa de fumar não era a melhor coisa do mundo para a sua saúde e ela sabia que estava com dificuldade de respirar por causa disso. Simone só estava pensando em sair da sala e ir beber.

Beber pra caralho.

Ela contava os minutos para a aula acabar. Quando a aula finalmente acabou, ela enfiou o caderno e a caneta na mochila e desceu rapidamente as escadas. Não foi realmente uma surpresa quando viu Mar e Ana em um daqueles momentos de casal-chiclete. Era o tipo de coisa que deixava Simone se sentindo um pouco melhor.

A amizade de Mar e Simone podia não estar exatamente no melhor estado, já que Simone não estava sendo a pessoa mais fácil do mundo de se lidar. E também porque Mar parecia estranha, quase culpada, como se estivesse guardando um segredo ruim, sujo. Simone achava que talvez não fosse a melhor ideia do mundo perguntar o que tanto incomodava sua amiga.

Simone segurou a alça da mochila com mais força e se aproximou do grupo que beberia. Ela quase podia sentir o olhar de Mar sobre ela, mas ignorou isso. Sabia que a garota estava vigiando ela, mas tinha a impressão que não era exatamente para que ela não bebesse demais e acabasse transando com alguma garota qualquer, mas talvez estivesse a vigiando para defender caso alguém decidisse a machucar.

Alguém, ou mais especificamente, Henrique e algum ‘amigo' dele. Afinal, Mar tinha 100% de certeza que era muito mais fácil machucar uma garota bêbada do que uma garota sóbria. E claro que Mar impediria isso, a última coisa que Simone precisava era que Henrique abusasse dela. Era a última coisa que qualquer garota precisava.

Simone aceitou o copo descartável e parou de contar no terceiro copo. O álcool nublava sua mente, ela gostava da sensação, não conseguia pensar direito. Por não conseguir,  ela não soube exatamente em que momento ela conseguir arranjar uma garota para ficar.

Ela achava que era um pouco estranho fazer aquilo, ela não havia beijado muitas pessoas na sua vida. Não que não tenha sido estranho quando foi para cama com Ana, porém, ela conhecia a garota. Já haviam conversado algumas vezes e ela era o assunto favorito de Mar (assim como Mar já havia falado bastante sobre Simone para a namorada). Mesmo que fosse estranho, ali estava ela, com o rosto enfiado no pescoço de uma garota.

Elas haviam se afastado do resto do grupo, perto da curva e entre uma van e a parede. Simone passou as mãos pelas costas da garota, sua mente não funcionava direito com aquela nuvem de vodka barata. Ela não sabia bem porque se sentia tão desconfortável. Talvez por ser uma garota que ela mal conhecia, talvez por estarem em um lugar público ou simplesmente porque ela estava extremamente bêbada.

- Isso não vai dar problemas?

- Não.

- Tem certeza?

- Quer que eu te foda ou não?

- Quero, claro que eu quero.

- Então cala a porra da boca.

Simone não precisava saber seu nome, mas ela sabia: Eduarda.

Eduarda não estava realmente acostumada a ficar com pessoas sem compromisso, muito menos quando essa pessoa fosse uma garota. Porém, ela estava gostando da sensação. Ela gemeu baixinho quando Simone empurrou a coxa entre as suas pernas, segurou os ombros dela, as mãos agarrando o tecido pesado do moletom. Simone escorregou uma mão pela lateral do seu corpo até sua perna e a ergueu, fazendo que Eduard a segurasse perto. Depois escorregou ambas as mãos até o cinto e o abriu, desabotoou e abaixou o zíper, então enfiou a mão por dentro do jeans.

Simone sabia muito bem que o que estava fazendo não era o jeito mais inteligente de tentar seguir em frente, mas ela não sabia se realmente queria seguir em frente.

 

Terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma garrafa de vodka barata estava escondida entre as roupas no armário, Simone não realmente gostava de beber. Seu caderno estava jogado no chão, algumas palavras escritas com sua letra tremida e vacilante.

Eu só... eu só sinto raiva o tempo todo. Mesmo quando eu escrevo o máximo sobre todo o meu ódio, quando eu explodo e jogo coisas nas paredes. Eu continuo acumulando essa raiva como pontos de um jogo doentio. E essa dor física é viciante, é como se eu precisasse disso para respirar. Eu sinto raiva e dor o tempo todo. São como demônios se acumulando, crescendo, se alimentando de tudo dentro de mim. Eu não me lembro da última vez em que eu fui capaz de passar um dia sem chorar.

É como ser assassinada lentamente pela minha própria mente.

Ela deixou o caderno de lado, pegou sua carteira e pegou sua pequena lâmina. Fina, flexível, leve, ela gostava da sensação daquilo entre os seus dedos. Parecia algo feito para estar entre os seus dedos. Deveria estar no colégio assistindo alguma aula monótona, porém, algo havia deixado Patrícia realmente irritada na noite anterior e quem virou seu saco de porrada? Se você chutou Simone, você acertou.

Por causa dessa violência na noite anterior, Simone acabou acordando mais tarde e com uma dor terrível. A luz que entrava pelas frestas da janela deixou ela ver o sangue travesseiro, imaginou que provavelmente tinha tossido durante a boca. Sua boca estava seca e o gosto metálico era enjoativo.

Simone girou a lâmina entre os dedos, fechou o punho direito. O que escreveu na noite anterior enquanto sentia a dor de ter sido espancada se entranhando na sua mente não foi um bilhete de despedida, e nem era realmente seu objetivo sangrar até a morte. Porém, ela não acharia realmente ruim caso um incidente acontecesse.

Ela segurou a lâmina entre o indicador e o polegar e passou a ponta do anelar e do dedo médio pelos cortes em seu braço. Linhas horizontais finas e não muito retas, algumas coçavam enquanto criavam uma casquinha. Segurou a lâmina com mais firmeza e abriu um corte um pouco mais longo que os outros, um pouco mais fundo e mais doloroso que os outros. Simone grunhiu, colocou a lâmina na beira da mesa de cabeceira. Ela levantou e abriu o armário, pegou sua garrafa. Ela já havia bebido mais ou menos um terço da vodka.

Abriu a garrafa e sentou no chão ao lado da cama e começou a beber. Ela não gostava de verdade do sabor, mas bebia para se sentir ‘entorpecida'. Para não pensar em sua vida miserável, em como era um desastre naquele momento. Com a mente nebulosa, ela não pensava no que perdeu. Não pensava no seu pai, muito menos pensava em Amanda.

Ela não queria pensar em Amanda.

Queria enterrar seus sentimentos pela psicóloga, enterrar todas as memórias com ela. Doía pensar em como foram felizes, em como foi perfeito. E mesmo que Amanda já tivesse ligado algumas vezes e tentado falar com ela, Simone simplesmente a ignorava.

Bebeu outro e outro gole, cortando a pele enquanto ficava mais e mais bêbada. Quanto mais nublada sua mente ficava, mais longos os seus cortes ficavam. O sangue escorria pelos seus braços lentamente. Em algum momento, ela deu o último gole e empurrou a garrafa para longe. Seu estômago doía, seu corpo aparentemente estava rejeitando todo aquele álcool. Ela fechou a mão com força, sem realmente pensar no que estava fazendo.

Apertou a lâmina contra a pele e puxou para cima. Com força e vontade insana de se ferir. O corte torto e vertical, provavelmente fundo demais, desde o pulso até a dobra do braço. Deixou a lâmina cair no chão, segurou seu braço e se curvou para frente.

 

Fechou os olhos e "apreciou" a dor...

11. O Sofrimento do Falcão por Senhorita Charlie

Segunda-feira, 07 de novembro de 2016

 

Mar revirou os olhos e levantou da cama, ela se espreguiçou lentamente, sentindo suas juntas estalarem. Suas costas queimaram e ela gemeu baixo quando os seus músculos ficaram tensos por alguns segundos. Ela vestiu a blusa, se enfiou no banheiro, lavou o rosto e arrumou o cabelo apressadamente.

Julia estava no sofá e não ergueu os olhos do telefone quando Mar passou por ela e nem quando quando Mar hesitou por alguns segundos na porta. Ela queria falar o quanto estava confusa e que Julia não deveria odiá-la. Sabia que a garota tinha um certo problema com rancor, provavelmente era o maior defeito dela.

Por mais que fosse parecida com Amanda, provavelmente aquela era a maior diferença. Amanda dava uma nova chance outra e outra vez até que estivesse quebrada demais para continuar. Ela tentou de novo e de novo com Simone até não conseguir mais, tentou de novo e de novo com Julia até não aguentar a raiva dela.

E  o que você  sabe sobre família? Você  odeia a sua família, não é? Você não pode falar merda nenhuma sobre isso.

Mar sabia perfeitamente que isso ficaria voltando a sua mente outra e outra vez. Sendo sincera, ela não conseguia considerar os pais e os irmãos como sua família de verdade. O mais próximo de família que ela poderia considerar era Simone, Ana e Amanda.

- Por quanto tempo você vai continuar me odiando?

- Pelo mesmo tempo em que o que você fez continuar machucando toda vez em que eu pensar sobre isso.

- Achei que se apaixonar pelo Henrique e depois pelo Pedro faria você me esquecer.

- Não é assim que funciona, mas não acho que você tenha alguma experiência com sentimentos. Ou provavelmente você não tem sentimentos.

- Certo, sem sentimentos. Pare de me atacar como se a culpa de tudo que está dando errado na sua vida fosse minha culpa - Mar se aproximou de Julia - Por que você continua me odiando tanto?

- Porque eu só pedi uma chance - Julia levantou, os braços cruzados e corando de raiva - Eu só te pedi uma coisa e você foi incapaz de me dar, você preferiu desistir.

- Você não acha que se eu tivesse te dado a chance eu teria te machucado ainda mais?

- Você só saberia disso se tivesse tentado, mas você não quis.

- Você ainda não entendeu o quanto eu poderia te machucar.

- Eu só queria que você tentasse, só tentasse.

- E então o que? Você tem alguma noção do quanto eu posso te machucar? Machucar de verdade?

- Não é como se você não tivesse me machucado antes.

- Teoricamente, tudo o que eu fiz foi basicamente terminar com você e nós nem namorávamos.

- E isso é nada?

- Isso é nada comparado com o que posso fazer. Você não aguentaria.

- Agora sou fraca?

- Fraca não, só não forte o suficiente para me aguentar. Não idiota o suficiente para continuar tentando.

- A Ana...

- Não, isso é sobre eu e você, você quer enfiar ela no meio? Vamos lá! Você sabe o quanto eu machuquei ela? Eu trai ela, eu menti pra ela, eu bati nela, eu praticamente torturei ela. E de novo, eu machuquei ela transando com você e eu sei que vou contar pra ela. Então não estou dizendo que você é fraca, só estou dizendo que você não precisa disso.

- Você não sabe o que eu preciso ou não.

- Certo, você ainda não pegou o espírito da coisa. Você tentaria com o Henrique de novo?

- Claro que não.

- Então por que você está reclamando que eu não te dei uma chance?

- Não é como se fosse a mesma coisa.

- Ele é um monstro, eu sou um monstro, não vejo uma grande diferença.

- Mar...

- Você pode continuar me odiando pelo resto da sua vida, mas admita que por mais que ter desistido tenha te machucado, a coisa poderia ser muito pior.

- Você nem mesmo me disse o que realmente aconteceu.

- Talvez porque seja eu não gosto de falar sobre coisas que me machucam, ser expulsa de casa não é algo muito agradável. Não é como se eu tivesse sido apenas expulsa de casa. Você não é a única que passou por coisas difíceis, me odeie, mas tente enxergar que talvez, apenas talvez, isso tenha sido o melhor para você.

 

Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

 

Mar suspirou e cruzou os braços, suas pernas estavam esticadas e em cima da mesa. Ela não queria contar, ela não queria falar sobre isso, mas simplesmente não conseguia parar de pensar sobre o que havia feito semanas antes, sobre os seus problemas com sentimentos. Ela inegavelmente amava Ana, mas também estava se apaixonando por Julia outra vez É possível amar uma pessoa e se apaixonar por outra?

Ana estava terminando de lavar a louça, desde quando ela finalmente apresentou a garota para o pai, o relacionamento delas era quase como o de um velho casal casado. Mesmo que a garota já tivesse notado que havia algo incomodando Mar profundamente.

- Ana.

- O que?

- Nós... nós precisamos conversar.

- Conversar sobre o que? - Ana secou as mãos em um pano de prato enquanto se aproximava de Mar - O que houve?

- É sobre uma coisa que eu fiz. Eu... eu meio que... - engoliu seco, ser tão sincera assim era a coisa mais difícil que Mar estava fazendo. Escrever uma carta contando o que havia acontecido quando ela foi expulsa de casa, admitir o quanto os sentimentos estavam guiando ela, mas admitir aquele erro específico era pior. Se perguntou se foi difícil assim para Ana e Simone admitirem o que haviam feito.

- Você meio que?

- Não, nada, esquece...

- Não, agora você me fala. O que você fez? O que tem te incomodado tanto nos últimos tempos?

- Eu... me desculpe, eu...

- Fale de uma vez, você está me assustando.

- Isso não é exatamente fácil...

- Fale de uma vez.

- Estou tentando.

- Vamos...

- Eu transei com a Julia há umas duas semanas, me desculpe - Mar falou rápido.

- Não peça desculpas.

- Perdão?!

- Não!

- Ana...

- Cala a boca.

- Eu posso explicar.

- Não, você não pode. Se você tem uma segunda opção, Mar, é talvez porque a primeira não é mais o suficiente.

- O que? Não, não...

- Se você ama alguém e então se apaixona por outra pessoa... é porque esse alguém não está suprimindo as suas necessidades. Eu estou te dando tudo de mim e ainda assim não é o suficiente para te deixar satisfeita.

- Não, Pequena - Mar segurou seus quadris para não deixar Ana sair - Eu não estou apaixonada só porque eu transei com ela... Claro que você tem todo o direito de me odiar por ter te traído...

- Vamos, vocês têm uma história juntas.

- Nós duas temos uma história!

- Nós temos um desastre... - Ana segurou seus pulsos e tirou as mãos de Mar de si. Ela falou baixo, sua voz parecia quebrar, falhava dolorosamente - Uma vez você me perguntou o quanto você tinha que me machucar para me fazer ir embora, isso é o quanto você precisa me machucar.

Ela soltou os pulsos da garota, deu um passo para trás, pegou a mochila e a pendurou no ombro. Mar viu Ana virar e andar até a porta, cada passo dela parecia uma facada no seu coração. Era como se quebrasse cada pequeno pedaço dela. Mar a viu parar por um segundo, segurando a maçaneta com força. Ela estava hesitando... Mar torceu para que a garota virasse, voltasse para seus braços, a perdoasse, por mais que isso fosse egoísta. Porém, Ana fungou, abriu a porta, saiu e a fechou atrás de si.

Mar havia a machucado o suficiente para fazê-la ir embora.

 

Terça-feira, 29 de novembro de 2016

 

Mar estava deitada no sofá, ela havia acabado com qualquer bebida por perto e naquele momento não estava bêbada porque não tinha ânimo para se levantar e ir comprar mais bebida e cigarro. Ela ouviu a campainha, levantou e se arrastou até a porta.

- Desde quando você sabe onde eu moro? - Sua voz tinha um tom sarcástico quando falou com Julia.

- Simone me falou.

- Quando? Na época em que você não odiava ela?

- Cala a boca - Julia revirou os olhos - Eu preciso de um favor...

- Que favor?

- Eu quero, hm, conferir a Simone. Você pode vir comigo?

- Agora você se importa com ela?

- Vem ou não?

Mar assentiu. Rapidamente, vestiu uma roupa menos desleixada, se enfiando em um jeans e uma camisa de mangas compridas. Seguiu Julia, Simone não morava muito longe. Mar andou de um lado para o outro pelo muro, passando as pontas dos dedos pelas pedras. Ela parou na frente do portão de garagem. Ela agarrou o portão um pouco acima da própria cabeça, flexionou um pouco as pernas e pegou impulso para pular. O portão era uma chapa fechada até mais ou menos a altura da cintura, então ela precisou de um pequeno impulso para enfiar os pés na base da grade.

- O que você está fazendo?

- Estou tentando invadir uma casa.

Conseguiu subir até se agarrar no topo do muro, se impulsionou para cima até se equilibrar no muro. Julia engoliu seco, não era muito legal ver Mar se equilibrando para andar no muro, era uma queda de cerca de quatro metros, a garota poderia se machucar feio. Ela se sentou e escorregou para parar em cima da ‘casa do gás' e pulou para o chão.

Andou até a varanda, a porta tinha uma pequena janela, então empurrou, enfiou a mão para dentro e conseguiu tirar a chave da fechadura. Foi até o portão e destrancou para deixar ela entrar. A casa não era tão grande assim, Julia foi em frente.

- Oh merda... - Julia murmurou, Mar virou para ela, ela havia enfiado o rosto para dentro do banheiro.

- O que?

Se aproximou. Por cima do ombro da garota, ela sentiu uma agonia crescendo dentro dela ao ver Simone. A garota estava no chão, suas costas contra a lateral da cama. A garrafa de bebida vazia estava ao seu lado, como se estivesse em sua mão e então caiu quando ela desmaiou. A lâmina ensanguentada caída no chão no meio de uma poça de sangue assustadoramente grande.

Correu em direção à garota desacordada. Seus pés escorregaram no líquido escarlate. Ela segurou o rosto de Simone, estava mais frio que o comum.  Seu peito se movia lentamente, ao menos ela ainda respirava. Julia quase podia sentir o desespero de Mar, viu que suas mãos tremiam enquanto ela tentava pensar no que deveria fazer.

- Não, não, não, não, não - Mar murmurou, o desespero em sua voz era realmente dolorosa, Julia engoliu seco - Você não vai fazer isso comigo, sua filha da puta.

Julia parou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, estava tentando se manter o mais calma possível. A garota abriu o armário e procurou por uma toalha, encontrou uma pequena toalha de rosto. Ela se ajoelhou ao lado das garotas, segurou a barra da camisa de Mar e puxou para cima, agarrou o cinto e começou a soltar.

- Mas que porra você está fazendo?

- Um torniquete. Eu preciso tentar não deixar ela morrer sangrando aqui mesmo. Você consegue carregar ela? - Mar assentiu - Acho que a melhor opção é levar ela para um hospital.

Julia envolveu o braço ferido com a toalha e usou o cinto para improvisar o torniquete, apertou com força e sentiu o sangramento diminuir consideravelmente. Mar passou os braços por baixo de Simone, ela era muito mais leve do que a garota esperava. Mar a carregou para fora, os passos largos e apressados. Ela entrou no carro, sem realmente se importar com o sangue sujando o estofado, sinceramente, Julia também não se importava.

O hospital não era realmente longe, ainda por cima a maior parte do era uma rua de mão única em direção ao lugar. Isso provavelmente era o que aumentava a chance de chegarem a tempo.

- Você não pode me abandonar - Julia ouviu Mar murmurar, o desespero na voz dela era realmente doloroso - Eu te avisei que não podia te perder, não avisei, você não pode fazer isso. Você não pode simplesmente morrer porque é conveniente.

- Falar com ela não faz muito sentido...

- Eu sei, Julia - Mar apertou mais a garota - Você já teve alguém morrendo nos seus braços?

- Você sabe que não.

- Então me deixe falar... é como se isso ajudasse. Só dirija o mais rápido que puder.

Julia assentiu. O torniquete não funcionava realmente bem, Mar podia sentir o sangue quente escorrendo. Também podia sentir como a respiração se tornava mais lenta, quase sentia a vida escapar entre os dedos como areia.

 

- Eu não vou perder você...

12. Os Dias na Admirável Vida Nova por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 09 de novembro de 2016

 

Amanda prendeu o telefone entre os dentes enquanto procurava as chaves dentro da mochila, era estranho tentar se acostumar com um lugar novo. Até mesmo o calor era diferente, o ar era bem mais úmido, isso fazia o suor ficar pegajoso. A água não simplesmente evaporava como deveria, isso irritava Amanda com toda aquela unidade. Amanda ainda não tinha achado as chaves quando a porta a sua frente foi destrancada e Clara apareceu sorrindo na porta.

- Problemas com a chave?

- Minha mochila está cheia demais.

- Esvazie um pouco - Clara deu um passo para o lado - Entre de uma vez.

- Você é muito delicada - Amanda resmungou e entrou - Eu trouxe refrigerante.

- Você gosta mesmo de refrigerante - Clara sorriu, ela achava que Amanda era provavelmente a mulher mais adorável que ela conheceu - Não se cansa de beber isso?

- Não, claro que não me canso - ela sorriu e andou até a cozinha e pegou um pouco de água - Eu não costumo me cansar de coisas boas.

Clara riu baixo. Amanda deixou o copo no lugar e foi para o banheiro, ela sempre tomava um banho antes de jantar. Fazia poucos dias que elas se conheciam, mas já tinham conseguido se ‘ajeitar' em uma boa rotina.Amanda gostava de rotinas. Não era uma coisa simples ou fácil, mas claro que estabelecer uma rotina ajudava ela a se acostumar com uma grande mudança.

E, para sua grande surpresa, Clara era parecida com ela. E o que era mais surpreendente dessa semelhança: era ótimo. Amanda estava acostumada a conhecer pessoas que eram o seu oposto, ou ao menos bem diferentes. Provavelmente isso tinha algo a ver com o velho "opostos se atraem", um princípio que pode ser aplicado para qualquer tipo de relacionamento, incluindo os não românticos. Por isso era uma certa surpresa para Amanda.

Apesar de todo o caos na sua vida, Amanda tinha que admitir: aceitar aquela vaga foi uma das melhores decisões de sua vida.

 

Sexta-feira, 18 de novembro de 2016

 

Amanda estava deitada no sofá, era um móvel pequeno e por isso os pés da psicóloga estavam para fora do sofá. A TV estava ligada em uma altura bem-baixinha, o som das páginas sendo viradas soava mais alto que o da TV. O apartamento não era no centro da cidade, então não era em um lugar realmente barulhento. Amanda gostava disso, ela havia se acostumado com os barulhos do Rio de Janeiro.

Aquela tranquilidade fazia ela se lembrar das noites tranquilas com Simone, noites silenciosas onde o som mais alto que se podia ouvir era a respiração calma da garota. Ela também se lembrava ouvir o ronco do motor da geladeira, as folhas da árvore se movendo com o vento e ocasionalmente ouvia o som baixo de um trem passando a distância.

A chegada de Clara tirou Amanda das memórias que podiam realmente machucá-la.

- Então Carioquinha, eu não sei se você bebe ou não, então eu trouxe duas opções - Clara falou e ergueu as mãos, na mão direita ela tinha uma garrafa de vidro de bebida alcoólica e na mão esquerda tinha uma garrafa de um litro e meio de coca-cola.

- Eu não bebo muito.

- Só um pouco, não vamos ficar bêbadas - ela sorriu e colocou as garrafas na mesa-de-cabeceira - Vai me acompanhar?

- Um ou duas doses.

- Ótimo!

Clara pegou dois copos de vidro e colocou um pouco de vodka em cada um, se sentou no sofá ao lado da psicóloga e entregou um dos copos. Amanda deixou o livro na mesa-de-centro, sentou e aceitou o copo. Ela cheirou a bebida, era forte e incomodou seu nariz. Passou a língua entre os lábio e viu Clara virar o copo, engoliu seco, se sentindo estranha por estar prestes a definitivamente se embebedar, então bebeu o líquido. Sentiu como fogo líquido passando na sua garganta, tossiu brevemente e Clara riu.

- Podemos falar um pouco sobre você? - Clara perguntou.

- Seu plano é me embebedar e tirar todas as informações sobre mim?

- Funcionaria? - Clara colocou mais bebida no próprio copo e depois no de Amanda.

- Talvez - bebeu a segunda dose.

- Então, Carioquinha, deixou namorado no Rio? Ou uma namorada?

- Ex.

- Ex-o-que?

- Um ex-namorado e uma ex-namorada.

- Então corta pros dois lados?

- Não tenho um rótulo, na verdade, eu não costumo pensar sobre isso.

- Acredito que você não tenha uma lista grande de pessoas com quem você namorou.

- Por que?

- Porque as pessoas costumam dizer "meu" ou "minha" ex. Você especificou um e uma ex, estou errada em dizer que você só namorou duas pessoas na sua vida?

- Está bem,eu não tenho um grande histórico de namoros.

Clara sorriu. Elas sequer tinham chego na metade da garrafa quando Clara perdeu a paciência de colocar nos copos e então começaram a beber diretamente da garrafa. Clara se sentiu um tanto surpresa quando percebeu que Amanda conseguia colocar uma boa quantidade de bebida para dentro, afinal, a psicóloga parecia definitivamente o tipo "fofa demais para aguentar mais de duas doses".

Depois de conversar um pouco mais e beber bem mais, Clara acabou saindo do sofá e pegou a outra garrafa de vodka que tinha guardada. A bebida não parecia mais ter um gosto tão forte depois de tantas doses. elas acabaram se aproximando enquanto bebiam.

Clara colocou a garrafa vazia na mesa-de-centro, Amanda seguiu ela com o olhar. Clara voltou a posição interior,estava tão perto da psicóloga que quase estava sentada em seu colo. Considerando o quanto estavam bêbadas, é possível dizer que foi um tanto previsível quando Clara se aproximou e a beijou. Amanda não hesitou mais de uns dois segundos para segurar a cintura da mulher enquanto correspondia ao beijo.

- Para quem só namorou duas pessoas, você beija muito bem - Clara murmurou quando se afastou um pouco.

- Provavelmente beijar não é a única coisa que eu sei fazer bem.

- Você está flertando?

- Estou tentando.

- Se o objetivo do seu flerte é me levar para cama, você está indo incrivelmente bem.

- Precisa ser na cama?

- Pode ser aqui mesmo - Clara a empurrou pelos ombros, obrigando a psicóloga a deitar no sofá - Eu amo a versão bêbada de você...

 

Sábado, 19 de novembro de 2016

 

A luz do sol incomodou Amanda, atingindo seus olhos sensíveis. Ela gemeu, sua cabeça estava pulsando, ela virou o rosto lentamente e o afundou no travesseiro macio. Não era a primeira vez que ela acordava com ressaca, mas isso não fazia parecer menos dolorido. Ela se arrastou para fora da cama, tomou cuidado para não pisar em Clara, provavelmente a mulher caiu da cama no meio da noite. Ela decidiu fazer o café-da-manhã.

- Ei - Clara falou e se jogou no sofá - Argh, ressaca.

- Café, pão e um analgésico, servida?

- Absolutamente - Clara gemeu - Você fez café? Achei que você não bebesse café.

- Eu não bebo muito café, mas é claro que eu sei fazer. Não é dos melhores, mas não é tão ruim assim.

- Qualquer café vai descer agora - Clara levantou e foi para a cozinha - Está cheirando bem.

- Obrigada - sorriu levemente, Clara parou ao seu lado, o clima era tenso e um tanto estranho. Não chegava a ser desconfortável, só era um pouco esquisito - E agora?

- E eu sei? Eu não costumo transar com colegas de apartamento.

- Nem eu.

- Você morava com a sua irmã, graças a Deus que você nunca transou com a sua colega de quarto.

Amanda riu baixo e cuidadosamente colocou água quente no filtro para terminar de fazer café. Mesmo sendo sábado, Clara precisava sair e ir à clínica. Por isso, Amanda se jogou no depois que a mulher saiu, a cabeça jogada para trás e encarando o teto branco. Ela realmente não fazia ideia de como aquilo ficaria. Não que fosse um grande problema transar com alguém, mesmo que soasse como algo completamente fora da sua personalidade, o problema não era: por que ela havia deixado aquilo acontecer?

Clara era bonita e divertida, perfeitamente atraente, provavelmente era bem compreensível que aquilo acontecesse. Porém, entretanto, todavia, Amanda havia demorado meses para que ela tivesse a primeira vez com Simone e sequer fazia um mês que ela e Clara se conheciam.

O toque do telefone tirou ela daquela rede de pensamentos, viu o nome de Mar na tela do telefone e atendeu:

- Ei, como vai?

- Bem, acho, que dizer, eu acho que, hm, preciso de um conselho.

- Eu cobro por hora - Mar riu baixo - Conselho sobre o que?

- Sobre a Ana. E sobre a Julia.

- Ô Ana Julia aaah - Amanda cantarolou baixinho.

- Cala a boca.

- Eu não resisti - Mar imaginou que provavelmente Amanda sorriu, ela estava certa - Enfim, por que você precisa de conselho sobre a sua namorada e sobre a minha irmã?

- Há um pouco mais de uma semana, eu fui no seu apartamento como você pediu. A Julia estava e eu... eu meio que transei com ela.

- Você ‘meio' que transou com ela?

- É...

- Ninguém ‘meio que' transa com alguém.

- Achei que seria estranho apenas te falar "eu transei com a sua irmã".

- Seja mais direta, por favor.

- Está bem. Eu transei com ela, ou seja, eu trai a Ana.

- De novo.

- Eu não estava namorando com ela quando eu transei com a Bia.

- E ela não se sentiu traída? Você não sentiu que errou?

- Está bem, vamos contar como traição.

- E a Ana já sabe isso?

- Claro que não.

- E você vai contar para ela?

- Eu não sei.

- Não sabe?

- Ela não vai me perdoar se souber que eu fui pra cama com outra garota!

- Talvez ela perdoe.

- Ela vai me odiar.

- Talvez.

- Eu não posso contar.

- Porque tem medo dela não te perdoar.

- Medo dela nunca mais querer falar comigo. Eu realmente gosto dela.

- Você a ama?

- Sim.

- E você traiu ela do mesmo jeito?

- É...

- Você sabe o quanto isso vai machucar ela.

- Eu sei, mas eu a amo e...

- Eu não quero dizer que você não ama essa garota. As pessoas erram. Talvez você tenha que no mínimo ser sincera.

- Mesmo que isso signifique perder ela?

- Principalmente se isso significa perder ela. Quanto mais tempo você esconder isso dela, mais tempo você vai mentir e menos chance de ser perdoada você tem.

- Eu preciso dela, entende?

- Claro que eu entendo - depois de alguns momentos de silêncio, Mar perguntou baixo.

- Você sente falta dela, não é?

- O tempo inteiro.

- Você já ligou?

- Milhares de vezes. E mandei um monte de mensagem, deixei recados na caixa postal. Ela está me ignorando. Ela não vai mais falar comigo.

- Ela só está chateada porque você se mudou. Sabe, porque ela te pediu para ficar.

- E eu fui muito egoísta vindo...

- Não, não, você não foi egoísta fazendo isso. Você raramente pensa em si mesma como prioridade. Às vezes o que é melhor para você naturalmente machuca outra pessoa.

- Eu machuquei a Simone e a Julia.

- A Julia poderia ter ido com você.

- A vida dela é aí.

- A sua também era.

- Eu sei... Eu vim e perdi as duas.

- É a sua irmã e o amor da sua vida, você acha que realmente perdeu elas?

- Eu não sei.

- Se você acha que talvez a Ana me perdoe depois de tudo que eu fiz, como você também acha que perdeu elas? Olhe, a coisa mais errada dessa história é você ter quebrado as regras do seu trabalho e ter se envolvido com uma paciente. E você se importou? De verdade, você se importou de perder o seu trabalho?

- Não...

- E quando elas te pediram para ficar, você não ficou para não perder o seu trabalho ou para não perder a coragem de tentar cuidar um pouco da sua própria mente?

- Não perder a coragem.

- Então pare de se culpar e de achar que acabou. Se eu fiz coisas realmente ruins e você ainda acredita em mim...

- Eu também fiz coisas ruins.

- Em crises onde você não era você mesma. Você não fez coisas ruins, foi o TEI.

- Não foi o TEI que decidiu que eu largaria tudo e viria.

- Não foi uma decisão ruim. E eu não vou me arrepender por ter te dito que você deveria agarrar essa oportunidade e ir.

- Talvez tenha sido um bom conselho.

- Claro que foi. Veja o lado bom: você está longe do Arthur.

- Foi por causa dele que você me deu esse conselho?

- Também...

- Mar?

- Não foi só por causa disso, mas foi um grande motivo. Eu senti como se... seria culpa minha se eu não tentasse te convencer a ir e então ele te machucasse.

- Você nunca seria a culpada, não precisa se sentir assim.

- Eu sou muito boa em me sentir culpada, acho que você sabe como é.

- Sim, eu sei...

- Eu acho justo que você diga se tem alguma novidade por aí.

- Na verdade não...

- Sua voz soou estranha, o que você está escondendo, doutora?

- Ah...

- Amanda!

- Eu já falei sobre a Clara, certo?

- Uhum, sua colega de quarto que parece maravilhosa.

- Sim, sim. Digamos que nós bebemos um tanto ontem.

- Quanto?

- O suficiente.

- O suficiente para vocês transarem?

- Você é muito direta, Marisa.

- Eu sei, baby. Transaram ou não?

- Sim.

- Eu tenho a impressão de que foi ela que começou.

- Por que?

- Porque você é muito fofa para atacar alguém e começar o sexo.

- Olhe aqui...

- Não preciso saber quantas vezes você começou. Mas dessa vez não foi você.

- Está bem, não fui eu.

- E como o clima entre vocês ficou?

- Um pouco estranho, mas nada demais. As coisas se ajeitam depois.

- Você está tentando seguir em frente?

- Acho que é isso que as pessoas fazem, não?

- Sim, é isso que as pessoas fazem.

 

Terça-feira, 29 de novembro de 2016

 

- Como vai a vida por aí? - Amanda perguntou assim que atendeu a chamada.

- Não muito bem.

- Você contou para ela?

- Contei, ela terminou comigo.

- Você já sabia que ela provavelmente terminaria contigo.

- Ela foi embora.

- Claro que foi.

- E eu acho que ela não vai voltar.

- Isso você não sabe.

- Você não voltou para Simone depois de terminarem.

- Como se ela fosse deixar. E ela que terminou, ela que deveria voltar.

- Na maior parte das vezes em que vocês brigaram, mesmo que você estivesse certa, você que voltou.

- Ela é orgulhosa demais. E você que disse que seria melhor eu vir.

- Não estou dizendo para você voltar. Só estou dizendo que se você não voltou, porque a Ana voltaria?

- Porque você já traiu ela uma vez e ela voltou, você já bateu nela e ela voltou. E eu...

- Você disse que ela deveria ficar longe um tempo e ela voltou em menos de uma semana.

- Então! Se ela te perdoar, eu juro que arranco a sua pele se você machucar ela de novo.

- Eu sei... Você perdoaria?

- Meu maior defeito é dar todas as chances.

- Provavelmente essa é a sua maior virtude, não acha?

- Talvez.

- Por isso você fala comigo?

- Foi você que se afastou, foi você que sumiu. E você apareceu, por que eu não falaria contigo?

- Por ter magoado a Julia?

- Você magoou ela por não contar o que aconteceu e ter se afastado.

- Eu não...

- Você não teve coragem, eu sei. Você não é a primeira pessoa que conheço com esse tipo de trauma, a diferença é que você não precisa me pagar para que eu tente te ajudar.

- E funciona? Quando você tenta ajudar?

- Na maior parte das vezes.

- E nas outras vezes?

- Nessas vezes só a terapia não funciona.

- Remédios...

- Às vezes eles ajudam - Amanda começou a puxar os pelos do tapete - Você deveria tentar, sabia? Um terapia de verdade.

- Eu já converso com você.

- Você conversa comigo. Você fala, eu falo, você tenta me ajudar, eu tento te ajudar. É diferente. Quer dizer, você não conversa comigo como se eu fosse sua psicóloga, certo?

- O que? Não! Você é minha amiga, pelo menos eu considero isso. Posso?

- Claro. Você realmente deveria tentar uma terapia.

- Você já fez isso? Uma terapia?

- Algumas vezes, quando eu tentava remédio depois de remédio.

- E você aprendeu a controlar.

- Sim, a última vez que tentei algum remédio, eu quebrei o braço.

- Você quebrou o braço?

- Eu não conseguia comer porque ficar enjoada demais, então eu acabei desmaiando e rolando na escada. Foram uns quarenta dias sem o meu braço direito, nada agradável. Então desistimos.

- E é muito difícil controlar?

- Eu não sei se eu controlo, eu tenho medo. Eu sei que é destrutivo, então tento não deixar sair. Às vezes não dá muito certo e alguém se machuca.

- Normalmente você consegue segurar.

- Normalmente. Mas quando não consigo, alguém sai sangrando e costuma ser alguém que eu me importo.

- Ou você mesma.

- É menos pior quando sou eu.

- Fale isso para os espelhos que você já quebrou. Tanta coisa pra socar, tipo uma almofada ou um travesseiro, por que o espelho?

- Eu não sei - olhou para a própria mão, mexeu os dedos, podia ver as pequenas cicatrizes - Minha mão deve ter uma atração fatal para coisas cortantes.

- Um dia você ainda vai se machucar muito feio por causa disso.

- Eu já quebrei o polegar socando uma parede.

- Deixou ele entre os dedos?

- Uhum.

- Isso é estúpido.

- Eu tinha quinze anos.

- Continua sendo estúpido.

- Obrigada, gênio.

- Sorry-not-sorry... Sabia que eu sinto sua falta?

- Acho que só você sente.

- Claro que não, mesmo que a Julia e a Simone sejam duas babaquinhas, elas definitivamente sentem sua falta.

- Obrigada por isso.

- Você não precisa me agradecer.

 

Quinta-feira, 01 de dezembro de 2016

 

- Estou bem, claro - passaram alguns segundos de silêncio.

- Sua voz não parece a de alguém que está bem, aconteceu algo?

- Não, está tudo bem.

- Marisa.

- Bem, é que algumas coisas não estão indo perfeitamente do jeito que deveria.

- Por que você e a Ana terminaram?

- Não exatamente.... É um certo problema com a Simone. A Julia não queria te contar...

- Pare de enrolar e fale de uma vez.

- É que...

- Marisa.

- A Simone, hm... ela meio que...

- Meio que?

- Ela tentou se matar.

- Ela o que? Quando? Como?

- Terça... Na verdade eu não tenho certeza que ela realmente tentou, acho que ela só cortou fundo demais.

- E como ela está?

- Eu não sei, eles ligaram para a mãe dela e aquela mulher aparentemente proibiu qualquer tipo de visita - ela só ouviu Amanda suspirar - Amanda?

- Hm.

- O que você vai fazer?

- Eu não sei, eu não faço ideia - Amanda respirou fundo - Eu deveria voltar? Mesmo que a Julia vá me odiar por isso e que a Simone provavelmente não vá falar comigo.

 

- Acredito que você deveria fazer o que o seu coração manda... okay, foi uma frase clichê, mas é verdade. Só faça, Amanda, só faça.

13. Egoístas por Senhorita Charlie

Quinta-feira, 01 de dezembro de 2016

Amanda estava deitada com o rosto enfiado no sofá, os braços dormentes debaixo do corpo, tinha quase certeza de que ficariam pequenas marcas de sangue no sofá. Como era natural, ela havia se culpado a ponto de ficar com raiva o suficiente para uma crise. Poderia ter quebrado o espelho do banheiro, mas as paredes foram o suficiente para os seus socos que arrancavam sangue se suas próprias mãos.

Ela se sentia entorpecida o suficiente para os machucados não doerem. Se perguntava o quanto de culpa ela tinha no que aconteceu. Sentiu o sofá afundar, também sentiu o cheiro do sabonete que ela usava. A mulher ainda estava com os cabelos e a pele levemente úmida quando se sentou no sofá.

- Você quer voltar, não é?

- Eu não posso, você sabe que eu não posso voltar.

- Você não pode ou você tem medo de voltar?

Amanda suspirou e enfiou mais o rosto na almofada. Sua cabeça latejava e a luz incomodava, mas ela não queria se levantar e ir apagar para mergulhar em uma escuridão confortável. Ela tinha medo de voltar, medo do quanto Julia a odiaria e de como Simone reagiria (e provavelmente a rejeitaria). Ela tinha quase certeza de que a única pessoa que ficaria feliz com sua volta seria Mar.

Ela pensou que o clima entre elas ficaria um tanto estranho, mas não ficou, o que era muito bom. E era bom porque Clara parecia se importar, parecia querer ajudar pelo altruísmo. O que fazia elas ainda mais parecidas. A psicóloga podia sentir o calor da sua mão em suas costas, era um toque confortante e delicado.

- Eu tenho a impressão de que você sente medo todo o tempo, eu só não sei do que você tem tanto medo.

- É complicado.

- Meu trabalho é lidar com pessoas complicadas.

- Eu sei...

Amanda respirou fundo, ela levantou e se sentou. Clara segurou seu pulso direito e puxou para si, Amanda não mexeu os dedos porque ardiam. Clara levantou e puxou a psicóloga em direção ao banheiro, ela abriu a torneira e, com toda delicadeza possível, puxou as mãos para baixo da água e limpou o sangue.

- TEI - Amanda falou baixo - É o que há de errado comigo.

- Não tem nada de errado com isso, é só parte de quem você é.

- Mas machuca as pessoas.

- As pessoas naturalmente machucam as outras. Agora vem aqui, vou fazer algo para você comer. E vou comprar as suas passagens.

- Mas...

- Caladinha, você tem que resolver a sua vida por lá, não acha? Eu resolvo com o chefe, você resolve com a sua família.

 

Sexta-feira, 02 de dezembro de 2016

Mar estava com os braços cruzados e encostada no poste, já era um pouco mais de nove da noite. Era uma noite quente, afinal, estavam quase no verão. Ela sabia o horário de saída de Patrícia e exatamente por isso ela estava ali. Ela sentia uma raiva quase irracional da mulher. Ela era a maldita mãe de Simone, por que ela deixou isso acontecer? Ou pior, por que ela não se importava que sua filha estava no hospital por rasgar a própria pele? Mar havia reparado que o rosto de Simone estava machucado.

Mar tinha um péssimo histórico familiar e isso fazia ela odiar Patrícia com tudo que ela podia.

Patrícia se enfiou no carro, mas ela sequer teve tempo de enfiar a chave no lugar, afinal, Mar agarrou a parte de trás do seu blazer e a puxou para fora. Mar era muito longe de ser delicada, o som do baque das costas de Patrícia contra o carro faria qualquer um se encolher de nervoso.

- Você deveria ao menos fingir que se importa

- E você não deveria tentar me dizer como eu deveria agir com a minha filha.

- Que por acaso você esqueceu da existência por dezesseis anos, muito conveniente.

- O que eu fiz e deixei de fazer não é da sua conta.

- É sua filha, sua filha duma puta. É a porra da sua filha.

- É a minha filha, não a sua.

- Mas pelo menos eu me importo!

- Como se o que ela fez fosse algo importante, é só palhaçada, ela só quer chamar atenção!

O punho cerrado de Mar acertou seu maxilar com força, Mar sentiu um certo prazer quando a dor leve atingiu seus dedos. Então socou outra e outra vez, Patrícia cuspiu sangue. Mar definitivamente gostou do medo nos olhos escuros da mulher, gostou de como isso machucava a mulher. Apesar de não gostar de como ela tinha essa tendência gigantesca a ser violenta, mas parecia menos ruim quando a outra pessoa realmente merecia de uma sacudida.

- Se você tentar manter a Simone de mim, ah, é melhor você rezar para todos os deuses do mundo para que eu não mate você.

 

Sábado, 03 de dezembro de 2016

Mar parecia um cachorrinho feliz - dava para imaginar ela com um rabo se balançando animadamente, quando viu Amanda aparecer. O voo atrasou, isso deixou ela mais ansiosa. E, naturalmente, mais aliviada quando finalmente pode passar os braços ao redor da mulher e levantá-la em um abraço empolgado. Amanda grunhiu de dor pela força do abraço, mas não era ruim, ela gostou de ter alguém tão feliz com a sua volta.

Já era quase onze da noite quando finalmente entraram no apartamento. Julia - como era previsível - não apareceu e sequer deu algum sinal de vida. Na verdade, Mar não conseguia falar com ela desde o dia em que foram para a casa de Simone. Mas Mar não queria pensar sobre aquilo. Doía de um jeito infernal. Amanda deixou as malas em um canto da sala, reparou como Mar parecia nervosa, sabia que uma ou duas doses de alguma bebida poderiam acalmar ela, gesticulou em direção ao lugar onde deixava algumas garrafas.

- Fique a vontade, Marisa.

Mar abriu a garrafa e encheu o copo com o rum, ela não sabia muito bem porque Amanda tinha algumas garrafas de bebida, já que sabia que a psicóloga não era o tipo de pessoa que bebia tanto assim. Mas é claro que ela não reclamaria disso, sentou na poltrona e bebeu um gole. Bebidas alcoólicas nunca tem o melhor gosto do mundo, mas aquela tinha um sabor muito melhor do que Mar estava acostumada

- Sabe o que é pior? - Mar murmurou.

- Não...

- Eu deveria ter notado que ela estava mentindo.

- Não é culpa sua - Amanda levantou - Vou fazer pipoca e vamos assistir um filme, podemos conversar sobre isso depois, okay?

Mar assentiu, ela não queria falar sobre isso. Ela não queria conversar sobre como era culpa dela. As pontas dos seus dedos ainda estavam levemente sensíveis pela força com que ela arrastou elas pela escova dura, tanta força que havia conseguido arrancar sangue. Se fechasse os olhos e deixasse sua mente viajar, ela praticamente sentia o sangue quente nas mãos. Ela havia amarrado as roupas em uma sacola, enchido de álcool e colocado fogo no beco perto de onde morava.

Amanda voltou com um pote enorme cheio de pipoca quentinha e com cheiro de manteiga, uma garrafa de dois litros de Fanta Uva debaixo do braço e um par de copos. A psicóloga sentou ao seu lado e colocou um filme para assistirem, Mar olhou para ela por alguns minutos antes de falar baixo.

- Eu nunca tive isso, sabia?

- "Netflix and chill"?

- É... é que você é tão legal comigo. É quase como... é quase como se eu fosse especial.

- Eu vou mandar você calar a boca agora - Amanda falou com uma mão cheia de pipoca a meio caminho da sua boca. - Não é porque eu tento ser gentil com todo mundo que significa que você não é especial. Claro que você é especial.

- Você perdoou até a sua tia.

- Eu não deveria?

- Eu não falei isso... você dá uma nova chance para todo mundo. Quem mais faz isso?

- A Ana te deu uma chance.

- E eu machuquei ela.

- Ela não te machucou também? Quando ela foi pra cama com a Simone?

- Eu só queria que a primeira vez dela fosse especial.

- Não acha que a virgindade é algo muito superestimado?

- Falou a mulher que era virgem até os 27 anos.

- Eu não tive tempo. Ou oportunidade.

- Você namorou um cara por meses. E vocês se gostaram por cinco anos antes disso.

- Hm - Amanda corou e enfiou um bocado de pipocas na boca.

- Amanda?

- Hm?

- Você está corada.

- Uhum.

- Você, hm, nunca quis transar com ele? Ou com qualquer um?

- Vamos discutir a minha vida sexual tardia?

- Não é tardia - Amanda ergueu as sobrancelhas - O que? Não é tarde se foi quando você quis.

- É só que...

- É só que o que? A psicologia diz que tem idade para isso.

- Não, não exatamente.

- Então? Ninguém é obrigado a perder a virgindade dentro da "idade aceitável" só porque e o que costuma acontecer. Eu duvido que você tenha contado para a Simone que você era virgem.

- Claro que eu não contei.

- Por que?

- Provavelmente ela riria da minha cara.

- Não.

- Você não riria?

- Não, eu acharia adorável. E impressionante. Eu tenho vinte anos e as vezes penso demais sobre sexo, como você chegou até quase os trinta sem nunca fazer?

- Eu disse: não tive tempo ou oportunidade.

- Eu acho que você não teve vontade. Vamos, não é mais fácil admitir isso? Não é como se essa porra fosse errada.

- Está bem, está bem, eu nunca tive vontade.

- E você precisa ter sentimentos para isso?

- Acho que sim.

Mar viu Amanda enfiar mais pipoca na boca. Amanda ficava adorável com as bochechas estufadas como um esquilo enquanto ela tentava colocar mais e mais comida para dentro. Mar encheu o copo com mais Fanta Uva - afinal, ela não queria ficar bêbada e decidiu acompanhar a psicóloga no refrigerante. Ela precisa de sentimentos para sentir algum tesão, isso é muito adorável. Amanda Puppy Borges. Oh... Mar não conseguiu segurar e cuspiu todo o refrigerante quando a ideia de que Amanda precisava de sentimentos, de sentimentos românticos, para transar com alguém realmente penetrou na sua mente.

Julia provavelmente a esquartejaria com todo aquele líquido roxo no tapete branco.

- Oh, puta merda - Amanda grunhiu enquanto engolia as pipocas - O que foi?

- Você precisa de sentimentos...

- Eu preciso de um pano para limpar essa sujeira, isso sim - Amanda levantou, Mar agarrou seu pulso - Ei!

- Você ainda não entendeu?

- Entendi o que?

- Quem foi a última pessoa com quem você transou? - Amanda abriu e fechou a boca algumas vezes antes de grunhir.

- Eu estava bêbada.

- Aham, só bêbada? Quantas vezes você já esteve bêbada e sozinha com Arthur?

- Algumas vezes.... eu não tenho sentimentos pela Clara, ela só é legal e... e é isso. Ela é legal.

- Amanda?

- Nope. Sem sentimentos. Eu a-

- Você ama a Simone, yeah, eu sei. Claro que você ama a Simone, eu não estou duvidando disso. Sabia que você pode amar alguém e se apaixonar por outra pessoa? - Amanda a olhou com as sobrancelhas erguidas, ela não precisava falar algo para que Mar soubesse o que ela estava pensando - Não, eu não estou apaixonada pela sua irmã... eu acho, pelo menos.

- Como você pode não saber se está ou não apaixonada?

- Você não é o maior exemplo de alguém que sabe o que realmente sente.

Amanda grunhiu e se jogou no sofá, ela pegou o pote de pipoca e voltou a comer. Mar suspirou e se jogou no sofá ao seu lado.

Mar definitivamente não estava acostumada a isso, não daquele jeito. Com Ana, elas acabavam se beijando e deixando o filme de lado. Com Simone, a garota acabava dormindo e Mar levava ela para a cama. Com Julia, antes de quebrar o coração da garota, acabavam transando no sofá. Com Amanda era diferente, era simplesmente confortável, o filme mal tinha começado quando Amanda percebeu que Mar tinha um pequeno problema em deixar as pernas confortáveis e deixou a garota colocá-las sobre suas coxas.

Ela não estava realmente sóbria e estava cansada, não estavam nem na metade do filme quando Mar deitou a cabeça no ombro de Amanda. No último quarto do filme, Mar estava cochilando com o rosto enfiado no pescoço da psicóloga e as mãos agarrando seu braço e as pernas encolhidas.

- Marisa - Amanda murmurou e colocou a mão no seu ombro - Ei, acorde o suficiente para eu te levar pro quarto.

Mar gemeu e enfiou mais o rosto em Amanda, uma mão continuou agarrando seu braço e ela acabou abraçando os ombros da mulher. Amanda riu baixinho, era quase uma criança adormecida. A psicóloga livrou o braço do aperto, passou pelas costas da garota e a puxou para mais perto. Enfiou o outro braço por baixo dos seus joelhos e se levantou. Precisou de alguns segundos para se firmar com o peso. Amanda já havia carregado Julia e Simone várias vezes, mas as duas garotas eram mais leves que ela, enquanto Mar era um pouco mais pesadas (músculos, uh? Amanda não sabia de onde vinha tudo aquilo) por isso Amanda gemeu de dor. Porém, ela estava determinada a não deixar Mar cair.

Andou o mais rápido que podia e deixou a garota adormecida na sua cama. Mar grunhiu e enfiou o rosto no travesseiro. A garota estava tão cansada, precisava tanto daquele sono, que não deu sinal de que acordaria quando Amanda tirou os tênis, as meias, o cinto e a calça (isso preocupou um pouco a mulher, como alguém cai tão profundamente no sono que sequer nota suas calças sendo tiradas?). A psicóloga arrumou o cobertor em cima dela e beijou sua têmpora.

Ela não esqueceria de todo o ódio que viu na garota quando ela perdeu o controle, o sangue nas suas mãos e nem o que ela teria feito com Ana se Amanda não tivesse aparecido. Não se esqueceria de que só 'venceu' a briga porque ela passou uma grande parte da sua vida escolar tendo que se defender das pessoas mais fortes que só queriam machucar. Porém, Amanda também não esqueceria de como entre a raiva de Julia e Simone, Mar era única que parecia se importar com ela. Que Mar havia pedido para ela ir embora porque sabia o quanto Arthur a machucaria, que Mar ligava praticamente todos os dias e queria saber como tudo estava indo. Nem de como a garota pareceu feliz e aliviada quando Amanda apareceu, da força com que ela a abraçou.

Por isso, Amanda não tentou escapar quando Mar - mais dormindo do que acordada, ela sequer mencionou algo sobre estar sem calça - murmurou pedindo para ela ficar. Por isso Amanda não reclamou ou hesitou quando Mar pediu para ela cantar algo até a garota. Por isso Amanda somente a abraçou quando Mar envolveu sua cintura e enfiou o rosto no seu peito depois que já havia dormido.

 

Terça-feira, 06 de dezembro de 2016

Mar acordou devagar e sentiu o cheiro agradável de alfazema, ela podia sentir as mãos quentes em suas costas. Suas mãos agarravam a camisa de quem estava abraçando ela. O cheiro de alfazema, o calor confortável, fez ela grunhir e acabar se empurrando um pouco mais contra a mulher. Depois de uns cinco minutos acordada, ela ouviu Amanda murmurar.

- A Bela Adormecida acordou...

- Como você notou?

- A sua respiração.

- Oh, eu deveria saber disso - riu baixo, Julia havia lhe contado que Amanda sempre sabia quando as pessoas estavam acordadas na sua cama - Eu dormi muito?

- Quase oito horas. Você dorme mesmo, hein? Nem notou quando eu tirei a sua calça.

- Normalmente sou eu quem tiro a roupa das pessoas.

- Você tem uma mente muito suja.

- É, eu sei - Mar respirou fundo, puxando o máximo de cheiro possível ela murmurou - Você é cheirosa.

- As pessoas dizem isso.

- Porque é verdade...

- Você está bem?

- Sim, eu só... eu não costumo ficar assim.

- Na mesma cama que alguém mesmo sem transar com esse alguém?

- Não... confortável com alguém.

- Você não se sente confortável com a Ana?

- Sinto... é diferente.

- O que eu tenho de diferente.

- É... é como se você estivesse... tentando, como se você estivesse tentando cuidar de mim. As pessoas não costumam querer cuidar de mim. Acho que porque eu tento ser só a bad girl.

- Eu estou cuidando de você, não? Quando foi a última vez que você conseguiu dormir assim?

- Acho que antes de terminar com a Ana... eu não consigo ficar muito tempo dormindo sem ter algum pesadelo envolvendo Simone e sangue.

- E agora você está se sentindo melhor? Depois de dormir durante essas horas?

- Uhum.

- Isso é bom - Amanda beijou sua têmpora - Agora levante, estou com fome, uh?

- Esfomeada.

***

Amanda se perguntou se Simone se sentiu nervosa daquele jeito quando precisou visitar ela depois do acidente de carro.

A psicóloga conferiu mais de uma vez se o papel estava bem colado na sua blusa. Mar parou atrás dela e passou um braço ao redor dos seus ombros, ela ofereceu um pouco do salgadinho com suposto sabor de cebola, ela negou com a cabeça. Mar ergueu as sobrancelhas, Amanda nunca negava comida, mas como ela estava nervosa, fazia sentido. Mar virou o pacotinho e encheu a boca com salgadinhos.

Quando elas finalmente puderam subir, Amanda pediu para Mar entrar no quarto antes. A garota ficou lá dentro por nem cinco, ela queria dar para Amanda o máximo de tempo possível. Amanda entrou no quarto com os braços cruzados, isso impedia que Simone visse suas mãos tremendo levemente.

Ela definitivamente odiava aquela visão. Simone tão magra e pálida daquele jeito, claramente doente. Os curativos envolvendo ambos os braços, um acesso no seu antebraço com soro entrando de gota a gota dentro do seu sistema. O monitor cardíaco emitia os bipes lentamente.

- Ei - Amanda falou baixo, apertou mais os braços e Simone conseguiu ver seus músculos mais claramente - Eu... eu senti a sua falta...

- Acho que isso é bom - o tom de voz de Simone foi mais frio do que Amanda esperava, doeu mais do que ela esperava. Os olhos verdes estavam frios também, era como uma espécie de estaca no seu peito.

- Provavelmente - mudou o peso entre os pés - É... eu esperava que você fosse um pouco menos fria.

- Eu acho que você já deveria saber disso, Amanda. Eu não sou mais a garota que você ama, eu sou o que sobrou dela.

- Eu sei - Amanda passou a língua entre os lábios enquanto encarava os próprios sapatos - Eu não vim por quem você era, eu vim por quem você se tornou.

- Não precisava vir, eu não pedi. Eu não quero.

- Você quer quebrar o meu coração de novo? Vá em frente, eu te dou o passe livre para me despedaçar.

- Eu não quero te quebrar, só quero te dizer que você não precisa ficar.

- Se não quer que eu fique, eu não fico.

Amanda se inclinou e beijou sua bochecha. Simone se lembrou de como ficou corada na primeira vez que a psicóloga fez isso. Na verdade, Simone se lembrava perfeitamente da sensação estranha no estomago - das tais borboletas que as pessoas tanto falam - de quando começou a inegavelmente se apaixonar pela mulher. Ela sentiu algo parecido quando os lábios tocaram a sua bochecha, mas pareceu ser algo mais doloroso.

- Eu não estou desistindo de você, eu estou desistindo de mim - Simone murmurou - E eu não quero que você veja isso.

- E eu não quero que você desista - Amanda passou os dedos pelo curativo até tocar as costas da sua mão - Eu quero que você me deixe te ajudar. Eu quero que pare de ser egoísta.

- Eu não sou egoísta - Amanda inclinou a cabeça para o lado.

- Desde que seu pai se foi, você tem agido como se a sua dor fosse a única que importa.

­- Eu...

- Você não tentou ver o meu lado do problema, okay. Você não sentiu a minha falta, okay. Mas, no mínimo, você tem que fingir que se importa com alguém que gosta de você. A Marisa se importa com você, por acaso você se importa com ela?

- Claro que eu me importo. E eu me importo com você.

- Não, você não se importa comigo - Amanda tirou as mãos do braço da garota e segurou o lençol, seus dedos agarrando o pano com força, ela fechou os olhos e abaixou a cabeça - É claro que você não se importa.

- Amanda...

A psicóloga se curvou para frente e enfiou o rosto na barriga da garota, ela sentia que deveria ir embora. Porém, ela não conseguiu resistir a enfiar o rosto ali e sentir o calor de Simone. Ela grunhiu baixo, o som era dolorido e Simone engoliu seco com isso.

Amanda enfiou o rosto com mais força quando ela não conseguiu mais segurar as lágrimas. Simone colocou a mão em suas costas e acariciou lentamente, ela sentiu o calor sob os seus dedos e como seus músculos eram macios e firmes.

- Não me faça ir embora outra vez...

 

- Eu não vou, Amanda... eu não vou...

14. A Grande Quebra por Senhorita Charlie

Sexta-feira, 09 de dezembro de 2016

 

O sangue sujou suas mãos, sua camisa, todos os lugares enquanto ela sacudia a garota desesperadamente. Não, não, por favor, não. Era quente, vermelho, e ela odiava. Ela odiava a sensação com todas as forças. O líquido rubro sujou a pele pálida quando ela usou dois dedos para procurar a pulsação no pescoço dela. Grunhiu quando não encontrou a pulsação, a garota não respirava. Você não pode me abandonar!

Sua garganta queimou com o grito.

Mar se sentou tão rápido que se sentiu tonta. A sala era escura, o sofá era confortável, ela ainda não tinha percebido onde estava e nem que era somente um pesadelo quando sentiu os braços ao redor dos seus ombros puxando ela para um abraço. O cheiro de alfazema encheu o seu nariz, era familiar. Suas mãos estavam tremendo – o seu corpo estava tremendo – quando ela agarrou Amanda. Ouviu a voz baixinho no seu ouvido.

— Ei, calma, foi só um sonho ruim — sentiu que a psicóloga começou a acariciar suas costas com uma das mãos — Está tudo bem.

Amanda continuou murmurando que tudo ficaria bem, que era só um sonho ruim, sentiu os braços se apertando ao seu redor e as pontas dos dedos machucando um pouco sua pele pela força da garota.

— Vem aqui — Amanda levantou e puxou ela junto — Dizem que dançar um pouco com alguém que se importa com você pode ajudar a se sentir melhor.

— Dizem? — Ela ergueu as sobrancelhas.

— Nope, mas eu tenho essa impressão.

— E que música vamos dançar?

— Hm...

— Você pode cantar alguma?

— Se você quiser. Vai te fazer se sentir melhor?

Mar assentiu, claro que aquilo faria ela se sentir melhor. Ela sentia que aquela amizade era simplesmente a melhor coisa que aconteceu na sua vida, ela não sabia que podia se sentir assim. Se sentir protegida daquele jeito. Amanda puxou seus pulsos para que Mar ficasse com os braços ao redor do seu pescoço, a psicóloga passou os braços pela sua cintura e começou a cantar baixinho:

Eu sei que lá no fundo

Há tanta beleza no mundo

Eu só queria enxergar

As tardes de domingo

O dia me sorrindo

Eu só queria enxergar

Qualquer coisa para domar

O peito em fogo

Algo pra justificar

Uma vida morna

Amanda acariciou suas costas lentamente, ela sabia que isso costumava funcionar. A sala estava escura, não tão quente quanto poderia estar. Então ela percebeu que poderia estapear Julia, como a garota podia ter uma irmã como a Amanda e ser tão filha da puta? No fundo, bem no fundo, ela sabia que se Julia não tivesse aparecido, Mar não teria aparecido na casa de Simone e a garota estaria morta naquele momento.

O que mais atormentava Mar era saber que ela poderia ter chego tarde demais, mais alguns minutos e ela nunca se perdoaria.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Repetiu e repetiu, tantas vezes quanto estava na letra. Mar puxou ela com mais força, comais vontade, escondeu o rosto no pescoço de Amanda. O cheiro era familiar, o calor e o corpo macio também era familiar. E Mar gostava de ter algo familiar, algo importante para se segurar. Ela não conseguia não se sentir orgulhosa do quanto Amanda era forte, não conseguia deixar de ficar feliz, mesmo que a situação não estivesse boa, por Simone e Amanda estarem um pouco mais próximas.

Não esqueço aquela esquina

A graça da menina

Eu só queria enxergar

Por isso eu me entrego

À um imediatismo sego

Pronta para o mundo acabar

Você acredita no depois?

Prefiro o agora

Se no fim formos só nos dois

Que seja lá fora

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Diminuíram lentamente até Amanda sentar no sofá e puxar Mar, que sentou ao seu lado e se encolheu contra ela. Não era a posição mais confortável do mundo, mas era melhor do que deitar sozinha no sofá, com medo de cair em outro pesadelo. Sentiu Amanda acariciar o seu cabelo, os dedos passando delicadamente pelos fios vermelhos, enrolando uma ou outra mecha com o dedo indicador. Amanda continuou até que Mar respirasse mais devagar, relaxasse e dormisse no seu colo. Ela não se levantou, não queria se afastar. Considerando o quanto ela sabia que Mar nunca teve a vida mais fácil do mundo, Amanda não tinha coragem de tentar incomodar os sonhos tranquilo.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você.

 

Segunda-feira, 11 de dezembro de 2016

Simone precisou argumentar por 45 minutos para convencer Amanda que não tinha problema algum em ela comer dentro do quarto, mesmo na hora do almoço, quando Simone tinha que comer a comida sem gosto do hospital e a psicóloga tinha alguma comida teimosa. Mas, no final, a teimosia adolescente ganhou e Amanda estava acompanhando ela. Enquanto Simone estava terminando de comer lentamente aquela comida pastosa, Amanda estava raspando o fundo da bandeja de lasanha.

A caixa dizia "serve à duas pessoas" e ainda estava absolutamente quente quando Amanda estava no final da porção. Ela já havia bebido uma garrafa de 600ml de coca e estava na metade de uma (do mesmo tamanho) de Fanta Laranja. E Simone não sabia, mas ela havia bebido um copo cheio de refresco de laranja com acerola e uma barrinha de KitKat enquanto esperava os 13 minutos para a lasanha esquentar.

Amanda estava na cadeira de plástico não muito confortável, a garrafa entre as coxas (o que molhava um pouco o jeans preto que ela estava usando), a bandeja equilibrada sobre os dedos de um jeito que fazia Simone se perguntar como isso não caía. Em circunstâncias normal, Simone estaria babando pelo modo como o jeans era apertando e reclamaria por Amanda fechar a camisa xadrez vermelha até quase o pescoço (camisa essa que Simone tinha 90% de certeza de que era de Mar – e ela estava certa – mas não sabia porque Amanda estava com ela).

— O que foi? — Amanda perguntou antes de enfiar o último bocado de lasanha na boca, Simone estava sorrindo levemente para ela.

— Nada, só... Você é uma esfomeada.

— Eu gosto de comer — respondeu depois de engolir.

— Eu sei... Às vezes eu tinha a impressão de que... — Simone começou a corar. Amanda achava adorável como Simone corava às vezes, mas a visão dela corando enquanto estava frágil era ainda melhor, quase como se estivesse tudo bem.

— Impressão de que?

— Sabe... Que você gostava mais de comer do que de ficar comigo.

— Mas eu amo ficar contigo.

— Não... Estou dizendo: mais de comer comida do que de me comer — foi a vez de Amanda corar, o vermelho em um tom que parecia que todo o seu sangue se concentrou na parte visível pelo decote, pelo pescoço e pelo rosto até a testa.

— M-mais eu g-gosto. Dos dois. Eu gosto dos d-dois.

— Você acabou de gaguejar?

— Uhum. Eu... Eu preciso jogar isso fora.

Amanda saiu do quarto rapidamente, Simone sabia que Amanda não era o tipo que gostava de falar de sexo. A mulher costumava ficar corada, fugir do assunto, Simone nunca consegui ter uma daquelas conversas que podiam deixar ela molhada. Tinha certeza que ela só já viu alguns vídeos pornôs porque Julia havia insistido nas "aulas", afinal, ela não podia ensinar a irmã na prática, tentava na teoria e mostrando algum conteúdo "didático". Amanda havia contado, vermelha como um pimentão, que não ficava nem um pouco excitada com aquilo e sim tão embaraçada e enfiava o rosto onde podia: o colo de Julia, um travesseiro, o cobertor, as próprias mãos.

Mas não era sua vergonha em falar de sexo que fez Amanda fugir dali. Era simples: Mar estava certa, ela só tinha vontade depois de sentir algo. E algo forte. Mesmo depois de beijar Simone e perceber que estava apaixonada pela garota, ela demorou mais um tempo para sentir alguma vontade que suficiente para deixar ela excitada. Não que os beijos molhados de Simone e as mordidas em seu pescoço, o modo como ela ficava a psicóloga para perto, só não deixava ela pulando de tesão. Com vontade, mas não o suficiente para querer que as duas chegassem no "próximo nível". Foram meses e muitos "gelos" dados para que Amanda finalmente chegasse no nível em que ela sentia um tanto de calor apenas em pensar na garota.

Isso a aterrorizava.

Não porque naquele momento ela não sentia o fogo, se Simone beijasse ela daquele jeito, o jeito favorito da garota: os dedos enfiados no cabelo castanho e a outra mão agarrando seu ombro ou sua cintura. Ela conseguiria empurrar com tanta facilidade quanto antes, sem frustração. Ela entendia o porquê, Simone estava frágil demais para Amanda pensar em se tocarem. O que a aterrorizava era saber que precisava sentir algo forte. Algo que a bebida não dava a ela.

Amanda foi para o banheiro, molhou o rosto e se escondeu em um cubículo do banheiro sentada sobre a tampa abaixada do vaso. Apoiou os cotovelos nas coxas e escondeu o rosto nas mãos.

— Merda, merda, merda...

Amanda nunca se apaixonou por Simone.

Veio devagar, crescendo como uma árvore, e a semente foi plantada quando a garota aceitou o "eu, você é bonecos de ação". Foi um "slowburn", lento, se aquecendo devagar até que Amanda murmurasse "eu te amo" tão baixo que a garota em seus braços nunca ouvisse. Ela demorou semanas para beijar Simone, demorou meses para que tivessem a primeira vez e quebrou todas as vezes em que uma machucou a outra, mesmo quando era uma mágoa quase infantil. Simone se apaixonou como a explosão de uma bomba, Amanda começou a amar como uma vela queimando lentamente.

E ela conhecia a explosão: foi o que ela sentiu com Clara.

Amanda grunhiu, ela não queria pensar naquilo. Pelo menos não enquanto Simone estava longe do seu estado normal (mesmo que ela parecesse bem melhor do que quando Amanda voltou, afinal, argumentar daquele jeito lembrava muito a garota que ela conheceu). Ela respirou fundo, tão fundo que sentiu seu pulmão arder pela quantidade de ar, e soltou em uma velocidade torturantemente lenta. Levantou e se espreguiçou com vontade. Ela jogou mais água fria no rosto, passando os dedos pelo cabelo, o soltando um pouco, depois prendeu novamente. Ela voltou para o quarto e se jogou na cadeira, a cabeça para trás e os olhos fechados.

— Você vai sempre tentar fugir quando eu falo de sexo?

—  Eu não me sinto muito confortável falando sobre sexo.

— Por que?

— Eu só não me sinto confortável, você já deveria saber disso.

— Eu sei...

— E isso te incomoda muito? — Amanda olhou para ela com as sobrancelhas erguidas.

— Só é... só é estranho.

— E você só decidiu me dizer isso agora? — Amanda revirou os olhos — Nem todo mundo é tão ninfomaníaco quanto você.

— Eu não sou ninfomaníaca. Eu só precisei esperar meses para transar com você!

Amanda levantou: — Okay, então por que você me quer aqui? Se te incomoda tanto o fato de que não eu não sou tão sexual quanto você. Se você não sentiu minha falta, ou se importa comigo, então por que? Por que?

— Não é assim…

— Claro que é — ela grunhiu.

— Não, não é! — Simone se empurrou um pouco para trás para se sentar — Só é... só é complicado....

— Me diga porque é complicado.

— Porque... porque é um pouco complicado mostrar o quanto você se importa com alguém quando você mal se importa consigo mesma.

— E por que você não se importa.

— Eu acho que você pode imaginar — Amanda grunhiu — Você pode cantar?

Amanda assentiu, mas ela não conseguia pensar em nenhuma música que fosse feliz, suave ou delicada. Ela se curvou para frente, um braço apoiado na cama e o queixo apoiado nas costas da mão.

I miss crying over you

I miss lying ‘bout wanting someone new

Feeling less means hurting less

But it ain’t the same without pain

Amanda fez desenhos circulares pelas bandagens no braço da garota. Ela não gostava da sensação daquilo sob o seu dedo, não gostava de imaginar a pele ferida, as cicatrizes e muito menos como Mar encontrou a garota sangrando.

I want you to hurt me harder

I need you to hurt me harder

I want you to love me bad

Lead me on ‘till I go mad

Be the worst I ever had

I want you to hurt me harder

Simone engoliu seco, ela entendia a música. Não só por estar tão acostumada a ouvir músicas em inglês e entendia a letra. Mas sim porque ela conseguia entender como era uma música, hm... masoquista.

So fuck me on the bathroom floor

And I’ll pretend that I don’t love you no more

I’m too lucid and you’re too vague

I want you inside of me like a plague

Mesmo que não fosse

I want you to hurt me harder

I need you to hurt me harder

I want you to love me bad

Lead me on ‘till I go mad

Be the worst I ever had

I want you to hurt me harder

O refrão era incomodo. Simone sabia o quanto as músicas que Amanda escolhia costumavam refletir o que ela estava pensando, o que ela estava sentindo.

I’m in pursuit in the pursuit of self-inflicted misery

I need a sadist and you are the epitome

Strike me with your words, beat me with your lies

Hit me with your unlove, smile while I cry, cry

I need you to hurt me, baby

Amanda cantou os três últimos versos baixinho, rouca, quase dolorida demais.

— Eu preciso ir — ela murmurou depois de engolir seco.

— Amanda... — segurou sua manga e puxou..

— Eu não quero que você me machuque — murmurou, beijou sua testa — Mas eu não posso impedir se você me machucar.

Sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Mar nunca gostou das aulas de reposição, aulas durante o terceiro turno eram cansativas, entediantes e o pior: terminavam tarde. Ela não gostava de estar dentro do colégio as quase nove da noite. E o pior: ela estava apanhando.

Mar sabia que isso aconteceria no momento em que conseguiu agarrar a camisa de Henrique e puxar ele para trás. Ela não saberia dizer o que fez ela subir um lance de escadas, até o quinto andar, em vez de descer. Ela sabia que Ana provavelmente estaria lá, a garota sempre saia um pouco depois do professor para evitar se encontrar com Mar na saída. Então ela subiu para ‘conferir’, quase como um instinto – quase o mesmo que ela sentiu antes.

Ela odiava Henrique com todas as forças, naquele momento, ela definitivamente o mataria somente com as mãos. Ela desejava que Amanda tivesse feito isso no Baile de Primavera. Ela havia sentido quase aquilo quando voltou pelo livro meses antes, mas agora era diferente.

Ele estava tentando machucar Ana.

E ela era capaz de matar qualquer um que ousasse pensar em machucar a garota.

Ana havia feito o que ela pediu, corra, conseguiu dizer enquanto caia de joelhos, corra, por favor. Foi por pouco, muito pouco. Mar havia impedido que Henrique machucasse Simone. Mas dessa vez ele não estava sozinho. Estava com o garoto que aparentemente era o melhor amigo dele e um novato. Nenhum dos outros dois porque Henrique mandou que segurassem Mar.

Ela sentia as mãos fortes agarrando seu braço, ficaria marcado – caso ela saísse daquela situação. E ela não tinha muita esperança de que eles ficariam só com os socos os chutes, afinal, ela literalmente interrompeu a diversão pervertida dele. Soltem. Henrique mandou, ele sorria como se fosse a coisa mais divertida do dia. O gosto de sangue era enjoativo, a dor era sufocante, mas não era a primeira vez que ela sentia aquilo. Os chutes de Henrique eram fortes, ela sabia que definitivamente algum osso seria quebrado. Os outros dois garotos pareciam mais escravos do que quem queria bater.

O novato conferiu o corredor e viu dois professores e dois guardas municipais se aproximando da sala. Merda.

— Estão vindo — ele engoliu seco, Henrique olhou para ele, os punhos cerrados e a respiração acelerada — Fudeu.

Era a última sala do corredor, não havia como escapar. Apesar de toda a raiva e de Henrique tentar lutar, os dois guardas e o professor mais alto – ele lecionava filosofia para o segundo e terceiro ano, agarraram os garotos. O segundo professor, ele dava aulas de biologia para o primeiro ano, por isso ele conhecia aquela garota. Ele se ajoelhou ao seu lado e tentou ajudar ela a levantar.

Ela cuspiu sangue e tentou evitar jogar uma parte do próprio peso no homem, mas todo o seu corpo doía e não era fácil se mover assim. Ela não sabia se era somente a dor física, se era porque isso lembrava ela demais sobre quando foi expulsa de casa. Tinha quase certeza que tinha mais de uma costela quebrada. Descer as escadas até o segundo andar só fez a dor aumentar, aumentar praticamente exponencialmente a cada degrau. O professor deixou ela sentar no banco acolchoado nada confortável que tinha na sala do lado de fora da diretoria. Henrique e os garotos estavam na “sala de vidro” com os dois guardas e o coordenador.

— Você sabe que precisamos levar ela para o hospital e chamar a mochila.

— Eu sei — a diretora respondeu e andou até a sala e parou na frente da garota — Você se meteu em uma roubada.

— Uhum.

— Primeiro, vamos fazer você ter algum atendimento médico, depois nós resolvemos outras coisas.

Mar assentiu e continuou de olhos fechados, se concentrando em respirar. Ela esperava que seu primo não ficasse irritado por ela ter se metido em briga. Definitivamente apanhar não era seus planos para sexta a noite.

Domingo, 22 de novembro de 2015

Simone não se considerava a garota mais criativa do mundo então, obviamente, o seu encontro com Amanda seria perto de casa, em um lugar que conhecia bem: o shopping. Ela precisava mudar onde os encontros aconteciam. Seria algo simples, nada realmente romântico (afinal, um shopping na zona norte não é exatamente o destino de alguém que quer um encontro romântico). Só comer algo, conversar um pouco e beijar tanto que elas pareceriam coladas.

Ela vestiu o jeans que aparentemente fazia sua bunda parecer praticamente irresistível, pelo menos Amanda costumava escorregar a mão até enfiar no bolso traseiro toda vez que ela usava um jeans apertado como aquele e Simone adorava isso. Ela se enfiou na camisa branca e azul com o brasão da Corvinal. Ela não conseguia deixar de sorrir levemente por imaginar que Amanda definitivamente seria Lufa-Lufa (Lucas também seria). E talvez Julia fosse Sonserina. Simone não fazia ideia do porquê de estar imaginando em que casa de Hogwarts cada uma ficaria.

Era exatamente meio-dia quando Amanda tocou a campainha. Fofa como sempre, ela simplesmente ficava adorável com jeans e uma camisa social, as mangas dobradas até os cotovelos. Simone não resistiu em sorrir como uma boba apaixonada quando viu a mulher.

— Então, para onde nós vamos, meu amor?

— Shopping, como sempre.

— Você não é muito criativa para encontros...

— Você me deixou escolher, não reclame.

Simone riu baixo quando Amanda a abraçou e beijou sua têmpora, ela nunca foi o tipo de pessoa que amava abraços, mas ela nunca conseguiria negar abraços para seu pai ou para Amanda. Mas quem negaria um abraço a Amanda?

A psicóloga puxou ela para o carro e abriu a porta do carona, deixou a garota entrar e se enfiou para colocar o sinto. Em poucos minutos, Amanda estava procurando alguma vaga no estacionamento. Depois de achar um espaço com a lâmpada verde, elas saíram do carro. Como estava um calor quase infernal, foi um alívio entrar no shopping em si. Elas foram direto para a praça de alimentação, a psicóloga arrastou a garota imediatamente para o ‘restaurante’ favorito dela.

Massas, molhos e carne, ela adorava comida. Simone também adorava comida, mas a psicóloga sempre ficava mais animada com comida do que ela. Depois de um certo tempo, elas voltaram para uma das poucas mesas com suas bandejas.

O cheiro do molho deixou Amanda praticamente salivando, ela não reclamou quando Simone pegou o seu potinho de queijo ralado e colocou no próprio prato. Amanda nem mesmo abriu a coca antes de encher o garfo com um bocado de Nhoque e enfiou na boca, com cuidado de sujara camisa com o molho.

— Você é muito esfomeada...

— Uhum.

Simone riu e observou a namorada enfiar mais comida na boca. Claro que ela mesma preferia um sanduíche gordo e ‘saudável” do Bob’s do que aquela comida, mas não era ela que estava pagando e ela realmente gostava de ver a mulher aproveitando a comida.

Depois de rasparem o prato, Amanda entrou na fila para comprar sundae. Simone colocou a mão no seu braço e escorregou até entrelaçar os dedos. Ela apoiou o queixo no seu ombro enquanto andavam. A mulher comprou só um sundae porque a garota já estava cheia de comida. Elas caminharam lentamente pelo shopping, conversando enquanto a psicóloga comia.

 

Não era um grande encontro, era simples. Mas, para Simone, tudo com Amanda era especial.

Notas finais:

* O título veio da ideia da música "The Great Divide", "A Grande Divisão" ficaria estranho. Eu estou meio apaixonada por essa música e uma parte dela combina perfeitamente, em português é algo do tipo: É engraçado como a história acaba em um instante, como algo tão próximo pode acabar tão distante. 

E tem outro trecho: Lavo as minhas mãos, viro as minhas costas, eu não preciso das mémórias que nós tínhamos, eu estou te deixando para trás.

* As músicas são: Dançando - Agridoce e Hurt Me Harder - Zolita (e só para constar: na minha mente, a Amanda tem um sotaque adorável, okay? Ela ainda está falando um pouco 'estranho', sem o sotaque carioca - que, claro, para o meu ouvido é: sem sotaque. Mas eu sei que todo mundo tem sotaque, mas que ninguém percebe o próprio. Então, ela cantando em inglês tem um sotaque puxa o 's' que é uma beleza)

* Eu já adicionei ambas na playlist do livro lá no Spotify.

* A maior parte das músicas estão lá porque eu gosto, mas provavelmente vou fazer outra só com as que realmente são cantadas dentro do livro.

* Não me pergunte como a Amanda conhece essas músicas, eu imagino ela no Spotify catando por qualquer coisa para ouvir e dando de cara nessas músicas - foi assim que eu dei de cara com elas.

* Se olharem as minhas playlists, vocês notarão que eu sou a pessoa que coloca Marilyn Manson e Demi Lovato na mesma playlist.

* Se acharem muito chato ler a letra, eu posso colocar só a primeira frase e deixar implicíto que ela pode ter cantado só uma parte ou a música inteira. Eu vou entender se acharem um tédio ler mais do que já leem.

* E não, esse flashback no final não era necessário, mas é que eu escrevi uma coisa fofa e decidi colocar para lembrar que nem tudo está perdido ou acabado.

 

> E só para quem não vai procurar a tradução, aqui uma tradução livre, não muito ao pé da letra, afinal, "harder" significa literalmente "mais difícil" e a tradução muda com o contexto. Afinal, "fuck me harder" não é "me foda mais difícil", uh?:

 

Eu sinto falta de chorar sobre você

Eu sinto falta de mentir sobre querer alguém novo

Sentir menos significa doer menos

Mas isso não é o mesmo sem dor

 

Eu quero que você me machuque mais

Eu preciso que  você me machuque mais

E quero que você me ame mal

Me conduza a loucura

Seja o pior que eu já tive

Eu quero que você me machuque

 

Então me foda no chão do banheiro

E eu vou fingir que eu não te amo mais

Eu sou muito lucída e você é muito vaga

Eu quero você dentro de mim como uma praga

 

— o refrão que não vou repetir - 

 

Eu estou em busca de sofrimento auto-infligido

Preciso de uma sádica e você é a epítome

Me ataque com as suas palavra, me bata com as suas mentiras

Me bata com o seu não-amor, sorria enquanto eu choro

Eu preciso que você me machuque, querida


15. O Reflexo na Escuridão por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Amanda gemeu e enfiou o dedo na boca, como era o instinto. O gosto de sangue não era nem um pouco agradável, ela percebeu que não daria muito certo, então agarrou um pano de prato para parar o sangramento. Cuspiu na pia, limpou rapidamente a boca e agarrou o dedo com força. Ela sabia que não era muito habilidosa, mas ela não esperava quase arrancar metade do dedo fora (não literalmente, mas foi um tanto feio) enquanto ela só estava tentando cortar cebola para fazer algo para o seu almoço.

Ela deveria ter comprado pizza, mais seguro. Muito mais seguro. Amanda não sabia se ela naturalmente não tinha habilidade para cozinhar ou se ela somente não aprendeu a cozinhar. Ela grunhiu xingamentos enquanto apertava o maldito dedo cortado, ela se perguntava por que diabos eu não tenho coordenação motora nem para cortar uma cebola?

Ela ouviu o som da porta sendo destrancada e virou em direção ao som, viu Julia enfiar a cabeça para dentro, hesitando se deveria ou não entrar. Se estava tudo bem para ela aparecer ou não, se ela deveria ir embora e esquecer. Porém, o pensamento de qualquer problema entre elas praticamente desapareceu quando a garota viu que Amanda estava segurando a mão com um pano sujo de sangue. Foi quase como um instinto: Julia se aproximou e pegou outro pano.

— Você deveria se manter afastada de facas afiadas — Julia falou enquanto envolvia a mão da mulher com o outro pano — Você sabe que é perigoso.

— Eu sei — Amanda não estava olhando para os movimentos em suas mãos, nem mesmo estava se importando com a dor que se espalhava pela sua mão. Ela estava olhando para como Julia parecia preocupada, cansada — Como você está?

— Estou melhor que você, pelo que parece.

— É mesmo, Julia? — A garota franziu o cenho, ergueu a cabeça e olhou para a irmã. Ela se sentia praticamente um lixo por tratar a mulher daquele jeito durante todo aquele tempo.

— Eu não sei. Eu sou uma idiota, não sou?

— Um pouco — Amanda abaixou um pouco a cabeça e beijou a testa da garota ­— Mas está tudo bem.

— Está? Nós estamos bem?

— Claro que estamos bem — Amanda passou um braço ao redor e a abraçou delicadamente.

Julia engoliu seco e afundou o rosto no seu pescoço. Passou o braço livre ao redor da sua cintura e respirou fundo. O cheiro era bom, o calor era bom, a sensação era boa. Depois ela tiraria os panos e limparia o sangue, faria um pequeno curativo e cozinharia um almoço porque ela conseguia usar uma faca sem se machucar. Depois elas acabariam indo para o sofá, assistir algum filme, só passar um tempo juntos. Elas conversariam, resolveriam os problemas, eram família e todas as famílias tem problemas.

Mas não nesse momento. Agora, Julia só queria aproveitar a sensação. Só queria sentir o calor da psicóloga, sentir o cheiro familiar de alfazema, ouvir a voz dela murmurando que estava tudo bem enquanto Julia deixava o choro vir. Amanda acariciou suas costas carinhosamente, sua mão subindo e descendo pela linha da coluna, os dedos traçando o mesmo caminho.

Amanda continuava sendo o seu lar e Julia não queria ir embora.

Sábado, 17 de dezembro de 2016

Tudo estava pronto: a pipoca, pacotes de biscoito e refrigerante espalhados pela mesa-de-centro. O primeiro episódio de uma série pronta para ser assistida no Netflix, Julia enfiada em uma camisa de Amanda (ela já fazia isso antes, mas ela usava a gravidez como uma justificativa para ficar ainda mais confortável) e Amanda em um pijama que ela não usava desde que tinha 20 anos (Amanda era naturalmente fofa, mas ela em um pijama com pequenos ursos desenhados, ela parecia ter 10 anos outra vez.

Julia já estava afundada no sofá somente esperando Amanda se jogar ao seu lado quando o telefone tocou.  Claro que ela não esperava uma ligação a essa hora da noite, franziu o cenho quando pegou o celular e uma voz relativamente conhecida falou com ela. Era a voz da diretora de onde Julia estudava, Amanda tinha uma boa memória para sons, então mesmo que ela tenha falado poucas vezes com a mulher.

Ela engoliu seco quando ouviu a notícia. Julia também pareceu preocupada quando ela falou, mas a garota só a abraçou e beijou sua bochecha dizendo “vai ficar tudo bem”. E como Amanda não sabia controlar seu instinto protetor, ali estava ela, sábado de manhã entrando em um quarto de hospital.

Mar não parecia nem um pouco bem. O olho direito ainda estava praticamente fechado pelo inchaço. Havia um corte no lábio e um na sobrancelha, um hematoma na altura da maçã do rosto e outro no queixo. Também tinha marca de dedos no pescoço e nos braços. Amanda podia imaginar que havia mais hematomas e machucados onde estava coberto pela roupa de hospital.

— Eu pareço pior do que eu me sinto — Mar falou enquanto Amanda a olhava atentamente.

— Não acredito muito nessa afirmação — Amanda segurou sua mão. Era definitivamente o tipo de coisa que a psicóloga fazia quando queria confortar alguém - fosse outra pessoa ou ela mesma — Eu não sabia que eu era o seu número de emergência — Mar corou levemente.

— Era o Marcos, mas nos últimos meses ele passa muito tempo longe então eu, hm, eu coloquei o seu quando você voltou. Eu posso mudar se isso te in-

— Não, não precisa mudar.

— Obrigada — Mar a olhou por alguns momentos — Amanda?

— Sim.

— Quando você vai parar de proteger todo mundo ao seu redor? Quando você vai deixar alguém te proteger?

— Eu não sei... quando eu realmente precisar?

— E quando você vai precisar? Quando você estiver machucada demais para continuar?

— Eu não sei, Marisa — Amanda passou o polegar carinhosamente — Eu nem sei direito que porra está acontecendo na minha vida!

— E a sua profissão é quase dizer as pessoas o que elas devem fazer, que irônico — Amanda riu baixo, Mar também riu baixo, mas logo parou — Não me faça rir muito. Eu apanhei pra porra.

— Estou vendo. Vai me contar tudo o que aconteceu?

Mar assentiu, Amanda puxou a cadeira de plástico desconfortável e sentou, colocou a mão em seu braço, pronta para ouvir o que aconteceu enquanto continuava a usar o polegar para acariciar delicadamente a garota.


Segunda-feira, 03 de junho de 2013

Tudo aconteceu incrivelmente rápido. De Julia ser legal e tentar confortar ela até, um pouco mais de uma semana depois, Julia perguntar "você nunca beijou uma garota, não é?". Elas não tinham um nome, só estavam juntas, simples assim. Por isso estavam ali, não teve aula e nenhuma das duas queria ir para casa. Então Julia arrastou Mar ladeira acima para se esconderem atrás da escola. Como era quase inverno e o vento que batia era frio, Julia usou a temperatura como desculpa para se enfiar entre as pernas de Mar e se encolher contra ela.

Essa era uma ótima vantagem de ser pequena em comparação a maioria das pessoas que ela conhecia. Quando era mais nova, ela se enfiava no colo de Amanda enquanto a garota estava marcando algo, ou no colo da mãe enquanto a mulher estava lendo algum contrato. Quando perdeu a mãe, quando Amanda estava na faculdade, Julia fazia isso quase todas as noites. Ela jantava, tomava seu banho e se enfiava nas roupas para dormir. Então quando Amanda estava passando a limpo anotações da aula sentada na mesa da cozinha, Julia passava por baixo da mesa e 'escalava' a irmã. Os braços na sua cintura e o rosto enfiado no seu peito. Amanda ria baixinho, segurava ela com um braço e continuava a estudar, afinal, era natural. Mas havia parado de acontecer quando ela se formou e começou a namorar Arthur.

Não haviam realmente se afastado, não tanto assim, Julia preferia ficar mais longe. Doía menos. E ainda era recente demais para ela conseguir voltar a fazer aquilo. Então ela começou a se aproximar assim de Mar, de se encaixar no seu colo quando tinha oportunidade. Às vezes Mar se escondia na biblioteca, entre as estantes, sentada no chão e lendo algum livro. Umas duas ou três vezes, Julia se ajoelhou na frente dela e conseguiu se enfiar no seu colo. Era quase como um gatinho. Ela puxava as pernas para cima e se encolhia como uma bola. Como Mar não estava acostumada a ter contato físico que não envolvesse dor, ela demorou alguns minutos para relaxar o suficiente para voltar a ler. Mas ficava mais fácil a cada vez que acontecia.

Por isso, ela não se surpreendeu quando uma pessoa se enfiou no seu colo. Julia fechou os olhos quando Mar enfiou a mão por baixo do seu casaco e começou a acariciar as suas costas, só a blusa separando sua pele do calor da mão dela. Julia abriu os olhos e olhou para a mão livre da garota, que parecia tentar esconder ela com a manga do moletom. Julia segurou seu pulso, percebeu quando Mar ficou tensa e tentou fazer seu braço ser imóvel. Não deu tão certo, Julia conseguiu puxar para perto e também puxar a manga do moletom.

— O que aconteceu? — Julia perguntou olhando para a mão machucada, marcas vermelhas que pareciam bem dolorida atravessavam a palma, algumas chegavam ao seu pulso e aos dedos.

— Eu não tive o melhor dos desempenhos no culto ontem.

— Isso acontece muito?

— Eu ir mal pregando o que não acredito?

— Você apanhar.

— Depende.

— Do que?

— São só, hm, tapas na mão.

— Tapas com o que? Nem fudendo que isso é só marca de outra mão — Mar grunhiu e puxou, enfiou ela no bolso do moletom — Mar...

— Não precisa se preocupar.

— Por favor.

— Mar — Julia se agachou na sua frente, ofereceu a mão — Me deixe ver.

Pediu gentilmente, a voz baixa e olhando para Mar com mais carinho do que a garota achava possível. Hesitando, ela ofereceu a mão machucada. Julia puxou a manga do moletom para cima, até quase o cotovelo e engoliu seco. Além das marcas vermelhas, havia um hematoma feio. Roxo escuro, a pele ao redor vermelha e parecia inchado.

— Mar...

— Não é nada demais.

— Claro que é.

Mar puxou o braço, mas Julia segurou seu pulso. A garota entrou em modo de defesa, ela sentiu a pele queimar quando Julia apertou o que estava machucado. Ela era muito mais forte do que Julia, não só pelo tamanho, mas também porque ela tinha uma forma física mais forte. Puxou de novo quando não conseguiu se soltar. Ela não calculou a força quando usou a mão livre para empurrar Julia pelo ombro. A garota perdeu o equilíbrio, foi violento o suficiente para fazer ela cair. Grunhiu quando sentiu as mãos batendo no chão com força. Mar se levantou rápido, puxou

— Me desculpe.

— Não precisa se desculpar — Julia se levantou e limpou as mãos, a maior parte do peso foi para seu lado esquerdo, então ela viu um pouco de sangue na palma.

— Você está sangrando.

— Não é nada mais — Julia pegou a garrafa de água para limpar a mão — Eu não deveria ter pressionado.

— E eu não deveria ter empurrado. Me desculpe.

— Eu não sou tão frágil assim.

— Sim, você é. Sabe, tão pequena e...

— Eu não sou pequena!

— Sim, você é.

— Eu sou relativamente pequena.

— Pequena mesmo assim.

— Eu não sou tão frágil assim, Mar — Julia murmurou e beijou sua têmpora — Você não precisa ter medo de me quebrar.

Mar apertou ela com mais força. Doía um pouco, mas Julia gostava desses abraços. Acariciou suas costas. Ela não era tão frágil quanto Mar parecia achar que ela era, física e emocionalmente. Pelo menos, ela achava que não era realmente tão frágil assim. Julia começou a acariciar suas costas lentamente.

Elas não tinham um ‘rótulo’, mas Julia pretendia estar lá pelo máximo de tempo que ela podia e esperava que Mar não fizesse ela ir embora.

Sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Mar deixou a garota empurrar ela até que sentisse a parte de trás encostando na beira da cama, caiu sentada no colchão macio. Era quase meio dia e elas estavam sozinhas no apartamento que Julia morava. A garota subiu na cama, um joelho de cada lado das coxas de Mar, as mãos em seus ombros e a beijou com vontade. Mar colocou as mãos, com um pouco de hesitação, nos seus quadris.

— Julia...?

— Hm?

— Nós viemos para você me ajudar com o cabelo, não?

— Sim... você quer que eu pare?

— Não, eu não quero que você pare.

Ela respondeu em um tom baixo e nervoso, como se soubesse o que queria, mas estivesse com um certo medo. Julia sempre tinha mais segurança do que ela em tudo o que faziam, por mais que a maior parte das vezes fosse algo novo para ela também, era como se ela sempre soubesse o que fazer. Foi Julia quem beijou primeiro, quem teve coragem de começar a andar de mãos dadas ou braços cruzados pelo colégio. Era sempre Julia que começava algum carinho, quem tentava aprofundar as conversas.

Então era quase óbvio que fosse Julia quem tentasse ir em frente no relacionamento.

Os olhos de Mar pareciam mais escuros, o verde-musgo era só uma linha ao redor das pupilas dilatadas e Julia estava perto o suficiente para ver o próprio reflexo na escuridão. Ela viu o quanto a garota estava corada, a pele estava quente sob as suas mãos e a respiração dela estava acelerada.

Julia desceu as mãos pelos seus braços, sentindo os músculos firmes, ela tinha que admitir que ela gostava de como os pais da garota fizeram ela praticar esportes para controlar o quanto ela era agitada quando era menor. Julia colocou as mãos na sua cintura, passou elas pela barriga e desceu até a barra da camisa.

Posso? Ela murmurou, ela sabia o quanto Mar não era completamente aberta a toque, parecia certo perguntar se podia continuar em cada novo toque que ela pretendia tentar ali, saber os limites e parar quando Mar não estivesse mais confortável. Então quando Mar assentiu, ela enfiou as mãos por baixo da camisa, seus dedos tocando a pele quente, sentindo o corpo firme.

Julia beijou seu queixo, seguiu a linha do maxilar até a orelha. Seus dedos subiram lentamente até pararem logo abaixo do elástico do sutiã, ela passou as pontas dos dedos por ali e escorregou até as suas costas. Ouviu Mar gemer baixo quando ela desceu os dedos pelas suas costas até o cós da calça, então ela arqueou levemente as costas quando Julia passou os dedos pela linha da coluna.

Ela queria ouvir Mar gemer de novo e de novo.

Posso? Perguntou baixo quando segurou a barra da camisa, pronta para puxar para cima. Mar murmurou ‘sim’. Julia jogou a camisa para longe sem muita cerimonia, ela estava mais interessada na garota na sua frente do que onde as roupas iam parar. Julia passou os dedos pela barriga dela outra vez, dessa vez vendo o que estava tocando e isso fez seu corpo esquentar. Ela passou os dedos pelas clavículas, pelos ombros, pelos braços outra vez.

Mar abriu a boca para protestar quando Julia saiu do seu colo. Você não vai deitar na minha cama usando esses tênis sujos. Ela se ajoelhou e tirou os sapatos e as meias da garota. Mar assentiu e viu ela tirar os próprios tênis e meias. Mar se arrastou para trás para deitar, mas continuou sentada no meio da cama e viu Julia subir na cama e ‘engatinhar’ ela, deixou a garota empurrar ela pelos ombros até se deitar. Ela enfiou os dedos por baixo do elástico do sutiã branco que a garota estava usando, só o suficiente para que as pontas dos seus dedos tocarem a pele macia tudo bem?

Mar assentiu, os olhos fechados, seu coração batendo cada vez mais rápido. Julia tirou os dedos de debaixo do elástico para tocar por cima do pano. Com cuidado, delicadeza, ela sabia o quanto podia ser sensível e ela não queria correr o risco de machucar. Beijou a garota e ouviu ela gemer um pouco mais alto, sentiu as coxas apertarem seus quadris.

Julia perguntou se podia continuar, se estava tudo bem, em cada detalhe. Quando escorregou as mãos para suas costas e tirou o sutiã, quando beijou seu torso, dando uma boa atenção para os seios, até o cós do jeans. Quando abriu e tirou o cinto, não hesitou em tirar a própria camisa quando Mar tentou puxar, quando desabotoou a calça e a tirou. Perguntou quando beijou e tocou suas coxas com carinho, quando hesitou esperando por permissão para tirar a boxer cinza. Quando a tocou delicadamente com os dedos, depois com a boca, perguntou se estava tudo okay quando empurrou um dedo e depois outro. Murmurou vamos enquanto tentava fazer Mar chegar ao ápice e se sentiu orgulhosa até demais quando chegou ao seu objetivo.

 

E ela perguntou se estava tudo bem quando Mar a abraçou e pareceu se segurar para não chorar, mas estava, era simplesmente porque ninguém nunca se importou tanto com ela e Mar não podia segurar isso por muito mais tempo.

16. O Que Você Não Pode Ter por Senhorita Charlie

Sábado, 17 de dezembro de 2016

Ana alternou o peso entre as duas pernas, nervosa com a espera para entrar no quarto, para visitar Mar. Não só porque ela não era uma grande fã de hospitais, mas também porque ela não gostava da ideia de ver Mar machucada. Ainda mais porque ela sentia uma certa culpa.

Se ela fechasse os olhos, ela podia ver perfeitamente os socos e os chutes que deram em Mar. Ela não se importava com os hematomas, com como machucava lembrar o que Henrique teria feito se Mar não tivesse aparecido. Ela se incomodava mais com o quanto Mar estava machucada.

Quando finalmente pegou o adesivo com seu nome, suas mãos estavam tremendo levemente quando ela o prendeu na blusa. Era um dia quente, realmente quente, porém ela estava suando frio pelo nervosismo. Ela seguiu a linha no chão, assim como a mulher falou para ela fazer.

— O que você fez foi muito estúpido — ela falou assim que entrou no quarto.

— Eu costumo fazer coisas estúpidas, pequena.

— Mar...

— Isso não vai fazer você me perdoar por ter te machucado.

— Oh, Mar — Ana falou baixo, se aproximou da cama e segurou seu pulso — Por que você fez isso?

— Porque eu não podia deixar eles machucarem você.

— E pra isso você precisava se machucar assim?

— O que queria que eu fizesse? Deixasse eles machucarem você?

— E eles não machucariam você — Mar fechou os olhos e respirou fundo.

— Eu posso ser uma pessoa ruim, eu posso ter te machucado outra e outra vez, mas eu não consegui deixar acontecer...

Ana não conseguia

Mar não conseguia resistir a expressão de cachorrinho abandonado que Ana fazia quando queria algo, então ela acabou se arrastando um pouco para o lado, dando espaço à ela.

— Nós duas simplesmente não deveríamos ter nos conhecido. Eu amo você, você me ama, mas vamos nos destruir se continuarmos tentando — Mar Não podemos fingir que somos desconhecidas e simplesmente não falarmos uma com a outra. Não podemos ser amigas porque nenhuma das duas consegue ficar muito tempo sem querer agarrar a outra. Não podemos namorar porque uma hora eu vou acabar traindo você de novo. Então, o que vamos fazer? O que eu preciso fazer? Por tudo o que for mais sagrado, o que eu posso fazer para te salvar de mim?

— Eu não sei, eu não faço ideia. Eu só sei que eu amo você.

— Eu também amo você, Pequena.

Ana fechou os olhos e se encolheu mais contra a garota, sentindo ela a abraçar. Ela lembrava que um dia ela chegou à conclusão de que havia algo de poético no vício em cigarros de Mar, algo estranhamente belo em ser viciada no que a matava devagar a cada tragada. Mas ali, ela chegou à conclusão que ela também era viciada em algo que a matava lentamente. Que ela sentia um certo prazer masoquista em amar a garota.

Mar a machucou o suficiente para fazer ela ir embora, fez uma merda atrás da outra. Ela sabia que nunca faria Mar mudar tanto, fazer a garota amá-la sem destruí-la, sem errar uma vez depois da outra. Ana se apaixonou por aquilo, por essa versão não muito boa, com mais defeitos do que qualidade.

Ana se apaixonou pela cafajeste problemática, ela era o clichê de um livro new adult. Incluindo a parte onde o relacionamento delas tinha alguns elementos abusivos. Incluindo a parte onde Mar era incrivelmente sexy, tarada e boa de cama.

Ela sentia uma dor tão grande que era incapaz de chorar.

Ela sabia perfeitamente que tentar continuar, que tentar novamente a machucaria muito mais do que simplesmente deixar ir, mas era como se Mar a puxasse de volta (mesmo não sendo de propósito). Tentar continuar faria ela ser uma masoquista infernal, se machucar e quebrar ainda mais o que já estava destruído dentro dela.

Mas Ana sabia que ela voltaria. Era assustador como ficar longe ou perto machucava. Era aterrorizante como a pessoa que pode te destruir, é a mesma que pode te curar.

Era injusto que não importava quantas vezes Mar errasse, que a machucasse, Ana continuava querendo voltar. Desejando estar em seus braços. E mesmo que Mar quebrasse o seu coração em dezenas de pedaços, ela sempre encontraria uma justificativa para perdoar Mar. Ana sabia que não deveria fazer aquilo, deixar que a dor de Mar fosse mais importante do que a sua própria.

Era mais uma obsessão do que amor, era mais um vício do que almas gêmeas.

Segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amanda sentou na cadeira perto da cama de Simone, a garota estava lendo um livro. Quase quinhentas páginas de informação que ela só estava armazenando porque não tinha outra coisa para fazer. Mas era divertido, fascinante e era um bom sinal. Simone estava devorando ele como sempre fez. Porém, quando Amanda sentou ali perto, ela fechou ele, marcando a página.

— Precisamos conversar um pouco.

—Não é o que costumamos fazer?  — A garota perguntou.

— Sim, mas nós não conversamos muito nos últimos dias. Eu quero ajudar você.

— Eu sei que você quer me ajudar.

— E você vai deixar eu te ajudar?

— Você está no seu modo-psicóloga ­— Simone resmungou.

— Eu sei — Amanda murmurou — Eu não posso controlar.

— Claro que não — Simone virou a palma para cima e a psicóloga entrelaçou seus dedos — Disseram que eu devo sair amanhã.

— Isso é ótimo, você vai finalmente ir para casa.

— Sim...

— Você não parece muito animada com a ideia de sair daqui.

— Eu não estou animada em voltar para casa.

— Simone...

— Eu não quero falar sobre isso.

— Está bem, então não vamos falar sobre isso — Simone sorriu e se arrastou para o lado — O que você está fazendo?

— Arranjando espaço para você.

— Mas...

— Vem aqui, por favor.

Amanda respirou fundo, Simone estava olhando ela com aquele olhar de um cachorrinho abandonado que era impossível de se resistir, com cuidado, ela subiu na cama e deixou Simone abraçar ela, com a cabeça deitada no seu ombro.

­— É estranho não querer sair daqui? — Simone perguntou baixinho.

— Você não quer sair? — Amanda ergueu a cabeça.

— Eu não quero ir para casa.

— Por causa da sua mãe?

— Sim — pareceu mais um grunhido do que uma fala.

­— Ela te machucou, não é?

— Ela me odeia —Simone começou a passar os dedos pelo cabelo macio, ela havia sentido falta de fazer isso — Você não entende, não é?

— Ela é sua mãe, ela não deveria te odiar — Amanda enfiou o rosto no seu pescoço — Ela deveria cuidar de você.

— Eu sei — ela fechou os olhos enquanto sentia os dedos da psicóloga passando pela sua clavícula — Mas se ela precisou me abandonar, então ela não é capaz de cuidar ou de se importar comigo.

— Eu sinto muito.

— Eu sei — Simone beijou sua cabeça e segurou ela com mais força.

— Me desculpe.

Simone fechou os olhos e se sentiu relaxar lentamente, o calor firme que vinha do corpo fazia ela se sentir melhor. Ela sabia que tinha que voltar para ‘casa’, um lugar que não era casa sem Lucas. Talvez sua vida não fosse vida sem Amanda por perto. Meses depois, ela se perguntava como conseguiu terminar. Como conseguiu virar as costas para a psicóloga e foi embora.

­— Me desculpe — Amanda repetiu.

— Pelo que?

— Por ter ido embora — ela fungou, Simone sentiu as lágrimas quentes molhando a camisola — Por ter abandonado você.

— Eu fui embora antes — Simone murmurou com a voz abafada — Eu abandonei você muito antes. Antes mesmo de terminar e ir embora. Eu não sou boa lidando com problemas.

— Era coisa demais. Ainda é coisa demais. Eu deveria ter ido atrás de você.

— Eu vou embora e você que tem que ir atrás?

— A adulta aqui não sou eu?

— Às vezes parece que você tem idade mental de 12 anos.

— Isso é ofensivo — Amanda grunhiu como uma criança e Simone riu — O que eu quero dizer:

Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

— Amanda, não é uma boa ideia você fazer isso — Julia falou, os braços cruzados e emburrada como uma criança de cinco anos de idade enquanto Amanda se equilibrava em cima do banco — Você não tem equilíbrio para isso.

— Você está me distraindo — ela grunhiu enquanto tentava prender o fio das luzinhas de natal com um pedaço de fita — Assim eu vou cair.

— Meu Deus, Amanda — Julia apertou a ponte do nariz quando Amanda se esticou um pouco para a esquerda — Desce e depois sobre de novo, não se estica, você não é elástica!

— Hm.

— Quer dizer, não nesse sentido. Eu não sei em outro — Julia riu baixinho quando viu sua irmã corar — Sério, desce.

— Eu consi- — Amanda se distraiu por um segundo e caiu do banco de bunda no chão —Okay, eu não consigo.

— Sua idiota — ela se ajoelhou ao lado da mulher — Tudo bem?

— Uhum — sentou e se espreguiçou — Não se preocupe.

— Claro que eu me preocupo, agora levanta.

— Você é muito delicada — Amanda grunhiu quando Julia deu um tapinha no seu ombro — Por isso eu amo você.

— Você é obrigada a me amar.

— Essa não é a resposta — puxou ela, fazendo Julia cair no seu colo — Me dê a resposta certa.

— Me solta, sua idiota — Julia tentou se soltar, mas Amanda a segurava com força cuidadosa. A psicóloga apoiou o queixo no seu ombro — Amanda!

— Me dê a resposta certa — mordeu a sua bochecha.

— Eu também amo você! Eu também amo você! Tira as suas presas de mim! — Amanda riu e soltou ela, viu a marca leve dos dentes e beijou sua bochecha — Você é uma criança.

— Eu sei, por isso você me ama.

— Claro, claro.

***

— Um biscoito por um pensamento? — Julia falou e parou perto do sofá com um pacote de Negresco e um copo de leite, Amanda olhou para ela e sentou, esperou a irmã sentar no sofá então deitou novamente — Você parece concentrada — ela deixou a caneca de leite na mesinha ao lado e começou a fazer cafuné em Amanda.

— Eu estava pensando sobre coisas que eu percebi e... Ei! Você disse um biscoito por um pensamento, cadê o meu biscoito?

— Certo, certo, mea culpa — Julia abriu o pacote.

— Eu vi que você trouxe leite...

— Você é realmente uma criança — Julia revirou os olhos, mas estava sorrindo um pouco quando enfiou um dos biscoitos na caneca e ofereceu para Amanda, que literalmente abocanhou o doce — Não me morde! — Amanda riu. Julia esperou ela terminar de comer e então engolir para perguntar — O que você percebeu?

— Percebi que talvez houvesse algum motivo para eu, hm, me sentir diferente.

— Diferente sobre?

— Sexo.

— Elabore um pouco mais ou eu vou ficar completamente perdida na nossa conversa.

— Okay. Sabe, eu sempre achei que eu nunca senti toda essa coisa, esse interesse, porque eu estava ocupada demais com o TEI. Depois ocupada tentando cuidar de você e depois eu estava concentrada demais com os problemas do Arthur para me interessar em outra coisa. Talvez... talvez não seja coisas para resolver, talvez seja algo sobre mim, não ter essa vontade de tocar e de ser tocada como a maioria.

— Mas você sentiu com a Simone.

— Sim. Se eu realmente pensar, eu senti curiosidade antes, com uma ou outra garota. Só que eu sentia uma coisa antes.

— Você tinha que se apaixonar antes?

— É. E é meio difícil se aproximar o suficiente para se apaixonar quando se tenta afastar todo mundo. E tem outra coisa, eu achei que tinha me apaixonado pelo Arthur, que amava ele, mas eu nunca senti essa coisa por ele. Eu nunca quis que ele me tocasse mais do que o nível de beijos quase inocentes, entende?

— Um pouco. Tudo sobre você é um pouco complicado para as outras pessoas.

— Eu sei.

— Então, o que aconteceu para você perceber isso?

— Hm...

— Amaaaaanda.

— Bem, eu meio que, hm, meapaixoneipelaClara.

— Pelo amor de Deus, fale devagar.

— Eu me apaixonei pela Clara.

— Espere, o que? — Ela arregalou os olhos — Estou chocada.

— É... — a psicóloga cobriu o rosto, o pescoço rosado deixando Julia saber que ela estava corada sem precisar ver o seu rosto.

— E a Simone?

— Eu amo a Simone.

— Agora eu estou confusa, você a ama do mesmo jeito? Aquele amor romântico e tudo mais — Amanda assentiu — E está apaixonada pela Clara de qualquer maneira? — Ela assentiu de novo — Oookay.

— É estranho, não é?

— Eu não sei, talvez signifique que você realmente tenha um coração puro demais para esse mundo.

— Eu não gosto dessa coisa de ser pura demais para esse mundo, isso machuca.

— Oh — Julia deixou o biscoito perto do leite, ela ainda estava fazendo cafuné na mulher, colocou a mão na sua barriga, na altura do estômago, e começou a mover o polegar lentamente — Eu queria te colocar em um potinho e te guardar no armário, longe de tudo que poderia te machucar.

— E teria comida no potinho?

— Muita comida.

***

Se você pensar bem, Amanda e Mar não estavam em uma situação muito diferente. Amanda já admitiu, em parte, ela já entendeu certos sentimentos. Afinal, ela sabia lidar um pouco melhor com os próprios sentimentos. Mas as duas estavam com o mesmo ‘problema’: amar uma pessoa e estar apaixonada por outra.

Mar amava Ana, claro que amava. Ela não sabia demonstrar, ela machucou a garota uma vez depois da outra. Traindo, agredindo, sendo fria e tentando negar qualquer sentimento. E claro que ela havia machucado Julia, apesar de ser diferente, talvez Mar tivesse uma tendência enorme de machucar as pessoas com quem ela se importa.

Uma hora, talvez, ela fosse machucar Amanda também. E como, para ela, Amanda era uma das pessoas mais puras e adoráveis do mundo. Claro que nunca se perdoaria se machucasse Amanda.

Elas eram parecidas e diferentes ao mesmo tempo, o que era um pouco assustador. No fundo, as duas tinham sentimentos demais para distribuir. Podiam demonstrar de jeitos diferentes, lidar de jeitos completamente diferentes. Amar alguém, se apaixonar por alguém, tudo ao mesmo tempo.

 

Não seria mais fácil se todos pudessem ter tudo o que precisam?

17. Casa Nem Sempre é Um Lugar por Senhorita Charlie

Quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Simone agradeceu mentalmente por Ana levar roupas para ela, as que ela estava quando Mar a levou para o hospital estavam em péssimo estado, todo aquele sangue nunca sairia do tecido. Ela deixou a enfermeira ajudar ela a se vestir, mesmo se sentindo bem o suficiente para fazer isso sozinha, a mulher era tão delicada e gentil que Simone não teve coragem de negar a ajuda. Como era procedimento do hospital, eles ligaram dezenas de vezes para a mãe dela, mas a mulher não aceitou.

Ela pensou em Mar, afinal, a garota era maior de idade e com certeza não negaria o pedido. Porém, ela se lembrou da briga que Amanda mencionou, Mar só teria alta depois do Natal. Então sua única opção era Amanda. Quando a enfermeira falou a resposta da mulher para o pedido, Simone sentiu surpresa e o velho ‘quentinho no peito' que ela sentia sempre que Amanda fazia algo adorável (ou seja: a maior parte das coisas que a psicóloga fazia): Amada estava esperando por ela do lado de fora.

Claro que a psicóloga sabia que Patrícia não ‘perderia’ tempo indo buscar a própria filha. Ela não a visitou em todos aqueles dias em que ela ficou internada. Ela sempre colocaria a carreira acima de qualquer coisa, da vida pessoal e da filha.

— Ei.

— Ei — Simone levantou e aceitou a sacola que a enfermeira a entregou, agradeceu a mulher.

— Suas roupas? — A psicóloga perguntou apontando para a sacola.

— Uhum. Depois eu jogo fora.

— Okay. Consegue andar comigo a beira da calçada?

— Sim — depois de dois passos, Simone perdeu o equilíbrio e resmungou — Andar é mais difícil do que eu lembrava.

— Você ainda está grogue, é como se estivesse bêbada. E você ficou uns dias sem andar, é normal — Amanda passou o braço ao redor da sua cintura e puxou ela para mais perto — Vamos, temos que pegar o táxi.

— Táxi? — Ela franziu o cenho — E o seu carro?

— Está na oficina.

— Por que ele está na oficina?

— Para limpar — elas chegaram aonde Amanda queria chegar, onde ela podia fazer sinal para o carro e ele poderia parar sem atrapalhar o trânsito, se entrassem rápido, não atrapalhariam a entrada ou a saída de alguma ambulância.

— Limpar? O que? O motor ou seja lá que parte precisa de mecânico para ser limpa?

— Mais ou menos — a garota sentiu a mão apertar sua cintura com mais força.

— Amanda?

— O que?

— Você está escondendo algo de mim.

— O que? Não!

— Amanda.

— Eu já falei, o carro está na oficina para limpar.... e trocar o estofado... e os tapetes.

— Ele não é novo? Por causa da indenização e tudo mais?

— Sim...

— Fale de uma vez.

— É que... — Amanda desviou o olhar e falou mais baixo — Elas te trouxeram nele.

Simone tentou se afastar, ela sentiu seu estômago se revirar ao imaginar como ela havia deixado o carro. Com sangue no estofado, que ainda estava com cheiro de novo, no tapete. Ela não havia pensado sobre isso, em como ela foi parar no hospital, ela, naturalmente, assumiu que uma ambulância levou ela.

Mas não, Mar e Julia a levaram no carro da psicóloga. Ela pensou na sujeita que deixou. No carro, no quarto. Provavelmente foi Mar que a levou no colo, ela podia sentir a bile subindo pela sua garganta com a ideia de ter sujado a camisa e as mãos de Mar com o próprio sangue.

— Ei, olhe para mim — Amanda segurou seu rosto, Simone agarrou seus pulsos, engoliu seco — Respire fundo, parece que você quer vomitar.

— Mas eu quero vomitar.

— Eu sei, vem aqui.

Amanda livrou os próprios pulsos, segurou os da garota e puxou para que ela envolvesse a sua cintura com os braços. Simone agarrou as costas da sua blusa imediatamente, ela não precisou que Amanda a apertasse para se encolher contra ela. Enfiou o rosto na curva do seu pescoço, sentindo o calor (que mesmo que estivessem no verão, suando no sol do Rio de Janeiro) confortável da mulher, sentindo os cheiros. A alfazema do perfume que ela usava, a erva doce do sabonete, o cheiro de ‘bebê’ do amaciante e a camomila do shampoo.

A psicóloga começou acariciar as suas costas lentamente, os dedos subindo e descendo seguindo a linha da sua coluna. Simone apertou ela o máximo que podia, com um pouco de cuidado para não correr o risco de se machucar e também porque ela não estava tão forte assim.

— Vem, eu vou te levar para casa — ela tentou se afastar, Simone grunhiu — O que foi?

— Eu não queria ir para casa.

Amanda riu baixinho: — Para a minha casa.

Então Simone deixou ela se afastar e fazer sinal para um dos carros amarelos. Amanda deu o endereço. O taxista não olhou para elas uma segunda vez enquanto dirigia. Simone deitou a cabeça no seu ombro, segurou seu braço e puxou as pernas para cima.

Nenhuma das duas se surpreendeu pela corrida sair cara, o trânsito não estava bom e era bandeira dois. Simone não soltou o braço de Simone no pequeno caminho até o prédio, no elevador e no caminho até a porta do apartamento.

Simone se surpreendeu quando sentiu os braços de Julia ao seu redor, demorou alguns segundos para retribuir o abraço. Ela ouviu Amanda trancar a porta, depois sentiu a mão dela em suas costas, na altura da lombar. Julia murmurou no seu ouvido um pedido de desculpas e ela respondeu que não precisava pedir desculpas. Elas se afastaram.

— Vamos, melhor você tomar um banho, você ainda está cheirando a hospital. Eu posso ajudar você com os curativos.

Simone assentiu e foi para o banheiro, Amanda voltou com uma toalha e as roupas. Julia voltou para a cozinha para terminar de fazer o almoço. Amanda a ajudou a tirar a roupa, com cuidado. Ela tentou não pensar muito sobre as cicatrizes que ela podia ver no corpo da garota, as linhas quase retas em todas as partes possíveis do corpo. Amanda se perguntou como a garota conseguia suportar essa dor física.

— Quer ajuda com o cabelo? — Amanda perguntou.

— Hm, você vai se molhar.

— E daí? — Ela levantou e parou perto do box — Eu te ver nua te incomoda? — Ela ergueu as sobrancelhas.

—  É só que.. as...

— As cicatrizes? — Amanda tombou a cabeça para a direita e falou suavemente — Acha que eu tenho problema com elas ou você tem vergonha?

— Segunda opção.

— Certo... posso entrar? — Simone encolheu os ombros e assentiu lentamente.

Amanda empurrou a cortina e entrou no box, sem se importar nem um pouco se ela se molharia. Ela nunca se importava com pequenos detalhes quando ela queria ajudar alguém com quem ela sentia essa necessidade de cuidar.

Ela ajudou Simone a lavar o cabelo, passando os dedos entre os frios loiros. Ajudou a limpar as costas, ela ouviu quando Simone suspirou baixinho no momento em que ela passou os dedos pelas cicatrizes nos seus ombros. Amanda desceu as mãos pelos seus braços, parando perto dos seus cotovelos.

A psicóloga passou a ponta do nariz pelo seu ombro e depois beijou, delicadamente, uma das cicatrizes. Ela beijou outra e outra cicatriz nos seus ombros. Com a boca perto do seu ouvido, ela sussurrou enquanto descia as mãos um pouco mais para baixo, tocando os curativos com as pontas dos dedos:

— Eu amo você — Amanda a envolveu, apertando ela com força — Eu amo tanto você.

— Eu também amo você.

Simone conseguiu virar no abraço, ela enfiou as mãos por baixo da camisa da psicóloga, os dedos ‘enterrados’ na sua pele. A água era fria, Amanda podia sentir o jeans ficando mais pesado enquanto molhava, sentiu a água molhar seus pés dentro do sapato. Mas nenhuma das duas realmente se importava.

Amanda acariciou suas costas, as mãos subindo para seus ombros e descendo até sua lombar. Simone a apertou com o máximo de força, como se estivesse tentando ocupar o mesmo espaço que a mulher.

Ela podia sentir que havia algo incomodando Amanda, que a mulher ainda estava escondendo algo.

Claro que Amanda estava escondendo algo.

A psicóloga não teria coragem de contar para a garota sobre Clara. Como ela contaria para a garota que a amava, sim, com todo o seu coração, mas que estava perdidamente apaixonada pela outra mulher.

Amanda poderia dizer talvez tenha se apaixonado porque as duas eram parecidas. Assim como havia aprendido a amar Simone por causa das diferenças. E ela sabia que não podia contar, não podia machucar Simone ainda mais.

Ela apertava a garota como se estivesse tentando segurar os seus pedaços juntos, como se estivesse tentando colar seu coração junto outra e só assim Simone a amaria do mesmo jeito de antes. Do jeito como a amou no começo, quando se apaixonou. No primeiro beijo, na decisão de continuarem seguindo em frente com o relacionamento não tão ético assim, na primeira complicação e quando continuaram.

Amanda sabia perfeitamente que Simone só a amaria do mesmo jeito de antes se ela conseguisse “consertá-la”.

Sexta-feira, 09 de janeiro de 2006

— Mais alto! — Julia gritou e Amanda empurrou com um pouco mais de força.

Estavam na praça perto de casa. Com nove anos (mesmo que ela gostasse de deixar claro que tinha quase dez), Julia ainda era pequena o suficiente para ir insanamente alto com pouca força no balanço. O sol fazia as duas suarem, mas Amanda estava comais calor, afinal, ela precisava de um pouco de esforço para fazer uma criança quase voar no balanço.

Ele rangia em cada vez que o banco chegava ao ápice do seu balanço e então voltava a cair. Julia se inclinava para trás e para frente conforme o banco subia e descia. O cabelo claro brilhando sob o sol, ela ria com tanta inocência e felicidade que Amanda sentia isso tocando seu coração, se sentia feliz somente por assistir Julia.

(E claro que nenhuma das duas podia imaginar que aquela felicidade tinha sei tempo contado.)

— Eu trouxe sanduíches e refrigerantes! — Carmem falou, passando por elas com as bolsas — E não vá tão alto, pelo amor de Deus!

Julia riu e começou a tentar diminuir a velocidade, os pés arrastando pelo chão, levantando uma nuvem de poeira. Amanda agarrou as correntes quando Julia já estava devagar o suficiente para ela fazer isso sem sentir que seus ombros estavam prestes a serem deslocados.

Quando o balanço parou, Amanda passou os braços ao redor da garota e a levantou, Julia encolheu as pernas para não bater no banco. Ela deixou Amanda levar ela até a mesa de concreto onde a mãe delas deixou a sacolas e também sentou. Amanda deixou ela no chão e sentou em um dos bancos.

— Sanduíches de quê?

— Presunto para você e presunto com queijo para Julia.

— Porque você é uma fresca que não come queijo.

Julia falou e mostrou a língua, Amanda respondeu mostrando a língua também, Carmem riu baixinho enquanto via as duas garotas interagindo. Ela deu um sanduíche para cada uma, as duas abriram os potes ao mesmo tempo (sem olhar uma para outra). Carmem entregou um guardanapo para cada e depois abriu o refrigerante, encheu os dois copo. Então pegou o próprio sanduíche e o próprio copo.

Elas continuaram conversando, fazendo piadas idiotas e Julia falou sobre como estava ansiosa para o próximo ano. E Amanda não estava muito ansiosa para voltar para escola, ela nunca estava animada para ir para a escola

Quando Julia terminou de comer, ela agarrou o copo, saiu do banco que estava sentada e foi para onde Amanda estava. Ela subiu no colo da garota, se encaixando entre os seus braços. Ela terminou de beber o refrigerante, deixou o copo na mesa, passou os braços ao redor da sua cintura e deitou a cabeça no seu ombro. Amanda passou um braço ao seu redor e continuou bebendo o refrigerante.

Carmem apoiou o cotovelo na mesa e depois apoiou o queixo no punho cerrado. Ela gostava de ver o quanto suas filhas eram adoráveis juntas. Ela não gostava muito de imaginar como seria quando ela não estivesse mais lá para tomar contas das suas meninas, mas ela sabia que elas ficariam bem.

 

Afinal, elas tinham um ótimo relacionamento.

18. Estilhaços por Senhorita Charlie

Sábado, 24 de Dezembro de 2016

Como sempre, estava quente, o verão havia acabado de começar. Amanda colocou um novo band-aid nos dedos machucados. Ela havia decidido ajudar Julia a cortar cebola e claro que ela conseguiu quase arrancar um pedaço do dedo. Ou dos dedos, o indicador e o polegar ainda estavam doendo das múltiplas tentativas de ser útil na cozinha. Ela se perguntava se as facas tinham algum sentimento e sentiam prazer em passar pela sua carne.

Então ali estava ela, andando ao redor da cozinha, indo e voltando da sala tentando conseguir um momento em que Julia estivesse completamente distraída com a fritura. Se a garota se distraísse o suficiente, Amanda poderia pegar pelo menos duas daquelas rabanadas praticamente perfeitas (seriam mais perfeitas se estivessem sendo comidas por ela naquele exato momento). Quando Julia se distraiu na hora de trocar o óleo, Amanda tentou pegar o doce.

— Pare de tentar roubar as rabanadas! — Julia falou, dando um tapa na mão da mulher.

— Eu estou com fome — ela grunhiu.

— Tem presunto na geladeira e pão na mesa.

— Mas é pão integral!

— E?

— Eu não gosto de pão integral — ela cruzou os braços, os olhos fixos nas rabanadas em vez de olhar para a irmã.

— Então você vai ter que esperar até a ceia para comer!

— Julia...

— Não — Simone riu baixinho, estava sentada na mesa observando as duas interagindo — Simone, você não pode ajudar aqui?

— Eu também estou com fome — ela levantou — Deixa a gente comer uma dessas rabanadas lindas aí...

— Não, saiam da minha cozinha, suas esfomeadas!

Simone segurou o pulso da psicóloga e puxou ela para fora da cozinha, indo em direção à sala, Ela fez Amanda sentar no sofá de dois lugares e se sentou ao seu lado, as pernas sobre as suas coxas. Os braços cruzados e a cabeça deitada nas costas do sofá. Amanda ouviu o telefone vibrar na mesa de centro, Simone puxou as pernas para si apenas por tempo o suficiente para a psicóloga pegar o telefone e ver o nome de Clara na notificação.

Eu preciso esperar até 00:00 para te dar Feliz Natal? Amanda sorriu com a mensagem e respondeu rapidamente acho que não. A resposta chegou em menos de um minuto então Feliz Natal. As coisas estão indo bem?

Sim, e por aí?

A programação da TV não é muito boa e vinho com miojo não é muito gostoso.

Loba solitária?

Sim. Se resolveu com a sua irmã? E com a sua garota?

Acho que sim, parece tudo bem no momento.

Vai ficar tudo bem.

Todos dizem isso.

Claro que todos falam. É só a injeção de um pouquinho de esperança. Quem não precisa de doses disso?

Um pouquinho disso faz bem.

Claro que faz. Mudando de assunto, não e você que está fazendo a ceia, certo?

Não. Mas por que eu não posso fazer?

Porque você não sabe cozinhar.

É, eu não sei. A Julia sabe e ela está sendo má comigo.

Por que?

Ela está fritando rabanada e não me deixa comer nenhuma.

PEGA E SAI CORRENDO. Simples assim.

Eu moro em apartamento, não tem muito lugar para correr.

Só precisa correr o suficiente para comer, eu sei que você come rápido. Sua esfomeada.

Você não sabe o quanto isso aqui é cheiroso, acho que dá para sentir no prédio inteiro.

Assim eu fico com vontade de comer também.

Yaaaay.

Meu Deus, para de ser fofa. Eu vou abrir outra garrafa de vinho e procurar algo para assistir.

Boa sorte com isso.

Simone ergueu as sobrancelhas quando Amanda guardou o telefone, ela sentiu o animal raivoso em seu peito rugir com a velha sensação de ciúmes. Afinal, ela tinha que admitir que não estava muito feliz em ver Amanda sorrindo assim. Não era um daqueles sorrisos abertos, brilhantes, era só um curvar dos lábios. Porém, era o ‘conjunto da obra’. O leve tom de rosa nas suas bochechas e o brilho nos olhos.

— Amigo? — Simone perguntou, um pouco do ciúme escorreu para sua voz.

— Mais ou menos.

— Mais ou menos?

— É uma colega de apartamento de Rio Branco.

— Você teve uma colega de apartamento por lá?

— Sim — Amanda não estava olhando para ela, estava ocupada procurando algo na programação da TV, a mão livre em sua coxa — Algum problema?

— Não.

— Você está com ciúmes.

— Não.

— Sim, você está. Você sabe que eu amo você.

— Você diz “eu amo você” como se estivesse tentando convencer alguém.

— Eu estou tentando convencer você — Amanda abaixou o controle e olhou para ela — Porque parece que você não acredita de verdade nisso.

— Porque eu sei que você amava quem eu era.

— E eu amo quem você é agora — Amanda tirou a mão de sua coxa, se inclinou um pouco e acariciou o seu rosto — Tente acreditar em mim, por favor.

Domingo, 25 de dezembro de 2016

Já era quase quatro da manhã quando Simone se arrastou para fora da cama, com cuidado para não chutar Amanda sem querer. Apesar de terem se aproximado lentamente outra vez, nenhuma das duas parecia realmente confortável em se apertar numa cama de solteiro, então Simone acabava dormindo na cama e a psicóloga dormia no colchonete.

Ela andou até a cozinha e, com cuidado para não fazer nenhum barulho, ela abriu uma das gavetas e pegou uma das facas. Não uma serrada, uma pequena, que ela quasetinha certeza que era de legumes. Mas o nome da faca não importava nem um pouco, o que importava era o quanto essa faca era afiada. Ela testou na ponta do dedo indicador, sentiu a dor já familiar e uma gota de sangue escorreu pelo seu dedo.

Ela colocou o dedo na boca, pressionando com a língua para parar de sangrar. Seus olhos estavam com a velha expressão quase doentia, como a de um drogado na expectativa de saciar seu vício. Ela se assustou quando ouviu um pigarreio vindo da entrada da cozinha, se virou escondendo a faca atrás das costas.

— O que você está fazendo aqui?

— Eu moro aqui — Amanda respondeu, ela esticou o braço e acendeu a luz — E você?

— Eu só... vim beber água.

— Não, você não veio.

— Sim, eu vim.

— Não. Você nunca levanta de madrugada para beber água.

— Está calor.

— Por isso você deixa uma garrafa do lado da cama.

— Já está quente...

— É uma garrafa térmica — Amanda deu um passo para frente e empurrou a gaveta — Exatamente porque estamos no verão.

— Eu...

— Você não sabe mentir — Amanda parou bem em frente a ela.

— Eu odeio quando você faz isso.

— Quando fico muito perto?

— Não... quando você é mais esperta que eu.

— Eu não sou mais esperta do que você — ela alcançou o pulso da garota e puxou para frente — Eu só conheço você melhor do que você imagina.

— Mesmo depois de ter mudado tanto assim?

— Certas coisas sobre você nunca vão mudar. Você sabe que eu não vou deixar você se machucar assim — Amanda tirou a faca da sua mão, a deixou dentro da pia e abraçou a garota — Você não disse que me deixaria ajudar? — Simone assentiu — Então me deixe ajudar... vamos fazer assim: cada dia em que você não se machucar. Não só não se cortar, cada dia em que você não tentar se machucar de propósito, vamos marcar no calendário.

— Acha que isso dá certo?

— Sim. É como bebida, você evita todos os dias. Por uma semana, por um mês, por anos. E sempre que você desejar fazer de novo, você pode se lembrar de todo o tempo que você ficou sem precisar disso — Simone assentiu outra vez — Então, agora vamos voltar para o quarto.

Amanda escorregou as mãos pelos seus braços e puxou ela para o quarto. Em vez de voltar a deitar no chão e deixar a garota na cama, a psicóloga se enfiou na cama. Deitada de barriga para cima e ela não precisou falar nada, nem mesmo realmente olhar para a garota, para que Simone subisse na cama e se enfiasse no seu colo. A cabeça deitada no seu peito, os olhos fechando e ouvindo a batida rítmica do seu coração, uma mão na sua cintura e a outra no seu ombro. Amanda envolveu seus ombros com um braço e começou a acariciar o seu cabelo, os dedos passando lenta e carinhosamente pelo cabelo loiro.

Simone fechou os olhos, sentindo o peito da psicóloga subir e descer debaixo dela. No ritmo conhecido, confortável e familiar. Um pequeno pedaço da sua vida antiga. O mesmo cheiro, a mesma sensação de segurança. Como se ela estivesse dentro de um casulo, com paredes resistentes que não deixariam ninguém machucá-la.

As mesmas paredes que não ela machucar a si mesma.

Terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Amanda estava andando de um lado para o outro, preocupada porque ela havia acordado e Simone não estava lá. Desde a madrugada de Natal, para um certo alívio na sua vida, Simone parecia um pouco mais confortável com os abraços e coisas assim.

Já era quase onze da manhã quando a porta foi aberta, mas Simone não entrou, ela só enfiou a cabeça para dentro.

— Ei.

— Onde você estava? — Amanda parou perto da porta, as mãos nos quadris.

— Eu estava resolvendo uma coisa...

— Que coisa?

— O seu, hm, presente de Natal.

— Presente de Natal? Mas...

— Não é uma coisa cara.

— Eu não te dei nada de Natal.

— Você está por aqui, isso já é um bom presente — Amanda corou levemente — Eu espero que a Julia não se irrite.

— Me irritar com o que? — Julia se aproximou — O que você está escondendo?

— Bem...

Ela empurrou a porta com o pé. Nos seus braços, com o rabo balançando e começando a se contorcer para pular para o chão, havia um cachorro. Um filhote de labrador marrom e extremamente adorável, havia uma pequena coleira ao redor do seu pescoço e ela estava com uma sacola no pulso da mão que estava usando para literalmente segurar a bunda do cachorro.

— Meu Deus!

Julia e Amanda falaram ao mesmo tempo. Claro que Julia falou com o tom entre surpresa e repreensão. E Amanda parecia mais “ai meu Deus, um filhooote” ela esticou as mãos, os dedos se movendo “me dá de uma vez”. Simone riu e deixou Amanda pegar o filhote. A psicóloga abraçou ele, soltando um som baixo de felicidade. Ela sentou no chão e deixou o cachorro no chão, o filhote correu ao seu redor antes de pular no seu colo.

— Você pode mudar o nome se quiser — Simone falou enquanto Amanda estava ocupada enfiando o rosto no pelo marrom.

— E qual o nome você colocou? — Julia perguntou. Simone corou antes de responder.

— Almondega.

— Almondega? O nome dela é Almondega?

— É um nome fofo — Amanda defendeu.

— É o nome de um bolinho de carne!

— É um bolinho de carne e pelos — Simone apontou — E nome de comida. Todo mundo gosta de comida. Principalmente a sua irmã.

— Eu gostei — Amanda falou, o filhote tocou seu nariz com o focinho — Aaaawn.

— É um Labrador. Ela talvez seja um pouco grande para apartamento...

— E não tinha uma raça menor?

— Adultos, não se adaptariam à um apartamento.

— Meu Deus — Julia suspirou — Eu não sei qual das duas parece mais um filhote!

— Não seja tão rabugenta — Amanda levantou — Pegue.

— Não, obrigada — ela cruzou os braços.

— O poder da fofura ordena: pega!

— Não.

— Julia...

— Eu não gosto de cachorro, não podia ser um gato?

— Eu não posso chamar um gato de ‘almondega’!

— Então você escolheu um cachorro só para chamar assim? É sério, Simone?

— Talvez...

— Quando você decidiu adotar um cachorro?

— Quando eu acordei.

— Simone....

— É um cachorro adorável — Amanda assentiu rapidamente — Dois cachorrinhos adoráveis.

Julia revirou os olhos e voltou para a cozinha, Simone trancou a porta, deixou a sacola com a ração do cachorro na bancada e se jogou em um sofá. Em uma segunda sacola, tinha uma meia dúzia de brinquedos de cachorro.

— Eu comprei algumas coisas — Simone ergueu a sacola, Amanda pegou rapidamente e jogou o conteúdo no sofá — Depois eu compro mais alguma coisa.

— Onde você arranjou dinheiro para isso?

— Meu pai deixava dinheiro escondido em todos os lugares possíveis dentro de casa, então eu ainda tenho alguma coisa.

— Hm, certo. Isso é ótimo.

 

Simone assentiu, Amanda pegou uma das bolas coloridas, pronta para jogar do outro lado da sala para começar a brincar com Almondega. Adotar um filhotinho provavelmente foi uma das melhores ideias que Simone já teve, pelo menos nos últimos meses.

19. Está no Sangue por Senhorita Charlie

Sábado, 31 de dezembro de 2016

Simone respirou fundo, estava suando. Ela tinha sensação de que o verão ficava pior a cada ano. Mais quente e infernal. Era assustador como era diferente a situação que ela estava ali e a que ela estava um ano antes.

Era tudo mais fácil.

Ela olhou para o relógio na parede, quase onze da noite. No ano anterior, ela estava bêbada naquele horário. Alguma música aleatória que ela não conseguia se lembrar qual era estava tocando do seu telefone, ela estava sentada no sofá e com uma Amanda muito bêbada e muito sexy no seu colo. Ela não sabia que Amanda podia dar uma bela lap dance tão excitante. 
Ela não reclamaria se tivesse algo do tipo... Mas elas sequer haviam se beijado. Estavam dormindo na mesma cama, morando juntas, tinham uma rotina, mas não estavam realmente juntas. E Simone se perguntava se Amanda seguiria em frente logo, se em breve ela já estaria com outra pessoa. Era doloroso pensar que Amanda definitivamente encontraria alguém melhor que ela.

- Ei - Amanda chamou ela - Quer um pouco? - Ela levantou a jarra com suco.

- Hm, sim, obrigada - Amanda encheu um copo e foi para o sofá.

Amanda sentou ao seu lado, as duas bebendo devagar. A psicóloga respirou fundo, era estranho saber o quanto era diferente a situação atual da situação em que estavam no ano anterior. Amanda se inclinou para frente e deixou o copo na mesa-de-centro.

Ela sentiu Simone deitar a cabeça no seu ombro. Amanda passou um braço ao seu redor e a segurou um pouco mais perto. Depois de meia hora, Julia avisou que ia ver alguém em outro apartamento (era 80% uma desculpa perfeita para deixar elas juntas). Como a maior parte do casas, elas deixaram a TV no canal em que estava com a contagem regressiva.

Simone tirou a cabeça do seu ombro e olhou para ela. Amanda virou o rosto. A garota colocou as mãos nos seus ombros e sentiu a psicóloga colocar as mãos na sua cintura. Ela sabia que nunca se cansaria de ver o olhar que Amanda tinha nos momentos antes de um beijo. Olhos castanhos brilhando e se movendo entre os lábios e os olhos verdes que estavam fazendo a mesma coisa.

O movimento delas foi praticamente sincronizado e seus lábios se tocaram exatamente no momento em que o grande ‘zero' apareceu na tela da TV e os fogos fizeram a sala brilhar com o colorido.

Simone afastou um pouco o corpo (se forçando a continuar beijando a psicóloga) e puxou as pernas para cima do sofá. Elas se conheciam o suficiente para saberem como se tocar, se mover, sem precisarem se olhar ou falar algo. Simone se inclinou para trás, deitando no sofá e Amanda a acompanhou. A garota cruzou os tornozelos atrás da psicóloga, enfiou os dedos no seu cabelo e gemeu baixinho quando a mulher finalmente empurrou a língua para dentro da sua boca.

- Amanda - falou baixo quando se afastaram para respirar por um segundo.

- Sim?

- Eu não quero fazer isso aqui... No sofá.

Amanda assentiu, beijou ela mais uma vez. Passou os braços ao redor da sua cintura e se ajoelhou no sofá. Se levantou, carregando ela. Simone agarrou a parte de trás da sua camisa e apoiou a testa no seu ombro. Ela chutou a porta atrás de si depois que entrou no quarto. Foi até a cama e deixou Simone deitar suavemente na cama.

Era difícil ouvir até o próprio coração com o som dos fogos de artifício do lado de fora. O quarto estava escuro, mas a luz colorida brilhava fraca quando os fogos de algum lugar por perto estouravam.

Amanda mordeu seu lábio inferior antes de seguir a linha do seu maxilar com beijos e mordidas. Ela sentiu as pernas da garota apertarem ela com mais força quando beijou um ponto fraco no pescoço. Ela deixou um caminho com pequenas marcas de mordidas pelo pescoço até o limite do decote. Simone não hesitou em deixar Amanda tirar sua camisa.

A psicóloga passou delicadamente os dedos pelas cicatrizes, beijou algumas gentilmente. Não era uma surpresa que ela fizesse isso. Muito menos que fizesse isso murmurando coisas como ‘vai ficar tudo bem' e ‘eu amo você', às vezes tão baixinho que Simone não entendia quais eram as palavras sussurradas contra a sua pele. Simone deixou ela tirar o jeans e Amanda tocou, beijou e murmurou do mesmo jeito.

Amanda deixou Simone puxar sua camisa para fora do seu corpo. A calcinha e o sutiã foram para em algum canto do quarto. Simone enfiou as unhas nas suas costas quando Amanda passou a dar atenção aos seus seios no mesmo momento em deixou o dedo indicador escorregar lentamente para dentro. Ela pegou ritmo quando o médio acompanhou o outro e ela usou o polegar para fazer os movimentos circulares que ela sabia muito bem que deixava Simone no limite. Ela beijou a garota quando chegou os dedos, quando deu as últimas estocadas firmes para fazer ela praticamente gritar seu nome no ápice.

- Você está bem? - Simone assentiu contra o seu ombro - Eu amo você.

- Eu também amo você.

Terça-feira, 03 de janeiro de 2017

Mar se odiava.

E ela odiava o fato de agora ser realmente um monstro.

Ter seu coração quebrado. Quebrar o coração de quem você ama porque isso talvez evite que você a machuque ainda mais. Qual dói mais? Qual te destrói mais?

Mas ela não havia só quebrado o coração de Ana. Não, ela não só havia dito que não a amava e que não se importava. Mesmo que estivesse em uma cama de hospital por ter apanhado para defender a garota, ela sabia que foi convincente. Só que não era o suficiente.

Ela não estava bêbada, não estava com raiva, estava sendo deliberadamente cruel. As marcas de dedos, os hematomas no pescoço, no braço, na cintura... Tudo desaparecia. Não ficaria nenhuma cicatriz em seu corpo. Em semanas, seria como se nada tivesse acontecido. Porém, era algo que nenhuma das duas esqueceria. Mar não sabia o quão pesado o trauma seria, o quão diferente seria do dela e nem como seria se ela tivesse deixado Henrique e os amigos dele machucarem Ana. Ela só sabia que destruir alguém é o jeito mais fácil a definitivo de se afastar.

Mar era instável, quase uma bomba relógio. Então ela faria Ana ir embora, ela fez Ana ir embora e dessa vez não haveria um caminho de volta. Ela faria Amanda e Simone irem embora.

Mais mentiras contadas, mais promessas quebradas, mais danos feitos. 
Depois de alguns minutos que Ana saiu do quarto, Amanda entrou. A psicóloga olhou para a garota com a cabeça inclinada levemente para o lado, adoravelmente confusa. Ela se aproximou da cama e abraçou a garota, Mar grunhiu baixo, passou os braços ao redor da sua cintura e enfiou o rosto na curva do seu pescoço, respirando fundo e sentindo o cheiro familiar ocupar sua mente. Deixando seu corpo relaxar contra o aperto forte que ela precisava tanto. As mãos de Amanda acariciaram suas costas, movimentos circulares que aqueciam ela de um jeito confortável. Mar não sabia se a psicóloga tinha esse efeito nela porque era uma espécie de dom ou se porque Mar se sentia confortável perto dela. Ela se sentia segura perto dela. Porém, tudo o que Mar queria fazer no momento era ficar ali, sentindo a psicóloga a abraçar como se pudesse juntar

- O que aconteceu? - Sua voz era suave e calma, em um volume baixo que fazia ela soar mais grave. Era uma voz familiar e Mar lembrar que ainda havia alguém que ela não havia machucado. Que ainda havia alguém que ela poderia machucar - Você pode me contar qualquer coisa, eu não vou ir embora.

- Você deveria - a voz dela falhou como se ela estivesse quebrada demais até para falar - Ir embora, você deveria ir embora.

- É mesmo? Você está me segurando como se a sua vida dependesse disso...

- Eu sei - ela sabia que deveria soltar e mandar Amanda ir embora, mas ela só conseguia segurar a garota mais perto e continuar com o rosto enfiado nela, respirando fundo e sentindo como seus músculos relaxavam devagar.

- Então eu não preciso ir embora.

- Amanda...

A psicóloga murmurou shh e beijou sua têmpora. Apertou a garota contra com o máximo de força que podia sem machucar. Mar grunhiu, ela tinha que fazer de uma vez. Se fizesse Amanda ir embora, se a assustasse o suficiente, talvez nem mesmo precisaria tentar afastar Simone. Amanda tentaria manter a garota a salvo.

- Eu machuquei ela - olhou direto para aqueles olhos castanhos que sempre era cheios de empatia e carinho - Eu falei coisas ruins para ela. E eu... Machuquei ela fisicamente - respirou fundo, se afundando ao máximo possível na máscara cruel - Eu a estuprei.

Então ela falou detalhes que Amanda não precisava saber. Sobre como a garota tentou fugir, implorou para ela não continuar e a olhou como se fosse o fim do mundo. Sobre os empurrões inúteis, os soluços do choro e os gemidos de dor de cada estocada forte.

Mar sentiu o aperto forte nos ombros, as mãos de Amanda eram mais fortes do que ela havia pensado e realmente machucavam. E ela não a olhava com medo, como havia imaginado, era mais uma fúria fria crescendo a cada palavras, a cada detalhe da nova destruição de Mar.

Então ela decidiu ir mais longe, eu poderia fazer isso com você, falou e escorregou as mãos da sua cintura, enfiou o indicador entre o jeans e a pele dos dois lados. Lentamente, descrevendo mais detalhes do que ela poderia fazer, ela escorregou as mãos para frente até chegar na fivela do cinto. Como o olhar de Amanda não mudou muito, ela mudou a ameaça para Simone. Primeiro, como ela faria, segundo, como ela se arrependia de não ter deixado Henrique fazer há meses. Ainda não parecia o suficiente para ter alguma resposta, alguma ameaça, somente a fúria fria paralisada que mantinha Amanda perto dela parada como uma estátua.

Ela sequer terminou a frase, no momento em que ela mencionou Julia, o tapa veio com força. Sentiu o gosto de sangue e a dor no pescoço. Também sentiu os dedos no seu queixo, fazendo ela virar o rosto outra vez. O aperto era forte o suficiente para ela sentir as unhas cravadas na sua pele e para não conseguir mover a mandíbula. E ali estava a raiva que ela queria antes. Queimando, ardendo e ameaçadora. Ela podia ver o vermelho subindo pelo pescoço de Amanda, além dos músculos tensos e a respiração pesada.

A psicóloga era racional. A maior parte dela realmente acreditava que Mar não faria nada daquilo, a maior parte do estava lutando para não acreditar Mar havia feito aquilo. E era a parte que continuava no comando na maior parte do tempo... Até qualquer centelha de perigo ser ligada à Julia. Ela não era a irmã perfeita, sabia que não havia cuidado tão bem assim dela durante todo esse tempo, mas ela havia continuado de pé por causa dela.

E ninguém podia ousar tocar em nem um fio de cabelo de Julia sem permissão.

Não importava quem fosse, ameaçar a garota era entrar em uma zona perigosa. Era pedir para se machucar.

Era um momento em que Amanda não se importava com quem era, era o momento em que Amanda era o perigo. Por mais que ela detestasse violência, por mais que ela detestasse o TEI e a sensação que vinha antes de uma crise, ela praticamente deixava vir. Deixava a raiva entrar e entrava nesse ‘modo monstro' onde ela precisava muito se segurar para não esmagar a cara de alguém.

Ela tirou a mão do seu queixo e agarrou seu pescoço.

- Não ouse ameaçar ela, não ouse nem pensar sobre isso - Mar tirou as mãos da fivela do cinto para agarrar o braço, não era a primeira vez que alguém agarrava seu pescoço, mas era diferente. Nunca foi forte assim, sempre foi com a intenção de machucar, mas a sensação ali era que a intenção era ir mais longe que isso - Você se lembra do que eu disse sobre o Henrique? Eu posso fazer o mesmo com você. Eu posso fazer pior. Você disse que ninguém podia ajudar a Ana enquanto você a machucava... E ninguém pode salvar você de mim quando eu precisar acabar com você.

Mar esperava raiva, ódio. Mas não esperava que o jogo virasse tão subitamente. Não esperava que em poucos segundos, Amanda parecesse tão assustadora.

- Eu sei que eu posso ser boa. Eu sou na maior parte do tempo, mas tem uma coisa que você talvez ainda não saiba - tirou a mão que ainda estava no ombro da garota, que estava arranhando seu braço (afinal, fazia dias que ela não podia cortar ou lixa as unhas), e colocou a ponta do dedo indicador contra a própria têmpora - Existe essa parte ruim. Essa parte quebrada que me faz ser pior do que você pode imaginar. Eu vou me arrepender se precisar matar você, eu sei, mas você não vai ver isso se tentar machucar a minha irmã. Entendeu? - Mar assentiu do melhor jeito que podia - Eu estava errada sobre você. E você está errada sobre mim.

 

Amanda a soltou e virou imediatamente, ela podia ouvir Mar gemer e puxar o ar com força, mas ela precisava sair o mais rápido possível. Precisava de um pouco de água fria no rosto para se acalmar, a última vez em que ela teve uma crise tão forte foi no beco naquela noite. Não era só raiva, era algo misturado com instinto protetor que trazia essa parte dela. Era o tipo de coisa que fazia ela achar que era um monstro.

Ela podia matar alguém com as próprias mãos sem hesitar.

 

Notas finais:

Se quiser falar comigo, venha no Twitter 

 

(também há o Facebook, mas eu uso mais Twitter e Tumblr 

20. Faz Parte da Família por Senhorita Charlie

 

Terça-feira, 03 de janeiro de 2017

- Ei.

Amanda chamou baixo, colocando a mão delicadamente no seu ombro (por simples costume), mas se arrependeu no momento em que Ana se assistiu o suficiente para pular mais alto do que ela achou que alguém tão pequeno poderia pular. A psicóloga ergueu as mãos e deu um passo para trás, assustar a garota não era sua intenção. Ela poderia ter se estapeado, claro que Ana se assustaria fácil depois do que Mar havia acabado de fazer. Ela se lembrava de como Julia passou semanas se assustando levemente toda vez que ela se aproximava (mesmo que ela achasse que fosse a combinação do que Henrique quase fez e o que ela fez), ela deveria ter imaginado que não deveria simplesmente se aproximar e tocar aquele jeito, por mais delicado que fosse.

- Desculpe - ela abaixou as mãos e colocou para trás, juntando elas e entrelaçando os dedos - Eu não queria te assustar.

- Não, tudo bem - Ana cruzou os braços - Eu não vi você chegando, só isso.

- Você está bem?

- Uhum.

- Tem certeza? - Ela virou a cabeça um pouco para o lado. Ana tinha certeza que soltaria uma risadinha se fosse uma situação comum e não se ela ainda estivesse se sentindo assustada - Não precisa mentir para mim.

- Eu não estou mentindo - ela deu um passo para trás, mas a mureta estava bem ali e ela só não caiu porque Amanda foi rápida o suficiente para segurar ela. Ela se assustou um pouco, mas o braço segurando ela chamou sua atenção - O que aconteceu com o seu braço?

- Nada - a soltou e colocou a mão para trás outra vez.

- Você mente pior que eu.

Entre tentar se afastar e não assustar mais a garota, ela acabou deixando Ana segurar o seu pulso e puxar para dar uma olhada no seu braço. Os arranhões estavam vermelhos, alguns era apenas marcas das unhas que passaram sem tanta força assim e já estavam sumindo, outros foram fundos o suficiente para sangrar. Além de marcas dos dedos de quando Mar tentou segurar seu pulso com força o suficiente para ela soltar. Isso combinado com os arranhões que um filhote de cachorro pode deixar nela, seu braço estava em um estado que parecia muito doloroso.

-Amanda.

- Metade disso é culpa da Almôndega.

- Da o que?

- A filhote de labrador que a Simone me deu de Natal.

- Eu achava que gatos arranhavam e cachorros mordiam.

- Ambos fazem os dois.

- E a outra metade?

- Hm?

- Você disse que metade foi sua cachorra, e a outra metade?

- Nada...

- Mar, não foi?

- Não.

- Sei - ela apontou para um dos arranhões mais fundos, ainda um pouco inchado - Isso é recente. Muito recente, nem meia hora atrás.

- E como você sabe, Sherlock?

- Porque ainda sobrou um pouco de cérebro sob esse calor infernal do verão dessa cidade - ela desceu um pouco a mão, segurando a de Amanda, avaliando o hematoma no pulso - Além disso, não existem muitas pessoas por aqui que podem envolver o seu pulso.

- Nem está doendo.

- Sei - ela franziu o cenho enquanto tentava entender o padrão das marcas, ficou ainda mais confusa quando reparou que as marcas no outro braço eram apenas marcas das unhas de um cachorro - Isso não faz sentido.

- O que não faz sentido?

- Você ter marcas só em um braço. O que aconteceu, Amanda?

- Nada - Ana revirou os olhos e o olhar dela fez Amanda se perguntar se Ana havia passado tempo demais com Simone e aprendido a questionar ela sem falar nada ou se Amanda só estava mais sensível do que o comum - Okay, você venceu. Podemos ir tomar um sorvete e eu te conto, pode ser? Eu pago.

Ana hesitou por um momento antes de assentir. Amanda ofereceu o braço esquerdo para ela segurar, a garota o fez e deixou Amanda guiar o caminho. Ela ainda não havia reparado: Amanda era mais baixa do que Mar e mais alta do que Simone, bem no meio do caminho entre as duas alturas. Ela não era tão forte quanto Mar, mas era uma presença firme do seu lado de qualquer maneira.

Ela ainda não sabia porque era tão fácil de sentir confortável e segura perto da psicóloga. Mas ela não reclamaria, essa sensação era o que ela mais precisava naquele momento. Ana só percebeu o quão forte ela estava segurando o braço da mulher quando precisou soltar ela para sentar. Amanda não havia pedido para soltar quando ela precisou catar a carteira para pagar os dois McFlurries de M&M (Ana havia somente respondido ‘o mesmo que você' quando Amanda perguntou o que ela queria), quando pegou os dois potes e andaram entre as pessoas para sentar em uma mesa de dois lugares.
Ana engoliu seco vendo as novas marcas no braço da mulher. Ela observou a psicóloga misturar a calda com o sorvete de baunilha. Era um dia quente, como o clássico dia de janeiro no Rio.

- Vai me dizer o que aconteceu? - Ana perguntou.

- Talvez Mar tenha me contado o que ela fez com você - Amanda não disfarçava muito bem quando estava com raiva, ela começou a enfiar a colher com mais força no sorvete e os seus ombros ficaram tensos - E, hm, eu meio que perdi a paciência. Talvez eu tenha ameaçado ela.

- Só ameaçado?

- Sufocado um pouquinho.

- Amanda...

- Ela mereceu! - Amanda grunhiu antes de continuar - Às vezes eu não controlo minha raiva muito bem, só isso.

Ana assentiu, ela não se sentia bem um pouco a vontade em conversar sobre o assunto. Ela não queria pensar sobre o assunto. E ela queria que as sensações ‘fantasmas' das mãos de Mar no seu corpo. Era como uma sensação agoniante que parecia andar por baixo da sua pele. Ela se concentrou em terminar de comer o sorvete em vez de pensar sobre isso.
Quando acabaram de comer, levantaram. Amanda ofereceu o braço outra vez e Ana segurou, agora com cuidado para não segurar com toda força. O estacionamento era quase do lado do hospital, então um caminho curto.

- Eu não sei onde você mora - Amanda batucou os dedos no volante enquanto tentava entrar no tráfego - Ou você não quer ficar sozinha?

- Eu não reclamaria de não ficar sozinha.

- Certo, então você não precisa ficar sozinha.

***

A primeira coisa que Ana percebeu foi o cheiro de cebola refogada antes mesmo de Amanda abrir a porta do apartamento. Do sofá, Julia acenou com a boca cheia de um bocado de amendoim que ela havia acabado de enfiar na boca.

- Ei, Ana - Simone cumprimentou ela da bancada da pia onde ela estava terminando de escorrer a batata cozida.

- Ei.

- Fique confortável - Amanda gesticulou para ela sentar no sofá, então parou perto de Simone, beijou sua bochecha - Desde quando você cozinha?

- Eu sei fazer algumas coisas.
Amanda riu baixinho, pegou dois copos e encheu com água. Ela voltou para a sala e deu um deles para Ana antes de pegar o pacote de amendoim da mão de Julia.

- Amanda!

- Seja uma boa garota e divida - encheu uma mão e ofereceu para Ana, que deixou Amanda colocar um pouco na sua mão - Você pode tomar um banho se quiser e roubar uma roupa confortável da Julia.
- Não precisa...

- Não tem problema - Julia encolheu os ombros e pegou o saco de amendoim de volta - Jeans e camiseta não é a roupa mais confortável.

Depois de mais dois ou três argumentos e o combo de cara de cachorro abandonado que Amanda e Julia podiam fazer, Ana finalmente aceitou a blusa e os shorts que Julia encontrou. A diferença de tamanho não era tão grande, então era confortável. Quando saiu do banho, Simone e Amanda estavam terminando de arrumar a mesa e Julia estava voltando do mercadinho com o refrigerante.

Ana não sabia se Simone era realmente boa em cozinhar ou se era só porque ela não estava acostumada a comer comida feita em casa que não fosse macarrão com molho. 
Mesmo que Simone tenha feito comida para três, acabou sobrando um pouco e ela ajudou a lavar a louça. Ela quase podia sentir que Julia e Simone sabiam que havia algo de errado e não perguntavam apesar da curiosidade.

Como ninguém tinha alguma coisa para fazer, já que Ana, Julia e Simone ainda estavam de férias e de certo modo, Amanda também estava (ela não tinha a mínima vontade de voltar a trabalhar todo dia no mesmo prédio de Arthur e nem coragem de ir embora, então ela ainda precisava resolver antes que precisasse voltar para um dos dois lugares), Julia procurou um filme para assistirem e encherem a tarde com um pouco de cultura inútil.

***

Foi impossível convencer Ana de dormir no quarto de uma das duas, então Amanda praticamente criou um forte com travesseiros, lençóis e cobertores. Era um ninho de conforto na sala que fazia o sofá desaparecer e Ana afundar.

Antes de ir tomar banho para ir dormir (a última das quatro), Amanda abriu os braços para abraçar Ana. A garota passou os braços ao redor da sua cintura e apertou com força. A psicóloga murmurou que tudo ficaria bem antes de dar um beijo na sua testa e se afastar.

Não era muito difícil de se acreditar.
Ela não conseguiria dormir muito, não conseguiria relaxar ou esquecer, mas o calor confortável de Amanda deixava ela confortável.

***

A psicóloga deixou a água quente contra suas costas, era calor o suficiente para ser doloroso. Ela não havia parado para realmente pensar sobre isso. Para refletir sobre o que havia acontecido. Não fazia sentido que Mar tivesse machucado Ana somente por diversão. E era incômodo como a ameaça que ela havia feito era verdade. Apesar de todos os problemas que ela teve com Julia, ainda era uma verdade absoluta: Julia era a pessoa mais importante e ela era incapaz de hesitar em machucar alguém se alguma pessoa pudesse machucar Julia.

Ela terminou o banho, a pele sensível pela água quente e pela força com a qual ela se esfregou (como se pudesse tirar a sensação de incômodo, se algo preso na garganta).

Amanda sentou na cama com a toalha nas mãos terminando de enxugar o cabelo. Simone se ajoelhou atrás dela, já havia tomado banho e estava enfiada em uma das camisas da mulher. Ela tirou a toalha das mãos da psicóloga e começou a secar seu cabelo com delicadeza, ela viu que os ombros de Amanda relaxaram um pouco e ela se deixou ir um tanto para trás.

- O que aconteceu? - Simone perguntou suavemente.

- Nada demais.

- Nada demais porra nenhuma, você mal comeu no jantar. E no almoço.

- Eu não estava com fome.

- Você sempre está com fome - Amanda suspirou - Não quer falar sobre isso?

- Não.

- Okay... Vem aqui.

Simone assentiu e se deitou na cama, Amanda não demorou muito para levar a toalha para o lugar e se deitar na cama também. A cabeça apoiada no seu peito, Simone começou a acariciar suas costas. Lentamente, de cima para baixo, movimentos circulares aleatórios. Amanda relaxou um pouco mais, os olhos fechados e tentando respirar fundo e lentamente.

Amanda não fazia ideia de como contar para Simone, ou para Julia, o que havia de errado.

Simone começou a murmurar a melodia de uma música que ela não conhecia assim que sentiu a primeira lágrima tocar sua pele. Ela sabia que Amanda era quem costumava confortar e apoiar, então ela não hesitou em deixar um braço ao redor da sua cintura e apertar a psicóloga com um pouco mais de força e em enfiar os dedos da mão livre no seu cabelo para fazer cafuné.
Ela ficou acordada por mais um tempo depois que Amanda dormiu tentando não pensar em algo ruim.

Quarta-feira, 04 de janeiro de 2017

- Quieta, shh - Julia se abaixou e pegou a cachorra agitada - Você vai acordar todo mundo, sua bola de carne!

Fez carinho entre as orelhas e andou até a tigela de comida e água, colocou ração e trocou a água. Ela sabia que tinha tempo o suficiente para tomar banho, enrolar um pouco e ir na padaria antes de começar a fazer o café da manhã. Era sua rotina. Ela sempre acordou mais cedo que Amanda. Nas manhãs em que ela encontrava a mulher dormindo com o rosto apoiado em algum livro ou em um caderno, nas manhãs em que a mulher estava dormindo no sofá com a TV ainda ligada ou quando ela estava no quarto (até quando dormiam juntas e ela precisava se esforçar para não acordar a psicóloga), Julia sempre se levantava antes. Ela havia se acostumado a ver Amanda dormindo em algum lugar que não fosse a cama, mas ela não estava preparada para o quanto Ana era adorável dormindo no ninho de conforto.

Ela parou perto do sofá e olhou Ana por alguns momentos. Parte dos travesseiros acabaram indo parar no chão. O sofá era grande o suficiente para ela caber nele (na verdade, ela era pequena o suficiente), mas ela havia acabado escorregando para baixo e os pés estavam para fora além do braço do sofá. Um dos travesseiros estava meio embaixo dela, ela estava abraçando ele como alguém que estava acostumado a dormir deitado com a cabeça no peito de alguém. E, bem, Ana estava acostumada a isso. 
Mas o que ela mais prestou atenção foi nas marcas de dedos no braço da garota. Roxas e impossíveis de achar que não foram feitas para machucar. Ela tinha certeza que isso tinha algo a ver com os machucados no braço de Amanda e o modo como a psicóloga parecia extra cuidadosa e protetora com a garota. Não era preciso ser um gênio para assumir que tudo isso estava relacionado à Mar e Julia não gostava nem um pouco das possibilidades que pipocavam na sua cabeça. Do jeito que o mundo era, ela achava que era algo bem ruim.
Sacudiu a cabeça como se isso fosse ajudar a não pensar nisso, pegou as chaves e a carteira antes de sair. Quando ela voltou da padaria com os (muitos) pães frescos, queijo e presunto, Ana já tinha acordado e estava arrumando os travesseiros em uma pilha.

- Você deveria dormir um pouco mais - Julia falou quando parou perto do sofá.

- Dormi o suficiente.

- Se você diz... Você é do time que toma café ou do time que toma Nescau?

- Café está bom.

Julia assentiu, deixou as sacolas na mesa e colocou água para ferver. Ela pegou os pratos e as canecas no armário. Ela estava passando o café quando Simone saiu do quarto, bocejando e se espreguiçando, a garota grunhiu um bom dia para as duas e praticamente se jogou na cadeira de sempre. Depois de nem cinco minutos, Amanda saiu do quarto com a aparência o dobro mais sonolenta é um outro grunhido de bom dia. Porém, em vez de se jogar na cadeira, ela parou atrás de Julia, passou os braços pelos seus ombros, Julia revirou os olhos, mas não reclamou.

Almôndega reparou a presença a da dona e começou a correr ao redor das duas, tentando ganhar alguma atenção. A filhote era o tipo extra-excitada, pulando e latindo. Era adorável.

- Controle essa bola de carne! - Amanda se sentou no chão perto dela e pegou a cachorra, se deixou ir para trás com ela no peito - Eu pedi para controlar ela, não para deitar no meio da cozinha.

- Eu estou controlando ela.

- Não, você está sendo a velha preguiçosa de manhã. Sai do caminho.

- Passa por cima.

Julia revirou os olhos e passou por cima dela para levar a garrafa térmica para a mesa.

- Você também tem que acordar - Julia colocou as mãos nos ombros de Simone e puxou para trás, tirando ela da posição de aluno de exatas na aula de filosofia - E você pode vir para a mesa, Ana, não precisamos esperar o estômago da criança fazer ela levantar.

Ana riu baixinho, como tudo isso podia ser tão adorável. Ela não costumava ser uma pessoa matutina, muito menos depois de dormir pouco (ou ter pesadelos, e naquela noite foi a junção das duas coisas), mas era impossível não se sentir confortável quando se estava em um lugar como aquele. Com a bomba de fofura que toda a interação entre Amanda e Julia era. Ana era filha única, mas ela não reclamaria de ter alguma irmã se fosse algo assim.

Sinceramente, ela havia esperado que Julia fosse um pouquinho hostil com a história que ela teve com Mar. Mas mesmo que Julia fosse o tipo que guardava um tanto de rancor, ela não despejava em outras pessoas (o problema dela era com Mar, não com Ana, ela não tinha um bom motivo para ser hostil), então ela basicamente fez o mesmo que Amanda. Também havia esperado que fosse um pouquinho estranho ficar no meio ambiente que Simone e Amanda.

Toda aquela situação poderia ser completamente estranha e hostil, mas era confortável. E familiar.

Ela sentou na cadeira ao lado de Julia como havia feito no dia anterior. A pilha de pães era maior do que a estava acostumada, porém, ela estava acostumada a tomar café-da-manhã sozinha ou com só uma pessoa, não com outras três. Muito menos com uma certa esfomeada que comia três pães de manhã. O montinho de presunto era um pouco maior que o de queijo, a lata de Nescau ficava bem em frente de onde Amanda sentava, a segunda sacola de pães estava amarrada e perto delas. E Ana achou adorável quando Simone encheu a caneca de leite e fez o Nescau extra-escuro para Amanda.

Ana já havia feito um sanduíche de queijo quando Amanda finalmente foi para a mesa, a camisa cinza clara cheia de pelos castanhos da cachorra (que agora estava encolhida em uma bola entre os pés da mulher). O café era realmente bom, não o café instantâneo que ela estava acostumada. Não o pão dormido que ela estava acostumada. Não a cozinha fria que ela havia se acostumado outra vez depois de ter terminado com Mar semanas antes.

Era estranho como as memórias sobre Mar estavam corrompidas. Pareciam manchadas de tinta, como um livro que foi mal cuidado. Ela tinha a sensação que talvez devesse ter visto isso vindo. Que teria acontecido antes... Que continuar pensando só deixava ela enjoada.

E era estranho como ela queria continuar ali. Com a bola de pelo e latidos que corria de um lado para o outro do apartamento. Com Amanda comendo alguma coisa a cada hora e sendo adoravelmente carinhosa com todo mundo. Com Simone sendo silenciosa, mas uma presença confortável. E Julia sendo a irmã mais velha que qualquer um gostaria de ter (e Amanda também era, só que enquanto a psicóloga era mais quem você deitaria no colo e ‘derreteria' no abraço, Julia cuidava de um jeito mais prático).

Ela podia entender porque havia repetido o quanto Amanda era tão perfeita... Mas as três juntas eram a família perfeita e faziam a se sentir parte disso.

E ela queria fazer parte disso.

21. Caindo aos Pedaços por Senhorita Charlie

Terça-feira, 03 de janeiro de 2017

Amanda pareceu hesitar, um pouco desconfortável, enquanto esperava Ana se arrumar para ir embora. Era seu instinto protetor fazendo ela desejar manter a garota por perto para manter ela segura (ela não controlava o quando tinha essa necessidade de proteger alguém que parecia precisar disso). Ela imaginava que a garota precisava mais daquilo, de alguém por perto, do que jamais admitiria. Amanda podia dizer por experiência própria que ninguém gosta de admitir que precisa de alguém.

As pessoas não gostam de admitir fragilidade, a necessidade de ter alguém um pouco mais forte naquele momento por perto. Amanda estava acostumada a ser mais forte. Ela sabia que se segurar tanto não era saudável. Reprimir seus sentimentos porque ela não estava em um tempo que poderia desabar. Por mais que ela quisesse. Por mais que ela precisasse. Ela simplesmente não podia.

Ana estava com uma camisa e um jeans de Julia, a camisa era só um pouquinho larga nos ombros, mas fora isso, parecia ser o tamanho certo. Suas próprias roupas ainda um pouco úmidas dentro de uma sacola de mercado em suas mãos. Antes de sair, Julia e Simone a abraçaram, a primeira beijou sua testa e a segunda beijou sua bochecha.

O caminho para onde Ana morava não era longo, sem trânsito naquele horário, ela não morava tão longe assim. Amanda estacionou na esquina da rua, saiu do carro e a acompanhou no curto caminho.

— Você é como um anjo, não é? — Ana virou para ela.

— Eu tenho um pouco de empatia. Faz parte do meu trabalho.

— Você continua sendo basicamente um anjo.

— Talvez. Eu estou aqui para ajudar. Se você precisar de qualquer coisa, é só me ligar ou mandar mensagem. A qualquer hora.

— Eu não quero atrapalhar.

— Eu estou oferecendo ajuda, você não vai atrapalhar. Promete chamar se você precisar de algo? Sabe, alguém só para te escutar, todo mundo precisa disso alguma hora.

— Você também precisa?

— Mais ou menos. Mas isso não é sobre mim.

— E quando é sobre você?

— Quando eu preciso — ela encolheu os ombros — Você ainda precisa prometer.

— Okay, eu prometo.

— Promessa de dedinho — Ana não conseguiu deixar de sorrir com o quanto Amanda era fofa oferecendo o dedo mindinho para a promessa, ela cruzou os dedos — Vai ficar tudo bem. Acredita em mim?

— É meio difícil não acreditar em você.

— Ótimo. Agora vem aqui.

Ela abriu os braços e Ana deu um passo para frente, aceitando o abraço morno e confortável. Amanda acariciou um pouco suas costas, Ana apertou ela com força, agarrando a parte de trás da sua blusa. Ela tinha certeza que provavelmente ligaria para Amanda alguma hora, a psicóloga parecia emanar uma espécie de aura de proteção que fazia ela se sentir incrivelmente bem.

Amanda beijou sua testa antes de deixar ela ir.

Quinta-feira, 05 de janeiro de 2017

Você é o que você é

É o que te fazem ser

Sem uma escolha

Seus instintos

Seus desejos

E o monstro dentro de você

É tudo que você pode ser

Mar deixou a guimba de mais de um cigarro, ela viu o filtro cair em direção ao chão quebrado pelas raízes da estúpida amendoeira que a prefeitura plantou anos antes, então acendeu mais um passo a caminho da morte certa. Suas pernas  balançavam devagar, ela estava na varanda do seu apartamento minúsculo onde ela teve os melhores momentos da vida dela. Algo que não voltaria, algo que ela não queria que voltasse e foi longe demais para garantir isso. E isso estava perseguindo ela através da dor e da falta de sobriedade.

Somente com o mesmo jeans e tênis de quando ela saiu do hospital horas antes, ela estava nem um pouco sóbria com a mistura de bebida e dor, não era a primeira vez e não seria a última. O cinto estava jogado ao seu lado, perto da garrafa de cachaça barata. Seu corpo estava machucado, da porrada de Henrique e os amigos dele e da própria auto-punição doentia que ela aprendeu da psicopata evangélica que sua mãe era. Suas costas, normalmente com uma pele macia sobre os músculos firmes, estavam vermelhas e em carne viva. Algumas partes estavam em um estado pior do que outras, haviam sangrado quando ela deixou a parte de metal do cinto bater com toda força na sua pele. Seu pescoço ainda estava doendo, marcado pelos dedos de Amanda que pareceram se encaixar na sua garganta do jeito certo para matá-la e ela amaldiçoava a própria covardia em deixar o seu instinto de sobrevivência funcionar.

Quando ela terminou o cigarro, apagou na palma da mão como ela fez com todos os outros cigarros que fumou neste dia, ela não se importava com as . Se arrastou para trás e se levantou. Pegou o cinto e entrou cambaleando no apartamento escuro e vazio, quase frio sem Ana por perto, sem ser o lar que foi durante esses meses que ela lutou para não foder seu relacionamento com a garota que ela amava. O problema é que ela não conhecia amor saudável, então ela sempre seria uma grande filha da puta.

Fazia muito, muito tempo que ela não acreditava em deus, ou Deus. Ela preferia sem a porcaria do D maiusculo porque ele não era nem um pouco importante para ela. Afinal, ela era assim por causa da crença de algumas pessoas nele. As lembranças e coisas assim eram os demônios. E a maior parte da sua vida era o inferno. Porém, apesar de ter passado da época em que o odiava e chegado no nível de não acreditar na existência dele, certas coisas estavam marcadas na sua mente como ferro quente. Coisas como uma oração que ela ouviu na igreja, que ela ouviu sua mãe dizendo enquanto a punia com os golpes na mal e que ela ouviu quando seu pai e seu irmão decidiram ensinar uma lição a ela.

Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o Vosso nome. Ela murmurou e deu o primeiro golpe dessa nova sessão de auto-tortura, a fivela batendo na altura da sua lombar.

Venha a nós o Vosso Reino. Ela podia sentir o sangue escorrendo pela sua pele depois que a ponta da fivela bateu violentamente nela.

Seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O movimento de golpear suas costas doía enquanto seus músculos se movia sob sua pele ferida.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Ela respirou fundo, qualquer pequeno movimento era doloroso, mas ela precisava continuar a se punir.

Perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Ela estava sufocando, agonizando e caiu de joelhos porque suas pernas não tinham força para sustentar ela por mais nenhum momento.

E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Ela golpeou o máximo de vezes apesar de já estar de joelhos e chorando de dor.

Amém. 

Com a mão tremendo, ela deixou o cinto cair e sujar o chão com seu sangue que havia grudado nele. Ela se encolheu em posição fetal no chão frio, o rosto enfiado contra o sofá. Ela ficou ali por minutos ou por horas, tempo não era um conceito existente enquanto sua mente flutuava em memórias que ela queria esquecer. Tentou se mover, engatinhando com os braços tremendo (ela era forte o suficiente para aguentar o próprio peso, mas não naquele momento) em direção a sua bebida.

Talvez ela conseguisse ficar tão chapada com álcool, cigarro e dor que ela esqueceria que existia por alguns momentos.

E o monstro dentro de você

É tudo que você pode ser

Sexta-feira, 06 de janeiro de 2017

Simone saiu do banho e encontrou Amanda e Julia no sofá. A psicóloga estava sentada com Julia com a cabeça em seu colo, lentamente fazendo cafuné na garota que estava com os olhos fechados e os cobrindo com o braço (o outro estava pendurado para fora do sofá).

— Tudo bem aí?

— Dor de cabeça — Amanda respondeu — E acabou a dipirona.

— Eu posso ir lá comprar — a psicóloga franziu o cenho e hesitou.

Por um lado, Julia precisava de algo para amenizar a dor pulsante que fazia ser impossível manter os olhos abertos por mais de alguns instantes e ela não podia sair porque Julia estava confortável e segura no seu colo. Além disso, a farmácia era perto. Realmente perto, na mesma calçada do seu prédio, em poucos minutos Simone estaria de volta.

Por outro lado, a última coisa que Amanda queria era deixar Simone andar sozinha por aí. Não queria deixar ela sozinha. Desde que havia saído do hospital, Simone não havia ficado sozinha por mais de cinco minutos. Até quando Amanda ia visitar Mar, Julia e estava lá. Não que estivesse vigiando a garota, ao estava tomando conta. Mas talvez ir na farmácia não fosse grande coisa, além disso, Julia precisava do remédio. Então Amanda decidiu:

— A carteira está no bolso do jeans.

— O mesmo jeans que não é lavado há três meses — Julia grunhiu sem abrir os olhos ou nem mesmo se mexer.

— Eu já disse que ninguém precisa lavar o jeans toda vez que usar.

— Mas não precisa ficar meses sem lavar. Além disso, vocês duas tem a mania de achar que tem só uma calça e usam ela até aquela porra rasgar ou se desfazer dentro da máquina de lavar.

— Eu troco de calça — Simone riu baixinho da expressão de Amanda.

— Quando a anterior já está dura de tanta sujeira.

— Cala a boca — e olhou para Simone — Tem certeza que quer ir?

— Eu não vou me perder, eu prometo.

Amanda assentiu devagar, Simone podia ver a hesitação e a preocupação nos olhos castanhos. A garota se enfiou no jeans, na camisa de mangas longas e pegou a carteira e as chaves antes de descer para farmácia. O sol estava brilhando do jeito incômodo de sempre, mas ela ignorou. O ar condicionado da farmácia era agradável, ela procurou pelas cartelas de dipirona antes de ir para a fila do caixa.

Ela viu na visão periférica a cartela pendurada perto do caixa, ela já havia visto aquilo algumas vezes, mas normalmente não em uma farmácia. Em uma barraquinha na saída do metrô, em uma lojinha perto do terminal, em um bar, mas sempre atrás do caixa, longe do seu alcance. Não era simplesmente pegar e comprar, precisava pedir ao vendedor que olhava um pouco desconfiado ou dizia “cuidado para não se machucar”. As caixinhas retangulares e brancas, Wilkinson Sword escrito em preto sobre duas espadas de esgrima (pelo menos ela acha que eram duas espadas de esgrima), três faixas em diagonal no canto esquerdo, duas douradas e uma preta entre elas. Simone se perguntava se havia alguma outra marca.

Ela esticou a mão, hesitando se deveria pegar ou não. Sabia que provavelmente custava dois reais, era o mesmo preço em qualquer lugar que ela via. Amanda não notaria, não se ela escondesse e se a psicóloga não soubesse que vendiam lâminas na farmácia. Claro que haviam mil usos diferentes, mas não para ela.

Suas mãos estavam tremendo quando ela segurou a cartela e puxou uma das caixinhas. Ela não mudou de ideia quando pagou e nem quando enfiou a caixinha no pequeno bolso praticamente inútil na frente do jeans.

Só porque ela tinha as lâminas agora não significava que ela usaria, era só… confortável. Era estranhamente confortável segurar a caixinha, sentir o peso insignificante na mão e esconder. Não significava que ela rasgaria a caixinha, já que ela nunca conseguia abrir ela sem rasgar, que ela brincaria com a lâmina entre os dedos, entortando e testando do quanto era flexível, nem que ela tiraria o papel ao redor e provaria o quanto era afiada.

O problema é que ela sabia que estava mentindo para si mesma.

Domingo, 08 de janeiro se 2017

Ela sabia que estava mentindo para si mesma.

Ela sabia que não tinha força o suficiente para ter uma caixinha de lâminas por perto e não usar.

Ela sabia que era covarde o suficiente para quebrar mais uma promessa que ela fez a Amanda.

Ela sabia que estava jogando fora todo o esforço dela em se manter com a pele intacta.

Ela sabia que estava machucando Amanda.

Ela estava tremendo, ofegante, escondida no banheiro com o chuveiro ligado para fingir que ela só estava ali para tomar banho. Simone tirou as roupas rapidamente, entrou no box e tentou controlar o tremor nas mãos quando tentou aproximar a lâmina da pele com finas cicatrizes na altura do estômago. Ela suspirou quando a dor aguda e ainda familiar passou por ela quando ela deixou a lâmina passar pela sua pele. Ela não tinha certeza se ficaria ou não com novas cicatrizes, mas isso não era importante. O problema era se cortar de novo mesmo depois daquele tempo “limpa”.

Um, dois, três. Meia dúzia de linhas vermelhas sangrando e sujando a pele pálida. Ela deixou a lâmina na pia e finalmente tomou seu banho. Se enfiou rapidamente na camisa roubada de Amanda e shorts. Guardou cuidadosamente a lâmina e voltou a esconder a caixinha no pequeno bolso do seu jeans antes de ir para a sala.

Julia estava na casa de uma das cinco mil amigas de faculdade que ela tinha. Amanda estava sentada no chão em frente a mesa de centro, um livro aberto na mesa e um marcador e uma caneta na mão, concentrada na leitura e se ela notou que Simone sentou atrás dela, ela não deixou transparecer. Simone engoliu seco enquanto via a psicóloga se concentrar. Ela gostava de observar a mulher. Os ombros relaxados, o cabelo preso e curvada sobre a mesa. Simone sabia que provavelmente ela estava com a ponta da língua entre os dentes, às vezes ela fazia isso.

Os cortes incomodavam, mas era a dor constante que a lembrava de se manter calma. O que mais doía era que ela sabia que isso era completamente culpa da própria estupidez e da própria impulsividade. Seria mais fácil se ela não tivesse comprado. Ela teria a vontade, claro, era assim que um vício funciona, mas ela não faria. Ela não se machucaria. Ela odiava cada uma das cicatrizes pelo seu corpo, ela odiava saber que ela “precisava” daquilo.

— Tudo bem?

Amanda perguntou e se virou para ela, Simone assentiu lentamente. A psicóloga largou a caneta e o marcador e subiu no sofá. Ela esticou a mão e prendeu uma mecha do cabelo loiro atrás da orelha da garota. Elas se olharam por alguns segundos. Havia tanta calma, tranquilidade, amor e carinho nos olhos de Amanda que Simone se questionou mais uma vez o que ela fez para merecer alguém com um coração tão puro quanto ela. Porque as pessoas diziam que ninguém era perfeito, mesmo sendo verdade, Amanda era quem mais chegava perto da perfeição.

Simone ignorou o quão culpada ela estava se sentindo naquele momento e beijou a mulher. Elas não estavam namorando outra vez, não tinham algum rótulo, mas se comportavam como se estivessem. Talvez elas estivessem juntas, só não davam algum nome porque não precisavam. Simone se aproximou e beijou ela, as mãos apoiadas nos seus ombros e empurrou a psicóloga até que ela deitasse no sofá. Amanda gemeu baixinho com a garota encaixada entre as suas pernas, segurou sua cintura e puxou ela para mais perto. Quando Simone começou a beijar e morder seu pescoço, Amanda enfiou as mãos por baixo da sua camisa, arranhando levemente. Simone se empurrou um pouco mais para frente, pressionando devagar e fazendo a psicóloga gemer um pouco mais baixo que antes, apertando as coxas e prendendo a garota perto dela.

Então Amanda escorregou a mão um pouco mais para o lado, as pontas dos dedos tocando os cortes recém-feitos. Simone se afastou rápido como se tivesse sido queimada ou algo parecido, ofegante e com os olhos arregalados. Amanda se sentou, o cenho franzido e confusa. Ela demorou alguns momentos para entender o que havia acabado de acontecer, para realmente entender o que havia de errado ali.

— Simone… — a garota puxou as pernas para cima, abraçando os joelhos e se encolhendo no canto do sofá. Amanda engoliu seco e se aproximou — Ei, por favor…

— Eu não…  eu só… não — Amanda colocou a mão no seu ombro — Não…

— Calma, meu amor.

Simone se encolheu ainda mais, tentando se manter afastada. Ela ouviu Amanda suspirar, ela não queria ver o olhar decepcionado da psicóloga. Ela relaxou um pouquinho depois de alguns minutos, só o suficiente para deixar Amanda tocar ela. Para deixar a psicóloga passar um braço por baixo dos seus joelhos e o outro braço pelas suas costas. Amanda andou até o quarto e deixou Simone na cama. Ela levantou a camisa da garota para conferir os cortes vermelhos, ela buscou o antisséptico, a gaze e o esparadrapo. Ela fez o curativo com cuidado e arrumou a camisa.

Simone não conseguia olhar para ela. Ela estava envergonhada com o quanto estava sendo fraca. Havia prometido deixar a psicóloga ajudar, mas mesmo assim, ela havia se escondido no banheiro e se machucado outra vez porque ela simplesmente “precisava” daquilo. Amanda colocou uma mão em seu rosto, acariciando com o polegar, e a fez olhar para ela.

— Está tudo bem.

— Não está tudo bem — Simone tinha a sensação de se sufocar, ainda tremendo e o coração acelerado — Claro que não está tudo bem.

— Mas vai ficar tudo bem.

— Você merece algo melhor que eu.

Amanda suspirou e passou um braço ao redor do seu ombro e puxou ela para um abraço. Simone se encolheu contra ela e agarrou sua camisa. A garota não diria que havia reparado o quanto Amanda sorria e como os olhos dela brilhavam quando ela falava com a colega de apartamento. Porque Amanda merecia algo melhor e talvez tivesse encontrado.

 

Talvez a melhor coisa que Simone pudesse fazer era deixar ela ir.

22. Quem Salva o Herói? por Senhorita Charlie

Sábado, 07 de janeiro 2017


 Era mais ou menos três da manhã quando Simone acordou. Estava sozinha na cama, encolhida debaixo de um lençol exatamente do mesmo jeito que Amanda havia colocado ela horas antes. O brilho da tela do telefone quase a cegou, como era de se esperar. Ela não o desbloqueou e nem reconfigurou a luminosidade do aparelho, jogou ele de volta na mesa de cabeceira e saiu da cama. O chão estava gelado, contra seu corpo quente a fez despertar como sempre acontecia. Simone se espreguiçou um pouco, os cortes na barriga arderam, assim como a pele sob a cola forte do esparadrapo do curativo que Amanda fez do melhor jeito possível (quem era boa em curativos era Julia). 


Simone se arrastou para fora do quarto, estava com sede e queria saber onde Amanda estava. Ela se distraiu do seu objetivo de beber água quando encontrou a cena na sala. 


O abajur estava aceso, Amanda estava deitada no sofá em um posição que claramente mostrava que ela estava sentada e havia escorregado, o livro caído no chão era uma prova disso. Almôndega estava deitada no peito dela e a psicóloga estava com um braço segurando a cachorra e outro estava para fora do sofá, o celular caído perto da sua mão era mais uma prova que ela havia dormido ali sem ter a intenção de dormir. Simone sorriu com a visão adorável. Porém, por mais fofo que fosse, Amanda provavelmente ficaria com uma dor nas costas quase insuportável se ficasse a noite inteira assim. Simone, com todo cuidado possível, tentou pegar o filhote sem acordar Amanda.


— Sai, não — foram as únicas coisas que Simone distinguiu de uma fala sonolenta. Amanda levantou o outro braço e abraçou mais a cachorra. 


— Você precisa ir para cama.


— Hm.


— Amanda? 


— O que é?


— Vamos pra cama. 


— Mas eu tô confortável aqui. 


— Você não vai dizer isso de manhã. Ela pode ir pra cama também. 


Amanda gemeu, mas acabou levantando com a cachorra nos braços e deixou Simone empurrar ela para o quarto. Se jogou na cama, Almondega mudou de posição até estar confortável novamente, Simone sorriu. Ela havia feito algo do tipo algumas vezes, mudar de posição até que estivesse confortável no colo de Amanda. 


— Não vai deitar? — Amanda perguntou sem abrir os olhos, mas sua voz parecia menos sonolenta.


— Eu já vou — Simone sentou na cama. Amanda empurrou a cachorra no seu peito um pouco para o lado. 


— Tem espaço pra você também. 


Simone sorriu e deitou, a cabeça apoiada no ombro da psicóloga e um braço por cima dela na altura do estômago. Ela podia sentir o calor da cachorra perto, as pontas dos pelos (que estavam bagunçados com toda a movimentação, Almondega só podia estar com muito sono para não acordar) roçando no seu braço enquanto o filhote subia e descia no ritmo da respiração de Amanda.


Amanda puxou ela um pouco mais para perto, ela deixou uma mão escorregar para debaixo da camisa e começou a acariciar lentamente. As pontas do dedo subindo e descendo pela curva da cintura e chegando ao cós dos shorts. Quando ela deixava os dedos subirem mais um pouco


— Se sentindo melhor?


— Uhum.


— Mesmo? 


— Uhum.


Amanda podia sentir as costelas da garota quando seus dedos subiam um pouco mais. Sentir mais do que o comum, contar algumas em vez de sentir uma ou duas. Ela não gostava nem um pouco do quanto a garota estava magra. A sensação era desagradável.


Ela esperou Simone dormir para se deixar relaxar.


Terça-feira, 10 de janeiro de 2017


Simone acordou sozinha na cama. Suspirou, ela não gostava de acordar sozinha. Com todo mau humor matutino de uma pessoa que não era muito fã de acordar cedo e que sabia que estava numa situação meio delicada, ela saiu da cama com um nível de ânimo muito abaixo de zero. Ela parou perto do jeans e enfiou a mão no bolso que ela sabia que tinha colocado a caixinha. E não estava lá. Então olhou em todos os bolsos, talvez ela tivesse se enganado… e não estava lá. Fazia uma semana, Amanda demorou uma semana para encontrar (e Simone se perguntou se ela poderia ter cortado mais um pouco durante aqueles dias). Suspirou, assim como a gaveta com todas as facas (desde as comuns até a maiores e que Amanda não conseguia usar sem se machucar) estava trancada com um cadeado (e uma chave estava com Amanda e a outra com Julia), até os garfos não eram acessíveis, claro que Amanda encontrou e se livrou. 


Simone havia checado, claro. A escrivaninha bagunçado de Amanda e a organizada de Julia só tinham canetas e lapiseiras, lápis se tornaram inúteis porque as duas se livraram dos apontadores. A lâmina do processador estava junto com as facas. Talvez Amanda tenha lidado com automutilação o suficiente para evitar tanta coisa que era irritante. 


Todos aqueles produtos de limpeza venenosos? Em nenhum lugar acessível. A rede nas janelas foram reforçadas, as garrafas de bebidas esvaziadas, as garrafas de água feitas de vidro também não estavam em algum lugar acessível. As únicas coisas no armário do banheiro eram a pasta de dente e as escovas. Nem mesmo o fio dental estava lá.


Simone suspirou, ela sabia que Amanda não estava errada, era só sua mente que não gostava da sensação de prisão.


A garota trocou a camisa sem mangas por uma de mangas compridas antes de sair do quarto. Ela lavou o rosto, a água gelada despertando ela mais um pouco. Ela não olhou seu reflexo no espelho, ela não precisava disso para saber que parecia exausta.


— When the tears come streaming down your face. When you lose something you can't replace. — Ela ouviu a voz de Amanda antes de chegar na cozinha, a mulher não estava cantando alto o suficiente para incomodar, só o suficiente para ser mais do que um sussurro — When you love someone but it goes to waste. Could it be worse?


Amanda estava colocando algumas fatias de queijo em cima do presunto que já estava no pão francês, o que fez Simone ter certeza que Amanda não estava fazendo aquilo para si. No fogão, uma leiteira estava esquentando.


— Lights will guide you home. And ignite your bones. And I will try to fix you


Amanda bebeu um gole da caneca perto de si (que Simone tinha quase certeza de que era leite com Nescau) e fechou o sanduíche. Colocou ele cuidadosamente ao lado do outro e fechou a sanduicheira, ligou ela torrar o pão e derreter o queijo. 


— High up above or down below. When you're too in love to let it go. If you never try you'll never know. Just what you're worth


Julia sabia fazer direto numa frigideira (e ela tinha um belo método para fazer a coisa ficar fina envolvendo uma escumadeira reta, um amassador de batatas de madeira e a velha e boa força do muque). Mas bem, Amanda comia melhor do que cozinhava então vamos deixar ela usar uma sanduicheira elétrica para evitar acidentes envolvendo fumaça e machucados. 


— Lights will guide you home. And ignite your bones. And I will try to fix you… — Amanda acabou virando e viu que Simone a observava, sorriu para ela. Não o sorriso brilhante de antes, mas também não era um sorriso forçado, e tirou os fones de ouvido — Eu te acordei? 


— Não. Pode continuar cantando, se quiser — a psicóloga corou — Achei que não sabia cozinhar.


— É só café e pão quente, eu não vou incendiar o prédio por causa disso.


— Eu não duvido da sua capacidade de se machucar na cozinha.


— Isso é ofensivo — apontou para ela, os dedos sujos de margarina — Retire o que disse, menina. — Não, doutora. Misto quente? 


— Uhum. Eu queria fazer hambúrguer, mas… 


— Mas você vai ganhar queimaduras de terceiro grau se fizer isso.


— Não, mas não tinha pão de hambúrguer na padaria então comprei queijo e presunto. Talvez eu faça pro lanche.


— Não acha meio perigoso essa coisa de você fritar? 


— Olhe aqui, eu sei fazer um hambúrguer.


— Não duvido, o que me preocupa é o risco de efeitos colaterais. 


— Eu só não estou acostumada a cozinhar, por acaso você e a Julia tem alguma espécie de complô contra a minha habilidade de cozinhar. 


— Sua inabilidade de cozinha, você quer dizer.


Amanda grunhiu e lavou as mãos. Simone sentou na parte limpa do balcão, ao lado de onde Amanda estava fazendo os sanduíches. Observou a psicóloga colocar com todo cuidado a água no filtro com pó de café. Quando a luz verde da sanduicheira acendeu, Amanda abriu e usou uma escumadeira reta para tirar os dois sanduíches perfeitamente dourados e com um cheiro maravilhoso e colocar eles num prato. Então ela tirou os pedaços de queijo que grudaram na chapa antes de colocar mais dois sanduíches. Ela fez a caneca de café para a garota e quando os sanduíches dela ficaram prontos, ela sentou no balcão. Simone olhou para ela. Por mais que dissessem que os seus olhos fossem bonitos, ela tinha certeza que os de Amanda eram mais. Simone se inclinou para beijar ela. Amanda se afastou e antes que Simone pudesse se sentir rejeitada, ela falou:


— Eu realmente odeio queijo mussarela, então beijos só depois que você escovar esses seus dentinhos aí.


A garota riu e mordeu outro pedaço do misto quente, ela podia esperar um pouco mais. Ela observou Amanda morder o pão, a fumaça saindo do presunto e a psicóloga não pareceu se importar muito. Ela soltou um pouco de ar, meio bufando, fazendo fumaça sair da sua boca.


— Como você consegue fazer isso? 


— Hm? — Amanda grunhiu com mais pão e presunto enfiados na boca. 


— Comer isso, está saindo fumaça.


Amanda engoliu: — Não está tão quente assim. E eu estou com fome.


— Você nasceu para comer, não foi?


Amanda encolheu os ombros, ela realmente gostava de comer. Quem não gosta?


Elas terminaram de comer e Amanda desceu do balcão. A psicóloga lavou a louça e guardou a faca na gaveta e fechou com o cadeado. 


— Até a faca de pão, Amanda? 


— Precaução — Simone revirou os olhos.


— Não precisa de tudo isso.


— Sim, precisa — Amanda secou as mãos e se aproximou dela — Eu não quero… — suspirou — Não quero que você se machuque.


— Eu estou bem.


— Aham, sei.


— Eu estou — cruzou os braços — Eu estou bem, Amanda.


— Me engana que eu gosto.


— Você não acredita em mim.


— Não quando você diz que está bem quando claramente não está.


— E não confia em mim. 


— Eu não confio no que você pode fazer consigo mesma.


— Eu sei me cuidar.


Amanda abaixou a cabeça e apoiou as mãos na bancada, uma de cada lado da garota sentada na sua frente. A psicóloga estava com uma blusa sem mangas que um dia foi do tamanho certo e ela usou vezes o suficiente para o tecido não se manter do mesmo tamanho e uma das alças escorregava pelo seu ombro. Simone podia ver os ombros tensos, os braços também enquanto ela se segurava com toda força na bancada.


— Eu só… eu estou tentando te proteger — Amanda falou sem erguer a cabeça — E me proteger.


— Se proteger do que? 


— Da dor de te perder.


Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


Era quase onze da noite, Simone estava cochilando na poltrona com o livro (um belo calhamaço) apoiado no colo, junto com o telefone, os fones de ouvido e era um daqueles poucos momentos em que ela parecia só uma garota de dezessete anos e não alguém tão quebrado.


Amanda e Julia estavam no sofá. Julia estava meio prestando atenção no filme e meio prestando atenção em Amanda. A psicóloga estava com uma perna presa debaixo da outra e na mão havia um pote cheio de feijão e arroz requentados que ela estava comendo com uma colher enquanto assistia ao filme. Julia agarrou o controle e tirou o som, o que fez Amanda grunhir e olhar pra ela. A psicóloga engoliu o que estava na boca antes de protestar:


— Eu estava assistindo!


— Precisamos conversar.


— Agora? 


— Sim. Leva a Simone pra cama — Julia levantou e tirou o pote das mãos da psicóloga — É uma coisa séria e você não vai fugir de mim.


Amanda abriu e fechou a boca algumas vezes como um peixe fora d’água antes de levantar. Ela tirou o livro do como de Simone e levantou a garota. Ainda era desconfortável como ela era mais leve que antes, do que quando começaram a namorar, mas ela estava ganhando algum peso. Afinal, ninguém consegue morar com Amanda e não comer no mínimo quatro vezes por dia (mas Amanda comia mais, claro).


Quando Amanda voltou para o sofá, as duas estavam sentadas de lado no sofá agora, uma em frente a outra. 


— O que aconteceu?


— Eu falei com a Mar — em meio a postura de Amanda mudou de apreensiva para defensiva.


— Pensei que odiasse ela.


— Eu precisava saber o que aconteceu. Eu esperei e esperei e você não tocou no assunto.


— Porque não precisamos conversar sobre isso.


— Sim. A Simone merece saber.


— Eu não vou contar. E nem você.


— É a melhor amiga dela. Ou era.


— Eu sei. Olha, eu conversei com a Mar, okay? Sobre o que ela fez e porque ela fez. Eu não vou defender, mas… ela só foi longe demais.


— Longe demais? Ela defendeu a garota e depois ela estuprou a garota. Não faz sentido nenhum.


— Amanda… 


— Não faz sentido!


— Eu sei. Mas me escuta, por favor — Amanda bufou — O que está acontecendo é exatamente o que ela queria. Ela fez algo ruim o suficiente para a Ana desistir dela, para você desistir dela.


— O que ela fez foi cruel.


— Eu sei — Julia se aproximou e colocou uma mão no ombro de Amanda — Ninguém odeia ela mais do que ela própria.


— E o que eu deveria fazer? Dar uma chance? Eu não posso — ela se encolheu — Não agora. 


— Eu sei… eu também não faço ideia do que deveríamos fazer. Que tal você continua tentando cuidar da Ana e eu me viro com a Mar?


— E se ela… 


— Ela não vai me machucar.


— Disso você não sabe.


— Sim, eu sei. Sabe como? — Amanda negou com a cabeça — Porque ela está ocupada sendo autodestrutiva. Eu fui lá, Amanda… É assustador o que alguém pode fazer consigo mesma. 


Amanda sabia que era assustador. Ela mandou mais de um paciente para um psiquiatra porque estavam além do que só a terapia podia fazer para resolver (e ela sabia que precisava trazer o assunto à tona e marcar uma consulta para Simone). Julia passou os braços ao redor do seu pescoço e Amanda se enterrou no abraço, as mãos agarrando as costas da camisa e se controlando para não segurar Julia com força demais. 


Depois de alguns minutos de silêncio, Julia teve coragem para tentar abordar o segundo tópico que era realmente importante de ser discutido o mãos breve possível.


— Amanda?


— Hm? 


— Não era só isso que eu queria falar.


— O que foi agora? 


— É sobre a Simone.


— O que sobre a Simone? 


— O que você sente por ela — Amanda se afastou em um segundo.


— Eu sabe que eu a amo.


— Uhum, eu sei. Eu só não sei se vocês já perceberam que não é exatamente do mesmo jeito.


— As coisas mudaram.


— Exato, o jeito como você olha pra ela também — Amanda franziu o cenho — Eu conheço você. E eu vi vocês. Eu vi você se atrair por ela, depois amar ela como se a sua vida dependesse disso. E agora… você olha para ela como você olhava pro Arthur — Julia puxou o ar com força antes de continuar — O tipo de amor que só está machucando você.


— Eu a amo muito mais do que eu amei ele.


— E esse é o problema, porque se ele conseguiu quebrar você daquele jeito, ela vai fazer muito pior. E não é exatamente sobre amar mais ou amar menos. É sobre você continuar dando ela alguma esperança.


— E ela não merece esperança?


— Não em tudo. Você continua dando esperança de que vocês podem ficar juntas, que isso vai dar certo. 


— Julia…


— Vamos — segurou as mãos da psicóloga — O que você acha que vai acontecer? Que alguma hora tudo vai ficar bem e vocês vão ser como eram?


— Eu não sei, eu não faço ideia.


— Eu sinto muito, Amanda, mas você não pode curar ela. Você não pode salvar ela. Se você der mais do que você está dando, o que vai restar? — Amanda abaixou a cabeça, Julia havia olhado para ela daquele jeito quando estava tentando convencer o quanto Arthur só fazia mal — Quem vai salvar você?

23. Viagem Através da Escuridão por Senhorita Charlie
Notas do autor:

Eu sei que demorei muito para terminar e postar esse capítulo, eu sinto muito. Como eu avisei anteriormente, a carga dramática dele é um pouco pesada e eu precisei de muito tempo para terminar. Eu também sei que eu demoro para atualizar e a história tem um ritmo um pouco lento, então é tudo devagar aqui. Eu sei que poderia ir pelo caminho mais fácil, um certo atalho, e dar saltos no tempo e pular todo o sofrimento. Então é, essa história vai ser longa e lenta, então tenham paciência comigo.


Terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Terça-feira costumava ser um dia um pouco tedioso, era como quinta-feira. Os outros dias tinham suas definições. Segunda-feira, aquele maldito dia que marca o começo de uma nova semana de trabalho ou estudo. Quarta-feira era aquele dia bem no meio onde você nunca sabe se ainda tem energia ou se está cansada demais. Sexta-feira era o dia para acabar a semana e comemorar. Sábado era o dia de descansar ou se divertir. E, finalmente, domingo que era o dia preguiçoso feito para você deitar na cama o dia inteiro e então se lamentar à partir das sete da noite, quando você tem que aceitar que logo segunda-feira está chegando.

Mas terça-feira é perto demais da segunda-feira e longe demais do próximo fim de semana.

Amanda estava lendo um livro nessa outra tarde de terça-feira de verão no Rio de Janeiro, deitada no sofá e ouvindo sem prestar atenção no programa de culinária que Simone estava fingindo que estava assistindo (já que a garota estava com um olho no telefone e o outro em Amanda). Então seu telefone tocou, vibrando na mesa e fazendo um verdadeiro escândalo quando o nome de Clara aparecia na tela de identificação de chamada:

— Eu ainda existo, carioca de quinta categoria — a voz de Clara soou divertida assim que Amanda atendeu, a psicóloga soltou uma risadinha — Como vão as coisas em terras mais para o sul?

— Um calor dos infernos.

— Imagino que esteja. Resolveu seus problemas por aí?

— Alguns, surgiram outros, as coisas são complicadas.

— Você sabe que vão melhorar.

— Eu confio que vão melhorar, não tenho certeza disso.

— Não existem muitas certezas nessa vida, não é, cabeça quente?

— Infelizmente não.

— Eu tenho uma pequena teoria que diz que se fosse fácil, a vida não deveria se chamar de vida.

— Faz sentido.

— Claro que faz sentido, sou eu que estou falando — Amanda riu baixo — Você sabe que vai ficar tudo bem.

Elas conversaram por mais alguns minutos, Clara falou sobre como o projeto estava indo bem, como era algo positivo, isso fez Amanda pensar que talvez ela devesse voltar. Apenas talvez, ela estava confusa.

Clara deixava ela um pouco mais confusa.

Ela tinha 100% de certeza de que amava Simone, mas ela também tinha 100% de certeza de que estava apaixonada por Clara.

Por que ela tinha um coração tão grande?

Era complicado. Muito complicado. E Amanda admitia para si mesma que ela realmente sentia falta da mulher. Foram poucos dias, pouco tempo, mas elas tiveram uma conexão. Se ligaram por coisas em comum, semelhanças e interesses em comum fizeram elas formarem uma amizade rapidamente. Era natural e simples.

Amanda não achava que houvesse a possibilidade de Clara sentir o mesmo e muito menos havia a chance de terem algum tipo de relacionamento. Primeiro, ela queria tentar outra vez com Simone (mas claro que ela deixaria a garota ir se ela precisasse). Segundo, ela não sabia se relacionamento entre duas pessoas semelhanças demais daria certo.

Tudo o que Amanda queria era uma vida calma.

 

Quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

 

Às vezes é estranhamente difícil de respirar. Como se houvesse um peso sem fim sobre o seu peito, esmagando os seus pulmões e impedindo que os seus músculos funcionem do jeito certo. Como um monstro consumindo seu coração lentamente e enchendo os seus pulmões com as cinzas de sentimentos bons e memórias felizes. Sufocando e sufocando e sufocando. Matando devagar como um veneno de ação lenta.

Era ácido nas veias, queimando e tudo mais. Ela cerrou os punhos com mais força. Ela gostaria de poder sangrar o ácido para fora e esperar que isso fizesse ela se sentir melhor. Como uma espécie de desintoxicação. Sangria ou algo do tipo. Apenas deixar tudo sair e esperar que isso fizesse o peito no seu coração diminuísse um pouco.

No fundo, Simone sentia que não deveria continuar tentando seguir em frente, tentando ser melhor. Ela sabia que o desejo de se feria fisicamente não ajudava em porra nenhuma e ela odiava isso. De certa maneira, ajudava ela a ao menos lidar um pouco com a profusão de sentimentos sem controles dentro de si. E ela tentava parar, tentava ignorar e fingir que tudo ficaria bem. Ela havia se esforçado com todo o seu ser (ou o resto que ainda não estava completamente quebrado) ser alguém melhor. Porém, mesmo perto de Amanda, ela conseguia se sentir falhando miseravelmente.

Simone olhou para os próprios braços. Pálidos finos e marcados. A cicatrização ainda era recente, a pele estava sensível e frágil e ainda não estava cicatrizado o suficiente para se ter alguma noção verdadeira de como a cicatriz ficaria. Ela não sabia o quanto se arrependeria e detestaria as marcas nos seus braços e no seu corpo, era muito imprevisível. Porém, ela tinha certeza de que não seria algo nem um pouco positivos.

Se ela fosse sincera, ela não queria sequer viver o suficiente para se arrepender. O suficiente para se ver melhorar, ela não tinha muita esperança (ou nenhuma esperança) de que tudo ficaria melhor.

Ela continuava dizendo para si mesma que ela não havia tentado se matar, que ela não era suicida. Ela tinha certeza de que não havia realmente tentado naquele dia, imaginava que se morrer fosse realmente seu objetivo, ela teria escrito uma carta de despedida. Provavelmente dedicada à Amanda, pedindo desculpas por não ter sido a melhor namorado do mundo e por ter caído em uma espiral de auto destruição e por causa disso, ela acabou machucando Amanda e se odiava por isso.

Ela também continuava se dizendo que ela simplesmente não se importava sobre quando morreria ou não, mas não estava correndo atrás disso. Ela simplesmente não reclamaria se acontecesse (e claro que não poderia reclamar se estivesse morta, mas acredito que você tenha entendido a ideia da coisa).

E ela se perguntaria como as coisas estariam se não tivessem encontrado ela a tempo. Se ela tivesse sangrado até morrer. Se tudo estaria melhor. Se Amanda estaria melhor, se seria mais fácil para a psicóloga seguir em frente. Ser feliz com outra pessoa (e quem sabe Clara? E mesmo que Simone não soubesse sobre a complicação dos sentimentos de Amanda, a mulher ainda era uma opção).

A música não estava alta nos fones de ouvido, só o suficiente para acabar fazendo ela mergulhar um pouco mais nos pensamentos.

Não era a primeira vez que ela havia parado para pensar assim. Em várias das noites em que ficou acordada até tarde, olhando para o teto que estava escuro por causa ad noite. Tão escuro quanto dentro dela. Frio e assustador.

Ela não gostava de se sentir assim. De se sentir perdida na escuridão, com frio, medo e dor. Ela sentia essa escuridão tomando conta da sua mente e do seu coração. Como um parasita que tomava conta de alguém. Os tentáculos negros envolviam os pequenos pensamentos mais claros, puxavam para dentro do fundo do poço e arrastavam ela junto.

Simone estava concentrada o suficiente para não perceber Amanda se aproximando. Os olhos verdes pareciam desfocados, como se ela não estivesse realmente olhando para algum lugar (E ela não estava olhando para lugar algum, ela só estava sentada e pensando). Estava viajando na sua mente sem realmente se importar com nada ao redor. Ela já havia admitido que era difícil se importar com qualquer outra coisa quando ela era incapaz de se importar consigo mesma.

Amanda observou ela por alguns momentos, podia ver o quanto Simone parecia abatida e cansada. Mais pálida do que no dia anterior, olheiras se destacam por causa desse tom de palidez dela. Isso fazia o coração da psicóloga se apertar dolorosamente, ver alguém que ela amava estar tão machucado e abatido fazia ela se sentir assim, machucada e abatida.

Ela tinha empatia até demais. Era difícil viver com essa coisa de conseguir sentir os sentimentos dos outros. Ser capaz de ‘absorver’ e ter que conviver com isso. E ela estava perto demais de Simone para não se machucar com o que a garota sentia.

— Você está bem? — Amanda perguntou, tirando Simone do excesso de pensamentos, ela se ajoelhou na frente da garota — Simone?

— Hm? — Simone piscou, saindo dessa zona de distração.

— Você está bem?

— Claro.

— Claro nada — Amanda segurou suas mãos — No que você estava pensando?

— Sobre o quanto eu quero que você tenha alguém melhor — Simone fixou o olhar nas mãos delas.

— Alguém melhor? — Amanda franziu o cenho — Você não é alguém pior só porque você não está bem.

— Mas sou porque eu machuco as outras pessoas.

— É normal machucar as outras pessoas — Amanda segurou seu rosto e fez Simone olhar para ela — Todo mundo faz isso.

Simone grunhiu e se encolheu contra ela. Amanda enfiou as mãos debaixo da camisa dela e começou a acariciar, seus dedos traçaram a linha da coluna, ela podia sentir as vértebras por baixo da pele. Mesmo que Simone tivesse ganhado um pouco de peso enquanto ela morava com Amanda, mas mesmo assim não era o suficiente. A psicóloga achava que nada que ela fizesse estava ajudando o suficiente.

— Eu amo você — Amanda murmurou e beijou sua testa — Acho que você ainda não aprendeu isso.

 

Sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

 

Ana respirou fundo, os fones de ouvido tocando no volume máximo e os olhos fechados com força. As batidas entrando na sua mente e ajudando ela a chutar os pensamentos negativos para longe. Era doloroso pensar em tanta coisa o tempo inteiro. Era como se sua a sua mente estivesse com a meta de destruir ela (uma situação parecida com a de Simone. A diferença era que o problema de Ana era o trauma do que Mar fez e Simone era a perda do pai e a mãe abusiva). Era algo assustador, negativo, era um inferno na sua própria cabeça e você não pode fugir disso. Ela tentava, ela tentava com tudo que ela podia. Tentava mudar o caminho dos seus pensamentos, tentava se distrair com coisas diferentes e mudar os rumos da sua imaginação.

Porém todo seu esforço era praticamente inútil.

Ela ainda podia sentir a sensação das mãos de Mar nela. A força do aperto e a brutalidade do toque. Mesmo que os hematomas pudessem não deixar nenhuma marca, mesmo que não fosse deixar nenhuma cicatriz, ela sabia que nunca esqueceria as sensações. A dor e agonia. Ela sabia que todas as memórias que tinha dos momentos bons do seu relacionamento com Mar pareciam infectados por uma aura de escuridão. Era como uma sombra que escurecia o que tiveram, que transformava as memórias de conversas em ameaças e memórias de sexo em outros abusos.

Todo aquele conforto e segurança que ela costumava sentir com Mar desapareceu como se nunca tivesse existido, o simples pensamento de ficar tão perto quanto antes deixava ela com um certo incômodo e temor. Algo dentro dela dizia que todo aquele amor e carinho que Mar parecia se esforçar para mostrar não valia muito a pena, ou não era nem um pouco real. Porém uma pequena parte da sua mente, aquela estupidamente teimosa, aquela parte com uma pequena parte que tinha uma maldita tendência à uma espécie de Síndrome de Estocolmo, continuava instinto dizia que sim, ela ainda amava Mar e ainda achava que havia uma possibilidade de haver a chance de ela e Mar terem uma chance de ficarem juntas, de tudo ficar bem.

E isso não deixava sua mente ficar menos agitada, mesmo depois de tantos dias. Ela continuava se sentindo doente, enjoada, ela gostaria de poder arrancar sua própria pele para descobrir se isso faria ela parar de sentir a agressão de novo, de novo e de novo mesmo quando estava sozinha no quarto. Ela podia ouvir a voz grunhindo coisas desagradáveis se não colocasse os fones de ouvido tocando algo para distrair ela.

Já era quase uma da manhã e ela não conseguia dormir.

Virou de lado na cama, encolhida em posição fetal. Ela segurou o telefone com mais força contra o peito. Ela queria ligar para Amanda, já fazia dias que ela queria ligar para a psicóloga, só não tinha coragem de fazer isso. Estava debaixo de um lençol, já que estava calor demais para se manter protegida por um cobertor.

Ela desbloqueou a tela do aparelho, abriu o aplicativo e clicou no ícone do contato da psicóloga. Ela encarou a tela por uns bons quinze minutos antes de mandar um ‘oi’. Ela bloqueou a tela outra vez e segurou o telefone contra o peito mais uma vez. Cinco minutos depois, o telefone apitou, interrompendo a música por meio segundo.

Ela abriu, Amanda respondeu rápido.

Eu não consigo dormir, Ana respondeu. Um minuto depois, Amanda ligou.

— Pesadelos?

— Não, eu só não consigo parar de pensar.

— Okay, você não conseguiu dormir nos outros dias, conseguiu?

— Só depois de muito tempo. Eu não quis ligar... não queria incomodar.

— Se eu te disse que você poderia ligar, então isso não seria incomodar.

— Eu sei...

— Quer que eu vá até aí?

— São quase uma da manhã.

— Eu vou de carro.

— E a Simone?

— Ela pode vir comigo. Ou melhor, você vem comigo — Ana ouviu um som parecido com o latido de cachorro e Amanda pareceu murmurar algo como shh, quieta — É rápido e eu vou estar aqui, pertinho e vai ficar tudo bem.

— Okay... eu não posso argumentar, posso?

— Não. Eu vou chegar aí em menos de quinze minutos.

À uma da manhã, as ruas estavam vazias, então Amanda pode dirigir quase o mais rápido que podia (o acidente pode ter sido meses antes, mas ainda era uma da manhã de uma sexta-feira). Quando ela chegou, Ana estava na varanda, com uma jeans e uma camisa velha. Ela havia deixado um bilhete avisando para o pai aonde ela ia. O carro de Amanda mal havia parado e Ana já estava destrancando o portão.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer — apertou seu ombro e sorriu para a garota — Eu estou aqui por você, okay?

— Você está aqui para todo mundo.

— Talvez. Isso é um defeito?

— Acho que não.

Amanda sorriu para ela, seus olhos brilhavam com bondade e um certo carinho. Havia essa aura ao seu redor, ela transmitia segurança e conforto (mesmo quando ela mesma não se sentia segura e confortável). Ana achava que se anjos fossem reais, Amanda definitivamente era um desses. Só faltava um par de asas brancas e um halo dourado sobre a sua cabeça.

Ela também se perguntava o que havia feito de tão bom para merecer alguém como Amanda na vida dela.

Simone abraçou ela quando Ana chegou, ela disse que tudo ficaria bem. Simone tinha ajeitado o sofá (como Amanda pediu antes de sair) e separado uma muda de roupas para a garota dormir. Ana tinha que admitir que havia um certo clima de conforto e segurança no apartamento, ela gostava daquilo.

Ana se enfiou no ninho e Amanda sentou no chão perto do sofá. A psicóloga começou a acariciar seu cabelo e Ana não esperava conseguir relaxar facilmente com um toque simples. Lento, cuidadoso, calmo, delicado, como se ela estivesse tentando ter certeza de que Ana sabia que a psicóloga se importava e que estava lá para cuidar e ajudar. Amanda sempre estava lá para cuidar e ajudar sempre que ela precisasse.

Ana acabou adormecendo com o cafuné gentil e envolvida por esse calor de segurança que Amanda transmitia.

 

Segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

 

— Eu não esperava que o seu telefone estivesse carregado o suficiente para você me atender.

Mar arregalou os olhos de surpresa quando reconheceu a voz do outro lado da linha.

Ela não esperava que Amanda falasse com ela outra vez. E muito menos com um tom gentil e suave. Quase como se Amanda só estivesse checando ela e como se estivesse tudo bem. Como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse nada mais normal do que Amanda ligar para ela.

— Amanda?

— Achei que o meu número estava salvo no seu telefone.

— Sim, eu só... não esperava por isso.

— Eu sei, eu também não.

Elas ficaram em silêncio por alguns momentos, nenhuma das duas sabia o que poderia falar. Mar estava chocada demais com a ligação para saber o que poderia dizer e Amanda não fazia ideia do que falar, ela simplesmente ligou para a garota em um impulso. Já era quase oito da noite e estava quente como em todos os dias do verão.

— Como você está? — Amanda perguntou, ela estava de costas para Simone e Julia estavam no sofá assistindo Law & Order SVU (afinal, era aquela série que sempre passava e como não havia nada melhor para ver, Julia havia decidido que assistiria aquilo mesmo).

— Bem.

— Mentira.

— Não é importante.

— Eu não estaria perguntando se não fosse importante.

— Eu estou bem.

— Mentira. Eu sei que não está.

— Então por que perguntou?

— Estou tentando ser legal aqui.

— Por que?

— Porque é o que e faço, Marisa.

Mar soltou um grunhido. Ela enfiou mais o rosto na almofada quando Amanda desligou o telefone. Ótimo, claro que ela faria Amanda desistir de falar com ela em menos de trinta segundos. Ela se empurrou para fora do sofá, caindo de costas no chão. Não tinha energia para se levantar, então ela se sentou no chão, sabia que não estava exatamente em seu melhor estado.

Okay, ela estava fodida.

Procurou pela última garrafa de bebida que ainda tinha um pouco de vodka barata. Mal deu duas doses e ela engoliu rapidamente. Procurou o maço de cigarro. Todos que encontrou estavam vazios. Merda.

Ela se encostou no sofá. Suas costas estavam feridas. Cicatrizando, claro, só não haviam machucados de cintadas novos porque ela não tinha energia e nem força o suficiente para se bater. Ela fechou os olhos, sua cabeça estava doendo e havia uma espécie de dormência se espalhando por todo seu corpo, ela não sabia se era porque estava se deixando ficar mal ou porque não se alimentava há dias.

Mar não sabia por quanto tempo ela ficou sentada, parada e tentando acumular coragem para se levantar e procurar por alguns trocados para comprar um ou dois cigarros. Depois de algum tempo, ela ouviu uma batida na porta e sequer moveu um músculo em reação ao som. Alguns segundos depois, o som voltou a ecoar pelo apartamento. Ela manteve os olhos fechados.

— Eu vou entrar de qualquer maneira — a voz de Amanda falou alto — Você me ignorando ou não.

— Vá embora.

— Não, obrigada — Amanda tirou a chave do lugar onde Mar mantinha uma cópia reserva da chave, enfiada na parte superior do portal da porta — Vamos, me ignorar não vai mudar nada.

Mar grunhiu, ela sabia que era quase impossível tirar alguma ideia da mente de Amanda e esse era um dos motivos para ela não fazer ideia de porque a psicóloga estava na sua porta. Por que a psicóloga estava tentando ir atrás dela? Não fazia muito sentido. Não fazia sentido algum, para ser sincera. Mar ouviu a porta sendo destrancada e um som de grunhido, ouch, quando Amanda entrou e fechou a porta atrás de si.

A psicóloga olhou para o apartamento iluminado pela luz alaranjada dos postes do lado de fora do apartamento. Ela acendeu a luz da sala, Julia não havia exagerado quando disse que o lugar não estava no seu melhor estado. As garrafas vazias e juntas atrás do sofá eram o único sinal de uma tentativa de organização. Ela parou ao lado do sofá, outras garrafas vazias estavam espalhadas onde ela estava. Maços vazios de cigarros estavam jogados no chão, assim com guimbas de cigarro e cinzas se espalhavam pela mesa.

Amanda parou na frente de Mar e se agachou na sua frente.

— Marisa? — A voz de Amanda soou baixa, suave e gentil.

— Você não deveria estar aqui.

— Eu não ligo — Amanda colocou as mãos nos ombros da garota — Me deixe ajudar.

— Eu achei que você me odiava.

— Eu fiquei com raiva — Mar finalmente abriu os olhos. Eles pareciam vazios, sem vida ou vontade de se manter viva.

— A Ana me odeia.

— Não. Ela só está tentando superar.

— Ninguém supera esse tipo de coisa. Nem esquece. E a dor não melhora.

— E é por isso que você está fazendo isso? — Mar assentiu — Você sabe que isso não vai mudar nada, não sabe?

— Claro que eu sei — Mar jogou a cabeça para trás — É só punição.

— Punição não salva ninguém, você não vai para o paraíso só porque você se pune na terra.

— Não existe céu ou inferno, só existe isso aqui.

— Então tente fazer isso aqui algo bom.

— Não tem como deixar isso ficar bom.

— Você não quer que fique melhor?

— Eu não mereço algo melhor — Mar olhou para ela outra vez — Eu nunca mereci algo melhor.

Amanda abaixou a cabeça por alguns momentos antes de respirar fundo. Ela podia ver os ombros machucados e imaginar que as costas estavam piores. Também podia ver as marcas circulares de queimaduras de cigarro nos braços. Então Amanda enfiou as mãos debaixo dos braços da garota e se levantou, puxando ela junto com certa facilidade

— Ei!

— Calada. Você vai tomar um banho e colocar uma roupa que preste. Depois vai comer alguma coisa e eu vou limpar esse lugar.

— Eu não preciso disso — ela tentou se desviar das mãos de Amanda, mas ela não tinha força o suficiente e a psicóloga segurou ela e começou a andar até o banheiro — E nem mereço.

— A pessoa sóbria aqui sou eu.

— Eu não estou bêbada.

— Sóbria no sentido de quem ainda tem cérebro para pensar. Eu não ligo se você acha que merece ou não.

— Você não parece que se importa se as pessoas querem ou não a sua ajuda.

— Porque as pessoas com quem eu me importo são estúpidas demais para deixar eu ajudar, então não, eu não me importo se querem ou não a minha ajuda.

— Isso é meio burro.

— Eu sou burra. E trouxa, ou eu não estaria aqui.

— Contraditória.

— Eu diria que eu sou uma pessoa normal que muda de ideia — Amanda empurrou a porta do banheiro — Espero que você tenha coisas para passar nos machucados.

— Eles estão bem.

— Bem porra nenhuma.

 

 Amanda sabia que estava colocando responsabilidade demais em si mesma, mas ela não pretendia deixar Mar se afundar ainda mais.

Notas finais:

Sim, eu sei que cancelei Me Apaixonei Por Uma Cafajeste, porém a Ana e a Mar são personagens um tanto importantes dentro dessa história aqui e eu quero terminar de contar a história delas

24. Coração Feito de Vidro por Senhorita Charlie
Notas do autor:

O título desse capítulo saiu de uma das minhas músicas favoritas: Under the Knife - Icon For Hire

Quero deixar claro que eu não promovo automutilação, okay? Se você tem esse tipo de problema, procure ajuda (pode falar comigo se quiser, eu vou tentar ajudar o máximo que puder). Se você conhece alguém com esse problema, não seja babaca. Não fique perguntando coisas tipo "mas isso não dói? Há quanto tempo você faz? Já tentou parar?". Porque é claro que dói, não é legal espalhar há quanto tempo acontece e todo mundo tenta parar.

Dito isso, aqui vai mais angst para você :)


Sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

 

— Eu tenho todo o direito de decidir! — Simone exclamou, vermelha de raiva e com os punhos cerrados. Como uma bomba de fúria teimosa em sua decisão.

— Não, você não tem — Amanda parecia impassível, incrivelmente calma, mas seus olhos queimavam com tanta raiva quanto os de Simone — Não é uma boa ideia.

— Eu não sou a rainha das boas ideias, doutora, mas eu tenho todo o direito de visitar ele.

— Você não está pronta.

— Sim, eu estou muito bem pronta para visitar a porra do meu pai. E eu que posso dizer se estou pronta ou não para essa merda.

— É só um túmulo! Um pedaço de pedra com o nome dele!

— Eu vou e ponto final.

— Isso não faz sentido nenhum! Ele está morto! Ele não vai voltar, Simone, do que adianta ir até lá só para se machucar?

— Pelo menos eu tenho coragem de fazer isso.

Simone tinha que parar de falar sem pensar, respondendo algo que machucava com algo que machucava, era como revidar um soco.

Ela sabia que Amanda, ao contrário de Julia, nunca conseguiu ir até o cemitério, nunca conseguiu visitar o túmulo da mãe. E ela sabia que Amanda não gostava de falar sobre isso. Na verdade, Amanda era incrivelmente fechada. Parecia contraditório, só um pouco, mas ela sempre estava ocupada demais com outras coisas em vez de se preocupar com os próprios sentimentos.

Porém, era possível ver claramente em seus olhos quando algo machucava ela feio. Era como ser capaz de ver a alma dela se quebrar (mais um pouco, mais do que já estava quebrada e estilhaçada, mas que Amanda segurava com toda força e isso só fazia tudo doer ainda mais).

Amanda fechou os olhos, respirou fundo e foi em direção ao quarto, passando por Julia que estava ali, vendo a breve discussão sobre Simone ir ou não visitar o túmulo do pai. Ela entendia parte dos dois pontos de vista.

Ela também achava que Simone ainda não estava pronta. Ainda era recente demais, a garota ainda estava machucada demais.

Ela própria demorou um pouco para ir, em parte porque perder a mãe causa uma dor inenarrável (é como perder tudo o que você é), em parte porque ela era muito nova quando aquilo aconteceu. E ela entendia porque Amanda nunca foi, nunca quis ir. E nunca iria. Ela sabia porque Simone queria, mas também sabia porque Amanda não queria que ela fosse.

Era uma merda.

Ela se aproximou de Simone, a garota estava enfiando o tênis porque ela iria para a porcaria do túmulo, Amanda querendo ou não. Simone podia simplesmente olhar no telefone e ir de ônibus até lá, não era tão longe assim, ela podia muito bem se virar. Ela sabia que seria uma dor quase impossível de lidar, ainda mais se ela não tivesse a única válvula de escape que parecia funcionar.

— Você acha que ela não entende.

— Ela não entende.

— Claro que ela entende — Simone soltou uma espécie de risada que vinha do fundo da garganta, claro que ela não entende — Você acha que não.

— Às vezes é isso que parece.

— Você acha que ela não está sofrendo?

— Eu não disse isso.

— Você age como se achasse isso.

—Talvez ela não entenda isso, sobre o meu pai.

— Pelo amor de Deus, Simone, para de falar merda — Julia colocou as mãos nos seus ombros e a encarou, o olhar dela parecia entrar diretamente na alma da garota — Ela mal tinha dezoito anos quando a nossa mãe morreu, ela tinha uma criança de onze anos para cuidar e a única familiar que ela conhecia a odiava com toda força. Você acha que ela não entende o que é perder alguém importante assim?

— Ela parece lidar muito bem.

— A diferença é que ela conseguiu se agarrar em algo para continuar. Eu não estou dizendo que você é fraca porque desabou ou que ela é mais forte porque encontrou algo para se segurar, eu estou dizendo que quando ela desabar, ninguém vai curar ela. Ninguém pode salvar ela. Ninguém pode ajudar ela. Estou dizendo que o que ela não entende é como deixar a dor sair. Ela é um anjo, mas ela ainda é humana. Simone, pessoas podem quebrar à um ponto que nada pode ‘colar’ elas novamente e a Amanda está assustadoramente perto disso, não consegue ver? Não consegue enxergar nada além da sua própria dor? Ela está tão quebrada quanto você, mas ela não tem salvação.

 

Terça-feira, 31 de janeiro de 2017

 

Amanda entrou no carro e suspirou, o contrato de demissão nas mãos. Ela não podia voltar ao cargo na clínica e também não podia voltar para Rio Branco, não agora. Não quando tinha que cuidar de Julia, quem definitivamente não estava pronta para lidar sozinha com a gravidez. Não quando tinha que cuidar de Ana, quem precisava de alguém para ajudar ela à melhorar do trauma e ter uma vida quase normal. Não quando tinha eu cuidar de Mar, que parecia ter se destruído além da reparação. E não quando tinha que cuidar de Simone, quem parecia quebrada demais para ouvir qualquer coisa que Amanda dissesse e continuasse numa espiral descendente de autodestruição interminável.

Ela jogou o papel no banco do passageiro e pegou a garrafa d’água. Suspirou, ela sabia que precisaria fazer outro currículo para procurar outro emprego, claro que ela estava arrumando problema novo. Às vezes ela se sentia como uma espécie de imã para problemas.

E imã de machucados.

Ela pegou o telefone que havia acabado de apitar, o nome de Mar apareceu na notificação. A psicóloga desbloqueou a tela, ela estava esperando a resposta de Mar para a proposta. Amanda ainda não tinha conseguido oferecer o mesmo para Simone. Ela sabia que ela podia ser alguém que estaria lá como amiga, ajudando e tentando manter tudo estável. Porém, ela não poderia fazer muito mais do que isso.

Ela sabia o que diziam: um bom psiquiatra sabe quando é hora de mandar para o psicólogo e um bom psicólogo sabe quando é hora de mandar para um psiquiatra. E ela tinha certeza de que já havia passado dessa hora.

Você pode marcar a consulta, se puder. Amanda sorriu, pelo menos uma pessoa na sua vida tinha que colaborar. Ela ainda estava tendo aquela batalha interna sobre o quanto ela poderia ajudar, sobre ter ou não dever moral de fazer isso ou não. Ela não entendia porque Mar havia feito o que fez. Se sentia um pouco mal porque enquanto estava procurando o contato para marcar uma consulta para ela, também estava esperando dar o horário que marcou com Ana.

Não era uma consulta, ela só levaria a garota para almoçar e conversar. Sabia o quanto a menina era sozinha, sem a mãe e com um pai workaholic, uma ex que abusou dela e, bem, ela poderia falar com Simone, mas Simone estava ainda mais no fundo do poço e seria bem inútil fazer isso.

Ela bateu os dedos da mão livre no volante enquanto esperava o homem atender a ligação. Ela conheceu ele há muito tempo, quando ela precisou ir. Ele acabou transferindo ela para uma terapia em grupo quando percebeu que o tratamento que ele podia oferecer não funcionaria, mesmo assim, eles mantiveram um certo contato e mesmo que fizesse quase dois anos que não se vissem, já que ele morava em São Paulo, talvez ele pudesse ajudar ela.

— Doutor Lima falando — a voz dele era grave, firme, parecia combinar com o senhor respeitável (e ‘conservado’) que ele era.

— Ei, sou eu, Amanda Borges.

— Oh, a minha psicóloga favorita.

— Não é para tanto.

— Claro que é, já faz um tempo que você não liga.

— Eu sei, me desculpe.

— Sem problema, eu tenho andado meio ocupado.

— As pesquisas vão bem?

— Muito bem — ele abaixou um pouco o tom de voz — Eu não deveria mencionar... mas estamos em fase de testes de uma droga nova para o TEI.

— Isso parece bom.

— Isso é bom, a chance dele causar reações alérgicas é menor, muito menor.

— A chance dos remédios normais também é pequena.

— Eu sei, mas as coisas mudaram bastante nos últimos dez anos. Você ficaria chocada com o número de pessoas que tem o mesmo problema que você, alergia a certos químicos que compõem esse tipo de medicamento.

— E qual a previsão para sair no mercado?

— Ainda não existe, é um pouco difícil encontrar voluntários.

— Eu posso ajudar.

— Amanda...

— Você disse que a chance de alergia é pequena. E eu sou bem saudável, okay?

— É perigoso.

— Porque eu tenho quase trinta, é?

— Não, porque você teve reações alérgicas bem ruins.

— Por favor.

— Amanda...

— Eu posso ser útil em pelo menos alguma coisa.

— E o seu emprego?

— Eu fui demitida.

— O que? Quando? Por que?

— Hoje, é uma longa história.

— E a sua irmã?

— Eu tenho idade o suficiente para fazer o que eu quiser.

— Você não precisaria sair da cidade.

— Ótimo.

— Eu vou pensar sobre isso... mas, tem uma coisa.

— O que?

— Você não me disse porque me ligou.

— Eu preciso de uma recomendação.

— Para um novo emprego?

— Não esse tipo, é mais uma indicação. Eu tenho uma amiga que precisa de uma consulta.

— Muito problemática?

— Definitivamente.

— Quantos anos ela tem?

— Quase vinte e um.

— Certo, eu conheço um no centro da cidade que talvez posso ajudar. A consulta provavelmente não seria com ele, mas a maior parte dos médicos na clínica dele cuidam de casos de pessoas dessa faixa etária. Eu posso mandar o nome e o número, okay?

— Okay, obrigada.

 

Segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

 

Era como uma compulsão, incontrolável e irresistível. Era como um vício, era impossível não encontrar um jeito de saciar a vontade. E ela sabia que era injusto fazer aquilo, usar o quanto Amanda estava exausta para pegar uma das facas. Pequena, uma daquelas um pouco curvas que serviam para descascar legumes. Afiada e fácil de esconder.

Não era muito suspeito ver ela com camisa de mangas compridas e calças, afinal, ela estava escondendo as cicatrizes. Escondendo as marcas do que ela havia feito consigo mesma tantas vezes.

O final de semana havia passado e nenhuma das duas irmãs tinha notado a falta de uma das facas. Ela esperava que não notassem tão cedo, sabia que não seria nada bom quando notassem o que ela fez, a bronca que provavelmente levaria. Ela respirou fundo enquanto empurrava a ponta da lâmina na perna, ela já havia gastado um bom espaço na barriga e não tinha coragem de tentar os braços naquele momento.

A dor era aguda, “fina”. Foi um pouco mais fundo do que ela estava acostumava, o sangue primeiro saiu em pequenas gotas. Como pedras de rubi brilhante que se destacavam na pele pálida. Então saiu mais e mais, não era uma hemorragia, mas era o suficiente para escorrer pela sua perna e gotejar no piso. Ela respirou fundo, usou um pouco de papel higiênico para parar o sangramento.

Limpou tudo, voltou a vestir a calça antes de ‘guardar’ a faca entre o elástico e o corpo dela.

Simone não teve tempo de perceber o que estava acontecendo antes de um corpo morno se pressionar contra ela, Simone demorou quinze segundos para entender que era só Amanda abraçando ela de surpresa. E ela não teve mais do que outros dez segundos antes da mulher murmurar:

— Eu não sou tão estúpida assim, Simone — ela se afastou do abraço, a pequena faca na mão direita — Eu estou cansada, não sem cérebro.

Ela girou para andar até a cozinha, Simone continuou paralisada no lugar por alguns momentos. Ela havia esperado alguma coisa diferente. Uma bronca ou um conforto.

Mas Amanda simplesmente virou as costas e se afastou.

Simone ouviu o som da gaveta sendo aberta e a faca sendo jogada no meio dos outros talheres e então foi fechada outra vez (e com mais força do que a necessária). A garota precisou de quase dez minutos para ter coragem de ir para a sala. Amanda estava na poltrona, as pernas puxadas para cima e as abraçando.

Foi como uma facada quando Amanda desviou o rosto.

— Me desculpe — Amanda assentiu lentamente — Amanda?

— Eu não quero conversar.

— Por favor...

— Eu disse que não quero conversar — virou a cabeça para ela — É muito difícil de entender meia dúzia de palavras?

Simone se afastou, ela não pretendia provocar ainda mais. Era tão raro Amanda se afastar assim. Na verdade, ela não se lembrava de alguma vez em que Amanda realmente rejeitou ela. Ela era sempre aberta à tentar ajudar, à oferecer conforto e carinho. Sempre disposta a ignorar a própria dor e sofrimento para fazer alguém se sentir melhor.

Então era estranho ver ela daquele jeito.

 

 

Notas finais:

Só lembrando: a Charlie aqui é só uma garota que mal se formou no ensino médio, sequer se decidiu entre biologia e psicologia, então yup, estou inventando toda essa história de psiquiatra renomado em pesquisa em TEI e remédio novo, é só pelo drama.


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